:: ‘Na Rota da Poesia’
DOIS SERTÕES
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Um é o do litoral,
Mata firme, terra fértil,
Vento além-mar colonial,
Com cheiro do melaço da cana,
Misturado ao suor da escravidão,
Saído do ventre da mãe africana
Pra viver na senzala-porão.
São dois sertões,
Do soldado ou coiteiro,
Das mais divinas canções,
Do encantado canto violeiro,
O outro foi latifúndio profundo,
Caatinga espinhenta de aço,
Sem igual no mundo,
Carcaças das secas e do cangaço,
Do ciclo pastoril do couro,
Vaqueiro filho do deus sol,
Onde o coronel juntou tesouro,
Do nordestino se fez cavaco,
Por séculos isolado,
Sertão chamado de arcaico.
Este era nosso Nordeste,
Do açúcar do engenho,
Chefes políticos mandatários,
Do sangue vertido do lenho
Volantes-cangaceiros sanguinários,
Do branco-negro, mestiços,
Índios, caboclos e mulatos,
Com suas crendices e feitiços,
Messiânico, demônio-religioso
Com suas rezas de corpo fechado,
Chão de talento precioso.
Do Araripe, Lourenço,
Severino Pau de Colher,
De Canudos Conselheiro,
Povo que nunca perdeu a fé.
A INSPIRAÇÃO
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tem momentos
Que você fica sem norte,
Para o riscado do escrever;
Não adianta garimpar o corte,
Dele não sai a pedra brilhante,
Pois o tempo lhe mastiga,
Como animal ruminante.
As ideias voam na poeira
Da catinga seca do sertão:
É a danada matreira,
Senhora dona inspiração.
Quando foge a inspiração,
Sua alma tormenta padece,
Porque as palavras se vão.
Essa tal da inspiração,
É como o inferno e o céu,
Na briga entre Deus e o Cão,
Rasga-se tanto papel,
Que ao poeta, ou escritor,
Seja lá quem for,
Só lhe resta a solidão.
Dizem que a inspiração,
É coisa de entidade,
De outra encarnação,
Que cada artista,
Tem seu ancestral;
Faz pacto com o diabo;
Tem que passar fome e miséria;
Viver como eterno sofredor,
Para ser um grande criador.
A inspiração,
É como adubo em chão bruto,
Que faz da planta brotar o fruto.
TEM DIA…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sempre tem um dia diferente
Mesmo na alma da gente.
Cada dia
Tem o seu pôr-do-sol,
Seu alvorecer,
São vários num só,
Tudo muda,
Tudo se transforma,
Assim é o nosso ser.
Tem o dia da alegria,
Do banzo triste,
Dizendo que você não existe,
Que faz brotar a poesia.
Tem o dia da caça,
Outro do caçador,
Até do escravo
Que se torna senhor.
Tem o dia que se quer esquecer,
Aquele que gruda na memória,
Como fotos antigas de família,
Coisas que marcam nossa história.
Tem o dia…
Do humano e desumano,
O sagrado e o profano.
AQUELE SEU OLHAR
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Eu aqui triste, tão só,
E num repente,
Seu olhar
Beijou meu rosto,
Queimado pelo sol,
Senti seu gosto
Ardente do sertão,
Depois sumiu,
Sem me dar adeus,
Fazendo palpitar
Meu clandestino coração.
Aquele seu olhar
Perfumou minha alma,
Com seu encanto da paixão,
Deixou ela mais calma,
Como feitiço de verão.
No açoite do tempo,
Envergado pelo vento,
Nos embates da ditadura
Contra o regime opressor,
Com a mesma ternura,
Encontrei aquele olhar
Verde como a cor do mar,
Que curou a minha dor.
Na tortura, ela se foi.
Virou estrela de luar,
Mas, seu olhar
Em mim ficou
Como eterno amor.
Aquele seu olhar,
Morena linda e serena,
Foi como um beija-flor
Em chuva de gravatá,
Com suas asas pousou
E livre ao céu voou.
VOA MENTE!
De Jeremias Macário, jornalista e escritor, do livro do autor “NA ESPERA DA GRAÇA”
Quero ser livre como Condor;
Não seja dor e ódio, seja amor;
Seja semente com sua mente.
Voa, voa mente inteligente!
Voa como no rasgo do falcão,
Cortando a linha do horizonte,
Entre o céu azul daquele monte.
Voa mente dessa sofrida gente;
Do nascente ao vermelho poente;
Clareia toda nossa imaginação!
Voa minha mente peregrina!
No meu intrincado pensamento;
Nas asas do gavião e do carcará,
Desta terra guerreira nordestina,
Onde lá vou plantando vento,
Para soprar velas desse tempo,
De volta às raízes do meu luar.
Voa, voa mente em seus fragmentos!
Faz que medite como aquele monge;
Leva pra bem longe meus tormentos,
Pro Olimpo da antiga sábia Grécia,
Onde possa desvendar controvérsia.
Me tira desse caminho curvo e escuro;
Ilumina meu presente para o futuro.
A BENÇÃO, MEU “VELHO CHICO”
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
A benção, meu “Velho Chico”!
Criatura das águas milenares,
Barrentas e canoras,
Das lavadeiras senhoras,
Da Canastra nascente,
Que deu vida e abrigo
À fauna e à flora,
A toda essa gente,
Da aurora ao poente.
Teu nome mesmo é Opará,
Grande fluente rio-mar,
Dos xokós, tuxás-hariris,
Deus salve teus ancestrais,
Tapuias e tupis-guaranis,
Guerreiros valentes e animais,
Desses vários brasis.
A benção, meu “Velho Chico”!
De alma bondosa e pura,
Que sempre destes fartura,
Ao pobre e ao rico.
Oh, senhor, majestoso do Nordeste!
Que atravessas todo este agreste,
Espalhando o fruto e a flor,
Do teu ventre o peixe a borbotar,
Perdoai todo o mal e dor,
Que te fez por dentro sangrar.
Em tuas margens,
Pelo fuzil e pelo punhal,
Foi derramado o sangue nordestino,
Entre o sertão e o litoral.
Oh, meu “Velho Chico”!
Nestes séculos de atraso,
Das secas e do cangaço,
Fostes nosso eterno pai
Das lendas e histórias,
Imortais mitos e memórias.
DINHEIRO E PODER
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Diabólicos e divinos:
O dinheiro e o poder
Traçam nossos destinos,
Flechas a nos sangrar,
No viver e matar.
Do escambo das mercadorias,
Do gado, semente e sal,
A troca negociável é farta,
Na Lídia da Turquia,
Do ouro e da prata,
Nasce o vil metal,
Lembro do meu velho corcel,
E a China inventou o papel.
O dinheiro e o poder,
Tudo é desigual,
O capital enforca o ser,
No contrato social.
O dinheiro compra até amor,
Ilude a tal felicidade,
O diabo entra como tentador,
O poder com sua maldade.
Oh, senhor deus dinheiro!
Que não chega aos miseráveis,
No poder quem manda é Zeus,
No sistema dos descartáveis.
PEITO SECO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O leite sumiu,
O peito está seco,
Como o leito do rio,
No colo, a criança chora,
Nem a canção de ninar,
E o dedo na boca consola.
A mãe entra em desespero,
O pai em disparada,
Pela estrada corre,
Grita por amparo,
Mas o rebento morre.
O peito fica seco,
No sertão profundo,
Dos senhores da terra,
Onde a miséria explode,
Como na África da guerra,
Do sanguinário tirano
Que se diz enviado de Deus,
Impiedoso e desumano.
O peito está seco,
Na porta bate a morte,
E da fome foge o forte.
O peito está seco,
Como árido nordestino,
Não há tempo pra chorar,
O rato rói o intestino,
Lentamente até matar.
PASSARINHO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando ainda menino,
Campestre nordestino feliz,
Queria ser um passarinho,
Voar livre por aí
Entre o colorido das araras,
Construir meu ninho,
Nas densas matas raras;
Bailar nas ondas do ar,
E cantar como o sabiá.
Depois de pássaro passarinho,
Um cawboy do faroeste,
Mais rápido gatilho do Oeste.
Hoje, no tic-tac do tempo,
Que não sou mais passarinho,
Lembranças de jovem farrista,
Vou no gemido do vento,
Nos sonhos de um idealista.
De alma dura e rústica,
Como o árido do sertão,
Levando reboadas da vida,
Não sou romântico na canção;
Tenho meu jeito de chorar,
Nas artérias do meu coração,
Em meu recanto sozinho,
Vejo só injustiças de matar,
Não mais como passarinho.
O MAR E EU
Poema da poetisa Ana da Silva, extraído da Coletânea “Entre Palavras e Marés: Vozes Femininas”, da qual participa nossa poetisa Regina Chaves, membra do nosso “Sarau A Estrada”.
Eu amo o mar, não sei se o mar me ama.
Como vou saber?
Eu… Enigmática assim como o mar.
As ondas vêm, vão e se quebram,
Mas o mar não se abala.
Nem eu me abalo com as ondas
Que vêm me abraçar,
Eu as devolvo pro mar.
Ah… O mar…Imensuravelmente airoso.
Eu… Insignificante, pretencioso
Trazendo o mar na imensidão
Para dentro do coração.










