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:: ‘Na Rota da Poesia’

VIAJANTE SOLITÁRIO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Certa vez,

Alguém me disse

Que sou viajante solitário:

Respondi abrindo meu relicário.

 

Cada um tem sua história,

Guardada em sua memória,

De derrotas, angústias e vitórias.

 

Nesse universo controverso,

Vou rabiscando meu verso,

Com tanta gente,

Arrastando sua dor,

Nas correntes do amor.

 

No silêncio do meu interior,

Sou caçada e caçador,

Sigo minha viagem,

Entre o medo e a coragem.

 

O senhor tempo

Quebra nossos ossos por dentro,

E se vai perdendo o movimento,

No arrojo do vento.

 

Ainda conservo

Minha mochila surrada,

Das caminhadas viscerais,

Algumas peças enferrujadas,

Lembranças das jornadas,

De desafios nos vendavais.

 

 

 

TIRANA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quem é essa tirana,

Que tanto nos engana,

Reina entre os deuses,

Toda eterna soberana?

 

A gente sabe que ela existe,

Dona do seu próprio tempo,

Sopra, geme como o vento;

Evitamos dela lembrar;

Nasce no elo da vida,

Cheia de encantos para amar,

E vem a danada tirana,

Como cruel espartana,

Com sua espada nos levar.

 

Oh tirana, tirana, tirana!

Quantos disfarces tu terás?

Às vezes és tão repentina,

Noutras nos fazes sofrer devagar;

Tens o poder de nos consolar,

Até acalmas nossas almas,

Quando vês o ente querido penar,

Mas nosso coração acelera,

Na dor doída de rasgar,

Quando fechas tua esfera.

 

Oh tirana, tirana, tirana!

Tu és fogo, terra, água e ar,

Catingueira e mateira,

Flecha que nos faz sangrar;

Teu nome é tirana,

Fera sorrateira da savana.

MAIS E MENOS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Poucos com mais,

E muitos com menos:

É a desigualdade social,

No país do carnaval,

Onde a justiça

É para quem tem mais,

Prende e solta

Os bandidos magistrais.

 

Quem tem mais, quer mais,

Rouba e esfola os menos,

Que trabalha para bancar o mais,

E ainda vota nesses canibais.

 

O massacre é secular,

Os letrados com suas teorias,

Que só ficam no blábláblá,

Com seus discursos inviáveis,

E os menos nas orgias viscerais,

Os mais comendo pastel,

Esperando o reino do céu.

 

Os menos oprimem os mais.

Vamos fazer a nossa revolução,

Nesse Brasil da contramão?

 

 

BEZERROS – HOJE E SEMPRE

Do livro “Retalhos Nordestinos” – poesia popular –  do poeta José Fábio da Silva Albuquerque

Vou falar de um belo lugar

Com sua história ancestral

Lugar que possui muita luz

E povo que não tem igual

Em tudo é bem aclamado

Bezerros por nome chamado

Cidade sem par, magistral!

 

Sua história é bela e rica

E ao tempo dezoito remonta

Há três versões que são ditas

Por todo sujeito que conta

Embora a de uma promessa

Com facilidade e depressa

As outras duas desponta.

 

Com ela se conta uma história

De uma criança perdida

Que após lacrimosas rezas

Foi encontrado com vida

E como agradecimento

Uma capela é erguida.

 

O certo é que essa cidade

Desde a sua fundação

É respeitada por todos

Que habitam sua região

Seu dia é o dezoito de Maio

Pois nele imponente igual raio

Se deu a emancipação.

 

Bezerros é terra sagrada

Para todos nela nascidos

Pois nem o mundo inteirinho

Destrói os laços cingidos

Que de modos invulgares

Penso que os outros lugares

Estão todos nela contidos.

 

 

COMO SE HOJE FOSSE ONTEM…

Do livro “Canibal de Mim Mesmo – autofagia que o tempo não devora, do autor Rubens Mascarenhas

Como se hoje fosse ontem

E nada tivesse existido…

Como se ontem fosse hoje

E ontem nada tivesse sido.

 

Mas nada como amanhã

Para poder-nos dizer:

Assim ontem passou por mim

E hoje passa por você.

 

Qual fome horrenda, atroz,

Nesta hora triste e feroz

Me devora e eu a você.

Ah, melhor seria ter morrido

Pois melhor mesmo é morrer

Que nada ter compreendido.

O CANGACEIRO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Meu punhal é a lei,

O bacamarte, a autoridade

No fuzil sou o rei,

Minha caatinga, a liberdade.

 

Vivo em louca correria,

Nas alpercatas, sou ligeiro,

Com minha companheira Maria,

Deste agreste sou cangaceiro.

 

No corpo fechado, as crendices,

Sigo sinais e as superstições,

Mato minha sede nas raízes,

Como guerreiro destes sertões.

 

Fui cruel e sanguinário,

Combati volantes valentes,

Versos do poeta imaginário,

Fruto social destas gentes.

 

No peito levo a cartucheira,

Chapéu símbolo de Salomão,

Na macambira e na quixabeira,

Sou Silvino e Lampião.

O PORQUÊ

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por que

Tem o cancioneiro

Que encanta o mundo

O escritor pensador,

Que nos leva ao profundo,

Outros que nada são,

Muitos vivendo em mansões,

A maioria em casebres,

Amargando suas aflições?

 

Todo esse mistério,

O poeta passa para a filosofia,

Que devolve para a teologia,

Questão de religião e fé,

Acredite quem quiser,

Porque só Oxalá sabe explicar.

 

Êta moço, que lasqueira!

Tem muita coisa pra se entender,

A vida é uma bagaceira,

Quem ama não é amado,

Um é rico e o outro é lascado,

Se existe o Deus Senhor,

Qual Supremo lhe criou?

 

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Oh Senhor, Criador Supremo!

Sua criatura só destrói,

O planeta vive no extremo,

O sistema só nos corrói,

Mas nem tudo está perdido!

Ainda tem muita gente,

Que faz aquela diferença:

Lança na terra a sua semente

Do amor, da paz e da crença.

 

Nem tudo está perdido!

O bem ainda bate na porta,

Para abraçar o desvalido;

Tem aquele que importa,

Com a injustiça social,

Que é amigo certo leal.

 

Nem tudo está perdido!

Tem filhos que amam os pais,

Mãos que afagam o esquecido,

Não desejam o mal, jamais!

São como a excelência

Nessa humanidade em decadência.

 

Tem a alma companheira,

Que na tristeza nos aquece,

Tem a canção sonora da viola,

Que do peito arranca a banzeira,

Como chuva que renasce a flora.

DESILUSÃO

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Vagueia no recôndito

Da minha alma

Uma desilusão sofrida,

Sem mais aquele sopro,

Do viver encanto

Do vento fresco humano,

Que fazia o nosso canto

Contra o fútil profano.

 

A gente carregava o manto,

Da cultura e do saber,

Era lindo de se ver:

As ideias em confronto.

 

Os sonhos como vultos,

Somem entre os incultos,

Que mataram o conhecer,

E não mais se acredita

No clarear do alvorecer.

 

A massa insossa alienada,

Passa em louca disparada,

Consome porcarias no lixo,

Nas entranhas do consumismo,

E fica toda fedorenta empolada,

Pelo percevejo do capitalismo.

 

Minha alma está seca cinzenta,

Nesta cacimba, sedenta,

Como um estorricado chão,

Que definha na desilusão.

 

A juventude do não pensar,

Sem mais atitude e metas,

Guiada por falsos profetas,

Caminha nesse escuro,

Em meio ao besteirol,

E meu único alento,

É apreciar um pôr-do-sol.

PRINCESAS FERROVIÁRIAS

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Ah, estações ferroviárias!

Princesas centenárias,

Trilhos do “Trem das Sete”,

“O último do sertão”,

Tempo de esperança e fé,

Nas serras de Wilson Aragão,

No canto do “Capim Guiné”.

 

Tuas lindas fotografias

Me enchem de fantasias,

De moleque piritibano,

Saindo do chão da praça,

Correndo de calça curta,

Para esperar a Maria Fumaça.

 

Formosas princesas,

De arcadas inglesas,

Minha saudade ainda voa,

Nos códigos do telégrafo,

E na paisagem da janela,

Eu livre viajo numa boa.

 

Em meu apaixonado olhar,

Princesas do Além-Mar,

De belas construções,

Embarcaram passageiros,

Inspirando lindas canções.

 

Princesas sertanejas,

De encantadoras fachadas,

Ainda vivas na memória,

Da nossa gente viajante,

Do passado de muita história.

 

Princesas ferroviárias

De esculturas elegantes,

Te amo entre as amantes,

Poéticas e relicárias.





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