:: ‘Na Rota da Poesia’
DINHEIRO E PODER
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Diabólicos e divinos:
O dinheiro e o poder
Traçam nossos destinos,
Flechas a nos sangrar,
No viver e matar.
Do escambo das mercadorias,
Do gado, semente e sal,
A troca negociável é farta,
Na Lídia da Turquia,
Do ouro e da prata,
Nasce o vil metal,
Lembro do meu velho corcel,
E a China inventou o papel.
O dinheiro e o poder,
Tudo é desigual,
O capital enforca o ser,
No contrato social.
O dinheiro compra até amor,
Ilude a tal felicidade,
O diabo entra como tentador,
O poder com sua maldade.
Oh, senhor deus dinheiro!
Que não chega aos miseráveis,
No poder quem manda é Zeus,
No sistema dos descartáveis.
PEITO SECO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O leite sumiu,
O peito está seco,
Como o leito do rio,
No colo, a criança chora,
Nem a canção de ninar,
E o dedo na boca consola.
A mãe entra em desespero,
O pai em disparada,
Pela estrada corre,
Grita por amparo,
Mas o rebento morre.
O peito fica seco,
No sertão profundo,
Dos senhores da terra,
Onde a miséria explode,
Como na África da guerra,
Do sanguinário tirano
Que se diz enviado de Deus,
Impiedoso e desumano.
O peito está seco,
Na porta bate a morte,
E da fome foge o forte.
O peito está seco,
Como árido nordestino,
Não há tempo pra chorar,
O rato rói o intestino,
Lentamente até matar.
PASSARINHO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando ainda menino,
Campestre nordestino feliz,
Queria ser um passarinho,
Voar livre por aí
Entre o colorido das araras,
Construir meu ninho,
Nas densas matas raras;
Bailar nas ondas do ar,
E cantar como o sabiá.
Depois de pássaro passarinho,
Um cawboy do faroeste,
Mais rápido gatilho do Oeste.
Hoje, no tic-tac do tempo,
Que não sou mais passarinho,
Lembranças de jovem farrista,
Vou no gemido do vento,
Nos sonhos de um idealista.
De alma dura e rústica,
Como o árido do sertão,
Levando reboadas da vida,
Não sou romântico na canção;
Tenho meu jeito de chorar,
Nas artérias do meu coração,
Em meu recanto sozinho,
Vejo só injustiças de matar,
Não mais como passarinho.
O MAR E EU
Poema da poetisa Ana da Silva, extraído da Coletânea “Entre Palavras e Marés: Vozes Femininas”, da qual participa nossa poetisa Regina Chaves, membra do nosso “Sarau A Estrada”.
Eu amo o mar, não sei se o mar me ama.
Como vou saber?
Eu… Enigmática assim como o mar.
As ondas vêm, vão e se quebram,
Mas o mar não se abala.
Nem eu me abalo com as ondas
Que vêm me abraçar,
Eu as devolvo pro mar.
Ah… O mar…Imensuravelmente airoso.
Eu… Insignificante, pretencioso
Trazendo o mar na imensidão
Para dentro do coração.
ALMA RÚSTICA E ÁRIDA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
No arrasto da vida,
No brado da revolta,
Do sistema, sem saída,
A besta fera adormecida
Desperta do isolado abismo
Pra no altar sacrificar
O maldito coronelismo,
E as injustiças deste lugar.
Magistrados venais,
Uma polícia de sicários,
Leis dos canibais,
Nesta terra de originários,
Nascem brutos sanguinários.
Neste agreste do Nordeste,
De alma rústica e árida,
A honra se lava com sangue,
No fuzil do cangaceiro,
Onde a palavra é válida
Neste solo catingueiro.
Alma rústica e árida,
Feita de bala e cascalho,
De misticismo religioso,
Gente é gado de chocalho,
Do cruel todo poderoso.
Na voz do cordelista,
Com suas cordas de andança,
Conta a história, o artista:
O ódio vira vingança,
Toda crença se une,
No cadáver que sangra,
Enquanto o fugitivo assassino,
Estiver livre e impune,
E não findar seu destino.
ESSA TECNOLOGIA…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tô engastorado,
Arretado no diabo,
Com essa tal de tecnologia,
O gênio inventa aqui,
Muda acolá,
Pra ganhar fama e dinheiro,
Pra burro usar.
Nossa humanidade,
Está cada vez mais decadente,
Menos inteligente,
O QI só faz baixar,
E agora criaram a IA.
Com essa tecnologia,
Poucos sabem texto decifrar,
Quanto mais fazer redação,
Até a poesia perdeu sua magia,
E tome enrolação.
É tanta burrice,
Com essa tecnologia,
Que com seu mal da gota,
Ninguém quer mais ler,
Escrevem e falam “ôta”,
Cantor é rebolado e coreografia,
Redes sociais, muita idiotice,
E o povo mistura,
Ciência com crendice.
Essa tecnologia,
Nos roubou a inspiração,
Até de escrever,
No papel e caneta na mão,
Não tem mais início, meio e fim,
É apernas fazer três pedidos,
Que logo aparece o Aladim.
Com essa tecnologia,
O pobre fica com um “cadim”,
Acabou o prazer,
De pintar um jardim,
Porque ela faz tudo pra você.
Essa tecnologia,
Pariu influenciadores,
De malandros artistas,
Com milhões de seguidores,
Falsários golpistas.
Com essa tecnologia,
A gente não passa de saguim,
E não venham com seu mi, mi, mi,
Com seu feixe de capim.
CASA DE FARINHA E PARAFUSO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário (Uma homenagem ao meu pai)
Instrução ele não tinha,
Tinhoso, sim senhor!
Sozinho aprendeu a ler,
Assinar o nome também,
Lavrador e carpinteiro,
Trabalhador como ninguém;
Fazia telhado e curral,
Em fazenda de doutor;
Se metia a marceneiro;
Espantava qualquer dor,
Na busca do seu viver,
E até casa de farinha
O homem aprendeu a fazer.
Ainda menino criança,
Lembro bem daquele tempo,
Ele dizia, meu cumpade!
Nossa vida é uma pajelança:
Existe o certo e o confuso,
É como casa de farinha,
Onde o mais difícil aviamento,
É construir o tal do parafuso.
Com meu facão,
Espingarda e machado,
Carne seca e rapadura,
Agua e um punhado de farinha,
Reza e escapulário de lado,
Embrenho numa mata;
Peço licença ao curupira,
Para encontrar uma baraúna,
Bem roliça, forte e rosa;
Tem que ser formosa;
Não posso ser profuso,
Para no formão, talhar o parafuso.
Às vezes passo uma semana,
Para encontrar a madeira certa,
Como lagoa doce em savana;
A árvore precisa ser reta,
Para encaixar bem na rosca da peça;
No meio, faço um furo;
Sebo não se dispensa,
Com precisão não erro,
Para acochar a prensa,
Que pode ser de pau ferro.
Numa casa de farinha,
A de todas artesanal,
Antes de aparecer o motor,
Pode ser um simples galpão,
Com uma roda feita de cedro,
Alavancas puxadas em parceria,
No compasso da cantoria;
Um reio ligado ao ralador;
Que os índios chamam de caititu,
Com serras afiadas traiçoeiras,
Que podem tragar a mão,
Das mulheres raladeiras.
Para ficar a favor da corrente,
O forno de barro, à lenha,
Com duas ou três bocas,
Deve ficar em direção ao poente;
A pedra para torar a farinha,
Dão nome de atafona ou mó;
Falam também que é “sabão”;
Sei fazer tudo da cabeça,
Quem fizer melhor apareça;
No mais, cochos e peneiras,
Para classificar a farinha:
Grossa ou fina, com tapioca,
A ser testada nas feiras,
Mas tudo depende da mandioca.
Tudo começava na segunda,
E terminava na sexta-feira,
Desde o clarear do dia,
Com o arranque e as raspadeiras:
O melhor mesmo era ao entardecer,
Na chamada boca da noite,
Quando terminavam as trabalheiras:
Farinha quente, ensacada pra vender.
Nas visões da minha memória:
Era hora do prosear,
Tudo na camaradagem;
Contar causos e história,
Conversa fora jogar,
Cachaça e café quente no bule,
Pra comer beijus e biscoitos de tapioca,
Até inspirava um repente de modinha;
Não podia faltar uma fofoca,
Na tradicional casa de farinha.
NA ESTRADA DO SARAU
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Essa Estrada é você,
Aprender e doar,
Nosso Sarau é só saber,
Para poder chegar.
O grupo “Vinho Vinil,
A Estrada, pavimentou,
E desse cantil,
O Sarau se saciou.
Avante, avante, oh Sarau!
Estradeiros da cultura!
Com sua mensagem universal,
Como água da nascente,
Caudaloso rio corrente.
Vamos todos pra frente,
Que na Estrada vem gente!
Vamos com nossa cantoria,
Na canção da viola,
Na pegada da poesia,
Fazendo a nossa história!
Nessa Estrada do Sarau,
Nosso tema na abertura,
Nas asas do conhecer,
Somos embates e ternura,
Coisas mais lindas de ser ver.
São mais de quinze estações,
Passageiros do mesmo trem,
Cada um com sua bagagem,
Colaborando com o que tem,
Juntos unidos nessa viagem.
Avante, avante, oh Sarau,
Com sua arte no embornal!
DÓI, DÓI MUITO!
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
A seca se acoita na caatinga,
Como onça famélica faminta,
O graveto ao sol se estala,
Só o mandacaru, verde vinga,
A bala faísca no cangaço,
O choro entalado se cala,
E o sertão sangra em pedaço.
Dói, dói muito!
Tardar o socorro do além,
Ver o sertanejo encurralado,
Nesta terra de ninguém,
Entre a seca e o fuzil,
Vivendo nesse barril.
De um lado, o chefe político,
Do outro, o coronel fazendeiro,
A volante rouba e tortura,
Aperta o cerco, o cangaceiro,
O jeito é ser soldado, ou coiteiro.
Dói, dói muito!
O lamento do pobre penitente,
O cabrito berrar no agreste,
No Nordeste dessa gente.
PELO FUNDO DA AGULHA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando se está triste e destruído,
Com o amor desiludido,
No fundo do poço,
Numa tempestade desértica,
Nos sentindo como um caroço,
A gente lambe as feridas,
Sacode a grossa poeira,
E passa pelo fundo da agulha,
Como a linha da costureira.
Com as vistas turvas,
Pela idade do tempo,
Nas perigosas curvas,
Pelo fundo da agulha,
Na luz do candeeiro,
Atravessa o guerreiro.
É fácil o camelo,
Com todo seu desmantelo,
Passar pelo fundo da agulha,
Na muralha da fortaleza,
Para encarar a nobreza,
Difícil é o rico avarento,
Se salvar do seu tormento,
E Cristo tinha razão,
O fundo da agulha
É o seu apertado portão.










