:: ‘Na Rota da Poesia’
SAUDADE DE TUDO
(Chico Ribeiro Neto)
Tenho saudade de tudo
Da serra que vi na viagen
Da menina que me acenou
E do medo de visagem.
Tenho saudade de tudo
Da cor da sua saia
Do vestido mais bonito
E de tudo que não foi dito.
Do primeiro velocípede
Do primeiro Chevette.
Eu também andei de marinete.
Saudade de tudo
Daquela praia de noite
Daquele sol de manhã
E daquela sua irmã.
Tenho saudade de tudo
Do cavalo na serra
Do grilo de noite
Daquela imaginação
E de outro São João
Saudade do que não fui
Do sonho de criança
Do sorriso dos netos
Da cara de meu avô
E de tudo que voou.
Saudade do apagador de lampiões
Do homem que botava água
De quem não se entrega
E daquela fina mágoa.
Da vitamina de banana
Do arroz doce com canela
Aveia Quaker no mingau
De farinha com ovo
Manga rosa que lambuza
E da sua cara depois do gozo
Saudade do ingá na feira
Da tripa de porco frita
Do espetinho q acompanha uma carqueja
Dos chapéus de palha no chão
Daquela linda feirante
Aquele andu tá graúdo
Daquela mão nasce tudo
Aquela mulher na igreja
O bolo da cereja
Aquele impasse fenomenal
E a notícia do jornal
Saudade do verso pela metade
Da pequena cidade
Daquela meia verdade
E da mentira inteira
Coisas da idade
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
VIELAS NOTURNAS
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA
Pelas esquinas e avenidas curvas:
Raios de luzes deslizam no asfalto;
Cada alma busca suas curas;
Sangue risca no assalto,
Saído das vielas noturnas.
Nesse existir só valem fortunas;
Na mente,
Aquela senhora calma-serena,
Que via o invisível,
Atrás da sua lente,
E o olho da câmera,
Meus passos vigia;
Rogo ao tempo
Que não nasça o dia,
Para vagar eterno
Nessas vielas noturnas.
A noite invade a madrugada;
No lixo colho osso e uma salada;
Os prédios,
São como caixões de urnas,
Na solitária dor das vielas noturnas.
DO ALGODÃO E DA CANA
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA
Na mistura da pluma do algodão,
Com o melaço engenho da cana,
Nasceram o blues e o samba,
E os dois acorrentados vieram,
No aço do negreiro navio porão,
Arrancados da mãe nação africana.
Das lavouras do algodão veio o blues,
No lamento Mississipi e do Alabama;
O samba jorrou do bagaço da cana,
Ao som dos tambores do terreiro baiano,
Com a dança dos bantos aos seus santos,
No pilão do café com cuscuz nigeriano.
Das marcas dos chicotes lacerantes,
Do branco ianque norte-americano,
Do suor escorreu a saudade do Congo,
Onde o filho em seu peito amamentou,
Cresceu livre igual a ave e o calango,
Em sua tribo com sua gente de cantantes.
No castigo do tronco gemido de dor,
E no estupro das escravas africanas,
Chorando em seu leito o sujo sêmen,
Do escravista senhor que na noite vem,
Germinaram o blues, o samba e o sonho,
De uma igualdade que ainda não chegou.
No pisado do blues, e no passo do samba,
Ainda estão abertas feridas das chibatas,
Cicatrizes do eito do algodão e da cana,
Dos negros fugidos, caçados nas matas,
Para escapar dos horrores da escravidão,
Que manchou de sangue nosso chão.
PERDIDO NA NOITE
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Fiquei numa noite solitário,
Depois que todos se foram;
Me senti um ser perdido,
De gosto amargo ardido,
Sem querer ver o dia clarear,
Só vontade de chorar.
Nem mais sabia quem sou;
Adormeci naquela mesa de bar,
E o garçom depois me acordou,
Com a conta para pagar.
Sai tropeçando por aí,
Em minha frente só o mar;
Meus pensamentos,
O vento levou pelo ar,
Foi então que vi
Aquela morena a me acenar.
Nem achei que fosse para mim
Naquela angústia sem fim.
Um carro veloz, como algoz,
Como um perdido na noite,
Me pegou na contramão,
E me levaram para o hospital,
Sem mais mente e coração.
Entrei em coma por dez anos,
Intubado cheio de canos,
E quando acordei
Sem início, fim e meio,
No Brasil estava tudo igual,
A corrupção era geral.
Não senti mais bater o amor;
Havia passado toda dor,
Andei a vagar, perdido na noite,
De dia, o sol batia nas vitrines,
Preferia viver nas esquinas, sem cor
Do que lembrar,
Daquela noite de terror.
REVOLTO INFINITO SERENO
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA
Um ser cativo tão pequeno,
A mirar o infinito revolto sereno,
De quentes correntes e ventos:
É o mar dos descobrimentos,
Mitológico labirinto,
Esse revolto infinito sereno.
Rios correm invisíveis ativos,
Nesse infinito sacrário;
Nos sentidos anti e horário,
Para outra banda continental,
De jangada, caravela e nau:
Navegaram polinésios nativos,
Bartolomeu, Vasco, Colombo e Cabral.
Nesse revolto infinito sereno,
Do Cabo fervente diabo Bojador,
Da Boa Esperança até a Índia:
Mar mistério, negreiro cemitério,
Infinito sereno de prazer e dor.
Revolto infinito sereno,
Do Pau Brasil que já sumiu;
Rota dos escravos Benin-Ajudá,
Me cure, Senhor, dessa saudade veneno!
Da minha aldeia do lado de lá!
SENHORA PARTEIRA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, poema extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA
Pelas mãos com cheiro de chão,
Da dona senhora, nossa parteira!
Naquele rancho no pé da serra;
No aboio lamentoso do sertão;
Do ventre nasci de mãe roceira,
De um pai a lavrar a árida terra;
Filho dessa entranha nordestina;
Destino certo para a morte,
Que tem a vida, e sempre vem.
Minha mãe, Sinhá parteira!
Senhora mãe, nossa santeira!
Que já pegou mais de mil,
Sem usura desse metal vil.
Vixe mãe santa, Nossa Senhora!
Geme a mulher na cama de dor:
Vai homem chamar dona parteira,
Pra meu filho não morrer de sete dias,
Nem da fome que leva Zés e Marias.
Vai homem, buscar nossa parteira!
Que já viu cabra crescer trabalhador;
Artista repentista que tocou em feira;
Moço que estudou e virou doutor!
Salve nossa parteira desse solo cio!
Senhora das trilhas, rezadeira ligeira;
De dia nas poeiras, e na noite fagueira;
Boa de prosa, que ora rir, ora chora;
Chega na hora certa da mulher parir:
Abençoa a luz de um ser existir;
Reza aquela reza penosa,
Da Rosa na rasa cova que partiu.
LEMBRANÇAS DA “MARIA”
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, do seu livro ANDANÇAS
Foi-se o tempo de menino,
Espiando o telegrafista,
Com batidas de artista,
Ordenar tocar o sino,
Como se fosse um hino,
Pra lembrar aos viajantes,
Que em poucos instantes,
Vai ter máquina na pista,
De nome “Maria Fumaça”,
Chamando muita gente,
Vinda até da praça.
Lá vem o trem a se arrastar
Das terras diamantinas,
Como cobra a deslizar,
Por entre serras e colinas.
Lá vem a “Maria” roncando,
Com suas patas de ferro,
Soltando seu berro,
Transportando usinas de sonhos,
Com sua força potente,
Distribuindo os ganhos.
Chamam também de “Trem Groteiro”,
Cortando as esquinas do sertão,
Em seu traço rotineiro,
Como se fosse om tropeiro,
Com sua fumaça na estação.
Lá vem a “Maria” das matinas,
De janelas sem cortinas,
Com seu balanço manso,
Apitando pra avisar,
Que logo vai parar
No povoado de Paiaiá.
Lá vem “Maria” penitente,
Puxando sua corrente,
Como rezadeira;
Leva bruacas, mercadorias,
Para vender na feira.
Lá vem o trem lembrança
Dos dias que era criança,
Matando minha saudade,
De no embalo pongar,
E mais adiante pular,
Vendo minha “Maria” sumir
Na curva de Piraí.
Em sua última viagem,
“Maria” partiu para o além;
Levou minha bagagem,
O amor do meu bem,
Deixando aquela fumaça,
Que ainda me enlaça.
Lembrança da Piritiba,
Do sábado do feirante,
Da poesia cortante
Do poeta Aragão,
Que misturava pavio,
Mandioca com feijão,
Xingava de delinquente
O governo indecente,
Que deixou esse vazio,
Em nossa mente.
CARA DE IDIOTA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O país exporta
Grãos do agronegócio,
A fome bate na porta,
E eu nem sou sócio.
A violência risca
O sangue na pista,
E me chamam de comunista.
O patrão explora,
O trabalhador implora,
A viola nos consola,
A bandeira é verde-amarela,
E todo mundo passa o tempo
Grudado na tela
Das redes sociais,
Enquanto os ricos
Aumentam seus capitais,
E eu aqui com cara de idiota,
Dando uma de patriota.
Uns numa mansão de jardim,
Outros comendo capim.
Nos semáforos
Os espaços são de aços
De pedintes famintos,
Nas favelas voam balas,
Nos labirintos.
O pobre em seu canto
Ora para seu santo protetor,
E no posto de saúde
Falta o safado doutor;
Na escola jogam pedra
No idealista professor.
A gente é manada do senhor,
E a igualdade tão sonhada,
A elite nos roubou.
O nordestino padece
Na igreja com sua prece,
E eu aqui com cara de idiota
Dando uma de patriota.
NÃO SABE DE NADA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Você pensa que sabe de tudo,
Mas não sabe é de nada,
Com sua filosofia,
Nem conhece sua Sofia.
Nesse universo sem fim,
É como grão de areia,
Que aceita o sim,
Encantado pela sereia.
Jura amor verdadeiro,
Joga a primeira pedra,
Como se não tivesse pecado,
Nunca revela seu segredo,
E vive preso ao medo.
Como simples passageiro,
Numa estrada de tanta poeira,
É um fantasma cavaleiro,
Que nem entende de gente,
Complexa e diferente.
Acha ser um intelectual,
Que divide a vida,
Entre o bem e o mal,
E nem sabe
Preservar seu quintal.
ELA NUNCA TE ESQUECE
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando você nasce,
Ela se torna tua companheira,
Você pode até esquecer dela,
Mas ela nunca te esquece,
É tirana traiçoeira,
Te pega até no parto,
Ou num fulminante infarto.
Ao levantar, não esquece,
Faz tua prece,
Chama pelo teu guia,
No alvorecer da manhã,
Mantenha tua mente sã,
Antes de seguir tua via,
Não procure desvendar
O sentido da vida,
Porque ela é um mistério,
Como tumba de cemitério,
Uns com curta caminhada,
Outros com longa jornada.
Quando ela bater em tua porta,
Abra só a fresta da janela,
E convença ela,
Que pela frente,
Ainda existe mais cancela.
Lembra que ela nunca te esquece.
É dona do tempo e do vento,
Conhece teu pensamento,
É como senhora agreste,
Com seus nervos de aço,
Sempre com a mesma veste,
Impiedosa, como o carrasco.










