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:: ‘Encontro Com os Livros’

“HÁ HOMENS QUE NADA SÃO…”

Em “Assim Falava Zaratustra”, de Nietzsche, no capítulo “Da Redenção”, ele conta que um dia Zaratustra passava por uma ponte onde estavam ”aleijados”, mendigos e um corcunda. Eles disseram que passaram a acreditar nos ensinamentos de Zaratustra.

No entanto, perguntaram se Zaratustra podia curar os cegos, fazer andar os paralíticos e aliviar um tanto o que leva às costas carne demais. Ele respondeu: “Quem tira da corcunda sua corcunda, tira-lhe ao mesmo tempo o espírito. Quem restitui a vista ao cego, este passa a ver na terra demasiadas coisas más. Passa a maldizer aquele que lhe curou”.

Em seguida, disse ter visto coisas bem piores, mas de uma não conseguia deixar de falar, dos homens a quem falta tudo. Foi aí que concluiu que “há homens que nada são, a não ser um grande olho, uma grande boca, ou um grande ventre… A esses chamo de “aleijados” às avessas”.

Quando saia de sua solidão ele atravessava pela primeira vez a ponte e não deu muito crédito para o que viu, mas não parou de olhar. Então, disse: “Isto é uma orelha do tamanho de um homem! Por trás dela movia-se algo tão pequeno, mesquinho e débil que dava dó”.

“Olhando através de uma lente ainda se podia reconhecer um semblante minúsculo e invejoso, uma alma vaidosa…” O povo dizia que a orelha era de um grande homem. “Eu, porém, nunca acreditei no povo quando falava de grandes homens e continuei a acreditar que se tratava sim de um “aleijado” às avessas que tinha pouco de tudo e uma coisa em demasia”.

Em sua narrativa sobre redenção, Zaratustra exclamou: “Meus amigos, ando entre os homens como entre fragmentos e pedaços de homens”. O mais espantoso, segundo ele, é vê-los destroçados e desconjuntados. São eles fragmentos, pedaços, mas não homens.

Para o filósofo, o presente e o passado são os mais insuportáveis. Há de vir uma ponte para o futuro. O povo perguntava quem era Zaratustra, e ele respondeu a pergunta com outras perguntas: “É um homem que promete? Ou que cumpre? Um conquistador? Ou um herdeiro? Um outono? Ou uma relha de arado? Um Médico? Ou um convalescente? É um poeta? Ou alguém que diz a verdade? Um libertador? Ou um dominador? Um bom? Ou mau?”

Ao invés de se dizer já era, que se diga assim quis – ensinava. “A isto eu chamaria de redenção”. “Vontade, assim se chama o libertador e o mensageiro da alegria. Esse foi meu ensinamento, meus amigos. A própria vontade é ainda escrava”.

Para Nietzsche, o querer liberta, mas como se chama aquele que aprisiona o próprio libertador? A vontade não pode querer para trás. Não pode aniquilar o tempo, e o desejo do tempo é sua mais solitária aflição”. Mais adiante, alerta que sua raiva acumulada é que o tempo não retrocede. O que foi já foi, assim se chama a pedra que a vontade não pode remover.

Remover pedra e vingar-se, para ele, é uma vontade libertadora que se torna maléfica e vinga-se de tudo o que é capaz de sofrer, por não poder voltar para trás. “É a vingança contra o que já foi, o ressentimento da vontade. Vive-se uma grande loucura em nossa vontade. E a maldição de todo humano é que essa loucura aprendeu a ter espírito”.

“Tudo passa e tudo merece passar, e é a própria justiça, essa lei do tempo, que o obriga a devorar seus próprios filhos. As coisas são ordenadas moralmente segundo o direito e o castigo. Ai! Como nos livrarmos do fluxo das coisas e do castigo de existir? Onde está, pois, a redenção?

“Nenhum fato pode ser destruído. Como poderá ser desfeito pelo castigo? Eis o que há de eterno no castigo de existir: A existência não pode ser outra coisa senão uma eterna sequência de fato e culpabilidade. A não ser que a vontade acabe por se libertar a si mesma e que o querer se mude em não querer”

Ainda sobre a redenção, Zaratustra assim diz que é preciso que a vontade, que é vontade de poder, queira alguma coisa mais elevada que a reconciliação. Mas como pode ocorrer? Quem ensinará também a retroceder?  No final, alerta ser difícil viver entre os homens porque é muito difícil calar, sobretudo para um falador.

Depois de toda conversa, o corcunda indagou: Por que é que Zaratustra nos fala de uma maneira e de outra a seus discípulos? Ele respondeu: Que há de surpreendente nisso? “Com os corcundas pode-se muito bem falar uma linguagem corcunda!”

A HORA DO SUPREMO SILÊNCIO”

Todos seres humanos precisam de um momento de silêncio para refletir que a vida não é somente festa e alegria. A humanidade deixou de fazer essa pausa, mas Zaratustra, depois de estar com seus discípulos e o povo, resolveu se recolher em sua solidão, regressar como urso à sua caverna.

Nietzsche chama de supremo silêncio em “Assim Falava Zaratustra”, que descreve esta hora em que seu coração estremece assustado, enquanto os ponteiros do relógio avançam. Disseram, então para ele não se entrincheirar em sua teimosia.

“Que te importa? Ainda não és bastante humilde. A humildade tem o couro mais duro”. Ele respondeu que conhecia bem seus vales. “Quem tem montanhas a deslocar, desloca também vales e planícies” – afirmaram para ele.

“É verdade que tenho andado por entre os homens, mas ainda não consegui atingi-los”. Perguntaram o que ele sabia a este respeito. “O orvalho cai sobre a relva no momento mais silencioso da noite”. Disseram que eu tinha esquecido o caminho e o jeito de caminhar.

Aquele que ordena grandes coisas, torna-se indispensável. “Realizar grandes coisas é difícil, mas é mais difícil ainda ordenar grandes coisas. Tu tens o poder e não queres reinar”. Zaratustra retrucou que ainda lhe faltava a voz do leão para mandar.

Tornaram a lhe dizer que são as palavras mais silenciosas que trazem a tempestade. “Os pensamentos que vêm com pés de veludo são os que dirigem o mundo. É preciso que voltes a ser criança e percas a vergonha. Tu te tornaste jovem muito tarde, mas aquele que quer voltar a ser criança deve também vencer sua juventude”

Zaratustra disse para si mesmo que já havia ouvido tudo e deveria retornar para sua solidão. Quando decidiu deixar seus amigos, desatou a chorar. No entanto, chegada a noite, ele partiu sozinho. Era meia-noite quando Zaratustra se pôs a caminhar em direção ao ponto mais alto da ilha para chegar a outra margem e embarcar para atravessar o mar.

Enquanto subia a montanha ele ia pensando sobre sua juventude e suas viagens solitárias, e falou para si: “Eu sou um viajante e um escalador de montanhas. Não gosto de planícies e parece que não posso ficar muito tempo sentado”. Ele passou a refletir sobre seu regresso e disse: “Segues teu caminho de grandeza. Tua melhor coragem é que agora não existem mais caminhos atrás de ti”

Sentiu que o mais suave iria se tornar o mais duro. Mais uma vez meditou de que aquele que sempre cuidou muito de si, acaba por cair doente com o excesso de cuidado. Insistiu que tinha que subir mais alto que ele mesmo, a fim de que pudesse contemplar suas próprias estrelas abaixo de si.

Ele subia a montanha consolando seu coração com duras máximas porque havia ferido seu coração. Decidiu, então, ir ao fundo da dor mais do que nunca, até suas águas mais escuras. “Assim o quer meu destino”. Para Zaratustra, as mais elevadas montanhas vêm do mar.

Quando chegou perto do mar e se encontrou sozinho entre as rochas da margem, sentiu-se cansado do caminho e ainda mais cheio que antes de ardentes desejos.

 

“DOS GRANDES ACONTECIMENTOS”

Nesse capítulo, Zaratustra, personagem da obra de Nietzsche fala das Ilhas Afortunadas onde fumega um grande vulcão. O povo diz que a ilha está colocada num penhasco na porta do mundo subterrâneo. Ali um navio lançou âncoras onde se encontra a montanha fumegante. Sua tripulação foi caçar coelhos quando viram um homem atravessar o ar, e uma voz pronunciou estas palavras: “Já é tempo! Não há um instante a perder! ”.

Quando olharam mais de perto viram que era Zaratustra em direção à montanha do fogo. O piloto disse: É Zaratustra que vai para o inferno. Correu o boato de que ele desaparecera sem dizer para onde. No entanto, ao fim de três dias, o povo julgava que o demônio levara Zaratustra. Os discípulos preferiram acreditar que foi Zaratustra quem levou o demônio.

Depois de cinco dias ele apareceu quando se deu o diálogo dele com o cão de fogo. Nas palavras poéticas (Nietzsche deprecia os poetas e diz que todos são mentirosos e enganadores), Zaratustra afirma que a terra tem pele e essa pele sofre enfermidades de doenças e, uma delas, chama-se homem. A outra é o cão de fogo.

“Cruzei o mar e vi a verdade” – “Assim Falava Zaratustra”. Sei da tua profundidade, cão de fogo! “De onde tiras o que vomitas”? “Bebes a água do mar e é daí que vem o sal da tua eloquência. És o ventríloquo da terra. Esses demônios são salgados, mentirosos e triviais.

“Sabeis rugir e obscurecer com vossas cinzas! Tendes as maiores bocarras e aprendestes bem a arte de fazer ferver o lodo”. Por onde andas existem coisas lamacentas e cavernosas. Tudo isso quer liberdade que é teu grito predileto, mas perdi a fé nos grandes acontecimentos, pois em torno deles existem rugidos e fumaça – disse Zaratustra.

Prosseguiu dizendo para o estrépito do inferno que os acontecimentos maiores não nos surpreendem nas horas mais ruidosas, mas nas mais silenciosas. “O mundo gravita, não em torno dos inventores de novos estrondos, mas em volta dos inventores de novos valores, em silêncio”… Que importa que uma cidade seja mumificada e que caia na lama uma estátua! Aos destruidores de estátuas, destacou ser mesmo uma loucura jogar sal no mar e estátuas na lama.

O Estado é um cão hipócrita

Sobre essa questão, Zaratustra deu um conselho para os reis, às igrejas e a todos aqueles que são fracos em idade e virtude: “Deixai-vos derrubar para volverdes à vida e para que a vós retorne a virtude”!

O cão de fogo indagou que Igreja? Que é isso? Ele respondeu que é uma espécie de Estado, mais enganosa. Cala-te, tu conheces tua espécie mais que ninguém. “O Estado é um cão hipócrita como tu que gostas de falar com rugidos e fumaça para fazer crer que sua voz, como a tua, saia das entranhas das coisas”.

De acordo com ele, o Estado quer ser a todo custo o animal mais importante da terra e consegue fazer o povo acreditar que o seja. O cão ficou louco de ciúmes, e da sua goela saíram fumaças e vozes terríveis que a cólera e a inveja poderiam sufocá-lo.

Ficou encolerizado? Então, vou falar de outro cão de fogo, cuja voz nasce no coração da terra. Seu hálito e a chuva são de ouro. Disse que ele é inimigo de teus gargarejos, de tuas erupções e da raiva de tuas entranhas. Seu ouro e seu riso, tira-os do coração da terra que é de ouro. O cão meteu o rabo entre as pernas e foi esconder-se num canto.

Sobre sua passagem voadora pelo ar, falou que ele não passava de um fantasma, de uma sombra viajante. Devo manter minha sombra em rédeas mais curtas, ou prejudicará minha reputação. Já é tempo e não há um instante a perder – assim terminou sua fala.

 

 

CANTO NOTURNO, A CANÇÃO PARA DANÇAR E A CANÇÃO DO SEPULCRO

Com tons poéticos e filosóficos, Nietzsche, em “Assim Falava Zaratustra,” diz que é insondável o que os olhos não podem penetrar e nele me afogo. A sabedoria e a vida se parecem. Têm seu anzol de ouro.

Na noite, falam mais alto todas as fontes que jorram, e minha alma também jorra. Todas as canções dos amantes despertam na noite. Minha alma é uma canção de um homem que ama. Em mim há uma coisa insaciável que é o desejo de amar e fala a linguagem do amor. Sou noite e, se não fosse, minha solidão seria estar rodeado de luz.

O filósofo compara as estrelas cintilantes como vagalumes celestiais e expressa que ficaria cheio de ventura em receber vossa luz, mas vivo em minha própria, absorvendo as chamas que de mim brotam.

Para ele, a mão que nunca se cansa de dar tem uma sorte maldita. Ó eclipse do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome devoradora na saciedade. Em sua visão, há um abismo entre dar e receber. Aquele que sempre dar corre o risco de perder o pudor. Aquele que reparte sem cessar acaba por calejar as mãos e o coração.

“Meus olhos já não se arrasam de lágrimas ao ver a vergonha dos que imploram. Minha mão endureceu demais para experimentar o tremor das mãos cheias”. Mais adiante, fala que muitos sóis gravitam no espaço vazio. Sua luz diz a tudo o que é obscuro.

Como tempestade, voam os sóis por suas órbitas. É a maneira deles de viajar. Só as criaturas noturnas tiram vosso calor do luminoso. Tudo é gelo em torno de mim e minha mão se queima ao tocar o gelo. Se é noite, por que hei de ser luz, ter sede do noturno e solidão. É noite e falam todas as fontes que jorram. Minha alma é também uma fonte borbulhante. Despertam todas as canções dos que amam. Minha alma também é uma canção que ama.

Em canção para dançar, Nietzsche afirma ser advogado de Deus perante o diabo que é o espírito do peso. No vale, quando as donzelas veem Zaratustra, elas param, mas ele manda prosseguir. Diz ser selva e noite de árvores sombrias, mas quem não se amedrontar, encontrará sob meus ciprestes coroas de rosas.

“Saberá também encontrar o pequenino Deus preferido das donzelas dançarinas. Está junto da fonte, tranquilo, de olhos fechados. Ele pede que as dançarinas não se zanguem com sua presença, se contra o pequeno Deus ando tanto irritado. Ele pode gritar e chorar.

Da sabedoria, sempre estamos sedentos dela e não nos saciamos. Olhamos através de seu véu, sempre versátil e obstinada. Pode ser má e falsa e me afoga no insondável. Ela diz: Tu queres, tu desejas, tu amas! E só por isso elogias a vida.

De acordo com sua filosofia, ninguém pode responder pior do que quando diz a verdade à sua sabedoria. “Eu nada amo mais profundamente do que a vida”…

Por que? Para que? Onde? Como? Não é uma loucura viver ainda. É a noite que assim me interroga. Perdoai-me a tristeza.

Na canção do sepulcro, ele fala de uma ilha taciturna onde lá estão os sepulcros da sua juventude. Vos todos, olhares de amor, momentos divinos! Como vos desvanecestes depressa! Penso hoje em vós como em meus mortos.

Dos mortos prediletos, afirma chegar a si um suave perfume que alivia seu coração e faz correr as lágrimas. Esse perfume comove o coração do navegante solitário.

Nietzsche fala dos fugitivos que morreram para ele. Sou ainda o herdeiro e a herança de vosso amor onde florescem as virtudes silvestres de todas as cores. Não fugistes de mim e nem eu de vós. Não somos culpados reciprocamente de nossa infidelidade.

Eu te amaldiçoou, oh morte soberana que abreviastes minha eternidade, como se interrompe um som na fria noite. “Matastes as visões e os prodígios mais caros da minha juventude. Tirastes de mim meus companheiros de jogo, os espíritos bem-aventurados. Em memória deles, deposito esta coroa e esta maldição.

“Para mim todos os seres devem ser divinos. Me assombrastes com imundos fantasmas. Na sabedoria da minha juventude, todos os dias devem ser sagrados para mim. Assim me falava outrora a sabedoria de minha juventude. Afasta de mim tua sombra fantasmagórica”.

“Outrora eu suspirava por bons presságios e então lançastes em meu caminho uma monstruosa coruja. Como cego percorri caminhos felizes e neles lançastes vossas imundices. Envenenastes meu melhor mel e o zelo de minhas melhores abelhas”.

Zaratustra reclama que a morte entoou para seus companheiros uma surda e lúgubre melodia. Cantor assassino, instrumento da maldade, tu, que eras o mais inocente. Eu estava pronto para a mais bela dança e tu com teus sons mataste meu embalo. No final da sua conversa, ele diz que onde há sepulturas há ressurreições.

 

“DA LIVRE MORTE”

No capítulo “Da Livre Morte” do livro “Assim Falava Zaratustra”, Nietzsche diz que “muitos morrem tarde demais e alguns cedo demais. Ainda nos soa estranho esse preceito: “Morrer a Tempo”.

Quem nunca viveu a tempo, como há de morrer a tempo? “Morre sua morte, aquele que cumpre seu destino, vitorioso, rodeado daqueles que esperam e prometem”. Ele fala dos homens que ainda não aprenderam como celebrar as mais belas festas. É enigmático.

De acordo com Zaratustra, “combatente e vitorioso odeiam igualmente vossa morte cheia de caretas, que vai se arrastando como uma ladra e, contudo, chega como soberana”.

Ainda sobre a morte, Nietzsche destaca que “em alguns envelhece primeiramente o coração, em outros o espírito. E alguns são grisalhos desde sua juventude, mas quem tardiamente se torna jovem por mais tempo permanece jovem”.

Prossegue em sua pregação, dizendo que “muitos falham em sua vida. Um verme venenoso lhes devora o coração. Que tratem ao menos de ter melhor êxito em sua morte”.

Ao fazer uma comparação com maçãs azedas e outros frutos, diz que existem aqueles que ficam e permanecem por excessivo tempo dependurados em seus ramos. “Que venham uma tempestade que faça cair da árvore todos esses poderes e bichados”!

“Na verdade, cedo demais morreu aquele hebreu a quem veneram os pregadores da morte lenta e para muitos foi fatalidade ter ele morrido cedo demais”.

“Ele só conhecia ainda lágrimas e melancolia dos hebreus, juntamente com o ódio dos homens de bem e dos justos, esse hebreu Jesus; por isso o acometeu o desejo da morte”.

“Por que não ficou no deserto, longe dos homens de bem e dos justos? Talvez tivesse aprendido a viver e a amar a terra e, mais ainda, a rir! Acreditai em mim, meus irmãos! Morreu cedo demais! Ele mesmo se retrataria de sua doutrina se tivesse vivido até minha idade! Era bastante nobre para se retratar” – assim falou Zaratustra aos seus discípulos.

“Mas não estava ainda maduro. O amor do jovem é imaturo e imaturo também seu ódio do homem e da terra. A alma e as asas do espírito lhes são ainda atadas e pesadas”.

“Assim, eu mesmo quero morrer, a fim de que, meus amigos, por amor de mim, ameis com mais amor a terra. E a terra quero voltar a ser, a fim de encontrar repouso naquela que me gerou”.

 

“DA VIRTUDE GENEROSA”

“Quanto mais você cresce, mais você sente sofrimento” – disse Nietzsche em seu livro “Assim Falava Zaratustra”. No capítulo “Da virtude generosa”, Zaratustra deixou seus discípulos na cidade de nome “Vaca Malhada” e falou que queria prosseguir sozinho porque era amigo das caminhadas solitárias.

Antes disso, indagou por que o ouro tinha alcançado o seu mais alto valor. “Por ser raro e inútil, de brilho cintilante e brando. É somente por ser imagem de virtude suprema que o ouro se tornou o valor supremo. A virtude suprema é uma virtude generosa”.

Ao pregar sobre o amor, assinalou que, na verdade, é preciso que esse amor generoso se faça de todos os valores sua presa, “mas eu chamo sadio e sagrado esse egoísmo”.  Ele se referia à ambição da pessoa querer se converter em vítima e oferenda. “Por isso tendes a sede de acumular todas as riquezas em vossas almas”.

Nietzsche falou sobre outro egoísmo, aquele ”demasiado pobre que morre de fome, que quer roubar sempre, o egoísmo dos doentes, o egoísmo doente”.

“Com olhos de ladrão olha tudo o que reluz, com a avidez da fome mede aquele que tem abundantemente do que comer e sempre gira em torno da mesa dos que dão”. Ele perguntou aos discípulos qual coisa parecia pior de todas, e respondeu ser a degenerescência quando falta generosidade à alma.

“Caminhamos para as alturas, ultrapassando a espécie para atingir a espécie superior, temos horror ao sentido degenerado, o sentido que diz: Tudo para mim”. Para o filósofo, o sentido quando voa para o alto, torna-se imagem do nosso corpo, imagem de uma ascensão.

“Assim caminha o corpo, ao longo da história, evoluindo e lutando. E o espírito? Que é ele para o corpo? É arauto, companheiro e eco de suas lutas e vitórias”. Prosseguiu afirmando que todos os nomes do bem e do mal são imagens. Louco é aquele que delas (imagens) quer receber o conhecimento. Recomendou ter atenção a qualquer um dos momentos em que vosso espírito quer falar em imagens. “Ali está a fonte da virtude”.

Ao dirigir-se novamente aos seus discípulos, aconselhou que permanecessem fiéis à terra com todo poder de vossas virtudes. “Que vosso amor generoso e vosso conhecimento estejam a serviço da terra”.

“O espírito, bem como a virtude, tem-se extraviado e enganado assim de mil maneiras até agora em seu voo. Ai! Ainda agora habita em nosso corpo toda essa loucura e esse desvio: Tornaram-se corpo e vontade”

“Lutamos ainda passo a passo com o gigante Acaso e sobre a humanidade inteira reinou até hoje o absurdo, a falta de sentido”. Ensinou que o espírito e a virtude sirvam para o sentido da terra. Deveis ser lutadores e criadores. De acordo com Nietzsche, o corpo se purifica pelo saber e se eleva com as tentativas conscientes. Para aqueles que conhece, todos os instintos se santificam.

Em sua visão, a terra ainda deverá se tornar um lugar de cura. O homem que busca o conhecimento não só deve poder amar seus inimigos, mas também odiar seus amigos.

Ele fala também em festejar com seus discípulos o meio-dia, fazendo uma alusão à vida. “E o grande meio-dia será quando o homem estiver na metade de seu trajeto, entre o animal e o super-homem, se mantiver firme, como sua esperança suprema, e festeja seu caminho para o ocaso, porquanto será o caminho para uma nova manhã”.

O que declina, em sua opinião, se abençoará a si mesmo por estar passando para outra esfera. E o sol de seu conhecimento atingirá o zênite. Para Nietzsche, todos os deuses morreram. Agora queremos que viva o super-homem.

“ASSIM FALAVA ZARATUSTRA”

Na obra famosa de Friedrich Nietzsche, no capítulo “Dos Caminhos do Criador”, o filósofo, na palavra de Zaratustra, fala do solitário, aquele que procura a busca de si mesmo. Seu pensamento é complexo com muitos anunciados que nos faz refletir ainda nos tempos contemporâneos.

O filósofo escreveu no século XIX e sobre as mulheres ele seria hoje esconjurado, machista e retrógrado pelo seu menosprezo ao gênero feminino, mas este é outro assunto. Zaratustra dialogo com uma velha senhora quando seguia seu caminho. No final da conversa a velha lhe diz que ele não conhece bastante as mulheres, se bem que tem razão no que prega. Será porque para a mulher nada é impossível?

Sobre a morte, ressalta que uns morrem cedo e outros tarde, daí o preceito de que morre a tempo. “Se nunca vive a tempo, como há de morrer a tempo? Para ele, morrer ainda não é uma festa. Morre sua morte aquele que cumpre seu destino, vitorioso, rodeado daqueles que esperam e prometem. Fala do aprender a morrer no combate, abençoando os vivos. Combatente e vitorioso odeiam a morte “que vai se arrastando como uma ladra e, contudo, chega como soberana”.

Com referência ao solitário e a solidão, Zaratustra diz que, mesmo com toda tua força e coragem, um dia te há de cansar. Algum dia se abaterá teu orgulho, e tua coragem vai cerrar os dentes. Um dia clamarás: Estou só, tudo é falso!

Em sua reflexão, ele afirma que há sentimentos que querem matar o solitário. Se não conseguirem, eles mesmos terão de morrer! Quanto ao desprezo dos outros e a procura de ser justo com aqueles que te menosprezam, Nietzsche acrescenta que o solitário obriga muitos a mudarem de opinião a seu respeito. Por isso, “te odeiam com todas as forças”.

Acima deles te elevaste, mas quanto mais alto sobes, tanto menor te vêem os olhos da inveja. Ninguém é tão odiado como aquele que voa diante de todos. “Sobre o solitário, atiram baixeza e injustiça”. Zaratustra aconselha que o solitário se livre dos impulsos do amor porque ele estende depressa a mão ao primeiro que encontra.

“Há homens a quem não deves dar a mão, mas tão somente a pata. Além disso, quero que tua pata tenha garras. O pior inimigo, todavia, que poderás encontrar, és tu mesmo. Nas cavernas e nos bosques és tu que te espreitas a ti mesmo. Serás herege para ti mesmo, serás feiticeiro, adivinho, doido, incrédulo, ímpio e malvado”.

De acordo com sua fala, o solitário segue o caminho daqueles que amam. “Vai para tua solidão, com minhas lágrimas, meu irmão, com teu amor e com teu ato criador. Somente mais tarde, com passo claudicante, a justiça chegará a ti”.

No que se refere ao ser humano, Zaratustra o compara com o camelo, o leão e a criança, e afirma que existem coisas pesadas para o espírito sólido. Quanto ao camelo, o espírito é uma besta de carga a escalar altas montanhas. Padece fome na alma, ama os que nos desprezam e estende a mão aos fantasmas.

Com sua carga, conforme seus ensinamentos, o camelo corre ao deserto. Assim é o espírito. Na extrema solidão, o espírito se transforma em leão, rei do seu próprio deserto, e luta como um dragão. Tu deves brilhar nesse caminho de escamas de ouro.

Em sua concepção, somente o leão poderá criar a liberdade. Já o espírito dócil pensa criar novos valores. Para o jogo da criação é preciso uma santa afirmação de criança. Ensina que deves reconciliar contigo mesmo, manter-se sempre acordado, apesar da fadiga e conservar a alma serena.

As coisas ruins não combinam com um bom sono, o senhor das virtudes. “Existem sábios que pensam no sono sem sonhos”. Mantenha paz com o diabo do teu próximo. Com relação ao poder, Nietzsche, na fala de Zaratustra, ressalta que ele gosta de andar com pernas tortas. Em seus diálogos filosóficos, muitas vezes ele entra em contradição, ou parece ser isso.

 

“ASSIM FALAVA ZARATUSTRA”

Difícil de ser entendido, Friedrich Wilheim Nietzsche nasceu em Rocken, na Alemanha, em 15 de outubro de 1844. Ainda jovem virou pastor e tornou-se num dos mais importantes pensadores do século XIX. Aos 24 anos chegou a lecionar filologia na Universidade de Basileia, mas parou seu trabalho, em 1979, por questões de saúde. Passou a levar uma vida marcada por crises e tentativas de suicídio. Em 1882 começou a escrever sua obra famosa “Assim Falava Zaratustra”. Teve intensa produção, interrompida, em 1889, por uma loucura que durou até sua morte, em 25 de agosto de 1900.

Na apresentação do livro, editora Lafonte, escrito pelo tradutor, na palavra de Zaratustra, que viveu dez anos na montanha, Nietzsche diz que o homem e a sociedade vivem em hipocrisia, à sombra de valores que não correspondem às aspirações do ser humano, porquanto marcados e conduzidos por um conjunto de leis, costumes e tradições que já foram comprovados, além de desgastados pelo tempo e pela maldade dos homens, aleatórios e inúteis.

Nietzsche aborda os temas centrais da transformação de valores, da erradicação dos males que afligem a sociedade, da libertação do homem como ser superior e da busca da figura do verdadeiro homem ou super-homem. Quando Zaratustra desce da floresta encontra-se com um grupo de gente da cidade e faz um discurso onde as pessoas não lhe dão ouvidos. Ele se vai frustrado e decepcionado.

Em o equilibrista e o palhaço, afirma que o diabo e o inferno não existem, e que nada perco ao perder a vida. Pontua vários problemas do viver, como o trabalho, a distração e o cansaço. Para ele, pobre e rico são duas coisas penosas, como governar e obedecer. Pastor e rebanho são iguais. Nietzsche foi um tanto anarquista quando declara que o Estado é o mais frio dos frios monstros.

Vou aqui apenas citar alguns pontos da fala de Zaratustra que servem de reflexão, muitas delas confusas, contraditórias e retrógradas como dizer que a mulher não sabe fazer amizades, ao compará-la com uma ave ou uma vaca. Boa parte do seu diálogo requer análise apurada porque ele fala por meio de parábolas, linguagens figuradas e metáforas.

Num dos trechos, diz que não seja o refluxo desse fluxo. O crime mais atroz é ultrajar a terra. O homem é um rio poluído. Nessa sua lógica, é também um poluidor, máximas que servem para os tempos atuais. Tem muita coisa de filosófica e poética em suas pregações, como a de que é preciso ser mar. Seja repugnante para ser limpo. Para sair da conformidade, sua razão anseia por saber.

Em sua conversa para os homens da cidade, em seu primeiro contato após dez anos na montanha, diz que, para se chegar ao alto e o além, seja declínio. O que importa é ser ponte e não meta. Seja flecha e passagem para a outra margem. Tem que conhecer o que quer conhecer e faça da sua virtude o seu destino. Ele questiona o viver e o deixar de viver. Sobre o ser humano, ensina que deve cumprir mais do que promete. Isso serve para os nossos políticos.

A cólera do seu deus pode ser sua perdição. Quanto a alma profunda, ressalta que lhe faz esquecer de si mesmo. Aprenda a ouvir com os olhos. Terei que gritar. Vou falar do que é mais desprezível, e aconselha que o homem deve semear o germe da esperança. No que refere às suas conversações com o outro, o qual não consegue lhe entender, afirma que a minha boca não chega aos seus ouvidos.

No sentido figurado das palavras, ou não dos seus pensamentos, Nietzsche termina tocando no problema do meio ambiente quando destaca que o solo rico se tornará pobre e árido, sem germinar nenhuma árvore. Como profeta do tempo, enfatiza que o homem não mais lançara a flecha do seu desejo. Você tem um caos dentro de si para gerar a dança. A terra se tornará pequena, e insensato é aquele que ainda tropeça nas pedras e nos homens.

Nietzsche, como todos sabem, é um filósofo incompreensível e cada um faz suas interpretações. Zaratustra assinala, por exemplo, que nada tem de desprezível morrer por causa do teu ofício e que a vida humana é desprovida de sentido. Ele é, ao mesmo tempo, profundo, triste, descrente do ser humano e sem religião. Por falar nisso, disse que a religião matou Deus.

Em seus diálogos, fala muito do ser super-homem. Ouço uivos de lobos famintos. O criador sempre procura companheiros. Meu canto é para os solitários e que existe mais perigo entre os humanos do que os animais. Que minha altivez ande ao lado da sabedoria. Vamos ter mais Nietzsche nos próximos capítulos, esse Zaratustra, esse maluco.

No capítulo “Do Amor ao Próximo” em “Assim Falava Zaratustra”, Nietzsche dizia que esse amor é vosso mau por vós mesmo. O Tu foi santificado, mas o Eu não. Mais elevado que o amor ao próximo é o que está por vir, as coisas, os fantasmas. Você tem medo dos fantasmas e procura refúgio junto ao teu próximo. Ele afirma que o convívio com os homens estraga, sobretudo quando não se tem caráter.

“A MÁSCARA DA AFRÍCA” XV

GANDHI NA ÁFRICA DO SUL

  1. V. S. Naipaul narra, em sua obra, “A Máscara da África”, a visita de um grande homem que visitou a África do Sul nos anos de 1890 e terminou ficando 20 anos naquele país para ser a voz do seu povo que era discriminado e menosprezado.

Esse homem era Mohandas Gandhi. Ele saiu de Durban a Joanesburgo e a Pretória, em parte uma versão moderna da Grande Marcha, feita por trem e diligência. Foi um calvário, mas essa viagem modificou sua vida e o colocou no caminho da obra testemunhada em sua país, na Índia.

Existe um monumento para ele em Joanesburgo e em Pretória. Ele foi para África do Sul, em 1893, quando ainda tinha 24 anos por causa de conexões familiares como advogado, a convite de um empresário indiano mulçumano.

Como profissional na Índia só tinha estado no tribunal uma vez, em Bombaim, num caso ridículo de Pequenas Causas. Para Gandhi foi um fiasco porque ele se levantou no momento em que deveria interrogar as pessoas do outro lado, mas se sentiu intimidado.

Em pleno tribunal, ele se sentou e transferiu o caso para outro colega que atuou brilhantemente com a questão. A partir dali ficou mortificado e achou que, como advogado, deveria evitar tribunais e apenas rabiscar petições.

Foi aí que veio a oferta sul-africana de um amigo da sua família para passar um ano na África do Sul, com bilhete de volta na primeira classe. Na sua visão, estava indo mais como um serviçal do que como advogado, mas aceitou a ideia da aventura.

Tudo começou com uma lenta viagem marítima de Lamu, Mombaça, Moçambique e depois Durban. Lá conheceu seu empregador que lhe disse que seria um elefante branco na firma. Gandhi descobriu que o caso legal era de contabilidade. Comprou um livro e começou a estudar. Ficou sabendo tudo que precisava.

Depois de oito dias compraram um bilhete para ele de primeira classe com direito a um leito para Pretória. No entanto, ele preferiu poupar o dinheiro. Foi, então, que seu calvário começou nas paradas entre Maritzburg, Charlestown e Standerton. Nesses locais, Gandhi sofreu insultos, vergonha e medo por causa de um tratamento vil e violento.

Em Maritzburg, o atendente da ferrovia lhe perguntou se ele havia pedido um leito. Gandhi confirmou que sim. Vieram dois agentes e depois um terceiro que lhe disse que deveria se mudar para o compartimento de bagagem. Quando Gandhi se recusou, chamaram um policial que o empurrou para fora. Fazia muito frio. Tinha um casaco na bagagem, mas pensou que se pedisse seria insultado.

Naquela noite, imaginou retornar para a Índia ou seguir para Pretória. Concluiu que devia ficar e lutar contra a doença do preconceito. Decidiu pegar o próximo trem. Era um homem correto e da lei.

Na manhã seguinte enviou um longo telegrama ao gerente geral da ferrovia. O trem em que embarcou, com o bilhete do leito, o levou até Charlestown. Acontece que o calvário continuou. Não havia ferrovia para Joanesburgo, apenas uma diligência. O condutor lhe atormentou não permitindo que Gandhi se sentasse dentro do carro, mas no estribo da carruagem. Passou a viagem toda chutando Gandhi, tanto que os outros passageiros protestaram.

A diligência parou no vilarejo de Standerton para passar a noite. Havia enviados lá a mando do empregador para recebê-lo. Ele aproveitou o tempo para escrever uma longa carta ao agente da empresa de diligências. Recebeu uma resposta encorajadora. A diligência era maior e o funcionário estúpido não estaria nela.

Os indianos do empregador encontraram um bom lugar para ele e, finalmente, chegou a Joanesburgo. Para o trecho final até Pretória, redigiu um bilhete ao chefe da estação dizendo quem era e foi pessoalmente de casaca e gravata comprar o bilhete (existe na África do Sul uma fotografia dele com esses trajes).

O homem da bilheteria era da Holanda e lhe tratou bem. Naquela época, segundo o autor do livro, Gandhi acreditava no Império Britânico. “Acreditava que os indianos na África do Sul eram discriminados porque eram politicamente indiferentes e não eram organizados”.

Quando terminou o seu trabalho, com sucesso, se preparou para retornar para Índia. Foi a Durban esperar um navio e lá viu uma nota no jornal sobre o direito de voto dos indianos onde a Câmara local buscava destituir os indianos de votar. Ele ficou chocado com isso e procurou conversar com os empresários indianos, que não estavam preocupado com a questão.

Gandhi era ainda um jovem tímido e destreinado. Depois de uma discussão, os empresários transferiram o fardo do protesto para Gandhi que adiou sua volta. Então, sua permanência na África do Sul se estendeu por vinte anos.

Estava na meia idade quando partiu, com suas ferramentas políticas e espirituais aperfeiçoadas. Tudo aconteceu naquela longa viagem onde tornou-se um grande líder de homens e passou a ser chamado de mahatma (grande alma).

“A MÁSCARA DA ÁFRICA” XII

No capítulo “Monumentos Particulares, Terras Arrasadas Particulares”, o autor de “A Máscara da África, V. S. Naipaul, após visitar o Museu do Apartheid, destaca o monumento africâner no final da rodovia Joanesburgo-Pretória em homenagem à Grande Marcha dos Bôeres da Colônia do Cabo para o interior na metade do século XIX.

Segundo Naipaul, eles marcharam para se livrar dos britânicos, levando consigo todos seus bens e animais, e foram em carros de boi, numa jornada lenta e árdua. “Os caminhantes nem sempre sabiam o que estavam enfrentando” e muitos deles morreram.

Sobre sua guia turística Fátima, a mestiça coloured, disse que ela na escola teve que estudar sobre A Grande Marcha; todas as escaramuças no caminho se tornaram batalhas. Fátima tinha que saber todos os detalhes de cor. Mesmo assim, num lance de crueldade, a ela não foi permitido visitar o monumento.

A obra é composta de um acampamento circular em seu entorno, com sessenta e quatro carros de bois. Esse número de carros compunha o acampamento quando os participantes foram atacados pelos zulus em 16 de dezembro de 1838. Os zulus foram massacrados e o monumento celebra essa vitória, a de Blood River (rio de sangue).

De acordo com o escritor, as obras do monumento foram iniciadas em 16 de dezembro de 1938, o centenário da batalha. Foi inaugurado na presença de uma multidão de 250 mil pessoas em 16 de dezembro de 1949 por D.F.Malan quando se completou o primeiro ano da política do apartheid, que ele e seu governo do Partido Nacionalista instituíram na África do Sul.

Em seu livro, Naipaul cita o escritor africâner Herman Charles Bosman e sua obra, Mafeking Road, uma das quatro coletâneas de contos. “ O maior conto trata de uma marcha fictícia. A Grande Marcha do Cabo faz parte do folclore daquela gente simples; em sua imaginação, é algo que todos podem tentar. É fácil agora, depois de terminada a guerra dos bôeres, que foi perdida, persuadi-los de que estão prestes a ser oprimidos pelos britânicos lá onde vivem e que devem marchar para a liberdade, para a Namíbia, a África do Sudoeste Alemã”.

“Eu associei os contos de Bosman com o Monumento Voortreker porque ambos compartilham uma ambiguidade, que reside no tema. O Monumento Voortreker não fala apenas da Grande Marcha. Fala também da derrota africana e do sofrimento africano”.

Ao se referir aos contos de Bosman, o escritor de “A Máscara da África” diz que “aquelas pessoas não são apenas gente simples do campo por causa do seu caráter simplório, de sua falta de imaginação, elas trazem um sofrimento indescritível aos africanos que estão entre elas”.

 





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