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:: ‘Encontro Com os Livros’

A OUTRA FACE DE LAMPIÃO

“LAMPIÃO, SEU TEMPO E SEU REINADO”

– Cheguei com fome, nudez e dinheiro

Foi assim que Lampião disse ao pisar em terras baianas por volta de agosto/setembro de 1928 ao atravessar o São Francisco, o “Velho Chico”, vindo corrido de Pernambuco pela persiga das tropas e depois de uma derrota em Mossoró, em 1927.

Era um novo mundo para ele e entrou por aquelas bandas de Santo Antônio de Glória. Como descreve o escritor Frederico Bezerra Maciel, em sua obra “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado”, o “rei do cangaço” tratou logo de enterrar seu tesouro em saco de couro na Serra do Tonã.

Depois seguiu até a fazenda Aroeira, em Jeremoabo, do velho amigo coronel Saturnino Nilo onde se refez e recebeu alguns cabras, dentre eles o Moreno. O fazendeiro tinha salvo conduta para tanger suas boiadas até Rio Branco, hoje Arcoverde, em Pernambuco.

Nilo recomendou que ele procurasse o coronel João Sá, de Jeremoabo, o coronel João Maria de Carvalho, de Serra Preta e o poderoso Petronildo Alcântara Reis, dono de 33 fazendas, que residia em Glória.

Com aparência de que pretendia se regenerar e deixar o cangaço, como ocorreu em 1926, em Juazeiro do Norte, no encontro com seu Padim Ciço, Lampião procurou o vigário Emílio Moura Ferreira.

Em seguida foi apresentado ao coronel Petronildo, o Petro, com quem conversou longamente, falou da sua vida e até fecharam negócios em sociedade. Passou uma ruma de dinheiro e lá na frente o coronel lhe deu o bote.

Lampião ficou satisfeito e até matutou em ser um fazendeiro negociante. O coronel lhe ofereceu a fazenda Três Barras, perto de Patamuté, em Curaçá, para pouso onde ficou por cerca de quatro meses numa vida boa de rei.

Com suas habilidades de convencimento, conquistou quase todos habitantes das caatingas, como fazendeiros, vaqueiros e lavradores. Com fala mansa, bondade política e sagaz, colocou em prática sua estratégia de guerra de guerrilha.

Nesse período, Lampião passou a ser chamado de “O Homem”, por praticar caridade para os desafortunados, resolver litígios de terras, conflitos pessoais, problemas de saúde, partos, mordidas de cobras, aplicando seus conhecimentos de medicina rústica à base de raízes.

Como bom vaqueiro que tinha sido em sua juventude, era sempre procurado para curar bicheiras, mal triste e até extrair bezerro entalado. De tão conselheiro, o padre chegou a dizer que era melhor que muitos missionários. Resolvia todos problemas das redondezas fazendo até o papel de juiz.

Pelas suas ações e impondo moralidade às famílias, prendendo ladrões de bode, agindo com repressões aos trajes femininos, pagando fiados nos botecos e armazéns e solucionando casos de desonra com casamentos, Lampião passou a ser visto como um messiânico do tipo Antônio Conselheiro.

Seu cabra Zé Sereno contou que um rapaz se queixou a Lampião que o dono da fazenda não queria pagar os homens do eito. Ele foi até lá, reuniu os trabalhadores e obrigou o fazendeiro a quitar as dívidas, recomendando que ninguém fosse mandado embora.

Com o tempo, tornou-se religioso fervoroso. Todas as noites, antes das festanças que ele mesmo promovia, com danças, xaxados, baiões, valsas, quadrilhas e polcas, realizava rezas e novenas. Não perdia sentinelas de defunto. Mandava todo mundo confiar em Deus.

Todos passaram a dizer que “O Homem” era justiceiro e o canonizaram como um santo. O santo Lampião era “O Homem” devoto e querido dos sertanejos da região. Não era mais visto como aquele sanguinário.

Enquanto isso, com sua eficiência e perfeita organização, Lampião montou sua rede de coiteiros. Ele sabia que essa situação não ia resistir por muito tempo, pois logo soube que seus inimigos estavam em seu encalço.

Não tardou, a força de Manuel Neto, o nazareno de Pernambuco, conhecido como “Cachorro Azedo”, entrou na Bahia cometendo desatinos. Matou um homem só porque deu água a Lampião. Ao saber do que vinha acontecendo, tratou de se preparar para o pior.

Como estava acabando seu sossego, Lampião montou sua tropa, recrutando cabras fora da lei. A fazenda Três Barras passou a ser local de treinamento, o seu quartel-general. Chegou a reunir cem homens, inclusive Corisco e os irmãos Engracia.

Os fazendeiros começaram a desconfiar das suas atitudes, mas participavam das suas festanças e até davam dinheiro. A gota d´água para Lampião se desembestar pelo sertão baiano e cair no cangaço foi a traição do coronel Petro que tentou lhe envenenar e ficar com parte da sua sociedade.

O coronel instruiu uma viúva de suas fazendas a envenenar Lampião, só que como sempre desconfiado, descobriu a trama quando meteu sua colher de prata na comida. Tocou fogo na casa e jogou a mulher dentro. Soube que tudo foi a mando do coronel.

A partir dali, depois da fuga do coronel para Pernambuco, Lampião destruiu a maioria de suas fazendas, mantando todos animais e incendiando casas, currais e outros equipamentos. Deixou o coronel na desgraça.

Lampião voltou ainda mais cruel, derrotou as forças de Manuel Neto e caiu na caatinga baiana percorrendo todas regiões do sisal, de Senhor do Bonfim, Juazeiro, Curaçá, Campo Formoso e boa parte da Chapada Diamantina, como Morro do Chapéu, Lençóis, Andaraí, Mucugê, Piatã e outros municípios. Horácio de Matos, em Lençóis, e Douca Medrado, em Mucugê, eram seus amigos. Saqueou povoados, fazendas e cidades, matando quem atravessasse em sua frente.

OS CANGACEIROS NA VISÃO DA ESQUERDA

  A miséria e as injustiças sociais no Nordeste, a vingança entre famílias, o poder dos latifundiários, o domínio dos chefes políticos e as secas foram os principais fatores que deram origem à violência e ao cangaço. Afinal, o homem é produto do meio.

O cangaço não tinha ideologia política definida de tendência esquerdista comunista. Seus membros eram desprovidos dessa noção revolucionária. Os bandos, especialmente os chefiados por Lampião, eram exímios guerrilheiros das caatingas, mas não revolucionários, com propósito de derrubar o poder constituído.

   Antônio Silvino, o “Rifle de Ouro” (1875-1944) foi um bandoleiro sanguinário que entrou no cangaço movido pela morte do pai e as brigas entre proprietários de terras; Jesuíno Brilhante (1844-1879), o primeiro cangaceiro, tido como “romântico” (Robin Hood do Sertão), roubava dos coronéis para ajudar os famintos da seca; Sinhô Pereira (1896-1979), de família rica e nobre,  ingressou por vingança na briga entre os Pereira e Carvalho; e Lampião (1898-1938) foi instigado a entrar no cangaço pela perseguição do fazendeiro José Saturnino à sua família.

  Nenhum, aparentemente, possuía motivos ideológicos políticos no sentido de lutar para derrubar os poderosos e protestar contra a opressão imposta aos sertanejos, abandonados pela ausência dos governantes, embora suas ações revelassem formas de revolta e rebeldia contra estes senhores. Deles o banditismo tirou proveito para si, cada um usando suas razões individuais para fazer fortunas.

  No entanto, a esquerda daquela época, tendo como expoente Luis Carlos Prestes, e ainda muitos nos tempos atuais, via e vê o bando de Lampião como guerrilheiros revolucionários enfrentando o Governo em defesa dos sofridos camponeses.

Talvez por desconhecimento ou estratégia para reforçar suas tropas, os revolucionários tentaram incorporar os cangaceiros às suas forças. Um grupo isolado chegou a formar um bando, mas fracassou. Dentro do contexto do Nordeste daquela época, messiânico e religioso, era difícil introduzir uma doutrina revolucionária socialista.  Padre Cícero, o senhor do sertão, era inimigo número um de Prestes que poderia ter sucesso se os cangaceiros o seguissem.

  Em 1926, durante sua passagem pelo Nordeste, a Coluna Prestes “paquerou” o “rei do cangaço” várias vezes com seus bilhetes para que ele se engajasse às suas causas, considerando que Lampião também era um guerrilheiro revolucionário e podia derrubar o poder.

Até pelo seu baixo nível de instrução, o bandoleiro não tinha ideia dessa essência ideológica política de Carlos Prestes. Ele foi sendo empurrado pela violência nordestina. Tornou-se cangaceiro cruel não para tirar a pobreza da miséria em que vivia. Não tinha ideais socialistas e usou toda sua força para extorquir políticos e grandes proprietários, inclusive do comércio.

Antônio Silvino, por exemplo, foi o único cangaceiro a atacar os senhores de engenho do litoral nordestino. Todos eles fizeram suas fortunas que depois caíram nas mãos dos soldados e oficiais corruptos. Repartiam migalhas com os pobres para obter deles a admiração como heróis.

Lampião e seu bando, influenciados pelo deputado Floro Bartolomeu e o Padre Cícero, o “Padim Ciço” , inimigos ferrenhos dos comunistas, entraram nos “Batalhões Patrióticos” para combater a Coluna, em troca do título fajuto de “capitão” e dos armamentos.

  Quando a Coluna Prestes se debandou para a Bolívia e Prestes fugiu para Moscou, na Rússia, ele passou a ideia aos bolchevistas de que Lampião e seus cangaceiros poderiam ajudar a fazer a revolução no Brasil pela força que exerciam na região e esta ideia perdurou até a Intentona Comunista de 1935.

  As cabeças decapitadas de Lampião, Maria Bonita e muitos de seus cabras, mortos no combate de Angico, em 1938, ficaram por um tempo em Maceió e depois foram transferidas para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador.

  Em 1959, conforme assinala a jornalista e escritora Adriana Negreiros em sua obra “Maria Bonita”, os jornais dos Diários Associados promoveram uma campanha pelo sepultamento das cabeças, somente ocorrido em 1969.

  Essa campanha contou com figuras ilustres da esquerda, a exemplo do deputado estadual Francisco Julião, de Pernambuco, líder das Ligas Camponesas, movimento em prol da reforma agrária que nunca aconteceu no Brasil.

 Chocado com o que vira em Salvador, em sua visita ao Museu Antropológico Estácio Lima, o deputado Julião defendeu o enterro das cabeças, sobretudo pelo respeito que lhe inspirava a figura histórica de Lampião, para ele, o primeiro homem do Nordeste, oprimido pela injustiça dos poderosos a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade. Em sua opinião, o cangaceiro chefe foi símbolo de resistência política.

  Interessante que o grande historiador inglês (nasceu em Alexandria, no Egito e viveu na Áustria e Alemanha) Eric Hobsbawm (1917-2012), marxista convicto, em seus escritos, fazia esta mesma leitura em relação a Lampião e outros bandoleiros famosos que agiram em outros países. Hobsbawm os incluía na lista de revolucionários que se levantaram e protestaram contra as injustiças do sistema capitalista.

O BRASIL É UMA MASSA FALIDA

   Com um rombo nas contas públicas de mais de 78 bilhões de reais, entre janeiro a julho deste ano; as estatais com um déficit acumulado de 8,3 bilhões; uma dívida pública que atingiu 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), em julho, o equivalente a 10,9 trilhões de reais, o Brasil é uma massa falida. Não vou aqui falar do déficit nas contas externas e a queda nos investimentos produtivos e na infraestrutura sucateada.

  No caso específico das estatais, “Os Correios” de hoje é a cara da massa falida do Brasil, uma empresa que foi a nocaute com um certeiro das concorrências e não se renovou. Com Mais de 80 mil empregados, registrou um prejuízo de 5,5 bilhões no primeiro semestre. Pobres carteiros, cujas cartas nem mais existem para entregar.

 Tentou enxugar, mas poucos aderiram aos pedidos de demissões voluntárias. É uma pedra no sapato do governo que não tem coragem de liquidar, privatizar ou demitir a metade por causa da tremenda reação da esquerda e da impopularidade. Do jeito que está, ninguém de bom juízo quer comprar, e não tem mais serventia nos tempos atuais.

  Vejamos ainda como anda a nossa Previdência Social. O déficit ficou em 320 bilhões de reais e as projeções apontam para um patamar superior a 250 bilhões neste ano. É mais um rombo para pagar aposentadorias, pensões e auxílios do setor privado. Os gastos com benefícios previdenciários vão além de um trilhão de reais, cerca de 12% do PIB nacional.

 O desequilíbrio continua avançando em decorrência do volume de pagamentos bem acima das arrecadações. O envelhecimento e o aumento das expectativas de vida levam os benefícios a serem pagos por mais tempo. Há menos jovens no mercado formal de trabalho para sustentar a base de contribuintes. Crescem os pedidos de aposentadorias e milhares estão nas filas de espera.

  Com a reforma trabalhista escravagista de Michel Temer, que esmagou os sindicatos e as centrais, o trabalhador se tornou massa de manobra do patrão, sem barganha para negociar. Os benefícios da carteira assinada não são mais os mesmos de antigamente. Diante do exposto, as pessoas estão migrando para a informalidade – são 38 milhões de brasileiros nessa condição, representando quase 40% da população ocupada no país – um alto contingente que não contribui com a previdência. É mais atrativo porque ganha mais e é bem menos escravo do capitalista explorador.

  Isso tudo é só uma pitada de demonstração de como o Brasil há anos é como se fosse uma empresa que trabalha no vermelho, como grande parte das famílias brasileiras, gastando mais do que se arrecada. Os pobres e as pessoas menos instruídas não entendem esse emaranhado de números e devem ficar se perguntando o que têm a ver com a dívida pública. Coisa de cachorro grande!

  Ledo engano, tudo isso recai nas costas dos mais pobres. Essa gastança desenfreada, além do que recolhe de impostos, obriga o governo federal e emitir títulos da União (papéis), pagando altos juros que resultam em mais inflação e aí, meu amigo, é um flagelo para quem tem menor poder aquisitivo.

  Comprar papéis do Tesouro é um bom negócio lucrativo do que investir em empresas comerciais e indústrias que dão mais dor de cabeça, desgastes administrativos, burocracias, altos impostos, riscos de perdas com as variáveis dos mercados interno e externo, sem contar com as questões trabalhistas.

 Além de ser uma massa falida, o Brasil é um país atrasado, arcaico, ainda com uma economia dos tempos coloniais, exportador de commodities, matérias-primas básicas, como grãos, carnes, ferro, óleo bruto do petróleo e semimanufaturados. Pouca coisa de refinados industrializados, de química fina e peças eletrônicas da tecnologia da computação.

   Para se ter uma ideia, mais de 80% dos fertilizantes utilizados na agricultura são importados. Exporta um container de grãos e compra uma caixa de chips com valor superior. O agro há anos vive mamando nas tetas do povo, o dinheiro nosso de cada dia. Por ano são bilhões de reais subsidiados pelo Estado.

   O Brasil é uma máquina pesada enferrujada num canto, como uma calandra daquelas antigas gráficas. É um país rico com uma das maiores concentrações de renda do mundo, convivendo com um povo pobre miserável que precisa de bilhões para não morrer de fome. As desigualdades sociais só aumentam porque apenas barriga cheia não faz o sujeito mudar de classe social e viver com dignidade.

  O poder desfruta das suas mordomias e privilégios em suas mansões e carrões de luxo de 500 mil a milhões, enquanto a desgraça humana padece nas periferias imundas, fedorentas de esgotos a céu aberto. O sistema de saúde é precário, apesar do SUS.

Para que servem as teorias socialistas marxistas, os discursos comunistas, se milhões são vivos-mortos? A Constituição é o tempo todo violada e a democracia vilipendiada porque os direitos fundamentais não são respeitados, como a negação de uma educação e de uma saúde de qualidade e digna.

 Qual governante líder estadista vai desmantelar esse esquema corrupto de uma máquina monstro que atravanca o desenvolvimento social? Temos presidente da República, vice, presidentes da Câmara e do Senado, onze ministros do STF, 81 senadores, 513 deputados federais, 27 governadores e mais 27 vices, 27 assembleias estaduais e 1.049 deputados.

  Temos ainda 5.568 prefeitos, o mesmo número de vices e de câmaras municipais, com cerca de 58 mil vereadores. De políticos são quase 71 mil, mais de 13 mil assessores parlamentares na Câmara Federal, 4.500 no Senado, 27 mil nas assembleias, 600 mil nas câmaras de vereadores. São quase 800 mil funcionários não concursados.

   Os gastos disso tudo chegam a quase 130 bilhões de reais mais 6 bilhões do Fundo Partidário (35 partidos registrados no TSE e mais 73 em formação). Não estamos computando aqui as escandalosas emendas parlamentares, cujos recursos vão se dissolvendo no meio do caminho. Não deveriam existir. E os penduricalhos e os supersalários?

 Ufa, estou exausto! Peço passagem para me recolher à minha insignificância. Essa é, ou não, uma massa falida? Não são as reformas trabalhista aniquiladora do trabalhador, previdenciária, tributária e outras que vão desatar esse nó. Tudo tinha que começar por uma reforma eleitoral drástica e outra administrativa que liquidassem com as castas. O sistema eleitoral é totalmente injusto na divisão dos recursos e do horário de propaganda.

  Quem ver melhora, ou um futuro a curto, médio ou longo prazo está enganando a si mesmo; é um vendedor de ilusões querendo dar uma de bom mocinho otimista, só para dizer que é um cara que acredita na mudança. Conheço esse papo há mais de 60 anos, desde quando me entendo como gente. Triste Brasil falido!

 

 

A SECA DE 1932 E O CANGAÇO

   Sempre tenho dito e repito que o Nordeste precisa ser mais estudado e lido, principalmente pelos nordestinos. Na história do Brasil, não existiu povo que mais sofreu e foi mais relegado ao isolamento e à própria sorte, desde os tempos coloniais.

 Muitos autores escritores, estudiosos do assunto, economistas renomados e acadêmicos em geral se aprofundaram nesta questão. A literatura é vasta e nela está contida cenas de horrores, massacres, barbaridades, matanças indiscriminadas, injustiças sociais, sem contar as secas e o cangaço que deixaram um rastro de destruição.

   A seca de 1877/79 foi a mais cruel e exterminou milhares de nordestinos, que maltrapilhos, quase nus, tombaram nas estradas e morreram de fome e sede. Outras vieram, como a de 1932, que também deixou um rastro de destruição, ao lado do banditismo do cangaço que não dava trégua aos sertanejos.

   Em seu livro “Maria Bonita-sexo, violência e mulheres no cangaço”, a autora Adriana Negreiros mostra esta face cadavérica da seca que até os cangaceiros precisavam lidar com este fenômeno, embora contassem com a conjuntura política a seu favor.

As mulheres (estupros), os idosos e as crianças foram os que mais sofreram com as violências das secas e do cangaço. Sobre a de 32, Adriana cita que os bois estavam morrendo tão esquálidos que os urubus só se serviam de seus intestinos.

  Nas estações ferroviárias, retirantes saqueavam trens que transportavam fardos de charques, na tentativa desesperada de conseguir algum alimento. Tropas tinham que intervir, cometendo todo tipo de espancamentos e torturas.

  “Pelas estradas, famílias que abandonavam suas pequenas propriedades de solo rachado, largavam corpos de parentes próximos, sucumbidos à fome e à sede durante as travessias. Pequenas cidades eram tomadas pelos sertanejos com crianças de pernas tão finas e barrigas tão inchadas que mal conseguiam caminhar”.

  Os bandoleiros passavam dias sem beber água. Lampião, apesar da sua resistência física fora do comum, por vezes se deitava no Raso da Catarina, clamando aos céus por uma gota d´água. Quando existia alguma fonte disponível, ela estava contaminada por besouros, larvas de insetos e fezes de cabras.

  Na Bahia, a seca de 32 se tornou ainda mais mortífera por causa de um plano mirabolante e maluco de combate ao bando de Lampião, criado pelo capitão João Miguel. Sua ideia desastrada foi a de evacuar a caatinga, visando afastar cangaceiros de seus coitos.

  O interventor Juracy Magalhães, nomeado por Getúlio Vargas, decidiu aderir à iniciativa do militar. O resultado foi que as cidades baianas, além der castigadas pela seca, passaram a receber levas e mais levas de sertanejos famintos.

  Contam que cerca de 12 mil sertanejos da zona rural foram obrigados a deixar suas casas e a viver como mendigos nas pontas das ruas, formando batalhões de famintos. Centenas começaram a morar debaixo de árvores e nos adros das igrejas, vivendo de pequenas esmolas.

  Os cangaceiros foram os que menos sentiram o rigor da seca. Eles resolveram passar boas temporadas em Sergipe onde desfrutavam de uma grande rede de coiteiros que incluía duas grandes famílias ricas, os Brito e os Carvalho.

  Enquanto sertanejos morriam de fome, mulheres eram violentadas e crianças vendidas como mercadorias, os bandos de Lampião recebiam boa comidas, inclusive queijo do reino e bebidas importadas.

Eles não paravam de cometer suas atrocidades, principalmente contra aqueles que os denunciavam à polícia, como ocorreu em Uauá e Jeremoabo, onde o senhor Manuel Salinas e seus três filhos foram barbaramente mortos. Salinas teve o sacrifício maior. Lampião cortou suas orelhas e furou seus olhos; arrancou seus testículos; e extirpou seus lábios. Não contente, ordenou aos seus cabras que quebrassem sua dentadura a coronhadas.

O velho foi colocado no lombo de um cavalo e levado até uma propriedade vizinha onde morava Ulisses, seu filho mais velho, executado com dois tiros diante da esposa e das crianças.

   Conforme se espalhou pelo sertão, além de morto a golpes de punhal, o cangaceiro Quixabeira teria aberto o peito de Salinas, arrancado seu coração e arremessado o órgão no meio do mato.

Existem relatos de sertanejos enterrados vivos e criancinhas lançadas ao fogo para punir pais delatores. As volantes também deixavam suas manchas de sangue e brutalidades por onde passavam. O sertanejo ficava entre a cruz e a espada.

O ESTUPRO DE MULHERES E MENINAS NOS TEMPOS DO CANGAÇO NORDESTINO

   O flagelo do cangaço não atingiu apenas os homens, muitos deles mortos de forma cruel e bárbaro, tendo seus corpos esquartejados e cabeças decapitadas, A violência era de lado a lado entre cangaceiros e as volantes, chamadas de “macacos”.

   Em cenas chocantes e repugnantes, centenas de mulheres nordestinas sertanejas do campo, dos vilarejos e pequenas cidades, principalmente meninas a partir dos 12 anos, foram estupradas, surradas e viviam diariamente amedrontadas ao ponto de se refugiarem nas caatingas agrestes e espinhosas.

   Final do século XIX e início dos anos 1900 foram os mais violentos, e o Estado nada fez para proteger essas mulheres. Parece   que a história apagou de suas páginas esse fenômeno social macabro que ainda teve como causa as secas, quando mulheres comercializavam seus corpos e crianças eram vendidas para não morrerem de fome.

  Um dos casos mais traumáticos, superado pela força bruta e carrasca do sertão daquela época, coisa que intriga até a psiquiatria, foi o de Dadá, mulher do cangaceiro Corisco (Cristino Gomes da Silva), o Diabo Louro.

   Menina de doze anos, da região de Santo Antônio da Glória (Bahia), que ainda brincava de boneca, foi estuprada animalescamente por ele repetidas vezes, ao ponto de deixar sua vagina em carne viva jorrando sangue. O pai teve de entregar a menina, senão seria morto por Corisco.

  O relato nojento foi feito pela escritora Adriana Negreiros em sua obra “Maria Bonita – sexo, violência e mulheres no cangaço”. A Maria Gomes de Oliveira, ou Maria de Déa, assim conhecida por causa da sua mãe, não chegou a ser estuprada porque já tinha um marido e acompanhou Lampião por vontade própria.

  Na verdade, o feminismo começou a brotar de dentro das mulheres a partir dos anos 20, embora contestado e amordaçado, especialmente no Nordeste arcaico cangaceiro. Nas páginas dos jornais, o assunto suscitava análise de articulistas como a de que o feminismo estaria se tornando uma praga terrível, entrando em searas onde jamais deveria penetrar.

  Mesmo diante das barbaridades dos cangaceiros e das volantes, onde mulheres e meninas eram violentadas porque usavam cabelos curtos e vestidos até o joelho, em 1927, a professora Celina Guimarães Viana foi a primeira mulher brasileira a se alistar para uma votação. O fato ocorreu em Mossoró (Rio Grande do Norte).

   O pioneirismo nasceu no Rio Grande do Norte quando elegeu, em 1928, a primeira prefeita da América Latina. Luiza Alzira Soriano, de 32 anos, ganhou a disputa para prefeita de Lajes, fato noticiado pelo The New York Times. Em 1920 as americanas haviam conquistado o pleno direito de ir às urnas. No Brasil, somente em 1932.

  Quanto a questão do cangaço, Maria Bonita, companheira de Lampião, foi a primeira mulher a entrar no grupo, em 1930. Outras logo vieram, como Maria Miguel dos Santos, a Mariquinha, sua ex-cunhada, que ganhou a vida em Juazeiro do Norte como rameira e passou a ser companheira de Ângelo Roque, o temido Labareda.

  Mesmo com Maria Bonita, Lampião não deixava de satisfazer seu desejo intenso de cobrir uma fêmea, como se referia ao ato de estuprar uma mulher, enquanto ela chorava. Foi um tempo de terror para as mulheres que se escondiam no mato quando se noticiava a chegada de volantes ou cangaceiros nas vilas e povoados.

Em Mirandela (Bahia), o “rei do cangaço” ficou indignado porque um homem de oitenta anos estava casado com uma mocinha. Deu uma surra no velho e convocou seus homens a aplicar “um gera” – estupro coletivo no sertão – na jovem. Por ser chefe, não entrou na fila.

  No sertão agreste, mulher que dava muitas risadas e era alegre faceira, era malvista e chamada de “sendeiras”. No entendimento dos cangaceiros, conforme ressalta Adriana em seu livro, o estupro ocorria porque as mulheres queriam. A terceira esposa do tio de Labareda, por não oferecer resistência ao “gera”, foi tida por sem-vergonha.

   Interessante que entre eles, havia até uma ética do estupro. Mulheres e filhas de coiteiros não podiam sofrer “um gera”. Em 1930, numa festa de São João, em Santo Antônio da Glória, uma menina de 15 anos, filha do protetor do “capitão”, foi deflorada pelo cabra Sabiá. Pela regra, foi imediatamente liquidado.

  As mulheres e meninas viviam entre a cruz e a espada. As volantes também praticavam o estupro. Foi o que fizeram com a filha de dona Elvira que dava asilo aos cangaceiros no interior de Pernambuco.

Numa busca em sua casa, os “macacos” encontraram a menina sozinha. O cabo Rosano decidiu estuprar a garota e depois oferecê-la aos colegas. A menina tinha 13 anos e ficou desfalecida. Em estado lastimável, o soldado achou por bem matá-la.

  A jovem sertaneja deflorada não conseguia mais se casar. Um livro popular sobre as nubentes da época, intitulado “O que uma jovem esposa deve saber”, da escritora norte-americana Emma F.A. Drake, publicado no Brasil, em 1932, definia a mulher recém-casada como assustada, tímida, cheia de um vago temor no que se referia aos mistérios do matrimônio.

   Bem, depois de Maria Bonita, tida como debochada, risada de rapariga (mulher da vida) e Mariquinha, outras entraram para o cangaço, como Antônia Pereira da Silva que se juntou ao Gato que gostou de outra mulher de nome Inacinha. Quando o cangaceiro se engraçava com uma mulher, ela não tinha outra opção, a não ser acompanhá-lo ou morrer.

   Lídia, a morena cabrocha mais bela e que chegava a usar vestidos folgados mostrando os peitos, foi companheira do depravado Zé Bahiano, o ferrador de mulheres, conhecido como o Pantera Negro do Sertão. Por ela ter se agarrado com o cabra Bem-te-Vi, foi esmagada e morta barbaramente a pauladas.

 Na cidade de Itiúba, próxima de Senhor do Bonfim, o bando de Lampião usou chicotes e palmatórias para violentar mulheres jovens que seguiam as tendências da moda e cortavam o cabelo a “la garçonne” (curtinho), como a da atriz Louise Broocks, musa do cinema mudo. Foram submetidas a uma sessão de chicotadas, conforme noticiou o jornal “A Noite” (Rio de Janeiro).

   Naquele tempo, as mulheres se reuniam para costurar, cerzir, alinhavar e tricotar enquanto batiam papos e falavam das fofocas. No entanto, era prudente certa moderação no ato do ofício.

   Segundo tese de doutorado do médico Antônio dos Santos Coragem, da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, (1919), pedalar as máquinas produzia excitação vaginal. Para evitar uma epidemia de luxúria, recomendava-se o uso das possantes apenas uma vez por semana.

O CANGAÇO E A LITERATURA

   Tanto no aspecto oral como na escrita, o cangaço ocupou um vasto espaço na literatura brasileira, especialmente a nordestina, em todos os gêneros, como ensaios, pesquisas, romances, crônicas, no cordel, na poesia e entre repentistas e trovadores.

 O tema despertou estudos acadêmicos em mestrados e doutorados, sem falar que ultrapassou fronteiras de historiadores de outros países. No jornalismo, o fenômeno foi noticiado desde os pequenos periódicos do sertão do Nordeste a grandes jornais e revistas do Sul, tendo Lampião como personagem principal, que chegou às capas do The New York Times.

  Em sua obra “Lampião-Senhor do Sertão”, a autora Élise Grunspan-Jasmin cita uma lista de importantes escritores que se dedicaram ao assunto, como do poeta, folclorista e musicólogo Mário de Andrade (1893-1945), “O Baila das Quatro Artes”, publicado em 1932.

   “É igualmente nas obras dedicadas ao folclore do sertão, como as de Leonardo Mota (1891-1947), originário da região de Quixadá (Ceará), cognominado “o embaixador da alma sertaneja”, que estão compilados numerosos poemas de cordel que têm Lampião por objeto”.

  Entre seus trabalhos, a autora pontua “Cantadores”, lançado pela primeira vez em 1921; “Violeiros do Norte e Linguagem do Sertão Nordestino” (1925), com um capítulo intitulado “Os Cangaceiros e o Folclore”; “Sertão Alegre”, de 1928; e “No Tempo de Lampião”, de 1930.

  O Centro de Pesquisa sobre o Folclore, ligado ao Departamento de Antropologia da Fundação Joaquim Nabuco, possui uma importante coleção de folhetos de cordel sobre o cangaço e obras gravadas em fitas cassete sobre a cultura oral e o folclore do sertão de Pernambuco.

  Ainda entre as mais utilizadas por estudiosos do tema, Élise destaca a obra de Gustavo Barroso, “Terra de Sol Natureza e Costumes do Norte”, publicado em 1912. Barroso que usava o pseudônimo de João do Norte era escritor, folclorista do sertão do Ceará. Entre seus livros, três tratam do cangaço, como o supracitado “Terra de Sol…”; “Heróis e Bandidos”: “Os Cangaceiros do Nordeste” (1917); e “Alma de Lama e de Aço: Lampião  e Outros Cangaceiros”, de 1928.

   Nascido em 1896, em Sergipe, filho de um coronel do sertão, o poeta e médico Ranulfo Prata escreveu baseado em testemunhos uma das primeiras obras dedicadas a Lampião ainda em vida, isto em 1934. Na tradição lombrosiana, esta obra visava relatar os males e atrocidades praticados por Lampião nos sertões de Sergipe e Bahia nos anos de 1920 a 1930.

   O tenente e depois coronel João Bezerra, oficial das forças policiais de Alagoas que, com sua tropa, pôs fim a Lampião, em Angico, em julho de 1938, nascido em 1898, no município de Afogados da Ingazeira (Pernambuco) escreveu “Como Dei Cabo de Lampião” (1940).

  Optato Gueiros, nascido em 1894, no sertão de Pernambuco, oficial que por muitos anos perseguiu Lampião, tomou a iniciativa de em 1950 escrever uma obra sobre suas atividades no seio das forças de repressão do cangaço. Trata-se de “Lampião: Memórias de um Oficial”.

  Originário da Fazenda Lagoa do Saco, município de Jeremoabo, no sertão da Bahia, Joaquim Góis, que combateu Lampião por cerca de seis anos, escreveu uma obra documentária, intitulada “Lampião, o Último Cangaceiro”, publicada em 1966.

  Dentre outros de grande importância, a escritora de “Lampião – Senhor do Sertão” inclui em sua lista, Felipe de Castro, baiano que tomou parte nas lutas contra o cangaço, escreveu nos anos 60 “História Pátria”; Estácio de Lima, médico baiano “biotipologista” escreveu o livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”,  publicado em 1965; Rodrigues de Carvalho, nascido na mesma região de Lampião (Vila Bela – Serra Talhada), publicou nos anos 60 a obra “Serrote Preto: Lampião e seus Sequazes”; Nertan Macêdo, jornalista, natural de Umbuzeiro (Paraíba) fez várias biografias de cangaceiros, do Padre Cícero, Antônio Conselheiro e Floro Bartolomeu; Aglae Lima de Oliveira, de Cabrobó (Pernambuco) escreveu “Lampião, Cangaço e Nordeste” (1970); Padre Frederico Bezerra Maciel reuniu um amplo estudo em “Lampião, Seu Tempo, Seu Reinado: Um Capitulo da Evolução Social do Nordeste”, em 1979; Antônio Amaury Correia de Araújo, nascido no Sul do Brasil, redigiu com Vera Ferreira (neta de Lampião) nos anos 1995/96, vários livros, como “O Espinho do Onipá: Lampião, a História”, “Assim Morreu Lampião”, “Gente de Lampião” e “Lampião: As mulheres e o Cangaço”, entre os anos 70 e 80; Frederico Pernambucano de Mello com sua obra-prima “Guerreiros do Sol” (1985); e José Alves Sobrinho, filho de José Saturnino, escreveu em 1997, um livro relatando os conflitos entre seu pai e Lampião.

AS EXPOSIÇÕES DAS CABEÇAS E A POLÊMICA DOS ESTUDOS CIENTÍFICOS

 Após o massacre de Angico (Sergipe), em 28 de julho de 1938, as onze cabeças decapitadas dos cangaceiros, inclusive de Lampião e Maria Bonita, foram levadas para serem expostas em Piranhas (Alagoas), do outro lado do Rio São Francisco, onde o povo se reuniu em festividades.

    De lá, sob o comando do tenente João Bezerra, as volantes conduziram as cabeças de caminhão em latas de querosene até Santana de Ipanema (Alagoas) onde ficava o quartel das tropas chefiadas por José Lucena. A exposição macabra com discursos e comemorações teve a receptividade de quase toda população sertaneja. No entanto, muito consideraram a exposição aberrante e fora de propósito.

Quando chegaram a Maceió (Alagoas), as cabeças já estavam deformadas, mas cerca de 10 mil pessoas se aglomeraram na praça principal para ver a cabeça do “rei do cangaço”, com longas entrevistas a jornalistas de várias partes do Brasil.

O interventor do estado na época, Osman Loureiro, num discurso inflamado, glorificou as forças policiais que abateram Lampião e propôs um prêmio de cinquenta contos de reis para o contingente que fez parte do combate.

    Somente depois destas exposições, a cabeça de Lampião, principalmente, foi levada para o Instituto Médico Legal de Maceió para estudos frenológicos e antropométricos. Coube ao médico legista Lages Filho, de tendência lambrosiana, proceder as análises.

   Pelas teorias do italiano Cesare Lombroso, o crime era resultado de predisposições e de fatores individuais, ou seja, a pessoa já nascia com características próprias a ser delinquente, levando em consideração a questão racial.

  De acordo com a autora de “Lampião, Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmin, as concepções de Lombroso tiveram influência no Brasil, tendo como expoente Nina Rodrigues, só que outros estudiosos discordaram de suas teorias. Para os seguidores de Lombroso, a degenerescência, causa principal do desvio e da criminalidade, devia-se, antes de mais nada, à mestiçagem.

    No relatório, Lages Filho descreveu a aparência externa da cabeça, a cor da pele de Lampião, amarelo-escura, o aspecto “selvagem” do rosto e a qualidade dos cabelos e da barba. Segundo ele, Lampião tinha características do caboclo sertanejo, mas era um dolicocéfalo, isto é, de origem africana, e não um braquicéfalo pertencente ao seu grupo étnico do sertão.

  Estudiosos, como Arthur Ramos, contestaram a origem africana de Lampião, descrevendo como um mulato, pele moreno-clara, nariz pouco achatado e os lábios grossos. Mesmo assim, foi ambíguo.

  “Ainda que para os criminologistas contemporâneos de Lampião, o cangaço tivesse causas estruturais, sociais, culturais, geográficas e econômicas inegáveis, os médicos-legistas e os professores de antropologia criminal buscaram desligar-se de um sistema de classificação lombrosiana e também racial”.

    Visto como mestiço-negro, Lampião foi arrancado do seu meio de origem e da sua cultura, excluído da comunidade sertaneja, enquanto se afirmava que a história daquele bandido alto revelava a história daquela região.

    De Maceió, as cabeças de Lampião e Maria Bonita foram parar no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, localizado na Faculdade de Medicina da Bahia e depois expostas no Museu Antropológico da Bahia, do qual Estácio de Lima, discípulo de Nina Rodrigues, era diretor.

Estácio também estudou a cabeça de Lampião e não detectou traços lombrosianos, mas características típicas sertanejas. O criminalista não encontrou anomalias em sua análise antropométrica, explicando ter sido o bandido um produto do meio e com inteligência acima da média.

PLANOS MIRABOLANTES, O PODER CENTRAL E AS CRUÉIS DECAPITAÇÕES

   Depois de tantos anos de cangaço, mais de 50, um dos maiores flagelos do Nordeste ao lado das secas, e o surgimento de Lampião, tido como invencível pelos sertanejos, muitos começaram a criar planos mirabolantes para exterminar de vez o chamado “governador do sertão.

   O banditismo dos cangaceiros se beneficiou de vários movimentos sociais, o messianismo fanático e as revoluções, para expandir suas raízes. O cangaço atravessou a passagem da Coluna Prestes, em 1926, a Revolução de 30, com a chegada de Getúlio Vargas, a Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo, a Intentona Comunista de 1935, até chegar ao Estado Novo de 1937, com o regime ditatorial.

  Lampião e seus bandos tiraram proveito disso quando as tropas policiais eram requisitadas para combater essas rebeliões.  As vilas e as cidades nordestinas, então, ficaram descobertas a mercê dos cangaceiros. A ausência do Estado, além da corrupção generalizada, fez com que os sertanejos passassem a admirar e a se simpatizar com Lampião, mesmo com todas suas crueldades e barbaridades.

  O “rei do cangaço” era bandido e herói ao mesmo tempo. A partir de 1930, Lampião passou a ser considerado como um “extremista perigoso” (questão de segurança nacional) e uma ameaça ao governo federal que passou a ter um poder centralizador.

OS PALNOS DESASTROSOS

   Para o seu fim, começaram a surgir planos com recompensas pela sua cabeça, como 50 contos de réis da perfumaria Lopes (Rio de Janeiro) e o mesmo valor oferecido pelo Governo da Bahia.

  Conforme relata a escritora Élise Grunspan-Jasmin, autora de “Lampião, Senhor do Sertão”, que cita o jornalista e escritor   Ranulfo Prata, uma das ideias foi a desastrosa tentativa de desarmamento de todo sertão e esvaziar as populações do campo para vilas e cidades próximas ao litoral.

   Esse plano insensato foi elaborado pela Bahia por sugestão do capitão João Miguel, comandante da repressão do cangaço, e consistia em esvaziar a caatinga e deixar Lampião sem armas e dinheiro. Mais de 10 mil pessoas foram retiradas de suas casas na base da força violenta. Uma multidão foi desalojada a coice das armas e tangida como rebanho pelas estradas poeirentas. O matuto sofreu por tempos o suplício do ócio nas cidades. Houve um êxodo rural forçado.

  Nas sugestões para capturar Lampião, um sertanejo propôs reunir em cada estado nordestino grupos de civis armados simulando roubos e assassinatos. As maldades levariam Lampião a incorporá-los ao seu grupo e estes seriam seguidos pelas forças policiais que acabariam com os cangaceiros.

 Outro sugeriu que, em troca de uma libertação condicional, se confiasse ao ex-cangaceiro Antônio Silvino, preso na Casa de Detenção de Recife, a incumbência de capturar Lampião. Ele serviria de guia para as forças de repressão.

  Um sertanejo de nome P.A. Lívio apareceu com um plano mais sofisticado. Um aparelho de reconhecimento, como um avião, faria um levantamento fotográfico dos pontos de concentração de Lampião. Depois disso, quatro aviões munidos de granadas e de gás asfixiante bombardeariam um raio de ação em círculo numa faixa de quinhentos metros. Uma quinta aeronave bombardearia a zona central das operações provocando destruição dos bandos, pois eles ficariam aprisionados no “círculo da morte”.

  O mais ousado foi do capitão Chevalier (Expedição Chevalier), do Rio de Janeiro, que demandaria muito custo ao governo federal e não foi colocado em prática, como os outros. Seriam escolhidos 900 combatentes entre um grupo de dois mil voluntários, celibatários e prontos a sofrer privações.

A Coluna seria dividida em vinte grupos, com engenheiros para a construção das pistas de pouso e técnicos munidos de rádio, além de médicos, enfermeiros, telegrafistas e oficiais bem treinados. Chevalier blefou quando disse que já teria introduzido dois espiões no grupo dos cangaceiros.

  Pela imprensa, Lampião soube desse plano e zombou do capitão, dizendo que gostaria de enfrentá-lo com seus soldados em seu próprio terreno e revidou atacando cidades do sertão. Descobriu-se depois que Chevalier era um falsário de selos fiscais e terminou sendo preso. Getúlio Vargas disse que ele queria mesmo era liquidar o tesouro nacional.

  Num artigo, o jornalista Austregésilo de Atayde ressaltou o ridículo dos métodos policiais e propôs a criação de uma polícia federal, como a que no presidente Roosevelt conseguiu organizar para suplantar os gangsteres que infernizavam os Estados Unidos nos anos de 1920. Até o ocultismo foi chamado em socorro.

O HORROR DAS DECAPITAÇÕES

  Em 28 de julho de 1938, em Angico (Sergipe), os policiais fizeram troféus macabros dos corpos mortos dos cangaceiros através da prática da decapitação de suas cabeças.

De acordo com a autora Élise, tudo leva a crer que a decapitação, a profanação de cadáveres e a exposição pública já tinham sido praticadas desde muito tempo no Brasil no momento em que o poder público estabelecido se defrontava com movimentos messiânicos que pusessem em risco sua soberania.

  Em novembro de 1695, quando acabaram com o Quilombo dos Palmares, o corpo de Zumbi foi cortado e em seguida decapitado. Sua cabeça foi objeto de exposição pública em Recife.

   Em 1792, Tiradentes foi enforcado no Rio de Janeiro e depois esquartejado e pedaços expostos nas estradas de Minas Gerais, bem como sua cabeça em Ouro Preto.

  Em setembro de 1849, o bandido Lucas da Feira, um escravo negro, foi enforcado na Praça Campo de Gado, na vila de Feira de Santana, na Bahia, com festividades para o povo. Em 1854 seu cadáver foi desenterrado e depois decapitado para que sua cabeça pudesse ser objeto de análise frenológicas por parte de Nina Rodrigues, em Salvador, na Faculdade de Medicina da Bahia.

   Em 1893, no Rio Grande do Norte, as tropas federais puseram fim à revolução liderada por Gumercindo Saraiva que Nina Rodrigues o comparou, mais tarde, aos jagunços de Antônio Conselheiro. Saraiva foi morto em 1894 e seu cadáver foi depois desenterrado para ser exposto à beira de uma estrada.

  Outros casos semelhantes ocorreram no Brasil, como em Canudos, só que alguns autores fazem uma diferenciação entre decapitação e degolamento, pratica considerada corrente entre os soldados do Rio Grande do Sul.

  Mesmo depois de morto antes do ataque final a Canudos, os soldados, que não procediam da mesma cultura nem da mesma, região, profanaram a sepultura de Antônio Conselheiro e seu cadáver foi decapitado.

 

 

SUPERTIÇÕES E REZAS

   Lampião tinha o seu lado cangaceiro, trágico, violento, cruel e bárbaro, mas também uma banda mística, religiosa e cheia de superstições e rezas. Os sertanejos nordestinos daquela época viam esta faceta e até o consideravam assim, tanto que achavam que ele era imbatível e invencível de corpo fechado. Era até um enviado de Deus para fazer justiça.

  O “rei do cangaço” passava esta mística para seus companheiros cangaceiros, oravam juntos as suas rezas e cumpriam as obrigações supersticiosas. Lampião chegava até a rezar “missa” nos esconderijos e todos levavam nos saquinhos amarrados as suas orações. Jejuava nas quartas-feiras. Dizem que Virgulino tinha até o poder de envultar, de desvendar sonhos e da adivinhação.

   A imprensa do sertão e do litoral, inclusive do Rio de Janeiro, mesmo com seus exageros, teve um papel preponderante na divulgação dos fatos, ora contando as histórias e feitos por onde o bando passava, ora mostrando a deficiência dos governantes e das forças das volantes em acabar de vez com o cangaço. Denunciava as corrupções das tropas, suas violências contra os camponeses e a ausência do Estado no Nordeste.

  Bem, vamos a algumas superstições enumeradas pela autora Élise Grunspan-Jasmin em seu livro “Lampião, o Senhor do Sertão”. A lista é extensa, mas algumas nos chamam a atenção, como cangaceiros não comem tapioca, não sentam numa pedra que serviu para amolar facas, só passam por debaixo de uma árvore no seu lado direito e não saltam por cima do muro e sim de lado, levantando primeiro a perna direita.

 Dentre outras, destacamos que cangaceiros não trocavam de roupa, evitavam tomar banho (dizem que Lampião perdeu suas mágicas e foi morto porque acampou no leito seco de um riacho e chovia muito), não bebiam água de bruços e quando bebiam jogavam um pouco nas costas, limpavam os anéis que roubavam e depois assopravam, nos fuzis colocavam um número ímpar de balas, nunca se barbeavam na sexta-feira, a segunda é consagrada às almas e a terça-feira é fonte de perigo, não montavam em égua prenhe e nem em selas onde existiam roupas de mulheres, não passavam por debaixo de redes, no pescoço do cavalo e em mudanças evitavam relações sexuais.

  Quanto as orações, segundo a autora da obra, os cangaceiros estruturavam suas vidas em torno de rituais mágico-religiosos específicos, mas se protegiam com inúmeros amuletos, como as figas, patuás e, principalmente as rezas fortes, faladas ou escritas em pedaços de papel colocadas em saquinhos.

  As orações fortes mais antigas são a Oração Preciosa, a Oração Poderosa e Reservada, que permitem graças aos segredos que encerram, vencer as adversidades e defender-se contra as forças do mal e dos inimigos.

  Existiam entre eles outras rezas, como a Oração do Rio Jordão, a Oração de Santa Catarina, de São Jorge, Custódio ou Oração das Doze Palavras Ditas e Retomadas, o Creio-em-Cruz, a Força-do-Credo, Credo às Avessas, o Rosário de Santa Rita, a Oração da Cobra Preta, a Oração da Pedra Cristalina, a Oração das Estrelas, a Oração do Sonho de Santa Helena, dentre outras.

AS CRUELDADES DE LAMPIÃO

   Sabemos que os sertanejos, os testemunhos e a imprensa do sertão e do litoral daquela época exageravam, mas os fatos de crueldades ocorreram, com requintes de barbaridade animalesca.

 Lampião tinha até seus momentos de generosidade, mas quando se tratava de vingança contra aqueles que o denunciavam, despejava toda sua raiva monstruosa. Houve tempos em que seus bandos deixaram os cabelos crescerem e por onde passavam deixavam um odor desagradável misturado com perfumes.

   Por natureza, o “rei do cangaço” já era violento, porém aumentou a partir das perseguições de José Saturnino, da ausência da justiça e quando teve quase toda sua família exterminada pelas Forças das Volantes. Primeiro foi seu irmão Livino, em 1926, depois Ezequiel, em 1934, o Antônio, sem contar seu pai José Ferreira e sua mãe por volta 1930.

Como os sertanejos em geral, movidos pelas secas inclementes, as injustiças sociais, o poderio dos coronéis, dos chefes políticos, pelo atraso e o isolamento total do país, Lampião tinha essa alma árida, carrasca, agreste, de casca dura, pedregulhosa e espinhosa como a caatinga e o chão estorricado do Nordeste.

  Em seu livro “Lampião – Senhor do Sertão”, a autora Élise Grunspan-Jasmin descreve alguns trechos horríveis dessa crueldade de Lampião contra seus próprios conterrâneos, citando, inclusive, cordelistas, jornalistas e escritores, como o Ranulfo Prata que muito fala de seus crimes repugnantes.

  Nos combates, talvez uma tática para amedrontar seus inimigos, os cabras e o bando de Lampião gritavam, xingavam e urravam como demônios, ao ponto de soldados das tropas atirarem sem ermo e outros corriam em disparada pelas caatingas e desapareciam.

  Quando esteve na Bahia, por exemplo, entre 1928 até meado dos anos 30, Lampião cometeu muitos massacres, alguns deles ficaram marcados na história, como a matança de sete soldados em Queimadas, de uma forma cruel.

   Muitos artigos e obras escritas insistem no seu desejo de reduzir suas vítimas à animalidade, ferrando o corpo dos vencidos, deixando nele a sua marca. Num capítulo da sua obra intitulado “Crime”, o sertanejo Ranulfo enumera algumas perversidades perpetradas por Lampião na Bahia e Sergipe, em cinco anos que os ocupou.

   De acordo com om autor, a singularidade de Lampião exprime pelos suplícios e sofrimentos físicos e morais, sempre atento para inventar novos requintes de crueldade. Após os saques de casas comerciais, cortava orelhas, castrava, estuprava raparigas adolescentes, contaminando-as do mal venéreo e violava mulheres casadas à vista dos maridos.

   De certa feita traçou a canivete duas longas e obliquas incisões nas costas de uma vítima que obrigou o paciente a ir para Caldas do Cipó, onde levou meses à espera de uma cicatrização custosa de se fazer. Além dele, os sertanejos também sofreram nas mãos das volantes e dos cangaceiros que o precederam.

   Ranulfo conta o caso do velho Salinas, pequeno proprietário do Sítio Almacega, situado nos arredores de Jeremoabo, na Bahia. Ele caiu na besteira de informar às volantes onde se encontrava Lampião. Sabendo da vingança, Salinas deixou todos seus bens e se escondeu na cidade.

  Em maio de 1930, Salinas resolveu voltar para sua casa, mesmo sob advertência dos amigos e parentes. Lampião esperou o momento certo e entrou em sua casa. Com ares solenes, lembrou-lhe a perfídia do seu ato, antes de infligir-lhe o castigo.

  Depois, com sangue frio e calculista, amarrou quatro dos seus cinco filhos, braço com braço, perna com perna, abatendo-os com uma bala na cabeça, exigindo que o pai visse todo suplício. Após os filhos, Lampião cortou as orelhas de Salinas, arrancou o olho direito (o seu era defeituoso), castrou-o, quebrou seus dentes e ordenou que indicasse o caminho até a casa do seu último filho.

  Após entrar na casa, Lampião abateu seu último filho com uma bala de fuzil. O pai, em seguida, foi liquidado e Lampião abriu seu peito para ver como era o coração de um traidor. Depois de tudo, partiu, deixando suas vítimas sem sepultura.

  Para Ranulfo, o cadáver de Salinas simboliza o sofrimento vivido todos os dias pelos sertanejos. Esse cadáver revela a impotência do sertanejo, sempre vítima da violência que lhe é constantemente infligida, corpo machucado, mas também corpo excluído do corpo social, corpo esquecido de todos.

  Ele diz que sua obra não representa apenas um documento fiel das atrocidades, mas é também concebida como eco do clamor e do apelo lançados pelas populações desditosas, que vivem, escorchadas sob o couro duro de suas alparcatas.

  Clamor que deseja ser ouvido pela consciência pública brasileira e apelo dirigido aos responsáveis pelos destinos do país. Em minha opinião, até hoje, este país dividido, tem uma dívida alta para com o Nordeste.

 Para Ranulfo, somos mero porta-voz da angústia de milhares de seres humildes, dos mais desgraçados do país, pés-rapados, párias, intocáveis, açoitados por mil flagelos.

  Dizem autores, escritores, jornalistas e historiadores que Lampião, em certos momentos, era dotado de uma força destruidora sobrenatural ou mesmo diabólica. O artigo do colunista Humberto de Campos, no Diário de Pernambuco, em junho de 1926, descreve o ataque à vila de Curaçá, na Bahia.

  À frente de 60 cangaceiros, ele invadiu a vila, estuprou, roubou, depredou, matou, asfixiou e fez jorrar sangue. Quinze homens tombaram. O coração de um deles foi arrancado pela garganta e levado como troféu entre gritos e urros.

 Num artigo do Diário de Pernambuco, de 5 de agosto de 1938, o ex-cangaceiro Gato Bravo relembra os suplícios infligidos por Lampião ao velho José Vieira, habitante de Serra da Furna, próxima de Santana do Ipanema. Lampião amarrou os testículos dele numa corda, passando-a numa viga e puxando-a devagarinho.

  Outra vez, em Tapera do Padre, segundo Gato Bravo, o seu chefe colocou um homem num balanço, rodando até subir muito e deixando voltar, enquanto seu pessoal dava gargalhadas. O infeliz morreu louco, caindo no chão como uma cabra.

  Uma terminologia médica definia o drama de que padecia a região. “O sertão, e por extensão o Nordeste, é visto como uma região “doente” do cangaço”. Em decorrência da ausência do Estado, a sociedade brasileira constatava que o cangaço era um mal crônico impossível de ser erradicado.





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