:: ‘Encontro Com os Livros’
OS SACRIFÍCIOS DA PEDRA BONITA
AS LENDAS, ATRAVÉS DA TRADIÇÃO ORAL, GERAM O MISTICISMO QUE SE ENTRELAÇA E GRUDA NO CONSCIENTE POPULAR EM FORMA DE CRENÇA, TRANSFORMANDO O IRREAL EM REAL. O MÍSTICO FAZ A LAVAGEM CEREBRAL QUE INDUZ O INDVÍDUO AO SACRIFÍCIO DO ALTAR.
O naturalista escocês George Cardner, em suas viagens pelo interior do nosso país, nos anos de 1840, constatou que o sebastianismo no Brasil, especialmente no Nordeste, era mais forte que em Portugal. Os seguidores dessa seita acreditavam que com a volta do Rei D. Sebastião, o Brasil gozaria da mais perfeita felicidade.
Conta a história que no dia 4 de agosto de 1578, o soberano português D. Sebastião pereceu na batalha de Alcácer-Quibir, em Marrocos, contra os mouros comandados pelo sultão Abdal-Malik.
Mesmo a contragosto de seus oficiais, o soberano foi lutar na África por meio de uma Cruzada de guerra santa contra os infiéis, visando expandir o território português. Desde sua infância, diziam que ele foi predestinado à glória. Como católico fervoroso e ávido de conquistas, o povo aspirava por uma Idade do Ouro para Portugal.
O desaparecimento do rei-guerreiro foi misterioso, mas fez surgir as lendas e os movimentos místicos que passaram a invocar o seu ressurgimento. Essas lendas e o mito alcançaram terras desbravadas pelos portugueses.
De acordo com a professora e escritora Marilourdes Ferraz, em seu livro “O Canto do Acauã”, falam que o primeiro movimento sebastiânico no Brasil surgiu em Pernambuco, no ano de 1819, no município de Bonito.
No ano de 1836, em Vila Bela (Serra Talhada), no sertão de Pernambuco, apareceu um caboclo de nome João Antônio dos Santos com duas brilhantes pedrinhas na mão e com um folhetim. Em suas andanças, contava a lenda do rei desaparecido, visando conquistar adeptos para sua nova seita.
Com suas palavras de persuasão, arrastou seguidores, como nas redes sociais de hoje, e atingiu o ápice emocional, resultando numa carnificina que ficou na história e abalou o sertão, em maio de 1838.
Mais de 50 pessoas foram sacrificadas de forma bárbara no altar da Pedra Bonita, localizada na Serra Formosa. O João Antônio se tornou “rei” e fez um rebanho acreditar que os sacrifícios humanos purificariam a pedra e abririam espaço para o retorno de D. Sebastião. Aliás, dizia que era um pedido do próprio rei desaparecido.
As narrativas de João Antônio tornaram-se motivo de grande poder persuasivo por estarem integradas à cultura da região nordestina, isolada por séculos do resto do Brasil. O povo cultuava o hábito de contar histórias reais e imaginarias, encantando e impressionando as pessoas mais simples.
Pela sua habilidade do saber dosar as narrativas, com seus gestos e expressões corporais, extraindo emoções, João tinha a magia da arte de contador de histórias, ao ponto de fazer com que o sertanejo acreditasse nelas.
Ele lidava com as pedrinhas brilhantes e o folhetim, tornando o irreal em real. Com seus instrumentos de indução, passou a convidar a todos a acompanhá-lo ao local onde aconteceria o desencantamento de D. Sebastião, com todo o esplendor do seu reino.
Na Serra Formosa existiam (ainda existem) duas grandes pedras quadrangulares que eram as “torres de uma igreja”, conforme relatava João Antônio. Na verdade, era só uma pedra bonita em virtude da incrustação de malacachetas que faziam pratear e serem vistas pelos moradores como coisa inusitada e misteriosa. Próxima à pedra, existia uma lagoa, também encantada. De lá, João retirou as pedrinhas que eram exibidas por onde passava.
O místico dizia ter sido guiado pela mão de El-Rei que lhe oferecera a visão do que seria o reino encantado. O vidente passou a dizer que tudo que era encantado só desencantaria com muito sangue para regar todo “campo santo” e romper o encanto que aprisionava D. Sebastião.
As promessas aos seguidores eram irresistíveis, como pretos que se tornariam brancos e seriam todos imortais, ricos e poderosos. Os velhos voltariam a ser jovens. O lugar passou a ser um “santuário”, a pedra dos sacrifícios e o torno de João Antônio, donde ele fazia suas pregações e dava ordens aos fiéis.
Na tarefa de doutrinação, Antônio era auxiliado por uma equipe de pessoas da sua família e parentes de confiança, como seu pai Gonçalo José dos Santos.
Contava ainda com a colaboração de muitos outros para efetuar a peregrinação e propagação da seita que atraiu muita gente de outros lugares, como das ribeiras do São Francisco, Cariri, Riacho do Navio e do Piancó (Paraíba). Todos queriam ver as coisas “bonitas” que iriam acontecer.
As pessoas concentradas na “Pedra Bonita” perdiam o direito de se retirar do local. Nas tarefas, criadas por João, os grupos de trabalho eram vigiados por guardas da seita. Fazendeiros entregaram todo seu gado e economias, acreditando que depois tudo seria devolvido em dobro.
Existia uma rígida disciplina, como a proibição de banhos e lavagem de roupas até que ocorresse o grande evento que seria o retorno de D. Sebastião. Durante todo tempo, todos entoavam cânticos religioso, benditos e rezas. A alimentação era à base de legumes colhidos nas fazendas das redondezas.
Tudo isso funcionou muito bem para o êxito de uma lavagem cerebral onde todos estavam dispostos aos sacrifícios humanos. As consciências ficaram ainda mais entorpecidas através da ingestão do “vinho encantado” preparado com a infusão da jurema e manacá, acompanhado pelo hábito de fumar cachimbos que continham ervas entorpecentes misturadas ao fumo.
Os fatos tenebrosos passaram do limite e forçaram o padre missionário Francisco Correia, que perdeu seus fiéis para a seita, investigar a situação. Organizou missões e chamou João Antônio para uma conversa, que entregou as duas pedrinhas e partiu para o Cariri. O padre, então, retornou para a comarca de Flores, crente de que a seita teria sido extinta.
Ledo engano, os sebastianistas retornaram, agora guiados por um novo “rei”, João Ferreira, que sentou no trono e ditou as novas regras, como a de que o homem poderia se casar até com três mulheres, contanto que todas elas passassem a primeira noite com ele que já era casado com Josefa, a irmã do primeiro “rei”.
A grande tragédia da Pedra Bonita, que depois passou a ser chamada de Pedra do Reino, aconteceu na manhã do dia 14 de maio de 1838 e se estendeu entre os dias 15 e 16. Os próprios integrantes da seita foram dizimados. Depois avisou que El-Rei estava desgostoso com o povo que não tinha fé e não podia desencantar. Os sebastianistas indagaram, então, o que poderia ser feito.
João Ferreira respondeu que era preciso regar todo “campo santo” e as pedras das “torres da catedral” para que o “reino” surgisse em sua glória. Todos ouviram uma “voz” no fundo da pedra e interpretaram como a se fosse a de D. Sebastião.
Nesse momento, a turba ficou ensandecida com cânticos e rezas. O pai de João Ferreira foi o primeiro a colocar seu pescoço na pedra para ser sacrificado. Outros fiéis imitaram o gesto. Um idoso de nome João Pilé, agarrou seus netos e com eles mergulhou para a morte do alto de um rochedo, mas na queda deu conta da loucura e conseguiu se salvar. Os netos não tiveram a mesma sorte. Uma mulher matou dois filhos menores, mas os maiores fugiram e um deles conseguiu abrigo na casa do fazendeiro Manoel Ledo de Lima. Josefa, que estava grávida, foi tão violentamente golpeada que provocou o nascimento do filho, mas este rolou pelas pedras para a morte. Outros pais deceparam as cabeças de seus filhos.
No final do terceiro dia, estavam lavadas de sangue as bases das pedras e o solo do “reino encantado”. Foram trucidados 12 homens, 30 crianças e 11 mulheres. Além dos humanos, 14 cães foram executados, destinados a serem os “dragões do reino”.
Quando o ar ficou empestado pelo mau cheiro da carnificina, os sobreviventes foram para outro campo. Construíram cabanas e ficaram esperando a chegada de D. Sebastião.
No dia 17, o Pedro Antônio, irmão de Josefa, sentou-se no trono e ordenou a execução do cunhado João Ferreira, com o argumento de que para completar o sacrifício, D. Sebastião havia lhe dito que só faltava o “rei”. Os fanáticos torturam João Ferreira, quebraram sua cabeça e arrancaram suas entranhas.
No mesmo dia, o vaqueiro José Gomes, que estava na Pedra Bonita, conseguiu escapar da chacina e correu até a fazenda Belém onde se encontrava o major Manoel Pereira da Silva, da Guarda Nacional, e denunciou os fatos. Outros também foram até a fazenda de Manoel Ledo narrando a mesma história.
O major reuniu uma força de 26 homens e pelo caminho a tropa foi aumentando. Quando os combatentes chegaram à Pedra Bonita, os homens, nus da cintura para cima, estavam armados de facões e cassetes. Enquanto isso, o Pedro Antônio agitava seus adeptos com gritos de guerra a defenderem o reino. Com cânticos, rezas e ladainhas todos avançaram contra os soldados, no corpo a corpo.
No combate ficaram 22 cadáveres, sendo o do “rei” com 16 de seus sectários e dois irmãos do comissário-major, além de muitos feridos entre outros soldados. Dois meses depois dos acontecimentos, o missionário Francisco Correia foi sepultar os mortos e contou 53 corpos. Todas as ossadas foram enterradas numa grande vala. Até hoje contam que o local em torno da Pedra Bonita (Pedra do Reino) ficou mal-assombrado.
AS CRENDICES NORDESTINAS QUE REGIAM A VIDA DOS CANGACEIROS
Pelo seu próprio misticismo secular religioso, o Nordeste sempre foi uma região pródiga em crenças e superstições populares. Essas crendices regiam a vida dos cangaceiros desde os episódios e sinais mais comezinhos da natureza, incluindo a fauna e a flora.
A professora e escritora Marilourdes Ferraz, em sua obra “O Canto do Acauã” comenta que “ao trilhar uma certa rota, os cangaceiros retornavam imediatamente por outro caminho se uma acauã, ou acoã, como o chamavam, cruzasse os céus sobre suas cabeças com o canto característico do agouro”.
Mesmo havendo necessidade de uma viagem para atacar o inimigo ou resolver algum negócio, eles desistiam do intento se entre as dezoito horas e as vinte e duas horas da noite anterior ouvissem o canto do galo.
As primeiras segundas-feiras do mês de agosto eram dias em que evitam fazer encontros com as forças das volantes. Para eles, eram dias considerados aziagos, no seu linguajar “dias e águas”. No entanto, quando ocorria por acaso, não tinha jeito, todos entravam na luta.
Quando um cangaceiro estava deitado no chão, o outro não passava por cima do seu corpo ou das suas pernas sob pena de haver feroz briga devido ao “enguiço” causado. Tinha que haver o “desenguiço”.
Outra crendice consistia em não se dar passadas por cima dos calçados, nem de armas devido a “atrasos” na vida que isso poderia causar. Não conduziam o rifle ou fuzil atravessado às costas, formando uma cruz, por ser um mau presságio. A cruz tem um simbolismo relacionado com a morte.
Os cangaceiros desistiam de uma viagem se os sabiás se reunissem agitados junto ao grupo. Essas crendices também se estendiam às volantes e aos sertanejos em geral. Quando passavam próximo a uma cruz, todos se benziam para que seus corpos continuassem “fechados”. De um modo geral, as pessoas cristãs, ou mesmo não religiosas, praticam esse hábito e ainda fazem posições de reverencia.
A condução, junto ao corpo, de espelhos ou alpercatas atraiam balas. Se um cachorro uivasse em redor da casa ou se as corujas cacarejassem na comieira, esses sinais eram interpretados como “mau agouro”. Pedregulhos correndo nas telhas e gado mugindo à noite indicavam que alguma pessoa da família iria morrer.
Pela superstição, sentar à porta tornava o corpo “aberto”, isto é, vulnerável a ferimentos. Matar uma cobra era o mesmo que atrair balas. Os uivos de raposas eram agourentas e tornavam as pessoas cismadas. Os ofícios de Nossa Senhora deviam ser assistidos de joelhos. Os que assistiam em pé não teriam sucesso em suas atividades.
Lampião tinha seus artifícios para se livrar de emboscadas e provocar o despistamento. Muitas vezes, em viagem, ele tirava o chapéu e colocava-o no ombro. Às vezes apanhava um ramo verde de árvore e cruzava-o no caminho. Depois dava ordem para que todos se dispersassem e se encontrassem em outro local, ou mudava de rota.
Essas crendices e superstições não estavam somente ligadas aos cangaceiros, mas aos nordestinos em geral. Muitas dessas crenças permanecem em nossas memórias e se arrastam pelo tempo, especialmente entre as velhas gerações.
Quando menino, lembro que meus pais e os antigos respeitavam determinados crenças que foram adquiridas de seus antepassados e ancestrais, sobretudo aquelas ligadas à religiosidade. O terço, por exemplo, tinha que ser rezado de joelhos.
LAMPIÃO FOGE DE PERNAMBUCO E FAZ ESTRAGOS NO SERTÃO BAIANO
Com o cerco ao banditismo pelo governo pernambucano de Estácio Coimbra, tendo como comandante Geral das Forças Volantes, Teófanes Torres Ferraz, o mesmo que capturou, em 1914, o cangaceiro Manoel Alves Batista de Moraes, o famoso Antônio Silvino, o temido Lampião foge para a Bahia em final de agosto de 1928 e faz estragos no sertão.
Na realidade, Virgulino Ferreira já estava enfraquecido, com seu bando reduzido depois da frustrante invasão à cidade de Mossoró (Rio Grande do Norte), em 1927, com 90 homens bem armados quando esteve em Juazeiro do Norte, em 1926, e recebeu modernas armas do governo federal para combater a Coluna Prestes.
Um dos primeiros atos de Estácio Coimbra foi mandar prender os coiteiros (sertanejos, fazendeiros coronéis, usineiros e até chefes políticos), deixando os bandoleiros desorientados. Outro fator que pesou na caça aos cangaceiros foi o apoio do governo pernambucano através da reposição de provisões de armas, munições e o soldo nos prazos determinados.
Essas medidas, conforme relata a escritora Marilourdes Ferraz, em seu livro “O Canto do Acauã”, resgatariam a campanha em Pernambuco, tornando-a numa eficiente realidade. Foram conservadas as táticas de lutas e as vestimentas apropriadas à caatinga e às modalidades de combate nela desenvolvidas, porque eram as tradicionais da região.
Em 1928, o bando de Lampião já se encontrava reduzido e não tinha condições de enfrentar as volantes. Sua tática foi fugir para a Bahia onde as forças policiais estavam enfraquecidas e não tinham experiências de combates na caatinga. Então, ele atravessou o Rio São Francisco em demanda do sertão baiano, partindo do sopé da Serra Negra, em Floresta, com apenas cinco homens (chegou a ter 130 a 150), entre eles o Luis Pedro, seu fiel escudeiro.
Seu itinerário englobou a Serra Tonã, a fazenda Salgado e o povoado Várzea da Ema, município de Glória. Naquela localidade, Lampião encontrou refúgio na fazenda Gangorra. Mesmo assim, as tropas pernambucanas foram ao seu encalço, mas sem sucesso.
Essa perseguição rendeu alguns versos, como “A força de Pernambuco/ É um bando de urubu/ Perseguindo Lampião/ Que é filho de Pajeú”. De início, Lampião mudou estrategicamente seu comportamento na Bahia, de cabra violento para pacato e bondoso, capaz de esbanjar dinheiro para a população, com intuito de fazer crer que ele era vítima de uma injusta perseguição.
O povo baiano acreditou nessa farsa e chegou a impressionar o coronel Petronilo Reis, chefe político de muito prestígio na área de Glória. Foi o primeiro protetor de Lampião na Bahia, tanto que o governo do estado solicitou o retorno das volantes pernambucanas à sua terra de origem.
Virgulino só estava esperando o momento certo para atacar, reforçando o seu bando, e Petronilo terminou sendo o principal objeto da sua ira quando deixou de ser-lhe útil. Depois que conheceu a região, coligou-se aos irmãos Engrácia no vizinho estado de Sergipe.
Na Bahia, incluiu novos elementos, como seu irmão mais novo Ezequiel, Corisco e as mulheres Dadá e Cila, uma grande novidade para o cangaço, pois na cultura sertaneja, a relação sexual tornava o homem vulnerável, com o “corpo aberto” a balas e facadas, e embotava seus sentidos para os perigos da caatinga.
Não demorou muito para o governo baiano pedir reforço às volantes de Pernambuco, inclusive com a aquiescência do coronel Petronilo e outros fazendeiros. Em 1929, os cangaceiros chegaram a assassinar quatro soldados baianos. Sucederam-se outras mortes, incêndios, roubos e sequestros.
Ainda nesse mesmo ano, em julho, ocorreu o assalto à vila de Pedra Branca e, no povoado de Brejões, foram aprisionados e mortos mais quatro policiais e um cabo. Em outubro, o bando ameaçou os trabalhadores da estrada de Juazeiro a Santo Antônio de Glória, visando interromper os trabalhos (Lampião tinha pavor a estradas). Nove homens da obra foram mortos.
Em dezembro de 1929 aconteceu um episódio macabro que deixou a população de Queimadas, na Bahia, aterrorizada. Com dezoito cangaceiros, Lampião forçou o juiz a preparar uma lista para a coleta de dinheiro e realizou diversas atrocidades, como o fuzilamento de sete soldados na porta do quartel.
De acordo com o major Optato Gueiros, em seu livro “Lampião”, em Queimadas ocorreu um fato curioso. Ao penetrar na vila, um policial ao deparar-se com a situação do destacamento, ajoelhou-se e começou a orar. Lampião aproximou-se dele e deu ordens para que seus cabras não bulissem com o homem. “Não estão vendo que ele está doido?
Quando caiu a noite, os cangaceiros fizeram uma festa em comemoração pelos lucros auferidos em Queimadas. Em 1930 aconteceu outra tragédia nas proximidades da Serra do Urubu. Num tiroteio, morreram o tenente Geminiano Santos, um sargento e mais cinco companheiros.
COMO “PADIM CIÇO” ARMOU LAMPIÃO E SEU BANDO NO AUGE DO CANGAÇO
Com a psicose de combater a Coluna Prestes, através dos ”Batalhões Patrióticos”, o padre Cícero, ou “Padim Ciço”, como era chamado no Nordeste, convocou Lampião e seu bando, em março de 1926, para se juntar às forças das volantes contra o comunismo.
Na ocasião, ele e o deputado baiano Floro Bartolomeu armaram um esquema fajuto e deram a Lampião uma falsa patente de capitão além de armas “modernas” do exército, distribuídas a todos seus comparsas, mais de 100 homens, e isso com o aval do Governo de Arthur Bernardes.
Lampião e seus bandoleiros foram recebidos com honras em Juazeiro do Norte, num encontro ou num circo onde o povo se aglomerava em frente à casa de “Padim Ciço” para ver o “rei do cangaço”. Todos queriam apertar suas mãos.
O sacerdote acreditava convencer Lampião a deixar o cangaço, mas o cangaceiro, que era cabra esperto, aproveitou a oportunidade para se armar e viveu o seu auge naquele ano, com saques e mortes, deixando um rastro de terra arrasada no sertão. Ao se sentir fortalecido, até se atreveu atacar Mossoró, em 1927, só que se estrepou e aí sofreu suas piores baixas entre 1927/28.
Em suas narrativas sobre as memórias do seu pai Manuel Flor, combatente do cangaço, a professora e escritora Marilourdes Ferraz, em sua obra “O Canto do Acauã”, conta que depois de assassinar José Nogueira, um de seus maiores inimigos, Lampião chegou a Juazeiro, no Ceará, em março de 1926, convidado por pessoas de prestígio na região do Cariri e pelo seu líder carismático padre Cicero.
Na época, Juazeiro formava o quartel-general do “Batalhão Patriótico”, construído para combater a Coluna Prestes. O propósito era fustigar os “revoltosos”. Lampião e o bando, em meio às festanças, receberam armamentos do exército e abundante munição, “ato validado por uma farsa de promoção: Um funcionário federal, o inspetor agrícola Pedro de Albuquerque Uchoa outorgou as “patentes” de capitão a Virgulino Ferreira; de primeiro-tenente a Antônio Ferreira, seu irmão e a de segundo-tenente a Sabino Gomes de Góis”.
A escritora afirma que essa fantasiosa pretensão de legalidade deu impulso à vida de Lampião como bandoleiro que se encontrava em baixa. Anteriormente seu grupo atingia um número de quinze a vinte homens, raramente cinquenta a sessenta. Logo no cerco a Nazaré, lançou noventa combatentes. Em pouco tempo alcançou cento e trinta homens bem armados com Mausers automáticas e uma profusão de munição.
Planejaram combater a Coluna Prestes. De início, Virgulino empreendeu marcha com essa finalidade e para causar boa impressão. “Quero ver se esse Prestes, presta mesmo”. Do Ceará, entretanto, retornou a Pernambuco e penetrou em Cabrobó, onde a população lhe entregou dinheiro e objetos para evitar problemas.
Saindo de Cabrobó, seguiu ao longo do Rio São Francisco rumo à cidade de Belém do São Francisco. Precavido, nas proximidades, incumbiu um mensageiro de avisar às autoridades locais que Lampião, na qualidade de “capitão”, iria entrar na cidade.
Na ocasião, o coronel João Nunes, que organizava a defesa regional, com o objetivo de repelir a Coluna Prestes, respondeu: Diga a Lampião que não o conheço como capitão e que, se vier, eu o recebo a bala. Deu meia volta e foi a Salgueiro e dali seguiu à sua zona de preferência de atividades, em torno da vila de São Francisco.
Em 1926, o problema atingia o ponto crítico e a impressão que se tinha era que, no sertão, não havia lugar para se exercer outras atividades que não de cangaceiro, miliciano das volantes, bem como informante de uma ou outra facção. Os agricultores abandonaram o trato do campo e dos animais.
Naquela ocasião cantavam: “Minha mãe, me dê dinheiro/ pra comprá um cinturão/ pra viver de cartucheira/ no grupo de Lampião. Minha mãe me dê dinheiro/ pra comprá um cinturão/ que a vida melhó do mundo/ é ainda mais Lampião”.
As violências cometidas no sertão de Pernambuco estenderam-se ao sertão alagoano, principalmente nos municípios de Mata Grande, Água Branca e Santana. Um comerciante de Nazaré chegou a dizer que no período de 1926 ao princípio de 1927 lembrava dos dias amargos que atravessaram as pessoas do distrito, hoje Carqueja (Floresta).
NAZARENOS CONTRA OS CANGACEIROS
“A FORÇA DE NAZARÉ/É VALENTE E TEM AÇÃO/ANOITECE E AMANHECE/ NO RSTRO DE LAMPIÃO”
Em pleno sertão pernambucano, na região do Pajeú, com uma população pacata e simples, várias vilas e povoados começaram a prosperar no comércio e na agricultura nos primeiros anos de 1900 do século passado, principalmente lá pelos meados da segunda década, mas começaram a ser fustigados pelos cangaceiros. No vale as terras eram mais férteis.
Além do São Francisco, a vila de Nazaré, nas proximidades da Vila Bela (Serra Talhada) e Floresta, foi um dos destaques dessa prosperidade e também de resistência e bravura contra o banditismo, exemplo de que a união faz a força. Através da família Ferraz Flor, os sertanejos se armaram para defender a vila.
Como em Mossoró, no Rio Grande do Norte, onde Lampião e seu bando foram impedidos, em 1926, de tomar a cidade, o rei do cangaço também encontrou barreiras para dominar a vila que sempre foi visada pelos irmãos Ferreiras (Virgulino, Ezequiel, Livino e Antônio).
Quem conta esta história épica dos sertões dos tempos do cangaceirismo dos anos 20, com auge em 1926/27, como destaca o historiador Frederico Pernambucano de Melo, é a escritora e professora Marilourdes Ferraz em sua obra “O Canto do Acauã”, uma ave de canto agourento do Nordeste místico.
Em sua narrativa, baseada em testemunhas e, sobretudo, nas memórias do seu pai Manoel Ferraz Flor, que chegou a ser coronel das volantes, ela pinta os irmãos Ferreiras como encrenqueiros e que Lampião começou a provocar os nazarenos com furtos e roubos e, como foi revidado, por vingança passou a atacar a vila constantemente.
Tudo começou quando a família Ferreira se mudou para Nazaré vindo do Poço Negro por causa das intrigas e tiroteios de morte contra José Saturnino Borges, isto num acordo de se acabar de vez com as desavenças. Seus pais foram depois morar em Água Branca (Alagoas), mas os irmãos voltaram para infernizar a região.
Marilourdes faz uma imagem positiva das volantes como homens corajosos e heróis, apesar das deficiências em termos de recursos materiais e humanos. No entanto, o que se ouve era que muitos combatentes se davam à violência, inclusive contra as mulheres.
Existe fundo de verdade nisso e muitos soldados torturavam sertanejos para confessar o paradeiro dos cangaceiros. Por sua vez, as pessoas de bem temiam as represálias e ficavam caladas, como ocorre nos tempos atuais nas favelas das grandes cidades.
Os militares entram derrubando portas de moradores com suas botinas, como se todos fossem bandidos. No tempo do cangaço, nem todos eram cangaceiros. A maioria era gente ordeira que só queria trabalhar sossegada para sobreviver às adversidades das secas. Ficavam entre a cruz e a espada, ou seja, as estiagens e os bandoleiros.
ALISTAMENTO DOS CIVIS
Segundo ela, a situação ficou tão crítica que os moradores de Nazaré se armaram e muitos se alistaram nas forças das volantes para combater os bandoleiros, como naqueles filmes de faroeste, mas Lampião não desistia e sempre estava armando suas ciladas e emboscadas, especialmente nos anos 20.
Marilourdes narra várias escaramuças e diz que Lampião passou a ser perseguido quando se encontrava próximo entre Serra Talhada e Floresta, tudo para evitar sua entrada em Nazaré que se tornou uma fortaleza. Faz lembrar daqueles povoados mexicanos lutando de dentro de suas casas contra os bandidos do Oeste, do outro lado da fronteira.
A escritora descreve em seu livro várias batalhas, como a de novembro de 1925 quando Lampião se encontrava na fazenda Cipó, às margens do riacho São Domingos, em Serra Talhada e rumava para a Serra dos Pereiros. Prontamente João Ferraz, Manoel Flor e outros se prepararam para dar buscas aos bandidos. Houve um tiroteio sangrento num campo de algodoal que correu muito sangue.
No capítulo “Alistamento no Sertão” ela fala das dificuldades de enfrentar os cangaceiros, não somente Lampião, naquelas caatingas íngremes. Foi aí que o comerciante a agricultor João Flor teve a ideia de solicitar ao coronel paraibano José Pereira, da cidade Princesa Isabel, o alistamento dos civis.
PEDÁGIO E SEQUESTRO
Ferraz cita o cangaceiro José Gomes, o Palmeira, que se incumbia da tarefa de extermínio, colocando o povo em pânico (muitos fugiam de suas casas). Com o mesmo modus operandi dos traficantes e milicianos urbanos das favelas, os cangaceiros extorquiam os proprietários e obrigavam a pagar um pedágio de segurança.
Esse José Gomes chegava na residência ou numa casa comercial com um rifle papo-amarelo na horizontal à altura do pescoço, configurando uma cruz, com os braços estendidos para prender o coice da arma com a mão direita e o cano com a esquerda. “Ele era o protótipo do cangaceiro representado nestes versos: “Eu sou cabra ignorante/ Só aprendo a matar/Fazer a ponta da faca/Limpar rifle e disparar/ Só sei fazer pontaria/ E ver o cabra embolar”.
De acordo com a escritora, Lampião foi o primeiro cangaceiro, na história do Nordeste e talvez do Brasil, a inventar o sequestro de resgate de fazendeiros e comerciantes ricos. Ela relata, com sua linguagem simples e atrativa, numa contação de histórias, a invasão de Sousa (Paraíba) por Livino Ferreira e seu bando.
Nesse episódio foi sequestrado o magistrado da cidade e seu resgate foi pago. O fato ocorreu em julho de 1924. Depois o bando atravessou a fronteira de Pernambuco. Para perseguir os bandoleiros, o major Teófanes Torres (foi ele quem prendeu o cangaceiro Antônio Silvino) assumiu o comando.
Sob suas ordens estavam muitos nazarenos, como Odilon Flor. Manoel e Euclides Flor, João Domingos Ferraz, dentre outros. Nessa empreitada teve o reforço do valentão Clementino “Quelé” que em 1922 cometeu um, homicídio e entrou no grupo de Lampião.
Durou pouco tempo no bando por causa de divergências, inclusive com o “Meia-Noite”, o homem de confiança de Virgulino. Na retirada disse que não passasse em seu sítio, mas a ordem foi desobedecida e “Quelè” foi cercado em sua casa. Recebeu o socorro do destacamento de Triunfo. Perdeu dois irmãos e se alistou na força volante. Diz que ele enfrentou Lampião e chamou para uma briga a sós.
No estado da Paraíba, as localidades de Princesa, Conceição, Misericórdia e Piancó eram as áreas preferidas dos cangaceiros. Muitas famílias foram trucidadas. Nesse ano de 24/25, foi ouvida uma canção cujo estribilho era assim: “Ô seu Virgulino?!/ Me espere, faz favô,/ Pra receber o recado / Que seu Quelé te mandô”. Em outra diz: “Canta tanta pabulage/ Mas no pisada rebêra/Quando vê Quilimintino/ Sai danado na carrera”.
“O CANTO DO ACAUÔ
“A LUTA DAS FORÇAS VOLANTES CONTRA OS CONGACEIROS”
No mundo épico e imaginário do cangaço, existe uma vasta literatura sobre o assunto, a grande maioria focada em Lampião que mais se sobressaiu na história do banditismo nordestino durante cerca de 20 anos, mas existiram outros, como Antônio Silvino, Cassimiro Honório e “Sinhô” Pereira que deixaram suas marcas como valentões. Lampião foi transformado numa lenda na oralidade do povo, no canto exagerado dos repentistas e na boca da imprensa daquela época.
O livro “O Canto do Acauã”, da professora, jornalista e escritora, de Pesqueira (Pernambuco), Marilourdes Ferraz, não se trata de uma obra acadêmica, mas de muitas narrativas baseadas em depoimentos de testemunhas e nas memórias do seu pai Manoel de Souza Ferraz (Flor), uma família que passou a vida combatendo os cangaceiros bandoleiros do agreste nordestino desde início dos anos de 1900.
Com sua prosa no formato de contação das histórias daquele povo, com pitadas romanescas, ela mostra o outro lado das ações das volantes que foram, segundo a escritora, combativas, e procura desfazer aquela imagem distorcida de que essas forças atuaram com excessiva arbitrariedade e violência contra a população das vilas, chegando a cometer estupros, como relatam escritores.
Ela não nega que houve erros, mas não generalizados, e que eram homens valentes que combatiam com garra, mesmo sem os recursos necessários dos governantes. Ferraz dedica o livro aos combatentes das Forças Volantes “que entregaram sua mocidade e energia à luta contra o banditismo no sertão”.
Sua obra mapeia os lugares originários de Pernambuco onde nasceu o cangaceirismo, como Riacho do Navio, Nazaré, Serra de Uman, Vele do Pajeú, rio Moxotó, Serra Vermelha, Serra Negra, Campo da Ema, entre outros, que até o final do século XIX eram constituídos de um povo pacato, com vilas, caso da São Francisco, vivendo em prosperidade. As secas, as intrigas familiares, a precária situação social, os isolamentos do Nordeste, principalmente, mudaram o panorama, dando lugar à violência.
Marilourdes Ferraz descreve sobre o misticismo nordestino, suas crenças, rezas, festejos populares e a verve poética e musical dessa gente, inclusive entre os próprios cangaceiros, como um tal de “Cacheado” com seus versos, que tudo indica ter sido o autor de “Muié Rendeira”, muito apreciado por “Sinhô” Pereira e depois pelo próprio Lampião e seus irmãos Ferreiras.
“Na falta de uma explicação para os fenômenos climáticos, os sertanejos entregavam-se como sempre ao misticismo na procura de respostas às suas angustiadas indagações. Três pedras de sal eram expostas ao relento na véspera do dia de Santa Luzia. Se na manhã seguinte estivessem dissolvidas, as chuvas viriam, mas se permanecessem íntegras isto pronunciaria ano de seca. No final do ano, ventos fortes provenientes do Sul indicavam seca. Se no dia de Ano Novo o sol nascesse límpido e de repente uma nuvem o encobrisse, haveria boas perspectivas de chuvas na estação invernosa. Em época de estiagem ou de seca, o furto da imagem do Menino Jesus de junto da de Santo Antônio podia assegurar um bom inverno e, quando apareciam as chuvas, o Menino era devolvido aos braços do Santo, em procissão, com fogos e cânticos”. A própria ave Acauã é vista como agourenta, mas ela tem outro canto que traduz esperança.
Ao contrário de como muitos alardeiam, de acordo com o que narra em seu livro, José Ferreira, o pai de Virgulino, o Lampião, era um homem pacato que vivia desgostoso por ver seus filhos enveredarem na bandidagem, mas sua mãe chegava até incentivá-los e era, de certo ponto, violenta.
Para fugir daquelas desavenças entre seus filhos e o fazendeiro poderoso José Saturnino, ele e a família se mudaram para Alagoas por volta de 1919/20 onde foi morto. Sua esposa sofreu um AVC quando seu filho mais novo João Ferreira foi preso. Outros autores dizem que foi morto por engano pelo tenente José Lucena Maranhão, um dos maiores inimigos de Virgulino Ferreira e seus irmãos Antônio (Esperança), Livino (Vassoura) e Ezequiel (Ponto Fino).
Seu pai morreu em 21 de maio de 1921. Os episódios que acarretaram sua morte tiveram lugar em 9 de maio do mesmo ano. Foi o assalto a Paricônia por Lampião e seu bando onde roubaram joias, dinheiro e o que não pode ser levado foi destruído.
Sob o comando do tenente José Lucena, que cercou a propriedade Engenho Velho, no tiroteio foram mortos “Sinhô” Fragoso e José Ferreira, baleado quando se dirigia ao curral, conforme registro no cartório de Água Branca (Alagoas). Os irmãos Ferreiras não estavam em casa, mas ficaram revoltados. Lampião teria dito que iria matar até morrer.
Num combate com José Saturnino, no município de Custódia (Pernambuco), Lampião ficou desprovido de munição e mandou seu irmão João Ferreira comprar o material em Água Branca (Alagoas), mas o jovem foi preso, conforme relata a escritora. Com Antônio Matilde, os Ferreiras rumaram para Água Branca no intuito de arrombar a cadeia e soltar o irmão.
No caminho encontraram com as forças e estas, não conseguindo obstar o plano dos cangaceiros, voltaram para a cidade e libertaram João Ferreira. Após esse choque dos filhos, Maria Lopes Ferreira, a mãe de Lampião, sofreu um AVC e depois veio a falecer.
Marilourdes conta que a briga com Saturnino começou lá em Pernambuco por causa do furto de um chocalho, segundo ele, pelos irmãos Ferreiras. Ele perseguiu os jovens de forma implacável, com requintes de crueldade, “forçando sua adesão ao mundo do crime”.
Após a morte dos pais, os Ferreiras retornaram à região do Pajeú onde se associaram ao grupo de “Sinhô” Pereira, “da mesma maneira pela qual haviam estado antes sob a chefia dos irmãos Porcino, em Alagoas”.
Quando esteve sob as ordens de “Sinhô” Pereira, Lampião ficou temporariamente esquecido, mas voltou a ter notoriedade nacional quando realizou, com seu bando, o assalto à residência da idosa baronesa Joana de Siqueira Torres, em Água Branca (Alagoas), em 26 de junho de 1922, levando joias e pertences valiosos. Em 22 de agosto do mesmo ano, “Sinhô” Pereira partiu de Pernambuco, abandonando o cangaço.
CARTAS E ORAÇÕES DOS CANGACEIROS
Durante o período do cangaço, que durou praticamente um século no Nordeste, além dos seus apetrechos que carregavam, como chapéus de couro de aba dobrada, com estrelas de Salamão, cartucheiras, bornais bordados e outros utensílios de sobrevivência no agreste, os cangaceiros faziam uso de cartas enviadas aos amigos, coronéis coiteiros e oficiais das volantes, e carregavam consigo suas orações (de grande valor) para protegê-las dos seus inimigos.
As cartas, em sua maioria, principalmente de Lampião, no auge do banditismo, nas décadas de 20 e 30, eram endereçadas através de um portador do seu grupo aos fazendeiros, com cobranças (na verdade eram taxas de pedágios de proteção), aos inimigos, com intimidações e até a oficiais chefes de polícia, com recados severos para que parassem com os armamentos e as perseguições.
Com o português, considerado por estudiosos como a verdadeira língua de Camões e Gil Vicente, Lampião mandou uma dessas cartas ao major Pedro Augusto, onde em determinado trecho diz: “Não acho direito é vocês estarem armados e juntando gente. Isto não está direito. Preciso dar passagem deste lugar e não quero alarme no Ceará! Não sou moleque para andar com histórias erradas”.
Em outra, ele encaminha uma corta para Antônio Mando, onde pede dois contos de réis. Espero isto sem falta agora alarmi e não mandi qui depois vae se sahir muito mal, resposta pelo mesmo portador sem mais, não falti olhi olhi, Capm Virgulino Ferreira vulgo Lampião”.
Para Elias Barbosa, ele enviou uma carta de advertência: “O Sr. está com Um peçoal Em arma contra mim, portanto, quero qui faça como homem, sahia da Rua e mi pegue”. Mais na frente diz que “Eu tenho comido toicinho com Mais cabelo”. No final, assina seu nome com vulgo Lampião u terror do Sertão. Para o sargento José Antônio do Nascimento, em 1926, manda uma bem desaforada.
Corisco também endereçou uma carta para o padre José Bulhões, em 1935, da freguesia de Santa do Ypanema. Esta foi inusitada porque o portador levava o filho do chefe que teve com sua mulher Dadá e pedia ao vigário que criasse o menino como se fosse o seu filho, da melhor forma que pudesse.
Também o Moita Braba enviou uma carta semelhante ao promotor Manuel Cândido, em 1937, pedindo que o magistrado criasse seu filho que teve com Sebastiana Rodrigues Lima. Interessante que ele assina como Coronel Moita Braba.
No inventário dos objetos apreendidos, feito pelo Regimento Policial Militar, foram encontrados os seguintes pertences de Lampião: Chapéu de couro com seis signos de Salomão e 55 peças de ouro; peças e moedas de ouro; mosquetão mauser, modelo 1908 de uso exclusivo do Exército Nacional; faca; cartucheira para 121 cartuchos; bornais; lenços vermelhos; pistola parabélum; luvas; cobertas; anéis de ouro e prata; óculos (armação de ouro); e um pacote de orações.
Com Lampião foram encontrados vários livrinhos de orações onde, segundo a crendice e o misticismo religioso nordestino, funcionavam para fechar seu corpo contra balas e facas. Em todas essas orações eram citados os nomes de Jesus Cristo e Deus e, em uma delas, misturavam-se narrações do Antigo e do Novo Testamento.
Com o cangaceiro estavam em seus bornais as orações Da Pedra Cristalina, onde pede que se o inimigo atirar saia água pelo cano da espingarda e se for faca que caia da sua mão; a oração do Salvador do Mundo, a mais longa, intercedendo concórdia entre ele e seus inimigos (mistura trechos do Antigo com o Novo Testamento) e cita Santo Miguel Arcanjo trocando nome e sobrenome, de frente para trás e de trás para frente; a oração Das Treze Palavras Dictas e Retomadas e; por fim, a oração De Nosso Senhor Jezuz Christo.
Todas essas cartas e orações foram publicadas pelo historiador Frederico Pernambucano de Mello, tendo como fonte o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas, onde se acham ainda as orações das Virgem das Virgens (prodigiosa), da Beata Catharina e de Santo Agostinho, está muito utilizada por Lampião.
O CANGAÇO CINZENTO E O VERDE
O árido cinzento das secas e a questão social de pobreza, num Nordeste por séculos isolado, sem lei e sem rei, foram fatores preponderantes para a disseminação e expansão do cangaço, se bem que outros, como as intrigas entre famílias, o coronelismo e as disputas entre os poderosos chefes políticas também contribuíram para nutrir este fenômeno por mais de um século.
Entre o cangaço endêmico e o epidêmico, onde Pernambuco foi de longe o celeiro do banditismo, seguido por Paraíba, existiram o chamado cinzento concentrado no agreste do sertão e o verde na zona da mata mais próximo do literal onde estavam localizados os engenhos de cana-de-açúcar, conforme pontua Frederico Pernambucano de Mello, autor da obra “Guerreiros do Sol”.
No cinzento reinou Lampião e seus bandos durante cerca de 20 anos que percorreram sete estados, além de Jesuíno Brilhante e Sinhô Pereira no início do século XX, mas foi o Antônio Silvino, tipo acabado do sertanejo do Pajeú ressequido, o maior bandido que atuou em áreas férteis do Nordeste. Em seu primeiro ataque a um engenho a serviço de um contratante, no final do século XIX, foi naquela região que ele descobriu a galinha dos ovos de ouro.
Outros também agiram nesta área dos usineiros, como Rio Preto, Relâmpago, o Ferreiro, Cocada, o André Tripa e tantos outros. Naquelas áreas estendiam, em maiores proporções, as garras do latifúndio, minando a possibilidade de surgimento de uma classe média e produzindo um proletariado sem condições de ascensão. Em alguns pontos, o verde se aproximava do cinzento, este empobrecido por séculos.
Nesse rol, entre o verde o cinzento, não podemos deixar de citar o Lucas da Feira, que atuou na região de Feira de Santana, em meio aos dois tipos. Por vinte anos, foi o Lampião da Bahia. Dizem historiadores que ele está para a Bahia como o Cabeleira para Pernambuco. Seu tempo de criminalidade se deu entre 1828 a 1848, ao lado dos escravos Flaviano, Januário e outros. Foi um típico bandido de ofício. Após preso, Lucas foi enforcado em 25 de setembro de 1849.
O legista Nina Rodrigues dele fez um perfil um tanto curioso. Era negro canhoto, espadaúdo, corpulento, rosto comprido, barbado, olhos grandes e ferozes, nariz achatado, boca grande, peito peludo, orelhas pequenas, como também os pés e as mãos.
À luz da antropologia física do último quartel do século XIX, de acordo com Nina, constatou-se que seu crânio tinha todos caracteres dos negros, mas também pertencentes a crânios superiores, com medidas excelentes, iguais às das raças brancas.
SEQUESTRO COMO RESGATE E AS ESTRADAS
Quanto ao cangaço do cinzento, em o Canto do Acauã, de Marilurdes Ferraz, a escritora destaca que Lampião foi o introdutor do sequestro e resgate, modalidade que fazia uso corrente, tendo por vítimas empresas multinacionais, como a Standard Oil Company e a Souza Cruz. Segundo ela, Virgulino foi o primeiro cangaceiro a empregar o sequestro como resgate.
Como exemplo, é citado o sequestro do escrivão de Justiça de Capim Grosso, na Bahia. O escritor sergipano Ranulfo Prata diz que o bandido “usa também dos processos civilizados dos americanos”. Ele destaca, nos anos 30, o sequestro e resgate do filho de Charles Lindbergh, nos Estados Unidos, pelo imigrante alemão Bruno Richard Hauptman, condenado à cadeira elétrica.
O banditismo não foi exclusivo do Nordeste brasileiro. Aconteceu também em outros países, como na Espanha, em Andaluzia, na pedregosa Catalunha, na Córsega e Sardenha, na Itália. Como relata Frederico, no banditismo espanhol, os primeiros sequestros ocorreram em princípios de 1869, na província de Málaga, por Alameda y Alora. “É o que nos dizem Queirós e Ardila, em El Bandoleirismo Andaluz”.
De todos os banditismos em outros países, o que mais se assemelhou ao nosso, inclusive com uma gesta poética muito rica de autores nos cantos do jondo ou flamenco, de modo particular na chamada serrana, foi o espanhol da Catalunha e da Antaluzia, onde havia fundos fincados na alma do povo, sistema de coiteiros, relevo acidentado, culto à valentia, degolamentos e uma repressão ineficiente e corrupta.
No entanto, como diz Frederico de Mello, o maior banditismo rural brasileiro foi mesmo no cinzento das caatingas nordestinas onde encontrou condições extremamente favoráveis “capazes de endiabrá-lo em verdadeira praga”.
O caráter epidêmico no semiárido, “encontra-se intimamente ligado às condições mesológicas e aos processos que presidiram a formação da sociedade sertaneja, condicionando o aparecimento de um tipo de homem bem diferente do seu vizinho das regiões do litoral”.
Ranulfo Prata descreve também o ódio que o bandido Lampião tinha pelas aberturas de estradas no Nordeste. Em 1929 ele interrompe com ameaças a construção que ia unir Juazeiro a Santo Antônio da Glória, passando pelo seu predileto esconderijo que era o Raso da Catarina.
Em fins de maio de 1930, nas proximidades de Patamuté, Bahia, topa com uma turma de obras de estrada, matando um. Fez o mesmo em Mandacaru, na Bahia, com três mortes. Em 1934 ataca, em Sergipe, pelo mesmo motivo, bem como, em 1937, quando uma estrada federal é embargada a bala. O jornal A Tarde chegou a noticiar esses fatos.
AS PROPOSTAS
Nos tempos do cangaço ocorreram muitos fatos curiosos, muitos dos quais relacionados com Lampião. Em sua vida, recebeu muitas propostas para deixar o cangaço. Em 1922, no início do seu banditismo, Sinhô Pereira, ao pendurar seu rifle, o convidou a deixar o sertão. Anos mais tarde, vida já arrumada em Minas Gerais, Sinhô renovou o convite através do seu protetor político Farnesi Dias Maciel. Lampião tinha até a opção de ir morar em Mato Grosso.
Em 1924, ferido no pé em tiroteio, Belmonte, Pernambuco, recebeu oferta do então capitão Teófanes Ferraz Torres para que se entregasse juntamente com seus irmãos que seriam todos perdoados. Escondido no mato e perdendo sangue, Lampião aceita, mas com a condição de que seus cabras também fossem beneficiados. O capitão não concorda.
Em 1928, seu primo Sebastião Paulo procura Virgulino no Capiá, Alagoas, com proposta do tenente pernambucano Arlindo Rocha, para que se entregasse e seria levado sob escolta até o chefe de polícia de Recife, Eurico de Souza Leão. A proposta era que Lampião abandonasse Pernambuco e fosse para a Bahia. Lampião disse ao primo que falasse ao chefe de polícia de que ele não foi encontrado.
Apesar da recusa, dias depois ele foge de Pernambuco e se refugia na Bahia e Sergipe, isto porque o governador daquele estado, Estácio Coimbra mandou prender um bando de coiteiros, cortando a rede de proteção dos cangaceiros.
“Afora uma proposta ardilosa de perdão do presidente Vargas, feita pelo tenente João Bezerra (seu algoz em 1938), nos primeiros anos da década de 30, conhecemos mais duas, uma de Audálio Tenório, de 1937, para que abandonasse o sertão, e a de Joaquim Resende, com o beneplácito do major José Lucena (seu maior inimigo). A negociação estava em andamento quando ocorreu a morte do cangaceiro. Padre Cícero também tentou persuadi-lo de que deixasse o cangaço e fosse para Goiás, isto por volta de 1926/27.
A REPRESSÃO DO ESTADO NOVO E A FILMAGEM DE BENJAMIM ABRAHÃO
A partir de 1930, quando Getúlio Vargas assume o poder através de um golpe, os cangaceiros passaram a não ter aquela vantagem a mais com as forças das volantes em termos de armamentos. Vieram as estradas com automóveis e ônibus, o sistema de transmissão de rádio e o Nordeste começou a se modernizar com a introdução de indústrias e meios de transporte de locomoção entre as cidades.
Essas mudanças não foram nada boas para o cangaço, mas, no início, o chefe Lampião e seus bandos conseguiram driblar esses novos tempos. No entanto, a forte repressão entre os estados, com qualificação das volantes, a introdução da submetralhadora e a ditadura imposta pelo Estado Novo, em 1937, enfraqueceram o banditismo. O Estado Novo foi um dos primeiros responsáveis pela “morte” de Lampião.
Três anos antes da sua morte, em 1938, Lampião não era mais o mesmo nos combates e vivia como se fosse um burguês cheio de ouro, da cabeça aos pés. Desde 1926/27, quando o Governo de Pernambuco mandou prender os coiteiros e ele fugiu, em 1928, para a Bahia, a revolução de 1930, os acordos interestados para reforçar as tropas, em 1926 e 1935, até a filmagem da sua vida no cangaço pelo sírio Benjamim Abrahão Calil Botto, em 1936, dizem os historiadores que Lampião sofreu várias mortes físicas.
Mesmo assim, em fins de 1929, em marcha vertiginosa, penetra nas cidades de Sergipe, sob a proteção do coiteiro Eronildes Carvalho, despachando para Pernambuco, Alagoas e Bahia seus grupos. Os movimentos revolucionários de 1930 e 32, que acarretaram desorganização na campanha repressora, facilitaram a ação do cangaço a praticar seus atos de violência. Em 1932, por exemplo, muitas tropas se deslocaram para São Paulo, deixando o Nordeste desguarnecido.
A fama tomou conta da cabeça de Lampião, que ficou deslumbrado com o poder. Antes era proibido o uso do álcool em seu bando. Depois entrou a cachaça, a genebra Gato, a “zinebra” sertaneja. Para seu estado-maior, o Old Tom Gin e, para ele, o White Horse. Abrahão, ex-secretário do “Padim Ciço”, de Juazeiro, convenceu que ele deixasse ser filmado com seu bando. O cinegrafista recolheu, entre março e outubro de 1936, um longo documentário sobre o dia a dia da vida do cangaço e isso irritou o governo federal.
Este documentário provocou a ira do Estado Novo (As fimagens foram recolhidas), mas antes disso, Getúlio Vargas e o seu Departamento de Imprensa e Propaganda, o chamado DIP, comandado por Lourival Flores, já vinham agindo com sua força repressora contra o cangaço e os movimentos dos beatos no Nordeste.
Sobre estas questões políticas, sociais e históricas, o escritor e estudioso no assunto, Frederico Pernambucano de Mello, autor de o “Guerreiros do Sol”, descreve que o combate na gruta do Angico (Sergipe) encarta-se no ciclo de ferro e fogo da repressão do Estado Novo a movimentos populares considerados arcaicos, que têm início não com o 10 de novembro de 1937, mas logo após o levante comunista de 1935, quando o aparelho repressor começa agir com base no regime implantado pela vigência da nova Constituição de 1934, a Polaca.
Desde 1935, a questão do cangaço ocupava a pauta de homens de estado em sintonia com os propósitos da repressão, como é o caso de José Martiniano de Alencar, presidente da província do Ceará, que propôs ao seu colega de Pernambuco, Manuel Paes de Andrade, que as tropas ignorassem a fronteira comum quando em perseguição aos bandidos.
Quanto aos movimentos populares, Frederico cita, como exemplo, o massacre do reduto de beatos do sítio Caldeirão, em 1936, na Serra do Araripe, no Ceará, tendo à frente o místico José Lourenço. Nessa época já se mantinha a imprensa na focinheira. Em 1938, o extermínio foi contra os beatos agrupados em torno do “santo” Severino Tavares, no sítio Pau-de-Colher, município de Casa Nova, na Bahia. Quatrocentos ingênuos foram sacrificados. Foi a última Canudos.
Duas ações contribuíram para a extinção do clima social e político favorável ao cangaço. Uma foi a relativização do valor da fronteira interestadual e a outra foi a quebra da inviolabilidade do latifúndio com o desmantelamento dos “coronéis” e dos coiteiros.
Tanto Lampião, como seu assassino João Bezerra da Silva, conforme relata Pernambucano de Mello, são produtos acabados desse laboratório cultural sertanejo que viveu por séculos em completo isolamento.
“No quebrar da barra do dia 28 de julho de 1938, atacado em quatro frentes por forças do estado de Alagoas, no comando do tenente João Bezerra, cai Lampião, juntamente com Maria Déa e mais nove cabras”. No meio se achava o fiel lugar-tenente Luis Pedro. Os soldados exultavam por ter atingido o “tigre dos sertões”.
No imediatismo da ação militar, tudo começou com a denúncia do vaqueiro Joca Bernardes, da fazenda Novo Gosto, à prisão, tortura e decorrente delação do também coiteiro Pedro de Cândido. Para os onze bandidos mortos, inclusive o chefe, perdeu-se apenas um soldado. O combate durou cerca de 15 minutos quando, em tempos passados, durava horas e até um dia ou uma noite.
Muitos fatores ajudaram nesse extermínio. Mello aponta a exiguidade de espaço da gruta, concentrando dezesseis toldos armados, num procedimento desaconselhável. O pouso de Lampião foi em coito de uma só saída, segundo relatos de cangaceiros sobreviventes. Corisco teria dito que Angico era uma “cova de defunto”. Além do mais, a grota fica próxima à cidade de Piranhas, sede, na época, de grande número de volantes.
No final de sua vida, Lampião (foi morto com 40 anos) já sofria de reumatismo, dores renais, mau-humos, fadigas no corpo, displicência e problemas no olho esquerdo e direito. As doenças começaram a minar a sua carcaça onde se alojava meia dúzia de balas antigas. Andava com um tubo de estricnina e um frasco metálico de gasolina, para se matar e queimar sua fortuna caso ficasse cego. “Não vou deixar nada para os macacos”.
E quem era João Bezerra? Nascido na mesma região de Lampião, em Afogados da Ingazeira (Pernambuco), primo de Antônio Silvino, com quem aprendeu a atirar, sua vida foi pautada por fatalidades, como sujeito e objeto do jogo político e social nordestino.
Por causa de umas surras que tomou do pai, fugiu para Recife e depois para Jaboatão onde trabalhou em pedreiras. Em suas andanças, conheceu uma tia e terminou, por recomendação do próprio pai, indo para Maceió (Alagoas) onde se alistou como voluntário no serviço militar, em 9 de março de 1922.
QUANDO GILBERTO FREYRE EXPULSOU LAMPIÃO E SEU BANDO DE PERNAMBUCO
SÓ A UNIÃO DE FORÇAS DOS ESTADOS NORDESTINOS, COM ARMAMENTOS MODERNOS E A PRISÃO DE COITEIROS MINARAM AS AÇÕES DO CANGAÇO. O SOCIÓLOGO GILBERTO FREYRE FOI UM DOS IDEÓLOGOS E ESTRATEGISTA, QUE CONTRIBUIU PARA ESTE ENFRAQUECIMENTO.
A partir de 1919, com a grande seca, e durante toda década 20, o cangaceirismo profissional entrou em franca expansão. Novos bandos surgiam praticamente quase todos os dias, e Pernambuco chegou a ser o maior celeiro do cangaço, principalmente vindos da região do Pajeú, tendo como foco Vila Bela, hoje Serra Talhada.
Além de desorganizadas e sem estrutura financeira, o armamento das forças das volantes era totalmente arcaico em relação às armas modernas usadas pelos cangaceiros. Havia um tipo de pistola tão obsoleta que servia de piada para os nordestinos quando diziam que “eram dois tiros e uma carreira”.
Antes havia o impedimento de uma força de um estado entrar no território do outro quando em perseguição aos bandos. Os governantes em geral estavam desestruturados, sem contar a corrupção de que se valiam os cangaceiros para subornar soldados e oficiais.
Naquela época (década de 20), os bandos mais perigosos, a maioria aliada a Lampião, eram os de Jararaca, os Patriotas, os Sipaúbas, os Sabinos, os Pereiras, os Pinheiros, Manuel Vitor, os Marianos, os Melões, Paizinho Baio, Tibúrcio Santos, Vinte e Dois, os Pedros, os Porcinos, Casa Velha, dentre tantos outros. Eles contavam com a cobertura dos coiteiros, tendo como maior centro a Serra D´Umã.
Os coiteiros eram um dos maiores Calcanhares de Aquiles dos governos, mas a ação repressora surtiu bons efeitos logo no início dos anos 20, mediante acordos realizados, primeiro entre os estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, em 1922. Depois vieram outros nos anos de 1926 e 35 em que se juntaram os governos de Alagoas, Sergipe e Bahia.
Vale ressaltar que em 1912 os estados mais atingidos pelo cangaço também se reuniram para combater o cangaceiro Antônio Silvino, mas foi no período de Lampião que as alianças surtiram melhores resultados.
Nesses acordos, além de uma repressão mais firme, os governadores decidiram outras medidas estratégicas, como construção de rodovias, controle sobre as canoas nos rios, distribuição de cem fuzis militares entre civis de confiança pelo Governo de Pernambuco, introdução da submetralhadora de 500 disparos por minuto, entre outras ações.
Nesse meio houve um fato interessante que conseguiu deter o ímpeto de Lampião e seus bandos. Em 1927, no Governo de Estácio Coimbra (Pernambuco), por recomendação do sociólogo Gilberto Freyre, seu secretário de Gabinete, foram estabelecidas novas diretrizes para repressão ao banditismo, e uma delas foi a prisão dos coiteiros. Muitos, inclusive chefes políticos e fazendeiros, foram sendo presos e recambiados para a capital, culminando com o maior deles que era o coronel Ângelo Lima, o Ângelo da Jia.
Sem o coiteiro, o cangaceiro não era nada. Em decorrência dessa eficácia, em agosto de 1928, Lampião com um grupo já reduzido de cabras, depois de ter sido repelido em Mossoró durante sua tentativa de invasão à cidade (50 homens contra 150 do prefeito), em março de 1927, abandona sua terra natal e se interna nos sertões da Bahia.
Antes disso, porém, um episódio político contribuiu em muito para o avanço do cangaço, que foi a passagem da Coluna Prestes pelos sertões nordestinos, logo no início de 1926, ano em que foi o marco do banditismo na região, especialmente em Pernambuco, conforme aponta o autor do livro “Guerreiros do Sol”, Frederico Pernambucano de Mello.
Lampião começou sua carreira por volta de 1919/20, ainda como cabra nas hostes surgidas dos Matildes e dos Porcinos, bem como em etapa seguinte no bando de Sinhô Pereira. Seu auge se deu em 1926, com suas andanças pelos estados da Paraíba, Ceará, Alagoas, Bahia e Pernambuco.
Em fevereiro de 1926, ele tocaia e mata seu velho inimigo José Nogueira, em Vila Bela (Serra Talhada). Em março entra em Barbalha (Ceará) à frente de 49 cabras se hospedando no Hotel Centenário onde pousou para fotos e deu entrevistas como se fosse governador do sertão. Em agosto ataca a fazenda Tapera, Floresta, matando treze pessoas de uma mesma família. Em setembro invade Cabrobó à frente de 150 bandoleiros, sob toque de cornetas e em formação militar. Em novembro, com 90 homens, enfrenta a batalha da Serra Grande (Vila Bela) contra 260 soldados. Em dezembro, na localidade de Juá, destrói a tiros 127 bois do fazendeiro Joaquim Jardim.
Nessa época, a fama de Lampião corria o país inteiro e ocupava espaços nobres nos jornais. A opinião pública criticava as forças policiais, enquanto o bandido alardeou invadir Rio Branco, hoje Arcoverde. Até o governador de Pernambuco, na época, Sérgio Loreto, ironizava que sendo o bandido reconhecido como governador do sertão, nada mais justo que sediasse seu comando em Rio Branco. O governador se queixava da colaboração prestada aos bandidos pelos sertanejos.
Como ocorreu em 1914, com a revolução de Juazeiro (guerra santa), nos anos de 1926/27, os sertões de Pernambuco, Paraíba e Ceará foram inundados de armas distribuídas pelo governo federal quando da organização de milícias (batalhões patrióticos), para combater a Coluna Prestes.
Grande parte dessas modernas armas, fuzis e mosquetões de fabricação europeia, caiu nas mãos dos bandidos, sobretudo de Lampião, quando esteve em Juazeiro, em 1926, convocado pelo deputado baiano Floro Bartolomeu da Costa e Padre Cícero, para se juntar ao exército contra Prestes. Cada cangaceiro ganhou um fuzil novo.











