janeiro 2022
D S T Q Q S S
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

:: ‘Encontro Com os Livros’

UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (Final)

“NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE QUERÍAMOS, MAS SABÍAMOS O QUE NÃO QUERÍAMOS” – Mário Raul Morais de Andrade, a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um caráter revolucionário na década de 20, com uma série de transformações políticas e sociais. No dizer de Menotti del Picchia, “houve quem cantasse como galo e latisse como cachorro”. “O que urge fazer: Enforcar o último rei com as tripas do último frade”- charge em “A Lanterna”.

“Eu insulto o burguês!… Eu insulto as aristocracias cautelosas… Morte à gordura… Morte ao burguês mensal… Mas nós morremos de fome! … Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio”… – trechos do poema “ODE AO BURGUÊS”, de Mário de Andrade.

“Estou farto do lirismo comedido/do lirismo bem comportado/do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de acordo com o senhor diretor…/ Abaixo os puristas…/ Quero antes o lirismo dos loucos/ O lirismo dos bêbados/ O lirismo difícil e pungente dos bêbados/ O lirismo dos clowns de Shakespeare/ – Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” – “POÉTICA”, de Manuel Bandeira.

Em “OS SAPOS”, o mesmo Bandeira diz: “Eu ronco que aterra/ Berra o sapo-boi:/- “Meu pai foi à guerra”/ “Não foi”/ – “Foi”/ – “Não foi”. O sapo tanoeiro,/Parnasiano aguado, diz: “Meu cancioneiro/ É bem martelado… Urra o sapo-boi:/ “Meu pai foi rei”/ –  “Foi!” – “Não foi”…  Poema lido durante o evento.

Além da Semana, foram registrados outros fatos importante da nossa história, como a fundação do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta do Forte de Copacabana e o Bicentenário da Independência do Brasil.

CURIOSIDADES DA SEMANA: Vila-Lobos fez um concerto de casaca e chinelos. Mário de Andrade realizou uma breve palestra nas escadarias do Teatro Municipal de São Paulo sob vaias e xingamentos. Na política, existia entre os participantes uma mistura de esquerda e direita, como de Plínio Salgado que mais tarde se tornou líder do integralismo fascista. Mesmo sob protestos contra os organizadores, a pianista Guiomar de Morais fez sua apresentação. Monteiro Lobato classificou os quadros de Anita Malfatti de caricaturas, de obras distorcidas, sem muita importância para seu talento.

RUMO A UMA SEMANA DE MUITO BARULHO

Onze anos antes, em 1911, circulou o semanário “O Piralho” (português macarrônico), de Oswald (Di Cavalcante era o desenhista), com um tom humorístico, que funcionou até 1917.

Em 1912, Oswald retornou da Europa com as ideias futuristas de Fillipo Tommaso Marinetti. Nesse ano, escreveu o poema “Último Passeio de um Tuberculoso pela Cidade de Bonde” – versos livres de escárnio ao passado.

Em 1913, o europeu Lasar Segal realizou a primeira mostra expressionista no Brasil, sem sucesso por causa das críticas dos conservadores. Monteiro Lobato já achava aquilo horrível.

Em 1914 aconteceu a primeira exposição de Anita Malfatti quando da sua volta dos estudos na Alemanha, na Escola de Belas Artes de Berlim. Ela também esteve nos Estados Unidos. No ano seguinte ocorreu o modernismo, em Portugal, a partir da revista “Orpheu”.

Em 1916, o sempre irrequieto Oswald escreve “Memórias Sentimentais de João Miramar”. No ano seguinte, o mesmo conhece Mário de Andrade, no Conservatório Dramático e Musical, em São Paulo, onde ele proferiu um discurso, condenando as antigas estruturas. Oswald trabalhava como repórter no “Jornal do Comércio” e quando terminou o pronunciamento, disputou no tapa a cópia do escrito com outro colega do “O Estado de São Paulo”. Oswald   levou a melhor.

Nesse mesmo ano, Mário publicou o livro “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema”, em que descrevia os horrores da I Guerra Mundial. Menotti del Picchia lança o poema “Juca Mulato” e Guilherme de Almeida “Nós”. Numa transição de estilos, Manuel Bandeira divulga seu livro “As Cinzas das Horas”. Cassiano Ricardo, “A Frauta de Pã”. Di Cavalcante realiza, em São Paulo, sua exposição de caricaturas.

Em 1917, em 12 de dezembro, Anita Malfatti inaugura, em São Paulo, sua exposição de 53 trabalhos, inclusive com suas famosas telas do “Homem Amarelo”, “A Estudante Russa” e o “Japonês”, as quais criaram grande polêmica no meio artístico, tanto que o jornal “O Estado de São Paulo” publicou em sua edição de 20 de dezembro, o artigo “Paranóia ou Manifestação”?, assinado por Monteiro Lobato. Foi o mais importante evento cultural do ano.

Lobato chama a mostra de extravagâncias de Picasso. Diz que Anita possui qualidades e talento, mas que suas obras são distorcidas pela teoria da arte moderna. No texto classificou seu trabalho de caricatura, numa mistura de futurismo, impressionismo e cubismo. Na verdade, ele cometeu um equívoco entre o expressionismo e o impressionismo.

Seu comentário provocou um escândalo no meio artístico e fez com que Mário, Oswald, Di Cavalcante, Guilherme, Menotti e outros formassem um grupo coeso em defesa de Anita Malfatti.

Em 1918, Guilherme de Almeida escreve “Messidor” e Manuel Bandeira aparece com “Carnaval”, muito aceito pelo público.

Em 1920, o grupo descobre um jovem escultor de Roma, Victor Brecheret, que apresentou a maquete do “Monumento às Bandeiras”. Segundo Mário, ele foi o criador do estado de espírito dos modernistas.

Em 1921, o grupo mais unido ideologicamente lançou, em 9 de janeiro, o “Manifesto do Trianon” em homenagem a Menotti del Picchia quando lançou o livro “As Máscaras”. Na ocasião, Oswald aproveitou para criticar os passadistas e defender a arte moderna, chamada de futurista. Conclamou o pessoal para novas lutas.

Em agosto, Mário faz sete artigos “Mestres do Passado”, chamando os parnasianos de malditos pela forma como escrevia. Em novembro ocorreu a exposição “Fantoches da Meia Noite”, de Di Cavalcante, e nela conhece Graça Aranha que retornava da Europa. Na conversa entre os dois nasce a ideia da Semana da Arte Moderna de 1922.

Nas edições de 29 de janeiro de 1922, o “ O Correio” e “O Estado de São Paulo” noticiam a organização do evento. O historiador do modernismo, Mário da Silva Brito chega a citar que a iniciativa do movimento se deveu a Graça Aranha.

OS ESPETÁCULOS E AS DIVERGÊNCIAS

Muitos outros jornais divulgaram o evento, anunciando que o primeiro espetáculo da Semana de Arte Moderna estava previsto para 13 de fevereiro. Graça Aranha se incumbiu de proferir a conferência “A Emoção Estética na Arte Moderna” onde fala de paisagens invertidas e interpretações desvairadas. De acordo com críticos, a palestra de Graça foi confusa e declaratória, cujo público pouco entendeu.

Nesse dia, as pinturas e esculturas expostas provocaram espanto e repúdio do público visitante, no Teatro Municipal de São Paulo. Os artistas mais visados foram Victor Brecheret e Anita Malfatti, mas houve irritação também contra a literatura.

Ainda nesse espetáculo houve apresentações de música de Ernani Braga que fez uma sátira a Chopin. Por causa disso, a pianista Guiomar Novaes protestou contra os organizadores. Na mesma noitada houve uma palestra de Ronald de Carvalho sobre “A Pintura e a Escultura Moderna no Brasil”, três solos de piano de Ernani Braga, três danças africanas de Vila-Lobos e poesias de Ronald de Carvalho e Guilherme de Almeida. Nesse clima de irreverência, ocorreram protestos contra a Semana.

No segundo espetáculo, muita algazarra no dia 15 de fevereiro. Mesmo com uma carta de repúdio ao evento, publicada em “O Estado de São Paulo”, a pianista Guiomar Novaes fez sua apresentação. Menotti del Picchia falou sobre “Arte e Estética”, com ilustração de textos de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Plínio Salgado que anos mais tarde aderiu ao ver-amarelismo integralista. A cada apresentação, muitas vaias e latidos. Ronald de Carvalho leu o poema “Sapos”, de Manuel Bandeira, numa crítica ao estilo parnasiano.

Muitas vaias, latidos e xingamentos nas apresentações, mas, mesmo assim, Mário de Andrade, das escadarias do teatro, fez um discurso e leu trechos de “A Escrava que Não é Isaura”. Numa breve palestra, destacou a expressão das artes plásticas, justificando as criações dos pintores futuristas.

Vinte anos mais tarde, em 1942, na Casa do Estudante do Brasil, no Rio de Janeiro, Mário confessa em entrevista que foi muita coragem fazer aquele pronunciamento nas escadarias do teatro porque só recebeu ofensas e protestos. No entanto, destaca que o movimento não foi apenas artístico, como também político e social.

Menotti comentou que os conservadores iam enforcar os modernistas com vaias. “Nossa estética é de reação. Aceitamos o termo guerra por ser um desafio. Abomino a escola de Marinetti com seu dogmatismo e liturgia. No Brasil não há razão lógica e social para o futurismo ortodoxo”. Em um trecho do seu discurso, exalta o novo. “Queremos idealismo, luz, ar, e que o rufo de um automóvel espante da poesia o último deus homérico que ficou anacronicamente a dormir…” Disse que o grupo pretendia fazer uma arte genuinamente brasileira. No entanto, houve reação quando revelou a prosa e a poesia modernas declamadas pelos seus autores.

No dia 17 ocorreu o terceiro espetáculo da Semana, com músicas de Vila-Lobos em trajes de casaca e chinelos. Houve pouca lotação de público. Mais vaias pela sua irreverência, mas ele explicou que o uso dos chinelos foi porque estava com um calo nos pés.

Durante o evento, Oswald leu “Os Condenados” e Agenor Barbosa foi aplaudido com “os Pássaros de Aço”. Nem todos escritores tiveram coragem de enfrentar o barulhento palco do Teatro Municipal.

Com foco na realidade brasileira, finalmente foi realizada a Semana que renovava a mentalidade nacional e brigava pela autonomia artística e literária. A Semana foi patrocinada pelo setor financeiro, com maior cobertura do “Correio Paulistano”.

REAÇÕES DOS JORNAIS

Sobre as atividades, a “Folha da Noite”, de São Paulo, em sua edição do dia 16/02, trouxe uma matéria classificando a Semana de mal, um fracasso, atraso mental e uma droga. Antes disso, no dia 30 de janeiro, A Gazeta já noticiava sobre o evento como um sarau futurista de escândalo artístico e revolucionário. Tratava a arte nova como extravagância e criticava Marinetti.

O movimento teve seu lado político de ataque à aristocracia. Di Cavalcanti disse ter sugerido a Semana a Paulo Prado, comentando que seria um escândalo. Mário de Andrade defendia a livre métrica e a rima, pois, segundo ele, a preocupação com essas regras prejudica a naturalidade de liberdade do lirismo objetivado.

Não foram só contestações, no dia 18/02, “O Correio” fez um comentário criticando os indivíduos que simplesmente ladravam e cacarejavam. Elogiou aqueles que aplaudiram com calor os libertadores da arte.

O jornal “O Estado de São Paulo”, numa matéria sobre a Semana, em sua edição do dia 29 de janeiro, fez menção a Guilherme de Almeida, Ronald de Carvalho, Álvaro Carvalho, Oswald, Menotti, Renato Almeida, Luis Aranha, Mário Raul de Morais Andrade, Ribeiro Couto, Agenor Barbosa, Moacir de Abreu, Rodrigues de Almeida, Afonso Schmidt (adepto do grupo Zumbi) e Sérgio Milliet que participaram do evento.

Nessa lista faltaram Cândido Motta Filho, Armando Pamplona (cineasta), Plínio Salgado, Rubens Borba de Morais, Tacito de Almeida e outros. Os nomes de Rodrigues e Moacir desapareceram no decorrer das campanhas polêmicas.

O PAU BRASIL, ANTROPOFAGIA E DESDOBRAMENTOS

Após a Semana foram surgindo outros acontecimentos relacionados ao evento. Em 18 de março, Oswald publicou no jornal “Correio da Manhã” vários artigos que resultaram no livro “Pau Brasil”, ilustrado pela artista Tarsila do Amaral. Propunha uma literatura vinculada à realidade brasileira (redescoberta do Brasil). Pregava o uso da língua sem arcaísmos e erudição, como falamos e somos.

Em 15 de maio, ele lançou a revista “Klaxon” (buzina externa dos automóveis) para propagar seu movimento antropofágico, com ideias inovadoras e atuais.

Nesse ano de 22 foram registrados fatos importantes da nossa história, como a Fundação do Partido Comunista Brasileiro (congresso de 25 a 27 de março de 1922), revolta militar do Forte de Copacabana, que depois gerou o tenentismo, em São Paulo (durou um mês) e se comemorou o Bicentenário da Independência do Brasil.

O historiador Nelson Werneck Sodré, em “História da Literatura Brasileira” narra que dentro do movimento houve muitos atos na disputa pelo poder político, como as manifestações da classe média.

Um mês depois da Semana, em primeiro de março, se deu a escolha na presidência da República para o sucessor de Epitácio Pessoa. A vitória foi de Artur Bernardes contra Nilo Peçanha. Bernardes decretou estado de sítio, censura à imprensa e intervenções nos estados. Mesmo assim, houve a marcha revolucionária dos militares que exigiam o fim da corrupção.

Mário, que sempre foi de direita, pequeno burguês, ingressou no Partido Democrático, em 1926. Ele conta que naquela época, após o movimento festeiro da Semana, tudo começou a estourar em intrigas entre casais de artistas, amigos e família.

O movimento, segundo Mário, teve o caráter anárquico, moderno, original, de consciência nacional e polêmico, mas também o sentido destruidor quando se partiu para o radicalismo. Tinha muito a ver com os tempos atuais.

Os revoltosos do tenentismo, entre 1923/24, vão para o interior onde se encontram com as tropas vindas do Rio Grande do Sul, comandadas por Luis Carlos Prestes que formou a Coluna de mil homens e percorreu 24 mil quilômetros, se internando depois na Bolívia.

Nessa onda de tendências, em 1924, na esteira do Pau Brasil e do antropofagismo de Oswald, apareceu o surrealismo com André Breton (1896 – 1970), que foi um participante do Dadaísmo de vanguarda no entre guerras. Era mais próximo do expressionismo, na busca da liberdade, do inconsciente na arte. Prevalece a não razão, com a exaltação à criança e o selvagem que existem dentro de nós. Foi uma ruptura com Breton, e optava-se pelo revolucionário marxista.

De 1922 a 1930 (rompimento de todas estruturas do passado), e até 1945, viveu-se um período áureo da fase moderna, tanto que Mário descreve como oito anos de orgias intelectuais que a história artística do país vivenciou.

MANIFESTOS PELOS ESTADOS

Ainda no rastro da Semana surgiu uma onda de manifestos pelos estados no período de 1925 a 1930. O Nordeste, por exemplo, criou o Centro Regionalista (edição de uma revista), em Recife, por volta de 1926. Grandes escritores, como José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, José Américo, Jorge Amado e João Cabral de Melo Neto são incluídos por críticos literários como regionalistas.

Em Minas Gerais, em 27 de janeiro de 1928 foi editada a revista “Verde Cataguazes”, com cinco edições. No rio de Janeiro, (1924), a revista “Estética”. Em São Paulo, em 1926, a “Terra Roxa e outras Terras” onde Mário Raul de Morais Andrade (1893 – 1945), formado em piano no Conservatório Musical de São Paulo, professor e diretor do Departamento Cultural de São Paulo, era um dos colaboradores.

Nesse tempo, Oswald cria o “Manifesto Antropofágico” através da Revista de Antropofagia em duas fases, a primeira com 10 edições, entre maio de 1928 e fevereiro de 1929 (direção de Antônio Machado). Na segunda etapa, a revista circulou nas páginas do “Diário de São Paulo”, com 16 números, de março a agosto do mesmo ano, com Geraldo Ferraz.

A primeira revista foi uma miscelânea ideológica de Oswald, Alcântara Machado e Mário de Andrade. Nela foi publicado o primeiro capítulo do livro “Macunaíma”. No terceiro número apareceu o poema “No Meio do Caminho, de Carlos Drummond, incluindo ainda artigos de Plínio e desenhos de Tarsila, na língua tupi e poesias de Guilherme de Almeida. Na segunda fase da revista houve uma ruptura com Mário.

Ficaram na linha antropofágica, Oswald, Raul Bopp, Geraldo Ferraz, Tarsila e Patrícia Galvão, a Pagu. Dou outro lado, Mário, Alcântara, Graça Aranha, Guilherme de Almeida, Menotti e Plínio Salgado. Os antropofágicos foram taxados de Preguiçosos no Mapa Mundi do Brasil.

Numa nova etapa do “Pau Brasil”, o movimento visava valorizar o índio e defender a nossa língua fosse falada pelo povo, bem como que nossa história fosse repensada. A origem do Pau Brasil surgiu da tela de Tarsila do Amaral, presenteada ao marido Oswald em seu aniversário de 1928. Oswald e Raul Bopp batizaram o quadro de Abaporu – homem que come, na linguagem indígena.

A intenção era dar uma resposta ao “verde-amarelismo” do “Grupo Anta” de Plínio Salgado que lançou as sementes do nacionalismo ufanista e fascista juntamente com Menotti, Guilherme e Cassiano Ricardo. Se debatiam o nacionalismo crítico das esquerdas contra o ufanismo exagerado de extrema direita, xenófoba e chauvinista. Oswald, Mário, Manuel Bandeira, Antônio de Alcântara Machado, Menotti, Cassiano, Guilherme de Almeida e Plínio àquela altura não se entendiam mais.

Era o verde-amarelismo ufanista e integralista de Plínio contra o nacionalismo afrancesado de Oswald que atacava os adversários em sua coluna “Feira das Quintas”, no “Jornal do Comércio”

Na verdade, foi um período fértil em manifestos e lançamento de revistas, mas em 1929 houve a quebradeira da Bolsa de Valores, último ano da Velha República, com a Revolução de 30.

 

UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (II)

 

“NÓS NÃO SABÍAMOS O QUE QUERÍAMOS, MAS SABÍAMOS O QUE NÃO QUERÍAMOS” – Mário de Andrade a respeito da Semana de Arte Moderna de 1922. Existia um caráter revolucionário na década de 20, com uma série de transformações políticas e sociais.

A Semana pregava a tomada de consciência da realidade brasileira – dizia José Nicola, em sua obra “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”. Na conjuntura geral, de acordo com Mário de Andrade, São Paulo era a cidade mais moderna do Brasil e estava em contato espiritual e técnico com as mudanças no mundo. Graça Aranha foi um dos idealizadores do evento.

O cenário nacional era comandado pelas oligarquias através do poder na “política do café com leite” somado ao surto de uma burguesia industrial com a I Guerra Mundial. Nesse bojo, veio a urbanização da cidade nos primeiros 20 anos do século XX.

Eram os barões do café verso o operariado. Era um Brasil dividido entre o rural e o urbano de origem europeia, com vocação na luta de classe, tanto que entre 1901 a 1911, os anarquistas publicaram o jornal “La Battaglia”. Circulou ainda “A Terra Livre” (1905-1910 e ocorreram greves em 1905 e 1917. Somente em 1918 os jornais passaram a noticiar a Revolução Russa.

Antes da Semana de 22, num estilo ainda decadente, Manuel Bandeira escreveu “As Cinzas das Horas”. Mais ousado, veio em 1919, “Carnaval” e o poema “Os Sapos”, de sátira, declamado durante o evento de São Paulo e bem recebido pelo público.

Sobre Ribeira Couto em “Jardim de Confidências”, em 1921, o crítico Alfredo Bosi destaca que seus versos se inseriam no penumbrismo. Já Ronald de Carvalho, em “Luz Gloriosa” (1913) e “Poemas e Sonetos” (1919) e Guilherme de Almeida, com “Nós” (1917) “A Dança das Horas” (1919), “Livro de Horas de Soror Dolorosa” (1920) ficaram entre o parnasiano e o decadentismo, com substância lírica.

Com influência mais moderna e face política, Cassiano Ricardo escreveu “Dentro da Noite” (1919) e “Evangelho de Pã” (1917). Havia uma dispersão, mas o grupo ficou mais coeso a partir de 1920 e 21, aderindo mais à arte nova. Na turma dos futuristas, Bosi lista Di Cavalcanti, Vicente do Rego, o próprio Monteiro Lobato e Anita Malfatti que sofreram influência do italiano Marinetti (fascista).

Os artigos de Menotti del Picchia, na coluna “Hélios”, no “Correio Paulistano”, que deu muito espaço para a Semana, faziam promoção do grupo vanguardista. Do outro lado, Oswald de Andrade e Cândido Moto, no “Jornal do Comércio” davam ao movimento uma direção de liberdade formal com ideias nacionalistas, mas sem o ufanismo patriótico. Oswaldo chegou a denominar o movimento de aglomeração revolucionária futurista.

No entanto, Mário de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda em seus comentários, negam esse futurismo paulista na esteira de Marinetti, mas admitem uma revisão de valores, o que denota que não havia hegemonia dentro do grupo que nascia.

Antes da Semana, Mário de Andrade lança “Paulicéia Desvairada”, seu primeiro livro de poesias onde mostra uma São Paulo misturada, miscigenada, estrangeirada, com a existência de diversas classes e ideias diferentes. Em seus artigos “Mestres do Passado” (seis no total), ele entoa um canto funeral para os parnasianos, numa forma de sepultar o passado de Francisca Júlia, Raimundo Correia, Olavo Bilac, dentre outros.

A esta altura, tudo se encaminhava para a realização da Semana da Arte Moderna, com mais união entre os intelectuais de São Paulo e Rio de Janeiro. Tudo indicava que o modernismo poderia ser lançado. Sobre “Paulicéia Desvairada”, Oswald considerou um marco, e chama Mário de meu poeta futurista em artigo no “Jornal do Comércio”, na edição de 27 de maio de 1921.

Em “Língua, Literatura e Redação” e “Literatura Brasileira – das origens aos nossos dias”, o autor José de Nicola faz uma análise da época dos primeiros anos do século XX, destacando que existia uma divisão entre o meio rural e o urbano. O meio urbano era caracterizado pela luta de classe do operariado, com influência anarquista dos imigrantes vindos da Europa, principalmente da Itália.

Nesse aspecto, o crítico literário cita o jornal “Terra Livre” (1905 – 1911) e a greve de 1917 sob forte influência da Revolução Russa. Tudo isso foi se somando para as mudanças de ideário no meio intelectual. Em 1922 aconteceu também a fundação do Partido Comunista Brasileiro, provocando um declínio do anarquismo e abrindo caminho para a organização da Semana.

Os elementos sociais e políticos formaram um palco ideal em direção a um movimento que mostrasse uma arte inovadora de maneira a romper com as velhas estruturas. Era uma São Paulo do café e da indústria conectada com o mundo. A Semana, então, apresentou, segundo Nicola, o lado político contra a aristocracia e a burguesia.

Di Cavalcante, segundo a pesquisa de Nicola, foi um dos primeiros a sugerir a organização da mostra. Anos depois, em seu livro de memórias, afirmou ter sugerido a Semana, que seria de escândalos literários e artísticos, “de meter os estribos na barriga da burguesinha paulistana”.

 

UMA SEMANA POLÊMICA DE IDEIAS FUTURISTAS QUE TERMINOU EM RACHA (I)

Em fevereiro próximo (de 13 a 18) comemora-se o centenário da Semana de Arte Moderna de 1922. Nosso blog (Encontro com os Livros) vai fazer uma série de artigos sobre o assunto (pesquisa de Jeremias Macário) em homenagem ao evento, que foi um divisor de águas entre o passado e o novo na história das artes, abrangendo todas as linguagens artísticas. Este é o nosso primeiro comentário que segue todas as sextas-feiras.

A Semana de Arte Moderna de 1922 – uns estudiosos do assunto registram o período de 11 a 18 de fevereiro e outros de 13 a 18 – está recheada de controvérsia, divergências, brigas e separações entre grupos idealizadores. Ela nasceu com ideias futuristas da Itália através de Marinetti (seguidor de Mussolini), com princípios libertários nacionalistas visando substituir os velhos estilos e gêneros do passado parnasiano pelo novo, conforme assinalam críticos literários, como Alfredo Bosi e José de Nicola.

No geral ela bebeu da vanguarda europeia antes e depois da I Guerra Mundial e se inspirou em movimentos expressionista, dadaísta e cubista, principalmente. Com os acontecimentos políticos após o evento houve uma divisão e alguns enveredaram para o nacionalismo ufanista da direita fascista integralista. A concepção futurista foi banida pelo próprio Oswald de Andrade, um dos pensadores do movimento.

Os três principais espetáculos da Semana, no Teatro Municipal de São Paulo (dias 13, 15 e 17 de fevereiro), que neste ano está comemorando seu centenário, juntamente com a fundação do Partido Comunista Brasileiro, a Revolta Militar do Forte de Copacabana (depois veio o tenentismo e a Coluna Prestes) e o bicentenário da Independência do Brasil, foram de muita confusão, algazarras, vaias, ofensas e críticas veladas aos escritores, poetas, pintores e aos artistas participantes.

Os mentores do movimento, Graça Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras (Alfredo Bosi, em “História Concisa da Literatura Brasileira”) e Di Cavalcanti (“Literatura Brasileira, de José de Nicola) depois seguiram caminhos diferentes na política, com o racha no grupo. Por ironia, o encontro contou com forte patrocínio do setor financeiro paulista, apesar dos escritos literários (a maior expressão veio da literatura), focar seus alvos contra os hábitos e costumes sociais da burguesia rural e urbana.

RETROSPECTIVA

Para entendermos melhor o que foi a Semana de Arte Moderna de 1922, devemos fazer uma retrospectiva dos fatos desde a primeira década do século XX, a I Guerra Mundial (1914-1918) e as renovações de pensamentos ocorridas na Europa, especialmente na França, Alemanha e Itália. Esse turbilhão de ideias, como sempre acontece, chegou mais atrasado no Brasil de Oswald de Andrade, Di Cavalcanti, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Mário de Andrade e outros.

Em sua crítica, Bosi faz uma definição do modernismo como um clima estético e psicológico, citando Graça Aranha, o único intelectual da velha guarda que passa do pré-moderno e adere ao modernismo, mas que permanece com sua posição política de direita. Na realidade, esse movimento traz consigo um novo código diferente do parnasiano de Olavo Bilac e do simbolismo, como Manuel Bandeira e Ribeiro Couto.

O escritor Lima Barreto já introduzia em sua literatura traços modernos em seus romances, bem como Monteiro Lobato, um conservador crítico ferrenho da Semana, Guilherme de Almeida, Menotti e Oswald de Andrade. No entanto, nem tudo que foi modernista parecia moderno, conforme descrevem os literatos.

Lima Barreto e Graça de Aranha pertenciam a camadas sociais bem diferentes (o primeiro de origem pobre), mas tinham forte sentimento nacional ao ponto de palmilharem juntos a revolução literária dos anos 20 e 30. Em sua visão, Bosi pondera que, se por modernismo entende-se ruptura com os códigos literários do primeiro vintênio, a rigor não houve escritor pré-modernista.

Antes da Semana já havia exemplos de inconformismo cultural através da crítica literária às estruturas das velhas gerações nos primeiros vinte anos do século XX. Portanto, dentro desses códigos literários podem ser considerados de pré-modernistas Euclides da Cunha, João Ribeiro, Lima Barreto e Graça de Aranha.

Na verdade, como exemplifica Bosi, existia sim um espírito modernista no ar por meio de inovações artísticas que mais tarde iriam polarizar, a exemplo de Anita Malfatti, Victor Brecheret, Di Cavalcanti, Vila-Lobos, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Sérgio Milliet, Guilherme de Almeida, Manuel Bandeira, dentre outros.

Nos primeiros anos da I Guerra Mundial, os ventos desses ideais já sopravam. Na Europa, a literatura dava sinais de crise. Em Paris, Oswald conheceu o futurismo de Marinetti, em 1909. Este acabou aderindo ao fascismo de Mussolini. Em 1912 aconteceu o manifesto “Fundação no Figaro” e Paul Fort lançava seus versos livres.

No Brasil, Manuel Bandeira plantou as primeiras sementes do modernismo. Ronald de Carvalho ajudou, em 1915, fundar a revista de vanguarda portuguesa “Orpfeu” que propagou a poesia de Fernando de Pessoa e Sá Carneiro.

Também Tristão de Ataíde e Graça de Aranha conheceram as vanguardas europeias simbolizadas na poesia de Sérgio Milliet. Mesmo com críticas e polêmicas, o termo futurismo, visto como barbarismo, começa a circular nos jornais brasileiros por volta de 1914. Antes disso, em 1910, na Bahia, foi publicado um folheto sobre o manifesto de Marinetti, excluído durante a Semana de Arte Moderna. Outro fato que marcou essas mudanças foi o artigo de Ernesto Bertarelli sobre as lições do futurismo, no jornal “Estado de São Paulo”.

Essas inovações simbolistas de versos livres eram muito contestadas, mas começavam a aparecer até no meio sertanista de Cornélio Pires, Paulo Setúbal e Catulo da Paixão Cearense. Como diz Bosi, era um híbrido de culto ao popular e ao nacional.

As manifestações, surgidas na Europa através de uma série de exposições, terminaram desaguando no encontro da Semana de Arte Moderna, organizada por um grupo da burguesia culta paulista e carioca, que mudou o quadro literário, o carro-chefe do evento junto com as artes plásticas.

Antes da Semana, porém, o fato mais importante que movimentou a cultura paulista foi a exposição de Anita Malfatti, em 1917. Apesar de criticada, sua mostra de pinturas, com traços expressionista e cubista, serviu de guia para as novas tendências. O evento de São Paulo recebeu uma crítica virulenta de Monteiro Lobato (conservador), com o artigo “Paranoia ou Manifestação”?, publicado no jornal “Estado de São Paulo”.

Os trabalhos de Anita (estudou artes plásticas na Alemanha) tiveram o apoio de solidariedade de Oswald, Menotti del Picchia e Mário de Andrade contra as críticas de Lobato. Em sua bagagem da Europa, ela trazia novos elementos plásticos da Alemanha e dos Estados Unidos.

Em sua obra de “Literatura Brasileira”, Alfredo Bosi descreve que de 1917 a 1922, um grupo jovem e atuante no meio literário paulista bebeu das poéticas do pós-guerra, mas, mesmo assim, ainda mantinha o tradicionalismo provinciano brasileiro.

Ainda em 1917, Mário de Andrade estreou na literatura com “Há uma Gota de Sangue em Cada Poema” sobre a I Guerra. Na época, Bandeira considerou os versos ruins, dizendo que tinham resquícios condoreiros. Oswald lança “Os Condenados”, um romance ainda de estilo híbrido na análise de Bosi.

Menotti, um dos mais ativos da Semana, publica os livros de “Poemas do Vício e da Virtude” (1913), ainda parnasiano, Juca Mulato” (poemeto regionalista), “Moisés” (poema bíblico) e as “Máscaras” (1917), com vícios do decadentismo. As obras foram bem aceitas pelo público. Em 1922, ele escreve o romance “O Homem e a Morte” que narra as aventuras de um artista paulista com um estilo entre o romântico e o impressionista.

 

NOSSOS LIVROS COMEÇAM A FLORESCER NO JARDIM DAS MENTES BRASILEIRAS

Até que afinal de contas uma luz começa a surgir lá no fim do túnel da nossa cultura, um jardim tão pisoteado nos últimos anos. Essa esperança faz o sol nos tirar das trevas através do livro. Acabo de ler uma boa notícia do Painel do Varejo de Livros. Ele diz que entre os meses de janeiro a novembro deste ano, a venda de livros superou em 33% o ano de 2020, e em 31% o ano de 2019, antes da pandemia.

É uma boa nova cultural entre tantas macabras neste ano que se finda com a destruição do nosso patrimônio histórico, com a negação da nossa memória e o retrocesso em direção aos tempos da Idade Média. O aumento da leitura, não importa os estilos e gêneros, é um sinal do florescer das mentes, porque ela oferece mais visão ao indivíduo que passa a expressar melhor suas ideias.

Espero que neste 2022, a venda de livros nas livrarias que ainda restam (muitas foram fechadas) supere a do ano que se vai. Isso pode até dar um ânimo no mercado livreiro, mas o governo federal, um negacionista e retrógrado, já trama o pior contra a nossa combalida cultura, que é a intenção de elevar os impostos para os livros. Isso poderá tornar menos acessível às classes de menor poder aquisitivo.

Ler é florescer as mentes. Ler um livro é como plantar mais uma semente do conhecimento e do saber no quintal do nosso jardim. A maioria dos nossos grandes escritores sempre tiveram uma infância e uma juventude de leitura, principalmente nos tempos em que se tinha fome de cultura, e se devorava livros, e não redes sociais em celulares de ódios e intolerâncias, cheias de fake news.

Sobre a leitura, um alimento para a alma faminta, aqui listaria uma série de benefícios para o espírito que poderia até virar bordões chatos como de final de ano, mas o livro é um templo sagrado que o ser humano deve sempre frequentar, não importando sua religiosidade. É um rememorar o passado para o conhecer das nossas origens; entender melhor a realidade do presente; e abrir novos caminhos para um futuro melhor.

Se o brasileiro está lendo mais, isso logo vai refletir na sociedade, e vamos ter mais capacidade de agir e reagir contra as mentalidades atrasadas. Vamos ter gente falando melhor, e transformações sociais virão por aí. É um sinal de que estamos saindo dessa letargia, desse apagão mental e de que está despontando aí o senso crítico. Incentivar o hábito de ler é lutar por uma país melhor, como disse o escritor e poeta Leandro de Assis, autor do livro “O Poder Transformador da Leitura: Hábitos e Estratégias para Ler Mais”.

Como diz o escritor, precisamos de mais espaços para a leitura, como a criação de mais bibliotecas, estímulo às livrarias e projetos do poder público para lançar novos talentos da literatura. Em Vitória da Conquista, por exemplo, precisamos resgatar a nossa cultura em reverência aos grandes nomes que projetaram nossa cidade através das letras.

Umas das estratégias seria a criação de um Plano Cultural para Conquista através de uma Fundação, para dar normas às diretrizes políticas culturais. Nesse sentido, o novo Conselho Municipal de Cultura tem, neste ano de 2022, a obrigação de fazer decolar esse plano, deixando um legado para as novas gerações.

Acredito que um país culto é um país desenvolvido onde seus cidadãos passam a ser donos de si mesmos, elegendo políticos comprometidos com a educação e a cultura. Só assim poderemos extirpar de uma vez os preconceitos racistas, a homofobia, a xenofobia, a misoginia, e olhar os outros sem diferenças. A cultura exerce influência também no nível econômico e social das pessoas, reduzindo as desigualdades.

 

 

“ESCRAVIDÃO”

Em tempos de tanto preconceito racial, ódio e intolerância entre brasileiros, envolvidos numa polarização bestial, o jornalista e escritor premiado com os livros 1808, 1822 e 1889, Laurentino Gomes acaba de lançar a trilogia ESCRAVIDÂO (o último sai agora em 2022), que durou 350 anos no Brasil, o último país ocidental a decretar a abolição. Deve ser lido para se entender a história, a vergonha e as agruras do tráfico negreiro.

Foram seis anos de pesquisas que incluíram doze países e três continentes por onde Laurentino passou, além de centenas de entrevistas. O primeiro volume cobre um período de 250 anos, desde o primeiro leilão de escravos africanos em Portugal, no dia 8 de agosto de 1444, até a morte de zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695.

A obra também explica as raízes da escravidão humana na antiguidade (Grécia antiga, Império Romano, Turco-Otomano) e na própria África antes da chegada dos portugueses; o início do tráfico para as Américas; os números; os bastidores; e os lucros do negócio negreiro. Fala também da trajetória do baiano mulato claro Francisco Felix de Souza, o mais rico, famoso e influente mercador de gente na costa africana do Benin.

Outro personagem descrito por Laurentino é o do infante Dom Henrique, patrono das grandes navegações e descobrimentos do século XV, tido também como um dos grandes traficantes no Atlântico. É uma história de dor que continua com suas marcas em Luanda (Angola), Ajudá (Benin), Cidade Velha, em Cabo Verde, Liverpool, na Inglaterra e cais do Velongo (Pequena África), no Rio de Janeiro.

Os dois últimos volumes de um trabalho profundo são dedicados aos séculos XVIII, auge do tráfico de escravos, e ao movimento abolicionista que resultou na lei áurea de 13 de maio de 1888. Na verdade, os escravos não tiveram a liberdade de verdade porque foram abandonados à própria sorte, sem serem indenizados pelos anos de sofrimentos.

Esse fantasma da escravidão continua a nos perseguir com o racismo que ainda persiste no Brasil, sem falar na questão social de pobreza entre os negros, onde os índices de acesso ao emprego, à educação, à saúde e outros serviços são baixos em relação aos brancos.

Laurentino começou sua obra em Ajudá, na República do Benin (não confundir com o Reino do Benin que fica na Nigéria), em frente a uma grande gameleira, conversando com Marcelin Norberto, de 92 anos, patriarca da nona geração da família Souza, dinastia fundada no Reino do Daomé (colônia francesa até 1975).

Ao morrer, em 1848, com 94 anos, o baiano Francisco de Souza deixou 53 mulheres viúvas, mais de 80 filhos e dois mil escravos. Teria acumulado uma fortuna de mais de 120 milhões de dólares. Ele ganhou do rei Guezo, do Daomé, o título de chachá.  Em seu livro-reportagem, o autor narra que, a centenas de metros da casa de Marcelin, ergue-se a antiga Fortaleza de São João de Ajudá, o mais importante entreposto de tráfico negreiro português e brasileiro no Golfo de Benin até metade do século XIX. A poucos quilômetros, no litoral, lá está a Porta do Não Retorno onde começou a Rota dos Escravos. Pela porta de Ajudá, passaram cerca de um milhão de escravos.

Na África, existem dezenas dessas portas por onde foram embarcados nos navios negreiros mais de 12 milhões de africanos que nunca tiveram a oportunidade de retornar às suas origens. Desses, estima-se que cinco milhões vieram parar no Brasil. Segundo Laurentino, o banco de dados Slave Voyages, cataloga 36 mil viagens dos navios negreiros ao longo dos 350 anos, num total de 188 portos de partida de cativos, sendo que 20 deles responderam por 93% do total do tráfico no Atlântico.

A história é longa e triste que vale a pena ser lida e até relida para que conheçamos as origens dos nossos antepassados e sepultemos para sempre o racismo. Paranaense de Maringá, premiado seis vezes com o Jabuti de Literatura, Laurentino é formado em jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com pós-graduação pela Universidade de São Paulo e membro da Academia Paranaense de Letras.

 

“JOVENS NO MERCADO DE TRABALHO E O DESENVOLVIMENTO SOCIAL”

Desigualdade e vulnerabilidade social, a inclusão do jovem nas leis de aprendizagem e do estágio no mercado de trabalho, a empresa que não segue os ritos da lei, a informalidade, a evasão escolar e a necessidade do emprego para o sustento familiar são questões pertinentes e atuais abordadas pelo professor, conselheiro-presidente do Instituto Alfam, gestor e consultor empresarial Fabrício Vieira Silva em um dos capítulos do livro “Relações Humanas-desafios e perspectivas”.

Todos esses problemas, como aponta o mestre em Desenvolvimento e Gestão Social pela Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia, terminam refletindo no desenvolvimento do país, detentor de grandes riquezas, mas com instabilidade econômica e social de toda ordem, bem como escassez de recursos para assegurar as condições básicas à população (educação, saúde precárias) menos favorecidas- assinalou.

Fabrício diz estar longe de apresentar soluções para situações tão complexas, mas deixa claro que a saída é a educação completa do jovem para enfrentar a competitividade do mercado, cada vez mais exigente em termos de qualificação da mão-de-obra. “O abandono escolar perpetua o ciclo de pobreza e a vulnerabilidade social”, termo sempre repetido por ele em seu artigo.

Quando se discute o aspecto do trabalho, Vieira destaca que o país tem características peculiares em relação a outras nações do mesmo porte, por dispor de instrumentos de inserção dos jovens no mercado formal de trabalho, como o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente, a lei de aprendizagem (Lei do Jovem Aprendiz) e a lei do estágio. “Mesmo assim, o país patina na tentativa de encontrar as soluções para tornar-se mais igualitário e com melhor desempenho no mundo do trabalho”.

Ele salienta que, “embora o estágio não seja considerado regime formal de trabalho, o destacamos como uma oportunidade disponível de inserção dos jovens no mercado de trabalho, desde que a prática não seja utilizada pelas empresas como mera substituição precarizada do empregado formal, que respeite a área de atuação na qual o estagiário esteja estudando e também o quantitativo máximo estabelecido pela lei”.

O articulista ressalta que em suas atividades profissionais tem captado diálogos empresariais, dentre algumas, que lhe intrigam, tais como, há vagas no mercado, o que falta é gente qualificada! A legislação é muito rigorosa quanto as exigências à inserção dos jovens! Eu não consigo “aproveitar” os jovens que passam por aqui, pois estão “verdes” e despreparados! Não tenho condições de fazer da minha empresa uma escola, pois fica caro fazer o jovem aprendiz, e acabo cumprindo a lei para não ser multado.

Em sua opinião, Fabrício entende que existe um distanciamento entre a formação profissional e acadêmica e o mercado de trabalho formal. O mercado carece de pessoas mais qualificadas, muitas vezes mais comportamentais e psicológicas do que técnicas, sem negligenciar o conhecimento do ofício – destaca

Um ponto que sempre o professor chama a atenção é quanto a vulnerabilidade social das famílias. “Um país como o Brasil, em desenvolvimento, ainda amarga um elevado número de famílias em condições de pobreza ou de extrema pobreza que vivem se deparando com diversas carências”…

De acordo com o IBGE, conforme cita, em 2018 o país tinha 13,5 milhões de pessoas com renda mensal per capita inferior a 145 reais, critério adotado pelo Banco Mundial para identificar a condição de extrema pobreza.

Ainda sobre o tema vulnerabilidade social, Vieira aponta dois pensadores Richard Castell e Carolina Moser. Para o primeiro, os indivíduos passam a integrar à sociedade por meio de dois processos: O mundo do trabalho e as proximidades pelas relações familiares de vizinhança. Essas relações proporcionam sensação de pertencimento (proteção e segurança). Sobre a questão do trabalho, Castell apresenta as possibilidades de inserção pelo trabalho estável, assegurando direitos, e o precário, sem contratos, sem vínculos formais e garantias e, por fim, a não inserção por compor o quadro de desempregado ou incapacidade para o exercício.

Para Moser, a vulnerabilidade teria duas origens, por ausência ou escassez de ativos; ou por uso inapropriado dos recursos que se tem por parte dos indivíduos, famílias e comunidades. Segundo ela, as estratégias de enfrentamento centram-se na disponibilização de ativos às pessoas e no apoio para a adequada utilização dos recursos de que se dispõe.

Em seu trabalho, Fabricio enfatiza que o Brasil tem uma mão-de-obra bastante jovem e que, se bem preparada, poderia dar saltos na contribuição para um país bem mais estruturado no campo social e econômico. No entanto, existe uma oscilação crescente no número de desemprego de 2012 a 2019, conforme dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

O crescimento do desemprego, segundo Fabrício, empurra o jovem para o mercado de trabalho informal de baixa qualidade, de vínculos empregatícios precários e de menor remuneração, ou infantil. Conforme o IPEA, “trabalhar na informalidade no início da carreira pode comprometer toda a sua trajetória profissional”. O consultor Fabrício vai mais além quando afirma que quando o jovem entra na informalidade sofre a real possibilidade de abandono dos estudos para ajudar a família. “Não hesita em abrir mão da escola quando vislumbra ter mais ganho mediante o aumento da carga de trabalho”.

O professor diz que a atividade remunerada na vida desses jovens representa, sobretudo, uma renda para o complemento do ganho familiar, bem como a satisfação de consumo desses próprios jovens. “Com isso, os jovens trabalhadores se sentem úteis e importantes em seu meio social. A valorização é maior quando se trata de trabalho formal, fazendo o emprego assumir mais importância na sua vida (Moura, 2009, p. 11).

Ainda sobre a evasão escolar, Vieira alerta que esse fato faz diminuir as expectativas de um futuro melhor e mais digno para o jovem e sua família e, com isso perpetua o ciclo de pobreza e vulnerabilidade social. Ainda no mesmo artigo, o professor Fabrício discorre sobre família, trabalho, escola e desenvolvimento social, destacando que famílias com vulnerabilidade social tendem a estimular os jovens ao trabalho como saída para ampliação da renda, por questão de sobrevivência.

 

 

O RACISMO E A DOMINAÇÃO COLONIAL NA VISÃO DE FRANTZ FANON

No livro “Pele Negra, Máscaras Brancas” (1951), do psiquiatra martiniquense Frantz Fanon, o racismo não é visto como algo específico de certas sociedades, como costumava analisar à época. Na obra, o autor examina o racismo dos franceses.

De acordo com o professor Muryatan Barbosa, em “Intelectuais das Áfricas”, Fanon chega à conclusão de que, na verdade, existe uma essência racista, que pode se apresentar na aparência de formas diversas. Isso ocorre, ainda conforme o autor, porque os processos de racialização são sistêmicos. “Eles prenderiam tanto negros quanto brancos em uma lógica binária e maniqueísta”.

Ao abordar a questão natural da inferioridade de uns negros em relação a outros brancos, para Fanon, o racismo nega a dialética do Eu e do Outro, que seria a base da vida ética. “A consequência disso é que todo processo de desumanização é aceitável”. Ele entende que o racismo é fruto do colonialismo.

“Se há um complexo de inferioridade, este surge após um processo duplo: econômico, inicialmente; em seguida, pela interiorização, ou melhor, epidermização dessa inferioridade” – destaca Fanon.

Na análise do professor Barbosa, em 1952, o Partido Comunista Francês ainda possuía uma posição dúbia quanto a questão colonial francesa, sem defender abertamente a necessidade das descolonizações africanas. Diante desse aspecto, muitos intelectuais negros saíram do partido, como Aimé Césaire, em 1956.

Em sua luta revolucionária na libertação da Argélia, Fanon sempre se colocou contra a exploração, a miséria e a fome. No início da guerra, o psiquiatra tratava cada vez mais pacientes colonialistas e colonizados, que tinham passado por processo de violência extrema, torturados e torturadores, dada a insanidade da insurgência francesa.

Em 1956 escreveu uma carta pública se demitindo do hospital argelino onde trabalhava. Isto foi o início de um novo ciclo revolucionário, afastando-se das relações com a maior parte da esquerda francesa, que não se posicionava contra o colonialismo.

A partir dali, Fanon buscou só manter relações pessoais com os que tinham o mesmo compromisso político que ele, ou que poderiam ser importantes para divulgar a revolução argelina no exterior. Em 1957 se entregou de vez à Frente de Libertação Nacional (FLN), como ministro da Informação e representante do Governo Provisório Argelino no Exterior.

Mesmo assim, ele e outras lideranças, entre 1958 e 1959, foram secundarizados pelo grupo hegemônico do primeiro presidente argelino Bem Bella. Nesses anos, exerceu com afinco a função de editor do jornal El Moudjahid.

No I Congresso dos Escritores e Artistas Negros, em Paris (1956), Fanou escreveu o texto Racismo e Cultura onde defendeu uma questão primordial: o racismo deve ser entendido desde uma abordagem sistêmica e histórica. “Ele é parte integrante de uma condição de hierarquização sistêmica, perseguida de maneira implacável, visando um trabalho de escravização econômica, ou mesmo biológica, de um grupo populacional sobre outro”.

Em seu entendimento, o elemento mais visível do racismo está na opressão sistematizada de um povo. “Ele é a norma desta sociedade e desta cultura que busca inferiorizar e desumanizar povos subalternizados”. Em seus ensaios, Fanon afirmou que o racismo é próprio de um processo de opressão, de desumanização e de hierarquização sistêmica num sistema determinado. O colonialismo é uma das formas dessa opressão, mas não a única.

Em um trecho de seus textos, ele chegou a dizer que a opressão militar e econômica precede, possibilita e legitima o racismo. Fanon aponta duas características de racismo, a capacidade de introjeção e naturalização, bem como, por ser funcional. Nesse caso, o racismo precisa estar sempre se remodelando. Antes justificava-se com argumentos biológicos. Nos tempos atuais são justificativas mais sofisticadas, como culturais e ou psicológicas atribuídas aos grupos inferiorizados – assinala o escritor.

Fanon faz um paralelismo entre as sociedades coloniais e racista. Para ele, ambas são fruto de um mesmo processo de subjugação de alguns grupos populacionais sobre outros. Os termos usados por ele seriam parte de um mesmo processo de dominação que possuiria um mesmo caráter  estrutural, num sistema determinado, que nasce com o colonialismo, mas não morre com ele.

 

UM AUTOR ATIVISTA E ANTICOLONIALISTA

Viveu somente 36 anos, mas deixou obras marcantes de reconhecimento internacional, principalmente para a comunidade africana, por suas posições e suas lutas contra o colonialismo. Estamos falando do psiquiatra Frantz Omar Fanon, que nasceu em 1925, na Martinica, então colônia francesa.  Morreu em 1961.

O doutor e professor em História Social, Muryatan S. Barbosa é quem analisa o pensamento de Fanon, no livro “Intelectuais das Áfricas”. Segundo ele, em 1944, o martiniquense se voluntariou para lutar contra o nazifascismo durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1948 chegou a Lyon, na França, para estudar medicina e psiquiatria. Desenvolveu grande interesse pela filosofia de viés existencialista. Entre 1953 e 1956 foi diretor do Departamento de Psiquiatria no Hospital de Blida-Joinville, na Argélia, onde viu o nascimento da guerra anticolonialista.

Novamente, Fanon demitiu-se do cargo para se integrar à Frente de Libertação Argelina, em 1956. Entre 1960 e 1970 ficou conhecido como um autor anticolonialista pela publicação da obra “Condenados da Terra” (1961), prefaciada pelo filósofo Jean-Paul Sartre.

O professor Muryatan disse que suas ideias continuam vivas também nos movimentos sociais e políticos nos Estados Unidos, na Itália, França, Palestina, Caribe e Brasil. Ele divide os estudos da obra de Fanon em quatro blocos. A primeira marcada pelas leituras dele como um autor ativista anticolonialista, influenciado pelo marxismo e pelo existencialismo.

O segundo bloco trata-se de uma abordagem de estudos biográficos sobre Fanon nos anos 70. O terceiro, entre os anos 80 e 90, analisa o suposto pioneirismo de Fanon como autor pós-colonial, ou de estudos culturais. A quarta vertente, após 2000, visa atualizar o pensamento do autor em suas próprias bases.

De acordo com o professor, são quatro o conjunto de ensaios que formam os livros de Fanon, tais como Pele Negra, Máscaras Brancas, O IV Ano da Revolução Argelina, Condenados da Terra e Por Uma Revolução Africana (1964), póstuma.

“Fanon foi um dos intelectuais ativistas dos anos 50 e 60 que deu maior importância à cultura no plano da luta anticolonial. Algo talvez só comparável a Amílcar Cabral na mesma época. Para ele, a cultura era a alma viva de um povo”.

Sobre o jazz, Fanon afirmava que poderia ser entendido como uma práxis de luta do negro dos Estados Unidos visando a superação do universo racista daquele país.

UM ESTRATEGISTA QUE LUTOU PARA UNIR DUAS POPULAÇÕES AFRICANAS

De formação binacional, de Cabo Verde e Guiné-Bissau, Amílcar Cabral foi um estrategista de visão nacionalista que procurou driblar os esquemas de repressão dos colonialistas portugueses, visando unir dois povos com etnicidades diferentes. Seu assassinato até hoje não ficou esclarecido, mas existe uma forte versão de ter sido a mando de autoridades de Portugal.

Quem fala sobre ele no livro “Intelectuais das Áfricas” é o professor Fábio Baqueiro Figueiredo, doutor em Estudos Étnicos e Africanos pela Universidade Federal da Bahia. Cabral, em sua descrição, nasceu em Bafatá, leste da Guiné-Bissau, em 1924, e era filho de dois cabo-verdianos, cuja nação já estava integrada ao império, enquanto na Guiné, os portugueses lutavam para consolidar a dominação territorial.

Cabral, de acordo com o professor, deveu sua formação inicial às estruturas escolares instaladas em Cabo Verde, para onde emigrou em 1932, junto com a família. Em 1945, após terminar o sétimo ano do liceu, obteve, por concurso, uma bolsa para o Instituto Superior de Agronomia em Lisboa. Dos 220 ingressantes, Amílcar era o único negro da turma.

Na época da ditadura salazarista e depois da II Guerra Mundial, Cabral participou do Movimento de Unidade Democrática da Juventude e, na Casa dos Estudantes do Império, chegou a ser vice-presidente da unidade, ao lado de Acácio Cruz. Essa nova direção reforçou o papel da instituição como espaço dinamizador de debates sobre a realidade colonial.

A Casa rendeu um núcleo importante de intelectuais de diversas correntes, inclusive marxista, mas houve uma separação, por vontades próprias e imposição da repressão estatal, a partir da década de 1960. No entanto, eles continuaram se correspondendo e se agruparam no Movimento Anticolonial que se transformou em movimentos nacionalistas articulados por uma organização unitária denominada de Frente Revolucionária Africana para a Independência Nacional.

Essa Frente foi substituída pela Conferência das Organizações Nacionalistas das Colônias Portuguesas. Nesse tempo, Cabral publicava duras críticas ao governo ditatorial português e se recusava a negociar a independência de suas colônias nos órgãos de esquerda da imprensa internacional. Ele foi nomeado diretor Adjunto dos Serviços Agrícolas e Florestais da Guiné.

No interior, ele teve contatos com a realidade da maioria camponesa da população e com as diversas etnias balantas, fulas, manjacos, mandigas e outras que eram usadas pelos portugueses para se dividirem em torno da independência nacional. Foi aí que Cabral também usou da sua estratégia em torno de uma união nacional, sempre se expressando em nossos povos e nossas populações. Ele procurou unir as tribos em torno de um ideal nacionalista comum.

Em 1960 viajou a Tunes para a II Conferência Pan-Africana onde se uniu a antigos colegas de Lisboa, para abrir escritórios oficiais das organizações nacionalistas nos países já independentes. O primeiro ponto de apoio foi em Conari, ex-colônia francesa da Guiné. A essa altura, passou a ser o líder da organização nacionalista.

A luta armada, conduzida pelo Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), desenvolveu-se, exclusivamente, no território da Guiné, e foi iniciada em 1963. Dez anos depois, o Partido já dominava maior parte do território guineense, declarando, unilateralmente, a independência, acelerando a queda da ditadura portuguesa. Entretanto, não viu esse dia, pois foi assassinado, em 20 de janeiro de 1973, em Conari, por guerrilheiros do seu próprio partido, em circunstâncias nunca esclarecidas.

As versões do seu assassinato apontavam para a polícia secreta de Portugal e para o governador da Guiné, o general Antônio de Spínola. Outros disseram que não passou de um acerto de contas entre guineenses e cabo-verdianos no seio do partido por pessoas que buscavam cargos em postos superiores. Existe também a versão da participação do presidente da Guiné-Conari, Ahmed Touré, que tinha a intenção de anexar a Guiné ao território do seu país.

Diz o professor Fábio, que Cabral permaneceu sendo o líder intelectual do processo político e militar guineense, e referência para o pensamento nacionalista africano. “Cabral deu uma contribuição teórica original e, na maior parte das vezes, mais coerente e estruturada que outros intelectuais africanos diretamente envolvidos na política”.

 

UM GUERRILHEIRO QUE DENUNCIOU OS ESQUEMAS DE CORRUPÇÃO EM ANGOLA

UM PAÍS AFRICANO QUE É A CARA DO BRASIL, SÓ QUE NUNCA EXPERIMENTOU O SOCIALISMO. A QUESTÃO ESTÁ NO SER HUMANO QUE É NEFASTO, DESTRUIDOR E MALÉFICO. TUDO PELO PODER.

As obras “Predadores”, “O Cão e os Caluandas”, “A Geração da Utopia” e “O Desejo de Kianda”, de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, o Pepetela, representam uma forte carga de críticas contra os desvios de conduta e os esquemas de corrupção do governo do Movimento pela Libertação de Angola (MPLA) quando o país foi emancipado por volta de 1975, e depois a partir da transição do socialismo para o capitalismo.

Quem faz comentários sobre Pepetela no livro “Intelectuais das Áfricas” é o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Sílvio de Almeida Carvalho Filho, que mapeia toda trajetória de um guerrilheiro que participou da luta pela independência e depois se desligou do poder para se dedicar à literatura da denúncia na área política e social contra os malfeitos do novo governo “socialista” que propunha dar voz aos trabalhadores e à população mais pobre.

Não abandonou seu país

Pepetela, branco num país majoritariamente de negros, nasceu em 1941 ao sul de Angola, na cidade de Benguela, em uma família pequeno-burguesa. Depois da emancipação, não abandonou sua terra como fez a maior parte dos portugueses e descendentes.

Como assinalou o professor Sílvio, sempre repudiou o racismo em Angola, como fez no livro “O Cão e os Caluandas”, no qual ressaltava que os cachorros, ao guardar as casas dos colonos mordiam os negros, rosnavam nos mulatos, lambiam as mãos dos brancos ou portavam o vírus do ódio ao negro, da desconfiança ao mulato, do respeito ao branco.

Desde cedo, o angolano se manifestou interessado pelas questões sociais brasileiras, especialmente pelas obras de Jorge Amado. Ainda jovem encantou-se com a leitura de um livro do anarquista Proudhhon, e depois entrou em contato com o pensamento de Marx e seus seguidores.

Em Argel, no Centro de Estudos Angolanos, escreveu os diálogos da história em quadrinhos (primeira história em quadrinhos de Angola), intitulada “Contra a Escravidão: Pela Liberdade”. Publicada em 1967, a obra foi muito apreciada pelos guerrilheiros e nas escolas mantidas pelo MPLA. Em 1969, retoma sua verve literária escrevendo em Argel seu primeiro livro “Muana Puó”, lançado em 1978.

Conforme conta Sílvio de Almeida, enquanto participava da luta armada, não deixou de escrever romances, como “Mayombe”, entre 1970 e 71, em Cabinda, e “As Aventuras de Ngunga”, em 1972. Foi membro do Estado-Maior da Frente Centro das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola (FAPLA). Com uma grave hepatite, retornou a Luanda em novembro de 1975, no momento da independência do país. Recuperado, foi para Lubango dar aulas.

Entre os anos de 1983 a 2008 lecionou Sociologia Geral e a Urbana na Faculdade de Arquitetura da Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Gradativamente tornou-se em o mais importante literato angolano em virtude da editoração de 24 livros. Além da sua luta no MPLA, participou também da repressão à Revolta Nitista, em 1977. Ele contava que, quando era criança lhe obrigavam ir à missa, e agora ir à reunião da célula do partido.

Como disse o professor Sílvio, ao longo da sua vida, passou a perceber que a maior parte da crítica na agremiação partidária, muitas vezes, quando atingia as cúpulas do poder, acomodava-se à linha oficialmente estabelecida, sem rupturas. Afastou-se do partido, e um dos motivos foi a consolidação de um novo staff no poder, ligado ao novo presidente José Eduardo dos Santos, mais afeito à sociedade de mercado.

O crítico Silvio de Almeida afirma que sua literatura confirma que o MPLA, frente às ameaças externas e internas, constituiu num regime autoritário, tornando-se um Partido-Estado, concentrando todo poder em sua mão. “Essa capacidade de crítica às práticas sociais e políticas angolanas encontrava-se presente em “O Cão e as Caluandas” (1978/84)… Com o abandono dos ideais socialistas pela cúpula governamental e com a contínua expansão da corrupção e do autoritarismo, seu juízo vai se tornando mais mordaz, como se expressa nos livros “A Geração da Utopia” (1992), “O Desejo de Kianda” (1995) e “Predadores” (2005).

Ainda um guerrilheiro, em 1969, Pepetela dizia que a rebeldia supunha realizar transformações profundas das estruturas econômicas e sociais para formar o homem novo. Supunha um governo dos trabalhadores que conduziria o Estado: “Que maravilhoso será o mundo quando os que constroem, comandarem!”.

No enredo de “Yaka”, escrito em 1983, através de um personagem contestador, asseverava que “a propriedade suja, emporcalhada, torna os homens piores que bichos. A propriedade é o roubo, afirmava Proudhon, é isso. Mas é mais. Basta a miragem da propriedade para um homem decente se tornar prepotente, um tirano. Ou ainda: O mal era a propriedade(…) mesmo pequena torna o indivíduo escravo dela”.

No início de 1970, destacava que certos quadros do MPLA aplicavam uma série de rótulos àqueles que não tinham exatamente a mesma opinião. Esse rotulismo, segundo ele, era resultado duma preguiça intelectual… ou falta de cultura, predominante em vários guerrilheiros. Dez anos após a independência, em “O Cão e os Caluandas” escrevia em tom irônico que o Estado angolano, ao se declarar “socialista” utilizou essa qualificação de forma leviana nos discursos…

Pepetela observava em seus textos que a propaganda ideológica homogeneizava enunciados de forma superficial, não estimulando um pensamento socialista autêntico e criativo, sendo um desserviço à concretização de uma nação realmente proletária. Ele denunciava os fingimentos das falas, mais preocupadas com rótulos socializantes do que com o seu conteúdo, demonstrando o reverso do prescrito pelo ideal marxista.

O intelectual angolano criticava certos militantes que se preocupavam apenas em tirar proveito escuso das mudanças políticas quando da Retificação partidária. Em muitos locais houve jogos sujos, próprios da luta pelo poder, mesmo o mais pequeno poder. Denunciava que houve subordinados que aprovaram um chefe incapaz para não serem depois exigidos nos seus serviços. Dizia que os oportunistas conseguiram durante a Retificação obter o cartão de membro do partido para auferirem vantagens e privilégios no aparelho do Estado.

Textos literários em jornais denunciavam que muitos que compactuaram com o capitalismo, e mesmo com a repressão colonial, adotaram o discurso revolucionário, ingressando no governo com intuito de se manter no poder e angariar prestígio social. Muitos burocratas foram denunciados como revolucionários de última hora.

Em os “Predadores”, comentava que alguns estavam mais interessados em se apossar dos bens deixados pelos portugueses em fuga do país do que preocupados com a implantação do socialismo. Pepetela satirizou aqueles que, não tendo uma participação na luta pela independência, inventavam um codinome revolucionário só para ter prestígio político, caso de Vladimiro Caposso em uma de suas obras.

A crítica ferrenha à ineficiência da burocracia apareceu em “O Cão e os Caluandas”, repetida também em “O Desejo de Kianda”. Afirmava que o funcionalismo estatal não trabalhava o bastante e desperdiçava meios e mobilizava estruturas por pequenas questões do dia a dia. Confrontava os excessos de reuniões e de discursos. Era o mal da “reunite”. “O poder burocrático era invisível, porém poderoso e autoritário. As práticas burocráticas geravam uma rejeição popular não apenas aos burocratas, mas ao “socialismo” tal como se instituía”.

O escritor nunca poupou aqueles que dentro do MPLA se aburguesaram. Em 1977, o próprio Comitê Central admitiu que setores da pequena burguesia, aproveitando-se da falta de quadros dentro do Movimento, tentavam aumentar seus privilégios apoderando-se dos cargos de liderança no aparelho estatal. Existia, na verdade, uma mera troca de senhores.

Entre 1978 e 1984, Pepetela condenava a ostentação de privilégios peculiares ao colonialismo por parte de autoridades nacionais e de diretores de fábricas estatais, assim como regalias no setor habitacional, usufruídas por altos funcionários partidários. Havia uma corrupção generalizada que contaminou toda camada social.

Deplorou o patrimonialismo e o clientelismo angolano, quando a burocracia, através de pistolões, reservava para si os bens escassos numa sociedade subdesenvolvida e sofrida pelos efeitos da guerra. Denunciou a obtenção de cargos públicos, não pela competência, mas por meio de afinidades pessoais com os líderes políticos. Declarava que o Estado foi capturado por uma burocracia corrupta que não concorria para uma boa gestão pública.

Mesmo com a transição do “socialismo” para uma economia liberal de mercado, iniciada em 1985, e do abandono formal do marxismo-leninismo no Terceiro Congresso do MPLA, em 1991, toda sujeira se perpetuou no governo, conforme relata Pepetela em seus livros. Angola foi classificada por organismos internacionais com um dos países mais corruptos da África.

 

 

 





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia