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:: ‘Encontro Com os Livros’

AS LENDAS SÃO CONTROVERSAS

  Sobre personagens que marcaram histórias em suas vidas no poder, na política, no campo social e até no âmbito da violência, sempre existiram controvérsias e versões diferentes da parte dos historiadores, pesquisadores, testemunhos, antropólogos e estudiosos do assunto. Quem ler, estuda e pesquisa precisa apurar bem os fatos e ter critério para discernir o falso do verdadeiro, o que não é fácil.

  Venho me debruçando sobre a questão do cangaço nordestino há cerca de seis meses, tendo como figuras principais Antônio Silvino, Lampião, Sinhô Pereira e outros. Os autores, escritores e jornalistas apresentam versões variadas, com base em jornais, pesquisas e de sertanejos testemunhos.

   Vamos aqui focar no caso específico de Lampião. Seu nascimento, sua vida ainda jovem, suas andanças, sua entrada para o cangaço, façanhas, herói ou facínora, sua morte em Angicos e outras passagens são por demais controversos. O tema é fascinante e vasto, bem como difícil de ser desvendado.

 O sertanejo Luis Gonzaga Cordeiro de Magalhães acha que “a morte de Lampião é uma mentira que serve para guardar o segredo de sua vida e talvez, dessa forma protege-lo” – Na minha opinião, Lampião não morreu, mas nós somos obrigados a dizer que ele morreu”.

   No livro “Lampião – Senhor do Sertão”, por exemplo, a autora Élise Grunspan-Jasmin descreve a narração do cordelista José Cavalcanti e Ferreira, apelidado de “Dila”, que conta ter sido irmão de Lampião e que ele era branco de olhos azuis de quase dois metros de altura, descendente de holandês. São doideiras sua entrevista e seus escritos de cordel!

   De acordo com ele, existiram diversões Lampiões, tipos valentões que colocavam um chapéu de couro dobrado e faziam se passar pelo verdadeiro. Chega a dizer que o morto em Angico (Sergipe), em 28 de julho de 1938, foi um preto com defeito no olho, não era o Lampião de verdade, mas um impostor.

   Para este tal de “Dila”, Lampião teria morrido somente em 1970, no Rio Grande do Norte, esquecido de todos, sem que se saiba até hoje o segredo da sua verdadeira identidade.

   O cara sempre foi fascinado pelas narrações e histórias relativas ao cangaço. Chegou a afirmar ser o irmão legítimo de Lampião que, por causa da sua fama, vivia na clandestinidade, fazendo dele um, herói invencível.

  Segundo ele, existiram falsos Lampiões. Um deles era o chamado Lira, natural da região de Moxotó e tinha um outro da região do Pajeú, a quem todas as obras fazem referência.

 “O verdadeiro Lampião só fez três vinganças, era meu irmão e se chamava Cassiano Ferreira Gomes”. De acordo com o “Dila” (não dá para acreditar nele), o seu Lampião nasceu em 12 de agosto de 1877, na terrível seca. Seu pai, de origem holandesa, teria vindo para o Brasil em 1830.

  O “Dila” ainda diz que, quando seu pai morreu, sua mãe instalou-se em companhia dos nove filhos na localidade do Rio Tinto e encontrou refúgio na casa de José Ferreira, (o pai do “impostor” Virgulino Ferreira). Mais parece caso de Maria e José.

  Em 1917, esses irmãos Ferreira de “Dila” resolveram visitar Juazeiro do Norte, do “Padim Ciço”. Entretanto, quando passavam na cidade de Batalhão, ou Barbalha, o coronel Eudócio os convidou para trabalhar em sua fazenda.

  Os “Ferreira” viveram por muito tempo com o coronel que, num, certo dia, pelo bom serviço que prestaram, resolveu dar um nome para cada um. As estórias dele são malucas! Ele sustenta que na família Ferreira existiam quatro Virgulino. O Ferreira da Silva, de nome Cassiano, o irmão dele, filho de Isabel Ferreira, foi o único cangaceiro.

  Em seus escritos de cordel, o “Dila” ressalta que o decapitado em Angico não era o Cassiano, rebatizado Virgulino Ferreira da Silva, mas o negro Anísio Luis Ferreira. O verdadeiro teria ido a Angico oito dias antes do massacre e prevenido a Anísio da chegada iminente de uma Força Volante.

  “O Lampião verdadeiro nunca foi vaqueiro nem tocador de sanfona de oito baixos. Lampião era ferreiro em fundição. Foi ele quem fez essa máquina em que eu faço os meus impressos. A máquina rolou de mão em mão e eu sempre ouvia falar dela, mas não atinava o roteiro, até que por acaso veio parar na minha mão”.

  Para a autora da obra, Élise Grunspan-Jasmim, “Dila” aparece aqui como o arauto de uma cultura popular que se transmite por meio de folhetos de cordel que teriam sido impressos na máquina fabricada pelo “verdadeiro” Lampião”. “Dila” percebeu a lógica da fabricação do mito.

  O confronto de testemunhos revela a impossibilidade de estabelecer uma biografia unívoca, tão ambígua, contraditória e inacessível sobre o personagem. A maioria dos elementos dessa biografia de “Dila” está marcada por incertezas e dá a impressão de uma história de ficção escondida de temas recorrentes, cuja relativa coerência permite, entretanto, entrever uma estrutura simbólica.

AS VÁRIAS VERSÕES SOBRE A MORTE DE LAMPIÃO ATÉ HOJE NÃO ESCLARECIDA

  Sempre se soube pela história que Lampião, Maria Bonita e mais nove de seus companheiros foram mortos pela Volante do tenente João Bezerra, na Gruta de Angicos, em Sergipe, em 28 de julho de 1938, mas há controvérsia, caro mestre, como dizia um aluno da Escolinha do professor Raimundo, ou do humorista Chico Anísio.

   No mundo do cangaço, este assunto até hoje não foi totalmente esclarecido pelos historiadores, pesquisadores, jornalistas e escritores. Não existe nenhuma prova científica de que a cabeça que ficou exposta no Instituto Nina Rodrigues, em Salvador, era mesmo de Lampião.

   Existem sim, várias versões e uma das quais é que o “rei do cangaço” teria ele mesmo tramado um envenenamento dos seus cabras, Maria Bonita ficado com um cangaceiro, possivelmente Luis Pedro, e depois fugido para Goiás onde morreu aos 83 anos.

  Esta é a mais esdrúxula de todas, mas outras falam que todos foram envenenados através de garrafas de bebidas pelo seu coiteiro de confiança Pedro de Cândida, o delator, a mando do João Bezerra.

   Na véspera, um cabra teria alertado que haviam furos de agulhas de seringas nas tampas e que Lampião não deu a devida importância para o caso. Outra foi de que a própria Maria Bonita colocou veneno num pote de água.

  Na época, e até nos tempos atuais, no psicológico dos sertanejos não entra a história de que as volantes tenham abatido Lampião e seu bando com tanta facilidade. A partir da sua fama de invencibilidade e de ter o “corpo fechado”, Lampião não se deixaria ser pego de surpresa do jeito como foi contada sua morte.

   Para muitos testemunhos, que inclusive viram sua cabeça um tanto esfacelada, aquele crânio não era de Lampião, mesmo mostrando o olho embranquecido.

Poderia ser de outro que também tinha problemas com as vistas. “Essa não é a cabeça de Lampião” – disse um sertanejo morador de Piranhas, município de Alagoas, do outro lado do Rio São Francisco.

  Outro argumento é o de que Lampião sempre foi um sujeito precavido, não confiava em ninguém e, quando estava num esconderijo, colocava sentinelas para vigiar qualquer movimento em redor. No massacre de Angicos, não havia guardas, e as volantes tiveram campo aberto para metralhar os cangaceiros.

   Esse debate foi aberto pela escritora Élise Grunspan-Jasmin em sua obra “Lampião – Senhor do Sertão”. Ela escreve que “a partir dos anos 50, começou a ganhar corpo um boato ao qual muitos autores, testemunhas e jornalistas emprestaram certo crédito: Lampião não morrera sob balas da polícia, mas envenenado na véspera”.

   Foi descoberto que o tenente João Bezerra era um corrupto, inclusive coiteiro e traficante de armas para Lampião. Ao saber disso, seus chefes oficiais teriam lhe dado um ultimato para que ele desse cabo de Lampião ou seria punido com prisão ou expulso da corporação militar.

 A autora Élise descreve que “em carta que mandou publicar no Diário de Pernambuco, de 19 de setembro de 1952, Manuel Neto, que dirigiu uma das mais importantes Forças Volantes de Pernambuco (um dos nazarenos que sempre perseguiram o “rei do cangaço”), afirma, no entanto, que João Bezerra mandara envenenar Lampião. O coronel José Alencar de Carvalho também admite o mesmo.

  Comentam também que os nazarenos, comandados pela família Flor Ferraz, nunca se conformaram de ter sido João Bezerra o mentor da morte de Lampião e que, por isso, espalharam esses boatos. A vitória de João Bezerra foi vista pelos nazarenos como uma vitória nacional que os privava do privilégio de resolver um contencioso entre dois clãs restritos ao seu território: O Sertão do Pajeú.

  O oficial Optato Gueiros, escritor sobre o cangaço e um dos grandes adversários de Lampião, por outro lado, não acredita na hipótese de envenenamento, mas concorda quanto ao caráter estranho das circunstâncias da morte de Lampião e seus companheiros. Ele procura um lógica naquilo que não foi propriamente um combate

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A INDUMENTÁRIA E AS MULHERES

  A partir de 1930, os cangaceiros passaram a ter uma indumentária própria, exibindo ostentação em seus ornamentos, com ouro e pedras preciosas nos chapéus, nos bornais, nas cartucheiras e nos dedos das mãos. A de Lampião se destacava entre todas como o “rei do cangaço”.

  A autora da obra “Lampião-Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmin faz um detalhe minucioso sobre suas vestimentas que passaram também a ser adotadas pelas forças volantes no caso das camisas, alpercatas, das calças e dos chapéus, para enfrentar os garranchos, os espinhos e o solo das caatingas, mas sem a riqueza dos bandoleiros.

   O peculiar estilo das roupas se tornou seu signo característico, sua marca, sua assinatura como descreve Élise sobre o cangaço. Na maioria das vezes, os homens confeccionavam suas roupas, como Lampião, que antes de entrar para o cangaço, costurava e bordava. Fotos mostram ele e Luis Pedro bordando os paramentos numa máquina Singer.

   Quando foi para o cangaço, Dadá, a mercê de seus dotes e criatividades, fazia as roupas de Lampião e Corisco, seu marido. Ela mudou os motivos dos bordados. Em 1932 lançou a moda do couro branco costurado nos chapéus, flores em tecido colorido, bordadas nos bornais, perneiras e cinturões, isto quando os bandos estavam escondidos no Raso da Catarina e outros esconderijos.

  Os motivos e as estrelas dos chapéus variavam de um cangaceiro para o outro, de acordo com seu status no grupo. Em Lampião, os motivos representavam flores brancas cercadas de um círculo sobre fundo branco. Em alguns chapéus, apareciam árvores estilizadas feitas de couro branco, bem como, estrelas com oito ramificações sobre fundo negro, como o de Corisco.

  Todos os chapéus tinham medalhas e moedas. O de Lampião era tão carregado que, depois da sua morte, um jornalista descreveu sua indumentária como “verdadeira exposição de numismática”. Suas roupas foram depois inventariadas e expostas pela Policia Militar de Alagoas, mas depois passaram para o Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas.

  Seu chapéu era ornado em alto relevo, (sete moedas e 25 medalhas de ouro) com seis signos de Salamão, ornado em ambos os lados com 55 peças de ouro. Os botões para colarinhos e punhos tinham as inscrições ”AMOR”, com as iniciais C.L.; os anéis de pedras preciosas tinham as gravações com o nome “Santinha” em referência a Maria Bonita; testeira com moedas e medalhas com a gravação “Deus te Guie”.

  Os lenços dos cangaceiros eram geralmente de seda inglesa ou tafetá francês.  O de Lampião era de seda vermelha, bordado nos quatros cantos. Os bornais dos cangaceiros tinham alças bem largas, feitos de tecidos resistentes, com vários bolsos e bordados na parte exterior, com motivos florais e botões de ouro e prata.

   Nos bornais, continham comida, mudas de roupas e medicamentos. Outros eram destinados a guardar balas que não cabiam nas cartucheiras. Tudo era feito para não ferir as pelas nas travessias das caatingas.

   As calças eram geralmente curtas, obrigando os cangaceiros a usar perneiras de couro para se proteger dos espinhos. Levavam duas cobertas que cruzavam sobre o tórax. Usavam luvas, algumas bordadas, como a de Lampião.

  As bainhas dos punhais, as cartucheiras e as correias dos fuzis completavam a riqueza dos trajes. Lampião e seus companheiros usavam armas do exército nacional. A faca do chefe era ornada com três anéis de ouro e sua cartucheira tinha capacidade para 121 cartuchos para o fuzil Mauser.

  De acordo com jornais da época, os cães não escapavam da ostentação. “Dourado”, o cão de Lampião foi morto por uma força volante e possuía uma custosa coleira com incrustações a ouro e prata. Paradoxalmente, como diz a escritora Élise, a vestimenta foi copiada pelos seus inimigos.

  As mulheres eram muito bem tratadas pelos seus respectivos companheiros, mas castigadas com a morte, de forma cruel, em causa de traição (Cristina e Lídia). Elas logo se adaptaram ao novo estilo de indumentária. Dadá dizia que havia dois tipos de roupas femininas, a típica das mulheres de cangaceiros usadas nas longas marchas e vestidos à moda dos habitantes das cidades.

  A roupa típica era confeccionada de pano cinzento grosso que protegia das intempéries do sol e dos espinhos.  O vestido só podia chegar até abaixo do joelho e nada de cabelo curto e decotes. As mangas, bordadas com galões coloridos, eram longas para cobrir os pulsos. Os vestidos tinham cinco bolsos, um na altura do seio, dois na cintura e mais dois de cada lado dos quadris.

   Também usavam luvas bordadas e anéis nos dedos, na maioria de ouro e pedras preciosas. O valor do seu anel dependia da importância do cangaceiro a quem pertenciam. Suas sandálias eram de couro resistente.

Calçavam meias feitas do próprio tecido e perneiras macias de couro até os joelhos. Como os homens, lenços com cores vivas. Também levavam consigo seus bornais e neles continham roupas, munições, perfume, sabonetes de boa qualidade e pó de arroz, bem como, duas cabaças, uma com água e outra com açúcar e conhaque. Traziam na cintura um punhal e armas, embora não participassem dos combates, com exceção de Dadá.

    Por incrível que pareça, as mulheres praticamente não cozinhavam, lavavam e nem pegavam no pesado. Eram bem paparicadas pelos seus companheiros, inclusive pelo bruto, casca dura, Zé Baiano. Ele chegava a dar comida à sua mulher Lídia pela boca e lhe limpava, mas não hesitou em matá-la a pauladas, de forma bárbara, quando o traiu.

VINGANÇA, GLÓRIA E ÓDIO

  Produto do próprio meio, de um Nordeste sem lei, sem justiça e dominado pelos poderosos, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, durante seus quase 20 anos de cangaço, teve seus momentos de glória, decepções, ódio e vingança contra seus maiores inimigos.

 De certa forma, não no sentido político ideológico, poderia se dizer que Lampião foi um rebelde revolucionário diante da situação de miséria, isolamento na região e abandono dos sertanejos nordestinos. Alguns analistas fazem essa referência à sua pessoa bandida.

  Sua maior expressão de vingança e ódio se deu logo no início da sua trajetória no cangaço, por volta dos 20, quando da morte de seus pais, principalmente do seu genitor José Ferreira, morto a tiros pela tropa do tenente José Lucena, em Alagoas.

Se ele já era um moço violento, a partir dali destilou toda sua raiva para vingar as injustiças praticadas contra sua família, sobrando, inclusive, para pessoas que nada tinham a ver com seu caso particular, a começar pelas desavenças com seu vizinho José Saturnino.

  Foi discípulo do nobre cangaceiro “Sinhô Pereira”; criou seu próprio grupo; e saiu pelo sertão distribuindo crueldade como um temido bandoleiro das Américas. No fundo era um rebelde, não como um revolucionário com ideologia política definida.

 Para sobreviver e manter seu “reinado” de “governador do sertão”, construído pela imprensa, fez alianças e prestou seus serviços aos coronéis, grandes fazendeiros e chefes políticos. Deles exigiu dinheiro e intermediação no tráfico de armamentos para sustentar seus grupos e espalhar o terror.

 Sua maior glória em toda sua vida foi quando, em 4 de março de 1926, entrou triunfalmente em Juazeiro do Norte, no Ceará, com seus 49 cangaceiros e foi recebido a contragosto pelo padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, para integrar aos Batalhões Patrióticos, formados para combater a Coluna Prestes.

  Tudo foi programado pelo deputado Floro Bartolomeu, mas ele não pode receber Lampião porque logo adoeceu e veio a falecer no Rio de Janeiro. Coube ao padre Cícero a responsabilidade de recepcioná-lo. Antes se hospedou com seus homens no Hotel Centenário, em Barbalha, perto de Juazeiro, enquanto forças do exército acampavam na rua.

  Em Juazeiro, o “rei do cangaço” foi recebido por uma multidão de mais de quatro mil pessoas; andou livremente pelas ruas; deu entrevistas à imprensa; e deixou ser fotografado com seus familiares por Lauro Cabral.

No encontro com o padre, foi agraciado com a patente de capitão do exército, dado por Pedro Albuquerque Uchoa, um inspetor agrícola que não tinha nenhum poder para isso. Diante da pressão, Uchoa afirmou que assinaria até a demissão do presidente da República.

   Tudo não passou de um embuste, conforme relata a autora do livro “Lampião – Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmim, só que Virgulino acreditou; vestiu o fardamento do Batalhão Patriótico; e se sentiu como se fosse um interventor do Nordeste.

  Naquele ato, ele achava que seria integrado à sociedade e poderia fazer o que bem entendesse, tanto que partiu para lutar contra Carlos Prestes, cuja coluna já estava na Bahia. Sua ficha só caiu, que tudo não passava de uma armação, quando as forças das Volantes continuaram lhe perseguindo.

   Quando percebeu a trama, Lampião sofreu sua maior decepção em toda sua vida.  Sentiu-se enganado e ludibriado e, então, brotou ainda mais com força sua sede vingança. O ódio aumentou, principalmente contra os governos e os “macacos”. Passou a cometer mais barbaridades, saques contra vilas e propriedades.

Sua violência tirana se voltou contra a construção de estradas de rodagens e vias férreas no final dos anos 20 e início dos 30. Esse progresso prejudicaria suas atividades cangaceiras por causa da maior mobilidade dos soldados.

  Ao se sentir encurralado, Lampião criou seus subgrupos e passou de nômade a sedentário, a partir de 1935, conforme assinala Élise. Entocou-se por dias e meses em esconderijos seguros, para depois sair praticando seus crimes e extorquir os poderosos com pedidos de dinheiro através de suas cartas intimidatórias.

  ORIGEM DO SEU APELIDO

  Existe uma curiosidade com relação ao apelido de Lampião. Os escritores, pesquisadores e historiadores dão várias versões. Élise descreve que “o apelido Lampião teria uma relação com a luz que emana da sua arma quando ele atirava. Para outros, porém, tratava-se muito maios do brilho irradiado por sua pessoa. Lampião, lanterna, candeeiro – é portador de luz para seus companheiros”.

  Na realidade, todos que entravam para o cangaço recebiam um nome de batismo, quer seja de animais, tipo físico, árvore ou fenômenos da natureza. Muitos atribuem ao cangaceiro “Sinhô Pereira”, seu primeiro chefe, o mentor do apelido Lampião.

  O apelido foi dado pelo seu chefe porque o “fogo” da sua arma, durante um combate no povoado de Nazaré, em Pernambuco, não se apagava nunca. “O rifle desse menino é que nem um lampião”.

  Outra versão é que, quando ele trabalhava para Delmiro Gouveia, conduzindo comboios transportando peles de animais no sertão, um dia uma mula abalroou e derrubou um dos lampiões (candeeiros). Esse episódio teria levado um de seus companheiros a chamá-lo de Lampião.

  Por último, tem a versão de Optato Gueiros, oficial combatente e depois escritor sobre o cangaço. Numa entrevista que fez a Sinhô Pereira”, Optato perguntou ao próprio Virgulino sobre a origem do seu apelido.

  O próprio Lampião contou sua história de que certa vez estava no Ceará num tiroteio numa noite escura de inverso em plena escuridão. Um companheiro deixou cair um cigarro e como não o achasse, “eu lhe disse: Quando eu disparar, no clarão do tiro, procure o cigarro. E assim foi, quando eu detonava o rifle, dizia, acende lampião e, desse dia em diante, fiquei Lampião”.

 

 

AS DIVERSAS VERSÕES DA ENTRADA DE LAMPIÃO NO MUNDO DO CANGAÇO

  Sempre se ouviu falar que Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, entrou no cangaço com a morte do seu pai pela força da volante sob o comando do tenente José Lucena, isto por volta de 1920, em Mata Grande, Alagoas.

  Acontece, porém, que bem antes disso, entre 1918/19, Lampião e seus irmãos Antônio, Livino e Ezequiel já estavam no banditismo por conta de intrigas com seu vizinho José Saturnino, em Vila Bela, município de Pernambuco.

 Por causa das constantes brigas onde os Ferreira eram acusados de roubo de cabras e até de um chocalho, enquanto Lampião apontava o agregado de Saturnino, conhecido pelo nome de José Caboclo, de ladrão, num acordo, o pai José Ferreira se mudou para uma terra próximo do povoado de Nazaré.

   Apesar de tudo, as desavenças com Saturnino continuaram e, mais uma vez, a família Ferreira, por iniciativa do pai, se mudou para a localidade de Água Branca, em Alagoas. Naquele Nordeste antigo, os poderosos eram os donos das leis, prevalecendo as injustiças contra os menos favorecidos.

  Como era uma região sem lei, onde quem mandava era o rei, todas as ofensas contra a honra eram acertadas na base da bala, com o derramamento de sangue. O ódio de vingança levou Lampião e seus irmãos para o cangaço, bem antes da morte do seu pai. A família Ferreira era bastante perseguida.

   Os historiadores, pesquisadores e até os cordelistas, como os grandes Leandro Gomes Bezerra e Francisco das Chagas Batista, contam diversas versões sobre essa questão ainda não totalmente esclarecida, mas o pai José Ferreira sempre procurava se livrar dos confrontos.

 No entanto, pelo que até agora se escreveu, até a morte do seu pai e sua mãe (infarto do coração), Lampião vivia na criminalidade e sendo perseguido pelas forças policiais. A partir do assassinato do seu pai, ele decidiu em definitivo ingressar de vez e com todo seu ódio no cangaço, prometendo só deixar quando morresse.

  A partir daquele acontecimento, cresceu em Lampião a sede de vingança, só que esse ódio foi distribuído contra seus inimigos e também para quem atravessasse em sua frente, na forma do banditismo.

O tempo passou e Lampião foi morto em 1938 sem se vingar diretamente de seus maiores desafetos que foram Saturnino e José Lucena. No fundo, ele se tornou um rebelde contra as injustiças, contra o desgoverno e o poder quando combatia essas forças representadas pelos “macacos”, como se referia aos soldados.

  A autora da obra “Lampião-Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmim descreve as diversas versões sobre a vida do cangaceiro desde menino e jovem trabalhador, vaqueiro, tropeiro, fazedor de versos e até cantador e sanfoneiro.

  No capítulo sobre “As Origens do Drama”, ela escreve que “a maioria das narrativas e dos artigos contemporâneos apresenta Virgulino como um menino já dotado daquele caráter violento que o caracterizará mais tarde como cangaceiro”.

  O escritor Optato Gueiros, ex-oficial das forças volantes, que combateu Lampião durante muitos anos, afirma que as tendências guerreiras de Lampião, manifestadas na infância, se desenvolveram quando ele tinha 17 anos e percorria o território em companhia dos irmãos e do pai.

Segundo Gueiros, ele tinha contato com os bandos armados de cangaceiros, com os quais parecia identificar-se. Élise cita artigo do jornal Diário de Pernambuco, agosto de 1938, onde menciona um grupo armado constituído de Antônio Matilde, dos irmãos Ferreira e outro dos irmãos Porcino, isto em 1918.

  Em fevereiro de 1920, os irmãos Porcino e os Ferreira participaram com Matilde da pilhagem de Pariconhas, em Alagoas. No encalço deles, a tropa de José Lucena foi até a Matinha de Água Branca onde estava morando provisoriamente seu pai que foi morto a tiros naquele lugarejo. Seus filhos não estavam no local.

“LAMPIÃO-SENHOR DO SERTÃO”

  Ao escreverem sobre o cangaço, praticamente todos os historiadores, pesquisadores e estudiosos do assunto procuram fazer uma descrição antecipada do Nordeste entre o século XVI até meados do século XX, em relação ao seu isolamento político e socioeconômico do resto do país, seu solo, costumes, hábitos, religiosidade e outros aspectos inerentes à região.

   A pesquisadora Élise Gruspan-Jasmim em sua obra “Lampião Senhor do Sertão” também não é uma exceção nesta abordagem. Antes de penetrar na vida de Virgulino Ferreira, desde o seu nascimento, batistério, sua infância e juventude no sertão, com várias versões obtidas de fontes diversas, a autora faz um panorama sobre o Nordeste daquelas épocas.

  Em sua apresentação da obra, vamos aqui citar alguns trechos do seu ponto vista quanto a região. Sobre o sertão, por exemplo, Élise destaca ser um território cujas limitações geográficas se modificaram com o correr do tempo, como se esta região se construísse e se elaborasse sem cessar.

  “Sertão quer dizer grandes deserto (“deserto”) no sentido próprio   e no sentido figurado, mas também terras interiores”. Alguns dicionários o definem como “terra longínqua”. Em relação ao litoral, o Nordeste é visto como zona árida, pouco povoada, assolada pela miséria e pela seca, exposta à violência, ao banditismo, à injustiça, ao fanatismo religioso – um outro mundo, com outros códigos, sem meios de comunicação, isolado da civilização.

  De acordo com a autora, nas representações, o sertão tem, portanto, uma dupla identidade: Região atrasada, de cultura arcaica, e ao mesmo tempo, memória viva, “quadro arqueológico da sociedade brasileira”, na expressão de Luis da Costa Pinto.

  A autora fala das revoltas que eclodiram no Nordeste do passado. Para ela, as rebeliões camponesas nunca eram dirigidas contra os coronéis, e sim contra um poder central anônimo e distante, como a de 1852, na região de Pau d´Alho, conhecida em Pernambuco pelo nome de “Revolução dos Marimbondos”, e na Paraíba sob o nome de “Ronco da Abelha”.

  Ao entrar na questão do cangaço, a escritora ressalta que no período da colonização holandesa no Nordeste, menciona-se a presença de grupos de bandidos formados por desertores estrangeiros, por escravos fugitivos e brasileiros.

  Os escritos citam o célebre José Gomes, o “Cabeleira”, originário de Pernambuco, que disseminou o terror na segunda metade do século XVIII e foi enforcado em Recife em praça pública.

  Após mapear o Nordeste, com suas características próprias, a autora esmiúça com detalhes as origens de Lampião, sua descendência e os motivos pelos quais ele entrou no cangaço.

   Muitos falam que Lampião se tornou um bandido depois da morte de seu pai, José Ferreira, sob o comando do tenente José Lucena, mas antes disso, por volta de 1918/19, ele já tinha se tornado um cangaceiro com seus irmãos Livino, Antônio e Ezequiel.

Tudo começou neste período por causa das desavenças com o vizinho José Saturnino, no município de Vila Bela. As versões são as mais diversas, desde roubo de animais até por causa de um chocalho que Virgulino, supostamente, teria extraído de uma res de Saturnino.

 No Nordeste se admitia um assassinato por vingança, mas não um ladrão. Além de autores, testemunhas, entrevistas, pesquisas em documentos, Élise cita muito as obras dos cordelistas, principalmente de Leandro Gomes Bezerra e Francisco das Chagas Batista, apesar de seus escritos não serem totalmente confiáveis por causa dos floreios dados em seus versos.

“UM BANDIDO SOCIAL?”

  Depois de quase 88 anos de morto, Lampião continua sendo cultuado no Nordeste. Para uns como herói, justiceiro e até generoso. Para outros, um bandido sanguinário que se aliou aos poderosos proprietários de terras, os coronéis e aos chefes políticos.

  De qualquer forma, o cangaço foi uma cria do sistema injusto, sem lei e até mesmo das grandes secas, como a de 1877/79 que chegou a ceifar a vida de cerca de 300 mil nordestinos. Para historiadores, entre os bandidos sociais, existiram três tipos, o nobre salteador, o chefe de guerrilhas e o vingador.

  Em seu último capítulo “Um Bandido Social? ”, o escritor Billy Jaynes Chandler fecha sua obra “Lampião, o Rei dos Cangaceiros” dizendo que “em geral, as autoridades, e a maior parte do povo, sentiam pena deles, ponto de vista este que se originava da ideia de que o cangaço era o reflexo da ignorância, pobreza e injustiça da sociedade sertaneja: os cangaceiros eram, portanto, criminosos comuns, porém, vítimas das circunstâncias”.

  Em falando da questão das cabeças dos chefes terem sido expostas em museu (Lampião, Maria Bonita e outros), Billy cita que nos Estados Unidos, já na década de 1850, uma cabeça, que diziam ser do bandido Joaquim Murieta, foi exibida, conservada em uísque na Califórnia, e sua chegada foi anunciada por uma salva de tiros.

  Quanto à sua indagação no capítulo, o escritor destaca a análise feita pelo historiador britânico Eric Hobsbawm que estabeleceu uma teoria para classificar os bandidos segundo suas características e opinião que sobre eles tinham as diferentes pessoas. O historiador incluiu Lampião neste estudo, mas só que ele fez sua crítica mais baseada nas lendas do que nas realidades.

  Chandler se fixa mais nos bandidos vingadores que, de acordo com o autor, se distinguem dos verdadeiros bandidos sociais, devido ao seu uso excessivo de violência. Hobsbawm reconhece que Lampião podia ser terrível e, por esta razão, o coloca entre os vingadores. Declara ainda que Lampião não pode se classificar como um verdadeiro bandido social em vista de sua aliança com proprietários.

 O britânico chega a afirmar, até de forma contraditória, que o “rei do cangaço” defendia os pobres. Justifica sua violência como involuntária, pois resultava das diversas tensões que marcaram a ruptura social entre o Nordeste tradicional e a nova ordem capitalista e, portanto, era inevitável.

  Além de Robin Hood (não se sabe se sua existência foi verdadeira), Hobsbawm, no capítulo sobre os nobres salteadores, do seu livro banditismo, destaca dois tipos, Juro Janosik, da Eslováquia, e Diego Corrientes, da Andaluzia, personagens imprecisos do século XVIII.

  Billy Chandler ressalta que o povo humilde dos sertões deu altas notas a Lampião – embora alguns, de má vontade – pelo seu sucesso. Segundo Billy, há uma tendência entre eles, de esquecer parte do horror que acompanhou sua carreira e lembrarem mais de suas ações, muitas delas inventadas. 

 Na verdade, Lampião nunca desejou alterar a estrutura básica da sociedade em que viveu. Seus laços com ela eram íntimos e profundos, como Hobsbawm reconheceu. O cangaceiro se aproveitou de uma sociedade injusta, para explorá-la brutalmente.

  O cangaço teve várias e diferentes origens, umas baseadas na perversidade humana, e outras, nas condições sociais extremamente injustas – completa o autor.

   Mesmo assim, foi uma forma de protesto social. Há dúvidas se essa caracterização de banditismo social pode ser aplicada a Lampião. “A preocupação com a opressão dos pobres e dos fracos pelos ricos e poderosos nunca despertou seu interesse”.        

LAMPIÃO TENTOU SE REGENERAR

  Durante seus 20 anos de cangaço por vários estados nordestinos (Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia, Alagoas e Sergipe), por diversas vezes, Lampião, o “rei do cangaço”, tentou se regenerar e deixar a vida de bandoleiro que levava. No jeito sertanejo nordestino de ser, foi até considerado um religioso beato, com suas rezas e devoções, especialmente a da “Pedra Cristalina”, para fechar seu corpo.

  É vasta a literatura sobre o cangaço a partir dos cordelistas, mas muitos escritos não são confiáveis. O primeiro livro publicado sobre Lampião pela imprensa oficial da Paraíba, em 1926, intitulado “Lampião, sua História”, possivelmente foi escrito por Érico de Almeida. Outros atribuem a João Suassuna, na época governador da Paraíba.

 Sobre abandonar o cangaço, de acordo com a maioria dos escritores e historiadores, inclusive Billy Chandler, em “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, seu primeiro lampejo em se regenerar foi quando esteve em Juazeiro do Norte, em 1926, com o padre Cícero Romão, o seu “Padim Ciço”, que lhe deu bons conselhos nesse sentido.

  Os sertanejos o admiravam como homem de palavra, embora mudasse muito de opiniões em suas entrevistas. Enquanto dizia ao padre Cícero que queria se regenerar, confidenciava a um jornalista que o cangaço era um bom negócio e que nunca pensara em abandoná-lo. Retornou para falar com seu admirado padre, em 1926, mas este recusou em recebê-lo.

  Em outras ocasiões, quando interrogado se planejava continuar pelo resto da vida, afirmou que talvez tentasse outra coisa, como ser grande comerciante ou fazendeiro. Expressou até seu desejo de ser governador e presidente da República, estimulado pela fama de suas façanhas e pela própria imprensa.

  Em 1929, porém, em Capela (Sergipe), tornou a repetir que a vida no cangaço era agradável. Antes de fazer esta declaração, entretanto, revelou a um entrevistador, em Tucano, na Bahia, que a vida não era boa. Tenho sofrido, mas, em compensação, gozado bastante.

  No início de sua carreira como bandido profissional, em 1921, aconselhou a um grupo de jovens rapazes a não seguir seu exemplo. Em 1925, a algumas pessoas, destacou que sua entrada para o cangaço fora uma desgraça e que nascera para ser fazendeiro e não cangaceiro.     

    Quando estava se recuperando de seus ferimentos na fazenda de Marcolino, em Princesa (Paraíba), por volta de 1924, entrou em contato com o padre José Kehrle e pediu que levasse um recado ao comandante da tropa de Pernambuco, Teófanes Torres, o tenente que prendeu Antônio Silvino, em 1914.

  Segundo o padre, Lampião ofereceu se entregar à polícia em troca da garantia da sua vida e a de seus homens. Teófanes prometeu garantir sua vida, mas não fez a mesma promessa a respeito de seus companheiros, Então, Lampião não aceitou. O próprio padre Kehrle tentou persuadi-lo em deixar o cangaço.

    O velho cangaceiro Sebastião Pereira, o “Sinhô Pereira”, que foi chefe e ensinou muita coisa a Lampião, contou que no meado da década de 1930 lhe escrevera, convidando-o a abandonar o cangaço e ir para Minas Gerais, onde seu mestre estava morando, para viver sob a proteção do irmão do governador. Lampião nunca respondeu a carta.

  Conforme descreve Billy, teria sido mais fácil Lampião ter saído do cangaço em seus primeiros anos de banditismo quando a campanha de Pernambuco chegou a ser tolerante com ele. Com a morte do pai pela polícia alagoana, chefiada por José Lucena, em meado dos anos 20, Lampião desabafou que iria morrer no cangaço.

Com o reforço das tropas de Pernambuco e outros estados, visando capturá-lo, principalmente depois de 1930, no Governo de Getúlio Vargas, a possibilidade de regeneração tornou-se ainda mais remota.

  Em 1928, por exemplo, falou em Tucano (Bahia) que gostaria de deixar o cangaço se encontrasse alguém que o protegesse, mas acrescentou, que não conhecia ninguém nestas condições. 

   Em Capela (Sergipe) chegou a ser enfático de que era tarde demais para deixar de ser cangaceiro. Como prova desta atitude, segundo Billy Chandler, levava consigo sempre um vidrinho de veneno em seu embornal, para ser usado caso fosse capturado. Este vidro estava com ele em Angicos, quando foi morto em 1938.

Um ano antes, ao seu irmão João, disse que lutaria até morrer. Nesta época, Lampião, com 40 anos, não era mais o mesmo. Além dos problemas nas vistas, sofria dos rins e reumatismo.

  João revelou que ele parecia velho e cansado e até o aconselhou a deixar o cangaço e se recolher num lugar distante onde não seria reconhecido. Lampião respondeu que era conhecido demais para se esconder e que não tinha confiança bastante em seus amigos.  

  Apesar de tudo, acalentava a ideia de voltar a uma vida normal. Dadá, mulher de Corisco, contou, certa vez, que Lampião dissera que deixaria o cangaço se Eronides, governador de Sergipe, seu amigo, fosse eleito presidente da República.

   Contam muitas histórias sobre ele, inclusive de que se julgava capaz de ser outra coisa que um simples bandido errante. Falou uma vez em alistar uma tropa de mil homens para lutar com as polícias de Pernambuco e Paraíba, com a finalidade de conseguir anistia para si e para seus homens.

Imaginava ser governador de um novo estado sertanejo, formado de partes da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Expressou até o desejo de ser presidente da República.

  Com suas estratégias, liderança e táticas de guerrilha, se Lampião fosse instruído e tivesse consciência político-social teria feito uma verdadeira revolução e até tomado o poder executivo, sempre uma calamidade por muitos que exerceram a função nacional.       

OS COITEIROS, O CANGAÇO E O SOFRIMENTO DOS SERTANEJOS

  As décadas de 20 e 30 do século XX foram os anos mais difíceis para os sertanejos nordestinos que tinham que conviver com a opressão dos coronéis fazendeiros, dos chefes políticos, a perseguição dos cangaceiros e as secas que retiravam milhares da sua terra natal para outras bandas à procura de melhorias para matar a fome.

  Com esses flagelos da violência humana e da natureza, os sertanejos ficavam acossados e, sem muitas opções de sobrevivência, muitos partiam para ser soldados ou coiteiros dos bandos de Lampião, que se tornou conhecido até nos Estados Unidos através do jornal The New York Times, que o considerou como o mais famoso bandido da América Latina. 

  Entre o final dos anos 20 e até meados dos 30, a Bahia foi um dos estados nordestinos mais atingidos por esses fatores, principalmente por parte da seca e do cangaço quando Lampião aqui chegou de mansinho e falando de paz em 1928. Sem recursos do Estado para combater a truculência dos cangaceiros, os sertanejos passaram a viver numa terra de ninguém.

  Esse cenário de sofrimentos é mostrado pelo autor do livro “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, de Billy Jaynes Chandler, principalmente no capitulo “A Campanha e os Coiteiros”.

   A situação tornou-se ainda mais crítica com a Revolução de 30 e prosseguiu nos anos 32/33 com a Revolução Constitucionalista de São Paulo e quando o Nordeste sofreu uma de suas piores secas da sua história. Com estas revoluções, grande parte do policiamento foi requisitada pelos comandos, deixando vilas, povoados e cidades desprotegidos. 

   A campanha contra o cangaço na Bahia começou em outubro de 1931, isto depois de Lampião ter praticado muitas invasões nas regiões de Jeremoabo, Queimadas, Senhor do Bonfim, Jacobina, Morro do Chapéu, arredores de Juazeiro, Curaçá e vizinhanças de Uauá.

   Início de 1932 começou com um desastre, no Raso da Catarina, em Maranduba, sob o comando do tenente Liberato de Carvalho. Nesse combate, cinco soldados morreram e mais de dez ficaram feridos, muitos dos quais vieram a falecer depois.

   Durante toda campanha, a questão sempre se esbarrava na falta de recursos, bem como na rede de coiteiros mantidos por Lampião, no tráfico de armas e munições que envolvia “coronéis” e oficiais da própria polícia.

 DOIS TIPOS DE COITEIROS

  Na classificação do escritor Billy, havia dois tipos de coiteiros. O primeiro constituído por fazendeiros, negociantes e chefes políticos ricos, caso do coronel João Sá (Jeremoabo), que ajudavam Lampião por necessidade, visando proteger suas propriedades e bens. Esse grupo gozava de imunidade na polícia e na justiça, mesmo depois da Revolução de 30.

  O segundo tipo de coiteiros consistia de vaqueiros, moradores, lojistas e comerciantes dos povoados que tinham pouca influência e ficavam entre a cruz e a espada. Esse pessoal sofria extorsões, torturas e roubos nas mãos da polícia. Nessa encruzilhada, o sertanejo não tinha muita opção, ou decidia ser coiteiro ou soldado.

   Esta segunda classe, composta dos mais pobres, era chamada de “coiteiros de pé no chão” e sofria mais nas mãos da polícia do que nas dos cangaceiros. Estes coiteiros tinham medo dos cangaceiros e eram obrigados a fazer seus serviços porque não contavam com a proteção policial. “Uma consequência inevitável dessa situação, era a onda de violência que muitas volantes deixavam em sua passagem” – relata o escritor.  

   Os abusos da polícia eram constantemente noticiados na época pelos jornais nordestinos e até do Rio de Janeiro. O sertão se transformou num quadro de horror com espancamentos e roubos de animais pela polícia. Enquanto isso, os bandos de Lampião sempre levavam a melhor e depois se recolhiam aos seus esconderijos.

  “Pode acreditar que hoje, no sertão, já se tem mais alegria quando Lampião chega à porta do que a simples notícia de que as forças se aproximam” – disse um fazendeiro de Sergipe, referindo-se à polícia da Bahia. “A brutalidade das tropas era atribuída, sem dúvida, à frustração e raiva, mas é evidente que a violência, em muitos casos, era empregada deliberadamente” – enfatizou o escritor Billy Chandler.

   Outro fator que contribuiu para esse quadro de terror da campanha era a própria natureza dos soldados, quase todos analfabetos e ignorantes, sem contar que seus soldos eram baixos e recebiam com atrasos de meses.

  Era necessário escolher um lado ou outro. Muitos se alistavam para ter um emprego, e outros, inclusive criminosos, eram forçados para escapar da pena, caso de Zé Calu, de Água Branca, em Alagoas.

  A força mais temida pelos sertanejos era os chamados “nazarenos” do povoado pernambucano do mesmo nome, uma mistura de soldados, milicianos e voluntários que sempre perseguiram Lampião enquanto vida.

  Por sua vez, Lampião tinha seu lado cruel, bondoso e até justiceiro, a depender de quem era seu amigo e atendia seus pedidos, ou seu inimigo que não tinha perdão. Se é para matar, mata logo, dizia aos seus companheiros e acrescentava que cometia suas atrocidades para ser respeitado.

  Grande parte da fama de Lampião foi construída pela imprensa, inclusive se tornou célebre no exterior. Como ele tinha vários bandos e amigos fazendeiros, chegou-se ao ponto que muitos sertanejos aliados seus, quando precisavam se locomover de uma região para outra, carregavam um “passe”, tipo passaporte, assinado pelo “rei do cangaço”.  Quem tinha esse “passe” não era importunado.        

                                      

LAMPIÃO FOI COMPARADO COM O FAMOSO AL CAPONE DE CHICAGO

  Em final de 1928, praticamente escorraçado de Pernambuco, Lampião atravessou o Rio Francisco e chegou à Bahia por Santo Antônio da Glória (Paulo Afonso). De forma mansa, ordeira e cordeira se acoitou na fazenda do coronel Petronilio Reis, o Petro, seu amigo.

  Astuto e sagaz, passou um tempo em paz, com poucos homens, fazendo um reconhecimento do terreno e até se tornou amigo do coronel João Sá, de Jeremoabo. A impressão que dava era que ele havia se regenerado, até que começou a fazer suas tripolias e praticar violência nas vilas e povoados.

  Na Bahia achou um campo aberto, pois as forças policiais eram deficientes e praticamente não realizavam campanhas contra o cangaço, até que aconteceu o caso de Queimadas, no Natal de 1929, onde Lampião com seu bando invadiu a cidade, saqueou o povo, os comerciantes e cometeu a atrocidade de matar sete soldados de forma cruel.

  Conforme nos conta o autor da obra, “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, Billy Jaynes Chandler, foi aí que, depois de outros crimes, o estado resolveu tomar providências e indicar o coronel Terêncio dos Santos Dourado para comandar uma campanha contra Lampião.

  Sua primeira medida foi dividir o estado em seis regiões, com equipamentos de comunicação, mais soldados e armamentos. Um comando ficou em Bonfim, os outros nas regiões de Juazeiro, Jeremoabo e Uauá, com 1.200 soldados e 36 oficiais. Boa parte dessas forças, no entanto, ficou estacionada nas cidades e poucos foram enfrentar a caatinga.  Cada volante tinha entre 20 a 30 soldados.

 Depois de oito meses de fracasso, com o revés da batalha de Mandacaru, renunciou ao cargo. Como bom estrategista, aprendiz do cangaceiro Sebastião Pereira, o “Sinhô Pereira”, Lampião fazia sua luta de guerrilha e, diante das suas investidas, a imprensa começou a compará-lo com o bandido Al Capone, de Chicago, nos Estados Unidos.

   A força policial ainda era ineficiente e pobre. Os soldos chegavam atrasados e, às vezes, faltavam uniformes. Quando em campo, a tropa comia rapadura, farinha e carne seca. Tinha comandante que cobrava dos homens o dinheiro da comida e depois embolsava.

  Lampião fazia suas fugas e tinha seus esconderijos, como exemplo, o Raso da Catarina, um lugar inóspito e perigoso que os soldados não aguentavam e pereciam. Outros comandantes assumiram depois de Dourado e até melhoraram as condições da tropa, com mais pistolas, assistência médica, binóculos e mais rastejadores.

  Nesse meio, veio a Revolução de 30, entre outubro e novembro. A luta pelo poder tomou lugar da captura dos cangaceiros. O combate contra o cangaço podia esperar na visão dos governantes. Com Getúlio Vargas, vieram os interventores que resolveram desarmar os sertões. A população ficou sem defesa para enfrentar os cangaceiros.

  Somente em fevereiro de 1931, o capitão Juarez Távora, chefe regional da polícia para o Nordeste, começou a reorganizar a polícia, mas pouca coisa aconteceu por falta de verba. Com isso, a campanha passou a se fixar no Rio de Janeiro.

  O regime de Vargas traçou seu plano para eliminar Lampião. No centro apareceu o capitão Carlos Chevalier, um aviador que divertia os cariocas com suas manobras de paraquedas. Pensaram em usar aviões para acabar com o cangaço.

  Com apoio do ministro do Interior, Oswaldo Aranha, foi criada a “Missão Chevalier”, com radiocomunicações e uso de mil soldados, mas a operação foi esbarrada na escassez de recursos. Pistas de aterrissagem teriam que ser construídas. Sugeriram até festa de gala para despedida do capitão, mas nada ocorreu.

  Chevalier chegou a sugerir infiltrar dois espiões no bando de Lampião. Somente em setembro de 1931, o governo federal liberou recursos para a Bahia, com a nomeação do interventor Juracy Magalhães, de 26 anos.

  Com muito alarde, o capitão João Facó, secretário de Segurança Pública da Bahia, começou uma campanha de perseguição e garantiu que iria fechar o cerco aos cangaceiros. Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe entraram para cooperar.

  Enquanto isso, um jornal do Rio organizou até um concurso para ajudar a campanha. O “Diário da Noite” ofereceu um prêmio a quem desse a melhor sugestão de como matar Lampião. Coisas desse nosso Brasil. Foi um fato, por assim dizer, pitoresco.

  Um sugeriu que um avião jogasse uma bomba em cima do “Rei do Cangaço”. Outro alvitrou que mandasse um soldado, disfarçado de frade, para assassinar o “Governador do Sertão”. Enquanto isso, Lampião continuava agindo normalmente e piorou mais ainda com a morte do seu irmão Ezequiel, durante um combate num lugarejo chamado de Umbuzeiro de Touro, perto de Juazeiro da Bahia, em abril de 1931.

   Nisso, o chefe do cangaço se tornou inimigo de Petronilo Reis, e seus atos foram devastadores contra o fazendeiro que detinha o poder político na região de Santo Antônio da Glória. Com seu bando de 40 homens, arrasou o povoado de Várzea da Ema.

  Em novembro e dezembro de 31, o capitão Facó e o coronel João Felix resolveram apertar o cerco e viajaram para uma inspeção no interior, com o repórter Victor do Espírito Santo, do “Diário da Noite”, quando escreveu que Lampião era conhecido além da fronteira brasileira, pois sua fama se igualava à de Al Capone.

Como estratégia, Lampião fez acampamentos no Raso da Catarina e dividiu seu bando em três (Lampião, Corisco e Antônio de Engracia), para confundir e dar mais trabalho às forças policiais.

  No Raso da Catarina houve troca de tiros e, mais uma vez, Lampião tomou outro rumo desconhecido. Nesse período, entre final de 30 e início de 31, o bando começou a ser acompanhado de mulheres. Lampião foi o primeiro com Maria Bonita, ou Maria Déia (dona Maria Neném).              





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