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:: ‘Encontro Com os Livros’

“O CANGAÇO”

   O BANDITISMO COMUM E O SOCIAL

   Os brasileiros em geral ficam escandalizados e se chocam com a onda de violência com requintes de crueldades que tomou conta do país nos últimos anos. O povo clama por mais policiamento e mais armas. Alguns chegam a pedir pena de morte, o que na prática já existe em muitos casos.

   Esta visão nem sempre foi assim, conforme assinala o sociólogo e antropólogo Carlos Alberto Dória que, juntamente com seu colega Arthur Shaker, desenvolveu nos anos 70 do século passado um estudo sobre o Ciclo do Cangaço no Nordeste Brasileiro (1870-1940).

   De acordo com Dória, que escreveu a obra “O Cangaço”, houve um tempo em que a maioria das pessoas torcia pelos bandidos em luta contra a polícia. Parcela significativa da sociedade não contrapunha ao crime a necessidade de mais repressão.

  Para ele, a noção de “fora da lei” era relativa. Para a lei do Estado, qualquer um que age de forma violenta, roube ou mate é considerado um bandido. Mas, o “fora da lei” de que tratamos aqui, o bandido social, se distingue do criminoso comum.

  Em sua pesquisa sobre o Cangaço no Nordeste, Dória destaca que o bandido social era em geral membro de uma sociedade rural, encarado como criminoso pelo Estado e pelos grandes proprietários.

 No entanto, para a sociedade camponesa daquela época era considerado como herói por sua gente, seja um justiceiro, vingador ou alguém que rouba aos ricos. Este tipo de bandido nada tem a ver com o comum, o criminoso que a comunidade entrega à polícia.

  O bandido social era um camponês que, por algum motivo, “caiu em desgraça” perante os poderosos locais, ou um rebelde que merece ser admirado e protegido contra os inimigos.

   “Este tipo de banditismo social é um dos fenômenos mais universais da história. Existiu na China, na Inglaterra (Robin Hood), na Itália, na Espanha, no Peru, na Indonésia, na Ucrânia e no Nordeste Brasileiro”. O Billy The Kid e o próprio Lampião se transformaram em heróis legendários.

  Todos esses bandidos possuem traços comuns por terem surgido de sociedades rurais que viveram a transição entre a organização tribal, ou de clã, e a moderna sociedade capitalista em fase de industrialização, a qual destrói a predominância dos laços de família.

   “Nesta sociedade, portanto, será perfeitamente compreensível se um camponês resolver pegar em armas para “vingar a honra” de sua irmã, violentada pelo filho de um proprietário, ou se rebelar e defender seus parentes que se recusam a pagar os tributos devidos às autoridades”.

   Mas, Carlos Dória diz que Lampião está longe de ser o “modelo” de bandido social, embora tenha sido o mais famoso cangaceiro. Uma pesquisa, segundo o autor da obra, permite identificar dois tipos principais de “fora da lei”, o ladrão nobre, que rouba dos ricos para dar aos pobres, e o vingador, ou justiceiro, que ao procurar reparar uma injustiça, semeia o terror entre os opressores.

   Em seu entendimento, porém, Lampião consegue reunir, em sua trajetória de crimes, características tanto de um como de outro tipo. Nas sociedades rurais, o banditismo se manifesta através de surtos, de endêmico para epidêmico, como durante as secas prolongadas, exemplo da estiagem de 1877/79.

  Os principais surtos ocorreram na segunda metade do século XIX, período de franca expansão do capitalismo sobre o mundo rural. “No Brasil, apesar de o surto do cangaço ter ocorrido em fins do século XIX e começo do XX, existiram casos na primeira metade do século XVIII.

  Muitos iniciaram sua carreira de bandido não pelo crime, mas como vítima de uma injustiça ou perseguição movida pelas autoridades. Por isso que este tipo de bandido é admirado pelo povo.

Ele nunca é inimigo dos poderosos em geral, mas das autoridades. Mesmo finda sua missão, ele não consegue voltar a uma vida normal. Dessa forma, o banditismo se torna um modo de vida.

 

 

 

COMO OCORREU O COMBATE EM ANGICO E O PLANO PARA O ATAQUE

“DEPOIMENTOS”

   O escritor Antônio Amaury Corrêa de Araújo, em sua obra “Assim Morreu Lampião” descreve em detalhes, através de depoimentos de coiteiros, barqueiros, soldados e cangaceiros que conseguiram fugir, como aconteceu o combate na fazenda Angico, em Sergipe, e a trama montada pela tropa do tenente Bezerra que resultou na morte do “rei do cangaço”, Maria Bonita e mais nove bandidos do seu bando.

  O Joca Bernardo foi o principal delator, sem caráter e escrúpulos e fazia o papel de X9 para a tropa e coiteiro para Lampião. Nos depoimentos fica bem explicito o seu papel de um sujeito safado, o tipo de espião duplo que até traiu o amigo Pedro de Cândido, forçado através de torturas, a dizer onde estava o coito de Lampião.

  Nos depoimentos, Amaury entrevistou José Panta de Godoy, o soldado que chegou a atirar na cabeça de Lampião enquanto ele se contorcia no final da sua morte. Na linguagem matuta caipira, narra os depoimentos de Adilia, mulher do cangaceiro Canário, Cila Ribeiro de Souza, companheira de Zé Sereno e Pedro Benga, dono das canoas com as quais o tenente transportou a tropa na noite de uma quinta-feira de 28 de julho de 1938.

  Ouviu também João de Almeida Santos, o Joca Bernardo, morador da fazenda Novo Gosto, município de Pão de Açúcar, Cícero de Martins, um dos barqueiros que levou a tropa de Piranhas até Entre-Montes para procurar Pedro de Cândido, Durval Rodrigues Rosa, o coiteiro irmão de Pedro, Abdom Cosme de Andrade, autor do primeiro tiro contra os cangaceiros, Balão, o bandido que conseguiu sobreviver ao combate, Antônio Jacó (Mané Veio), braço direito de João Bezerra, Francisco Rodrigues Pereira, político e comerciante de Piranhas (Alagoas), Mané Feliz, um dos coiteiros de Lampião e Waldemar Damaceno dos Santos, o telegrafista da cidade de Piranhas que transmitiu a mensagem sobre a presença do bando na área a mando do sargento Aniceto, dizendo “tem boi no pasto”.

  Sobre o cangaço e a imprensa, o “Estado de São Paulo” publicou em 3 de agosto de 1938 um artigo intitulado “Lampião. O mesmo periódico divulgou em 16 de agosto o comentário sobre “A Cabeça de Lampião” criticando o sensacionalismo sem limites com relação aos fatos relatados por determinados jornais, inclusive com notícias falsas.

   O editorialista sobre “Lampião”, do Estado de São Paulo, destaca que “a imprensa carioca, possivelmente todo jornalismo indígena, tem comentado largamente a façanha das forças volantes de um dos estados do Nordeste, que acabam de eliminar o sinistro “Lampião”.

  Fotografias dos “heróis” das milícias estaduais, tudo isso, juntamente com “clichês” que focalizam aspectos do reduto geográfico em que estalou o choque, tem sido publicado com abundância e destaque pelas folhas brasileiras. Aqui tenho dito, mais de uma vez, quanto me repugna e quanto julgo prejudicial esse procedimento da imprensa. Não me surpreende que envenenando a mentalidade popular e alvoraçando o sistema nervoso de uma população sabida e proclamadamente nevropata.

   Entretanto, neste caso triste, é necessário que nos bastamos, mais uma vez, contra esses processos de jornalismo. Amanhã – pois não faltam remetentes graciosos – alguns exemplares desses jornais transporão o Atlântico e irão parar sobre a mesa do secretário de grandes jornais europeus ou estadunidenses. É a hora! Os sensacionalistas, que os há também lá estão, aos olhos das multidões de países mais civilizados, alguns aspectos do interior do Brasil!

  Nisso tudo, o que acho mais lamentável é a atitude dessas pessoas de responsabilidade. Não se pode negar que o “cangaço” é um flagelo tão grande quanto a das secas periódicas, o da falta de transportes, o da crendice das populações sertanejas que acreditavam na invulnerabilidade do facínora de “corpo fechado”. Todos esses males, entretanto, provêm única e exclusivamente, como todos têm dito, da falta de cartilha.

   Alfabetizem-se os sertões e adeus bandidos, adeus santos e “coiteiros”. Por que o governo não ouve aquela voz admirável, aquele homem que encarnou todo o país consciente, deplorando a luta, diagnosticando-lhe as causas, ao escrever aquele momento que se chama “Os Sertões”? Por que continuamos surdos àquela voz de compaixão e de protesto à terrível acusação que fez Euclides contra a represália do banditismo?” – F”.

AS VERSÕES DA IMPRENSA SOBRE O CANGAÇO SÃO DESENCONTRADAS

   A literatura sobre o cangaço no Nordeste, principalmente na época de Lampião, é vasta e a grande maioria dos escritores usou com uma das principais fontes para suas pesquisas a imprensa da região, do Rio de Janeiro e São Paulo, só que muitas das informações são desencontradas e outras infundadas.

   Lampião, inclusive, ficava injuriado e tinha acessos de raiva quando falavam coisas sobre ele que não condiziam com a realidade. Existia muito sensacionalismo nas notícias para vender mais jornais.

  Poucos jornalistas chegaram a entrevistar Lampião, a não ser em 1926 quando o “rei do cangaço” esteve em Juazeiro do Norte (Ceará) para se integrar aos “Batalhões Patrióticos” contra a Coluna Prestes, iniciativa do deputado Floro Bartolomeu e o do padre Cícero Batista Romão, o “Padim Ciço”.

   Em agosto ou setembro daquele ano lá estiveram repórteres do jornal “O Povo”, de Fortaleza e “Jornal do Comércio, de Pernambuco.  Fora isso, quem depois esteve com Lampião foi o sírio-libanês Benjamin Abraão que fez um documentário sobre seu bando, em 1936, trabalho este proibido de ser divulgado por Getúlio Vargas e que se perdeu com o tempo.

   Em geral, as notícias sobre a ação dos bandoleiros eram desencontradas e muitas infundadas porque se tratavam de versões dadas pelo povo, que se baseavam em boatos, sem levar em consideração que muitas reportagens eram feitas por telefone, através de depoimentos de oficiais das volantes, de prefeitos e governadores que contavam só um lado dos acontecimentos.

   Como até meados do século XX o Nordeste era uma região de difícil acesso e violento por causa do banditismo, as empresas jornalísticas (a imprensa escrita) procuravam evitar o envio de seus jornalistas ao local dos embates, acompanhando as tropas de combate. Não era uma prática usual.

   Os jornais de Fortaleza, de Recife, Os Diários Associados, A Noite, do Rio de Janeiro, o Estado da Bahia, o jornal A Tarde (Salvador) e pequenos periódicos do interior foram os que mais divulgaram fatos sobre o cangaço. Mesmo assim, as notícias chegavam atrasadas e não eram bem apuradas e checadas.

    Quando Lampião, Maria Bonita e mais nove cangaceiros foram mortos pela tropa do tenente João Bezerra, em Angicos (Sergipe), as notícias procederam das agências Nacional e Meridional e da sucursal do Diário de São Paulo.

  Entre as versões que não batem, alguns jornais, por exemplo, chegaram a colocar o cangaceiro Ângelo Roque, o Labareda, como morto em Angicos quando, na verdade, ele não se encontrava no local. Uns chegaram a dizer que mataram Maria Bonita ainda viva, o que não foi comprovado.

  O Diário de São Paulo chegou a escrever que o pai de Lampião, o José Ferreira da Silva era um facínora e que foi morto em combate contra a força da polícia alagoana comandada por José Lucena Maranhão. O pai em vida demonstrou ser pacato, sempre fugindo das perseguições e foi fuzilado quando debulhava milho em sua casa.

   Portanto, os jornais e testemunhas sempre foram e devem ser fontes importantes de pesquisas na elaboração de obras sobre o cangaço, mas não são totalmente confiáveis. Os dados precisam ser checados e complementados através de documentação da época.

“ASSIM MORREU LAMPIÃO”

  No Nordeste dos arbustos espinhosos, dos xiquexiques, das catingueiras, do rompe gibão, dos marmeleiros, dos pereiros, dos facheiros, das aroeiras, dos carcarás, dos gaviões, da cauã, da graúna e da asa branca, o escritor Antônio Amaury Corrêa de Araújo escreveu e “Assim Morreu Lampião”.

  Pelo final da década de 60, Amaury respondeu sobre a vida de Lampião e sobre o cangaço no programa de televisão “8 ou 800” que a Globo levava ao ar aos domingos. Durante 20 anos, o estudioso tomou depoimentos dos sobreviventes da tragédia que assolou o Nordeste, anotando, gravando e compilando.

  Amaury entrevistou coiteiros e moradores da região, inclusive o tenente João Bezerra, que comandou o massacre de Angico (Sergipe) em que Lampião e Maria Bonita foram dizimados. Na época (o livro foi lançado pela Editora Brasília/Rio, em 1976) ouviu também o telegrafista que, atuando como Destino nas tragédias gregas, expediu o telegrama que forneceu ao tenente a localização do bando.

 De todo seu trabalho resultaram “Assim Morreu Lampião” e “Gente de Lampião: Dadá e Corisco”. O pesquisador, conforme relata a editora, colheu depoimentos comoventes e até epopeicos da sertaneja Dadá – Sérgia Ribeiro da Silva, esposa de Corisco.

   São revelações surpreendentes sobre a vida das mulheres no cangaço, as quais conservavam na caatinga hostil a sua feminilidade e eram tratadas com respeito, se bem que tinham que seguir rígidas regras conservadoras e machistas, sob pena de serem condenadas à morte.

  De acordo com a editora, o livro está longe de ser uma obra acabada, pois se compõe de notas, ou melhor de apontamentos colhidos ao vivo sobre o massacre de Angico onde 11 cangaceiros foram abatidos.

  Apesar do seu estilo solto, os fatos são todos baseados em sólidas documentações. No livro estão as transcrições exatas de notícias veiculadas pela imprensa da época desde as primeiras décadas do século XX. A obra oferece uma dimensão humana, “o “sal” das coisas que foram realmente vividas, sal às vezes atravessado na garganta, sal misturado com calor, sol e sangue”.

A MORTE DO “PADIM CIÇO”

    Por paralisia intestinal, aos 90 anos de idade, morre em 20 de julho de 1934, em Juazeiro do Norte, o padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, o todo poderoso do sertão nordestino que chegou a derrubar um governador do Ceará e era inimigo ferrenho da Coluna Prestes, cujo comandante Luís Carlos Prestes era considerado por ele um satanás saído dos infernos da Rússia.

  A notícia correu como rastilho de pólvora e logo chegou aos ouvidos de Lampião e seu bando através da sua rede de olheiros, coiteiros e espiões. Embora não se encontrassem por cerca de oito anos, o “rei do cangaço” sempre tinha o sacerdote como seu grande protetor espiritual e ficou muito consternado com seu falecimento.

  Um poeta anônimo chegou a fazer esses versos: “O vento silenciou,/O sol apagou a luz,/A imagem do Senhor/Chorou pregado na cruz./A terra quase tremia/Sua morte parecia/Com a morte de Jesus”

  Narra o escritor Frederico Bezerra Maciel, em sua obra “Lampião, seu Tempo e seu Reinado” que o pesar do “capitão” foi profundo, de um silêncio absoluto e todas mulheres choraram. O chefe mandou logo comprar faixas de crepe para o luto de oito dias. Todos cangaceiros usaram fumo no braço. As mulheres ló tingido de preto cobrindo a cabeça.

  Lampião ordenou que cortassem duas toras finas de pereiro, em tamanho desigual e com elas formou uma cruz. Na haste superior, enlaçou um pedaço de tarja, “que o vento drapejava anunciando de longe o luto do sertão”.

  De acordo com Bezerra, “à noite, por uma dessas circunstâncias que desconcertam o pensamento e despertam presságios, uma nocticanora mãe-da-lua pousou no braço horizontal do cruzeiro. Até a madrugada, enquanto durou o escuro, soltava seu canto estranho e plangente”

   Conta a história que a mãe-da-lua começou com seu canto alto, depois descia em escalas de notas uivantes e muito longas, como gemidos sofridos de moribundo desesperado de dor. Na descrição do autor do livro, os sons rasgantes davam a impressão de gargalhadas sarcásticas e apavorantes. Era a morte zombeteira mangando da dor sertaneja.

  Aquele canto da mãe-da-lua, segundo Frederico, deixou Lampião sobressaltado a noite inteira, com sonhos e pesadelos. Pela manhã, confidenciou a Maria Bonita seu pressentimento de que o “Padim Ciço” viria buscá-lo em um fim do mês de julho.

  Oito dias depois, no fim do luto, a mãe-da-lua voltou a cantar e a repetir os mesmos lamentos no cruzeiro erguido no alto da caatinga. Lampião teve os mesmos sonhos, inclusive nos anos subsequentes. Crendice, ou não, Lampião seria morto, na gruta do Angico, em 28 de julho de 1938.

VOCABULÁRIOS MATUTOS DO SERTÃO

  Em seu livro “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado”, o pernambucano Frederico Bezerra Maciel, estudioso de temas regionais, sacerdote com estudos eclesiásticos em São Paulo, Rio de Janeiro e Olinda, usa alguns vocabulários matutos, muitos dos quais do arcaísmo nordestino.

  Vejamos alguns deles:

Contecos – contos de reis

Truve (arcaísmo) – trouxe

Às Tuias, por às tulhas – aos montes

Extratado – perfumado

Falso do corpo – pederasta, passivo

Grelha, de escancho – cavalo magro, ordinário de monta

Madruceu – amadureceu

O-não-sei-que-diga – diabo

Percisão – por precisão, de precisar, necessitar, satisfazer o sexo

Bisaco – mochila de pano

Bogó – saco de couro com gargalho, amarrado numa corda

Liformizado – uniformizado, bem vestido

Cangalha abade – abarda é o pequeno colchão de capim sobre o qual se coloca a cangalha a fim de não ferir o lombo do animal.

Grugunzado – rumor confuso de vozes humanas.

Arripunar – repugnar

Disgramado – por desgramado, desgraçado

Mucumbo – designa o cóccix, ou matutagem

Mucumbu – pode ser também nádega, bunda

Furico ou furnico – ânus

Muléstia dos cachorros – expressão ofensiva, significando grande raiva ou ódio

Tripa gaiteira – ânus

Maliconia, Maniconia – melancolia

Canhim – Caim e também o diabo

Destiorado – enfraquecido, estragado

Pés-de-barro ou Pé-branco –  assim chamados os soldados (macacos) que, vindos da capital, não suportavam as andadas ásperas do sertão.

Ganhando o oco do mundo – correr em disparada com medo, assustado, perdido, deixando tudo para trás.

 Existem também os rituais de rezas próprias da região em ocasiões específicas, como no sepultamento de um defunto, chamadas de “Incelenças (excelências) e Benditos”.

 “Uma Incelença,/Ó Mãe amorosa,/ Seu filho vai morto/Da vida saudosa. E na reza do bendito:/Eu ofereço esta reza/ Ao Sinhô que tá na Cruz,/Que nos livre do malino/ Pra sempre. Amém, Jesus.

Ainda fazendo parte do ritual, ao descer o corpo na cova, e pondo as despedidas nos lábios do falecido:

  Adeus, meu irmão,/Amigos também,/ Eu vou pra eternidade,/Pra sempre, Amém.

A OUTRA FACE DE LAMPIÃO

“LAMPIÃO, SEU TEMPO E SEU REINADO”

– Cheguei com fome, nudez e dinheiro

Foi assim que Lampião disse ao pisar em terras baianas por volta de agosto/setembro de 1928 ao atravessar o São Francisco, o “Velho Chico”, vindo corrido de Pernambuco pela persiga das tropas e depois de uma derrota em Mossoró, em 1927.

Era um novo mundo para ele e entrou por aquelas bandas de Santo Antônio de Glória. Como descreve o escritor Frederico Bezerra Maciel, em sua obra “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado”, o “rei do cangaço” tratou logo de enterrar seu tesouro em saco de couro na Serra do Tonã.

Depois seguiu até a fazenda Aroeira, em Jeremoabo, do velho amigo coronel Saturnino Nilo onde se refez e recebeu alguns cabras, dentre eles o Moreno. O fazendeiro tinha salvo conduta para tanger suas boiadas até Rio Branco, hoje Arcoverde, em Pernambuco.

Nilo recomendou que ele procurasse o coronel João Sá, de Jeremoabo, o coronel João Maria de Carvalho, de Serra Preta e o poderoso Petronildo Alcântara Reis, dono de 33 fazendas, que residia em Glória.

Com aparência de que pretendia se regenerar e deixar o cangaço, como ocorreu em 1926, em Juazeiro do Norte, no encontro com seu Padim Ciço, Lampião procurou o vigário Emílio Moura Ferreira.

Em seguida foi apresentado ao coronel Petronildo, o Petro, com quem conversou longamente, falou da sua vida e até fecharam negócios em sociedade. Passou uma ruma de dinheiro e lá na frente o coronel lhe deu o bote.

Lampião ficou satisfeito e até matutou em ser um fazendeiro negociante. O coronel lhe ofereceu a fazenda Três Barras, perto de Patamuté, em Curaçá, para pouso onde ficou por cerca de quatro meses numa vida boa de rei.

Com suas habilidades de convencimento, conquistou quase todos habitantes das caatingas, como fazendeiros, vaqueiros e lavradores. Com fala mansa, bondade política e sagaz, colocou em prática sua estratégia de guerra de guerrilha.

Nesse período, Lampião passou a ser chamado de “O Homem”, por praticar caridade para os desafortunados, resolver litígios de terras, conflitos pessoais, problemas de saúde, partos, mordidas de cobras, aplicando seus conhecimentos de medicina rústica à base de raízes.

Como bom vaqueiro que tinha sido em sua juventude, era sempre procurado para curar bicheiras, mal triste e até extrair bezerro entalado. De tão conselheiro, o padre chegou a dizer que era melhor que muitos missionários. Resolvia todos problemas das redondezas fazendo até o papel de juiz.

Pelas suas ações e impondo moralidade às famílias, prendendo ladrões de bode, agindo com repressões aos trajes femininos, pagando fiados nos botecos e armazéns e solucionando casos de desonra com casamentos, Lampião passou a ser visto como um messiânico do tipo Antônio Conselheiro.

Seu cabra Zé Sereno contou que um rapaz se queixou a Lampião que o dono da fazenda não queria pagar os homens do eito. Ele foi até lá, reuniu os trabalhadores e obrigou o fazendeiro a quitar as dívidas, recomendando que ninguém fosse mandado embora.

Com o tempo, tornou-se religioso fervoroso. Todas as noites, antes das festanças que ele mesmo promovia, com danças, xaxados, baiões, valsas, quadrilhas e polcas, realizava rezas e novenas. Não perdia sentinelas de defunto. Mandava todo mundo confiar em Deus.

Todos passaram a dizer que “O Homem” era justiceiro e o canonizaram como um santo. O santo Lampião era “O Homem” devoto e querido dos sertanejos da região. Não era mais visto como aquele sanguinário.

Enquanto isso, com sua eficiência e perfeita organização, Lampião montou sua rede de coiteiros. Ele sabia que essa situação não ia resistir por muito tempo, pois logo soube que seus inimigos estavam em seu encalço.

Não tardou, a força de Manuel Neto, o nazareno de Pernambuco, conhecido como “Cachorro Azedo”, entrou na Bahia cometendo desatinos. Matou um homem só porque deu água a Lampião. Ao saber do que vinha acontecendo, tratou de se preparar para o pior.

Como estava acabando seu sossego, Lampião montou sua tropa, recrutando cabras fora da lei. A fazenda Três Barras passou a ser local de treinamento, o seu quartel-general. Chegou a reunir cem homens, inclusive Corisco e os irmãos Engracia.

Os fazendeiros começaram a desconfiar das suas atitudes, mas participavam das suas festanças e até davam dinheiro. A gota d´água para Lampião se desembestar pelo sertão baiano e cair no cangaço foi a traição do coronel Petro que tentou lhe envenenar e ficar com parte da sua sociedade.

O coronel instruiu uma viúva de suas fazendas a envenenar Lampião, só que como sempre desconfiado, descobriu a trama quando meteu sua colher de prata na comida. Tocou fogo na casa e jogou a mulher dentro. Soube que tudo foi a mando do coronel.

A partir dali, depois da fuga do coronel para Pernambuco, Lampião destruiu a maioria de suas fazendas, mantando todos animais e incendiando casas, currais e outros equipamentos. Deixou o coronel na desgraça.

Lampião voltou ainda mais cruel, derrotou as forças de Manuel Neto e caiu na caatinga baiana percorrendo todas regiões do sisal, de Senhor do Bonfim, Juazeiro, Curaçá, Campo Formoso e boa parte da Chapada Diamantina, como Morro do Chapéu, Lençóis, Andaraí, Mucugê, Piatã e outros municípios. Horácio de Matos, em Lençóis, e Douca Medrado, em Mucugê, eram seus amigos. Saqueou povoados, fazendas e cidades, matando quem atravessasse em sua frente.

OS CANGACEIROS NA VISÃO DA ESQUERDA

  A miséria e as injustiças sociais no Nordeste, a vingança entre famílias, o poder dos latifundiários, o domínio dos chefes políticos e as secas foram os principais fatores que deram origem à violência e ao cangaço. Afinal, o homem é produto do meio.

O cangaço não tinha ideologia política definida de tendência esquerdista comunista. Seus membros eram desprovidos dessa noção revolucionária. Os bandos, especialmente os chefiados por Lampião, eram exímios guerrilheiros das caatingas, mas não revolucionários, com propósito de derrubar o poder constituído.

   Antônio Silvino, o “Rifle de Ouro” (1875-1944) foi um bandoleiro sanguinário que entrou no cangaço movido pela morte do pai e as brigas entre proprietários de terras; Jesuíno Brilhante (1844-1879), o primeiro cangaceiro, tido como “romântico” (Robin Hood do Sertão), roubava dos coronéis para ajudar os famintos da seca; Sinhô Pereira (1896-1979), de família rica e nobre,  ingressou por vingança na briga entre os Pereira e Carvalho; e Lampião (1898-1938) foi instigado a entrar no cangaço pela perseguição do fazendeiro José Saturnino à sua família.

  Nenhum, aparentemente, possuía motivos ideológicos políticos no sentido de lutar para derrubar os poderosos e protestar contra a opressão imposta aos sertanejos, abandonados pela ausência dos governantes, embora suas ações revelassem formas de revolta e rebeldia contra estes senhores. Deles o banditismo tirou proveito para si, cada um usando suas razões individuais para fazer fortunas.

  No entanto, a esquerda daquela época, tendo como expoente Luis Carlos Prestes, e ainda muitos nos tempos atuais, via e vê o bando de Lampião como guerrilheiros revolucionários enfrentando o Governo em defesa dos sofridos camponeses.

Talvez por desconhecimento ou estratégia para reforçar suas tropas, os revolucionários tentaram incorporar os cangaceiros às suas forças. Um grupo isolado chegou a formar um bando, mas fracassou. Dentro do contexto do Nordeste daquela época, messiânico e religioso, era difícil introduzir uma doutrina revolucionária socialista.  Padre Cícero, o senhor do sertão, era inimigo número um de Prestes que poderia ter sucesso se os cangaceiros o seguissem.

  Em 1926, durante sua passagem pelo Nordeste, a Coluna Prestes “paquerou” o “rei do cangaço” várias vezes com seus bilhetes para que ele se engajasse às suas causas, considerando que Lampião também era um guerrilheiro revolucionário e podia derrubar o poder.

Até pelo seu baixo nível de instrução, o bandoleiro não tinha ideia dessa essência ideológica política de Carlos Prestes. Ele foi sendo empurrado pela violência nordestina. Tornou-se cangaceiro cruel não para tirar a pobreza da miséria em que vivia. Não tinha ideais socialistas e usou toda sua força para extorquir políticos e grandes proprietários, inclusive do comércio.

Antônio Silvino, por exemplo, foi o único cangaceiro a atacar os senhores de engenho do litoral nordestino. Todos eles fizeram suas fortunas que depois caíram nas mãos dos soldados e oficiais corruptos. Repartiam migalhas com os pobres para obter deles a admiração como heróis.

Lampião e seu bando, influenciados pelo deputado Floro Bartolomeu e o Padre Cícero, o “Padim Ciço” , inimigos ferrenhos dos comunistas, entraram nos “Batalhões Patrióticos” para combater a Coluna, em troca do título fajuto de “capitão” e dos armamentos.

  Quando a Coluna Prestes se debandou para a Bolívia e Prestes fugiu para Moscou, na Rússia, ele passou a ideia aos bolchevistas de que Lampião e seus cangaceiros poderiam ajudar a fazer a revolução no Brasil pela força que exerciam na região e esta ideia perdurou até a Intentona Comunista de 1935.

  As cabeças decapitadas de Lampião, Maria Bonita e muitos de seus cabras, mortos no combate de Angico, em 1938, ficaram por um tempo em Maceió e depois foram transferidas para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador.

  Em 1959, conforme assinala a jornalista e escritora Adriana Negreiros em sua obra “Maria Bonita”, os jornais dos Diários Associados promoveram uma campanha pelo sepultamento das cabeças, somente ocorrido em 1969.

  Essa campanha contou com figuras ilustres da esquerda, a exemplo do deputado estadual Francisco Julião, de Pernambuco, líder das Ligas Camponesas, movimento em prol da reforma agrária que nunca aconteceu no Brasil.

 Chocado com o que vira em Salvador, em sua visita ao Museu Antropológico Estácio Lima, o deputado Julião defendeu o enterro das cabeças, sobretudo pelo respeito que lhe inspirava a figura histórica de Lampião, para ele, o primeiro homem do Nordeste, oprimido pela injustiça dos poderosos a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade. Em sua opinião, o cangaceiro chefe foi símbolo de resistência política.

  Interessante que o grande historiador inglês (nasceu em Alexandria, no Egito e viveu na Áustria e Alemanha) Eric Hobsbawm (1917-2012), marxista convicto, em seus escritos, fazia esta mesma leitura em relação a Lampião e outros bandoleiros famosos que agiram em outros países. Hobsbawm os incluía na lista de revolucionários que se levantaram e protestaram contra as injustiças do sistema capitalista.

O BRASIL É UMA MASSA FALIDA

   Com um rombo nas contas públicas de mais de 78 bilhões de reais, entre janeiro a julho deste ano; as estatais com um déficit acumulado de 8,3 bilhões; uma dívida pública que atingiu 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), em julho, o equivalente a 10,9 trilhões de reais, o Brasil é uma massa falida. Não vou aqui falar do déficit nas contas externas e a queda nos investimentos produtivos e na infraestrutura sucateada.

  No caso específico das estatais, “Os Correios” de hoje é a cara da massa falida do Brasil, uma empresa que foi a nocaute com um certeiro das concorrências e não se renovou. Com Mais de 80 mil empregados, registrou um prejuízo de 5,5 bilhões no primeiro semestre. Pobres carteiros, cujas cartas nem mais existem para entregar.

 Tentou enxugar, mas poucos aderiram aos pedidos de demissões voluntárias. É uma pedra no sapato do governo que não tem coragem de liquidar, privatizar ou demitir a metade por causa da tremenda reação da esquerda e da impopularidade. Do jeito que está, ninguém de bom juízo quer comprar, e não tem mais serventia nos tempos atuais.

  Vejamos ainda como anda a nossa Previdência Social. O déficit ficou em 320 bilhões de reais e as projeções apontam para um patamar superior a 250 bilhões neste ano. É mais um rombo para pagar aposentadorias, pensões e auxílios do setor privado. Os gastos com benefícios previdenciários vão além de um trilhão de reais, cerca de 12% do PIB nacional.

 O desequilíbrio continua avançando em decorrência do volume de pagamentos bem acima das arrecadações. O envelhecimento e o aumento das expectativas de vida levam os benefícios a serem pagos por mais tempo. Há menos jovens no mercado formal de trabalho para sustentar a base de contribuintes. Crescem os pedidos de aposentadorias e milhares estão nas filas de espera.

  Com a reforma trabalhista escravagista de Michel Temer, que esmagou os sindicatos e as centrais, o trabalhador se tornou massa de manobra do patrão, sem barganha para negociar. Os benefícios da carteira assinada não são mais os mesmos de antigamente. Diante do exposto, as pessoas estão migrando para a informalidade – são 38 milhões de brasileiros nessa condição, representando quase 40% da população ocupada no país – um alto contingente que não contribui com a previdência. É mais atrativo porque ganha mais e é bem menos escravo do capitalista explorador.

  Isso tudo é só uma pitada de demonstração de como o Brasil há anos é como se fosse uma empresa que trabalha no vermelho, como grande parte das famílias brasileiras, gastando mais do que se arrecada. Os pobres e as pessoas menos instruídas não entendem esse emaranhado de números e devem ficar se perguntando o que têm a ver com a dívida pública. Coisa de cachorro grande!

  Ledo engano, tudo isso recai nas costas dos mais pobres. Essa gastança desenfreada, além do que recolhe de impostos, obriga o governo federal e emitir títulos da União (papéis), pagando altos juros que resultam em mais inflação e aí, meu amigo, é um flagelo para quem tem menor poder aquisitivo.

  Comprar papéis do Tesouro é um bom negócio lucrativo do que investir em empresas comerciais e indústrias que dão mais dor de cabeça, desgastes administrativos, burocracias, altos impostos, riscos de perdas com as variáveis dos mercados interno e externo, sem contar com as questões trabalhistas.

 Além de ser uma massa falida, o Brasil é um país atrasado, arcaico, ainda com uma economia dos tempos coloniais, exportador de commodities, matérias-primas básicas, como grãos, carnes, ferro, óleo bruto do petróleo e semimanufaturados. Pouca coisa de refinados industrializados, de química fina e peças eletrônicas da tecnologia da computação.

   Para se ter uma ideia, mais de 80% dos fertilizantes utilizados na agricultura são importados. Exporta um container de grãos e compra uma caixa de chips com valor superior. O agro há anos vive mamando nas tetas do povo, o dinheiro nosso de cada dia. Por ano são bilhões de reais subsidiados pelo Estado.

   O Brasil é uma máquina pesada enferrujada num canto, como uma calandra daquelas antigas gráficas. É um país rico com uma das maiores concentrações de renda do mundo, convivendo com um povo pobre miserável que precisa de bilhões para não morrer de fome. As desigualdades sociais só aumentam porque apenas barriga cheia não faz o sujeito mudar de classe social e viver com dignidade.

  O poder desfruta das suas mordomias e privilégios em suas mansões e carrões de luxo de 500 mil a milhões, enquanto a desgraça humana padece nas periferias imundas, fedorentas de esgotos a céu aberto. O sistema de saúde é precário, apesar do SUS.

Para que servem as teorias socialistas marxistas, os discursos comunistas, se milhões são vivos-mortos? A Constituição é o tempo todo violada e a democracia vilipendiada porque os direitos fundamentais não são respeitados, como a negação de uma educação e de uma saúde de qualidade e digna.

 Qual governante líder estadista vai desmantelar esse esquema corrupto de uma máquina monstro que atravanca o desenvolvimento social? Temos presidente da República, vice, presidentes da Câmara e do Senado, onze ministros do STF, 81 senadores, 513 deputados federais, 27 governadores e mais 27 vices, 27 assembleias estaduais e 1.049 deputados.

  Temos ainda 5.568 prefeitos, o mesmo número de vices e de câmaras municipais, com cerca de 58 mil vereadores. De políticos são quase 71 mil, mais de 13 mil assessores parlamentares na Câmara Federal, 4.500 no Senado, 27 mil nas assembleias, 600 mil nas câmaras de vereadores. São quase 800 mil funcionários não concursados.

   Os gastos disso tudo chegam a quase 130 bilhões de reais mais 6 bilhões do Fundo Partidário (35 partidos registrados no TSE e mais 73 em formação). Não estamos computando aqui as escandalosas emendas parlamentares, cujos recursos vão se dissolvendo no meio do caminho. Não deveriam existir. E os penduricalhos e os supersalários?

 Ufa, estou exausto! Peço passagem para me recolher à minha insignificância. Essa é, ou não, uma massa falida? Não são as reformas trabalhista aniquiladora do trabalhador, previdenciária, tributária e outras que vão desatar esse nó. Tudo tinha que começar por uma reforma eleitoral drástica e outra administrativa que liquidassem com as castas. O sistema eleitoral é totalmente injusto na divisão dos recursos e do horário de propaganda.

  Quem ver melhora, ou um futuro a curto, médio ou longo prazo está enganando a si mesmo; é um vendedor de ilusões querendo dar uma de bom mocinho otimista, só para dizer que é um cara que acredita na mudança. Conheço esse papo há mais de 60 anos, desde quando me entendo como gente. Triste Brasil falido!

 

 

A SECA DE 1932 E O CANGAÇO

   Sempre tenho dito e repito que o Nordeste precisa ser mais estudado e lido, principalmente pelos nordestinos. Na história do Brasil, não existiu povo que mais sofreu e foi mais relegado ao isolamento e à própria sorte, desde os tempos coloniais.

 Muitos autores escritores, estudiosos do assunto, economistas renomados e acadêmicos em geral se aprofundaram nesta questão. A literatura é vasta e nela está contida cenas de horrores, massacres, barbaridades, matanças indiscriminadas, injustiças sociais, sem contar as secas e o cangaço que deixaram um rastro de destruição.

   A seca de 1877/79 foi a mais cruel e exterminou milhares de nordestinos, que maltrapilhos, quase nus, tombaram nas estradas e morreram de fome e sede. Outras vieram, como a de 1932, que também deixou um rastro de destruição, ao lado do banditismo do cangaço que não dava trégua aos sertanejos.

   Em seu livro “Maria Bonita-sexo, violência e mulheres no cangaço”, a autora Adriana Negreiros mostra esta face cadavérica da seca que até os cangaceiros precisavam lidar com este fenômeno, embora contassem com a conjuntura política a seu favor.

As mulheres (estupros), os idosos e as crianças foram os que mais sofreram com as violências das secas e do cangaço. Sobre a de 32, Adriana cita que os bois estavam morrendo tão esquálidos que os urubus só se serviam de seus intestinos.

  Nas estações ferroviárias, retirantes saqueavam trens que transportavam fardos de charques, na tentativa desesperada de conseguir algum alimento. Tropas tinham que intervir, cometendo todo tipo de espancamentos e torturas.

  “Pelas estradas, famílias que abandonavam suas pequenas propriedades de solo rachado, largavam corpos de parentes próximos, sucumbidos à fome e à sede durante as travessias. Pequenas cidades eram tomadas pelos sertanejos com crianças de pernas tão finas e barrigas tão inchadas que mal conseguiam caminhar”.

  Os bandoleiros passavam dias sem beber água. Lampião, apesar da sua resistência física fora do comum, por vezes se deitava no Raso da Catarina, clamando aos céus por uma gota d´água. Quando existia alguma fonte disponível, ela estava contaminada por besouros, larvas de insetos e fezes de cabras.

  Na Bahia, a seca de 32 se tornou ainda mais mortífera por causa de um plano mirabolante e maluco de combate ao bando de Lampião, criado pelo capitão João Miguel. Sua ideia desastrada foi a de evacuar a caatinga, visando afastar cangaceiros de seus coitos.

  O interventor Juracy Magalhães, nomeado por Getúlio Vargas, decidiu aderir à iniciativa do militar. O resultado foi que as cidades baianas, além der castigadas pela seca, passaram a receber levas e mais levas de sertanejos famintos.

  Contam que cerca de 12 mil sertanejos da zona rural foram obrigados a deixar suas casas e a viver como mendigos nas pontas das ruas, formando batalhões de famintos. Centenas começaram a morar debaixo de árvores e nos adros das igrejas, vivendo de pequenas esmolas.

  Os cangaceiros foram os que menos sentiram o rigor da seca. Eles resolveram passar boas temporadas em Sergipe onde desfrutavam de uma grande rede de coiteiros que incluía duas grandes famílias ricas, os Brito e os Carvalho.

  Enquanto sertanejos morriam de fome, mulheres eram violentadas e crianças vendidas como mercadorias, os bandos de Lampião recebiam boa comidas, inclusive queijo do reino e bebidas importadas.

Eles não paravam de cometer suas atrocidades, principalmente contra aqueles que os denunciavam à polícia, como ocorreu em Uauá e Jeremoabo, onde o senhor Manuel Salinas e seus três filhos foram barbaramente mortos. Salinas teve o sacrifício maior. Lampião cortou suas orelhas e furou seus olhos; arrancou seus testículos; e extirpou seus lábios. Não contente, ordenou aos seus cabras que quebrassem sua dentadura a coronhadas.

O velho foi colocado no lombo de um cavalo e levado até uma propriedade vizinha onde morava Ulisses, seu filho mais velho, executado com dois tiros diante da esposa e das crianças.

   Conforme se espalhou pelo sertão, além de morto a golpes de punhal, o cangaceiro Quixabeira teria aberto o peito de Salinas, arrancado seu coração e arremessado o órgão no meio do mato.

Existem relatos de sertanejos enterrados vivos e criancinhas lançadas ao fogo para punir pais delatores. As volantes também deixavam suas manchas de sangue e brutalidades por onde passavam. O sertanejo ficava entre a cruz e a espada.





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