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:: ‘Encontro Com os Livros’

UM LAMPIÃO MULTIFACETADO

   Em seu livro “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, o escritor Billy Jaynes Chandler, diplomado em bacharel na Austin University, com mestrado em Texas e doutorado na University of Flórida, com base em matérias de jornais nordestinos da época, documentos de arquivos públicos e entrevistas, descreve um Lampião multifacetado, cruel, perverso, estrategista, tocador de sanfona, letrista, com sede de vingança, às vezes contestado pelos companheiros e até generoso em algumas ocasiões.

  Às vezes, Lampião era como um raio, em outras, como uma nuvem passageira de chuva fina, com seu jeito matreiro de espião vasculhando sorrateiramente o terreno para depois dar o bote fatal. Em paz, com gestos humanitários, se sentindo como um governador do sertão, era recebido como um rei, uma celebridade famosa que arrastava multidões por onde passava.

  Um exemplo dessa sua arte foi sua visita à cidade sergipana de Carira, digna de nota, isto no início de 1929. Lampião e seu bando de sete chegaram montados em mulas. Dos seis soldados, quatro fugiram. Foi recebido pelo chefe de polícia em sua casa, que, ao seu pedido, serviu um jantar.

   Lampião mandou cerveja e cigarros para os dois soldados que ficaram na delegacia. Elogiou-os pela coragem e disse que só estava ali para conhecer o estado. Beberam e cantaram. Para onde os cangaceiros iam, uma multidão os acompanhava.  Lampião era alvo de atenção e admiração de todos. Sua cartucheira tinha dois palmos de largura e continham quatro fileiras de cartuchos, e duas mais de botões de ouro e prata.

 Falou da sua vida e indagou sobre as cidades dos arredores e quantos soldados possuíam. Como não tinha sanfoneiro para tocar e fazer uma festa, horas depois pegaram suas mulas e partiram.

“GOVERNADOR DO SERTÃO”    

  Em suas andanças pelos sertões de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia, o cangaceiro que mais estados transitou no Nordeste, foi alvo de grandes façanhas e até chamado pela imprensa de “Governador do Sertão”, mas também sofreu fracassos e decepções.

   Seu maior erro foi ter tentado invadir Mossoró, no Rio Grande do Norte, e sua maior glória foi sua visita triunfal ao padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, em Juazeiro do Norte, em março de 1926, quando de lá saiu cheio de munições do exército e com uma patente de capitão (não oficial), integrado aos “Batalhões Patrióticos”, para combater a marcha de Luis Carlos Prestes, cujos soldados eram chamados de revoltosos.

   Depois de uns aconselhamentos do padre, Lampião saiu de lá, passando por Barbalha, no encalço de Prestes, até pensando em se regenerar e deixar de vez o cangaço, mas quis o destino que mudasse de ideia depois de sofrer perseguições das volantes de Pernambuco.

  Sua ira voltou à tona com mais força, e entre 1926/27 foi o período em que Lampião mais se mostrou facínora, vingativo, violento, com vários ataques a vilas, povoados e deixando para trás um rastro de mortes, com requintes de perversidades.

 O governador de Pernambuco, na época, Estácio Coimbra, resolveu realizar uma perseguição implacável ao “rei do cangaço” a partir das prisões dos coiteiros, aqueles que não tinham muita influência e força no cenário político da região, como os grandes fazendeiros, coronéis de prestígio e chefes políticos.       

   Lampião enfrentou várias batalhas com até 100 homens contra forças compostas de 400 e 500 soldados, mas no final dos anos 27 e início de 1928, foi se enfraquecendo, dividiu seu bando em várias partes para confundir a polícia até se decidir atravessar o Rio São Francisco e se internar na Bahia.

  Quando estava com força e incensado pela imprensa, teve a ousadia de propor ao governador de Pernambuco uma divisão do estado onde ele se tornaria governo a partir da cidade de Arcoverde. Claro que o governador não o levou a sério e botou mais soldados em seu encalço.

  Com seus momentos de bondade e crueldade, enfrentou os espinhos cruentos da caatinga, fez festa, passou fome e sede, mas teve seus momentos de fartura quando se banqueteava com grandes fazendeiros e coronéis aliados. Esperto, subornou oficiais que fizeram vistas grosas e compunham sua rede no tráfico de armas e munições que sustentavam suas lutas e embates.

  Em sua obra, Billy Chandler escreve sobre O banditismo no Sertão, Virgulino, Lampião, Capitão Lampião e o Padre Cícero, Serra Grande, Mossoró, Queimadas (Bahia), Maria Bonita, A Campanha e os Coiteiros, Em Sergipe com o Governador Eronides, A Grandeza de um Homem, Angicos e um Bandido Social?

SERRA GRANDE

  Entre suas invasões, mortes, queimadas de casas e currais, extorsões, sequestros de reféns, fugas e batalhas, vamos falar um pouco sobre “Serra Grande”, uma terrível carnificina, relatada pelo autor do livro, lançado pela editora Paz e Terra, em 1981. 

   Durante os meses de abril e maio de 1926, Lampião e seu bando, como relata Billy, limitaram seu campo de ação à fronteira entre Pernambuco e a Paraíba, com assaltos a vilas. O pior ataque foi em Algodões, um lugarejo perto da estrada de rodagem de Recife. O bando saqueou as pessoas, casas comerciais e estupraram mocinhas e senhoras.

  O mais bárbaro e sangrento foi perto de Serra Grande em final de novembro de 1926. O major Teófanes Tores, o mesmo que prendeu o cangaceiro Antônio Silvino, e era suspeito de traficar armas e fazer corpo mole, preparou um ataque com 295 soldados contra cerca de 100 de Lampião.

   Contam que foi a maior batalha daquele tempo. Como estavam sendo perseguidos, os cangaceiros atravessaram a serra íngreme e armaram uma emboscada em condições de acabar com a tropa. Foi difícil quebrar a resistência do “terrível general do cangaço”.

    O combate começou por volta de nove horas da manhã e só terminou na escuridão, deixando 10 soldados e seis cangaceiros mortos, além de dezenas de feridos. O major não estava presente e quando resolveu chegar com mais reforços, a luta já havia terminado com a fuga dos cangaceiros.     

      

O BANDITISMO NORDESTINO NA VISÃO DE BILLY JAYNES CHANDLER

   A literatura sobre o cangaço, Lampião e outros cangaceiros, é muito vasta. Para falar do assunto, todos autores procuram abrir seus trabalhos descrevendo sobre como era o Nordeste do século XVII até o início do século XX. Os escritores fazem uma espécie de mapeamento sobre o solo, a caatinga dos sertões, as crendices, o misticismo e todos fatores que contribuíram para o banditismo no sertão.  

  A região vivia isolada do resto do país, abandonada, castigada pelas secas, pela pobreza extrema, pelas brigas entre famílias, pelo mando dos chefes políticos e dos coronéis e pela falta total da justiça para impor a lei. Enfim, o Nordeste era uma terra de ninguém onde o poder era quem mandava. O opressor massacrava o oprimido.

 O CANGAÇO

  O autor de “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, Billy Jaynes Chandler segue esta linha de raciocínio. De acordo com ele, nas sociedades rurais subdesenvolvidas, o banditismo sempre captou o interesse e a fantasia do povo. No Nordeste, o cangaceirismo e, sobretudo Lampião, eram vistos como “heróis” e um fenômeno de rebeldia contra aquele sistema cruel de exclusão social, política e econômica.

   Os que viviam fora da lei, aparentemente livres das restrições sociais, despertavam uma certa imaginação. Desse modo, Billy cita a vibração dos ingleses com os feitos de Robin Hood; os mexicanos com as façanhas de Pancho Villa; e os brasileiros com Lampião.

  As vidas desses homens serviam de matéria-prima para trovadores, cantores, literatos e repentistas das histórias populares. Exageravam e, de certa forma, omitiam a realidade. Alguns historiadores e cientistas, movidos pela obra de Eric Hobsbawm encontraram interesse no estudo do banditismo.

  Lampião, por exemplo, nascido no sertão decadente do Nordeste, fez sua entrada no banditismo, em 1916, quando contava com 19 anos, devido a uma disputa com a família de Saturnino (José Alves Borges). Cinco anos depois, quando a polícia – José Lucena – matou seu pai, em Alagoas, ele declarou que ia viver e morrer como bandido.

  Foi leal, generoso e até praticava ações de compaixão com aqueles que tinham conquistado sua confiança, mas cruel e sanguinário com os que despertavam sua inimizade. Fazia acordos com chefes políticos, coronéis, fazendeiros e até com a polícia para sobreviver.

   Com suas táticas e astúcias, foi um guerrilheiro hábil ao ponto de o povo do sertão acreditar que tinha poderes extraordinários que provinham do seu fervor religioso. Tornou-se objeto de medo e respeito e chegou a ser amigo de um governador.

  Segundo Billy, as palavras cangaceiro e cangaço começaram a ser usados na década de 30, e se relacionavam à canga, cangalho, jugo dos bois. Talvez era assim chamado por carregar o rifle nas costas, como o boi puxa a sua canga. A partir do final do século XVIII significava um grupo de homens armados a serviço de um fazendeiro. Depois se tornaram independentes e a palavra cangaceiro começou a ser usada.

   Foi um fenômeno social. Os cangaceiros andavam em bandos, com seu modo de se vestir especial, como um lenço colorido no pescoço e um chapéu de couro, tipo cawboy do sertão, cuja aba era virada para frente cheia de enfeites (estrelas de Salomão). Conhecedores dos sertões, suas táticas de guerra deixavam as volantes atordoadas.

A DESORGANIZAÇÃO SOCIAL E AS SECAS

  Sobre o Nordeste, Billy descreve que no Sertão, as chuvas fortes caiam numa estação chamada de inverno pelos nativos, num período entre cinco a seis meses, de dezembro a março. A temperatura variava entre 17 a 38 graus, mas hoje chega até mais de 40.

  Quando se fala do Nordeste, muitos imaginam como uma região plana e ´desértica, mas ele tem suas colinas, matas, chapadas, numa mistura de savana floresta. Nos locais planos, vê-se a caatinga, uma vegetação retorcida, nodosa de pequena altura, própria da terra quente e seca. Predominam árvores de pequeno porte, com variedade de cactos, como o facheiro ou mandacaru.

   Os primeiros portugueses não se estabeleceram no sertão, mas nas zonas úmidas do litoral ao longo da costa até Natal (Rio Grande do Norte). Durante o século XVI surgiu uma sociedade agrícola, baseada na cana-de-açúcar. Os índios foram aculturados e, na maioria, exterminados. O escravo chegou a ser a maior força de trabalho.

  Dominava a colônia, uma elite aristocrata, branca e arrogante situada nas áreas férteis (Salvador e Olinda). A produção de gêneros alimentícios foi renegada, surgindo daí o interesse pelo interior, com boas terras para a criação do gado e agricultura em geral.

  Os sertões, então, começaram a ser desbravados a partir do século XVIII até em regiões longínquas. No litoral predominavam as sociedades racistas. Grandes extensões de terras foram entregues pelos oficiais da colônia, nascendo assim os latifúndios. Os fazendeiros eram potentados do sertão, iguais aos senhores de engenho. Governavam seus dependentes com mão de ferro, delegando poderes.

  Como as riquezas eram escassas, Portugal praticamente não exercia domínio. Desde sua origem, conforme análise de Billy, a sociedade dos sertões foi deixada ao discernimento. A independência do Brasil, passando pelo Império (1822-1889) e depois a República Velha (1889-1930), pouco alteraram os fatos.

  A maioria do povo vivia em completa penúria de vida. Mesmo assim, desbravou a região. Foi dessa classe que saíram os cangaceiros, como Lampião. Alguns eram vaqueiros e outros combatiam os índios, incluindo uma pequena parte de escravos negros e mulatos.

  Devido a miscigenação, brancos, negros, mulatos e índios formaram uma categoria de pobres submissos. No início da conquista, os índios sofreram grandes baixas. Existiam pessoas livres, de descendência mista, que eram os senhores vindos da costa. Muitos ancestrais pobres chegaram a ser donos da terra.

  Com o tempo, as grandes propriedades se fragmentaram, divididas entre herdeiros. Essa divisão causou o empobrecimento de muitos. As adversidades das secas também ajudaram a dizimar rebanhos e outros recursos dos fazendeiros.

    No entanto, com o casamento de conveniências, muitos conseguiram deter a desintegração e reconstruir suas fortunas. O latifúndio ainda persistia, apesar das circunstâncias nas pessoas dos coronéis e dos chefes políticos.

   A principal atividade era a pecuária que abastecia as capitais litorâneas. O agregado procurava tirar da terra sua magra subsistência através da agricultura, muita parte destinada à população litorânea.

  Esta situação só começou a mudar no século XVIII com o cultivo do algodão, se bem que os lucros não compensavam devido a falta de estradas e a flutuação dos preços no mercado internacional.

A Abertura de estradas de ferro, no final do século XIX e começo do século XX, estimulou a cultura de gêneros alimentícios de exportação, mas tudo isto foi anulado pelos grandes proprietários que começaram a exigir uma parte pela terra alugada. Houve o surgimento do algodão, mas teve pouca duração.

As áreas agricultáveis se tornaram superlotadas, resultando na fragmentação das propriedades através das heranças. O grupo econômico que mais lucrou com a comercialização dos produtos foi o do intermediário que era o fazendeiro empreendedor. O resultado foi o declínio econômico das populações dos sertões, com o empobrecimento.

    Com o fim da Guerra Civil na América do Norte, em 1865, cessou a procura pelo algodão e afetou também o mercado açucareiro. Logo depois veio o fim do ciclo da borracha, no Amazonas, na segunda e terceira décadas do século XX. 

  Dizem que este conjunto de fatores gerou o cangaço, mas houve outras influências, como a fragilidade das instituições responsáveis pela lei, ordem e justiça, implantadas desde a colonização, quando as autoridades entregaram a região aos potentados.

   No império tentou-se reverter a situação, confiando a ordem aos chefes de polícia, mas não funcionou por causa da política entre os dois partidos que sempre nomeavam seus aliados. O sistema de júri também fracassou porque o jurado votava de conformidade com o coronel ou do chefe político. Partidos políticos antagônicos incentivaram os conflitos, bem como as guerras entre famílias.

  A República, em 1889, criou o federalismo delegando poderes aos estados, que estimularam o desenvolvimento das máquinas políticas, assegurando que o coronel votasse a seu favor. Em troca, os coronéis mantinham seu domínio. A força da polícia apoiava os coronéis, mas, aos poucos, foram perdendo poder.

  Com o enfraquecimento das instituições do estado, que sempre estavam a favor da facção local vigente no momento, criou-se um clima de desordem, sem justiça e proteção aos desfavorecidos. Sem garantia de proteção nem do patrão, nem do estado, povoações do sertão se transformaram em verdadeiras selvas onde imperavam a ilegalidade e a desordem.

“Parece, portanto, certo que o aparecimento do cangaço esteja intimamente ligado a este estado de desorganização social” – aponta o escritor Billy Chandler, mas ele acrescenta também as secas calamitosas que se repetiram naqueles anos, entre final do século XIX e nas primeiras décadas de 1900.

  Billy ainda cita o messianismo e o fanatismo religioso que desagregaram a sociedade, só que estes fenômenos ocorreram paralelamente ao cangaço. No entanto, em sua visão, as estiagens prolongadas contribuíram para aumentar a violência. “Com a seca de 1919, o cangaço atingiu seu ponto máximo”. “Tanto o banditismo como o messianismo são produtos do mesmo complexo de condições”      

CURISCO RESOLVE SE VINGAR DOS DELATORES E RETOMAR O BASTÃO

“Se entrega Curisco, eu não me entrego não…” diz o cancioneiro em referência ao cangaceiro valente, “Diabo Louro”, quando recebeu voz de prisão do tenente José Rufino, em Barro Alto, na Bahia, próximo de Miguel Calmon, em 1940, dois anos depois da morte de Lampião, pela tropa de João Bezerra, na gruta de Angicos (Sergipe).

Curisco ficou sentido e furioso com a morte do seu amigo “cumpade” e prometeu se vingar dos delatores, Domingos, o homem de duas profissões (vaqueiro e embarcadiço a serviço de Deus e do Diabo) e Pedro da Cândida, o pivô das delações. Sua mulher Dadá teria dito, agora é o “fim de quase tudo”. Os dois delatores tiveram um fim trágico.

Depois de tudo consumado em Angicos, Curisco atravessou o Rio São Francisco, na companhia de Dadá, e pensava na sucessão do chefe, mas num embate sofreu ferimentos sérios que atingiram seus braços, deixando quase impossibilitado de manejar uma arma, conforme narra o médico e antropólogo Estácio Lima, em sua obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”.

Com “macacos” por todo lado e Zé Rufino em seu encalço, Curisco vivia amargurado. “Não largava eu, a procura de Curisco. De quando em vez, tomava ele um sumiço, sem que a perseguição esmorecesse” – disse o militar em entrevista ao autor do livro.

Conta que uma vez chegou a Barro Alto, em dia de feira, onde perguntou a todos se haviam visto dois homens, duas mulheres e uma menina. Pouca coisa de informações, mas encontrou na ponta da rua um rapaz galopando num cavalo melado. Indagado, disse que ia para Pulgas.

Zé Rufino quis saber do paradeiro do pessoal e disse logo que não eram ladrões (o sertanejo tem raiva dessa classe) e sim parentes. O rapaz confirmou que tinha um pessoal em sua casa e veio ao povoado para fazer comprar para as visitas.

O tenente chamou o moço para tomar uma cerveja num bar com o motorista do caminhão Zé Cláudio, que conhecia o local. Todos rumaram para a fazenda Juá. O caminhão parou uma légua antes da chegada para pegar os cangaceiros de surpresa, mas Curisco ouviu o barulho do motor.

Como guia involuntário, o rapaz pressentiu ter caído numa armadilha, mas já era tarde. O tenente seguiu com um mosquetão e seu soldado Mulundu com uma metralhadora belga de 32 tiros. Formaram o cerco à casa do velho Pacheco, com a estratégia de distribuir a força em pontos diferentes.

Dadá foi a primeira a ver os macacos da janela e avisou ao marido que mandou que lhe acompanhasse. Curisco pulou a cerca de quiabentos e Dadá a do fundo. Zé Rufino atirou nos fugitivos para intimidar, mas o casal tocou em frente.

O soldado “Campanha” atirou e baleou Dadá que caiu. Ela logo avisou a Curisco que havia sido alvejada. “Maiores são os poderes de Deus” – respondeu o marido. O tenente alcançou o cangaceiro e gritou para ele se entregar que garantia sua vida. A resposta dele foi bala.

O soldado rastejador Gervásio ficou frente a frente com Curisco. “Gervásio fez um tango-lomango da peste e a bala não pegou. Rufino correu para dar ajuda e Curisco manobrou dando as costas. Os dois militares atiraram pelas costas. O tenente confessou que não gostava de fazer fogo pelas costas, quanto mais contra um cabra valente, mas acrescentou que não havia outro jeito.

Os tiros arrombaram o buxo de Curisco, e o soldado cuidou de colocá-lo para dentro. “Deus lhe pague” – foi a palavra de Curisco. Zé Rufino mandou colocar os dois em redes diferentes e tocaram para a casa de farinha.

Como Curisco ainda estava com vida. Dada indagou se Zé Rufino garantia suas vidas. Pegaram a menina Rufina debaixo da cama. Nisso, Dadá que estava com o osso da perna espatifada, deu um grande gemido de dor.

“Cala a boca, égua safada” – disse um soldado. “Me respeite macaco filho da puta, filho de uma égua. Puta é sua mãe. Respeite que sou casada” – respondeu Dadá.

O tenente providenciou transportar os dois até Barro Alto. Ainda em vida numa esteira, Curisco topou tomar uma cachacinha com a mulher. De lá seguiram para Ventura numa estrada ruim, mas Curisco não resistiu. Com mais um dia chegaram a Miguel Calmon onde a perna de Dadá foi amputada pelo doutor Reinaldo, só que deu gangrena.

Zé Rufino, então, a entregou para o coronel Felipe que a levou para Salvador, pois os côtôcos continuavam ruins. A cabeça de Curisco se juntou às de Lampião e Maria Bonita, no Museu Estácio de Lima.

Depois de Curisco, ainda surgiu um tal de Antônio de Dina, mas este não passava de um marginal, de um delinquente e não possuía os atributos de um cangaceiro. Chegou a ser preso e fugiu da Casa de Detenção da Bahia indo parar em Pernambuco.

DERROCADA DO CANGAÇO NORDESTINO COM A MORTE DO “SENHOR DO SERTÃO”

DEPOIS DE MAIS DE 50 ANOS, PASSANDO POR ANTÔNIO SILVINO, SENHOR PEREIRA, JESUÍNO BRILHANTE E TANTOS OUTROS CHEFES VALENTES, O CANGAÇO ENTRA EM DERROCADA COM A MORTE DE LAMPIÃO, O “SENHOR DO SERTÃO”. CURISCO TENTA OCUPAR O POSTO DO CHEFE, MAS TAMBÉM É TOMBADO EM 1940.

Lá pelos meados dos anos trinta, com o cansaço nas brigadas e persigas nos sertões das caatingas, doenças nas vistas e nos rins, a morte do seu protetor “Padim Ciço”, o padre Cícero Romão, de Juazeiro do Norte, em 20 de julho de 1934, aos 90 anos, Lampião não era mais o mesmo de sempre; andava macambúzio; era descuidado; vacilava nas decisões; e não tinha mais aquela disposição nos combates contra as forças das volantes.

Os próprios companheiros do cangaço sentiam e diziam isso, principalmente os “cumpades” mais chegados, como Curisco, Labareda, Saracura, Zé Sereno, Luiz Pedro e outros. Quis o destino que um seu conterrâneo, de Serra Talhada (Pernambuco), o tenente João Bezerra, servindo no Batalhão de Alagoas, com mais as volantes de Ferreira e Aniceto, lhe tirasse a vida, em 28 de julho de 1938, na gruta de Angico, ou Angicos, em Sergipe.

Em entrevista ao médico e antropólogo Estácio Lima, autor do livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, o já coronel João Bezerra disse que a morte de Lampião não foi um mero acaso, mas resultou da tenacidade comprovada de vários anos de lutas. O já coronel Ferreira de Melo (leptossomático) leva em conta a escolha de indivíduos preparados. “Levamos a vantagem da surpresa”.

Foram ao todo onze abatidos que tiveram suas cabeças decepadas, das quais somente as de Lampião e Maria Bonita foram para o Museu Estácio de Lima, em Salvador, na Bahia.

Ferreira diz que sua força foi a primeira que atirou, mas até hoje não se sabe ao certo de onde partiu a primeira bala que pôs fim a Lampião, se de Bezerra, Ferreira, sargento Aniceto ou outro “macaco” como assim denominavam os cangaceiros quando se referiam aos soldados.

O Batalhão de Polícia de Alagoas, sediado em Santana do Ipanema, era comandado pelo coronel José Lucena, um dos maiores inimigos de Lampião, possível matador do seu pai e irmão mais novo.

Antes de tudo acontecer, Bezerra havia deixado Piranhas para ir a Pedra se encontrar com Ferreira, para umas batidas nas caatingas de Moxotó.

Bezerra havia partido quando surge um portador, em Piranhas, com um telegrama do sargento Aniceto. O texto dizia “Bois no Curral” ou “garrotes no Pasto”, o que na tradução significava “Lampião aqui por perto, venha urgente”.

Os dois, Bezerra e Aniceto, acertaram se encontrar na estrada. Com Ferreira, a tropa viajou, em 27 de julho à noite, pelo Rio São Francisco em três canoas cheias de soldados, para não deixar rastros. O destino era Entre Montes.

Os soldados não sabiam da missão e deviam ficar calados, mas temiam os bancos de areia. Um deles chegou a dizer que “nóis quer morre brigano, afogado é ruim”. Nas margens do rio, mandaram buscar o coiteiro que negou sua ligação com os bandidos. “Ponta de faca, porém não brinca”.

O coiteiro Domingos, vaqueiro e barqueiro, que cortava dos dois lados nas informações, tipo X9 dos militares, terminou abrindo o bico. O comando, então, foi pegar o segundo coiteiro parente do outro, o Pedro da Cândida. ”Ou diz tudo, ou morre”. Passava da meia noite quando os canoeiros partiram. Os coiteiros conheciam toda área e sabiam conduzir as volantes naquelas densas trevas.

Tinham que subir o morro rastejando, para não deixar pistas e suspeitas. Não foi encontrado nenhum vigia do grupo, que esqueceu as “boscadas”. No clarear do dia, o aspirante Ferreira se deparou a poucos metros dos cangaceiros. Zé Serenos e outros foram logo reconhecidos.

A volante de Ferreira estava em boa situação, só esperando o sinal do comandante Bezerra. Alguns bandoleiros pressentiram o cheiro dos “macacos” e deram o alarme. Ferreira não pode mais esperar e abriu fogo cerrado. A confusão se estabeleceu e alguns cabras caíram logo.

Os primeiros que reagiram foram Zé Sereno e Luiz Pedro, mas já era tarde demais. Um grito anunciou que o “Governador do sertão” se achava baleado. Dizem que partiu de Maria Bonita. Luiz Pedro acorreu para perto do chefe, tentando acudi-lo.

Maria Bonita teria falado: Você não disse que desejava morrer na mesma hora de Lampião? Pois agora espie, aqui, o homem como está”… O capitão agonizava, sem gemidos. Luiz Pedro tomou-lhe o mosquetão e o chapéu bordado de estrelas. A companheira tentou fugir, mas também foi tombada.

Mesmo ferido, Bezerra não deixava a metralhadora silenciar, bem como Aniceto com seus homens. Tudo foi bem planejado. No combate, Luiz Pedro foi atingido nas costas, ou no peito.

Seu afilhado Vila Nova tentou ajudá-lo, mas ele pediu que o matasse antes das volantes. Zé Sereno conseguiu escapar com sua companheira Cila que depois foi para São Paulo parar nos braços de outro.  O cangaço praticamente acabou ali, mas Curisco tentou resistir, ocupar o lugar do chefe e se vingar dos traidores.

“CUMA CUNTECEU” NAS REVELAÇÕES DO VALENTE CANGACEIRO LABAREDA

O médico e antropólogo Estácio de Lima, em sua obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” transcreve uma entrevista que fez com Ângelo Roque da Costa (Anjo), vulgo Labareda, do grupo de Lampião, na linguagem matuta, com pitadas poéticas, ipsis liter, difícil de se falar e escrever.

Na época em que Lampião foi morto, em 1938, na gruta do Angico (Sergipe), Estácio era presidente do Conselho Penitenciário da Bahia e acolheu e defendeu muitos cangaceiros presos e outros que se entregaram. Ele chegou a empregar alguns depois de indultados.

Na entrevista, Labareda descreve o chefe que muitas vezes vacilava nas decisões e era afrontado. Quando “carmo” “agia como uma moça, mas aperreado era uma fera”. Era cruel e até justo em algumas ocasiões. Ás vezes se apiedava da pobreza e distribuía algum dinheiro. Não perdoava quem o denunciava aos “macacos”.

Labareda, nascido pelas bandas de Santo Antônio da Glória (Curral dos Bois), na Bahia, conta que ajudava os véio na roça. “Minha mãe era mulé da cusinha, dus fio i da inxada. Eram arremediados. “Só nus tempo di seca qui parecia u mundo i si acaba!”

Como Anjo Roque se bardiô prô cangaço? Tudo foi por causo da sua irmã Sabina, de quinze anos. O soldado Horácio Caboclo (Couro Seco) mandou uma carta para sua irmã chamando-a para fugir. Anjo foi ao juiz de Direito. “Ele entonces mi arrespondeu qui u sordado tamém tinha irimã e cumo ele namorava cum a minha irimã, eu fizesse u mesmo, cum a do sordado”. Naquele tempo, soldado mandava no interior mais que o prefeito.

– Entonces, Doutô, visto isso, só si tomano pruvidença, pru conta da gente.

– Vá si cria, mínimo – foi a resposta do juiz. – Já tô criado, Doutô.

O soldado disse que ia buscar a Sabina. “Cabra zarro, ele disse i compareceu. Mas num vortou! Ficou ispichado nu chão”. O Pai de Couro Seco (André Cabôco) deu uma facada nas costas de Anjo Roque, que o enganou dizendo que ia para São Paulo. No dia seguinte ele recebeu um “certêro”. “Ele miricia; era ordinário i ruim Cuma a peste. Foi duas onça qui eu tirei du pasto, us povo dizia”.

Dias depois, Anjo Roque foi cercado em sua casa. Houve brigada e seu irmão e sua mulher foram mortos. Tocaram fogo em sua casa com seu pai dentro, bem como no curral, na casa de farinha e no chiqueiro – conforme relata.

Labareda conta que a única saída foi pedir proteção ao um coronel de Jeremoabo. Depois se entranhou no Raso da Catarina onde lutou contra a força e matou um sargento. Houve violência contra seus parentes.

No aperto, Anjo Roque, o Labareda, procurou Lampião e entrou para o grupo composto por oito homens (Curisco, Arvoredo, Virginio, Luis Pedro, Ezequiel, Fortaleza, Volta Seca, entre outros), isto em 1928.

Depois disso ele narra as viagens das brigadas e persigas pelas caatingas que fez com Lampião pela Bahia, inclusive em Queimadas, onde muitos soldados foram mortos. Em seu português caipira, ele conta os aperreios dos cangaceiros, o dia em que Lampião quase morre de sede no sertão.

“Bebemo cum muita ganaça e u rezurtado foi qui provequemo, i a gente gumitô tudo”. Segundo ele, quando se está com muita sede, água só segura na barriga, quando misturada com rapadura ou farinha.

“Tivemo nutiça qui, in Juazêro, havia u´a viúva véia muito rica: Viajemo na procura da viúva. Cheguemo in casa dela, cum u quilariá du dia”. Levaram tudo dela e mais 10 contos de réis.

Em Pernambuco, num lugar chamado de Tacutiara, o bando se encontrou com um soldado da força que mentiu dizendo ser tangedor de burro. Após ser descoberto, “Lampião cortô a cabeça dele vivo deitano ele no chão Cuma si faz cum galinha.

Anjo Roque conta outras histórias macabras e que havia desentendimentos entre os cangaceiros, mas sempre se acertavam, inclusive que algumas vezes o chefe Lampião chegava a ser contrariado, mas tinha suas saídas estratégicas e até se compadecia dos mais pobres em alguns casos.

Certa vez, Lampião resolveu matar um fazendeiro com quem tinha se desentendido e Labareda tentou impedi-lo, dizendo que o filho havia dado cinco contos para livrar o pai. Era seu conhecido. Mesmo assim, Virgulino Ferreira não aceitou e os dois tiveram um entrevero. No final, o chefe concordou desde que o coronel desse um conto a cada cangaceiro do seu grupo.

 

O CANGACEIRO CANTOR E COMPOSITOR

Entre os grupos de cangaceiros nordestinos, alguns se destacaram como verdadeiros artistas anônimos, cantando e divertindo seus companheiros depois das brigadas e das persigas, em acampamentos armados de forma improvisada nos agrestes dos sertões.

Muita coisa foi perdida, mas alguns pesquisadores conseguiram recuperar preciosidades escritas em sua linguagem que, até certo ponto, era diferenciada do povo nordestino comum. O antropólogo Estácio de Lima afirma que “a obra de arte é o que foi e é o que será”.

“Conhecer o seu semelhante, interpretar-lhe o sentimento, decifra-lhe os arcanos da alma, é algo, realmente, complexo” – diz Estácio. Segundo ele, poetas e prosadores convencionais costumam fazer-se escravos da sintaxe, da rima, do que lhes parece harmônico, dos dicionários, do estilo, da metrificação e, em última análise, dos ditames das escolas literárias, que amarram as ideias, comprometem a inspiração e alteram a realidade.

Nos versos populares, nota-se que para o jagunço, para o sertanejo em geral, o grande vaqueiro, corredor das caatingas, vale mais que um doutor. Lampião, que foi sanfoneiro, antes de entrar para o cangaço, foi um valente vaqueiro. Era grande a aproximação entre o cangaceiro e o Padre Cícero Romão, e o artista Theo Brandão retratou bem isso em seus versos.

O poeta José Cordeiro conta os preparativos, os planos e o combate em Mossoró, em 1927, onde Lampião saiu derrotado. O metrificador Antônio Theodoro fala dos apelidos dos bandidos em sextilhas de cordel.

No entanto, não se encontrou na literatura e na poesia referências sobre o Código de Honra dos cangaceiros, principalmente quanto ao tráfico de armas. Existia entre as partes um pacto de silêncio. Sabe-se, porém, que muitos oficiais da polícia, chefes políticos e coronéis de patente estiveram envolvidos, como acontece até hoje no âmbito do narcotráfico e das quadrilhas organizadas.

Quanto a arte no cangaço, entre os cangaceiros, Gitirana (não gostava que colocasse o “J” na inicial do seu nome), voz de barítono, foi o destaque e animador das festas, nas bem traçadas emboladas, com gritos guerreiros. Descreve o autor Estácio, de “ O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, que ele mesmo se comovia, quase às lágrimas e também aos ouvintes. Ele era acompanhado pelo realejo do bandoleiro Jandaia.

Gitirana foi o cantor das caatingas e se impôs como o barítono maior de “Mulher Rendeira”. Ele gostava dos cocos. De acordo com Estácio, que entrevistou alguns de seus companheiros, Gitirana gostava dos remexidos, como “Bala in balaxo/ Bala in riba/Bala in baxo…/ Foi pru mode o cararú…/Eu não quero nem fala…/ Quem num come de castanha/ Num percebe du caju/ Num conhece du fubá…/ Quem num pode cum mandiga/ Num carrega patuá!

Nos pousos (remanso do “ponto”), nos coitos ou nas marchas penosas, ouvia-se sua voz: “Laranjeira, laranjeira/ Laranjeira, laranjá/ Eu disse pra laranjeira/ Qui num botasse fulô…/ Que passasse Cuma eu passo,/Qui passasse sem Amô!

Na alma do cangaceiro, suas rimas eram agudas, cortantes, de expressões bélicas, explosivas, nostálgicas e de afeto. Em redondilhas, outra possivelmente de Gitirana dizia: “Quem num prova de castanha/ Num conhece du caju,/ Mulé sortêra tem manha/ Qi nem sapo cururu…// Se nóis prova du dendê/ Sem cumê du caruru/ Num sabe a gente cumê/ Nem briga num suruú!

Gitirana nos deixou essa doçura de canção: “Amô remexe cá gente/Chegando di supetão…/ Mais pió qui dô di dente/ É senti parpitação. Como ele apreciava a cabrocha, cantava essa: “Cabrocha pra sê bunita/Bonita cumo os amô,/Basta um vestido de chita/ I na cabeça u´a frô!//Toda cabrocha bunita/ Num sabe tê sentimento…/Vistida entonces di chita/ Só sabe tê trivimento!

O artista chegou a ser recolhido à cadeia de Jeremoabo, na Bahia, ao se entregar, atendendo a promessa do perdão, mas a alma de poeta, habituado a viver livre no agreste, não se adaptou ao local. Revoltou-se, arrombou a prisão e partiu para Sergipe onde morreu tuberculoso, no anonimato.

Estácio de Lima nos revela que “Todamerica” gravou em disco a voz de Volta Seca, incorporando corretamente à “Mulé Rendêra”. Labareda também cantava, mas não tinha o mesmo talento de Gitirana.

Os “macacos” tinham seus cantadores que falavam dos seus embates contra os cangaceiros. Em versos, os bandidos eram sempre tratados com deboches, sem falar nas vantagens que levavam contra os inimigos.

 

O CANGAÇO E AS MULHERES

Somente no final dos anos 20, quando Lampião fugiu de Pernambuco para a Bahia, foi que as mulheres começaram a entrar no cangaço, com Maria Déa, ou Maria Bonita, nascida em Santo Antônio de Gloria (Paulo Afonso), na Bahia.

A princípio, muitos cangaceiros não gostaram dessa novidade porque consideravam que a prática do sexo e o convívio com a mulher enfraquecia e amolecia o homem nos embates com a volantes nos sertões das caatingas. Alguns compadres chegaram a fazer advertências ao chefe.

O médico e antropólogo estudioso do assunto, Estácio de Lima, abre um capítulo em seu livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” sobre a participação das mulheres no cangaço. Na época, início dos anos 40, ele era presidente do Conselho Penitenciário da Bahia e penetrou bastante nesta questão.

Naquela época, especialmente no Nordeste, o número de mulheres nas penitenciárias era mínimo em relação aos homens. Com o tempo, cresceu o contingente feminino, mas ainda existe uma proporção bem maior de homens na criminalidade.

De acordo com Estácio, “a mulher, aparentemente, é menos atraída para a delinquência em razão das personalidades de sua estrutura somática e dinâmica humoral; de uma força física menor, levando-a a maiores precauções; de uma educação multissecular, objetivando torná-la submissa e mais recatada; de uma sexualidade antes passiva que ativa, e isto é da mais alta importância; e não menos, do instinto maternal, que a às ternuras, sob variados aspectos”.

Acontece mestre, que este quadro em geral mudou muito com as lutas femininas na busca por igualdade social e de gênero. A  mulher não é mais hoje aquela passiva e submissa de antigamente. Passou a buscar suas conquistas na sociedade, se bem que a criminalidade continua predominando mais entre os homens.

No reino das caatingas, segundo Estácio, “não encontramos, todavia, as mulheres nem mais cruéis, nem mais inconsequentes ou corruptas, embora experimentassem as vivências fundamentais dos companheiros. O caboclo, escravo da terra e escravizado por seus “donos”, encontra, na companheira, solidariedade e compreensão”.

Ele destaca que no país dos vaqueiros, dos jagunços, dos camponeses muito pobres e retirantes, a mulher não costuma viver parasitariamente. Ela maneja o arado, a enxada e sepulta as sementes com firmeza na dura nesga de terra.

Apesar de atingida pela sociedade, maltratada pelo clima e aniquilada pela fome, a propensão para o crime era menor. Mesmo assim, enfrentou de forma destemida as volantes, sugerindo medidas, discutindo e decidindo nas horas difíceis.

RAINHA E PRINCESA

Estácio descreve as mulheres no cangaço, destacando Maria Bonita, de Lampião, e Dadá (a Sérgia), de Curisco. A primeira como rainha e a segunda como princesa, diferente, que pegou em armas, lutando ao lado do marido, mesmo quando ele teve os braços esbagaçados por metralhadoras num enfrentamento.

Sobre Maria Bonita, o autor da obra afirma que jamais poderia ser considerada uma cangaceira, mas foi a figura feminina primordial do grupo. Portava somente armas curtas e dava um ou outro tiro nas brigadas. Não fugia da liça. Teve seis ou sete filhos, mas só uma criança sobreviveu.

A Déa, depois que se separou do marido sapateiro José, passou a ser chamada de Maria Bonita e nunca mais quis um destino diferente. Não se sabe se ambos eram fiéis, mas ela, sem dúvida. Virgulino sempre falava que era agradável “cobrir uma fêmea”.   Existiram boatos de um certo namorico de Maria com Luiz Pedro, “mas é uma gritante inverdade”.

O FIM MACABRO DE LÍDIA

O antropólogo descreve as personalidades de várias mulheres do bando, como da Lídia, a Desdêmona, mulher de Zé Baiano, caso principal e trágico. Zé Baiano era um negro feio, alto, forte, valente, malvado e ferrava em brasa as mulheres que ele achava que deviam merecer castigo.

Zé Baiano apaixonou-se por Lídia, fogosa, moderna, jeitosa, sapeca e linda de corpo. Encontrou-a em Paripiranga e roubou a moça. Dizem que ela gostava de deixar os seios um bocado para se ver, com casacos folgados.

Com todas aquelas provocações, namorou o Bem-te-viu, um tanto meloso e derretido. O Besouro, um cangaceiro ordinário, vivia paquerando a Lídia. Certo dia, ele ouviu o mato estalar a certa distância e também “um ronco de onça comendo bezerro”.

Besouro aproximou-se como um felino e viu a moça agarrada ao Bem-te-viu. Disse que também queria. Lídia se recusou e ele ameaçou contar tudo a Zé Baiano. Percebendo o perigo, Bem-te-viu fugiu.

Na vista de todos, inclusive na presença do chefe-capitão, Besouro contou tudo. Lídia era corajosa e sustentou todo acontecido e ainda da chantagem de Besouro que queria lhe comer. “Se tenho de morrer que morra logo, mas esse cabra safado não me come”.

Ao ouvir tudo, Lampião pulou de onde estava como um acrobata e abriu com uma foice, em duas metades, a cabeça do delator. Por sua vez, Zé Baiano decretou o fim de Lídia. Lampião não interviu por achar que a moça era propriedade do preto e tinha todos direitos sobre ela. O código das caatingas era inflexível.

Com suas garras brutais, Zé Baiano matou a formosa Lídia com cacete. Foi um espetáculo macabro, com pancadas estúpidas, arrasadoras que esmagaram a cabeça da moça. O Bem-te-viu conseguiu escapulir para as bandas de Alagoas.

O Zé Baiano ficou ainda mais selvagem, mas teve um triste fim. Conheceu a filha do coiteiro Antônio da Chiquinha que não aprovou a união, mas não podia fazer muita coisa. No entanto, ajudado por camaradas, pegou Zé Baiano e seu grupo dormindo e a todos degolou a machado e a foice.

Os jornais noticiaram que “o ferrador das mulheres morre por causa de um rabo de saia”. No entanto, os sebastianistas acreditaram que Zé Baiano houvesse escapado para São Paulo. Antônio da Chiquinha foi morar em Salvador e se tornou camelô em Água de Meninos.

DADÁ, A GUERREIRA

Quanto a guerreira princesa Dadá (Sérgia Ribeira da Silva), criada em Glória (Bahia), mas nascida em Belém, Pernambuco, tinha personalidade mais incisiva e era uma grande combatente ao lado do seu marido Cristino Gomes da Silva, o Curisco, ou Diabo Loiro. Não teve a mesma fama de Maria Bonita, mas bem que merecia mais que a rainha.

Além de Maria Bonita e Dadá, ainda estiveram no cangaço, a Nenem, que pertencia a Luiz Pedro, que morreu baleada num combate que se feriu em Mucambo, perto do Rio São Francisco; Moça, mulher de Cirilo, que sabia atirar de fuzil; Otília, muito alegre e companheira de Mariano; Durvalina, amante de Vírginio, cunhado de Lampião e um dos cangaceiros mais temidos; Cila (Ismerilda), bonita e letrada, sabia ler e escrever, que foi mulher de Zé Sereno; Inacinha, mulher de Gato; Áurea que pertencia ao cangaceiro Manuel Moreno; Maria dos Santos que acompanhou Labareda por mais de 10 anos; Enedina pertencente a José Julião; Cristina, mulher de Português, bandoleiro que mal conhecia Portugal; Dulce, mulher de Criança; Verônica, mulher de Beija-Flor; e Lili, companheira de Moita Brava que levou seis tiros do marido por suposta traição.

 

 

O FATOR SOCIAL NO CANGACEIRISMO

Com seu olhar mais antropológico sobre a questão do meio social no sertão nordestino, o médico e escritor Estácio de Lima, em sua obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros” descarta a teoria lambrosiana de que a criminalidade é nata em determinados indivíduos a partir de suas características físicas.

O médico assinalou que, diante da empola radiológica, as cabeças de Lampião, Maria Bonita, Corisco, Zabelê, Cangica, Azulão e mais outra Maria abatida em combate, não ofereceram o mínimo vestígio do chamado lombrosionismo. “Para sermos rigorosos, entretanto, diremos que Zé Baiano exibia traços morfológicos que se ajustariam à clássica descrição de Lombroso.

“Em resumo: O meio hostil feriu um homem abandonado, de atributos contraditórios, muitos deles grandes atributos, respondendo esse homem desordenadamente, às vezes cruelmente, exibindo sua alma cheia de primitivismo”. Nasceu assim o cangaceiro, o delinquente.

Outro ponto por ele contestado é que a miscigenação étnica nordestina, de acordo com certos estudiosos, tenha contribuído para o banditismo na região, no caso específico do cangaceiro, do jagunço e do pistoleiro. Estácio, no entanto, foca especialmente no problema da injustiça social, mesológico das secas na caatinga e de um judiciário protetor dos mais fortes e cego com os pobres.

“A Bahia conheceu, no século dezenove, assassino brutal, que estarreceu o Brasil. Houve, na época, a falsa interpretação de que o escravo Lucas da Feira era o que era, porque trazia, na epiderme, a pigmentação da melanina. Os seus atos refletiriam a “criminalidade dos pretos”.

Segundo o estudioso e pesquisador no assunto, o mestiço passou para alguns exegetas, a ser considerado um tipo em degeneração, sem possuir as boas qualidades, exibindo as más, ou deturpando as melhores. Pensadores, então, terminaram interpretando certos índices de incapacidade das nossas populações como resultante dessa mistura de sangues heterogêneos, colocando o negro como inferior.

Estácio destaca que essas interpretações falsas levaram a exageros, ou erros, em sentido contrário. “Os mulatos chegaram a ser endeusados”.

“Os irmãos Ferreira não se constituíram nos maiores cangaceiros do tempo, influenciados, fosse qual fosse a dose, por qualquer das nossas três raças básicas, ou pela conjunção de todas. Denotavam eles, na fisionomia, traços evidentes da tríplice convergência étnica… Não foi isso, todavia, que os levou ao banditismo… Mas toda uma série de fatores cósmicos, telúricos, sociais e biológicos”.

Na figura do caipira e do matuto nos sertões nordestinos, prossegue Estácio, percebe-se um esboço de definição racial. Como exemplos, cita o cangaceiro Saracura, tez morena, como a de Maria Bonita, cobreada, um tanto pelo sol, um tanto por discreta melanina, legado dos ancestrais, como também em Lampião.

“O cangaceirismo tem aquele aspecto – e não será fastidioso repeti-lo – de reivindicações, de protesto contra as desigualdades, de vingança face as injustiças, ou revide ante as extremas provocações”.

Sobre crianças que entraram no cangaço, Estácio analisa que seguiram nas hostes pela imitação, pelo espírito de aventura inerente à pouca idade, pela ideia de que aquilo era brinquedo divertido. “Não levaram protestos, nem objetivos predeterminados”. Quanto aos idosos, serviam para levar recados, sem contar a missão de rufiões pela metade.

O escritor de o “Mundo Estranho” também ressalta sobre o período de maior desenvoltura dos cangaceiros, entre 18 a 35 anos, em razão dos enfrentamentos das caatingas, dos embates com as volantes, da terra seca e da vida precária que levavam.

Os bandoleiros menos idosos passaram a observar que Lampião declinava quando atingiu os 40 anos. Vinha mostrando gradual pendor pela “sombra e água fresca”. Ainda era infernal, um grande satanás, porém, não mais o mesmo gênio dos malefícios quando ultrapassou os 35.

– Derna qui “o Padinho Pade Cirço” si mudou pru céu qui o cumpade Lampião passou a viver meio inculido! Estácio faz mapeamento da biotipologia do homem cangaceiro, como esguio, raramente baixo (um metro e setenta), pernas e braços finos, com relevos musculares ao nível do bíceps, magro, rosto comprido, barriga murcha e bacia estreita. Um leptossomático típico.

“Se o determinismo fosse diverso, uma educação apropriada interferisse, as condições do ambiente se mostrassem bem menos agressivos, o caboclo perduraria silencioso e esquivo, sem mergulhar, porém, no cangaço.

 

“TEMPO DE INTENSA CRUELDADE”

RESISTÊNCIA MANTIDA PELA LUTA E PELO AMOR

A professora Ana Isabel Macedo, aposentada do Departamento de Estudos Linguísticos e Literários da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, onde durante 30 anos lecionou Língua Portuguesa, lançou na noite de ontem (sexta-feira, dia 26/02), no Foyer do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, o seu quinto livro romanceado, intitulado “Tempo de Intensa Crueldade: Resistência Mantida pela Luta e pelo Amor”.

Na obra, a autora apresenta histórias de amor, de amizade, de militância política e revela duros episódios da ditadura civil-militar no Brasil com o golpe de 1964. O lançamento foi um momento muito especial de diálogo entre a literatura e a música quando, na ocasião, Elton Becker e Damian Lima cantaram “porque não dizer que falei das flores”, do poeta e compositor Geraldo Vandré.

Na abertura da apresentação do livro, o professor e advogado Ruy Medeiros fez um longo relato do que foi a ditadura civil-militar de 1964, citando vários presos políticos que, em combate contra o regime, foram cruelmente torturados e mortos pelos generais no poder, como o caso do frei Tito, que não suportou em vida as torturas do delegado Fleury e terminou se suicidando.

Como prefaciador do livro, Ruy, em sua fala condenou os discursos de raiva e os grupos que se movimentam pregando uma intervenção militar no país. De acordo com ele, somente quem não viveu aquele duro período de opressão se levanta em defesa de uma nova ditadura. Lembrou os momentos difíceis, principalmente durante os chamados anos de chumbo a partir de 1968 com o AI-5 onde o preso não tinha nem direito a um habeas corpus.

Na contracapa da obra, a historiadora Isabel Cristina Leite, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, recorda que “na cidade de Petrópolis foi mantida pelo Centro de Informações do Exército (CIE), uma casa clandestina, cujo fito único era praticar crimes terríveis, como torturas extremas, tipo horas de pau-de-arara: estupros e tentativas de afogamentos em quem os militares supunham ser guerrilheiros. E para completar este quadro tão macabro, muitos e muitos prisioneiros, nesta casa foram assassinados”.

Como escritora, Ana Isabel já lançou Malva: Um Meio-Sorriso e um Certo Olhar (1995), Heloísa: A do Povo de Vicente (2014), Carmela: Uma História de Amor (2017) e Maria Mar: Estrela das Ideias e do Amor (2023).

 

“O MUNDO ESTRANHO DOS CANGACEIROS”

Numa descrição poética do árido do sertão nordestino, o professor e escritor Estácio Luiz Valente de Lima, em seu livro “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”, coloca estes personagens como produto das agressões mesológicas, do solo castigado pelas estiagens das secas repetidas, mas não descarta outros fatores que contribuíram para o surgimento do cangaço, como a injustiça social.

No capítulo de abertura sobre “O Meio”, ele diz que “o clima, no império dos bandoleiros, é um clima áspero, esse mesmo que prossegue desafiando a técnica e a inércia dos nossos governos e diante do qual falazes têm sido todas as ajudas internacionais”.

Sua linguagem é dura como o chão rachado pelo sol inclemente que deixa o sertanejo endurecido e o transforma, muitas vezes, numa alma cruel, ao ponto de perder as esperanças em determinados momentos da vida.

Com sua visão da poligenia nordestina, com sua multiplicidade de raças, o médico, odontólogo e presidente do Conselho Penitenciário da Bahia, no final dos anos 30, Estácio de Lima penetra fundo no psicológico do cangaceiro ao ponto de se colocar como advogado em defesa da sua regeneração.

Na prática, como presidente do Conselho, Estácio controlou a vida de muitos cangaceiros presos que pertenceram ao bando de Lampião, depois da sua morte, em 1938. A prefaciadora da sua obra, professora Maria Thereza Pacheco, relata que o mestre acompanhava seus afazeres e mantinha permanente contato com eles.

Muitos foram trabalhar em hospitais de Salvador, na condição de vigias. O lugar-tenente de Lampião, o Ângelo Roque, conhecido como Labareda, tornou-se porteiro do Conselho Penitenciário, no Fórum Ruy Barbosa. Outros também exerceram a mesma função no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, como o Benício, chamado de Saracura.

A professora conta que Estácio encontrou dificuldades para indultar o cangaceiro Antônio dos Santos, vulgo “Volta Seca”, que entrou no grupo ainda criança, e entre os 14 e 15 anos, obedecendo ordens do capitão, executou três soldados que estavam montando guarda na cadeia de Queimadas (Bahia). Foi capturado depois pela polícia e condenado a cem anos de prisão.

Após 20 anos de pena, mesmo tendo tentado evadir-se da cadeia, Estácio de Lima defendeu a sua liberdade, se colocando como responsável. Além de “Volta Seca”, o presidente do Conselho, após estudos minuciosos sobre os condenados, escreveu ao presidente da República, Eurico Gaspar Dutra, solicitando o livramento condicional.

Mesmo temeroso, o presidente aceitou o pedido, mas colocou sobre os ombros do mestre toda capacidade de responder pelos atos dos cangaceiros então em liberdade. De acordo com a professora Thereza, na época, o fato foi noticiado com muita admiração ao mestre em todo Brasil.

Ela escreveu no prefácio que Estácio foi um pioneiro no estudo multifário do cangaceirismo no Brasil. Cita que o autor do livro faz uma interessante síntese associativa entre os italianos que se rebelaram em grupos a jeito dos rebeldes como os homens do cangaço nordestino, estudando a personalidade e o meio em que viveram.

Em sua obra, Estácio faz também uma comparação com os gângsteres, os homens do faroeste, concluindo que eles não dariam jamais o cangaceiro. “O meio tem sua influência maior”. Sobre a lei para o sertanejo e o nordestino, o médico afirma que “o mais forte prosseguia, com as garantias do seu poder, e os fracos, pobres e desamparados, defender-se-iam como pudessem”!

“A primeira atitude humana contra as ações nocivas do agressor trazia um aspecto negativo, tão indisciplinado nas cavernas, quanto nas catingas. O revide, a pouco e pouco, é que foi perdendo o caráter das ações arbitrárias, individuais, para tornar-se coletivo, num esboço de legalidade”- destaca o autor.

Em sua opinião, o elemento telúrico explica, em parte, o cangaceiro brutal e cruel como a seca. O cangaceiro, segundo Estácio, “possui assim, aquelas características do homem das cavernas…”





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