julho 2022
D S T Q Q S S
 12
3456789
10111213141516
17181920212223
24252627282930
31  

:: ‘Encontro Com os Livros’

AS TORTURAS CONTRA OS ESCRAVOS

Castigar, segundo a ideologia da violência no Brasil escravista “era uma eficiente forma de controle social, destinada a servir de exemplo aos demais cativos. Por isso, muitas sessões de açoite eram executadas em praça pública, com o escravo amarrado no pelourinho, o símbolo do poder régio nas vilas do Brasil colonial, como mostram os famosos quadros e ilustrações de Jean-Batiste Debret e Johann Mortz Rugendas do começo do século XIX”.

A descrição é do jornalista e escritor Laurentino Gomes na segunda trilogia das obras “Escravidão”, no capítulo intitulado ”A Violência”. Mais adiante ele diz que no imaginário escravista, o castigo, além do seu caráter educativo e pedagógico, era também uma maneira de disciplinar e organizar a força de trabalho cativa.

Por isso, de acordo com Laurentino, após as sessões de açoite, aplicavam-se sobre as feridas misturas consideradas cicatrizantes, como salmoura (uma combinação de água morna com sal), suco de limão, vinagre, pó de carvão moído ou mesmo urina. Muitas vezes, o feitor picava a carne do escravo com uma navalha, para aplicar as misturas, conforme relatam historiadores da época.

Descreve ainda o autor que nas chamadas casas de correção, caso do prédio conhecido até hoje como Calabouço, no Rio de Janeiro, havia espaços especialmente destinados ao castigo dos escravos que para lá eram mandados a fim de serem punidos por desobediência ou falhas pequenas.

Era, na verdade, torturas institucionalizadas pelo Estado, e o fazendeiro pagava uma quantia para ter seu cativo castigado, muitas vezes com até 200 e 300 chibatadas. “No livro caixa eram anotados os custos dos serviços judiciais, que incluíam o açoite e a permanência do escravo no local, e que depois seriam reembolsados pelo seu dono”.

Era impressionante a lista dos instrumentos utilizados nas torturas. O historiador Arthur Ramos classificou em três categorias, como os de captura e contenção, os de suplício e os de aviltamento. “Para prender os escravos, eram usadas correntes de ferro, gargalheiras (que se prendiam ao pescoço), algemas, machos e peias para os pés e as mãos, além do tronco, que era um pedaço de madeira dividido em duas metades com buracos nos quais se introduziam a cabeça, os pés e as mãos dos cativos. A máscara de folhas de flandres servia para impedir o escravo de comer cana, rapadura, terra ou engolir pedras de diamante e pepitas de ouro”.

“Os fugitivos eram marcados com ferro em brasa com a letra F no rosto ou nas costas ou obrigados a usar o libambo, uma argola de ferro que lhes era presa ao pescoço, com uma haste apontada para cima, às vezes equiparada com chocalhos, para denunciar os movimentos do escravo”.

Destaca Laurentino que, em 1692, o padre jesuíta Barnabé Soares escreveu um regimento para regular a vida no engenho Pitanga, na Bahia, no qual se previa pena de até 24 açoites para crimes comuns cometidos por cativos. Dizia ele que, para trazer bem domados e disciplinados os escravos, é necessário que o senhor não lhes falte com o castigo, quando eles se demandam e fazem por onde o merecerem.

O jesuíta Jorge Benci também salientava que não é crueldade castigar os servos, quando merecem por seus delitos ser castigados, mas antes é uma das sete obras da misericórdia que mandam castigar os que erram. Existiam leis régias que mandavam punir os fazendeiros que exagerassem nos castigos, muitas vezes até com mortes, mas essas normas não eram obedecidas. O braço da justiça não alcançava os longínquos sertões do Brasil.

“Os holandeses, que ocuparam parte do Nordeste, entre 1624 a 1654, seguiam as mesmas fórmulas de castigos. Quem quiser tirar proveito de seus negros, há de mantê-los, fazê-los trabalhar bem e surrá-los melhor; sem isso não se consegue serviço, nem vantagem alguma, recomendava Johannes de Laet, diretor da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais.

Os religiosos aconselhavam que os castigos fossem ministrados com prudência. Jorge Benci, por exemplo, indicava que o número de açoites nunca ultrapassasse quarenta por dia, de modo a não mutilar o escravo e nem incapacitar para o trabalho. No entanto, segundo Laurentino, no século XVIII, havia notícias de sessões de duzentas e até quatrocentas chibatadas.

Um dos maiores torturadores da época foi o mestre de campo Garcia D´Ávila Pereira Aragão, da ilustre Casa da Torre, na Bahia, pelas heresias que fez aos seus escravos. Contam que Garcia “colocava ventosas com algodão e fogo nas partes pudentes das escravas. Uma delas, surpreendida enquanto dormia fora de hora, teve uma vela acesa inserida pelas suas partes venéreas. Certa vez, usara uma torquês de sapateiro para arrancar de uma só vez chumaços de cabelos de uma mulher. A um menino ele deitava e pingava dentro da via (o ânus) cera derretida. Um escravo fora açoitado por três horas seguidas e, depois, pendurado pelos pulsos, por mais duas horas, com um peso enorme atado aos testículos e torniquetes presos aos dedos dos pés”.

 

OS PARDOS, OS CRIOULOS E OS MULATOS

A própria discriminação racial adotada pelos conquistadores (portugueses, ingleses, espanhóis e franceses, principalmente) serviu para introduzir rivalidades entre os próprios negros escravizados a partir das cores da pele entre “pardos”, “mulatos” e “crioulos”.

Essa situação constrangedora ficou bem explícita na trilogia “Escravidão”, escrita pelo jornalista Laurentino Gomes no capítulo que fala sobre “Áfricas Brasileiras”. Isso deu, inclusive, na criação das irmandades, todas com nomes de santos e Nossa Senhora (a Virgem Maria), bastante difundidas na Bahia, Pernambuco, Maranhão e Rio de Janeiro.

“No século XVIII, por exemplo, havia no Rio de Janeiro, o segmento dos “pardos”, pessoas afrodescendentes mais bem posicionados socialmente, organizados em confrarias religiosas de grande prestígio, que procuravam se distanciar dos negros, em especial os recém-chegados da África, e se aproximar dos brancos, dos libertos ou mesmo dos escravos “crioulos”, ou seja, nascidos no Brasil”.

Segundo Laurentino, a expressão “pardo” (classificação até hoje feita pelo IBGE), teve diferentes significados no Brasil colonial. No século XVII era usado em São Paulo para designar indígenas escravizados ilegalmente. Nas regiões produtoras de açúcar do Nordeste, era sinônimo de “mulato”, descendente de brancos e negros. Em Minas Gerais equivalia a escravo alforriado ou homem liberto nascido no Brasil.

“Os “pardos” não escravos no Rio de Janeiro eram também chamados de “mulatos de capote” e gozavam de importância social superior aos negros e cativos, entre outras razões por se vestirem como os europeus. Muitos deles eram ourives, profissão de grande valor na época da corrida do ouro no Brasil”.

Foram os ourives os organizadores da primeira irmandade de padres do Rio de Janeiro em meados do século XVII, sob a proteção de São Brás e os auspícios do Mosteiro Beneditino. Nas décadas seguintes criaram mais três irmandades, a de Nossa Senhora do Amparo, Nossa Senhora da Boa Morte e Nossa Senhora da Conceição.

O autor da trilogia destaca que todo escravo descendente de homem branco era chamado de “pardo”. Assim como todo negro nascido livre, fosse negro ou não. “Havia filhos de africanos negros que eram registrados como “pardos”.

“Portanto, chamar alguém de “pardo” era o registro de uma diferenciação na hierarquia da sociedade colonial, assim como “crioulo” designava escravos negros nascidos no Brasil, enquanto “preto” se referia aos africanos”.

De acordo com Laurentino, “nas irmandades religiosas do Rio de Janeiro, dava-se preferência ao uso do termo “pardo” em detrimento de “mulato”, qualificativo, conforme observam alguns historiadores, associado a atributos como preguiça, desonestidade, astúcia, arrogância e falta de credibilidade, em resumo, moralmente inferior”.

O escritor Laurentino cita o professor Luiz dos Santos Vilhena que afirmava que “quase todos os mulatos ricos querem ser fidalgos, muito fofos e soberbos, e pouco amigo dos brancos e dos negros, sendo diferentes as causas”. O jesuíta padre André João Antonil dizia que os mulatos são soberbos e viçosos…

Esses conceitos refletiam-se no universo da escravidão, e entre os próprios negros e mestiços, cativos ou libertos – um dos estigmas mais profundos e antigos da cultura portuguesa, o da “impureza” de sangue. As leis canônicas exigiam que candidatos a determinadas funções públicas, títulos ou cargos honoríficos, fossem submetidos a uma demorada e detalhada investigação para comprovar que tinham “sangue limpo”.

OS REINOS DE DAOMÉ E OIÓ

No segundo volume da trilogia “Escravidão”, o autor jornalista e escritor Laurentino Gomes conta a história do rei Agaja, de Daomé que, com seus exércitos de guerreiros, invadiu, em 1727, Aladá, pertencente ao soberano Huffon que fugiu às pressas para uma ilha.

As tropas do Daomé tomaram o palácio e, em seguida dirigiram-se ao templo de Dangbe, onde as serpentes pítons eram cultuadas como divindades pelos huedas, designação do povo habitante do reino de Ajudá.

O saldo da ofensiva foi trágico. Dez mil pessoas foram escravizadas. Todos os fortes e entrepostos europeus existentes na região foram saqueados.

O capitão britânico William Snelgrave, que ancorou seu navio em Aladá (capital de um reino do mesmo nome vizinho de Ajudá), ficou horrorizado com a quantidade de moscas, todas atraídas pelas cabeças em decomposição de quatro mil guerreiros huedas sacrificados por Agaja em sinal de júbilo pela vitória em Ajudá.

Antes de Aladá, maior fornecedor de cativos na região, Agaja havia devastado dois reinos. Segundo relatos, ao fim dos combates, o rei capturou oito mil guerreiros que se tornaram cativos. De acordo com o historiador inglês Robin Law, “a guerra era a própria razão da existência do Daomé”.

No entanto, como descreve Laurentino em sua obra, o Daomé estava longe de dominar sozinho o tráfico de escravos na Costa da Mina (Golfo de Benin e região da Nigéria). Agaja e seus sucessores eram vulneráveis aos ataques de um reino ainda mais forte que o seu, o de Oió, situado a noroeste, no interior do continente, no território da atual Nigéria.

Os guerreiros de Oió eram exímios cavaleiros que, partindo do interior, conseguiam chegar ao litoral na época das secas. No tempo das chuvas, o charco impedia o avanço dos animais. Entre 1726/27, Oió destruiu vários vilarejos no campo do Daomé.

Em 1730, Agaja foi obrigado a fechar um acordo pelo qual concordava em pagar tributos e permitir que as caravanas de escravos dos adversários cruzassem seus territórios.

Laurentino narra que Daomé e Oió se tornaram tão eficientes no negócio negreiro que essa região logo se transformou na segunda maior fornecedora de cativos para a América, atrás apenas de Angola e Congo.

A demanda dos europeus (Portugal, Espanha, França, Inglaterra e o Brasil, na América do Sul) por escravos era grande no século XVIII. Os reinos de Daomé e Oió não tinham condições de suprir toda procura. Foi então que os reis passaram a promover novas guerras contra os vizinhos, com o objetivo de vender prisioneiros aos traficantes. “O comércio de escravos dependia essencialmente da violência” – escreveu Robin Law.

Como consequência dessas razias, foram embarcados para o Brasil milhares de negros escravizados falantes de línguas jejes (hulas, huedas, aves, adjas, aizos, mahis e outras etnias). Juntos vieram também falantes de línguas iorubás( egbas, egbados, saves e anagôs), povos que viviam sob a influência do reino de Oió.

Essas nações se concentraram na Bahia que são os jejes e os iorubás, identificados como nagôs, que forneceram o modelo organizacional de formas rituais e de associativismo religioso que resultaram no candomblé na Bahia, no xangó de Pernambuco e no tambor de mina no Maranhão – destacou o historiador Luis Nicolau Parés.

Para Laurentino, deve-se aos africanos escravizados dessa região a principal influência no desenvolvimento de religiões de matriz africana no Brasil.

CINCO MILHÕES DE ESCRAVIZADOS

Antes de Cabral chegar ao Brasil, Portugal já explorava a costa africana e começou a traficar cativos no final do século XV. Segundo o banco de dados Slavevoyages.org, no primeiro século da colonização, da chegada da esquadra de Cabral à Bahia até 1600, entraram na América Portuguesa cerca de 30 mil africanos escravizados.

“O número teria sido multiplicado 26 vezes, para aproximadamente 784 mil, entre 1600 a 1700, em razão, principalmente, dos cultivos das lavouras de cana-de-açúcar no Nordeste brasileiro. No século seguinte, cresceria mais duas vezes e meia, chegando perto de dois milhões num espaço de apenas cem anos.

Outros dois milhões viriam até a metade do século XIX, no auge da cultura do café no Vale do Paraíba e na região oeste de São Paulo, transformando o Brasil no maior território escravista do Hemisfério Ocidental, responsável pela importação de 4,9 milhões de africanos”. Estima-se que todas as Américas importaram cerca de 12 milhões de escravos.

Um levantamento realizado em Salvador, em 1775, registrou 35.253 habitantes, dos quais 42% eram escravos. Brancos somavam 36%, enquanto negros e mulatos livres totalizavam 22%. Em 1798, a população do Brasil era estimada em 3,25 milhões de pessoas, sem incluir os indígenas “bravios”, ou seja, não incorporados à civilização colonial portuguesa. Quase 50% eram escravos. Nas regiões mineradoras e produtoras de açúcar, a proporção chegava a 70% ou mais”.

Todas essas informações e muito mais, podem ser encontradas nos três volumes dos livros do jornalista e escritor Laurentino Gomes, intitulados “Escravidão”.  Diz mais ainda que, entre 1751 e 1842, cerca de 100 mil africanos desembarcaram no porto de São Luis do Maranhão. Quase a metade disso, 49 mil, foi redirecionada para o Pará. O último desembarque de navio negreiro na Amazônia ocorreu em 1846, quatro anos antes da abolição do tráfico de escravos para o Brasil, estabelecida pela Lei Eusébio de Queirós, de 1850.

Na compra dos escravos, os capitães dos navios e os empresários traficantes pagavam com conchas cauris, das Ilhas Maldivas, o zimbo, da Ilha de Luanda, e diversas mercadorias e objetos, como açúcar, algodão, carne seca, madeira, redes de pesca, macacos, pássaros e cachaça do Brasil.

A escravidão no Brasil registrou seu maior auge no século XVIII, principalmente por causa da corrida do ouro. Com isso, segundo Laurentino, os europeus estimulavam as guerras, fornecendo armas, munições, cavalos, armaduras e até treinamento militar aos seus aliados africanos. Com as guerras entre as etnias, aumentava consideravelmente o número de prisioneiros cativos.  Os preços por cada cativo foram absurdamente inflacionados

Os portugueses, holandeses, franceses e outros europeus não adentravam ao interior do continente porque era perigoso. Os navios ficavam no litoral esperando as caravanas de escravizados trazidos pelos chefes dos reinos que governavam cada estado.

Em Angola, eram chamadas de “guerras pretas”, expedições punitivas promovidas pelas autoridades coloniais portuguesas com o pretexto para elevar o número de cativos em oferta nas regiões costeiras. A Inglaterra era um dos maiores exportadores de armas para criar conflitos entre os reinos.

“ANTÔNIA ONÇA E O MESTRE EM AMANSAR BRANCOS”

TRAJETÓRIAS E SABERES INDÍGENAS E AFRICANOS NO SERTÃO DA BAHIA

Esta semana foi profícua no lançamento de livros em Vitória da Conquista. Na quarta-feira (dia 18/05), o historiador Washington Nascimento, como organizador, lançou na área do Proler, do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, a obra “Antônia Onça e o Mestre em Amansar Brancos”. Na quinta (dia 19/05), na Livraria Nobel, o ex-deputado Aldo Arantes, como prefaciador, apresentou a biografia do baiano de Caetité, Haroldo Lima, também ex-deputado federal do PC do B e que fez parte das lutas contra a ditadura civil-militar de 1964.

Quanto ao primeiro lançamento, a professora Marisa de Santana, da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), comenta que nesta obra se aliam história e antropologia, quando se busca pensar que, para além dos documentos, são importantes os dados orais”.

Por meio de entrevistas, os textos contam histórias culturais dos indígenas do centro-sul baiano e como elas se entrelaçam com as dos povos africanos. Como descreve a sinopse na contracapa, o livro percorre as histórias e lutas dos Maraká, Kariri-Sapuyá, Kamakã, Paneleiro, Botocudo… e o encontro de suas trajetórias e saberes com as populações africanas e negras, sobretudo no que se refere às práticas de cura e ao segredo de matriz indígena e africana, presentes nas umbandas e candomblés da região.

Washington, nascido em Jequi-Bahia, foi graduado em história pela Uesb; fez mestrado em Antropologia pela PUC-SP e doutorado em História Social pela USP. Atualmente é professor na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Participou com artigos acadêmicos do livro “Intelectuais das Áfricas” e é também autor de outras obras que falam das questões africanas e indígenas.

Como organizador da “Biografia Haroldo Lima”, esteve em Conquista o ex-deputado Aldo Arantes para o lançamento da obra publicada pela Assembleia Legislativa da Bahia. Aldo também foi ex-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), em 1961, e esteve à frente das lutas políticas contra o regime militar no Brasil.

O evento foi realizado na Livraria Nobel, na noite de quinta-feira (dia 19/05) e contou com as presenças do deputado estadual pelo PCdoB, Jean Fabrício, ex-deputado federal Elquison Soares, do vereador Chico Estrela, do advogado Ruy Medeiros, Elias Dourado, professores da Uesb, intelectuais e estudantes.

Conforme o prefaciador da obra, Aldo Arantes, na verdade, “Biografia Haroldo Lima” é praticamente uma autobiografia da vida do político que narra sua trajetória de vida desde estudante, ativista político durante a ditadura civil-militar, sua prisão e torturas sofridas durante a ditadura, sua participação nos movimentos pela redemocratização do país e como presidente da Agência Nacional do Petróleo nos governos do PT.

CURIOSIDADES DO TRÁFEGO NEGREIRO (XX)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

A ESCRAVIDÃO, A IGREJA E A LEI ÁUREA

Treze de maio é o Dia da Lei Áurea e, sobre a data, a maioria dos movimentos negros não reconhece. Prefere homenagear Zumbi dos Palmares no 20 de novembro, Dia da Consciência Negra. Alega que a princesa Isabel só fez assinar um documento e nada em termos de reparação dos danos de 350 anos de escravidão, o que, em parte, é uma verdade. No entanto, ela bem que tentou, mas D. Pedro II sempre foi pressionado pelas oligarquias da cafeicultura e outros setores da economia que se posicionaram contra qualquer tido de indenização. As elites nunca aceitaram repartir e distribuir.

O jornalista e escritor Laurentino Gomes fala muito dessa questão em sua obra “ESCRAVIDÃO” em três volumes. No primeiro, em um trecho do seu livro ele tece comentários sobre a Igreja Católica, a qual sempre tomou partido favorável à escravidão e, em algumas vezes, seu posicionamento quanto ao tema era dúbio.

“Só em 1888, às vésperas da assinatura da Lei Áurea, o papa Leão XIII condenou a prática de forma inequívoca. São inúmeros os exemplos da íntima associação que, a partir dessas bulas papais, se estabeleceu entre Igreja, o tráfico de escravos e o Reino de Portugal. Em 1482, ao final da construção do Castelo de São Jorge da Mina, atualmente Gana, destinado ao comércio de cativos, o papa Sisto IV concedeu indulgência plenária a todos os cristões que ali falecessem a serviço da coroa portuguesa”.

Laurentino comenta mais na frente que, o simples fato de morrer no castelo do tráfico negreiro lhes garantia o total perdão dos pecados e a garantia da vida eterna. Descreve o autor que na África, as instituições religiosas possuíam e comercializavam escravos com a mesma naturalidade de qualquer outra empresa ou associação dedicada ao tráfico. Em Angola, por exemplo, os jesuítas tinham, em 1558, mais de 10 mil escravos trabalhando em seus quinhentos sítios e fazendas, de acordo com o relatório do governador João Fernandes Vieira enviado à coroa portuguesa.

Segundo o historiador Roquinaldo Ferreira, no começo do século XVII, a Companhia de Jesus era a maior proprietária de escravos de Angola. Da mesma forma, instituições religiosas ganhavam muito dinheiro vendendo escravos para o Brasil. Um outro resíduo da trágica história da Igreja relacionada à escravidão africana é o preconceito racial. Conforme a historiadora Larissa Viana, a Ordem dos Carmelitas Descalços Teresianos, estabelecida em Olinda, em 1686, manteve a mais rigorosa e persistente contra pessoas de alguma descendência africana, mesmo que longínquo.

Como pregava o padre Antônio Vieira, os pardos eram quase sempre malcriados e foram banidos do colégio porque as famílias brancas não toleravam ver seus filhos ao lado de pessoas de vil e obscura origem, de costumes corrompidos e com audaciosa soberba. Acrescentava que por esta razão, nesta costa do Brasil, já lhes está totalmente fechado o ingresso ao sacerdócio e aos claustros religiosos e a qualquer função governativa.

De acordo com o autor das obras “Escravidão”, “a pureza de sangue do seminarista tinha de ser provado por meio de inquérito judicial para apurar se pais e avós de ambos os lados estavam isentos das tais máculas raciais, ou “sangue defeituoso”, e aí estavam também incluídos os judeus. Os estatutos da Ordem Terceira de São Francisco, de Mariana (MG), determinavam que todo candidato à confraria teria de ser de nascimento branco legítimo…”

Não entendo essa quizila toda dos movimentos negros contra a princesa Isabel que sempre foi defensora da abolição e concedeu centenas e milhares de cartas de alforrias. Com a Igreja Católica, existe hoje um sincretismo religioso entre o candomblé e o catolicismo, sem ranços raciais, talvez por consciência pesada pelo que cometeu de maldades no passado.

Contra a Igreja não existe essa renegação, como contra o 13 de maio. Na época, final do século XIX, o próprio Ruy Barbosa, ministro da Fazenda, por pressão dos fazendeiros e empresários em geral, mandou para a fogueira vários documentos para evitar pedidos de indenização por parte dos escravos, que nunca receberam seus direitos por trabalharem séculos debaixo da chibata. A escravidão no Brasil, na verdade, não acabou, e está aí mais que visível nos fatos do dia a dia, principalmente com a reforma trabalhistas, que está mais para reforma escravista.

 

A NOSSA LÍNGUA PORTUGUESA, SEUS GRANDES ESCRITORES E POETAS IMORTAIS

A última flor do Lácio, descendente do latim, cortou séculos de mudanças e evoluções com seus dialetos e expressões em cada território; sofreu e ainda sofre misturas de outros idiomas, principalmente do inglês no Brasil, mas tem mantido régua e compasso em sua essência, suas raízes e sua árvore genealógica, imortal como o Baobá africano.

Foi comemorado nesta quinta-feira (05/05) o Dia Mundial da Língua Portuguesa, infelizmente sem muitos comentários públicos, a não ser fechados em quatro paredes de algumas instituições, academias e agremiações. Será que ainda é o complexo de vira-latas de que tanto falou o dramaturgo brasileiro Nelson Rodrigues?

Com cerca de 300 milhões de habitantes, dentre os que falam a língua portuguesa estão Portugal, o colonizador, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Cabo Verde, Timor Leste e Macau, na Ásia. Devido a opressão do conquistador, os africanos conseguiram suas independências somente nas décadas de 60 e 70.

Em 1996 foi criada a Comunidade de Países da Língua Portuguesa, para tratar, entre outros assuntos políticos e econômicos, sobre a uniformização da língua, quando foi instituída a Nova Ortografia, que não encontrou o respaldo de todos. Uma marca desses países são as ditaduras violentas que atrasaram seus desenvolvimentos e oprimiram milhões.

A quase totalidade dessas nações ainda está na classificação de subdesenvolvidos ou emergentes, sendo diariamente triturados pela globalização do sistema capitalistas perverso. Neles habitam a maior parte da pobreza mundial, excluídos de seus direitos universais básicos, como alimentação, justiça, liberdade, educação, moradia, saneamento e saúde para todos.

No Brasil de mais de 200 milhões de almas, vive-se hoje uma profunda crise de retrocesso em todos os setores, especialmente no âmbito das ideias, voltadas para a época da Idade Média, com suas discriminações e preconceitos. Na verdade, nosso país vem sofrendo um processo de destruição interna, inclusive da sua língua.

Sobre o emprego dessa nossa língua, sua gramática tem sido maltratada diante da baixa qualificação educacional de nossas escolas, sem contar a intervenção das redes sociais da internet com o uso codificado de suas palavras. Outro fator desastroso tem sido a invasão de idiomas estrangeiros em nossa língua, especialmente o inglês, numa mistura danosa de termos, como uma faca afiada que sangra aos poucos suas normas e regras.

No comércio em geral e nos shoppings, as lojas exibem placas, faixas, cartazes e letreiros em inglês que nos faz parecer que estamos nos Estados Unidos ou na Inglaterra. A maioria inculta nada entende, mas adquire camisetas e calças com frases em inglês, e saem por aí felizes da vida exibindo seus troféus.

Na mídia, nas propagandas, nas páginas de economia, em matérias jornalísticas e nos anúncios de reuniões, seminários e congressos, o que mais se ler são palavras, como hatera, cyberbilling, business, happy hour, webnario, workshop, commodities, website, compliance, Food Park Salvador, trolls, drive trhow e tantas outras que infestam nosso português.

Na data do Dia Mundial da Língua Portuguesa só temos mesmo que prestar uma eterna homenagem aos nossos imortais escritores e poetas, verdadeiros artistas das palavras, como Luiz de Camões, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Saramago e tantos outros portugueses.

Nos resta ainda homenagear os africanos Mia Couto, Pepetela, Amílcar Cabral, Vanhenga Xitu e os nossos brasileiros José de Alencar, Machado de Assis, José Lins do Rego, Câmara Cascudo, Ariano Suassuna, Graciliano Ramos, Jorge Amado, João Ubaldo Ribeiro, Euclides da Cunha, Gilberto Freire, Afrânio Peixoto, João Cabral de Melo Neto, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Olavo Bilac, Guilherme de Almeida, Castro Alves, Álvaro de Azevedo, Lima Barreto, Luiz Gama e outros milhares que fizeram do nosso português a morada do nosso saber.

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (IX)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

A IGREJA E A ESCRAVIDÃO

Em “A Cruz e o Chicote”, ainda com relação a Igreja, o autor diz que “até o final do século XIX, com raras opiniões isoladas, a instituição nunca se pronunciou oficialmente e de forma inequívoca contra a escravidão”.

Prosseguindo, acrescentou que Ela reconhecia que os cativos tinham uma alma imortal que devia ser salva mediante a administração dos sacramentos, mas bispos, padres e ordens religiosas eram donos de escravos e participavam ativamente do comércio negreiro.

Os padres, inclusive Manuel da Nóbrega, diziam que o conforto dos missionários dependia do trabalho dos escravos. Sobre os livros e ensaios escritos por jesuítas, o historiador Ronaldo Vainfas os denominou de moral cristã da escravidão e de projeto escravista dos religiosos.

Um desses autores citado por Laurentino é o italiano Jorge Benci, que exerceu diversas funções no colégio da Ordem da Bahia. No livro “Economia Cristã dos Senhores no Governo dos Escravos”, Benci não questionava, nem condenava a prática escravista.

Para o italiano, o cativeiro era parte e consequência da natureza decaída do ser humano, um dos efeitos do pecado original de nossos primeiros pais, Adão e Eva, donde se originaram todos os nossos males. De acordo com ele, o pecado foi o que abriu as portas por onde entrou o cativeiro.

Benci afirmava que a maldição de Noé lançada sobre Canaã, primogênito do seu filho Cam, transformava todos africanos – segundo a tradição, descendentes dessa linhagem bíblica – em candidatos naturais ao cativeiro.

Em seu entender, a primeira e a mais importante obrigação do senhor de escravos era alimentar a alma de seus servos com a Doutrina Cristã. A segunda, impedir que os escravos permanecessem no ócio, conforme ele, a fonte de todos os males. O dever do senhor era, portanto, botar os escravos para trabalhar, o mais rapidamente possível, “pois os negros estariam mais inclinados ao vício do que os brancos”.

Outra obrigação do senhor, dizia Benci, era dar ao escravo o castigo, para que não se costume a errar. Isso, para ele, era uma obra de misericórdia. Segundo Laurentino, o envolvimento da Igreja com a escravidão era antigo, bem anterior ao tráfico de africanos para América.

A expulsão dos mouros da Península Ibérica, no século XV, afirmava o autor da obra “Escravidão”, inundou a região do Mediterrâneo de cativos muçulmanos capturados pelos cristãos. Cerca de 10 mil foram escravizados na queda de Málaga, em 1487.

Esses escravos eram usados nos trabalhos mais árduos e perigosos, como as venenosas minas de mercúrio de Almadém, na Espanha, e as pedreiras do sul da Itália. “Entre os séculos XV e XVI, seguidas bulas papais deram a justificativa religiosa e o respaldo político de que os portugueses precisavam para conquistar novos territórios na África e escravizar seus habitantes”.

Em 1452, o papa Nicolau V autorizava o rei de Portugal a atacar, conquistar e subjugar os mouros sarracenos, pagãos e outros inimigos de Cristo, capturar seus bens e territórios, escravizá-los e transferir suas terras para a coroa portuguesa de forma perpétua.

O LIVRO É COMO A NASCENTE DE UM RIO QUE SE TRANSFORMA EM VIDA

DIA MUNDIAL DO LIVRO (23 DE ABRIL): UMA HOMENAGEM A TODOS ESCRITORES

Para dizer a verdade, meus primeiros contatos com a leitura foram através dos gibis, mais por influência dos coleguinhas de rua pelo encantamento nas histórias de faroeste dos personagens-heróis norte-americanos de Zorro, Buffalo Bill, Billy Kid, Django e tantos outros que até me faziam esquecer os deveres escolares.

Claro que naquela época não tinha consciência formada sobre a importância do livro na vida de uma pessoa. Era também uma forma de enganar o meu pai que me colocara para estudar em Piritiba. Como ele era analfabeto, mas queria que eu frequentasse a escola, achava que eu era um estudioso aplicado quando me via grudado com os gibis.

Essa é uma outra história, mas foi a partir dali que mais tarde, no Seminário de Amargosa, peguei o gosto pela leitura do livro, na minha concepção, uma nascente de olho d´água, que em sua corredeira se transforma em riacho da vida, para depois desaguar no mar como rio. A minha singular narrativa é uma maneira simples que tenho para homenagear o Dia Mundial do Livro neste 23 de abril.

Pegando o gancho do jornalista e escritor Laurentino Gomes sobre os vocábulos que sempre estão se evoluindo no tempo, diria que os livros são como rios caudalosos que correm para os oceanos da evolução humana. Não importa aqui se eles são impressos ou virtuais. O que interessa é que o livro é cultura e vida que alimenta a nossa alma e afasta os maus espíritos.

O contador de histórias, mesmo que ele não saiba ler, é também um livro porque ele utiliza da sua oralidade para manter a tradição e os costumes da sua ancestralidade. Nesta data, pelo menos temos alguma coisa com que nos alegrarmos nesse conturbado governo de negacionistas e terraplanistas, que censuram autores e até queimam exemplares, por considerar que não seguem suas linhas retrógradas, fanáticas e psicopatas de pensamento.

Por incrível que pareça, as vendas de livros nos últimos dois anos têm dado sinais de aumento nas livrarias, o que significa que as mentes estão se abrindo para os livros, inclusive das crianças e dos mais jovens. Se esse nível de demanda permanecer, dentro de mais alguns anos vamos ter uma nação mais culta e, consequentemente, mais conhecedora de seus deveres e direitos, bem como, defensora das liberdades. Resumindo: Mais esclarecida que a de hoje. É uma luz que surge no final do túnel.

Estava contando minha trajetória na leitura, mas tive que interromper para lembrar esta data tão especial em todo ser humano que se dedica à leitura. Bem, no Seminário fui influenciado pelos colegas e pelo bom conteúdo e qualidade do ensino da instituição que despertava em nós a necessidade de ler para aprender mais e mais. Apenas havia um detalhe, o de que existia uma “proibição” para os menores de idade ler determinados escritores, vistos pelos padres como de linguagem pornográfica. Nos diziam que eram inadequados para o tempo.

Isso fazia despertar a curiosidade e, entre amigos, liamos escondidos os livros “Menino de Engenho”, de José Lins do Rego, “Iracema”, de José de Alencar e outros autores como Eça de Queiroz e até alguns de Machado de Assis e Graciliano Ramos. Comecei por eles e segui com outros internacionais não recomendados pela direção do Seminário.

Nessa época, ainda na década de 60, quando existia uma grande efervescência cultural, onde os escritores e autores eram discutidos em rodas de amigos e em mesa de bar (cada um tinha o seu favorito, como se fosse um time), conheci um colega que só andava com um livro debaixo do braço, e até nos arvorarmos em criticar por achar que aquilo já era exagero demais.

Hoje, com essa idade, posso dizer, sem sombra de dúvidas, que a leitura me deu régua e compasso. Abriu mais meus horizontes e me ensinou a empregar melhor as palavras no papel, na máquina datilográfica (maior parte quando estive na ativa jornalística) ou na tela desse computador. O pouco conhecimento que tenho, veio dos livros.

Não vou aqui citar, nesta data comemorativa ao livro, os grandes escritores da humanidade, dentre os quais centenas de brasileiros que são conhecidos até internacionalmente, embora nossa país ainda não tenha sido merecedor de um Prêmio Nobel de Literatura, como nossos vizinhos da Argentina, Chile, Colômbia, Peru, Uruguai e México.

No entanto, temos grandes talentos, inclusive aqui em Vitória da Conquista e na região. Apenas confesso meu pesar e tristeza de que a arte de escrever não tem recebido o devido apoio, especialmente do poder público. Passou do tempo de pelo menos realizarmos uma feira literária em Conquista. Um bom gesto de abraçar o Dia Mundial do Livro.

Ao tempo em que nos felicitamos com a volta da leitura, também nos entristecemos ao testemunhar o maltratar da nossa língua mãe, a fina flor do Lácio, com o uso de códigos e grunhidos nas redes sociais, sem falar na substituição do português por termos estrangeirados ou inglesados nas portas das lojas, em placas, panfletos, cartazes, anúncios e até em matérias jornalísticas.

 

CURIOSIDADES DO TRÁFICO NEGREIRO (VIII)

O livro de Laurentino Gomes, “ESCRAVIDÃO” mostra curiosidades do tráfico negreiro, muitas das quais de horror, mas que precisam ser conhecidas por historiadores, estudantes e todos brasileiros sobre o que aconteceu nos quase 350 anos de escravidão no Brasil.

Em prosseguimento aos relatos do autor, vamos destacar alguns deles sobre os sofrimentos dos negros no cativeiro:

No capítulo “Visão do Inferno”, o autor da obra descreve que as caldeiras dos engenhos daquela época ferviam em meio à escuridão da noite brasileira. “As labaredas, frequentemente comparadas ao fogo do inferno, ou à lava incandescente dos vulcões, eram alimentados por escravos – vultos que se movimentavam ao redor de gigantescos tachos de cobre onde borbulhava o caldo de cana a ser depurado para se transformar em açúcar”.

Em sua visão, Laurentino diz que açúcar é sinônimo de escravidão. Quem faz relatos mais macabros ainda é o padre André João Antonil que, em companhia do padre Antônio Vieira, o defensor da escravidão, chegou à Bahia em 1681. Seu livro “Cultura e Opulência do Brasil por suas Dragas e Minas”, foi publicado em Lisboa, em 1711.

Em um trecho do livro, Antonil escreve que, junto à casa da moenda, que chamam casa do engenho, segue-se a casa das fornalhas, bocas verdadeiramente tragadoras de matos, cárcere de fogo e fumo perpétuo e viva imagem dos vulcões Vesúvio e Etna(…)

Prossegue relatando que nos engenhos reais, costumava haver seis fornalhas, e nelas outros tantos escravos assistentes, que chamam metedores de lenha. “O alimento do fogo é a lenha, e só no Brasil, com a imensidão dos matos que tem, podia fartar como fartou por tantos anos, e fartará nos tempos vindouros, a tantas fornalhas, quantas são as que se contam nos engenhos da Bahia, Pernambuco e Rio de Janeiro…”

“Nunca consideramos este tráfico ilícito, Na América, todo escrúpulo é fora de propósito” – Luis Brandão, reitor do colégio jesuíta de Luanda, mas a Igreja produziu um grande santo que foi o padre Pedro Claver, natural de Catalunha, nascido em 26 de junho de 1580. Passou mais de 40 anos de sua vida visitando os navios negreiros que atracavam no porto de Cartagena das Índias, Colômbia. Levava conforto espiritual e material aos cativos.

Os escravos sempre chegavam desidratados e desnutridos, sem condições de se manter em pé. Claver descia aos porões escuros, fétidos, sem ventilação e, durante dias, se dedicava a cuidar dos mais fracos para curar suas feridas, dar comida e agasalhos. Ele fez um voto de ser escravos dos etíopes, aethiopum semper servus. Era nome genérico usado para designar os africanos nessa época. “Pedro Claver é o santo que mais me impressionou depois da própria vida de Cristo” – declarou o papa Leão XIII, ao canonizá-lo em 1888, ano da assinatura da Lei Áurea. Ele hoje é padroeiro da Colômbia.

“Durante cerca de 400 anos, padres, bispos, cardeais e ordens religiosas, não apenas apoiaram como participaram do tráfico de escravos e lucraram com ele” – destacou Laurentino, acrescentando que poucos ergueram suas vozes contra o cativeiro dos africanos.

O começo do século XIX, a Ordem dos Beneditinos tinha mais de mil cativos trabalhando em suas fazendas no Rio de Janeiro e em São Paulo. No Maranhão, os frades do Carmo e das Mercês possuíram escravos até março de 1887.

   O bispo do Congo e Angola recebia um ordenado de 600 mil reis por ano da Coroa Portuguesa, que era pago com direitos de exportação de escravos. O colégio jesuíta de Luanda enviava regularmente cargas de africanos para os colégios de Salvador e Olinda que, por sua vez, os revendia para os senhores de engenhos da Bahia e da Zona da Mata de Pernambuco.

O padre Antônio Vieira atribuía o comércio de escravos a um grande milagre de Nossa Senhora do Rosário porque, segundo ele, tirados da barbárie e do paganismo na África, os cativos teriam a graça de serem salvos pelo catolicismo no Brasil. Não consigo entender essas irmandades de apego a Nossa Senhora do Rosário. Falta de consciência ou conhecimento histórico?

Este é o maior e mais universal milagre de quantos faz cada dia e tem feito por seus devotos a Senhora do Rosário – dizia o padre Vieira em suas homilias para uma irmandade de escravos de um engenho na Bahia, em 1633. No mesmo sermão, afirmava que aos escravos, cabia não apenas aceitar o sofrimento do cativeiro, mas se alegrar com a inestimável oportunidade que tinham de imitar os sofrimentos de Jesus no Calvário. “Em um engenho, sóis imitadores de Cristo Crucificado”.

Até mesmo filósofos e intelectuais respeitados por suas ideias libertárias, caso do britânico John Locke, participaram do tráfico escravo. No caso da Igreja Católica, de acordo com Laurentino, havia uma contradição insolúvel entre suas práticas e os ensinamentos de Jesus Cristo que ela pregava, ou seja, a própria razão da sua existência.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia