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:: ‘Encontro Com os Livros’

VINGANÇA, GLÓRIA E ÓDIO

  Produto do próprio meio, de um Nordeste sem lei, sem justiça e dominado pelos poderosos, Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, durante seus quase 20 anos de cangaço, teve seus momentos de glória, decepções, ódio e vingança contra seus maiores inimigos.

 De certa forma, não no sentido político ideológico, poderia se dizer que Lampião foi um rebelde revolucionário diante da situação de miséria, isolamento na região e abandono dos sertanejos nordestinos. Alguns analistas fazem essa referência à sua pessoa bandida.

  Sua maior expressão de vingança e ódio se deu logo no início da sua trajetória no cangaço, por volta dos 20, quando da morte de seus pais, principalmente do seu genitor José Ferreira, morto a tiros pela tropa do tenente José Lucena, em Alagoas.

Se ele já era um moço violento, a partir dali destilou toda sua raiva para vingar as injustiças praticadas contra sua família, sobrando, inclusive, para pessoas que nada tinham a ver com seu caso particular, a começar pelas desavenças com seu vizinho José Saturnino.

  Foi discípulo do nobre cangaceiro “Sinhô Pereira”; criou seu próprio grupo; e saiu pelo sertão distribuindo crueldade como um temido bandoleiro das Américas. No fundo era um rebelde, não como um revolucionário com ideologia política definida.

 Para sobreviver e manter seu “reinado” de “governador do sertão”, construído pela imprensa, fez alianças e prestou seus serviços aos coronéis, grandes fazendeiros e chefes políticos. Deles exigiu dinheiro e intermediação no tráfico de armamentos para sustentar seus grupos e espalhar o terror.

 Sua maior glória em toda sua vida foi quando, em 4 de março de 1926, entrou triunfalmente em Juazeiro do Norte, no Ceará, com seus 49 cangaceiros e foi recebido a contragosto pelo padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, para integrar aos Batalhões Patrióticos, formados para combater a Coluna Prestes.

  Tudo foi programado pelo deputado Floro Bartolomeu, mas ele não pode receber Lampião porque logo adoeceu e veio a falecer no Rio de Janeiro. Coube ao padre Cícero a responsabilidade de recepcioná-lo. Antes se hospedou com seus homens no Hotel Centenário, em Barbalha, perto de Juazeiro, enquanto forças do exército acampavam na rua.

  Em Juazeiro, o “rei do cangaço” foi recebido por uma multidão de mais de quatro mil pessoas; andou livremente pelas ruas; deu entrevistas à imprensa; e deixou ser fotografado com seus familiares por Lauro Cabral.

No encontro com o padre, foi agraciado com a patente de capitão do exército, dado por Pedro Albuquerque Uchoa, um inspetor agrícola que não tinha nenhum poder para isso. Diante da pressão, Uchoa afirmou que assinaria até a demissão do presidente da República.

   Tudo não passou de um embuste, conforme relata a autora do livro “Lampião – Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmim, só que Virgulino acreditou; vestiu o fardamento do Batalhão Patriótico; e se sentiu como se fosse um interventor do Nordeste.

  Naquele ato, ele achava que seria integrado à sociedade e poderia fazer o que bem entendesse, tanto que partiu para lutar contra Carlos Prestes, cuja coluna já estava na Bahia. Sua ficha só caiu, que tudo não passava de uma armação, quando as forças das Volantes continuaram lhe perseguindo.

   Quando percebeu a trama, Lampião sofreu sua maior decepção em toda sua vida.  Sentiu-se enganado e ludibriado e, então, brotou ainda mais com força sua sede vingança. O ódio aumentou, principalmente contra os governos e os “macacos”. Passou a cometer mais barbaridades, saques contra vilas e propriedades.

Sua violência tirana se voltou contra a construção de estradas de rodagens e vias férreas no final dos anos 20 e início dos 30. Esse progresso prejudicaria suas atividades cangaceiras por causa da maior mobilidade dos soldados.

  Ao se sentir encurralado, Lampião criou seus subgrupos e passou de nômade a sedentário, a partir de 1935, conforme assinala Élise. Entocou-se por dias e meses em esconderijos seguros, para depois sair praticando seus crimes e extorquir os poderosos com pedidos de dinheiro através de suas cartas intimidatórias.

  ORIGEM DO SEU APELIDO

  Existe uma curiosidade com relação ao apelido de Lampião. Os escritores, pesquisadores e historiadores dão várias versões. Élise descreve que “o apelido Lampião teria uma relação com a luz que emana da sua arma quando ele atirava. Para outros, porém, tratava-se muito maios do brilho irradiado por sua pessoa. Lampião, lanterna, candeeiro – é portador de luz para seus companheiros”.

  Na realidade, todos que entravam para o cangaço recebiam um nome de batismo, quer seja de animais, tipo físico, árvore ou fenômenos da natureza. Muitos atribuem ao cangaceiro “Sinhô Pereira”, seu primeiro chefe, o mentor do apelido Lampião.

  O apelido foi dado pelo seu chefe porque o “fogo” da sua arma, durante um combate no povoado de Nazaré, em Pernambuco, não se apagava nunca. “O rifle desse menino é que nem um lampião”.

  Outra versão é que, quando ele trabalhava para Delmiro Gouveia, conduzindo comboios transportando peles de animais no sertão, um dia uma mula abalroou e derrubou um dos lampiões (candeeiros). Esse episódio teria levado um de seus companheiros a chamá-lo de Lampião.

  Por último, tem a versão de Optato Gueiros, oficial combatente e depois escritor sobre o cangaço. Numa entrevista que fez a Sinhô Pereira”, Optato perguntou ao próprio Virgulino sobre a origem do seu apelido.

  O próprio Lampião contou sua história de que certa vez estava no Ceará num tiroteio numa noite escura de inverso em plena escuridão. Um companheiro deixou cair um cigarro e como não o achasse, “eu lhe disse: Quando eu disparar, no clarão do tiro, procure o cigarro. E assim foi, quando eu detonava o rifle, dizia, acende lampião e, desse dia em diante, fiquei Lampião”.

 

 

AS DIVERSAS VERSÕES DA ENTRADA DE LAMPIÃO NO MUNDO DO CANGAÇO

  Sempre se ouviu falar que Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, entrou no cangaço com a morte do seu pai pela força da volante sob o comando do tenente José Lucena, isto por volta de 1920, em Mata Grande, Alagoas.

  Acontece, porém, que bem antes disso, entre 1918/19, Lampião e seus irmãos Antônio, Livino e Ezequiel já estavam no banditismo por conta de intrigas com seu vizinho José Saturnino, em Vila Bela, município de Pernambuco.

 Por causa das constantes brigas onde os Ferreira eram acusados de roubo de cabras e até de um chocalho, enquanto Lampião apontava o agregado de Saturnino, conhecido pelo nome de José Caboclo, de ladrão, num acordo, o pai José Ferreira se mudou para uma terra próximo do povoado de Nazaré.

   Apesar de tudo, as desavenças com Saturnino continuaram e, mais uma vez, a família Ferreira, por iniciativa do pai, se mudou para a localidade de Água Branca, em Alagoas. Naquele Nordeste antigo, os poderosos eram os donos das leis, prevalecendo as injustiças contra os menos favorecidos.

  Como era uma região sem lei, onde quem mandava era o rei, todas as ofensas contra a honra eram acertadas na base da bala, com o derramamento de sangue. O ódio de vingança levou Lampião e seus irmãos para o cangaço, bem antes da morte do seu pai. A família Ferreira era bastante perseguida.

   Os historiadores, pesquisadores e até os cordelistas, como os grandes Leandro Gomes Bezerra e Francisco das Chagas Batista, contam diversas versões sobre essa questão ainda não totalmente esclarecida, mas o pai José Ferreira sempre procurava se livrar dos confrontos.

 No entanto, pelo que até agora se escreveu, até a morte do seu pai e sua mãe (infarto do coração), Lampião vivia na criminalidade e sendo perseguido pelas forças policiais. A partir do assassinato do seu pai, ele decidiu em definitivo ingressar de vez e com todo seu ódio no cangaço, prometendo só deixar quando morresse.

  A partir daquele acontecimento, cresceu em Lampião a sede de vingança, só que esse ódio foi distribuído contra seus inimigos e também para quem atravessasse em sua frente, na forma do banditismo.

O tempo passou e Lampião foi morto em 1938 sem se vingar diretamente de seus maiores desafetos que foram Saturnino e José Lucena. No fundo, ele se tornou um rebelde contra as injustiças, contra o desgoverno e o poder quando combatia essas forças representadas pelos “macacos”, como se referia aos soldados.

  A autora da obra “Lampião-Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmim descreve as diversas versões sobre a vida do cangaceiro desde menino e jovem trabalhador, vaqueiro, tropeiro, fazedor de versos e até cantador e sanfoneiro.

  No capítulo sobre “As Origens do Drama”, ela escreve que “a maioria das narrativas e dos artigos contemporâneos apresenta Virgulino como um menino já dotado daquele caráter violento que o caracterizará mais tarde como cangaceiro”.

  O escritor Optato Gueiros, ex-oficial das forças volantes, que combateu Lampião durante muitos anos, afirma que as tendências guerreiras de Lampião, manifestadas na infância, se desenvolveram quando ele tinha 17 anos e percorria o território em companhia dos irmãos e do pai.

Segundo Gueiros, ele tinha contato com os bandos armados de cangaceiros, com os quais parecia identificar-se. Élise cita artigo do jornal Diário de Pernambuco, agosto de 1938, onde menciona um grupo armado constituído de Antônio Matilde, dos irmãos Ferreira e outro dos irmãos Porcino, isto em 1918.

  Em fevereiro de 1920, os irmãos Porcino e os Ferreira participaram com Matilde da pilhagem de Pariconhas, em Alagoas. No encalço deles, a tropa de José Lucena foi até a Matinha de Água Branca onde estava morando provisoriamente seu pai que foi morto a tiros naquele lugarejo. Seus filhos não estavam no local.

“LAMPIÃO-SENHOR DO SERTÃO”

  Ao escreverem sobre o cangaço, praticamente todos os historiadores, pesquisadores e estudiosos do assunto procuram fazer uma descrição antecipada do Nordeste entre o século XVI até meados do século XX, em relação ao seu isolamento político e socioeconômico do resto do país, seu solo, costumes, hábitos, religiosidade e outros aspectos inerentes à região.

   A pesquisadora Élise Gruspan-Jasmim em sua obra “Lampião Senhor do Sertão” também não é uma exceção nesta abordagem. Antes de penetrar na vida de Virgulino Ferreira, desde o seu nascimento, batistério, sua infância e juventude no sertão, com várias versões obtidas de fontes diversas, a autora faz um panorama sobre o Nordeste daquelas épocas.

  Em sua apresentação da obra, vamos aqui citar alguns trechos do seu ponto vista quanto a região. Sobre o sertão, por exemplo, Élise destaca ser um território cujas limitações geográficas se modificaram com o correr do tempo, como se esta região se construísse e se elaborasse sem cessar.

  “Sertão quer dizer grandes deserto (“deserto”) no sentido próprio   e no sentido figurado, mas também terras interiores”. Alguns dicionários o definem como “terra longínqua”. Em relação ao litoral, o Nordeste é visto como zona árida, pouco povoada, assolada pela miséria e pela seca, exposta à violência, ao banditismo, à injustiça, ao fanatismo religioso – um outro mundo, com outros códigos, sem meios de comunicação, isolado da civilização.

  De acordo com a autora, nas representações, o sertão tem, portanto, uma dupla identidade: Região atrasada, de cultura arcaica, e ao mesmo tempo, memória viva, “quadro arqueológico da sociedade brasileira”, na expressão de Luis da Costa Pinto.

  A autora fala das revoltas que eclodiram no Nordeste do passado. Para ela, as rebeliões camponesas nunca eram dirigidas contra os coronéis, e sim contra um poder central anônimo e distante, como a de 1852, na região de Pau d´Alho, conhecida em Pernambuco pelo nome de “Revolução dos Marimbondos”, e na Paraíba sob o nome de “Ronco da Abelha”.

  Ao entrar na questão do cangaço, a escritora ressalta que no período da colonização holandesa no Nordeste, menciona-se a presença de grupos de bandidos formados por desertores estrangeiros, por escravos fugitivos e brasileiros.

  Os escritos citam o célebre José Gomes, o “Cabeleira”, originário de Pernambuco, que disseminou o terror na segunda metade do século XVIII e foi enforcado em Recife em praça pública.

  Após mapear o Nordeste, com suas características próprias, a autora esmiúça com detalhes as origens de Lampião, sua descendência e os motivos pelos quais ele entrou no cangaço.

   Muitos falam que Lampião se tornou um bandido depois da morte de seu pai, José Ferreira, sob o comando do tenente José Lucena, mas antes disso, por volta de 1918/19, ele já tinha se tornado um cangaceiro com seus irmãos Livino, Antônio e Ezequiel.

Tudo começou neste período por causa das desavenças com o vizinho José Saturnino, no município de Vila Bela. As versões são as mais diversas, desde roubo de animais até por causa de um chocalho que Virgulino, supostamente, teria extraído de uma res de Saturnino.

 No Nordeste se admitia um assassinato por vingança, mas não um ladrão. Além de autores, testemunhas, entrevistas, pesquisas em documentos, Élise cita muito as obras dos cordelistas, principalmente de Leandro Gomes Bezerra e Francisco das Chagas Batista, apesar de seus escritos não serem totalmente confiáveis por causa dos floreios dados em seus versos.

“UM BANDIDO SOCIAL?”

  Depois de quase 88 anos de morto, Lampião continua sendo cultuado no Nordeste. Para uns como herói, justiceiro e até generoso. Para outros, um bandido sanguinário que se aliou aos poderosos proprietários de terras, os coronéis e aos chefes políticos.

  De qualquer forma, o cangaço foi uma cria do sistema injusto, sem lei e até mesmo das grandes secas, como a de 1877/79 que chegou a ceifar a vida de cerca de 300 mil nordestinos. Para historiadores, entre os bandidos sociais, existiram três tipos, o nobre salteador, o chefe de guerrilhas e o vingador.

  Em seu último capítulo “Um Bandido Social? ”, o escritor Billy Jaynes Chandler fecha sua obra “Lampião, o Rei dos Cangaceiros” dizendo que “em geral, as autoridades, e a maior parte do povo, sentiam pena deles, ponto de vista este que se originava da ideia de que o cangaço era o reflexo da ignorância, pobreza e injustiça da sociedade sertaneja: os cangaceiros eram, portanto, criminosos comuns, porém, vítimas das circunstâncias”.

  Em falando da questão das cabeças dos chefes terem sido expostas em museu (Lampião, Maria Bonita e outros), Billy cita que nos Estados Unidos, já na década de 1850, uma cabeça, que diziam ser do bandido Joaquim Murieta, foi exibida, conservada em uísque na Califórnia, e sua chegada foi anunciada por uma salva de tiros.

  Quanto à sua indagação no capítulo, o escritor destaca a análise feita pelo historiador britânico Eric Hobsbawm que estabeleceu uma teoria para classificar os bandidos segundo suas características e opinião que sobre eles tinham as diferentes pessoas. O historiador incluiu Lampião neste estudo, mas só que ele fez sua crítica mais baseada nas lendas do que nas realidades.

  Chandler se fixa mais nos bandidos vingadores que, de acordo com o autor, se distinguem dos verdadeiros bandidos sociais, devido ao seu uso excessivo de violência. Hobsbawm reconhece que Lampião podia ser terrível e, por esta razão, o coloca entre os vingadores. Declara ainda que Lampião não pode se classificar como um verdadeiro bandido social em vista de sua aliança com proprietários.

 O britânico chega a afirmar, até de forma contraditória, que o “rei do cangaço” defendia os pobres. Justifica sua violência como involuntária, pois resultava das diversas tensões que marcaram a ruptura social entre o Nordeste tradicional e a nova ordem capitalista e, portanto, era inevitável.

  Além de Robin Hood (não se sabe se sua existência foi verdadeira), Hobsbawm, no capítulo sobre os nobres salteadores, do seu livro banditismo, destaca dois tipos, Juro Janosik, da Eslováquia, e Diego Corrientes, da Andaluzia, personagens imprecisos do século XVIII.

  Billy Chandler ressalta que o povo humilde dos sertões deu altas notas a Lampião – embora alguns, de má vontade – pelo seu sucesso. Segundo Billy, há uma tendência entre eles, de esquecer parte do horror que acompanhou sua carreira e lembrarem mais de suas ações, muitas delas inventadas. 

 Na verdade, Lampião nunca desejou alterar a estrutura básica da sociedade em que viveu. Seus laços com ela eram íntimos e profundos, como Hobsbawm reconheceu. O cangaceiro se aproveitou de uma sociedade injusta, para explorá-la brutalmente.

  O cangaço teve várias e diferentes origens, umas baseadas na perversidade humana, e outras, nas condições sociais extremamente injustas – completa o autor.

   Mesmo assim, foi uma forma de protesto social. Há dúvidas se essa caracterização de banditismo social pode ser aplicada a Lampião. “A preocupação com a opressão dos pobres e dos fracos pelos ricos e poderosos nunca despertou seu interesse”.        

LAMPIÃO TENTOU SE REGENERAR

  Durante seus 20 anos de cangaço por vários estados nordestinos (Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Paraíba, Bahia, Alagoas e Sergipe), por diversas vezes, Lampião, o “rei do cangaço”, tentou se regenerar e deixar a vida de bandoleiro que levava. No jeito sertanejo nordestino de ser, foi até considerado um religioso beato, com suas rezas e devoções, especialmente a da “Pedra Cristalina”, para fechar seu corpo.

  É vasta a literatura sobre o cangaço a partir dos cordelistas, mas muitos escritos não são confiáveis. O primeiro livro publicado sobre Lampião pela imprensa oficial da Paraíba, em 1926, intitulado “Lampião, sua História”, possivelmente foi escrito por Érico de Almeida. Outros atribuem a João Suassuna, na época governador da Paraíba.

 Sobre abandonar o cangaço, de acordo com a maioria dos escritores e historiadores, inclusive Billy Chandler, em “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, seu primeiro lampejo em se regenerar foi quando esteve em Juazeiro do Norte, em 1926, com o padre Cícero Romão, o seu “Padim Ciço”, que lhe deu bons conselhos nesse sentido.

  Os sertanejos o admiravam como homem de palavra, embora mudasse muito de opiniões em suas entrevistas. Enquanto dizia ao padre Cícero que queria se regenerar, confidenciava a um jornalista que o cangaço era um bom negócio e que nunca pensara em abandoná-lo. Retornou para falar com seu admirado padre, em 1926, mas este recusou em recebê-lo.

  Em outras ocasiões, quando interrogado se planejava continuar pelo resto da vida, afirmou que talvez tentasse outra coisa, como ser grande comerciante ou fazendeiro. Expressou até seu desejo de ser governador e presidente da República, estimulado pela fama de suas façanhas e pela própria imprensa.

  Em 1929, porém, em Capela (Sergipe), tornou a repetir que a vida no cangaço era agradável. Antes de fazer esta declaração, entretanto, revelou a um entrevistador, em Tucano, na Bahia, que a vida não era boa. Tenho sofrido, mas, em compensação, gozado bastante.

  No início de sua carreira como bandido profissional, em 1921, aconselhou a um grupo de jovens rapazes a não seguir seu exemplo. Em 1925, a algumas pessoas, destacou que sua entrada para o cangaço fora uma desgraça e que nascera para ser fazendeiro e não cangaceiro.     

    Quando estava se recuperando de seus ferimentos na fazenda de Marcolino, em Princesa (Paraíba), por volta de 1924, entrou em contato com o padre José Kehrle e pediu que levasse um recado ao comandante da tropa de Pernambuco, Teófanes Torres, o tenente que prendeu Antônio Silvino, em 1914.

  Segundo o padre, Lampião ofereceu se entregar à polícia em troca da garantia da sua vida e a de seus homens. Teófanes prometeu garantir sua vida, mas não fez a mesma promessa a respeito de seus companheiros, Então, Lampião não aceitou. O próprio padre Kehrle tentou persuadi-lo em deixar o cangaço.

    O velho cangaceiro Sebastião Pereira, o “Sinhô Pereira”, que foi chefe e ensinou muita coisa a Lampião, contou que no meado da década de 1930 lhe escrevera, convidando-o a abandonar o cangaço e ir para Minas Gerais, onde seu mestre estava morando, para viver sob a proteção do irmão do governador. Lampião nunca respondeu a carta.

  Conforme descreve Billy, teria sido mais fácil Lampião ter saído do cangaço em seus primeiros anos de banditismo quando a campanha de Pernambuco chegou a ser tolerante com ele. Com a morte do pai pela polícia alagoana, chefiada por José Lucena, em meado dos anos 20, Lampião desabafou que iria morrer no cangaço.

Com o reforço das tropas de Pernambuco e outros estados, visando capturá-lo, principalmente depois de 1930, no Governo de Getúlio Vargas, a possibilidade de regeneração tornou-se ainda mais remota.

  Em 1928, por exemplo, falou em Tucano (Bahia) que gostaria de deixar o cangaço se encontrasse alguém que o protegesse, mas acrescentou, que não conhecia ninguém nestas condições. 

   Em Capela (Sergipe) chegou a ser enfático de que era tarde demais para deixar de ser cangaceiro. Como prova desta atitude, segundo Billy Chandler, levava consigo sempre um vidrinho de veneno em seu embornal, para ser usado caso fosse capturado. Este vidro estava com ele em Angicos, quando foi morto em 1938.

Um ano antes, ao seu irmão João, disse que lutaria até morrer. Nesta época, Lampião, com 40 anos, não era mais o mesmo. Além dos problemas nas vistas, sofria dos rins e reumatismo.

  João revelou que ele parecia velho e cansado e até o aconselhou a deixar o cangaço e se recolher num lugar distante onde não seria reconhecido. Lampião respondeu que era conhecido demais para se esconder e que não tinha confiança bastante em seus amigos.  

  Apesar de tudo, acalentava a ideia de voltar a uma vida normal. Dadá, mulher de Corisco, contou, certa vez, que Lampião dissera que deixaria o cangaço se Eronides, governador de Sergipe, seu amigo, fosse eleito presidente da República.

   Contam muitas histórias sobre ele, inclusive de que se julgava capaz de ser outra coisa que um simples bandido errante. Falou uma vez em alistar uma tropa de mil homens para lutar com as polícias de Pernambuco e Paraíba, com a finalidade de conseguir anistia para si e para seus homens.

Imaginava ser governador de um novo estado sertanejo, formado de partes da Bahia, Sergipe, Alagoas e Pernambuco. Expressou até o desejo de ser presidente da República.

  Com suas estratégias, liderança e táticas de guerrilha, se Lampião fosse instruído e tivesse consciência político-social teria feito uma verdadeira revolução e até tomado o poder executivo, sempre uma calamidade por muitos que exerceram a função nacional.       

OS COITEIROS, O CANGAÇO E O SOFRIMENTO DOS SERTANEJOS

  As décadas de 20 e 30 do século XX foram os anos mais difíceis para os sertanejos nordestinos que tinham que conviver com a opressão dos coronéis fazendeiros, dos chefes políticos, a perseguição dos cangaceiros e as secas que retiravam milhares da sua terra natal para outras bandas à procura de melhorias para matar a fome.

  Com esses flagelos da violência humana e da natureza, os sertanejos ficavam acossados e, sem muitas opções de sobrevivência, muitos partiam para ser soldados ou coiteiros dos bandos de Lampião, que se tornou conhecido até nos Estados Unidos através do jornal The New York Times, que o considerou como o mais famoso bandido da América Latina. 

  Entre o final dos anos 20 e até meados dos 30, a Bahia foi um dos estados nordestinos mais atingidos por esses fatores, principalmente por parte da seca e do cangaço quando Lampião aqui chegou de mansinho e falando de paz em 1928. Sem recursos do Estado para combater a truculência dos cangaceiros, os sertanejos passaram a viver numa terra de ninguém.

  Esse cenário de sofrimentos é mostrado pelo autor do livro “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, de Billy Jaynes Chandler, principalmente no capitulo “A Campanha e os Coiteiros”.

   A situação tornou-se ainda mais crítica com a Revolução de 30 e prosseguiu nos anos 32/33 com a Revolução Constitucionalista de São Paulo e quando o Nordeste sofreu uma de suas piores secas da sua história. Com estas revoluções, grande parte do policiamento foi requisitada pelos comandos, deixando vilas, povoados e cidades desprotegidos. 

   A campanha contra o cangaço na Bahia começou em outubro de 1931, isto depois de Lampião ter praticado muitas invasões nas regiões de Jeremoabo, Queimadas, Senhor do Bonfim, Jacobina, Morro do Chapéu, arredores de Juazeiro, Curaçá e vizinhanças de Uauá.

   Início de 1932 começou com um desastre, no Raso da Catarina, em Maranduba, sob o comando do tenente Liberato de Carvalho. Nesse combate, cinco soldados morreram e mais de dez ficaram feridos, muitos dos quais vieram a falecer depois.

   Durante toda campanha, a questão sempre se esbarrava na falta de recursos, bem como na rede de coiteiros mantidos por Lampião, no tráfico de armas e munições que envolvia “coronéis” e oficiais da própria polícia.

 DOIS TIPOS DE COITEIROS

  Na classificação do escritor Billy, havia dois tipos de coiteiros. O primeiro constituído por fazendeiros, negociantes e chefes políticos ricos, caso do coronel João Sá (Jeremoabo), que ajudavam Lampião por necessidade, visando proteger suas propriedades e bens. Esse grupo gozava de imunidade na polícia e na justiça, mesmo depois da Revolução de 30.

  O segundo tipo de coiteiros consistia de vaqueiros, moradores, lojistas e comerciantes dos povoados que tinham pouca influência e ficavam entre a cruz e a espada. Esse pessoal sofria extorsões, torturas e roubos nas mãos da polícia. Nessa encruzilhada, o sertanejo não tinha muita opção, ou decidia ser coiteiro ou soldado.

   Esta segunda classe, composta dos mais pobres, era chamada de “coiteiros de pé no chão” e sofria mais nas mãos da polícia do que nas dos cangaceiros. Estes coiteiros tinham medo dos cangaceiros e eram obrigados a fazer seus serviços porque não contavam com a proteção policial. “Uma consequência inevitável dessa situação, era a onda de violência que muitas volantes deixavam em sua passagem” – relata o escritor.  

   Os abusos da polícia eram constantemente noticiados na época pelos jornais nordestinos e até do Rio de Janeiro. O sertão se transformou num quadro de horror com espancamentos e roubos de animais pela polícia. Enquanto isso, os bandos de Lampião sempre levavam a melhor e depois se recolhiam aos seus esconderijos.

  “Pode acreditar que hoje, no sertão, já se tem mais alegria quando Lampião chega à porta do que a simples notícia de que as forças se aproximam” – disse um fazendeiro de Sergipe, referindo-se à polícia da Bahia. “A brutalidade das tropas era atribuída, sem dúvida, à frustração e raiva, mas é evidente que a violência, em muitos casos, era empregada deliberadamente” – enfatizou o escritor Billy Chandler.

   Outro fator que contribuiu para esse quadro de terror da campanha era a própria natureza dos soldados, quase todos analfabetos e ignorantes, sem contar que seus soldos eram baixos e recebiam com atrasos de meses.

  Era necessário escolher um lado ou outro. Muitos se alistavam para ter um emprego, e outros, inclusive criminosos, eram forçados para escapar da pena, caso de Zé Calu, de Água Branca, em Alagoas.

  A força mais temida pelos sertanejos era os chamados “nazarenos” do povoado pernambucano do mesmo nome, uma mistura de soldados, milicianos e voluntários que sempre perseguiram Lampião enquanto vida.

  Por sua vez, Lampião tinha seu lado cruel, bondoso e até justiceiro, a depender de quem era seu amigo e atendia seus pedidos, ou seu inimigo que não tinha perdão. Se é para matar, mata logo, dizia aos seus companheiros e acrescentava que cometia suas atrocidades para ser respeitado.

  Grande parte da fama de Lampião foi construída pela imprensa, inclusive se tornou célebre no exterior. Como ele tinha vários bandos e amigos fazendeiros, chegou-se ao ponto que muitos sertanejos aliados seus, quando precisavam se locomover de uma região para outra, carregavam um “passe”, tipo passaporte, assinado pelo “rei do cangaço”.  Quem tinha esse “passe” não era importunado.        

                                      

LAMPIÃO FOI COMPARADO COM O FAMOSO AL CAPONE DE CHICAGO

  Em final de 1928, praticamente escorraçado de Pernambuco, Lampião atravessou o Rio Francisco e chegou à Bahia por Santo Antônio da Glória (Paulo Afonso). De forma mansa, ordeira e cordeira se acoitou na fazenda do coronel Petronilio Reis, o Petro, seu amigo.

  Astuto e sagaz, passou um tempo em paz, com poucos homens, fazendo um reconhecimento do terreno e até se tornou amigo do coronel João Sá, de Jeremoabo. A impressão que dava era que ele havia se regenerado, até que começou a fazer suas tripolias e praticar violência nas vilas e povoados.

  Na Bahia achou um campo aberto, pois as forças policiais eram deficientes e praticamente não realizavam campanhas contra o cangaço, até que aconteceu o caso de Queimadas, no Natal de 1929, onde Lampião com seu bando invadiu a cidade, saqueou o povo, os comerciantes e cometeu a atrocidade de matar sete soldados de forma cruel.

  Conforme nos conta o autor da obra, “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, Billy Jaynes Chandler, foi aí que, depois de outros crimes, o estado resolveu tomar providências e indicar o coronel Terêncio dos Santos Dourado para comandar uma campanha contra Lampião.

  Sua primeira medida foi dividir o estado em seis regiões, com equipamentos de comunicação, mais soldados e armamentos. Um comando ficou em Bonfim, os outros nas regiões de Juazeiro, Jeremoabo e Uauá, com 1.200 soldados e 36 oficiais. Boa parte dessas forças, no entanto, ficou estacionada nas cidades e poucos foram enfrentar a caatinga.  Cada volante tinha entre 20 a 30 soldados.

 Depois de oito meses de fracasso, com o revés da batalha de Mandacaru, renunciou ao cargo. Como bom estrategista, aprendiz do cangaceiro Sebastião Pereira, o “Sinhô Pereira”, Lampião fazia sua luta de guerrilha e, diante das suas investidas, a imprensa começou a compará-lo com o bandido Al Capone, de Chicago, nos Estados Unidos.

   A força policial ainda era ineficiente e pobre. Os soldos chegavam atrasados e, às vezes, faltavam uniformes. Quando em campo, a tropa comia rapadura, farinha e carne seca. Tinha comandante que cobrava dos homens o dinheiro da comida e depois embolsava.

  Lampião fazia suas fugas e tinha seus esconderijos, como exemplo, o Raso da Catarina, um lugar inóspito e perigoso que os soldados não aguentavam e pereciam. Outros comandantes assumiram depois de Dourado e até melhoraram as condições da tropa, com mais pistolas, assistência médica, binóculos e mais rastejadores.

  Nesse meio, veio a Revolução de 30, entre outubro e novembro. A luta pelo poder tomou lugar da captura dos cangaceiros. O combate contra o cangaço podia esperar na visão dos governantes. Com Getúlio Vargas, vieram os interventores que resolveram desarmar os sertões. A população ficou sem defesa para enfrentar os cangaceiros.

  Somente em fevereiro de 1931, o capitão Juarez Távora, chefe regional da polícia para o Nordeste, começou a reorganizar a polícia, mas pouca coisa aconteceu por falta de verba. Com isso, a campanha passou a se fixar no Rio de Janeiro.

  O regime de Vargas traçou seu plano para eliminar Lampião. No centro apareceu o capitão Carlos Chevalier, um aviador que divertia os cariocas com suas manobras de paraquedas. Pensaram em usar aviões para acabar com o cangaço.

  Com apoio do ministro do Interior, Oswaldo Aranha, foi criada a “Missão Chevalier”, com radiocomunicações e uso de mil soldados, mas a operação foi esbarrada na escassez de recursos. Pistas de aterrissagem teriam que ser construídas. Sugeriram até festa de gala para despedida do capitão, mas nada ocorreu.

  Chevalier chegou a sugerir infiltrar dois espiões no bando de Lampião. Somente em setembro de 1931, o governo federal liberou recursos para a Bahia, com a nomeação do interventor Juracy Magalhães, de 26 anos.

  Com muito alarde, o capitão João Facó, secretário de Segurança Pública da Bahia, começou uma campanha de perseguição e garantiu que iria fechar o cerco aos cangaceiros. Paraíba, Pernambuco, Alagoas e Sergipe entraram para cooperar.

  Enquanto isso, um jornal do Rio organizou até um concurso para ajudar a campanha. O “Diário da Noite” ofereceu um prêmio a quem desse a melhor sugestão de como matar Lampião. Coisas desse nosso Brasil. Foi um fato, por assim dizer, pitoresco.

  Um sugeriu que um avião jogasse uma bomba em cima do “Rei do Cangaço”. Outro alvitrou que mandasse um soldado, disfarçado de frade, para assassinar o “Governador do Sertão”. Enquanto isso, Lampião continuava agindo normalmente e piorou mais ainda com a morte do seu irmão Ezequiel, durante um combate num lugarejo chamado de Umbuzeiro de Touro, perto de Juazeiro da Bahia, em abril de 1931.

   Nisso, o chefe do cangaço se tornou inimigo de Petronilo Reis, e seus atos foram devastadores contra o fazendeiro que detinha o poder político na região de Santo Antônio da Glória. Com seu bando de 40 homens, arrasou o povoado de Várzea da Ema.

  Em novembro e dezembro de 31, o capitão Facó e o coronel João Felix resolveram apertar o cerco e viajaram para uma inspeção no interior, com o repórter Victor do Espírito Santo, do “Diário da Noite”, quando escreveu que Lampião era conhecido além da fronteira brasileira, pois sua fama se igualava à de Al Capone.

Como estratégia, Lampião fez acampamentos no Raso da Catarina e dividiu seu bando em três (Lampião, Corisco e Antônio de Engracia), para confundir e dar mais trabalho às forças policiais.

  No Raso da Catarina houve troca de tiros e, mais uma vez, Lampião tomou outro rumo desconhecido. Nesse período, entre final de 30 e início de 31, o bando começou a ser acompanhado de mulheres. Lampião foi o primeiro com Maria Bonita, ou Maria Déia (dona Maria Neném).              

UM LAMPIÃO MULTIFACETADO

   Em seu livro “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, o escritor Billy Jaynes Chandler, diplomado em bacharel na Austin University, com mestrado em Texas e doutorado na University of Flórida, com base em matérias de jornais nordestinos da época, documentos de arquivos públicos e entrevistas, descreve um Lampião multifacetado, cruel, perverso, estrategista, tocador de sanfona, letrista, com sede de vingança, às vezes contestado pelos companheiros e até generoso em algumas ocasiões.

  Às vezes, Lampião era como um raio, em outras, como uma nuvem passageira de chuva fina, com seu jeito matreiro de espião vasculhando sorrateiramente o terreno para depois dar o bote fatal. Em paz, com gestos humanitários, se sentindo como um governador do sertão, era recebido como um rei, uma celebridade famosa que arrastava multidões por onde passava.

  Um exemplo dessa sua arte foi sua visita à cidade sergipana de Carira, digna de nota, isto no início de 1929. Lampião e seu bando de sete chegaram montados em mulas. Dos seis soldados, quatro fugiram. Foi recebido pelo chefe de polícia em sua casa, que, ao seu pedido, serviu um jantar.

   Lampião mandou cerveja e cigarros para os dois soldados que ficaram na delegacia. Elogiou-os pela coragem e disse que só estava ali para conhecer o estado. Beberam e cantaram. Para onde os cangaceiros iam, uma multidão os acompanhava.  Lampião era alvo de atenção e admiração de todos. Sua cartucheira tinha dois palmos de largura e continham quatro fileiras de cartuchos, e duas mais de botões de ouro e prata.

 Falou da sua vida e indagou sobre as cidades dos arredores e quantos soldados possuíam. Como não tinha sanfoneiro para tocar e fazer uma festa, horas depois pegaram suas mulas e partiram.

“GOVERNADOR DO SERTÃO”    

  Em suas andanças pelos sertões de Pernambuco, Rio Grande do Norte, Ceará, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia, o cangaceiro que mais estados transitou no Nordeste, foi alvo de grandes façanhas e até chamado pela imprensa de “Governador do Sertão”, mas também sofreu fracassos e decepções.

   Seu maior erro foi ter tentado invadir Mossoró, no Rio Grande do Norte, e sua maior glória foi sua visita triunfal ao padre Cícero Romão Batista, o “Padim Ciço”, em Juazeiro do Norte, em março de 1926, quando de lá saiu cheio de munições do exército e com uma patente de capitão (não oficial), integrado aos “Batalhões Patrióticos”, para combater a marcha de Luis Carlos Prestes, cujos soldados eram chamados de revoltosos.

   Depois de uns aconselhamentos do padre, Lampião saiu de lá, passando por Barbalha, no encalço de Prestes, até pensando em se regenerar e deixar de vez o cangaço, mas quis o destino que mudasse de ideia depois de sofrer perseguições das volantes de Pernambuco.

  Sua ira voltou à tona com mais força, e entre 1926/27 foi o período em que Lampião mais se mostrou facínora, vingativo, violento, com vários ataques a vilas, povoados e deixando para trás um rastro de mortes, com requintes de perversidades.

 O governador de Pernambuco, na época, Estácio Coimbra, resolveu realizar uma perseguição implacável ao “rei do cangaço” a partir das prisões dos coiteiros, aqueles que não tinham muita influência e força no cenário político da região, como os grandes fazendeiros, coronéis de prestígio e chefes políticos.       

   Lampião enfrentou várias batalhas com até 100 homens contra forças compostas de 400 e 500 soldados, mas no final dos anos 27 e início de 1928, foi se enfraquecendo, dividiu seu bando em várias partes para confundir a polícia até se decidir atravessar o Rio São Francisco e se internar na Bahia.

  Quando estava com força e incensado pela imprensa, teve a ousadia de propor ao governador de Pernambuco uma divisão do estado onde ele se tornaria governo a partir da cidade de Arcoverde. Claro que o governador não o levou a sério e botou mais soldados em seu encalço.

  Com seus momentos de bondade e crueldade, enfrentou os espinhos cruentos da caatinga, fez festa, passou fome e sede, mas teve seus momentos de fartura quando se banqueteava com grandes fazendeiros e coronéis aliados. Esperto, subornou oficiais que fizeram vistas grosas e compunham sua rede no tráfico de armas e munições que sustentavam suas lutas e embates.

  Em sua obra, Billy Chandler escreve sobre O banditismo no Sertão, Virgulino, Lampião, Capitão Lampião e o Padre Cícero, Serra Grande, Mossoró, Queimadas (Bahia), Maria Bonita, A Campanha e os Coiteiros, Em Sergipe com o Governador Eronides, A Grandeza de um Homem, Angicos e um Bandido Social?

SERRA GRANDE

  Entre suas invasões, mortes, queimadas de casas e currais, extorsões, sequestros de reféns, fugas e batalhas, vamos falar um pouco sobre “Serra Grande”, uma terrível carnificina, relatada pelo autor do livro, lançado pela editora Paz e Terra, em 1981. 

   Durante os meses de abril e maio de 1926, Lampião e seu bando, como relata Billy, limitaram seu campo de ação à fronteira entre Pernambuco e a Paraíba, com assaltos a vilas. O pior ataque foi em Algodões, um lugarejo perto da estrada de rodagem de Recife. O bando saqueou as pessoas, casas comerciais e estupraram mocinhas e senhoras.

  O mais bárbaro e sangrento foi perto de Serra Grande em final de novembro de 1926. O major Teófanes Tores, o mesmo que prendeu o cangaceiro Antônio Silvino, e era suspeito de traficar armas e fazer corpo mole, preparou um ataque com 295 soldados contra cerca de 100 de Lampião.

   Contam que foi a maior batalha daquele tempo. Como estavam sendo perseguidos, os cangaceiros atravessaram a serra íngreme e armaram uma emboscada em condições de acabar com a tropa. Foi difícil quebrar a resistência do “terrível general do cangaço”.

    O combate começou por volta de nove horas da manhã e só terminou na escuridão, deixando 10 soldados e seis cangaceiros mortos, além de dezenas de feridos. O major não estava presente e quando resolveu chegar com mais reforços, a luta já havia terminado com a fuga dos cangaceiros.     

      

O BANDITISMO NORDESTINO NA VISÃO DE BILLY JAYNES CHANDLER

   A literatura sobre o cangaço, Lampião e outros cangaceiros, é muito vasta. Para falar do assunto, todos autores procuram abrir seus trabalhos descrevendo sobre como era o Nordeste do século XVII até o início do século XX. Os escritores fazem uma espécie de mapeamento sobre o solo, a caatinga dos sertões, as crendices, o misticismo e todos fatores que contribuíram para o banditismo no sertão.  

  A região vivia isolada do resto do país, abandonada, castigada pelas secas, pela pobreza extrema, pelas brigas entre famílias, pelo mando dos chefes políticos e dos coronéis e pela falta total da justiça para impor a lei. Enfim, o Nordeste era uma terra de ninguém onde o poder era quem mandava. O opressor massacrava o oprimido.

 O CANGAÇO

  O autor de “Lampião, o Rei dos Cangaceiros”, Billy Jaynes Chandler segue esta linha de raciocínio. De acordo com ele, nas sociedades rurais subdesenvolvidas, o banditismo sempre captou o interesse e a fantasia do povo. No Nordeste, o cangaceirismo e, sobretudo Lampião, eram vistos como “heróis” e um fenômeno de rebeldia contra aquele sistema cruel de exclusão social, política e econômica.

   Os que viviam fora da lei, aparentemente livres das restrições sociais, despertavam uma certa imaginação. Desse modo, Billy cita a vibração dos ingleses com os feitos de Robin Hood; os mexicanos com as façanhas de Pancho Villa; e os brasileiros com Lampião.

  As vidas desses homens serviam de matéria-prima para trovadores, cantores, literatos e repentistas das histórias populares. Exageravam e, de certa forma, omitiam a realidade. Alguns historiadores e cientistas, movidos pela obra de Eric Hobsbawm encontraram interesse no estudo do banditismo.

  Lampião, por exemplo, nascido no sertão decadente do Nordeste, fez sua entrada no banditismo, em 1916, quando contava com 19 anos, devido a uma disputa com a família de Saturnino (José Alves Borges). Cinco anos depois, quando a polícia – José Lucena – matou seu pai, em Alagoas, ele declarou que ia viver e morrer como bandido.

  Foi leal, generoso e até praticava ações de compaixão com aqueles que tinham conquistado sua confiança, mas cruel e sanguinário com os que despertavam sua inimizade. Fazia acordos com chefes políticos, coronéis, fazendeiros e até com a polícia para sobreviver.

   Com suas táticas e astúcias, foi um guerrilheiro hábil ao ponto de o povo do sertão acreditar que tinha poderes extraordinários que provinham do seu fervor religioso. Tornou-se objeto de medo e respeito e chegou a ser amigo de um governador.

  Segundo Billy, as palavras cangaceiro e cangaço começaram a ser usados na década de 30, e se relacionavam à canga, cangalho, jugo dos bois. Talvez era assim chamado por carregar o rifle nas costas, como o boi puxa a sua canga. A partir do final do século XVIII significava um grupo de homens armados a serviço de um fazendeiro. Depois se tornaram independentes e a palavra cangaceiro começou a ser usada.

   Foi um fenômeno social. Os cangaceiros andavam em bandos, com seu modo de se vestir especial, como um lenço colorido no pescoço e um chapéu de couro, tipo cawboy do sertão, cuja aba era virada para frente cheia de enfeites (estrelas de Salomão). Conhecedores dos sertões, suas táticas de guerra deixavam as volantes atordoadas.

A DESORGANIZAÇÃO SOCIAL E AS SECAS

  Sobre o Nordeste, Billy descreve que no Sertão, as chuvas fortes caiam numa estação chamada de inverno pelos nativos, num período entre cinco a seis meses, de dezembro a março. A temperatura variava entre 17 a 38 graus, mas hoje chega até mais de 40.

  Quando se fala do Nordeste, muitos imaginam como uma região plana e ´desértica, mas ele tem suas colinas, matas, chapadas, numa mistura de savana floresta. Nos locais planos, vê-se a caatinga, uma vegetação retorcida, nodosa de pequena altura, própria da terra quente e seca. Predominam árvores de pequeno porte, com variedade de cactos, como o facheiro ou mandacaru.

   Os primeiros portugueses não se estabeleceram no sertão, mas nas zonas úmidas do litoral ao longo da costa até Natal (Rio Grande do Norte). Durante o século XVI surgiu uma sociedade agrícola, baseada na cana-de-açúcar. Os índios foram aculturados e, na maioria, exterminados. O escravo chegou a ser a maior força de trabalho.

  Dominava a colônia, uma elite aristocrata, branca e arrogante situada nas áreas férteis (Salvador e Olinda). A produção de gêneros alimentícios foi renegada, surgindo daí o interesse pelo interior, com boas terras para a criação do gado e agricultura em geral.

  Os sertões, então, começaram a ser desbravados a partir do século XVIII até em regiões longínquas. No litoral predominavam as sociedades racistas. Grandes extensões de terras foram entregues pelos oficiais da colônia, nascendo assim os latifúndios. Os fazendeiros eram potentados do sertão, iguais aos senhores de engenho. Governavam seus dependentes com mão de ferro, delegando poderes.

  Como as riquezas eram escassas, Portugal praticamente não exercia domínio. Desde sua origem, conforme análise de Billy, a sociedade dos sertões foi deixada ao discernimento. A independência do Brasil, passando pelo Império (1822-1889) e depois a República Velha (1889-1930), pouco alteraram os fatos.

  A maioria do povo vivia em completa penúria de vida. Mesmo assim, desbravou a região. Foi dessa classe que saíram os cangaceiros, como Lampião. Alguns eram vaqueiros e outros combatiam os índios, incluindo uma pequena parte de escravos negros e mulatos.

  Devido a miscigenação, brancos, negros, mulatos e índios formaram uma categoria de pobres submissos. No início da conquista, os índios sofreram grandes baixas. Existiam pessoas livres, de descendência mista, que eram os senhores vindos da costa. Muitos ancestrais pobres chegaram a ser donos da terra.

  Com o tempo, as grandes propriedades se fragmentaram, divididas entre herdeiros. Essa divisão causou o empobrecimento de muitos. As adversidades das secas também ajudaram a dizimar rebanhos e outros recursos dos fazendeiros.

    No entanto, com o casamento de conveniências, muitos conseguiram deter a desintegração e reconstruir suas fortunas. O latifúndio ainda persistia, apesar das circunstâncias nas pessoas dos coronéis e dos chefes políticos.

   A principal atividade era a pecuária que abastecia as capitais litorâneas. O agregado procurava tirar da terra sua magra subsistência através da agricultura, muita parte destinada à população litorânea.

  Esta situação só começou a mudar no século XVIII com o cultivo do algodão, se bem que os lucros não compensavam devido a falta de estradas e a flutuação dos preços no mercado internacional.

A Abertura de estradas de ferro, no final do século XIX e começo do século XX, estimulou a cultura de gêneros alimentícios de exportação, mas tudo isto foi anulado pelos grandes proprietários que começaram a exigir uma parte pela terra alugada. Houve o surgimento do algodão, mas teve pouca duração.

As áreas agricultáveis se tornaram superlotadas, resultando na fragmentação das propriedades através das heranças. O grupo econômico que mais lucrou com a comercialização dos produtos foi o do intermediário que era o fazendeiro empreendedor. O resultado foi o declínio econômico das populações dos sertões, com o empobrecimento.

    Com o fim da Guerra Civil na América do Norte, em 1865, cessou a procura pelo algodão e afetou também o mercado açucareiro. Logo depois veio o fim do ciclo da borracha, no Amazonas, na segunda e terceira décadas do século XX. 

  Dizem que este conjunto de fatores gerou o cangaço, mas houve outras influências, como a fragilidade das instituições responsáveis pela lei, ordem e justiça, implantadas desde a colonização, quando as autoridades entregaram a região aos potentados.

   No império tentou-se reverter a situação, confiando a ordem aos chefes de polícia, mas não funcionou por causa da política entre os dois partidos que sempre nomeavam seus aliados. O sistema de júri também fracassou porque o jurado votava de conformidade com o coronel ou do chefe político. Partidos políticos antagônicos incentivaram os conflitos, bem como as guerras entre famílias.

  A República, em 1889, criou o federalismo delegando poderes aos estados, que estimularam o desenvolvimento das máquinas políticas, assegurando que o coronel votasse a seu favor. Em troca, os coronéis mantinham seu domínio. A força da polícia apoiava os coronéis, mas, aos poucos, foram perdendo poder.

  Com o enfraquecimento das instituições do estado, que sempre estavam a favor da facção local vigente no momento, criou-se um clima de desordem, sem justiça e proteção aos desfavorecidos. Sem garantia de proteção nem do patrão, nem do estado, povoações do sertão se transformaram em verdadeiras selvas onde imperavam a ilegalidade e a desordem.

“Parece, portanto, certo que o aparecimento do cangaço esteja intimamente ligado a este estado de desorganização social” – aponta o escritor Billy Chandler, mas ele acrescenta também as secas calamitosas que se repetiram naqueles anos, entre final do século XIX e nas primeiras décadas de 1900.

  Billy ainda cita o messianismo e o fanatismo religioso que desagregaram a sociedade, só que estes fenômenos ocorreram paralelamente ao cangaço. No entanto, em sua visão, as estiagens prolongadas contribuíram para aumentar a violência. “Com a seca de 1919, o cangaço atingiu seu ponto máximo”. “Tanto o banditismo como o messianismo são produtos do mesmo complexo de condições”      

CURISCO RESOLVE SE VINGAR DOS DELATORES E RETOMAR O BASTÃO

“Se entrega Curisco, eu não me entrego não…” diz o cancioneiro em referência ao cangaceiro valente, “Diabo Louro”, quando recebeu voz de prisão do tenente José Rufino, em Barro Alto, na Bahia, próximo de Miguel Calmon, em 1940, dois anos depois da morte de Lampião, pela tropa de João Bezerra, na gruta de Angicos (Sergipe).

Curisco ficou sentido e furioso com a morte do seu amigo “cumpade” e prometeu se vingar dos delatores, Domingos, o homem de duas profissões (vaqueiro e embarcadiço a serviço de Deus e do Diabo) e Pedro da Cândida, o pivô das delações. Sua mulher Dadá teria dito, agora é o “fim de quase tudo”. Os dois delatores tiveram um fim trágico.

Depois de tudo consumado em Angicos, Curisco atravessou o Rio São Francisco, na companhia de Dadá, e pensava na sucessão do chefe, mas num embate sofreu ferimentos sérios que atingiram seus braços, deixando quase impossibilitado de manejar uma arma, conforme narra o médico e antropólogo Estácio Lima, em sua obra “O Mundo Estranho dos Cangaceiros”.

Com “macacos” por todo lado e Zé Rufino em seu encalço, Curisco vivia amargurado. “Não largava eu, a procura de Curisco. De quando em vez, tomava ele um sumiço, sem que a perseguição esmorecesse” – disse o militar em entrevista ao autor do livro.

Conta que uma vez chegou a Barro Alto, em dia de feira, onde perguntou a todos se haviam visto dois homens, duas mulheres e uma menina. Pouca coisa de informações, mas encontrou na ponta da rua um rapaz galopando num cavalo melado. Indagado, disse que ia para Pulgas.

Zé Rufino quis saber do paradeiro do pessoal e disse logo que não eram ladrões (o sertanejo tem raiva dessa classe) e sim parentes. O rapaz confirmou que tinha um pessoal em sua casa e veio ao povoado para fazer comprar para as visitas.

O tenente chamou o moço para tomar uma cerveja num bar com o motorista do caminhão Zé Cláudio, que conhecia o local. Todos rumaram para a fazenda Juá. O caminhão parou uma légua antes da chegada para pegar os cangaceiros de surpresa, mas Curisco ouviu o barulho do motor.

Como guia involuntário, o rapaz pressentiu ter caído numa armadilha, mas já era tarde. O tenente seguiu com um mosquetão e seu soldado Mulundu com uma metralhadora belga de 32 tiros. Formaram o cerco à casa do velho Pacheco, com a estratégia de distribuir a força em pontos diferentes.

Dadá foi a primeira a ver os macacos da janela e avisou ao marido que mandou que lhe acompanhasse. Curisco pulou a cerca de quiabentos e Dadá a do fundo. Zé Rufino atirou nos fugitivos para intimidar, mas o casal tocou em frente.

O soldado “Campanha” atirou e baleou Dadá que caiu. Ela logo avisou a Curisco que havia sido alvejada. “Maiores são os poderes de Deus” – respondeu o marido. O tenente alcançou o cangaceiro e gritou para ele se entregar que garantia sua vida. A resposta dele foi bala.

O soldado rastejador Gervásio ficou frente a frente com Curisco. “Gervásio fez um tango-lomango da peste e a bala não pegou. Rufino correu para dar ajuda e Curisco manobrou dando as costas. Os dois militares atiraram pelas costas. O tenente confessou que não gostava de fazer fogo pelas costas, quanto mais contra um cabra valente, mas acrescentou que não havia outro jeito.

Os tiros arrombaram o buxo de Curisco, e o soldado cuidou de colocá-lo para dentro. “Deus lhe pague” – foi a palavra de Curisco. Zé Rufino mandou colocar os dois em redes diferentes e tocaram para a casa de farinha.

Como Curisco ainda estava com vida. Dada indagou se Zé Rufino garantia suas vidas. Pegaram a menina Rufina debaixo da cama. Nisso, Dadá que estava com o osso da perna espatifada, deu um grande gemido de dor.

“Cala a boca, égua safada” – disse um soldado. “Me respeite macaco filho da puta, filho de uma égua. Puta é sua mãe. Respeite que sou casada” – respondeu Dadá.

O tenente providenciou transportar os dois até Barro Alto. Ainda em vida numa esteira, Curisco topou tomar uma cachacinha com a mulher. De lá seguiram para Ventura numa estrada ruim, mas Curisco não resistiu. Com mais um dia chegaram a Miguel Calmon onde a perna de Dadá foi amputada pelo doutor Reinaldo, só que deu gangrena.

Zé Rufino, então, a entregou para o coronel Felipe que a levou para Salvador, pois os côtôcos continuavam ruins. A cabeça de Curisco se juntou às de Lampião e Maria Bonita, no Museu Estácio de Lima.

Depois de Curisco, ainda surgiu um tal de Antônio de Dina, mas este não passava de um marginal, de um delinquente e não possuía os atributos de um cangaceiro. Chegou a ser preso e fugiu da Casa de Detenção da Bahia indo parar em Pernambuco.





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