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:: ‘Notícias’

DESENROLA BRASIL!

   Pela segunda vez, o governo federal cria o desenrola dos endividados que não vai resolver o problema. Logo mais vai estar todo mundo sufocado novamente. Esse desenrola me faz lembrar de um programa humorístico onde o cara dizia “desenrola carretel”!

  Está na hora do governo instituir o “Desenrola Brasil”, o maior endividado, com um rombo astronômico nas contas públicas, com gastos exorbitantes entre os três poderes, a começar pelo Congresso Nacional, o mais caro do mundo num país pobre.

   O Desenrola Brasil seria acabar com os penduricalhos, com os supersalários, as mordomias, as safadezas e as orgias dessa corte. Deveria estabelecer ainda os desenrolas das desigualdades sociais gritantes, da educação e da cultura.

   Temos tantos desenrolas para serem resolvidos, inclusive em relação a nós mesmos. Quem nos tempos atuais não vive enrolado, não apenas de dívidas, mas no amor, nos relacionamentos, no tratamento humano, no trabalho, nos celulares, nas redes sociais dos fuxicos, arengas e mentiras, no ódio, na intolerância, no físico e na mente?

  Precisa existir um desenrola para as religiões, para o fanatismo e o fundamentalismo. Ah, ia me esquecendo! Desenrola na falta de pontualidade nos encontros e eventos. Bastam de tantos atrasos que deixam as pessoas irritadas e estressadas

  Existe classe mais enrolada neste Brasil do que os políticos que fazem promessas não cumpridas, que contam lorotas para a população eleitora, tramam negociatas espúrias, rachadinhas e o nariz só cresce de tanto mentir. Êta gente enrolada!  

Quem está precisando muito desse desenrola é o cachorro louco do Trump. O maluco se enrolou todo no Estreito de Ormuz, lá no Irã, que agora não sabe como desenrolar. Está mais enrolado que múmia enfaixada dos faraós do Egito.  

   Sugeria quer o governo criasse também o desenrola corrupção, onde os abutres são todos “inocentes”. O cara poderia confessar o crime, não ser processado (não é preso mesmo) e teria o direito a fazer um acordo, abatendo parte do roubo e pagar o restante da gatunagem em módicas prestações.

  A gente poderia ter também o desenrola para os golpistas nos mesmos moldes, outro para as obras inacabadas, um para a falta de saneamento básico (metade da população não tem acesso aos serviços de tratamento dos esgotos) e até para quem agride o meio ambiente. Bem que a natureza iria agradecer.

  Por falar em golpistas, eles já estão de olho no desenrola dos endividados. Ontem mesmo recebi um telefonema de um com o slogan do Banco do Brasil. Como esses cabras da peste sabem que estou enrolado no BB? É enrolado querendo enrolar mais ainda os outros!

   Vamos desenrolar gente!  Não deixa para o outro dia o que se pode fazer hoje, senão você vai cada vez mais se enrolando como novelo. Está enrolado no trânsito? Vai ser difícil desenrolar porque este já é crônico nos grandes centros urbanos. Complicado desenrolar engarrafamento!

   Quanto aos endividados, eu mesmo estou enrolado até a tampa com os consignados. De tanto pagar aos avarentos bancos, o governo deveria liquidar essas dívidas de uma vez e perdoar para quem já pagou tantos juros no período de três anos. Essas pessoas ficariam zerados, mas proibidos de fazer outros empréstimos.

   Pior mesmo é desenrolar com agiotas!  Ai, meu amigo, é brabeza, porque com estes elementos não tem conversa e papo furado. Se não pagar, rolam cabeças, como no caso do usuário de droga se deixar de pagar o traficante. A ordem é matar. Tem gente que toma dinheiro de agiota para comprar supérfluos, produtos de beleza e até fazer uma estética no corpo. É mole, meu camarada?

   Quem não vive endividado neste Brasil? Até o rico, os que ganham mais de 100 mil reais por mês, porque estes fazem de tudo para manter o padrão, e aí vai se enrolando cada vez mais, inclusive passando a mão grande nos cofres públicos, que já estão enrolados.

  Está todo mundo enrolado, até na conta do bar, inclusive o dono que coloca um aviso na parede com a frase “Fiado só Amanhã”. “Sua conta aqui só cresce. Você está todo enrolado” – diz o proprietário do bar.

O sujeito, então, dá meia volta e vai se enrolar em outro lugar, ou noutra freguesia. São 200 milhões de endividados e enrolados. O enrola já está tão comum que não adianta mais tentar desenrolar.

   O bicho está pegando feio, se ficar ele come e se correr, também. Vamos para frente que atrás vem gente! Quem não chora, não mama! Vou até parar de escrever porque já estou aqui todo enrolado das ideias.

A CABANA DO OUTRO LADO DO MUNDO

(Chico Ribeiro Neto)

Eu tinha uns 9 pra 10 anos. Fazia parte da turma de rua da Ladeira dos Aflitos, em Salvador. A TV ainda não tinha chegado a Salvador (só chegaria em novembro de 1960) e as ruas eram nossa melhor diversão nos anos de 1957 e 58.

Na rua Tuiuti, que fazia esquina com a Ladeira dos Aflitos, em Salvador, havia um terreno baldio. O terreno era grande e numa parte funcionava uma oficina de automóveis. O resto do terreno era puro mato e muitos pés de mamona cujos gomos serviam como “balas” em nossas “guerras”.

Como fazem os sem-terra em área improdutiva, ali nos assentamos. Construímos uma cabana onde produzimos amizades e sonhos e desfrutamos da liberdade de estar sós, sem a chateação de pai e mãe.

Tudo foi feito na marra. Desmatamos uma pequena área e, com ajuda do pessoal da oficina, fincamos quatro estacas. Para a cobertura usamos uma lona de caminhão velha jogada no fundo da oficina. Sem janela, as laterais foram feitas com papelão e galhos de árvores.

Trouxemos de casa três banquinhos velhos onde ficavam revistas em quadrinhos. Foi numa delas, “Luluzinha”, que nos inspiramos para o cartaz na entrada da cabana. Na revista o personagem Bolinha mantém um clube de meninos com o lema “Menina não entra”, que a gente escreveu numa folha de caderno e pendurou na porta da cabana.

Não sou bom de medidas, mas a barraca devia ter uns 3 a 4 metros quadrados, o bastante para caber nossos sonhos. Fazia um calor retado, mas levar a merenda de casa pra lá tinha outro sabor.

Meu pai Waldemar ganhou uma caixa de charutos Suerdieck. Roubei um e levei para o nosso “clube”. Fumamos o charuto como o “cachimbo da paz”. Saímos tontos, enjoados e tossindo.

 

Daqui a pouco vamos para a Avenida Sete de Setembro para tocar campainhas das casas e sair correndo e sorrindo. E também um sobe no ombro do outro para roubar bandeirolas verde-amarelas que estão amarradas nos postes, esperando o desfile patriótico de 2 de Julho, data da Independência do Brasil na Bahia.

Fomos abandonando a cabana. A oficina cresceu, a lona apodreceu, uma estaca caiu. A cabana foi indo embora, ou foi a gente.

Ali ficou um pedaço bonito da nossa infância.

Segue o poema “Velha Chácara”, de Manuel Bandeira:

“A CASA ERA por aqui…

Onde? Procuro-a e não acho.

Ouço uma voz que esqueci:

É a voz deste mesmo riacho.

 

Ah quanto tempo passou!

(Foram mais de cinquenta anos)

Tantos que a morte levou!

(E a vida…nos desenganos…)

 

A usura fez tábua rasa

Da velha chácara triste:

Não existe mais a casa…

– Mas o menino ainda existe.”

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NESSE ANGU TEM OSSO PODRE

   Como um campus de uma Universidade Federal da Bahia contrata um “restaurante” ou empresa para o fornecimento de alimentos para seu Restaurante Universitário (RU), que não tem o devido credenciamento junto à Vigilância Sanitária da Prefeitura Municipal? Este aspecto e outros não foram observados na negociação?

  Ainda com meu velho faro jornalístico, neste pirão, ou angu, tem osso podre, basta fazer uma investigação mais apurada deste caso, que resultou em contaminação alimentar entre os estudantes da instituição de nível superior, onde muitos foram parar no hospital.

   Pelas notícias da mídia, pelo menos até agora só ouvimos versões oficiais, do tipo Boletim de Ocorrência, o chamado BO, com uma nota de esclarecimento por parte da direção do núcleo federal de ensino. Por que o diretor, ou a pessoa responsável pela contratação dos serviços não veio a público dar uma entrevista à imprensa?

  Somente os usuários da RU deram entrevistas sobre o que sentiram depois de ingerir as refeições feitas por esta casa, localizada no Bairro do Bem-Querer. Esta história, como muitas em Vitória da Conquista, tem pontas soltas que precisam ser desvendas. Está faltando uma peça para fechar esse quebracabeça.

     Os agentes da Vigilância Sanitária estiveram na empresa fornecedora e constataram uma série de irregularidades, principalmente no quesito higienização dos alimentos, problemas nos equipamentos usados e no transporte da comida até a RU.

    A direção da Universidade não foi entrevistada para explicar como foi feito este contrato, os critérios que foram levados em conta, os valores e outros itens que são rigidamente exigidos para uma empresa prestar este delicado tipo de serviço que envolve vidas humanas.

   Depois da liberação de serviços terceirizados, inclusive essenciais, de outras empresas por parte de órgãos públicos em geral, tem ocorrido fatos lamentáveis de negligência e erros envolvendo contratados e contratantes, sem falar nas brechas para o superfaturamento, subornos e corrupções. Funcionários dessas empresas terceirizadas recebem salários atrasados e muitos nem têm carteira assinada.  

   Nos noticiários dos malfeitos pelo Brasil a fora, temos acompanhado fatos inusitados de contratação de “empresas” não gabaritadas para aquele tipo de serviços. Prefeituras, por exemplo, chegam a contratar uma papelaria para servir merenda escolar para uma unidade de ensino.

   Não foi o caso da Universidade Federal da Bahia, em Vitória da Conquista, mas ficou comprovado que aquela cozinha industrial contratada não oferecia as mínimas condições de servir comida para os estudantes. A impressão é que houve um abafa para encobertar irregularidades entre ambas as partes. 

A NOSSA ÚLTIMA FLOR DO LÁCIO NECESSITA SER MELHOR REGADA

  Nasceu do latim vulgar a última Flor do Lácio, ao norte da Itália, introduzido pelos soldados romanos no noroeste da Península Ibérica, a partir de 218 a.C.. Misturou-se e sofreu influencias com as línguas locais e depois com idiomas germânicos (século V) e árabes (século VIII).  

  Nos séculos IX e XIV, com a expansão dos árabes, se evolui para o galego-português, falado na Galiza e norte de Portugal.   Veio a se consolidar mesmo a partir dos séculos XII e XIII (1200 e 1300), sendo oficializado pelo rei Dom Dinis (1290) como a língua da corte.

  Como se vê, foi um longo processo, tendo como partida o latim vulgar, para se ter o português arcaico. Como sempre acontece, passou despercebido da mídia e por muitos, o Dia Mundial da Língua Portuguesa, a Flor do Lácio, no último dia 5 de maio, criado pela Unesco, em 2019, para valorizar a cultura dos povos que falam esse idioma.

  É bom lembrar que em 5 de novembro se comemora o Dia Nacional da Língua Portuguesa (lei 11.310 – 2026), em homenagem ao nascimento (1849 em Salvador-Bahia) do grande escritor, jurista e político Rui Barbosa. É mais um célebre nordestino conhecido mundialmente pelo seu discurso em Haia.

  Atualmente são cerca de 280 milhões de habitantes que falam o português (a maioria no Brasil – 200 milhões) em nove países, incluindo Portugal, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Guiné Equatorial, Timor Leste (Ásia Oceania) e ainda Macau (China), que utiliza o português.

  O português é considerado a língua mais recente das línguas neolatinas (latim vulgar) da região do Lácio, na Itália.  Essa metáfora, “a flor exalta a beleza da língua inculta e bela” foi popularizada pelo nosso grande poeta Olavo Bilac em seu soneto “Língua Portuguesa”:

  “Ultima flor do Lácio, inculta e bela,/És, a um tempo, esplendor e sepultura:/Ouro nativo, que na ganga impura/ A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura./ Tuba do alto clangor, lira singela,/Que tens o trom e o silvo da procela,/E o arroio da saudade e da ternura!

 Amo o teu viço agreste e o teu aroma/De virgens selvas e de oceano largo!/Amo-te, ó rude e doloroso idioma.

Em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,/ E em que Camões chorou, no exílio amargo,/ O gênio sem ventura e o amor sem brilho!”  

  Do Lácio, do latim vulgar, derivou o espanhol, o francês, o italiano, o romeno, o galego-português no sul da França, o sardo, na Itália, romenche, na Suíça, ladino e friulano (Itália), mirandês e aragonês (Portugal). Existe uma imensa variedade originada da evolução latina.

  A nossa, não tão conhecida e grande língua, hoje maltratada pelos brasileiros, com suas abreviações, erros ortográficos e gramaticais, com seus neologismos e estrangeirismo, possui quatro pilares, quais sejam, linguagem e sociedade, leitura e expressão escrita, funcionamento da língua e produção e compreensão oral.

  Como é rica e bela, conta ainda com dez classes de palavras, tais como adjetivo, advérbio, artigo, conjunção, interjeição, numeral, pronome, preposição, substantivo e verbo.

  É verdade que ela é muito complicada e diversificada em suas palavras, como exemplo, manga que tem vários sentidos, de fruta, manga de pasto, do verbo mangar, manga de camisa e assim por diante.  

   Tem as homófonas, mesmo som, mas com grafias e significados diferentes, caso de sessão que vem de tempo, reunião (sessão de cinema, de terapia); seção/secção, de repartição, departamento; seção de livros; e ainda cessão, de doar, transferir algo para alguém.

   A nossa língua também é intrincada e muitos batem a cabeça com os porquês. Temos o por que quando se quer fazer uma indagação no início de uma frase, substituível por qual razão; porque de resposta; por quê em fim de frase antes da pontuação; e o porquê, antecedido de artigo, significando o motivo.

  Como todas as línguas, a nossa Flor do Lácio também está sujeita às reformas. Ela sofre mudanças, como a última ortográfica, em 1990, com uso obrigatório a partir de janeiro de 2016.

 Entre muitas novidades podemos destacar o fim do trema; inclusão das letras K, W, e Y em nosso alfabeto (26 letras); novas regras de acentuação (paroxítonas de ditongos abertas), como adaptómetro para adaptômetro, abiogénese para abiogênese, abjecção para abjeção; acento diferencial (voo, enjoo); uso do hífen (micro-ondas, antissocial, paraquedas), dentre outras regras.    

    No entanto, o que mais nos deixa afrontado é a infestação de neologismos, anglicismos e estrangeirismos em nosso belo português nos dias atuais. Nos “shoppings”, por exemplo, temos a impressão de que estamos em Nova Iorque.

  Correntemente utilizamos as palavras shoppar, linkar, selfies, o próprio shopping, delivery, feedback, mouse, show, freelancer, hot dog, home office, design, brainstorming, pitch, outdoor (ar livre, mas placa no Brasil), fitness, pet shop, download, scaner, crush, notebook, spoiler, print screen, smoting (fumar), open mind (mente aberta), love store, one place (um lugar), true way (caminho verdadeiro), bright spot (ponto brilhante), pure spul (alma pura, infinity store e por ai vai.

   Como bem observamos, temos uma avalanche ou uma enxurrada de estrangeirismo invadindo o nosso português e muita gente acha chique citar com galhardia, e ai de quem não pronunciar corretamente a expressão inglesada. Assim, nossa língua vai ficando desprestigiada e mal falada, principalmente pelos nossos jovens que mais deveriam preservá-la das invasões estrangeiras.           

O SERTANEJO É ÚNICO

  Passou despercebido, em pleno feriadão, o dia 3 de maio (domingo), dedicado ao sertanejo, aquela figura que nos faz logo lembrar do Nordeste, da caatinga, o vivente do chão estorricado pelas secas e florido quando batem as chuvas. Nos remete também ao cabra forte e resistente às intempéries do tempo, como dizia o escritor Euclides da Cunha.

   Me sinto um deles e com muito orgulho por ter nascido em pleno sertão. Melhor ainda que a data celebra a cultura, a música sertaneja – aquela de raiz – a vida no campo e, especialmente, a força e a resiliência do povo do sertão brasileiro.

  A comemoração surgiu na década de 1960, impulsionada pela Rádio Aparecida que recebia violeiros de todo país na região. É uma homenagem ao homem e à mulher do campo, exaltando suas tradições e costumes. O dia está associado ao cantor Tinoco, da famosa dupla Tinoco & Tinoco.      

    Entre romancistas e escritores nordestinos, na minha visão, quem melhor define o sertanejo é Graciliano Ramos, o alagoano, de Palmeira dos Índios. Para ele, o sertanejo é único, com sua característica própria, que se identifica com o sertão estorricado, rachado, do mandacaru, do cacto, da catingueira, do xinque-xique, do juazeiro, da espinheira e do umbu.

 É aquele homem e mulher dos engaços e bagaços. É o retirante que foge da seca em direção ao sul em busca de sobrevivência, mas retorna quando as águas molham o seu torrão. Ele tem a cor cinzenta da caatinga, castigado pelo sol escaldante, mas de alma festiva pela esperança e pela fé, embrenhado em suas crendices e um místico-religioso.   

   Sertanejo é o canto da cauã na beira da cacimba, é o carcará e o gavião, a Asa Branca na canção de Luiz Gonzaga, o Patativa do Assaré, o pássaro preto e o sofrer. É como a terra que se renova e brota rápido em cores diversas quando batem forte os trovões nas chuvaradas do verão. Sertanejo é o profeta da chuva.

  Ser sertanejo é ser poesia, repente, trovador, gente simples e humilde na labuta do plantio da abóbora, do feijão, do milho e do andu, com fé e esperança. 

   Para mim, sertanejo lembra um ser guerreiro, penitente como Conselheiro. Ele tem sua própria cultura do caboclo boiadeiro no aboio do vaqueiro, com seu sotaque matuto e catingueiro. Além de cismado, tem seus hábitos inconfundíveis, diferentes da mata.

  O sertanejo tem um espírito único, um olhar melancólico cheio de histórias e lendas de heróis e carrascos coronéis. É sinônimo de caatinga. Foi lá onde nasci de parteira e respirei o primeiro ar diferente de outro lugar. Foi onde meus pais me criaram e me ensinaram a ganhar o mundo.

    

 

A QUESTÃO DA CRACOLÂNDIA EM CONQUISTA E A ASSISTÊNCIA SOCIAL

  A cracolândia em frente ao Centro POP de Vitória da Conquista, na “Conquistinha”, não é coisa de hoje, existe há uns quatro anos, mas o caso só veio à tona agora quando o pessoal saiu quebrando carros e fazendo outras arruaças nas ruas.

  Desde o início atende moradores de rua e andarilhos, começando com a distribuição de 30 quentinhas. O movimento foi crescendo e se transformou numa cracolândia, com a entrega de carca de 120 quentinhas. A grande maioria é viciada em drogas com sérios problemas sociais e familiares.

  Onde existem drogados, existem traficantes. A violência tomou tal proporção que se ouve falar da boca de usuários que tem gente enterrada na matinha que fica nos fundos do Centro POP. Onde tem fumaça, tem fogo, e isso precisa ser investigado. Quem manda no Centro é essa gente, porque os funcionários temem ser violentados. O problema é mais grave do que se pensa. 

  O interessante é que essa massa de excluídos, não somente em Conquista, que até praticam delitos e são violentos, foram crias desse sistema elitizado burguês que nunca aceitou fazer distribuição de renda para a melhoria social e redução das desigualdades.

RELOCAR NÃO É A SAÍDA

  No entanto, essa mesma sociedade hipócrita se levanta de “armas nas mãos” quando se sente incomodada e ameaçada. Não sei se é burrice, ou propósito intencional mesmo, os moradores e empresários das imediações sugeriram relocalizar o Centro POP.

  Ora, quer dizer que a solução é tirar a unidade dali e jogar para bem longe, num bairro qualquer da periferia ou dentro do mato, como se dissessem: Os pobres que se lasquem. Não é mais o nosso problema. Eles lá que resolvam suas merdas.

    Essa medida só faz transferir o problema de um lugar para o outro, livre do centro burguês que não quer ser em nada incomodado em seus negócios. A maioria está mais preocupada com as notícias ruins que vão gerar para a “Suíça Baiana”. Relocar não é a saída, nem solução.  

  Boa parte dos conquistenses, principalmente empresários e políticos em geral, não gosta, detesta e critica quando a mídia divulga notícias ruins, de cunho negativo, achando que mancha a imagem da cidade. Só quer elogios e que se jogue o lixo para debaixo do tapete.

  Essa reação é histórica e digo isso com propriedade, pois sofri muitas hostilidades quando exerci a chefia da Sucursal A Tarde. Concordo com o empresário José Maria Caires em muitas coisas, mas, como em toda cidade grande, o pobre vive suas agruras e temos nossas mazelas também. Aqui não é o paraíso.

  Tem que se buscar uma solução para o problema, mas não simplesmente relocar o Centro para as periferias. Criar casas de atendimento terapêutico sim, bem como, reforçar o efetivo policial para combater o traficante na ponta. Os empresários só estão preocupados com seus negócios? E os moradores da comunidade local, como ficam?     

  Será que o setor privado topa fazer uma parceria com o poder executivo no sentido de criar uma Casa de Recuperação, em Conquista, destinada a moradores de ruas e drogados? Existem as unidades religiosas do Creame e o Centro de Referência do padre Gilberto, em Barra do Choça, mas não são voltados para atender esse tipo específico de clientela. 

  ASSISTÊNCIA SOCIAL

  Sobre toda esta questão, vamos aos fatos quanto aos serviços de assistência social prestados pelo poder público, no caso a Prefeitura Municipal, cuja prefeita é Sheila Lemos, com subvenções de recursos da parte estadual e federal.

 Na área da assistência social, temos o Abrigo, infestado de percevejos, no Bairro das Filipinas, que atende uma média de 30 pessoas que jantam, dormem e tomam café da manhã. Por volta das oito horas são obrigados a sair e só retornam às 16 horas. É bom lembrar que nem todos são de Conquista. Tem muita gente da região e até de outros estados.

  Muitos são drogados e até com passagens pela penitenciária. Um grupo vai para o Centro POP e outros ficam nas ruas vendendo doces e objetos nas sinaleiras, não se envolvendo em bebedeiras e confusões. Alguns praticam furtos e são viciados em bebidas e drogas.

   Além do Abrigo, existe o CAPS (Centro de Atenção Psicossocial), também na Filipinas, com atendimento psicológico e psiquiátrico a portadores de transtornos mentais graves, inclusive para drogados. Acontece que o período de permanência para um drogado é de apenas 14 dias.

   Não é preciso ser especialista no assunto para entender que é impossível um viciado se recuperar em apenas 14 dias. Portanto, é um trabalho de enxuga gelo e recursos do SUS jogados fora. É o tipo faz de conta que trata.  

   Esse drogado, muitas vezes, sai do CAPS e entra no Abrigo que fica ao lado, com direito a 30 dias de moradia. Com apoio da Prefeitura Municipal, através da Secretaria de Assistência Social, existe a Casa do Andarilho que funciona no Conveima, praticamente com as mesmas funções, mas de estadia mais rápida. 

 

 

PELO BURACO DA AGULHA

   Com suas vistas turvas pelo avançado do tempo em exposição à luz fumacenta do candeeiro, lembro da minha mãe tentando, por várias vezes, passar a ponta da linha pelo fundo da agulha, para remendar as velhas calças puídas do meu pai, desgastadas pelas labutas da roça.

  Lambia o fio várias vezes com as salivas da boca e ficava impaciente, bradava e, por fim, nos pedia para passar a linha. “Êta homem desleixado, esta calça já não suporta mais remendos e ele sempre insiste em tapar os buracos. Esta calça virou um molambo” – desabafava, mas terminava fazendo mais e mais remendos.

  Quando citam aquela parábola, ou metáfora de Cristo, escrita pela Bíblia, feita pelos homens (nem sei se Ele disse isso), de que era mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus, sempre recordo da minha mãe com sua briga entre a agulha, seu buraco e a linha. 

  Muitos religiosos interpretam ao pé da letra. A agulha era um portão estreito das fortificações dos reinos e Ele não quis dizer que o rico ia para os quintos dos infernos. Tudo indica que se referia aos avarentos, soberbos e exploradores dos pobres.

  Desde o princípio da fundação do cristianismo, lá pelos anos 300, a cultura da Igreja Católica sempre foi de consolar o pobre, ser temente a Deus, a tudo aceitar com resignação e sofrimento, pois teria a recompensa dos céus. Era a cultura do comodismo.

  Mas, voltando ao assunto dos remendos nas roupas e da dificuldade da minha mãe, com suas vistas curtas, em ter que passar o fio no buraco da agulha, essas coisas não existem mais nos tempos de hoje. Nem o povo roceiro trabalhador do campo faz mais isso.

  Nada de remendos, com as facilidades nos tempos atuais e a onda do consumismo, até o sertanejo está sempre renovando suas vestimentas, e as esposas não precisam fazer esse trabalho de ficar passando a linha no funda da agulha para costurar os rasgões.

   Quanto ao meu velho pai, naquela época, quando a calça estava nas últimas, sem lugar para mais remendos, de tanto minha mãe reclamar, ele juntava uns trocados e comprava uma “fazenda de pano”, um brim ou uma mescla, como assim era chamado.

   Ficava alegre quando ia à feira ao sábado ou domingo e comprava um corte de calça na loja ou na banca de um mascate. Era uma satisfação danada e estava sempre mostrando o tecido. Apreciava sua textura e a cor por várias vezes.

   – Amanhã cedo vou levar ao seu “Tonho”, o alfaiate das redondezas, para fazer uma calça. Esse pano é bom e bonito – repetia até enjoar. Ficava em pé com esmero para o costureiro tirar as medidas certas e fazia mil recomendações. Procurava saber o dia que o serviço ficava pronto e contando os dias.

   Ah, quando sobrava uns trocados a mais, ele adquiria dois cortes de “fazenda”. Um mais rústico era para a labuta na roça e enfrentar os garranchos. O outro era para uma festa, uma visita aos compadres e, principalmente, para ir à missa na cidade ou nos povoados.

   Quem ficava mais contente com isso era minha pobre mãe, pois ia, pelo menos, passar um certo tempo sem ter que ficar tentando, por várias vezes, passar o fio da linha no fundo da agulha para remendar a calça, ou a camisa.

Para quem não tem uma visão boa, não é fácil enfiar a linha no fundo da agulha. Não resta dúvida que é um desafio, assim como outros na nossa vida do dia a dia.  Mesmo esbravejando, minha mãe não desistia e, às vezes, pedia ajuda. Hoje temos outros obstáculos a enfrentar e muitos desistem nas primeiras dificuldades.    

    

 

O 1o DE MAIO NÃO É MAIS O MESMO

   Há uns 40 ou 50 anos, o 1º de Maio era comemorado no Brasil com grandes manifestações e protestos nas avenidas e praças, com bandeiras, faixas e cartazes onde a ordem era o grito de reivindicações por melhorias trabalhistas. Além de trabalhadores, intelectuais e artistas, os estudantes se uniam por uma mesma causa.  

  Com o tempo, as elites burguesas empresariais, lideradas pelos políticos, esfacelaram os movimentos, enfraqueceram os sindicatos e as centrais com suas reformas escravagistas. Nos últimos anos temos uma comemoração pálida e fora de tom, com shows musicais, comilanças de churrascos, distribuição de prêmios, corridas de maratonas e festas de lazer nos parques.

  Poucos grupos ainda se reúnem para reviver aquele passado que seguia e ainda segue o mesmo ritmo dos movimentos reivindicatórios espalhados por várias partes do mundo, com ordens de justiça social e menos exploração da mão-de-obra.

   É triste de se ver o 1º de Maio do Brasil de hoje, com sua cara alienada, recolhida e oprimida em seu canto, com alguns eventos desafinados em relação à data maior do trabalhador, onde é o patrão que dita as regras, e os operários, sem uma representação digna, baixam humildemente a cabeça.

  Bastam ver as imagens das manifestações nos países europeus, asiáticos e outros continentes e compará-las com as do nosso país. A diferença é gritante. Até parece que aqui vai tudo bem e é um paraíso do bem-estar, da igualdade social e da valorização do trabalhador.

  O ponto principal é o fim da escala 6 por um (milhões de funcionários públicos já têm a escala 5 por dois), como se o resto estivesse em mil maravilhas. Milhões vivem na informalidade, outros milhões trabalhando sem carteira assinada e ocupando várias funções, num regime forçado de escravidão.

 É bem verdade que temos mais mulheres no mercado de trabalho dando duro para ganhar o pão de cada dia, mas recebendo menos que os homens que já têm um salário mínimo e trabalham mais. Quando falo de mulheres, não quero aqui entrar no mérito da cor da pele. Prefiro voltar meu olhar para a meritocracia e a capacidade.

 O Ministério do Trabalho só se ocupa de divulgar estatísticas, muitas delas maquiadas. Não existem mais agentes nas cidades para fiscalizar as empresas urbanas e rurais. Os acordos são ditados pelo capital selvagem, os intermitentes ganham umas migalhas de vez em quando e o trabalhador se submete aos ditames dos senhores para não perder o emprego.   

  O quadro é desolador e não adianta aqui colocar pontos de vistas ideológicos marxistas, com pensamentos acadêmicos intrincados que poucos vão entender. Melhor estampar o quadro da realidade brasileira do atraso, da submissão, dos discursos arcaicos que destoam de um povo que parece ter se entregado à própria sorte, tendo como âncora a religião do Deus que assim quis.

   Só para dar minhas últimas pinceladas, o Dia do Trabalho surgiu em 1886, nos Estados Unidos (hoje humilhado e vivendo sob um regime autoritário), após uma greve geral em Chicago onde milhares de trabalhadores exigiam a redução da jornada para oito diárias. Na época chegavam a 17 horas. O movimento ficou marcado pela repressão com mortes e prisões. Foi a chamada Revolta de Haymarket.

  Na verdade, foi a Segunda Internacional Socialista, reunida em Paris, em 1889, que transformou o 1º de Maio em um dia de manifestação internacional pela redução da jornada de trabalho e homenagem aos mártires de Chicago. No Brasil só foi oficializado em 1924 (sempre estamos atrasados) pelo presidente Artur Bernardes e ganhou força na Era Vargas.       

O VOO DA FEIJOADA

(Chico Ribeiro Neto)

Sempre gostei das seções de achados e perdidos, onde você vê de tudo. Além da vergonha, as pessoas perdem as coisas mais incríveis. Guarda-chuva e sombrinha, nem fale. Uma vez li que no setor de achados e perdidos de uma grande loja uma dentadura se encontrava à espera do dono.

Tem gente que perde documento, cachorro, gato, perde até o menino.

Na década de 70, Osmar Macedo, o criador do trio elétrico ao lado de Dodô, aparecia com uma sacola na Redação do jornal A Tarde, depois do Carnaval. Levava documentos (identidade, carteira funcional, carteira de habilitação, etc.) que os ladrões arremessavam para dentro do trio elétrico, que era bem mais baixo do que atualmente. Alguns ainda gritavam ao atirar o documento: “Segura aí, Osmar!” Ladrão não gosta de ficar com documento de quem roubou, pois o compromete. Procura logo se desvencilhar dele.

O jornal A Tarde publicava a relação dos documentos trazidos por Osmar e os interessados iam pegá-los na Redação.

Algo me fez lembrar a crônica “Calcinhas Secretas”, de Ignácio de Loyola Brandão. Um cara compra calcinhas baratas no camelô e, secretamente. as espalha pelos cinemas durante a sessão. Ao final do filme, assiste às reações dos espectadores e funcionários.

“Esgotados os cinemas do centro, ele foi para o shopping. Os resultados foram melhores. No primeiro dia, deu a maior repercussão. Um pai ia sentar-se com as filhas, percebeu a calcinha no chão. Chamou o gerente, chamou todo mundo, fez escândalo, chamou o administrador do shopping, gritou que ia processar, retirou-se empurrando as jovens que riam, excitadas”, diz a crônica.

Em avião não se serve feijoada. A comida foi junto com a bagagem. Uma feijoada despachada de Salvador para Curitiba.

Há alguns anos, a jornalista Sônia Araújo recebeu em Salvador um casal amigo de Curitiba.  “Caprichei numa feijoada, gostaram muito, aí prometi mandar uma depois”. Eles não acreditaram muito.

Sônia embalou a feijoada para 5 pessoas muito bem embalada e despachou o pacote de avião para Curitiba. Dois dias depois, nada de chegar. Somente no quinto dia foram encontrar o delicioso pacote: estava num depósito do aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, onde o avião fez escala.

Feijoada perdida, Sônia pediu indenização à empresa de aviação. Recebeu a grana e comentou: “O dinheiro dava pra fazer umas dez feijoadas da que mandei”.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

A CAATINGA É MÁGICA E MISTERIOSA

HOMENAGEM AO DIA NACIONAL DA CAATINGA

  Quando falamos da caatinga, logo nos lembramos do Nordeste, do homem retirante do seu torrão natal para fugir das secas, do rei do Baião, Luiz Gonzaga, com suas canções, de Patativa do Assaré, de Catulo Cearense, da lua enluarada, dos grandes cancioneiros, trovadores e repentistas, de Lampião, dos cangaceiros nos embates e cortando espinhos para fugir das volantes, da marcha de Luis Carlos Prestes e da terra árida.

 A caatinga também nos faz lembrar do isolamento da sua gente durante séculos, dos coronéis opressores dos oprimidos, dos grileiros da terra, dos chefes políticos mandatários, dos jagunços e pistoleiros, das homéricas brigas entre as famílias, das injustiças sociais contra o povo, do misticismo, das crendices e messianismo religioso, do homem forte e valente e até do sangue jorrando das vinganças.

  Você é única e não está em nenhum outro lugar, mas também tem suas subdivisões, suas características próprias, ás vezes mais agreste, fechada, mais rala, com árvores baixas e outras altas e até pedregulhosa, com suas colinas, morros e um pôr-do-sol encantador, poético e sublime.

  Ah minha caatinga onde nasci e me sinto com orgulho em ser seu filho legitimo! Você é mágica e guarda seus mistérios, lendas e mitos, cinzenta nas secas e florida nas chuvas, quando de si exala o cheiro da terra. Nas aguadas, a flora dá sua flor e a bicharada faz sua festa. Você é a única no mundo onde o sertanejo é o desbravador, valente e destemido.

  Dia 28 de abril é comemorado o Dia Nacional da Caatinga, instituída para conscientizar sobre sua preservação, mas, infelizmente, continua sendo devastada e, em alguns lugares, se tornou desértica onde a terra vira sal.

Seu nome, do tupi-guarani, significa mata-branca, devido a cor da vegetação durante as estiagens. Possui mais de cinco mil espécies diferentes e exclusivas. Lá estão o juazeiro, a jurema, o umbuzeiro, que gera o saboroso fruto e água de suas raíses, a macambira, a baraúna, a aroeira-do-sertão, o angico, a catingueira, a barriguda, a quixabeira, a palma, o cacto e o imponente mandacaru, o mais resistente e símbolo da região.    

  O dia também foi criado para homenagear o professor e ambientalista João Vasconcelos Sobrinho, pioneiro nos estudos ecológicos no Brasil. Pena que atualmente, conforme as pesquisas, tem sido o bioma onde mais se desmata e o que mais perde sua vegetação, mas é nordestina com todo seu potencial cultural que encanta o Brasil e o mundo.       





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