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AS PREVENÇÕES CONTAS AS CHUVAS
A questão da morte da senhora Rosânia que foi tragada pelas águas das chuvas, no canal da Avenida Caracas, na semana passada, foi amplamente debatida pelos vereadores durante a sessão ordinária desta sexta-feira (dia 13/03), realizada pela Câmara Municipal de Vitória da Conquista.
O vereador Andreson conclamou a todos a fazerem uma reflexão sobre o acontecido e dirigiu duras críticas ao poder público municipal que, de acordo com ele, foi omisso em não ter tomado as devidas providências de proteção em torno do local, tendo em vista que ocorreu o mesmo em novembro passado com um senhor que, felizmente, conseguiu sobreviver.
“O poder municipal foi omisso na morte de dona Rosânia” – enfatizou o parlamentar, alertando que a cidade precisa estar preparada para suportar os temporais advindos das mudanças climáticas que estão atingindo, não somente Conquista, mas todas as partes do Brasil e do planeta.
O parlamentar Luciano Gomes também foi no mesmo tom sobre a morte da senhora, dizendo que foi uma fatalidade anunciada. Destacou que a área do canal na Avenida Caracas precisa de grades de proteção e não de ser fechada, como foi feito.
Na ocasião, Luciano parabenizou o deputado estadual Fabrício Falcão que, em nome do Governo do Estado, fez a entrega de motos para motociclistas que não cometerem infrações nos últimos anos. A vereadora Lara usou também a tribuna para falar sobre a morte de dona Rosânia e agradeceu em público a todos que contribuíram diariamente pela busca do seu corpo.
Além das falas dos vereadores, a sessão ordinária discutiu diversos projetos da pauta, como a proposta que cria o Dia Municipal de Luto e de Memória às Mulheres Vítimas de Feminicídio.
Foram debatidos ainda o projeto que institui o Dia Municipal do Policial Veterano, a ser celebrado anualmente no dia 13 de junho, bem como a matéria que reconhece a escola bíblica dominical como patrimônio cultural e imaterial do município.
O CÃO RECONSTRUÍDO
(Chico Ribeiro Neto)
Numa encosta da Avenida Centenário, há alguns anos, surgiu a escultura de um homem com o cachorro na coleira, tudo feito com material reciclável, principalmente garrafas PET.
No Carnaval destruíram o cachorro e arrancaram o braço de Q-Boa do rapaz. Pois bem, a escultura de André Fernands ressurge agora, reconstruída e mais bonita. A expressão do homem é de PET, mas é de paz. Todo branco, com orelhas pretas, o cão renasceu. O trabalho de André Fernands fica numa encosta da Avenida Centenário (sentido Calabar).
“Transformando em arte aquilo que o mundo descarta como lixo”, diz André Fernands no seu Instagram (@andrefernands2009), onde se define como “artista plástico, palestrante, catador de resíduos e ambientalista, pai de João Paulo Fernandes”.
“Trabalha há mais de 30 anos com resíduos plásticos, transformando lixo em arte e embelezando a cidade de Salvador”, diz matéria sobre ele postada nos site noticiasavera.com.br em 29/4/2024, acrescentando: “Uma de suas obras mais conhecidas é o Bandeirão dos Jogos Olímpicos do Rio 2016, composto por cerca de 300 mil tampinhas de garrafa PET. Essa obra levou 6 anos para ser concluída e contou com a participação de crianças do projeto Praia Limpa na coleta das tampinhas pelas praias de Salvador”.
André Fernands tem vários trabalhos espalhados por Salvador que podem ser vistos no seu Instagram. Parabéns, grande artista, você reage aos dilapidadores e torna essa cidade menos cinza.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
NO PARAÍSO DA CORRUPÇÃO
Estava aqui pensando falar daquele sujeito João Valentão, o falastrão, também conhecido como Cachorro Louco, que sai por aí fazendo arruaças e se achando o dono do pedaço. Mija em postes e árvores para demarcar seu território. Comete bullying com atos agressivos contra os outros até que uma hora entra numa enrascada danada e encontra um pela frente do tipo osso duro de roer.
O João Valentão não pensa (neurônios lesados), não tem estratégias e acha que está sempre sem razão. Acontece que um dia ele vai parar nos quintos dos infernos com a boca cheia de formigas. Com suas garras afiadas, ele abocanhou um coelho, tomou gosto e se estrepou com uma alcateia e uma matilha unidas para se defender do raivoso, mas isso é outro assunto.
Vamos ao caso do paraíso da corrupção, coisa genuinamente brasileira, criada e patenteada há séculos pelos portugueses. Com o tempo, o trambolho foi se sofisticando como produto de exportação, com know-how próprio. Na Operação Lava-Jato, por exemplo, essa máquina de destruição em massa foi transportada para diversos países, principalmente para as Américas de Cabral e Colombo.
Com os avanços tecnológicos, a fera monstruosa de sete cabeças, com várias pernas, bocas e mãos, que vai devorando tudo pela frente (a bicha é faminta), estendeu seus tentáculos e ficou ainda mais intrincada para ser decifrada. Tornou-se o enigma da Esfinge de Tebas, “decifra-me ou te devoro”, da mitologia grega.
Conta que a criatura impede a passagem dos viajantes (nossa gente escrava do trabalho) e propõe um enigma, se o andante não responder corretamente, será devorado. É um desafio complicado que precisa ser interpretado, sob risco de graves consequências, como ser consumido inteiro. Dela não escapa nem a alma.
– Percebeu, meu camarada, como a corrupção no Brasil, com o passar dos anos, ficou mais complexa! Tem esquemas, como do Banco Master e outros na área financeira que, por mais que se explique, não se entende bulhufas! É um cipoal de negócios, de tramas, lavagens de dinheiro, teoremas de Pitágoras, teorias aristotélicas que poucos conseguem destrinchar a equação. Eu mesmo fico boquiaberto.
Tem coisa por aí que para ser decifrado, tem que chamar um matemático dos bons ou um analista de sistema com doutorado para fazer um organograma de como tudo funciona. Não é mole não. A maioria inculta dos brasileiros passa batida, sem falar que os mentores batem pé firme de que são inocentes e até vítimas.
Não se faz mais corrupção como antigamente, ao modo analógico estelionatário do 171, desviar o dinheiro de uma caixa público para seu próprio bolso ou falsificar um documento para ganhar uma graninha, sem valor expressivo. Atualmente só se fala em bilhões.
– Seja bem-vindo, meu amigo, ao paraíso da corrupção, mas se prepare para quebrar a cabeça se quiser entender sua engrenagem tecnológica onde estão infiltradas quadrilhas organizadas do narcotráfico (PCC, Comando Vermelho e outros), milicianos, banqueiros, advogados, empresários de diversos ramos, magistrados, políticos salafrários e até sicários, para matar quem se intromete em investigações ou sai da linha. Eles têm até “código de ética”.
Estou dizendo que a Esfinge de Tebas, agora do Brasil, com ramificações internacionais, foi se multiplicando em outras réplicas em milhares de milhares, com faces diferentes, difíceis de serem reconhecidas. Existem até cursos, com diploma e tudo, para ser um corrupto profissional. Se quiser, você pode até contratar um, a peso de ouro.
Com a introdução de fórmulas genéticas anômalas, esses seres cortantes se transformaram em formigas gigantes devoradoras de extensas lavouras. Nem formicidas ou venenos de ratos conseguem exterminá-las. A corrupção brasileira ganhou classificação e até selo de qualidade.
– Você está achando que estou exagerando? Se vê por esse prisma, é só ir acompanhando seu processo evolutivo animal, como na teoria do cientista inglês Charles Robert Darwin (1809-1882), estudioso da seleção natural (Origem das Espécies).
De acordo com sua teoria, as espécies se evoluem ao longo do tempo através da seleção natural, onde organismos mais adaptados ao ambiente têm maior chance de sobreviver e se reproduzir. Prefiro ficar com o macaco na sua origem natural, bem melhor e inofensivo do que esses humanos perversos, monstruosos e criminosos.
– Pois é, meu compadre, a espécie chamada de corrupção se adaptou muito bem no Brasil onde encontrou terreno fértil e bem adubado para se reproduzir. Nem a turma do Caça Fantasmas consegue acabar com essa peste maligna de belzebus.
VEREADORES VAO AO GOVERNADOR PEDIR OBRAS DE MACRODRENAGEM
Os vereadores Ricardo Babão, Gabriela Garrido, Paulinho Oliveira e Ricardo Gordo, acompanhados do presidente da Câmara, Ivan Cordeiro, estiveram, nesta quarta-feira (dia 11/03), com o governador Jerônimo Rodrigues, em Salvador, solicitando a realização de obras emergenciais de macrodrenagem para Vitória da Conquista.
Os deputados estaduais Vitor Azevedo e Fabrício Falcão também se fizeram presentes ao encontro quando foi discutida a importância do apoio financeiro do Governo do Estado, para viabilizar intervenções estruturantes que ajudem reduzir os alagamentos e melhorar a infraestrutura urbana do município que não mais suporta as fortes chuvas com as mudanças climáticas.
Além da macrodrenagem, outras demandas estratégicas foram apresentadas, como a construção de viadutos no Anel Viário, visando melhorar o fluxo de veículos e reduzir o número de acidentes na cidade.
Na ocasião, os parlamentares ainda requereram do governador a implantação de uma maternidade regional, a instalação de mais uma unidade do SAC, na Zona Oeste, bem como avanços em projetos ligados à saúde e à educação superior.
No encontro, foi também discutida a necessidade do fortalecimento do campus da Universidade Federal da Bahia, em Conquista, incluindo a construção de um Hospital Universitário e criação de uma reitoria própria para a instituição.
Ivan Cordeiro assinalou que foi apresentado ao governador, em nome da Câmara Municipal, uma pauta importante para Vitória da Conquista, destacando que o diálogo institucional é fundamental para garantir avanços para a cidade.
O presidente da Casa ressaltou que a macrodrenagem é uma prioridade, “porque precisamos de obras estruturantes que ajudem a resolver os problemas históricos de alagamentos” que chegaram ao ponto de provocar vítimas com mortes. A agenda faz parte de uma série de encontros institucionais destinados à apresentação de demandas urgentes de Vitória da Conquista ao Governo do Estado.
ESTOU CHEIO DA CIDADE GRANDE
Nasci na roça e logo cedo fui trabalhar com meu pai. Fora os perrengues da vida, apreciava ouvir as conversas daquela gente simples do sertão, dos compadres compartilhando suas vidas, proseando e fazendo cantorias nos adjutórios das plantações e nas batidas de feijão. Os velórios e funerais também faziam parte do roteiro da vida.
Ainda moleque, aos dez ou doze anos, fui ganhando mundo. Primeiro em Piritiba, onde cursei o primário e fiz muitas tripolias naquelas ruas de chão batido. Depois Mundo Novo como sacristão do seu vigário que me indicou ao bispo para o seminário. Ruy Barbosa, Itaberaba até ingressar no Seminário de Amargosa.
Quis meu destino que caísse na cidade grande da capital Salvador baiana onde fiquei por lá durante mais de 20 anos. Tornei-me bacharel em Jornalismo e atuei como profissional, especialmente na área de economia. Chegaram até a me confundi como economista.
Quando estava cheio da cidade grande, entojado daquelas correrias para sobreviver, dando meus pulos de galho em galho, como um macaco perdido na multidão, bateu a estafa no coração e vim para Vitória da Conquista, que me deu régua e compasso.
Senti que estava retornando às minhas raízes, mas foi engano porque, além das labutas desenfreadas, a cidade cresceu e me engoliu. A idade vai avançando e me vejo irrequieto nesse labirinto, no qual me sinto um perdido.
Não tenho mais aquele tesão de sair de casa para vagar pelo centro resolvendo “pepinos” entre ruas e repartições burocráticas e me livrando dos carros com seus gazes tóxicas. O ar está contaminado de fumaça, alaridos e letreiros por todos os lados. Nesse aperreio, tenho a sensação de pânico.
Estou espremido como massa de mandioca numa prensa de casa de farinha. Não mais me apetecem esses eventos. Prefiro ficar em minha loca, ou caverna, como um eremita recluso. Dizem que o sofrimento fortalece a alma para enfrentar as adversidades, mas ninguém deseja sofrer. Seria masoquismo.
Estou mesmo cheio da cidade grande e bate a saudade daquela terrinha simples entre os caipiras, matutos e tabaréus, falando aquela língua do povo, sem as maldades e as falsidades das cidades grandes. São falas que ainda se conservam verdadeiras e sinceras.
Não tenho a pretensão de ir para a Passárgada, de Manuel Bandeira, mas, em meu torrão, serei rei. Lá não existem filas e todos conhecem todos. Nas repartições, as pessoas são solícitas e tudo é rápido e fácil de se resolver. Depois, vou dar boas risadas com a alcoviteira linguaruda de dona Delfina que adora uma fofoca e um fuxico.
Com os compadres vou ouvir e contar causos do passado, sem nem se preocupar que o mundo está pegando fogo com ogivas, drones e foguetes mortíferos cruzando os céus. Vou até esquecer que existe o Cachorro Louco que quer ser o dono do mundo.
Para a bandidagem corrupta que vive todo tempo depenando o Brasil, desejo que esses salafrários salteadores vão todos para o quinto dos infernos.
Podem dizer que estou “fugindo da raia”, da luta e da guerra, mas é que não aguento mais esse emaranhado, esse cipoal de tantas maldades, ideias idiotas e estapafúrdias. Com as injustiças sociais, vai-se morrendo mais depressa. Quero deixar essa UTI e acho que pelo tempo, vivendo neste quarto escuro, mereço respirar ares mais puros, num espaço mais amplo e limpo.
Estou de saco cheio da cidade grande onde meu lugar não é mais aqui, correndo pra lá e pra cá, como um escravo freguês das contas de todo mês, além da apertada feira, cada vez mais racionada. Minhas últimas gotas de sangue estão se esvaindo para manter um falso padrão nesta ilusão da cidade grande.
Meu templo está poluído, com teias de aranha. Não sou mais gente dessa gente, mas um peixe fora da água. Meu lugar não é mais aqui na cidade grande em meio a esta selva de concreto. Não faço mais parte deste tabuleiro onde todos só querem ser vencedores. Preciso partir para respirar.
CONSULTE O “PAI DOS BURROS”
Certa feita, um professor de português, de certa forma debochado – hoje politicamente incorreto – depois de falar sobre conjugação verbal, uso dos pronomes, conjunções e objetos diretos e indiretos, no final da aula contou uma piada, sem muita graça.
Disse que um moço mais letrado, mas um tanto exibido, entrou num bar e chamou o garçom de lacaio para lhe servir. Como se fosse um elogio à sua pessoa, o cara foi lá em sua mesa, todo sorridente. Ele fez mais uns gracejos com palavras difíceis.
Poucos alunos riram, mas um lá do fundo, da chamada turma do “paredão”, indagou do professor o que significava lacaio e ele respondeu, consulte o “Pai dos Burros”.
A moçada de hoje ficaria baratinada com esse termo “Pai dos Burros”, e seria preciso explicar que se trata do nosso tirador de dúvidas, o Dicionário, nos dias atuais praticamente em desuso. Infelizmente, grande parte da nossa juventude, além de escreve errado, tem o celular para fazer uma consulta. Poderia ser chamado de o “Pai dos Internautas? Tenho minhas dúvidas, porque ainda prefiro o “Pai dos Burros”.
Lembro que naquela época do meu primário, ginásio e do clássico, todas escolas tinham um Dicionário, e até em algumas salas. A gente ficava brincando de falar difícil como forma de gozação e xingar os colegas. Era o bastante para o ofendido recorrer ao “Pai dos Burros”. Muitas vezes resultava até em brigas.
Imaginou chamar outro de meruxinga, ou até mesmo merdáceo! Seria uma forte ofensa, mas nossos políticos são uns verdadeiros merdáceos. Se você não sabe o que é, então, consulte o “Pai dos Burros”.
Um dia ouvi um doutorzinho, num lançamento de um livro, pronunciar que a nossa língua é pobre e fraca de vocabulário. Confesso que fiquei estarrecido e irado. Não me contive e fui tirar satisfação, com os bofes inchados de raiva. “Como você diz que nossa língua é pobre? É a primeira vez que ouço isso em minha vida”.
Por essas e outras é que a nossa língua está sendo chafurdada na lama pelo complexo de inferioridade, ou perda cultural. Santa ignorância! Os letreiros nas lojas estão todos inglesados. Nos shoppings até parece que você está na Inglaterra ou nos Estados Unidos.
As pessoas metidas a bestas, como dizia Ariano Suassuna, se sentem chicosas e ainda ridicularizam quem não pronuncia corretamente os termos ingleses, como se fosse uma obrigação, mas falar o português errado, pode.
Em Paris, me recordo bem, fui a uma tabacaria e pedi uma carteira de cigarro Lucky Strike e tive o cuidado de carregar bem na pronúncia do “estraike”. O francês me olhou atravessado e corrigiu para “estrike”, como estava escrito. Sem mais comentários.
Bem, meu camarada, vamos voltar ao nosso “Pai dos Burros” da língua portuguesa, umas das mais difíceis do planeta, extraída da Flor do Lácio, o nosso latinorum, mas nela está embutida o grego (conquista dos gregos pelo Império Romano), expressões árabes (Península Ibérica), o tupi-guarani e o africanês.
Temos como palavras greco-latinas, biblioteca, raramente frequentada, democracia, injuriada pelas injustiças e as corrupções, oftalmologia, biologia, geografia, habeas corpus (latim), usadas pelos bandidos e sicários. O grego é comum em terminologias técnicas/científicas, enquanto o latim forma a base gramatical e vocabular, como avicultura, beligerante, cordial, grátis e por aí vai.
Em árabe existem mais de três mil palavras. As mais comuns são as iniciadas em “al”, como almofada, almoxarife, algodão, açúcar, alface, fulano, armazém, azeite, alicate, tambor e tantas outras. No tupi-guarani, temos abacaxi, açaí, caju, capivara, jacaré, pipoca, potiguara. Do africano, principalmente originárias dos grupos bantos, usamos muito o samba, dendê, cafuné, moleque, dengo, quitanda, fubá, bagunça e muvuca (casos do nosso país), berimbau, axé, cuíca, quilombo, senzala e tantas outras.
No “Pai dos Burros”, que se tornou arcaico nos ensinos escolares dessa modernidade burra, você vai encontrar todos os significados dessas palavras, mas sua preguiça não deixa, meu jovem, cujos neurônios estão voltados para as telas das fofocas e dos mexericos.
Coitado do nosso “Pai dos Burros”! Parece até um objeto contagioso. Ficou lá encostado num canto poeirento como se fosse um leproso. Quem se lembra aí das enciclopédias Barsa, Atlas, do famoso Dicionário Aurélio Buarque de Holanda Ferreira com José Batista da Luz, do Michaelis, do professor Alpheu Tersariol. Deixa quieto porque muitos dos nossos estudantes nunca ouviram falar nesses nomes e nem sabem como manusear um “Pai dos Burros”.
Estou lendo a obra do médico e antropólogo, Estácio de Lima, sobre o cangaceirismo e sempre tenho que recorrer ao “Pai dos Burros”, quando ele faz sua descrição estrambólica mesológica do árido solo nordestino e fala das características típicas do cangaceiro que enfrentava adversidades das caatingas, fugindo das persigas das volantes.
Com suas definições, vim descobrir que sou um leptossomático (alô meus amigos Itamar, Manno e Luís Altério!), e não um picnóide ou picnídio (alô meu amigo Dal Farias!), que não teria o devido atributo de se mobilizar com facilidade nos sertões do cangaço. O mestre ainda cita a esquizotemia, o hipogenitalismo e a melanodermia na classificação do cangaceirismo e do nordestino em geral.
No computador, ou no celular, essas palavras são assinaladas como desconhecidas ou erradas. Pois é, não vou traduzir minha modesta crônica. Quem quiser entender melhor que consulte o “Pai dos Burros”. Êta égua! Tô ferrado!
PROGRAMA “MEU LAR”
Está em fase de análise pela Câmara Municipal de Vitória da Conquista, em conjunto com o poder executivo, o Programa de Lei Complementar que institui e disciplina a criação da moradia “Meu Lar”, visando reduzir o déficit habitacional de Conquista de mais de dez mil famílias.
O presidente da Câmara, Ivan Cordeiro, prometeu dar celeridade ao programa, devido a relevância social da iniciativa que contará com recursos de 30 milhões de reais dos 400 milhões de empréstimo da Caixa Econômica Federal. Ivan adiantou ser preciso avançar na política habitacional. “Esta matéria terá toda agilidade do legislativo”.
Além da proposta, a Prefeitura Municipal também pretende implementar a regularização urbanística e fundiária em áreas ocupadas por populações em situação de vulnerabilidade. A presidência da Câmara assinalou que existe um consenso entre os vereadores sobre a urgência do tema.
“Meu compromisso como presidente da Casa é conduzir um debate maduro e ágil, permitindo que o Programa “Meu Lar” saia do papel o quanto antes, dentro do rigor técnico para que o benefício chegue de fato às famílias mais necessitadas, principalmente às mulheres chefes e aos idosos”.
Foi elaborado um diagnóstico habitacional do município que serviu como base para a definição das prioridades e das estratégias da política habitacional. A proposta ainda atualiza a legislação municipal, alinhando-a às diretrizes do Estatuto da Cidade e às políticas nacionais de habitação.
Durante a sessão ordinária de ontem (segunda-feira, dia 09/02), o legislativo discutiu diversos projetos de interesse da comunidade, como a proposta que cria a autorização para o sepultamento de animais domésticos de estimação em jazigos, túmulos ou campos pertencentes aos seus tutores nos cemitérios do município.
Os parlamentares discutiram também a instituição do Dia Municipal de Conscientização sobre Experiências Adversas na Infância (ACEs) a ser comemorado no dia 20 de setembro, bem como, a proposta que estabelece o Dia Municipal da Ação Climática no âmbito do município.
SESSÃO ESPECIAL DA MULHER
Para comemorar o Dia Internacional da Mulher, que acontece neste domingo (dia 08/02), a Câmara Municipal de Vereadores de Vitória da Conquista realizou, nesta sexta-feira (dia 06/02), uma sessão especial onde se discutiu diversas questões relacionadas às mulheres.
Na ocasião, muitas mulheres foram homenageadas, como as ex-vereadoras Lúcia Rocha e Ligia Matos, além de tantas outras que atuam e lutam em defesa da categoria. A sessão foi presidida pela parlamentar Gabriela Garrido, que já foi delegada da mulher em Conquista.
A violência contra a mulher, que vem aumentando, esteve presente nas falas de todas que usaram a tribuna para expor seus pontos de vista a respeito do universo feminino. Segundo elas, o machismo ainda continua muito presente nos dias atuais, apesar das mudanças.
A ex-vereadora Lúcia Rocha, que já exerceu oito mandatos em Conquista, disse que durante este período sempre assumiu o compromisso de defender a mulher em todas suas atividades, inclusive através da inclusão de políticas públicas.
Lembrou que chegou a ser a única mulher vereadora do município, citando que hoje são cinco cadeiras. Para ela, ainda é pouco, mas já foi um avanço importante na história política da cidade. “Precisamos avançar muito mais”. Na oportunidade, expressou seu desejo de que Vitória da Conquista venha a construir um hospital exclusivo para as mulheres.
Ligia Matos agradeceu a homenagem e conclamou a todos presentes a lutarem cada vez mais por políticas públicas voltadas para as mulheres. Apontou que ainda existem muitas desigualdades sociais e de gênero. “Infelizmente, ainda não temos os 30% de mulheres no legislativo, conforme está previsto”.
No início do seu mandato, entre 2000/08, Lígia destacou que naquela época existiam muitas candidatas laranjas somente para preencher as cotas, e que foi uma defensora para que esse esquema não perdurasse.
Quanto a violência contra a mulher, Lígia ressaltou que os fatos comprovam aumento nos últimos anos e citou que, em 2025, somente em Conquista, 723 mulheres pediram proteção.
Márcia Viviane elogiou a ação do presidente da Casa, Ivan Cordeiro, por ter criado a bancada feminina, mas alertou que “ainda temos muito a conquistar”. Apesar de todo arcabouço das leis, de acordo com Viviane, a violência contra a mulher ainda é crescente.
Destacou que a mulher tem uma carga de trabalho exaustiva e conclamou os homens a ajudarem mais no dia a dia da casa. Afirmou que o Dia Internacional da Mulher deve ser de reflexão e finalizou dizendo que “queremos viver sem medo de agressões e abusos”.
SAUDADES DE A a Z
(Chico Ribeiro Neto)
Crônica publicada no jornal A Tarde em 24/7/91)
Você já passou a limpo uma agenda de endereços? Todos hão de concordar que é um grande porre. A minha agenda velha estava caindo aos pedaços e entupida de nomes. Estava daquelas em que uma letra já começa a invadir a outra e quando você abre na letra A, a Z já está caindo no chão.
Há seis meses eu tinha comprado uma nova agenda que estava guardadinha na gaveta. Era só olhar pra capa dela, verde, e lá vinha a preguiça. Só muita disposição para iniciar a empreitada, mas felizmente já consegui terminar a missão de passar a limpo todos os nomes e endereços. Todos, não, pois a outra agenda tinha tanto tempo que tive de riscar alguns nomes cujas pessoas já tinham morrido.
Quem não morre, na verdade, é a minha velha agenda. Como que aborrecida, despetalando-se, ela soltou a capa esta semana, justamente quando eu estava terminando de preencher a agenda nova. Ciúme puro. Cadê coragem para jogá-la no lixo? Coloquei-a ao lado da nova e ela ficou lá, com um certo jeito de sabedoria que os mais velhos costumam ostentar. Foi dito e certo. No dia seguinte, precisei de um telefone cujo nome eu tinha pulado na hora de copiar. Corri rapidamente à agenda velha e lá estava a pessoa que estava procurando.
Copiar nomes, endereços e telefones só é tarefa chata no começo. Depois, começam as lembranças. Aquela prima de Jequié para quem nunca mais você ligou, o colega de ginásio que você encontrou na rua e que hoje é dono de hotel e um telefone mais do que providencial: o do orelhão da barraca de Seu Isidro, que recebe chamada e que permite sempre encontrar um colega do jornal por lá, entre uma cerveja e pratinhos de amendoim cozido.
Me aconselharam comprar uma agenda eletrônica, “você precisa se adaptar aos novos tempos, rapaz. Ela cabe até 500 nomes e é só você apertar o botão e PUFO!, aparece logo o nome que você deseja”.
Muito obrigado, prefiro ainda a agenda manual, onde posso colocar, além de endereços e telefones, a conta de luz, um recorte de jornal, o recibo do condomínio, resultados de exames e o último extrato do banco. De vez em quando, uma faxina, mas logo logo ela está gordinha de novo.
A agenda velha agora só tem a contracapa. Está amarrotada de tanto manuseio, mas não vai pro lixo. Aposenta-se com um merecido repouso na gaveta.
(Observação: essa crônica foi escrita há 34 anos. Uso agenda de papel até hoje e alguns nomes mortos me surpreendem. Lá está também, de forma cifrada, o emaranhado de senhas que nos obrigam a usar para sobreviver. guianaselvaabcinfinitoperto@tudojuntosemacento*1948pi).
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
E OS EQUIPAMENTOS CULTURAIS?
A Secretaria de Cultura de Vitória da Conquista vem anunciando a elaboração do Plano Municipal de Cultura através de reuniões com diversos setores das artes, e agora com escutas territoriais que, segundo o poder público, orientará as políticas culturais pelos próximos dez anos. Por que não, vinte anos?
Para este ciclo de debates será utilizada a Carreta da Cultura, tendo como objetivo assegurar a participação popular e democrática, de modo que contemple as comunidades conquistenses. Diz a Secretaria que a partir dessa etapa serão definidas metas e ações que irão compor o documento.
Pelo tempo que os artistas da cidade vêm cobrando este plano, mais parece “coisa para inglês ver”. Como tudo nesse Brasil e, particularmente, em nossa Bahia, é lento e atrasado, quando ele chegar, muitos já se foram na poeira do tempo, sem falar que deixamos de realizar diversas ações e atividades importantes.
Nos últimos meses só se vem falando nisso, como se fosse uma tática da Prefeitura Municipal de que está mesmo preocupada com a cultura (não engulo essa), ou uma maneira de se esquecer de outros problemas cruciais envolvendo o setor. Para ser sincero, nunca vi um governo tão apático com relação à nossa cultura.
Com esse plano, pra lá e pra cá, ninguém comenta mais sobre os equipamentos culturais que estão fechados há cerca de dez anos. Estão abandonados e entregues à destruição do tempo, principalmente com essas chuvaradas. Vamos repetir aqui a grave situação do Teatro Carlos Jheovah, o Cine Madrigal e a Casa Glauber Rocha.
Esses espaços, se ativos estivessem, estavam sendo utilizados pelos artistas em geral para realização de seus ensaios e espetáculos, beneficiando toda sociedade, inclusive os empresários do comércio.
Infelizmente, essa categoria empresarial não tem a mínima noção disso e trata a cultura como se fosse um patinho feio. Definitivamente, a mentalidade desse segmento é atrasada e só pensa em juntar dinheiro para adquirir imóveis e colocar o dinheiro nos colchões bancários.
Há muitos anos tenho cobrado a elaboração desse plano, desde quando fui presidente do Conselho Municipal de Cultura, mas emperraram os trâmites. Pelo período de enrolação, entendo, dentro da minha modesta visão, que a abertura dos equipamentos seria prioritária.
O que mais me incomoda mesmo é que o poder executivo fez um voto de silencio quanto a esses equipamentos, como se eles não fizessem mais parte dos planos da cultura. Será que a prefeitura tem a intenção de vender essas edificações históricas para o setor imobiliário, ou deixá-las esquecidas até que caiam?
Sei que o nosso povo, pela sua própria ignorância e falta de instrução, nem está aí para as questões da cultura e nem sabe que sem a arte somos apenas animais desalmados e brutos. O que essa gente quer é pavimentação de ruas, e é até compreensível.
No entanto, é de responsabilidade dos poderes constituídos zelar, preservar e incentivar a cultura, porque não somente de pão vive o homem. Para lamento, tristeza e vergonha dos mais esclarecidos, Conquista já foi uma cidade cultural. Infelizmente, hoje não é mais.











