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“A FOGUEIRA DAS VAIDADES”

As vaidades do ser humano estavam represadas até o advento da internet e das redes sociais nos aparelhos de celulares e os avanços tecnológicos de interatividade nos canais televisivos. Abriram-se as porteiras das boiadas. A impressão que passa é que todos estavam presos nos armários.

Existe uma necessidade premente de se aparecer, não importando se de forma ridícula e até expondo suas privacidades mais íntimas. Não se valoriza mais o ser simples e humilde, não aquela humildade de se baixar a cabeça e a tudo aceitar e concordar.

Quem já assistiu ao filme “A Fogueira das Vaidades”, de Brian de Palma, com Tom Hanks, Bruce Willis, no papel de um jornalista sem prestígio e Morgan Freeman, um juiz fanfarrão e sem papas na língua, vai perceber como funciona esse jogo e o desejo devorador do humano de se mostrar para a sociedade, numa ansiedade de se notabilizar, mesmo que de maneira superficial e leviana. O filme foi baseado no best-seller de Tom Wolfe.

Acho até que todo jornalista deveria assistir essa obra cinematográfica por ser uma categoria onde muitos se perdem no caminho das vaidades, achando que são deuses e celebridades, quando deveriam estar simplesmente à serviço da notícia, guardando suas devidas proporções de modo a não se expor. A vaidade faz o profissional afastar-se do foco da responsabilidade e termina caindo na parcialidade, sem ética e escrúpulo.

Minha intenção não é focar a vaidade na classe jornalista, mas das pessoas comuns que buscam uma fama efêmera e vazia, de dois ou três minutos, principalmente nas redes sociais, com vídeos idiotas e imbecis, sem nenhum conteúdo, com intuito apenas de chamar a atenção, como se dissesse: Olha gente, estou aqui, eu existo.

São dancinhas esquisitas e exóticas, papagaiadas, rebolados, bundas e pernas de fora, inclusive de mulheres que acham que tais atitudes são demonstrações de empoderamento, quando, na verdade, estão sendo objetos e se rebaixando.

Não se trata de uma questão de conservadorismo, mas de coerência com o que se prega, quando na prática faz-se o contrário. Estou falando também dos homens. Perde-se o respeito por pura vaidade, se não me engano, um dos pecados capitais, ao lado da inveja. Todo vaidoso é invejoso. Nem é preciso dizer que nesse mundo moderno contemporâneo, escrachado e inescrupuloso houve uma grande inversão de valores.

O que mais se vê e se ouve nas redes sociais são pessoas sem nenhum preparo e formação, arrotando um monte de besteiras, sem nenhum fundamento e, do outro lado, milhões, automaticamente, clicando no sinal curtir, tornando-se seguidores de bobagens e exibições corporais. O pior é que os pais de hoje jogam as crianças nesses lances fúteis e inúteis, deformadores de personalidades.

Agora inventaram o tal do influenciador (a) digital de um povo que entra na onda e consome tudo que cai na rede, mesmo sendo peixe podre. Infelizmente, por falta de educação, cultura, conhecimento e saber, a nossa população de hoje idolatra o besteirol e o charlatanismo, como no caso desse BBB dentro de uma casa, dizendo que tudo ali é uma grande aprendizagem para a vida.

Vivemos num mundo das fogueiras das vaidades com seus milhões de seguidores. Isso acontece também na política e em tantos outros segmentos da nossa sociedade.  A vaidade leva as pessoas a passarem a rasteira nos outros, utilizando métodos desleais e inescrupulosos.

 

A POLÍTICA É UM ENTRAVE PARA O PAÍS QUANDO DEVERIA SER UMA SOLUÇÃO

  O imoral foi legalizado. Desde o Império, os esquemas escusos, inescrupulosos, corruptos e interesseiros nada mudaram. Na época de D. Pedro II, por exemplo, era a bancada da oligarquia do café que mandava na Câmara. Os oligarcas resistiram até o fim à abolição da escravidão.  Para se vingar, de tudo fizeram para derrubar a monarquia em conluio com os marechais.

A partir dali, (no primeiro reinado de D. Pedro I já era assim), veio a República, coisa pública nenhuma (está mais para privada), e a política nesses 135 anos continuou sendo um entrave e não uma solução para o nosso desenvolvimento econômico e social justo e equilibrado. As desigualdades só se agravaram, com ciclos de altos e baixos. As elites capitalistas e os políticos coligados a elas mandam e o presidente só obedece.

Em boa parte do planeta, especialmente na Europa, a esquerda socialista falhou por falta de competência, seriedade, ética e honradez, e os extremistas malucos bárbaros cada vez mais estão ganhando seus espaços, disseminando matanças, ódio e intolerância.

Com essa política neoliberal, misturada com assistencialismo e populismo, sem alternativas para erradicar a pobreza, a extrema só avança porque a esquerda, em seu lugar de conforto (trocou a cachaça pelo o uísque), esqueceu de trabalhar as bases, deixando-as na ignorância como vítimas fáceis da manipulação dos vampiros que sugam seus sangues noite e dia.

Entre os próprios partidos, inclusive de esquerda, que prega democracia, o que vemos são decisões ditatoriais de poderios dos chefes, vindas de cima para baixo, sem respeitar os filiados, principalmente os que estão nos diretórios municipais. Aqui, quem está no poder se acha dono dele, seja no executivo, no legislativo, no judiciário ou como presidente de um partido.

Desde a República para cá tivemos mais de 50 anos de ditaduras, a começar por Teodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, no início dos anos 1900, Getúlio Vargas (1930 a 45), Eurico Gaspar Dutra até os idos de 1950 e a ditadura civil-militar de 1964 que durou mais de 20 anos. Passamos pelo suicídio de Vargas (1954), ameaça de um golpe com Café Filho, a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, a cassação de Collor de Mello (2002) e a derrubada de Dilma Rousseff pela direita, em 2016.

Pelo que eu saiba, na história deste país, fora dos regimes de opressão, todos os presidentes sempre foram reféns – não que pregue ditaduras – do Congresso Nacional, o mais caro do mundo e o maior cancro da nação, com seus caudilhos e negociadores de apoios, na base do toma lá e dá cá. Além de ser fisiologista, é cheio de traidores e cobras venenosas.

Com o passar dos anos só fez piorar com suas bancadas retrógradas e cada vez mais de direita extremista. Há 15 ou 20 anos, os evangélicos conservadores começaram a tomar assentos em suas cadeiras com suas ideias medievais. Essa gente se intitula de patriota e defende a instituição família, mas faz tudo ao contrário.

Por sua vez, o PT, que ficou 16 anos no poder, depois de quatro anos desastroso do capitão-presidente, voltou agora repetindo os mesmos erros do passado, com uma governança e um discurso neoliberal. Com um agrado do Bolsa Família e algumas políticas públicas de inclusão, o partido esqueceu de trabalhar suas bases que lhe deram sustentação no início e vem perdendo espaço para o retorno da extrema direita.

Diante do exposto, onde temos cerca de 35 partidos, a grande maioria meros barrigas de alugueis, cujos proprietários fazem seus conchavos lá em cima, sem ouvir seus filiados, as pessoas de bem, ilibadas e honestas desistiram ou se afastaram da política dizendo ser coisa suja, de gente que não tem escrúpulos e vergonha na cara.

Outra questão a ser avaliada é que, pelo esquema montado pelo próprio sistema eleitoral em vigor há anos, não há como as pessoas sérias e sem condições financeiras, disputar uma cadeira, seja no âmbito do Congresso, das Assembleias Legislativas Estaduais, das Câmaras Municipais e dos executivos.

Com o modelo de reeleições infinitas nos legislativos e dois mandatos para os executivos em geral, todos eles usam a máquina do poder na mão, não importando se de forma legal, mas imoral. A não ser para os herdeiros de votos, as chances para quem quer assumir um cargo pela primeira vez são raras. É outro motivo pelo qual os bons não querem entrar mais na política.

 

AS DESIGUALDADES NO FUTEBOL BRASILEIRO

Carlos González – jornalista

Pouco mais de 1.000 jogadores profissionais, vinculados a 27 clubes, comemoraram esta semana o título de campeões em seus estados. Uma conquista que, no passado, tinha um enorme valor, mas que ultimamente vem sendo esvaziada pela própria CBF, que impõe às federações filiadas um calendário anual prejudicial à maioria dos clubes, que permanecem sem atividades durante nove meses do ano. Distantes das festas e das gratificações, estão desempregados, a partir deste mês, cerca de 9.000 mil atletas. Alguns deles vão ser chamados para vestir a camisa dos 88 times que disputarão as séries “C” e “D” do Brasileirão. A maioria vai esperar janeiro chegar.

Vamos tomar como exemplo o futebol baiano. O Bahia está com a agenda cheia até o fim do ano, participando da Copa do Nordeste, da Copa do Brasil e do Brasileirão da série “A”; o Vitória se resume à disputa do grupo de elite do  Nacional; Juazeirense, Jacuipense e Itabuna iniciam este mês uma dura prova, a quarta divisão do Campeonato Brasileiro, utilizando a malha rodoviária para cruzar o país.

Com receio de um prejuízo financeiro, a direção do Itabuna pensou em abrir mão da vaga. O socorro virá através do governo do Estado, cedendo o Estádio de Pituaçu para os treinos e partidas. O Vitória garantiu o empréstimo de 16 jogadores da equipe sub-20. Assim, o Itabuna, que estava mandando seus jogos em Ilhéus, passará a residir temporariamente em Salvador.

Barcelona de Ilhéus, Jequié, Jacobina e Atlético de Alagoinhas (bicampeão estadual – 2021 e 2022) colocaram seus atletas na rua, com a promessa de voltarem a treinar em janeiro de 2025; Bahia de Feira de Santana, campeão baiano de 2011, caiu para a 2ª divisão e não tem previsão de quando tornará a pisar num gramado. Uma dura realidade que será compartilhada com o Santa Cruz, o mais popular clube pernambucano, cujo estádio, o Arrudão, deverá ir a leilão, por imposição dos credores.

Segundo o calendário da FBF (Federação Baiana de Futebol), o Campeonato Baiano da série “B” será jogado entre os dias 9 de junho e 11 de agosto. Até o momento não há um planejamento. Entre os dez clubes com vaga assegurada somente Vitória da Conquista, Galícia, Fluminense de Feira e Colo-Colo prometeram se inscrever.

O Estádio Lomanto Júnior está fechado para jogos entre equipes profissionais desde 9 de julho do ano passado, quando o Vitória da Conquista encerrou sua apática participação no Baianão, derrotando o Jequié, por 2 a 0. Pelo tempo sem uso, o gramado deve estar um tapete (fala aí, prefeita Sheila Lemos e secretário Eugênio Avelino).

Para voltar à elite do futebol baiano, o Vitória da Conquista promove no momento pela internet a venda do seu novo uniforme por R$125. O passo inicial é pagar a taxa de inscrição de R$ 8 mil, instituída pela FBF. A peregrinação habitual à prefeitura para pedir ajuda – em troca, os “cartolas” ouviam promessas – ainda não foi agendada. O momento é ideal para estender o chapéu. O ano é eleitoral e a Sheila está empenhadíssima em se manter no cargo. Procura o presidente da CBF, Ednaldo Rodrigues. Antes de ser torcedor do Vitória, Nadinho é conquistense.

Nesses últimos meses de recesso, o presidente Ederlane Amorim cuidou das divisões de base do Vitória da Conquista. O time sub 20 participou nos últimos três anos da Copa São Paulo de Futebol Júnior, o mais importante torneio da categoria realizado no Brasil. O dirigente não esconde seu entusiasmo quando revela que o clube alviverde obteve o Certificado da Lei de Incentivo ao Esporte.

O programa do Ministério da Educação permite que doações feitas por pessoas físicas ou jurídicas a clubes que dão suporte às divisões de base sejam deduzidas do Imposto de Renda. Esses recursos são destinados exclusivamente à formação esportiva de jovens entre 13 e 20 anos.

Êxodo

“Vivemos uma terça-feira de fábula, deixando em êxtase os apaixonados pelo futebol”, escreveu o jornalista Juca Kfouri, após assistir esta semana ao jogo entre Real Madrid e Manchester City pela Champions. Futebol sem violência (apenas 18 faltas), sem simulações de faltas e sem a irritante “cera”. No feminino sucede o mesmo. Façam uma análise técnica da Seleção da Espanha, campeã do mundo, ou do Barcelona.

Quando as nossas equipes atingirão esse degrau? Se você não tiver bons atores não vai poder encenar um “Hamlet”, de William Shakespeare. Se você não dispõe de jogadores de excelente nível técnico não há condições de armar um time com as virtudes do Manchester City, carrasco do Fluminense na final do Mundial de Clubes.

Dentro de três meses o atacante Endrick estará se apresentando ao Real Madrid. Vai se juntar a outros brasileiros, Rodrigo e Vini Jr, que já brilham no clube madrilenho. Segundo a CBF, quase dois mil jogadores brasileiros estão atuando no exterior. Alguns foram negociados por milhões de euros; outros se aventuraram, como o sergipano Diego Costa, que deixou Lagarto em 2006 para jogar na Espanha, onde adquiriu a cidadania espanhola e vestiu a camisa da “Fúria”.

Diego Costa regressou ao Brasil e hoje defende o Grêmio, recebendo um salário acima de R$1,5 mi. Com 35 anos está incluído entre os 20% de jogadores que ganham acima de R$ 200 mil. Ainda segundo a CBF, mais de 50% dos atletas cadastrados recebem um salário mínimo. Muitos contratos feitos com os clubes são temporários, vigendo de janeiro a abril, período de disputa dos campeonatos regionais.

Houve uma época em que um Bahia x Vitória no velho Estádio Octávio Mangabeira, com a presença de tricolores e rubro-negros, registrava um público de 90 mil pessoas. Domingo passado, na final do Campeonato Baiano, a Arena Fonte Nova recebeu 48,5 mil tricolores, que deixaram nas bilheterias a soma de R$ 1,7 mi. A média de público em 51 jogos foi de apenas 7.002, sexta posição entre os principais torneios regionais do Brasil.

 

 

CAMPO GRANDE-PRAÇA DA SÉ, UM TRAJETO DE LEMBRANÇAS

(Chico Ribeiro Neto)

Republicar crônica é igual a café requentado, mas essa que reproduzo hoje, pulicada no jornal “A Tarde” em 22/8/1990, ainda conserva um bom gostinho. Vamos a ela:

Sem pegar o ônibus circular, mas andando no bonde da lembrança, faço um percurso do Grande Grande à Sé, uma trajetória de infância, amor e fé.

No Campo Grande vejo as tardes fogosas do Dois de Julho, quando as meninas recém-tomadas banho balançavam os rabos-de-cavalo dentro de meus olhos. Zezéu, um candidato, pertencia a uma turma do Campo Grande e um dia quase brigamos com eles. Coisa de turma de rua, onde qualquer assobio errado era motivo de chamar pra porrada.

Muita coisa ainda vem do Campo Grande, como as festas dançantes do Cruz Vermelha ou a cerveja no “Brasa”, mas já estou passando pelo Forte São Pedro, onde a feira mudou pro outro lado. Já não se tropeça mais em peixe, e foi ali uma vez que comprei carne de cavalo por carne-de-sol. Quando botei na frigideira espumou tudo. Vem a antiga Manon – onde se tomava um suco de laranja de madrugada, era um acontecimento – e chego perto da Mercês, defronte ao 239, velho pensionato onde cheguei com seis anos e acordava com os primeiros bondes. Dobrando uma esquina caía no Politeama, bom lugar pro “baba” e onde uma vez quase ganhamos pra “Escolinha”, time que tinha o futuro André Catimba, já catimbeiro.

Aproxima-se o Rosário, que, talvez por ser pequeno, sempre achei um trecho tranquilo. A maior lembrança do Rosário é a banca de maçã na esquina. Logo adiante, o Clube Comercial, de grandes festas, coração palpitante ao dançar com as primas que me ensinavam os primeiros passos. Festa de radiola, parou, tem que virar o disco.

Lá vem a Piedade. Um pouco antes dela, a Igreja de São Pedro, em cuja esquina comprava os “catecismos” de Zéfiro, um delicioso pecado mortal. A turma da Piedade, à qual pertencia meu irmão mais velho, Luiz, e eu nem podia chegar perto: “Vá pra casa que tá na hora”. Boa de briga, a turma da Piedade acontecia no clube Fantoches, mas aprontava mesmo era sábado de noite e domingo de tarde, na própria praça. Muitos da turma já eram conhecidos dos policiais: “Você de novo!”

Instituto Histórico, onde fazia pesquisas às 2 horas da tarde, morrendo de sono. Um pouco adiante, a loja das “Mil Meias”, um nome mais ou menos assim, e então a esquina da “Primavera”, sorvete da Kombi do sino. Exatamente defronte à Florensilva, do lado de cá, um murinho que sempre teve encanador.

Defronte ao Relógio de São Pedro a pensão de Dona Quinquinha, grande escadaria que nos levava em cheio a um quadro de Iemanjá. Eu já acordava no coração da cidade. Era escovar os dentes, descer e entrar no ritmo. Foi ali, perto do Relógio, que brilhou uma namorada de Carnaval.

Antes de pegar o caminho do São Bento, uma paradinha junto a um banco em volta da árvore. Ali ficava o velho que nos vendia pedaços de filme para olhar de monóculo.

Rua do Paraíso, onde trabalhei na Tipografia São Bento, dobrando folhas de missal, e depois o Ginásio de São Bento, onde fiquei cinco anos, sendo um do antigo quinto ano com “prova de admissão”. Vêm as imagens do ginásio: jambo roubado, tamarindo, o “baba” de tarde, a coca sorvida de um só gole e o quebra-queixo comprado na Avenida Sete para distrair a fome.

Desço a Ladeira de São Bento e sinto medo de cair no chão, empurrado pelos foliões do primeiro trio elétrico que vi. Já contaminado, fazer o balão na Carlos Gomes e depois voltar com o trio até os Aflitos, suado e feliz. O Campo Grande leva o Carnaval e a Carlos Gomes traz de volta. Antes, subíamos até a Sé.

Sempre pensei no dia em que aquelas bolas do Edifício Sulacap iam descer a Ladeira da Montanha. A lembrança do pastel chinês no início da Carlos Gomes e da “Winchester”, loja de armas, ambos destruídos para alargar a rua. A Montanha dos primeiros amores, o caminhão que servia comida na madrugada (grande lombo!) e os camelôs do peixe-elétrico. Poucos, na verdade, poucos mendigos.

Logo depois vinha o prédio de “A Tarde”. Ainda não sabia o trabalho que dava para produzir notícia e nem que um dia ia para dentro dela. Achava bonito aqueles caras de papel na mão e sempre agitados. Subo a Ajuda jogando as pernas devagar, escorregando nas lembranças. Aliás, ali sempre tinha um pouco de água escorrendo de algum lugar.

Lembro do primeiro ônibus “frescão” que a Vibemsa colocou e da rodomoça falando pelo microfone, lá na Vitória: “Senhores passageiros, bom dia. Os senhores estão a bordo de uma rodonave da Vibemsa que deverá fazer o percurso Barra-Praça da Sé em aproximadamente 15 minutos. Boa viagem!”. Você se sentia num Boeing.

Vejo a padaria onde comprava doce de jenipapo em tirinhas e vai chegando a Praça da Sé, Bar Brasil, Cine Excélsior, amendoim torrado com areia, laranja descascada, abará azedo, música alta e meu ônibus chegando.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

O NOSSO JORNALISMO PRECISA SER MAIS QUESTIONADOR E INVESTIGATIVO

O CONTEÚDO, A ÉTICA E A RESPONSABILIDADE COM A NOTÍCIA DEVEM ESTAR ACIMA DA TECNOLOGIA

Sou da velha geração dos anos 70 dos tempos da maldita ditadura de 1964 quando tudo era mais difícil sem a tecnologia da internet.  Do meado para o final dos anos 90 surgiu o computador ainda rombudo e lento. Tivemos que fazer as mudanças na raça, sem perder aquela pegada jornalística das entrevistas do olho no olho. A partir dos anos 2000 para cá, fomos sendo engolidos pelos avanços do e-mail e das redes sociais, tornando o fazer mais fácil onde o profissional passou a morar mais na redação que nas ruas.

Sou dos idos da era analógica dos rolos de filmes de 36 chapas, da máquina de datilografia, do teletipo, da impressão a quente, do revisor, do copidesque, do telefone fixo, das fontes em off, das redações barulhentas onde um jogava papel no outro e botava esporas nos sapatos dos amigos, dos telex vagarosos onde as fotos vinham pontilhadas e sem nitidez, do diagramador  de régua e compasso, do editor que criticava o repórter e mandava refazer a matéria, mas se tinha mais conteúdo, espírito investigativo e questionamentos, regidos pelo básico do por que, do quando, do onde no sentido do bem informar o público leitor ou ouvinte.

Com os avanços tecnológicos de hoje onde o clicar dos sites (Google, Yahoo, Wikipédia e outros tantos), e não mais dos livros, lhe dão respostas e informações rápidas (às vezes deturpadas e limitadas), o entrevistador e o entrevistado ficam em telas próximas de cada lado, mas distantes um do outro ou nem se veem nos zaps, faces e instagrams. O nosso jornalismo ficou mais insosso e morno, um tanto preguiçoso, cheio de boletins de ocorrências e menos empolgante.

Com raras exceções, não é mais aquele jornalismo provocador e investigativo como antigamente, mas do amém. Fico a refletir que as televisões estão sempre mudando seus cenários de apresentações (dizem mais bonitos e interativos nas dimensões 3d), os impressos transformando seus visuais gráficos, os rádios aumentando seus raios de alcance (agora estamos na onda do podcast – nada de diferente), mas pouco se comenta sobre o reforço do conteúdo, das matérias mais completas e comprometedoras com o povo. Infelizmente, hoje confundimos muito o papel do jornalista e do entrevistado.

Existe uma cumplicidade entre as partes, e o repórter, operário da notícia, parece ter esquecido de se colocar no lugar da população, o que ela quer saber, principalmente nas perguntas que deixam muito a desejar. Fico estarrecido quando o jornalista diz ser grátis um show ou espetáculo pago pelo poder público. Não sei se é de propósito ou falta de consciência política. Isso não é informar. É desinformar e enganar o povo. Quem paga é o contribuinte que vai ou não vai ao evento.

Não basta a tela, jornal ou revista serem interativos, dinâmicos e coloridos como uma arara. As pautas e as matérias da nossa mídia em geral são requentadas e repetidas. Faltam criatividade e imaginação por parte dos chefes de reportagem e pauteiros (nem sei se existem mais). Quase não se escuta e não se lê mais matérias especiais de peso para serem premiadas.

A pessoa do outro lado tem que sentir aquela sensação de estar sendo representada numa entrevista. É aquela coisa de se dizer que o jornalista fez a indagação atrevida que todos gostariam de fazer, e não ficar com medo diante de qualquer autoridade ou passar a impressão de viés tendencioso e parcial, por mais que existam interesses comerciais e capitalistas da empresa de comunicação.

Precisamos de perguntas mais incisivas, objetivas e diretas (não se envolver emocionalmente com o entrevistado). Antes de mais nada, o jornalista tem que ser um cético. O repórter que está ali na labuta do noticiário do dia a dia, não é para emitir opinião, ser ancora, mas para provocar, e quem está do outro lado que faça sua interpretação, isto é, depois de ouvir as várias versões dos fatos, sem deixar buracos e dúvidas para o leitor ou ouvinte. Comentarista é uma coisa e repórter é outra. Cada qual na sua função.

Por outro lado, em decorrência do baixo nível educacional e cultural (pouca leitura) do nosso povo brasileiro, existe uma acomodação e alienação. Não há uma cobrança e crítica quanto a qualidade do nosso jornalismo, que caiu muito nos últimos tempos. Cada comunidade deveria ter o seu Conselho de Comunicação Social, para analisar o nosso jornalismo e apontar os acertos e falhas.

Ao contrário, há elogios baratos que me fazem lembrar daquela frase do cancioneiro Raul Seixas, de que “o jornalista quer é bajulação”. A vaidade, o pedantismo e o ar de superioridade são grandes males dos nossos coleguinhas. Aprendi na faculdade que jornalista não é notícia, nem vedete e pop-estar, só quando comete crime de irresponsabilidade ou morre. A liberdade de expressão está sendo banalizada.

Repito sempre que o direito à liberdade de imprensa acaba quando não se tem ética e responsabilidade. A partir disso, o profissional está sujeito a ser processado na justiça comum como um criminoso da informação. Nunca ache que é o sabe tudo e nunca se coloque como se fosse um quarto poder para julgar e sentenciar. Basta dos três poderes que usam e abusam de seus poderes.

Vejo hoje uma mídia (a maior culpa é das empresas) interligada financeiramente com o consumismo, com a oligarquia, com as elites burguesas e que mistura o comercial com o que é jornalismo. Uma coisa tem que ser separada da outra. Vejo um jornalismo que manipula a informação e, ao invés de informar, desinforma. Será que o jornalismo ainda é o cão de guarda da nossa sociedade?

PSOL DISCUTE CANDIDATURAS

Várias questões de ordem política e social foram discutidas pela Executiva Municipal do Psol de Vitória da Conquista em reunião realizada neste último final de semana, no Espaço Cultural A Estrada, onde seus membros definiram um calendário de encontros visando montar seu quadro de candidatos para o pleito de outubro deste ano.

Os nomes dos pré-candidatos serão fechados nas próximas conversações com o partido Rede, com o qual compõe uma Federação. A princípio existem sondagens para uma possível coligação com um partido, para disputar o executivo municipal, mas nada está ainda definido. Tudo vai depender de uma decisão da assembleia geral entre seus membros.

Os trabalhos da reunião, realizada no último sábado (dia 06/04) foram abertos pelo presidente Ferdinand Martins, estabelecendo com pauta os informes, a Circular e a Resolução 2024 tiradas do Congresso Nacional do Psol, que tratam do partido e das eleições, o Regimento Interno e o calendário de reuniões ordinárias, sendo que a próxima ficou marcada para o dia quatro de maio próximo.

Nos informes, Ferdinand falou do novo diretório regional, eleito no dia 16 de março, composto de sete membros, numa demonstração de força do colegiado político em Conquista. Ainda no campo dos informes, o presidente fez referências ao caso do Acampamento Parque Imperial, na Amaralina, com quinze famílias, onde o Psol se fez presente nas negociações.

Ferdinand citou que o acampamento é um espaço destinado à produção de alimentos, atualmente com ordem de despejo por particulares. No entanto, a área está sendo reivindicada pela Prefeitura Municipal como sendo da sua propriedade.

Durante o encontro, os participantes fizeram algumas considerações a respeito dos contatos que vêm sendo mantidos com a Rede sobre as eleições, para definição das candidaturas orgânicas de vereadores e majoritária, no caso específico de Vitória da Conquista. Pelos cálculos preliminares, a partir das 23 cadeiras que vão ocupar a Câmara de Vereadores, cada partido da Federação poderá apresentar no máximo 12 pré-candidatos ao legislativo, obedecendo a lei de 30% para as mulheres.

A VELHA GERAÇÃO DE OURO E A NOVA DE PRATA, BRONZE OU ZINCO

La se foi o nosso grande Ziraldo, com 91 anos, jornalista, cartunista, escritor, poeta, compositor teatrólogo e muitas outras linguagens artísticas (multiartista), mais um dos representantes da velha geração de ouro das décadas de 50, 60 e 70, que fez florescer nossa cultura, transbordou conhecimento e saber, protestou, criticou e denunciou as arbitrariedades (ditadura civil-militar de 1964) em busca da liberdade e contra a opressão.

Ziraldo era mineiro de Caratinga, região leste de Minas Gerais, criador de “O Menino Maluquinho” e da revista em quadrinhos “A Turma do Pererê”. Era cartunista desde o início da década de 1950 e graduou-se em Direito na Universidade Federal de Minas Gerais, em 1957.

Seu livro “O Menino Maluquinho” virou série televisiva. Sua primeira obra literária foi “Flicts”, lançada em 1969, cujo personagem se sente isolado por não se encaixar nas cores do arco-íris. Ele chegou a ser tema de dois desfiles de escolas de samba, “Nenê da Matilde”, em 2003 (São Paulo) e “Tradição”, no Rio de Janeiro

Estamos agora numa geração da era tecnológica dos meios de comunicação, dos aparelhos e máquinas sofisticadas, das fakes News, da inteligência artificial, um tanto superficial que praticamente não ler (nem todos), que só pensa em ganhar dinheiro, desprovida de conteúdo.

Para esta eu a chamaria de prata ou bronze. Outra geração está vindo a reboque das vilirações dos besteiróis, que são as crianças, adolescentes e jovens que temo ser a de zinco e latão, pelo baixo nível educacional, refém do celular, das inúteis redes sociais dos seguidores e manipulada pelo alto consumismo.

Sobre a saudosa geração de ouro, que talvez nunca mais surja outra igual na história da humanidade, especialmente brasileira, muitos estão partindo para o além, deixando seu rico legado, mas também deixando um vácuo pelas suas profundas obras publicadas, pelo seu senso humanista, enfrentamento, muita leitura e sabedoria.

Pelos tempos atuais de superficialidade, principalmente nas artes e no vazio do conhecimento geral, arriscaria o palpite de afirmar que essa geração de ouro dos movimentos sociais e políticos (anos 60), das transformações, das quebras de paradigmas, da rebeldia cultural, é insubstituível.

Muitos estão dando adeus, mas se tornando eternos, gênios e atemporais. Outros ainda resistem e estão entre nós, como Gil, Caetano, Tom Zé, Zé Ramalho, Milton Nascimento, Edu Lobo, Geraldo Vandré, Chico Buarque de Holanda e tantos mais que lidam na literatura, no teatro, nas artes plásticas, na área filosófica e do pensamento crítico.

Destacaria que essa geração construiu a efervescência cultural dos anos 50, 60 e 70, onde o ler estava acima do apenas estudar para ter um diploma e ganhar uma vaga no mercado capitalista. Não é questão de saudosismo, mas jorrava humanismo, militância política e marchava, não com armas na mão, mas com suas lições de vida. Como fala a canção de Vandré, sabia fazer a hora e não esperava o acontecer.

Era e ainda é uma geração onde filho respeitava pai e mãe, reverenciava o professor nas salas de aulas, considerava e ouvia os conselhos dos idosos e, acima de tudo, tinha uma formação de caráter, ética, honestidade, princípios, garra e visão humanista. Não esta nova que inverte e confunde os valores entre o certo e o errado, o normal e o anormal, onde não mais conta a meritocracia e a capacidade.

Se tivéssemos o espirito cultural e religioso das tribos africanas, fixaríamos para esta velha geração, que está atravessando o rio para a outra margem, através do barqueiro, o ritual da ancestralidade, para sempre estarmos escutando seus ensinamentos nos momentos mais difíceis das nossas vidas e da própria nação.

O RETORNO SOFRIDO NUMA EMPRESA DE ÔNIBUS QUE JÁ DEVERIA ESTAR FECHADA

Para pagar minha língua, ou “nunca fale que dessa água não beberei”, disse que nunca mais entraria num carro da viação Novo Horizonte, mas aconteceu quando nosso veículo logo na ida para Goiás deu problema em Igaporã, entre 10 e 11 horas da manhã do último dia 15 de março passado.

Resolvemos prosseguir viagem para Anápolis e só tinha a Novo Horizonte e a Bahia Central que é da mesma companhia, saindo de Guanambi. Um monopólio que não deveria haver. Linha de ônibus entre municípios e estados mais parece demarcação de território de traficantes de drogas e armas.

Nem precisa aqui narrar com detalhes o sofrimento que passamos das 18 horas (ficamos do final da manhã e toda tarde na cidade) às 8 horas da manhã do outro dia dentro de um ônibus velho com sua vida útil ultrapassada, barulhento e com poltronas defeituosas, sem falar no mau cheiro do sanitário. Foi um teste para os fortes, ainda mais na minha idade e para o problema de coluna da minha esposa Vandilza. Mesmo assim, encaramos a jornada.

Como se diz no popular, uma barra pesada com paradas em todos os pontos desde povoados a cidades, sem contar o medo de ficarmos na estrada. Felizmente chegamos são e salvos em Brasília (completamos a viagem para Anápolis de carro), mas foi uma aventura e tanto. Coisa de louco, mas o pior nos aguardava que foi o retorno de Brasília, das 20 horas às 11 horas da manhã até Igaporã, na Bahia.

Muita reza e coragem para encarar uma empresa administrativamente desorganizada, bagunçada, veículos velhos, sem a devida manutenção e que sempre terminam ficando nas estradas, quando não acontecem acidentes fatais, como o mais recente perto de Potiraguá, com cinco mortes. De Anápolis, e Goiânia, passando por Brasília, não existe outra opção.

Pelo péssimo aspecto dos carros, se este país fosse sério e existisse fiscalização isenta, a Viação Novo Horizonte já deveria estar fechada há muito tempo.  Conheço bem seus problemas desde quando aqui cheguei em Vitória da Conquista, em 1991, e fiz coberturas jornalísticas de dezenas de ocorrências em razão do não cumprimento dos trâmites recomentados pelos órgãos de transportes.

Bem, partimos de Brasília no mesmo ritmo e na picada que foi a vinda, confiantes que tudo iria dar certo. Chegamos aos trancos e aos barrancos com o ônibus com defeito até a cidade de Possi, ainda em Goiás, por volta de duas horas da manhã, num ponto de apoio cavernoso da empresa.

A única lanchonete aberta era toda fechada de grades e só uma menina atendia, sinal de que a coisa ali era “boca zero nove”, com pessoas mal-encaradas, bêbadas e drogadas. Os passageiros começaram a reclamar de que estávamos àquela hora da madrugada no meio de uma rua deserta e perigosa.

Criticamos a falta de organização da Novo Horizonte, do veículo velho para continuar rodando longas distâncias e o próprio motorista teve que concordar conosco. Só me restou tomar um cafezinho frio intragável da lanchonete de grades, com receio daquela gente ali um tanto suspeita.

Tentei puxar uma conversa com a atendente, mas não estava de bom humor, também, coitada, trabalhando naquela hora para ganhar uma merreca e ainda se expondo ao perigo de ser assaltada! Senti que não era bom ficar ali por muito tempo. O bicho podia pegar feio.

Depois de um bom tempo, apareceu um mecânico e consertou ou trocou a peça defeituosa do ônibus, garantindo nossa viagem, mas, àquela altura, ninguém mais confiava em nada. Eram mais de três horas da manhã, distante 30 quilômetros de Rosário, fronteira com a Bahia.

Cruzamos por Correntina, Santa Maria da Vitória, Bom Jesus da Lapa, Riacho de Santana e, aos solavancos, esticados quase que imóveis nas cadeiras, demos sorte de chegar em Igaporã por volta das 11 horas da manhã numa viagem hercúlea, mas que valeu a pena pelo conjunto da sua obra.

“PRAÇA DOS LEÕES” EM BOM JESUS DA LAPA

Mesmo cansados, ainda tivemos fôlego de retornar em nosso carrinho para dar uma espichada até Bom Jesus da Lapa e fazer uma visita à famosa gruta. Pernoitamos na cidade, cujo prefeito, no lugar de arborizar, para proporcionar uma melhor qualidade de vida às pessoas, fez uma obra megalomaníaca, construindo, no centro, uma praça com altos arcos no estilo greco-romana, com esculturas de leões e deusas gregas.

Pode ter sido do agrado e orgulho da população, mas, em minha opinião, considerei um desperdício do dinheiro público pelo valor ali investido (não sei quantos milhões), que não deve ter sido pouco, sem falar na mania de grandeza. Imaginei comigo que o idealizador do projeto, no mínimo, deve ser um grande admirador do Império Romano. Eu chamaria de Praça dos Leões.

Racionei como meus botões: Já que derrubou as árvores no ponto mais movimentado da cidade, em torno de bares e restaurantes, para erguer aquela estrutura pesada de concreto, por que, então, não fez uma praça com esculturas religiosas em homenagem aos romeiros, numa honraria aos mais de 300 anos de romaria?

Como os antigos reis da Grécia e de Roma, talvez ele tenha pensado em deixar seu nome para ser lembrado na posteridade. São coisas inexplicáveis para o meu entendimento que acontecem nesses rincões do nosso Brasil.

Confesso que levei um susto quando me deparei com aquela praça e pensei que estivesse em outro país ou entrando no túnel do tempo greco-romano. Pelo menos foi feita a ampliação da esplanada da gruta (com os mesmos arcos e uma imagem do Bom Jesus), isolando o trânsito de veículos e oferecendo mais espaços para os romeiros.

Foram essas as nossas considerações numa viagem de conhecimento cultura, diversão e lazer pelo estado de Goiás onde fizemos paradas em Brasília, Anápolis, Pirenópolis, Goiás Velho, a capital Goiânia e outras cidades, numa visita prazerosa ao meu filho Caio, sua esposa Larissa, meu neto Samuel e outros parentes. Apesar dos percalços, foi memorável e digna de descrição. Aqui deixamos os nossos registros, críticas e elogios.

 

SALVADOR MEU AMOR

(Chico Ribeiro Neto)

Diz um velho ditado: “Na minha terra cego conserta relógio com luvas de boxe”.

Vindo de Ipiaú-Bahia, cheguei a Salvador em 1954 e ainda peguei o bonde. Eu tinha 6 anos, a cidade era grande e as pessoas maiores.

Salvador bonita, com gente dançando. Sentado na cadeira de lona que meu pai Waldemar colocou no passeio, vi na Avenida Sete os três grandes clubes desfilarem: Fantoches da Euterpe, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso.

Meu tio Hugo precisava atravessar a Avenida Sete, mas a organização do desfile não permitia. Ele simulou um desmaio, parou o desfile e os amigos o carregaram até o outro lado, onde ele saltou e saiu andando calmamente, recebendo um monte de vaias.

Salvador do delicioso lombo num caminhão na Praça Castro Alves, de madrugada. Você subia uma escadinha e recebia seu prato maravilhoso para encerrar a noite.

Salvador do lindo Carnaval da década de 70 (“Não se perca de de mim/ Não se esqueça de mim/Não desapareça…), onde arranjei uma namorada que já tinha uma namorada que fez uma poesia pra mim que começava assim: “Para o amor do meu amor”.

Salvador do mergulho na praia do Unhão da minha infância. O maior desafio era nadar até avistar o Elevador Lacerda, e tinha que ir uma testemunha junto: “Chico viu o Elevador Lacerda!”

O pai do meu amigo trabalhava na companhia de aviação Panair do Brasil e deu a ele uma câmara de ar de pneu de avião ou de trator, não sei. Era uma bóia imensa que nós dois carregamos até a praia do Unhão. Duas filhas de um pescador, brotando beleza, pediram para dar uma volta com a gente. Fomos remando na bóia com as duas. Peitos, coxas e bocas boiando virados para o céu. Minha primeira lição de sexo. Vi estrelas e o Elevador Lacerda.

Teve um paulista que estava hospedado numa pensão perto do centro e foi conhecer Itapuã. Lá se encantou e tomou algumas doses de cambuí (frutinha redonda nativa usada de infusão na cachaça). Umas cervejas depois pegou o ônibus de volta. Foi orientado a saltar nas Mercês. Assim ele fez e perguntou onde ficava a Ladeira dos Desesperados. Ninguém  conhecia. Foi perguntando até a Praça da Sé até que  um iluminado matou a charada: a pensão ficava na Ladeira  dos Aflitos.

Um dia vi no Farol da Barra uma mulher abrir os braços para o mar e exclamar: “Obrigado, você é o meu melhor advogado”.

Obrigado, Salvador,  eu te amo de braços abertos para o mar.

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

1o DE ABRIL, DIA DO ENGANO

Carlos Albán González – jornalista

Nos Estados Unidos, desde o final do século XIX, o burro e o elefante, tão reconhecíveis quanto o Tio Sam, participam das campanhas eleitorais, representando, respectivamente, os Partidos Democrata e Republicano. Em Vitória da Conquista, por iniciativa de um dos candidatos à Prefeitura nas eleições deste ano, animais das raças equina, caprina e bovina (os bens saudáveis) vão trocar a liberdade dos pastos por currais na área urbana da cidade.

Sem a menor experiência na política, a empresária Sheila Lemos viu de repente cair no seu colo a responsabilidade de governar o terceiro município baiano. Com poucos meses no cargo e orientada por ACM Neto, vice-presidente nacional do seu partido, o União Brasil, a prefeita conquistense elaborou o projeto de permanecer no cargo por mais quatro anos.

Educação, saúde e cultura não são convertidos em votos em cidades onde a maioria da população é desinformada; onde é mais vantajoso dar circo ao eleitor, como tem feito Bruno Reis, prefeito de Salvador,  que está praticamente reeleito.

Sheila e pecuaristas se reuniram na semana passada. A conversa durou pouco tempo. Governo e iniciativa privada anunciaram a realização, seis anos depois de sua última edição, da exposição agropecuária. A montagem dos estandes, currais, lojas, arena para rodeio, bares e restaurantes se dará no Parque Teopompo de Almeida. Por exigência da prefeita – estamos a poucos meses das eleições municipais – nos cinco dias (de 5 a 9 de junho) do evento os portões serão abertos ao público. Ônibus farão o trajeto entre os bairros e a Avenida Siqueira Campos.

“Estou alegre demais porque a exposição não é uma festa do agronegócio, mas da cidade”, confessou Isaac Figueira, presidente da Cooperativa Mista Agropecuária Conquistense (Coopmac), revelando que o convite partiu da prefeita. O custo para o município não foi divulgado, mas a entidade de classe orça a montagem do evento em mais de um milhão de reais.

A Exposição Agropecuária, Industrial e Comercial de Vitória da Conquista representa para os governistas mais um veículo que irá impulsionar a candidatura de Sheila. “A Prefeitura sempre apoiou as iniciativas do agronegócio”, declarou Sheila, esquecendo que em novembro de 2018 a Coopmac recorreu ao seu antecessor Herzem Gusmão para promover a expo de 2019. A negativa do gestor prejudicou, entre outros, o setor cultural da cidade. O empresário de shows Ludson Gusmão lembra que já havia fechado contratos com artistas locais para se apresentar na feira.

A última edição da feira, em junho de 2018, movimentou negócios em torno de R$ 100 milhões e foi visitada por mais de 50 mil pessoas. A Bahia Farm Show, promovida pela iniciativa privada de Luís Eduardo Magalhães (município emancipado em 2000, com uma população de 107.909 habitantes), está entre os três maiores centros comerciais do agronegócio do país. Suas vendas no ano passado giraram por volta de R$ 8 bilhões.

Senhora prefeita, o povo quer saber o que foi reservado para a saúde, educação e cultura nesses últimos meses de sua administração. As migalhas, como sempre? Presente ao encontro com os dirigentes da Coopmac e na coletiva da imprensa, o coordenador de Cultura, Alecxandro Magno, entrou calado e saiu mudo. Os projetos elaborados pelo Conselho Municipal de Cultura nos últimos dois anos provavelmente foram engavetados.

Uma tragédia anunciada

Numa sociedade civilizada, onde os indivíduos compartilham valores éticos e democráticos, a urbanidade deve ser um procedimento a ser exercido pelos homens públicos. Pois bem, em novembro de 2023 a ministra da Saúde, Nísia Trindade (cientista social, pesquisadora e ex-presidente da Fundação Osvaldo Cruz), esteve em Vitória da Conquista. Não veio fazer política e nem o condenável assistencialismo. Veio trazer investimentos para o povo conquistense, desprovido de ações do município na área da saúde.

Como já havia feito nas visitas de outras autoridades estaduais e federais – Sheila odeia o PT e o presidente Lula, como revelam seus seguidores -, a administradora não foi ao encontro da ministra. Conquista vive hoje uma previsível – o alerta global foi dado pela Organização Mundial da (OMS) em janeiro do ano passado – crise sanitária.

O boletim epidemiológico desta semana mostra um aumento de 1.686% de notificações de pessoas com sintomas da dengue desde o início do ano. Foram registradas 18.925 notificações, com sete mortes. Postos de saúde municipais e emergências dos hospitais da rede privada estão sempre lotados. A seccional do SUS aqui tem 1.1 milhão de cadastrados e 700 mil ativos. O município tem 370.879 habitantes (Censo de 2022).

Houve um atraso na remessa das vacinas, não por culpa do Estado, como acusou Sheila, desmentida por seu secretário de Saúde, Vinicius Rodrigues. Medidas preventivas não foram adotadas pelas prefeituras, como, por exemplo, convencer os céticos de que devem se vacinar.

Segundo a OMS, 20% dos 700 mil brasileiros que morreram vítimas da Covid – não vamos esquecer os que perderam a vida em Manaus por falta de oxigênio – não estariam hoje sendo pranteados por seus familiares se não houvesse uma demora na aquisição de vacinas pelo governo de Jair Bolsonaro (PL).

Além disso, campanhas contra os imunizantes, incentivadas pelo inelegível, com a participação inclusive de profissionais de saúde, se alastraram pelas redes sociais e pelos templos evangélicos. Esses milicianos virtuais são responsáveis até hoje pela baixa procura de qualquer tipo de vacina.

Sheila comemora os números que lhe favorecem da pesquisa de intenção de votos para prefeito divulgados segunda-feira. Na minha querida Galiza, na Espanha, o 1º de abril é chamado de Dia dos Enganos.

 

 

 

 





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