:: ‘Na Rota da Poesia’
QUEM VIVER, VERÁ…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
É o início do fim,
Quem viver, verá
Subirem as águas do mar.
Cidades serão inundadas,
Quem viver, verá
Capitais sairão do radar.
Os escombros da terra,
Quem viver, verá
A poluição apagar o luar.
Toda geleira vai derreter,
Quem viver, verá
Os viventes tombarem sem ar.
As florestas vão deixar de existir,
Quem viver, verá
O solo deserto salgar.
Ventos, raios e furacões,
Quem viver, verá
Ranger de dentes e chorar.
A luxúria do consumismo,
Quem viver, verá
O planeta de lixo se lixar.
Enchentes, secas e fome,
Quem viver, verá
Não se ter mais nada pra comprar.
As quatro estações do ano,
Quem viver, verá
Não haverá mais tempo pra plantar.
Os poços do óleo petróleo,
Quem viver, verá
Não terão mais energia pra jorrar.
O rico vai ficar pobre,
Quem, viver, verá
Todos vão se igualar.
Os segredos vão ser revelados,
Quem viver, verá
E o amor vai perdoar.
Seus desuses não vão mais te olhar,
Quem viver, verá
Não adianta mais orar.
Sem mais abelhas pra florar,
Quem viver, verá
Não terão mais flor a polinizar.
A noite vai virar dia,
Quem viver, verá
É o aquecimento solar.
Quem sabe as trevas!
Quem viver, verá
Sem mais tempo pra clarear.
Não mais cientistas pra alertar,
Quem viver, verá
Porque não tem mais nada pra profetizar.
MEDO DO VENTO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tenho medo do vento,
Como menino acuado,
Nascido no mato, assustado,
Mais que o relâmpago e o trovão,
Que faz arrastão,
De árvores e telhados,
No ar derruba até avião.
Tenho medo do vento,
Vento ventania,
Zunir assoviado de agonia,
Que arranca segredos,
Da minha alma do passado,
Nas correntes dos enredos.
Olá, Yansã, Oyá,
Senhora orixá do vento,
Acalmai este valente violento,
Guerreiro da transformação,
Dos espíritos, guardião,
Das florestas dos ancestrais,
Onde vivem os animais.
Olá, senhor Anemoi,
Vento viajante do tempo,
Do deus grego Éolo,
De espadas eólicas,
Natura, natureza,
Nas paisagens bucólicas,
Operário do pólen,
Equilíbrio e destruição,
Do ciclone, tornado ao furacão.
Bóreas norte é inverno,
Zéfiro oeste é primavera,
Flor da felicidade,
Nótos sul verão tempestade,
Euro do leste é outono,
Deuses da boreal aurora,
Veloz faz sua hora.
Tenho medo do vento,
Venha donde vier,
Começa manso e lento,
Forte abala até nossa fé.
BERRA BERRANTE!
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O vaqueiro andante
A ferro, gibão e fogo,
No ciclo do gado,
Sem lei, nem rei,
Berra seu berrante,
Faz o seu ponteio,
Rasga do seu peito,
De ar puro e cheio,
Como no aboiar do aboiador,
Mata a saudade do seu amor,
Que bem distante lá ficou.
Berra o berrante!
Do Nordeste ao Centro-Oeste,
Do Brasil colonial,
Cortando o sertão agreste,
Pelas águas do Pantanal.
Feito do chifre do boi,
Berra o berrante,
Ao som do arrasto da boiada,
No tom que é hora da boia,
No sinal de perigo inimigo,
Que é chegado o entardecer
Da comitiva descansar
Da longa jornada,
Para causos, prosear,
A moça bonita, namorar.
Berra o berrante!
Em torno da fogueira,
E o violeiro começa a violar,
Aquela raiz da terra cancioneira,
Que faz até os animais relaxar.
O berrante está até na Bíblia,
Para os judeus é o xafar,
Do bode ou do carneiro,
Símbolo sagrado para orar,
Pro sertanejo é berro estradeiro,
Berrante valente a berrar!
TÃO SÓ
Poeminha de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Às vezes,
A gente se sente tão só,
Como bode a berrar na caatinga,
Quando se perde do seu rebanho
Onde a solidão nos dá aquele nó.
Tão só,
Como tantas ideologias
Que se tornam pó,
Trancadas em suas abadias.
Tão só,
Como os antigos ancestrais
A mirar a relva do campo,
O cavalgar dos animais,
E o piscar do pirilampo.
Meu ego sum
Está tão só,
No recôndito da minha alma
Que só o pôr-do-sol,
Anunciando a noite
Me acalma
Desse rasgado açoite
Nessa ventania de agonia.
A GENTE QUER, E NÃO QUER
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário.
A gente não quer
Viver nesse fio da navalha,
Que tenhamos Estados paralelos,
O povo carregando cangalha,
Nos capitais algozes como martelos.
A gente quer
Cada jovem com sua flor,
A marchar pelo ser do saber,
Aprendendo a lição do amor,
Que o tempo nos ensine a viver.
A gente não quer
Ver mais tanta injustiça social,
O fogo nas florestas em chamas,
O errado se tornando normal,
A ganância destruindo os biomas.
A gente quer
Que a vida supere a morte,
Que a mentira se renda à verdade,
O conhecimento seja nosso norte,
E todos tenham dignidade.
A gente não quer
Esse fanatismo religioso,
Tantas ideologias radicais,
O discurso intolerante odioso,
Esses facínoras de armas mortais.
A gente quer
Uma humanidade mais humana,
Só louvar o nosso universo,
Uma sociedade não espartana,
Que o sistema não seja perverso.
A gente não quer
Esse genocídio palestino,
As bombas dos imperialistas,
Ter mais retirante nordestino,
Oprimir os ideais socialistas.
A gente quer
Mais canção, arte e poesia,
Que o sonho se torne realidade,
O pôr-do-sol seja nossa homilia,
Sem essa fogueira da vaidade.
A gente não quer
Que exista mais a dor da fome,
Que não roubem nossa estima,
Sem diferenças entre mulher e homem,
Não mais a Rosa de Hiroshima.
A gente quer
Sentir o perfume da primavera,
Que o legal não seja imoral,
Uma amizade aberta sincera,
Onde a emoção seja racional.
MEU NORDESTE
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu Nordeste,
Do Sertão, Carrasco Agreste,
Da Mata e do Brejo Cerrado,
Do misticismo religioso,
Vindo das caravelas do Rio Tejo,
Abençoai-nos, oh todo Poderoso!
Meu Nordeste,
Dos engaços espinhentos,
Até na florada do mandacaru,
Meu Nordeste
Do Juazeiro e do fruto do Umbu!
Quero cravar minhas mãos nesta terra,
Molhada pelas chuvas do trovão;
Quero liberdade, justiça e pão;
Quero ler todos escritores,
Ao Graciliano Maior;
Ouvir Caetano, Gil, Zé e Vandré
Até chegar a Belchior.
Meu Nordeste,
Nação de guerreiros,
Com seus litorais poéticos,
Cheiro encourado dos bravos vaqueiros,
Do couro dos partos nos quartos,
Contraste que se faz harmonia,
Na louvação dos céticos,
Onde tudo exala poesia.
Do meu Nordeste,
Livrai-nos, Senhor dessa canga,
Que deixa nosso povo na tanga!
QUE FIM LEVARAM NOSSOS SONHOS?
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Que fim levaram nossos sonhos,
Se perderam nas longas marchas,
Das avenidas e praças,
Dos cartazes nas mãos,
Nas letras das eternas canções,
Que ficaram em nossos corações?
Que fim levaram nossos sonhos,
Nascidos das revoluções?
Arrancaram as flores do nosso jardim,
Nele plantaram corrupções,
Na base do meio justifica o fim.
Que fim levaram nossos sonhos,
De igualdades humanas sociais,
Justiças para nossas oprimidas gentes?
Estão nos cofres dos capitais,
Mas ainda vivem em nossas mentes,
Nessa sociedade de canibais.
Que fim levaram nossos sonhos,
De resgatar nossa jovem geração;
Acabar de vez com a fome,
Amparar as desgarradas multidões,
Nas lutas armadas ou pela razão?
A DOR FÍSICA E A ESPIRITUAL
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Na essência da vida existencial,
Qual a pior dor,
A física ou a espiritual?
Cada uma na sua cada qual:
A matéria acha que é a física,
A filosofia que é a espiritual,
E delas se inspira a poesia,
Na dor de José e Maria.
Uma é canibal da outra:
A física aniquila a mente,
A espiritual se fecha como ostra,
E as duas são viscerais da gente.
Tem a dor do câncer,
Aquele que não tem cura,
Tem a dor da fome,
Que até o juízo, consome,
Tem a dor da tortura,
Nos porões da ditadura,
A dor de dente, persistente,
Que deixa a alma em chama,
E a terminal no leito da cama.
Tem a dor do amor perdido,
Que rasga por dentro o peito,
A dor do luto da perda,
Daquele ente querido,
Do material ao metafísico,
É o espiritual roendo o físico.
Entre a física e o espiritual,
Existe aquela enigmática,
Que nem explica a matemática,
É a dor mortal
Daquele suspiro final,
Que nos leva para o além,
E não está no saber de ninguém.
NÃO ESPEREM MAIS POR MIM
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O velho elefante,
Cansado e ofegante,
Se escora numa frondosa árvore,
Sente ser chegado seu fim;
Manda seu rebanho seguir em frente,
E diz não esperem mais por mim.
Quando o zunir do vento
Chicotear minha alma,
Ferir e dilacerar meu passado,
E o passo ficar mais lento,
Trocar o não pelo sim,
Digo que sigam em frente,
E não esperem mais por mim.
Quando o futuro encurtar meus planos,
O amanhã anunciar menos anos,
As flores murcharem em meu jardim,
Sigam em frente, gente!
E não esperem mais por mim.
ENSINAMENTOS DE EPICURO
José Fábio da Silva Albuquerque, do seu livro “Retalhos Nordestinos” – poesia popular (Editora Nzamba)
O medo é algo engraçado
Quando de alguém se apodera
Pois deixa geladas as mãos
E o coração acelera
Mostrando cenário terrível
Que outro não é possível
Além de sofrer na espera.
Uma pessoa com medo
Perde de todo a razão
Fica sujeito aos conselhos
Que prejudicam a ação
Dos mais primitivos instintos
Parentes da obsessão.
Do medo um dia falara
Um homem de nome Epicuro
Chamado por todos filósofo
Do jeito que outro Obscuro
Caráter de muitos dizeres
Um defensor dos prazeres
Mesmo perante o apuro.
E dentro do seu ensinar
Está o imbatível dizer
Voltado aos seres humanos:
Que não se deve temer
Sofrer, nem deuses, nem morte
Pois quando se é desta sorte
Já não se está mais no viver.
A todos que sentem medo










