Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Sou cavaleiro encantado,

Como um D. Quixote

Por essas trilhas nordestinas:

Terras agrestes milenares,

Milhas de misteriosas ilhas,

De gentes diferentes espartares,

Parando o tempo,

Cortando a lâmina do vento,

Entre torres e placas solares.

 

Por essas trilhas nordestinas,

De culturas únicas no Brasil,

De expressões misturadas divinas,

Região resistente varonil:

Vejo as floras agrestinas,

A caatinga que esgarça na seca,

A chuva que brota na restinga,

Floresce todo aquele mundão,

E o preto velho faz sua mandinga.

 

Vejo o cangaço de aço,

Na ponta do rifle e do punhal,

As matas feras ribanceiras,

O céu que dá o seu sinal,

Rios com suas corredeiras,

Meu prateado luar,

As águas cortando curvas,

Rumo às portas do mar.

 

Por essas trilhas nordestinas,

Vejo os senhores de engenho,

Mirrados meninos e meninas,

Coronéis que perderam seus anéis,

Poetas, trovadores-repentistas,

Os grandes riscados cordelistas,

Dos lajedos, cavernas e grutas,

Nascer a cultura e a literatura,

Desse povo de muitas lutas;

De suas nascentes ainda jorrar,

A tradição rica e popular.

 

Por essas trilhas nordestinas,

Vejo feiras de trabalhadores,

Com suas enxadas e foices,

Machados, cabaças e facões,

Poderosos dando coices,

Asas parar no ar,

O voo dos carcarás e gaviões,

O choro calado em cada lar,

A exploração dos patrões,

O som rasgado de Zé Ramalho,

A fé que não faia do Gil,

O protesto de Vandré,

Na gaita melódica do vinil,

De Caetano o sol bater,

Nas bancas de jornais,

Cantando Alegria, Alegria,

Atrás dos trios dos carnavais.

 

Por essas trilhas nordestinas,

Cada humano cruzando estradas,

No jumento em suas picadas,

Gado ferrado em manadas,

Do cangaceiro Antônio Silvino,

As dores que perderam o nome,

Nos cantos dos casebres da fome.

 

Por essas trilhas nordestinas,

Vejo a Colônia perversa passar,

O império e a nobreza prometer,

E a oligarquia nos violentar;

Vejo o capitão Virgulino,

O Conselheiro e seus penitentes,

A emboscada do pistoleiro assassino,

O pau de arara comendo poeira,

Mutirões em suas frentes,

A mulher solitária rendeira,

Compositores e escritores,

Que nos deram régua e compasso,

O vaqueiro certeiro no laço,

E assim vou seguindo,

Meu destino no lento passo.

 

Por essas trilhas nordestinas,

De tantas caras e faces,

Umas duras enrugadas,

Outras de semblantes magoadas,

Vejo o alvorecer das madrugadas,

O pôr do sol ensanguentado,

Brilhar nas pinturas rupestres,

Os registros se eternizar,

Nas escrituras dos mestres.

 

Por essas trilhas nordestinas,

Vou voando como pássaro aguerrido,

Neste Nordeste querido,

Único neste universo,

No sangue do meu sentimento,

Como do escravo seu lamento,

Da mãe África a enxugar suas lágrimas,

Nos porões negreiros,

Para ser trono dos estrangeiros.

 

Por essas trilhas nordestinas,

Do Maranhão a Paraíba,

Do Pernambuco a Piauí,

Sergipe e a velha Bahia,

Das Alagoas e o potiguar,

Nas farturas das frutas e do pequi,

Cada estado em seu lugar,

No imposto de sangue,

Na vindita da canga,

Justiça de armas nas mãos,

Astutos canibais dos matutos,

Vejo muita luz e energia,

Nesses rostos sofridos,

De José e Maria.