:: ‘De Olho nas Lentes’
FIAÇÕES NAS REDES
Como se não bastassem os matagais nos terrenos abandonados pelos proprietários, a buraqueira nas ruas, poluição sonora dos carros de som, com músicas do tipo bate estaca, locais de lixo que servem como fonte para a procriação dos mosquitos da dengue, além de outros transtornos que temos que conviver na cidade grande, temos o emaranhado de fios na rede elétrica da Coelba, um risco de vida. É o preço que se paga pelas negligências dos órgãos e poderes públicos. Aqui mesmo no final da Avenida Sérgio Vieira de Melo, há dias deixaram um amontados de fios na rede, num poste esquisito onde tem uma parafernália e uma luminária no meio. Por achar tudo estranho, ligamos para a Coelba e, por incrível que pareça, a atendente recomendou que a gente procurasse a polícia. O que tem a ver a polícia com isso? Só pode ser gozação! Nessa rede, cada um instala aparelhos clandestinos, fiações e outros trambolhos, e a Coelba não toma providências. Outro problema é a queda constante de energia nesta área próxima do tormento de uma sucata que é um verdadeiro atentado à saúde pública, com barulho de máquinas, poluição, local de ferros velhos que servem de coito de ratos, mosquitos e animais peçonhentos. O cidadão paga imposto alto e não tem o direito de reclamar, além de ser tratado com deboche, como fez a atendente da Coelba quanto ao monte de fiação no poste. Quando ocorre o pior, ninguém é responsável. Cada um empurra o problema para o outro.
OS PASSARINHOS E A SERRA
Um final de tarde telúrica e poética, pouco visível aos olhos humanos, que não é no campo, mas na cidade corrida feita de concreto, pedras, asfaltos e multidões com seus problemas. Nela (cidade) também existem cenários de meditação pintadas pela natureza. É só captar suas nuances. Os passarinhos pousam no fio do poste se preparando para o anoitecer, depois de mais um dia cortando ares com suas asas, de galhos em galhos, à procura de alimentos. É a luta pela sobrevivência, bem mais tranquila que a do ser humano. O que será que eles estavam confabulando? Alguns planos para o outro amanhecer? Que nada! Não existem essa preocupação! Nossas lentes não conseguem flagrar suas prosas. Do outro lado, belas imagens da Serra do Periperi ou Piripiri, como queiram, onde o rajar da luz do pôr-do-sol reflete numa nuvem lá no infinito do outro lado do horizonte. São cores que apascentam nossa alma depois de um dia que se vai para dar lugar ao anoitecer. O urbano também é rural, basta parar um pouco para observar os sinais da divina natureza, embora invisível aos olhos das pessoas. Tudo é poesia, dependendo da forma do seu olhar. A vida não é só reboliço, inquietação e tristeza, é também quietude, calmaria e renovação quando se decide observar a rotação natural das coisas. Os passarinhos e a Serra são apenas exemplos de elos que fazem mudar nossos sentidos. Existem muitas outras imagens que nos transportam para outras visões de um além diferente.
OS TRILHOS EM NOSSAS MEMÓRIAS
As linhas férreas por onde passavam os trens de passageiros podem estar abandonadas nos sertões das caatingas, mas nunca deixarão de existir porque ficaram em nossas memórias de menino e perduram até hoje. Não dá para entender como um país tão continental troca o trem pelas rodovias congestionadas de carretas movidas a diesel provocando terríveis impactos ambientais, sem falar nos altos custos para a nação! É o paradoxo se somando à insensatez dos nossos governantes que liquidaram todo um patrimônio valioso da nossa história, pago pelos contribuintes. Assim como os trilhos dentro do mato, flagrados pelas nossas lentes no sertão de Juazeiro, as estações ferroviárias, em sua grande maioria, foram destruídas pelo tempo. Como era gostoso e divertido viajar de trem e sentir o solavanco dos vagões cortando belas paisagens, de estação em estação, de cada cidade e distrito! Mais prazeroso ainda era quando anoitecia e o passageiro podia apreciar da janela o belo luar prateando as serras e os morros. Se tudo isso fosse preservado, teríamos hoje trens modernos, linhas renovadas, e as viagens seriam bem mais econômicas, sem falar que as rodovias seriam desafogadas e haveriam menos acidentes. As velhas gerações nunca vão tirar os trilhos de suas memórias. Eles vão continuar existindo.
HOMENAGEM AO TRABALHADOR
A Chapada diamantina não é somente famosa pelas suas belezas naturais e paisagens encantadoras que atraem turistas do mundo inteiro, não somente do Brasil. Além da mineração de pedras preciosas, como o ouro e o diamante, cujo ciclo terminou lá pelo meado do século XX, dando lugar ao turismo, a região é também rica pelo seu potencial agrícola, destacando os hortifrutigranjeiros (Ibicoara e Mucugê), o café e agora a vinicultura. Estas duas últimas culturas estão espalhadas em vários municípios, como Barra da Estiva, Piatã (1.280 metros de altitude), Morro do Chapéu e Bonito onde a Prefeitura Municipal ergueu um merecido monumento em homenagem ao trabalhador, peneirando à moda antiga, os grãos do café para separar dos bagaços. Nossas lentes flagraram as estátuas do homem e da mulher nessa labuta que, infelizmente, foram substituídos pela máquina, mas não deixa de ser um resgate da memória desse nobre produto que não falta na mesa dos brasileiros e dos estrangeiros. Barra do Choça, aqui em nosso Planalto da Conquista, também é um dos maiores produtores de café do Nordeste que, em épocas passadas, empregou milhares de trabalhadores vindos de várias partes da Bahia e até de outros estados. Bonito fica próximo de Morro do Chapéu que, além do café, introduziu a cultura da uva (passamos por várias fazendas) e já está produzindo vinhos de qualidade.
“CAPITAL BAIANA DO FORRÓ”
Bem louvável a iniciativa da Prefeitura Municipal de Senhor do Bonfim em ter erguido na entrada da cidade um monumento em homenagem à nossa sanfona nordestina, com a frase “Capital Baiana do Forró”, em sua base. Isso nos deixa com orgulho porque o forró e a sanfona são as expressões maiores da nossa cultura popular nordestina e não deixam de ser também uma homenagem ao nosso grande forrozeiro e rei do baião, Luiz Gonzaga. No entanto, é lamentável que nos últimos anos outros ritmos estranhos tenham ocupado mais espaços nos festejos juninos, deixando o forró autêntico em quinta categoria, lá no canto. Nossas lentes flagraram essa bela imagem, mas será que o poder municipal vem correspondendo e honrando mesmo com o que mandou escrever? Será que Senhor do Bonfim é mesmo a capital do forró, ou tudo não passa de mais uma propaganda enganosa, como tantas outras institucionais dos governantes que vimos por aí? Infelizmente, em todo Nordeste, o que tem mais rolado são os estilos musicais de sertanejos, arrochas, lambadas, sofrências, pagodes e outras porcarias mais. O forró não é mais o mesmo. Foi totalmente descaracterizado. Esperamos que a Prefeitura Municipal de Bonfim honre com o que mandou construir, e que o dinheiro investido do contribuinte não seja desperdiçado com contratações caras de bandas e cantores que nada têm a ver com o forró, como ocorrem nos outros municípios baianos e nordestinos em geral.
AVENIDA INTEGRAÇÃO
Quando aqui cheguei há 35 anos (hoje me sinto um conquistense) me disseram que a Avenida Integração (Presidente Dutra) dividia Vitória da Conquista em duas cidades, a mais pobre e abandonada, chamada de Zona Oeste, e a mais rica e privilegiada, a Zona Leste. Quis o destino que eu morasse na segunda, embora não pertencesse à classe alta. Quanto a essa diferenciação social, o povo tinha e tem total razão de assim classificar a cidade, mas com o tempo muita coisa mudou. Entretanto, os desníveis em termos de equipamentos, estrutura e poder aquisitivo ainda permanecem. José Pedral, em seu primeiro governo, a partir de 1963, tinha a intenção de reduzir essa desigualdade, porém seu mandato foi interrompido em maio de 1964 pela ditadura civil-militar. No Governo do PT foram construídos o Espaço Glauber Rocha, que sofreu desvios de suas funções, o CAIC e o Ifba (o Instituto Técnico Federal). Da parte do setor privado, surgiram alguns hotéis, restaurantes e lojas comerciais de porte, mas o peso da economia continua na Zona Leste onde os políticos sempre injetaram maiores volumes de recursos, inclusive em obras de infraestrutura. Até pouco tempo, a Lagoa das Bateias estava em estado lamentável. Que bom que foi revitalizada! A zona Oeste permanece a prima pobre, apesar da famosa Feirinha do Bairro Brasil ser o maior destaque da cidade. Na zona Leste, onde se encontram a UESB, a Universidade Federal, o Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima e outros equipamentos de importância, são realizados os maiores eventos. Até o nosso São João foi levado para o Parque de Exposições (uma insanidade). Estou agora residindo na Oeste e aqui é meu lugar. No entanto, observo as diferenças sociais, econômicas, saneamento básico e culturais. Infelizmente, os governantes ainda dão mais atenção ao lado de lá. Quem está lá não gosta de vir para cá, e vice-versa, inclusive quando se trata de vida noturna.
CONQUISTA E AS CHUVAS
Não sou engenheiro e nem especialista no assunto, mas não é necessário para antever que Vitória da Conquista está na mira das tragédias e desastres em futuro próximo diante das mudanças climáticas (aquecimento global) com os temporais das fortes chuvas que hoje castigam o planeta e todo Brasil. Qualquer leigo mais esclarecido sabe que Conquista não tem mais estrutura para receber fortes chuvas, e o que vem acontecendo nas últimas semanas prova isso. Cabem às esferas municipal, estadual e federal, sem intrigas políticas partidárias, tomarem urgentes providências na realização de obras de macro e micro drenagem na cidade, porque os custos são altos e envolvem pesados investimentos. Conquista cresceu rapidamente sem uma infraestrutura adequada. Os serviços de drenagem feitos há mais de 30 ou 40 anos estão totalmente defasados e precisam ser ampliados, com capacidade para receber as grandes enxurradas, principalmente as que descem da Serra do Piripiri, durante muito tempo depredada pela ação humana. Não me lembro da demolição de casas condenadas pela Defesa Civil em áreas irregulares de risco, como ocorreram nesta semana. É um sinal que vem coisa bem pior por aí, a começar pelas encostas da Serra em bairros pobres, como Pedrinhas, Senhorinha Cairo (existem casebres no topo da Serra), Bruno Bacelar, Miro Cairo, imediações da Vila Serrana e outras localidades de invasões. Só vão cuidar quando acontecerem tragédias de grandes proporções. Toda essa encosta da Serra deveria ter sido preservada pelas prefeituras passadas, mas, exatamente elas têm a maior parcela de culpa pela destruição do meio ambiente. Não é por menos que já chamaram a Serra do Piripiri de “Serra Pelada”. Conquista está na rota das tragédias com deslizamentos de terras.
A SERRA QUE SE MOVE
Reza a lenda que durante o nevoeiro do frio rigoroso, principalmente nos séculos passados, a Serra do Periperi se movia lentamente como se fosse um navio no mar, daí a explicação do sumiço dos índios quando em combate com o colonizador João Gonçalves da Costa que se perdia no meio da mata. Essa movimentação deixou de ser perceptível depois que depredaram e depenaram cruelmente a Serra com a retirada de árvores, terra, areia, pedras e outros materiais para a construção civil. Anos atrás alguém a apelidou de “Serra Pelada” depois de tanta exploração do homem pela ganância do dinheiro, sem contar as invasões dos mais pobres em suas encostas para erguer seus casebres. Depois do seu tombamento, por volta de 1996, bem que houve certa recuperação do seu ecossistema, mas muitas feridas continuam abertas, tanto que do seu alto descem toneladas de detritos que invadem e alagam as ruas mais localizadas ao centro de Vitória da Conquista. Ainda se paga caro pelas depredações do passado. Lendas a parte, a Serra exibe toda sua beleza com o que ainda restou da sua fauna e da sua flora, como o pedaço da floresta do Poço Escuro, sem considerar o monumento do Cristo, do artista Mário Cravo. Proporciona belas fotografias e imagens, principalmente durante o pôr-do-sol, quando ela para de se mover e entra na escuridão da noite para depois despontar no alvorecer com aquele bom dia a todos conquistenses.
SEM EXAGEROS NAS INFORMAÇÕES!
O que leva uma pessoa a produzir um vídeo dizendo que Vitória da Conquista é a cidade mais fria do Nordeste e a denominá-la de “Suíça Baiana”? Como se fala no ditado popular, “vamos devagar que o santo é de barro”! Sem exageros, meu camarada, senão o que seria um gesto de enaltecimento e divulgação, termina caindo no ridículo e no deboche. Isso é um desserviço, sem contar que é uma mentira que tem sua origem num bairrismo barato. A cidade mais fria e mais alta do Nordeste, com 1.268 metros de altitude, é Piatã, localizada na Bahia, chegando até 1 grau no inverno rigoroso. Temos ainda na Bahia, a cidade de Morro do Chapéu, mais alta e mais fria que Conquista. Existem outras. Toda propaganda, principalmente a pública, leva pitadas de informações exageradas e fantasiosas, características próprias do propagandista ou do publicitário que a constrói e elabora, com vistas a atrair quem ler, assiste ou ouve. No entanto, não se deve enganar quando se trata de dados históricos e estatísticos que passaram pelo crivo da pesquisa. Pode-se até florear um texto usando uma linguagem poética, com metáforas, parábolas ou outras figuras artísticas literárias, mas não mentir e passar uma informação errada. Muitos incorrem nesse erro por falta de conhecimento ou faz de propósito, achando que sua afirmação incorreta não será desmascarada e terminará virando verdade. Quando alguém faz esse tipo de crítica construtiva, sempre é mal interpretado como persona não grata que menospreza a cidade, e ainda é alvo de ofensas e pedradas. Digo isso porque já fui vítima e ainda sou quando coloco o dedo nas feridas. Vou sempre afirmar que é uma imbecilidade chamar Conquista de “Suíça Baiana. Meu recado é que estudem mais sobre a história do seu município, coisa rara de se encontrar quem faça isso, porque, a cada dia que passa, a nossa cultura só se esvazia, especialmente pelo poder público. Qual orgulho em dizer que temos o maior Cristo crucificado do mundo, se aquela área, mesmo com as novas obras de um mirante, está abandonada (quiosques fechados) e é pouco visitada por falta de segurança e outros serviços de infraestrutura? Pela lógica, se é o maior, deveria ter uma tremenda estrutura de urbanização e ser ponto turístico de atração como cartão postal da cidade. Acho tudo isso uma vergonha! Não é assim que Conquista se transformará numa cidade turística.
NÃO SE TRATA DE UM SÍTIO
A imagem bucólica parece ser de uma fazenda ou de um sítio, mas pode ser vista em plena Vitória da Conquista nos terrenos vazios em bairros da periferia, em meio ao lixo e ao matagal. Nossas lentes flagraram cavalo e cabras pastando numa área da Avenida Sérgio Vieira de Melo, no Zabelê. Em meio ao lixo, pelo menos esses animais estão contribuindo para o capim não ficar mais alto e se transformar em esconderijo de bandidos. Além do mais, evita que alguém toque fogo e provoque aquele “fumacê” tão prejudicial à saúde humana. No corre-corre da vida, muita gente passa e não percebe estas cenas de interior da zona rural. Com o progresso, o trânsito agitado e engarrafado de carros soltando gases tóxicos e multidões em correria, quase ninguém ouve o canto dos pássaros nas praças arborizadas, muito menos uma noite de lua cheia. Como ainda tenho minhas raízes fincadas no sertão da roça, costumo parar para matar a saudade dos tempos de menino quando vivia no campo. Mesmo com a destruição provocada pelo bicho homem predador, a natureza ainda sobrevive ao nosso lado nas grandes cidades e ela atua como bálsamo da alma. Pena que a grande maioria não para um pouco para apreciar sua beleza e seu encanto. Maior parte da minha vida foi em centros urbanos, mas até hoje ainda me sinto um ser campesino. Quando estiver estressado, aporreado ou banzo, escute o canto das aves e olhe um pouco para as árvores e plantas ainda vivas nas pequenas, médias e grandes cidades. Mesmo assim, vamos cobrar do poder executivo que fiscalize os terrenos abandonados e obrigue por lei que seus proprietários os cerquem ou murem.








































