:: ‘De Olho nas Lentes’
A CONQUISTA DE HOJE
Não vamos falar aqui da história do Arraial da Conquista, fundada há mais de 180 anos, mas a de hoje com sua economia pujante, calcada, principalmente, no comércio e nos serviços, a terceira maior cidade da Bahia com cerca de 400 mil habitantes, só que ainda carente de obras de infraestrutura, que não acompanhou a demanda da sua população. Da pecuária, do algodão, do comércio, da cafeicultura e do ciclo educacional, temos uma Vitória da Conquista desenvolvimentista, mas com suas feridas na desigualdade social, na deficiência dos transportes públicos, no atendimento à saúde que ainda deixa a desejar, na falta de grandes obras de drenagem pluvial, que não suporta as grandes chuvas com as mudanças climáticas, ou o aquecimento global, sem falar em outras questões, como o abandono na cultura. Temos que olhar o nosso passado, mas encarar o presente para que tenhamos um futuro mais próximo, ou seja, uma cidade com menos desigualdades, mais arborizada, mais estrutura no abastecimento de água, no setor energético, com mais cultura e mais segura para se viver. Mesmo assim, temos que parabenizá-la pelos seus 186 anos quando foi instituído o Conselho Municipal, espécie de Câmara de Vereadores, em 1840, e empossado o primeiro intendente-administrador, ou prefeito.
EM PLENO SERTÃO PERNAMBUCANO
As videiras brotam seus exuberantes cachos brancos e tintos em pleno sertão pernambucano, no município de Lagoa Grande, distante cerca de 80 quilômetros de Petrolina, graças as águas do nosso Rio São Francisco, ou o “Velho Chico”, para os índios, o Opará (rio-mar) que banha os estados de Minas Gerais, Bahia, Piauí, Sergipe e Alagoas. Do lado de Pernambuco, lá está a vinícola Rio Sol que produz vinhos de qualidade consumidos pelo Brasil, sendo a maior parte pelo Nordeste. Quem passa por Lagoa Grande, com destino a Recife, conforme flagrante de nossas lentes, num calor de 40 graus nesta época do ano, sempre dá uma parada para tirar uma foto e testemunhar que o sertão da caatinga nordestina produz uvas o ano todo, o que seria inimaginável em tempos passados. É o milagre do “Velho Chico”, mesmo sendo maltratado pelo homem durante séculos, que dele tira o seu sustento, mas não preserva como deveria ser. Não se sabe até quando ele vai resistir a depredação das suas margens. Em épocas de longas estiagens, ele baixa suas águas e dá sinais de que vai desaparecer. Os governantes apresentam medidas para sua revitalização, mas depois engavetam os projetos quando batem as chuvas. A fazenda Rio Sol está ali bem perto, a cerca de dois quilômetros do São Francisco, para irrigar suas videiras e mangueiras.
A CAPELINHA PORTUGUESA
Na entrada da vinícola Rio Sol, em meio às videiras e encravada no agreste seco do sertão nordestino pernambucano, no município de Lagoa Grande, a capelinha portuguesa nos faz lembrar a época da colonização na região quando o El Rei de Portugal dividiu o Nordeste em sesmarias e massacrou as tribos indígenas. Pela sua simplicidade e como símbolo da fé católica, sempre digo que sou mais as capelas que as catedrais. A cultura das capelas nas grandes fazendas, na Casa Grande dos Engenhos, em contraste com as senzalas dos escravos negros vindos da África, foi e ainda é uma tradição mantida pelos senhores, inclusive os coronéis. Nos tempos da colonização, era na capela onde as famílias se reuniam para professar sua fé, realizar os batizados e, vez ou outro, assistir a missão do capelão. Quando lá estive na semana passada, na fazenda Rio Sol, foi a primeira construção a me chamar a atenção e o primeiro flagrante registrado pelas minhas lentes. A capelinha portuguesa representa a nossa história secular que permanece até hoje, inclusive nos distritos e povoados, principalmente no Nordeste.
“PROJETO SEXTOU” NO ESPAÇO CULTURAL
Na semana passada tivemos o prazer de receber, pela manhã, os alunos do Instituto Multidisciplinar em Saúde, da Universidade Federal da Bahia-UFBA, campus de Vitória da Conquista, do “Projeto Sextou”, quando, na ocasião, batemos um papo agradável sobre a situação da cultura na cidade, como a urgência de abertura dos equipamentos fechados (Teatro Carlos Jheovah, Cine Madrigal e Casa Glauber Rocha) para atender as necessidades dos artistas, bem como a aprovação do Plano Municipal de Cultura. Os jovens estudantes ficaram encantados com o acervo de cerca de sete mil itens do Espaço Cultural A Estrada onde é realizado o “Sarau A Estrada” que neste ano completou 16 anos de existência. Por serem de uma nova geração, as peças e objetos analógicos, como máquinas fotográficas, gravadores, máquina de datilografia, vinis, dentre outros, foram os mais apreciados pelos alunos, que também se interessaram pelos livros, as coleções de clássicos, chapéus e os quadros de fotografias retratando o homem do campo e o sertão nordestino. O “Projeto Sextou” é uma ação extracurricular que envolve diversas atividades artísticas e culturais.
VISITA AO ESPAÇO CULTURAL
Nesta sexta-feira (dia 02/10/26), a partir das 9 horas, o Espaço Cultural A Estrada estará recebendo alunos do “Projeto Sextou”, do Instituto Multidisciplinar em Saúde da Universidade Federal da Bahia-UFBA, campus de Vitória da Conquista, para conhecer o seu acervo e bater um papo cultural. Com mais de 20 anos de existência, o acervo conta com cerca de sete mil itens entre livros (mais de dois mil), revistas, arquivos de jornais, vinis (mais de dois mil), peças artesanais, quadros fotográficos referentes ao sertão nordestino, chapéus (mais de 200), CDS, DVDS, equipamentos analógicos em geral, entre outros itens de valor simbólico inestimável. Os jovens estudantes da área da saúde serão recebidos pelo coordenador do Espaço Cultural, jornalista e escritor Jeremias Macário que, na ocasião, falará um pouco sobre a construção e a vida deste ponto cultural conquistense onde também é realizado há 16 anos o “Sarau A Estrada, com a participação de intelectuais, artistas, professores, estudantes e pessoas interessadas perla cultura e pela arte. Não é a primeira vez que o Espaço Cultural A Estrada recebe a visita de estudantes e de outros grupos desejos em conhecer sua estrutura. Atualmente o Espaço fica situado na Avenida Sérgio Vieira de Melo, no loteamento Sobradinho.
UM CEMITÉRIO PERDIDO
Por este Nordeste a fora não é difícil encontrar cemitérios abandonados, perdidos dentro da caatinga, muitos à beira de estradas e veredas, em povoados, antigas fazendas de coronéis e arraiais. Pelo aspecto, percebe-se que são de pessoas pobres, muitas enterradas até em redes ou cobertas na falta de um caixão. A grande maioria de crianças e idosos mortos por doenças várias, pela fome das secas implacáveis e até mesmo vítimas do cangaço e das forças policiais brutais dos chefes políticos e detentores do poder. Lembra até do poema “Morte e Vida Severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto, que fala do sertanejo retirante que morre na miséria no meio do caminho. Não precisamos ir muito longe. Aqui mesmo, próximo ao povoado da Tapera, município de Encruzilhada, nossas lentes flagraram um cemitério nestas condições de abandono dentro do matagal seco, se bem que muitas covas ainda conservam carneiras destruídas pelo tempo e por dentro do capinzal muitas cruzes. Os moradores calculam que o cemitério deva ter cerca de 100 anos de existência ou até mais que isso quando ainda não havia um local reservado aos mortos no surgimento do povoado. Como respeito aos que se foram, respeitando as tradições culturais religiosas populares, o local poderia ser limpo e cercado como forma de preservação da memória daqueles que partiram para outro além.
O BAMBUZAL DA UESB
Não são somente os prédios da Uesb que encantam, se bem que dentro deles brotam o conhecimento e o saber que devem ser compartilhados para os demais e não apenas ficarem fechados entre as quatro paredes dos próprios acadêmicos, o bambuzal, praticamente em sua entrada, passa uma sensação de que se está entrando no fundo de um túnel onde do outro lado está a luz. Sempre que tenho que ir à instituição superior de ensino, vem logo à minha cabeça o prazer de transitar ali por dentro bem devagar para apreciar a beleza poética da natureza. No momento, também me faz lembrar do lindo bambuzal na entrada do Aeroporto Internacional de Salvador, que deveria ter o nome de Castro Alves. É sempre prazeroso e faz bem ao espírito. O bambu, que tem sua origem há cerca de 65 milhões de anos, no final do período Cretáceo e início do Terciário, com dispersão na Ásia e nas Américas, é uma planta que balança, mas não cai, enverga, mas não quebra. Devemos ser como o bambu diante das intempéries da vida passageira, cuja morte a chamamos de a tirana. De acordo com pesquisas científicas, a China foi o primeiro local a cultivar a planta em larga escala, há mais de cinco mil anos. No Brasil existem mais de 260 espécies nativas do bambu, conhecidas como taquaras, usadas por povos indígenas. A palavra veio do Oriente, derivada de um idioma da Malásia. O bambu é uma das matérias primas mais versáteis do planeta. Pela sua resistência, é utilizada na engenharia e até na alimentação. Ele também recebe o nome de “aço verde”, substituindo a madeira e até o ferro em estruturas. Também é aproveitado na fabricação de móveis e objetos decorativos, como luminárias, persianas e cestos. As fibras podem ser transformadas em tecidos macios em roupas, lençóis e toalhas. O broto é um alimento tradicional e nutritivo na culinária asiática. No meio ambiente, o bambu sequestra grandes volumes de carbono e é usado ainda na produção de carvão vegetal de alta qualidade, bem como na industrialização de papel. Na cultural oriental chinesa e japonesa existem diversos provérbios, como “o bambu que se curva é mais forte que o carvalho que resiste”, “ o bambu curva-se, mas não quebra”, “o bambu leva anos para criar raízes, mas depois cresce em semanas”, “Para aprender sobre o bambu, vá até o bambu” e “seja como o bambu: oco por dentro para manter o coração leve”.
A UNIVERSIDADE É NOSSA
Não sei se é coisa só da minha cabeça, uma opinião isolada, mas entendo que a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, criada por decreto em 1980, a partir do curso de Formação de Professores, precisa interagir mais com a sociedade conquistense. A vejo como um corpo acadêmico fechado de pensadores que discutem teorias e teses entre si. Lembro que quando aqui cheguei, em 1991, ir à Uesb era como fazer uma pequena viagem dentro de uma capoeira de chão batido. Tudo isso deixou de existir com a expansão da Avenida Olívia Flores e a instalação de instituições e empresas, conectando a Uesb à cidade em termos físicos. No entanto, a distância do conhecimento e do saber não me parece ter mudado. Sei que a Universidade realiza muitos projetos de extensão e outras atividades no campo econômico, cultural, social e político, mas existe uma sensação de que a comunidade não entra como participe e pouco usufrui de seus programas. Em seu Colegiado ou Conselho não poderia caber representações da sociedade? Como a Universidade é nossa, porque é paga pelo contribuinte, os membros dessa sociedade não deveriam também ter o direito em algumas decisões internas, como na votação da reitoria? Em Vitória da Conquista, infelizmente, só existem dois museus, o Regional, na Praça Tancredo Neves, e o Padre Palmeiras, na Praça Sá Nunes, administrados pela Uesb e poucos eventos são realizados naquelas unidades. Sinto que existem poucos projetos de desenvolvimento do município capitaneados pela instituição de ensino. Isto é falha do poder público, uma questão política que deixa de realizar convênios? É a sociedade que tem que buscar a Uesb, ir até ela, ou vice-versa? São questionamentos que precisam ser esclarecidos, mas Conquista poderia ser mais beneficiada pela Uesb no sentido de melhorias da sua infraestrutura, principalmente com projetos direcionados aos bairros mais carentes das periferias. A impressão é que a Uesb não faz parte da cidade. É um debate que precisa ser provocado. Sabemos que dentro da Uesb existem correntes políticas que talvez impeçam um melhor relacionamento com a sociedade.
O MAU EXEMPLO DO PODER PÚBLICO
O ACESSO MAIS HORRÍVEL DE CONQUISTA
Pouca gente tem percebido que a entrada e a saída, ou seja, o acesso de Vitória da Conquista, cortando o Anel Viário, em direção a Anagé e a Brumado, na boca do agreste do sertão do sudoeste, é o mais feio e passa uma péssima imagem ao visitante. Não dá para instalar ali uma placa de “Seja Bem-Vindo”. Seria até ridículo e motivo para piadas.
Quem vem de Brumado e faz a rotatória do Anel e pega a avenida do mesmo nome se depara com sucatas, carros velhos enferrujados, lixo e entulhos de ambos os lados próximos ao Atacadão, principalmente de um grande terreno na faixa esquerda pertencente ao Governo do Estado da Bahia.
Comentamos aqui sobre o problema dos lotes privados abandonados que se transformaram em matagais, lixeiras e são verdadeiros atentados à saúde pública. Cobramos uma fiscalização mais rígida por parte da Prefeitura Municipal no sentido de penalizar os proprietários que não cercam ou muram suas áreas.
O mau exemplo, no caso específico desse terreno abandonado na saída de Conquista para Anagé há muitos anos, vem justamente do poder público estadual. Trata-se de uma extensa área infestada de ferros velhos, entulhos, mato, lixos orgânicos e sólidos, utilizada até para queima de fios para extração de cobre. O local mete medo por quem transita por ali.
Em determinados locais, o mau cheiro invade as residências ao lado do loteamento Sobradinho, cujos moradores sofrem com o barulho e a poluição de fuligens da “Sucata Esperança”. Em frente ao terreno ainda existem duas empresas de reciclagem e muitos estão denominando o local de “Rota do Lixo”. Aqui ali está mais para matança do que esperança.
Os moradores clamam por providências e reivindicam que o terreno seja beneficiado em prol da comunidade através da construção de casas populares, uma praça de lazer e entretenimento, escola, posto de saúde ou outros equipamentos, oferecendo outro visual à entrada da cidade.
Quando aqui cheguei, há 35 anos, este terreno já existia e continua lá sem nenhuma serventia, a não ser como depósito de lixos de toda espécie e estacionamento para caminhões da Sucata que se tornou num inferno para os habitantes das redondezas.
Nossas lentes flagraram um absurdo que viola a legislação brasileira no que diz respeito à preservação do meio ambiente e o desrespeito às pessoas que são obrigadas a viver dentro da sujeira em meio a ratos, cobras, escorpiões, mosquitos da dengue e todo tipo de insetos.
Sem dúvida, é o acesso mais horrível de Conquista, por muitos chamada de a “Suíça ´Baiana”. Pelo visto, diante do aspecto do terreno abandonado, está mais para “Haiti”. A terceira maior cidade da Bahia, com cerca de 400 mil habitantes, não merece isso.










































