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:: ‘Na Rota da Poesia’

INFINITO REVOLTO SERENO

Um ser cativo tão pequeno,

A mirar o infinito revolto sereno,

De fortes correntes e ventos,

É o mar dos descobrimentos,

Esse revolto sereno.

 

Rios correm invisíveis ativos,

Nesse infinito sacrário,

Nos sentidos anti e horário,

Para outra banda continental,

De jangada, caravela e nau,

Navegaram polinésios nativos,

Bartolomeu, Vasco, Colombo e Cabral.

 

Nesse infinito revolto sereno,

Do cabo fervente diabo Bojador,

Do Boa Esperança até a Índia,

Mar mistério negreiro cemitério,

Infinito sereno de prazer e dor.

 

Infinito revolto sereno,

Do Pau Brasil que já sumiu,

Rota dos escravos Benim Ajudá,

Me cure dessa saudade veneno,

Do amor que ficou do lado de lá.

SEM RETORNO

Poeminha mais recente de autoria de Jeremias Macário (rascunho)

Você não mais pensa no fim,

No ser vivo existir,

Sem mais retorno,

Sua batata queima no forno.

 

Esse caminho não tem retorno,

O amor perdeu sua cor,

Para onde você for,

Sua cabeça está no torno.

 

Dos penhascos caem as rochas,

Derretem gelos dos icebergs,

O nível do mar afoga focas,

E os homens abrigam nos albergues.

 

Rugem fuzis e metralhadoras,

Ogivas cortam espaço,

Motosserras, pastos e lavouras,

E da terra arranca o aço.

 

Os animais passam vírus,

Visões em confusões,

E nos campos de secos varais,

Não nascem mais lírios.

 

Você está sem retorno,

Na idade do fóssil carvão,

Do inverno que virou verão,

Sem primavera de flores,

Num inferno de dores,

Sem seu outono morno.

 

 

SONHO DE PESADELO

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Um dia eu sonhei,

Que era menino da roça,

A cantarolar com os pássaros,

Sofrer, Assanhaço e o Bem-te-Vi,

E um dia meu pai me deu uma coça,

Porque não rezei antes de dormir.

 

Ai sonhei que o menino sonhou,

Em fugir para a grande cidade,

Cedo com a sua mochila,

Atravessou aquele monte,

Com os passos de um gigante,

Pra ser um sujeito da civilidade,

E um dia ser um senhor doutor.

 

Ai meu sonho virou pesadelo,

Num labirinto sem novelo,

Minotauro matava Tseu,

Ninguém de mim se comoveu,

Virei freguês da conta do mês,

Escravo vendedor de um burguês.

 

No morro traficante da favela,

Fiz serviço até de sentinela,

Vi passarinho voar sem asa,

Bota e fuzil arrombar casa,

Fumaça tóxica girando no ar,

A dor da fome no asfalto,

E o sangue a riscar no assalto.

 

Ai sonhei outra vez,

Não mais era um pesadelo,

Sonhei até o fio do cabelo,

Que era um lavrador,

Tinha um sítio no Caldeirão,

Dois filhos e um grande amor,

Tomando cafés no bule,

Quente torrado do pilão,

Nas conversas entre compadres,

Noite a dentro até a madrugada,

Tinha meu cuscuz, feijão e salada,

De manhã os pés nos orvalhos,

Animais balançando chocalhos,

Sem aqueles prédios de grades,

 

Sonhei que era bem mais feliz,

Um homem mais educado,

Com a natura ao meu lado,

Amando e sendo bem amado,

Na vida que sempre quis,

Traçando meu próprio enredo,

Sem mais ter pesadelo,

Nem bala pelas esquinas do medo.

LA VIE EST AUSSI

Poeminha do jornalista e escrito Jeremias Macário

La vie est aussi,

Comme toujours, c´est fini.

O venal é um avestruz avarento,

Como se não existisse finitude,

Quer mudar a direção do vento,

E imola os ideais da juventude.

 

La vie est aussi,

Comme toujours, c´est fini.

 

Tem o passageiro farsante peru,

Almofadinha na linha do metrô,

Que imagina ser do capital guru

E não passa do sistema um gigolô.

 

La vie est toujours aussi,

Feita de sonho e de amor,

Às vezes nascida da violência,

Nas favelas dos morros da milícia,

Ou no fuzil rasante da polícia,

Que rouba da criança a inocência,

Suga o seu sangue até o fim,

E vota no patrão, sim senhor.

 

La vie est toujours aussi,

Vinda do campo ou da cidade,

Com seu tempo limite de idade,

Uns sofrendo na danada seca,

Outros no torpeço da travessia,

A vida é assim na máquina moída,

Do império ao marechal Fonseca,

Nessa república nua sem saída.

 

CONSCIÊNCIA DE PAPEL

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Tudo é poético e surreal,

Como na neve voa o corcel,

Só nos sobra o deus real,

Nessa consciência de papel.

 

Consciência só uma, a humana,

Não tem cor, mas sente dor;

Pode estar na jura da aliança,

Na inocência do sorriso da criança,

No bailado doce da bela Serena,

Ou nos predadores da savana.

 

Tudo é poético e surreal,

Como na neve voa o corcel,

Só nos sobra o deus real,

Dessa consciência de papel.

 

Pode estar no açoite da chibata,

Do ancestral a se arrastar pelo tempo,

No vento venal do poder imperial,

Ou na assinatura da assassina ata.

 

Tudo é poético e surreal,

Como na neve voa o corcel,

Só nos sobra o deus real,

Nessa consciência de papel.

VIELAS NOTURNAS

Poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

Pelas esquinas e avenidas curvas,

Raios de luzes deslizam no asfalto,

Cada alma busca suas curas,

E o sangue humano risca no assalto,

Saído das veias das vielas noturnas.

 

Nesse existir só valem as fortunas,

Na mente aquela senhora calma serena,

Que via o invisível atrás da sua lente,

E a câmara da antena meus passos vigia,

Rogo ao tempo que não nasce o dia,

Para vagar eterno nessas vielas noturnas.

 

A noite invade a madrugada,

No lixo eu colho uma salada,

Os prédios são caixões de urnas,

Na solitária dor das vielas noturnas.

PASSADO QUE ARDE

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Sou seu animal ancestral,

Que rosna em seu presente,

Com mente canibal.

 

Do Brasil Raízes, encarnado,

Da chibata que sangra a carne,

Sou passado que ainda arde.

 

O vento segue a corrente do tempo,

Como as injustiças no lamento,

De uma gente que sempre mente.

 

Sou fardo que nasceu do parto,

Vida que sempre sonhou,

Num país que esqueceu o amor.

 

As ondas se batem no mar,

E se acabam no mesmo lugar,

Como a morte que lhe rouba o ar.

 

Sou pôr-do-sol dessa tarde,

Do amanhã o alvorecer,

De um passado que ainda arde.

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (Final)

Por essas plagas baianas fui estradeiro-poeira entre os municípios,

Nasci em Mairi e sou filho da querida Piritiba do meu amigo Aragão;

Fui pra Amargosa ser padre e por muitos anos orei como seminarista;

Terminei jornalista onde revisei em Salvador e cobri sobre economia;

Passei para outra via fria da Conquista que me deu o título de cidadão,

Onde abri fronteiras e quebrei viola com o poeta Camilo de Jesus Lima,

Com Laudionor Brasil, duelei em saraus e nas manchetes dos jornais.

 

Quando menino perambulei nas matas virgens da Serra do Periperi;

Vi Imborés e mangoiós nos arredores fugindo do homem branco,

Que depredou toda terra da Serra, que dela só restou a Mata Escura,

E o Cristo de braços abertos roga aos seus por mais amor e ternura.

 

Quem sou eu?

Sou um velho secular,

Que viu tudo se passar,

Viajante desse agreste nordestino

Nas picadas das trilhas fiz destino,

Com os sábios do Maranhão a Bahia,

Nordeste rica de cultura e de etnia,

Onde fiz história e abri caminho pro Norte,

No Sul construí o capital de gente forte.

 

Quem sou eu? Não importa!

Sou de terra firme e bom de corte;

Gosto de uma prosa de repente trote,

Com intelectuais e cabra da peste,

Nessa paisagem de tanto contraste,

Desse meu amado sertão Nordeste,

Onde catei todos engaços e bagaços

Pelas estradas poeirentas que vaguei,

E conversei com matutos e com rei.

 

 

 

 

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (VII)

Na terra de Gregório, boca do inferno, nos embriagamos de vinho,

E com ele divulgar poemas de protesto pelas vias do Pelourinho,

Em oratório de igrejas, e até em quartos de “loucos” em sanatório;

Do erótico, colamos cartazes em bregas e em porta de cemitério;

Rodamos toda velha Bahia e tomamos mais uma na Praça da Sé,

Onde rola mistura de todas as religiões que vão nas pegadas da fé,

Como no canto profundo de Caetano, Capinam, Gil e de Tom Zé,

Que deram voz e força a todo o nosso povo massacrado do Brasil.

 

Em Salvaboa no trapiche da Gamboa, com a cara da mãe Lisboa,

Fui “Ouro de Tolo” como um besta do interior com o profeta Raul,

Do Seixas de “Sociedade Alternativa”, que me passou suas deixas,

Pra ser um cara libertário e não entrar em conversa mole de otário,

Como ser moleque de Jorge Amado e entrar em “Capitães da Areia”,

Em Dona Flor fui um dos maridos e Tenda dos Milagres um teste;

Rabisquei linhas de Seara Vermelha, Gabriela e Tieta do Agreste;

Me ensinou criar personagens e como sempre faço, dei forte abraço,

No Amado, Mário Cravo, Glauber cinema-poema e artes plásticas,

Deus e o Diabo que transaram na Terra com o Dragão da Maldade.

 

Ah! Não podia deixar de ir até Ipiaú conhecer a reforma agrária,

Implantada pelo humilde escritor comunitário social Euclides Neto,

Com quem bati um papo reto e com ele e outros arrastei A Enxada,

De um retado nas palavras de Prefeito, a Revolução e os Jumentos;

Corri sertão virado para ver Osório Alves em Santa Maria da Vitória,

A quem dei o meu pitaco lendário na história de Porto Calendário,

E em Bahiano Tietê e na Maria Fecha a Porta Prau Boi não te Pegar;

Passei na Lapa, fiz rezadeira e proseei em Caetité com Anísio Teixeira.

 

Na capital com morenas Além do Carmo curti em noites fantásticas,

Depois pedi a benção a mãe Menininha da Federação, lá do Cantoá,

Que em seu terreiro me deu reza e patuás para dançar com os orixás,

E ainda brindei um trago do raro cordel com Cuíca de Santo Amaro.

 

Bahia caraíba-tupinambá de João Ubaldo em “Viva o Povo Brasileiro”;

Com ele comi lagarto, bebi água da bica e uma cachaça em Itaparica,

E fui à grande freira com Milton Santos, o mestre da geografia social,

Que me indicou visitar o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira,

Baiano profundo e conhecedor da Formação do Império Americano,

De Marti a Fidel e de A Casa da Torre de Garcia, indicado ao Nobel,

E de sua biblioteca sai zonzo de tanto conhecimento e pinga com mel.

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (VI)

Pelo sertão rachado me embreei em direção a Palmeira dos Índios,

Perto de Quebrângulo onde nasceu um menino calado um Aladim,

Até avistar a escultura do mestre das palavras, “sejam bem-vindos”;

Bateu emoção entrevistar o prefeito-escritor Graciliano Ramos,

De “São Bernardo”, preso em “Cárceres” e viu as “Vidas Secas”,

Onde deixou dar uns pitacos no seu personagem andante Fabiano,

E no enredo coloquei seu encontro com um bando de cigano;

Ainda me convidou para em sua ceia comer cuscuz com aipim;

Mostrar o mapa da sequidão da peste bem ao lado da sua Baleia;

Contar suas histórias nordestinas de gente esquelética crucificada,

Tangida como boiada pela estrada pau-de-arara na rota escravista.

 

Do comunista ateu, bom e justo que dessa gente se compadeceu,

Detido por Getúlio porque tentou socializar nas escolas o ensino;

Anotei tudo como jornalista em meus anais na terra dos marechais;

Dei um nó na alparcata e toquei para a capital Maceió da Pajuçara,

Onde visitei o velho Teodoro da Fonseca, da República dantesca,

E mostrou sua espada que proclamou a coisa pública ser privada.

 

De Alagoas, fui de barco e Jeep pra abraçar meu Sergipe,

E ver a foz do irmão São Francisco reduzido a um cisco,

Engolido pelo voraz mar, empurrando sal que só faz secar;

Visitei ribeirinhos desolados com seus feixes de redes vazias,

Porque os peixes sumiram do rio nessa vastidão de areias,

E pelo agreste triste viajei pelas veias do litoral até Aracaju,

Pra conversar com o intelectual escritor Tobias Barreto,

Com Calazans Neto comi caranguejos na praia de Atalaia,

Onde tomei mais umas pingas com uma moqueca de arraia,

Para pegar estrada até a histórica cidade de São Cristóvão,

Que foi pedida para entrar de vez na minha querida Bahia,

E beber no cantil de Castro Alves, o maior poeta do Brasil,

Condoreiro das espumas que escreveu o “Navio Negreiros”;

Curti com ele a boemia, com mulheres do mal do século;

Aprendi ser romântico realista falando de deuses e escravos,

E vi Castro declamar pra tribos ao lado de reis e guerreiros.

 

Nos engaços bagaços galhos de aço entrei na mística Salvador,

A África brasileira que deu bravos heróis para libertar o Brasil

Do jugo português que dessas plagas toda riqueza nos roubou.

Com Ruy Barbosa, o Águia de Haia das palavras, o maior doutor,

Estive e me disse que de ver o homem prevaricar, viria o tempo,

Com seu vento da desonestidade zunindo virar uma brisa normal;

Do mal ser um bem num país sem decência, vergonhoso e imoral.

 





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