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:: ‘Na Rota da Poesia’

A VELHICE

Verso de autoria do jornalista Jeremias Macário

Da velhice fazem piadas,

Que dói aqui, dói acolá,

Esquece que seu dia vai chegar,

Para seu ciclo fechar.

 

Falam que a velhice,

Volta a ser criança,

Que ela é o renascer,

Com a face da sabedoria,

A firme crendice,

Que não existe,

Uma única filosofia.

 

Velhice não é o fim,

É só um idoso jardim,

Colha dele sua flor,

Da senhora ou senhor.

 

Ela está no rio,

Que se encontra com o mar;

É terra em seu cio,

Semente que vai renovar,

O amanhecer do amanhã,

Fumaça do grande chamã,

O sol, montanha e o ar.

 

Meu camarada,

Você não sabe distinguir,

Entre o tudo e o nada;

Use sua cuca inteligente,

Para ser mais engraçado,

Que a velhice de repente,

Vai estar bem ao seu lado.

NA CONTRAMÃO

Do livro Pofesto – Ação Direta, de Danilo Jamal

Na contramão a arte,

Que tenta fugir dessa estrutura de tanta

Amargura.

Quem for artista que se cuide!

Repressão retada, truta!

Se vacilar eles vão querer de dar um pega

E não uma trufa.

Sempre eles, os donos da verdade

Absoluta.

Do outro lado, nós na luta,

Ferozes na labuta,

Por não aceitarmos esses filhos da puta,

Cheios de falhas na conduta,

Que não respeitam artistas de rua,

Que suam, todos os dias, para sobreviver,

Vencer e entender…

Por que nos prender?

Ah, tá! Eles pensam em deixar as ruas

Limpas, mas, pra quê?

Tem lógica esse pensamento?

Realmente, sinceramente…

O que falar dessas vendas nos olhos?

Incentivo só para os playboys nos postos.

Acidentes, sociedade no puro ódio,

Tempos retrógrados…

Quem é artista que fique ligado,

Negócio vai ficar pegado,

Alívio mesmo, só quando for carburar

Distante dos folgados.

Observem o que o cabresto faz?

Nos tira todas as possibilidades reais.

 

O FRIO ME CONSOME

Poema inédito de autoria de Jeremias Macário

O frio me consome,

Nessa solidão que lambe,

O meu verbo poemar,

Entre ondas geladas do mar,

Com a neve a engolir o ar.

 

O tempo parece não se mover,

Sem nunca esquecer de você.

 

Imagino o colorido da cigana,

Da dança religiosa-profana,

De temperatura-tortura,

Sem vontade de levantar,

Nem da vida o lidar.

 

Vejo até leão na savana,

Do outro lado de lá.

Rodando minha cabana.

 

Tomo uma taça de vinho,

Sinto o cheiro do cio,

Com as ideias no ninho.

 

Não consigo respirar;

Entender a alma latina,

De tanta gente com fome,

Do poder da mão assassina,

Nesse frio que me consome.

 

Da boca sai a fumaça,

Desse frio carrasco,

Que meu neurônio se assa,

Preso num frasco.

 

No alerta do radar

Vem o desejo de amar.

 

Estou condenado,

A ficar aqui isolado,

Sem saber se sou homem,

Lobo ou lobisomem.

Foi-se o mentiroso sol;

Minha mente escrava cativa,

Liga em Assaré Patativa,

Do agreste nordestino,

Nuvem Orixá, ente divino.

 

Esse frio me consome;

Preciso me aquecer;

Rogo voltar pra mim,

Com seu cheiro de alecrim.

 

Esse frio me consome,

Às vezes troco seu nome,

Mas grudou o amor que ardia,

Naquele verão do lindo dia,

Que me ensinou a te amar,

Em qualquer lugar.

 

Como vira-lata enlatado,

Aqui todo enrolado,

Como pacote fechado,

Sem forças para respirar

Nesse louco frio,

Que me rouba o brio,

Pensando pegar a pista,

Da minha querida Conquista,

Pra Juazeiro, Piauí ou Ceará

Natal ou até o Pará.

 

Seu moço,

Esse frio me consome,

Me impede de circular,

Mas sempre vou te amar.

 

O corpo arqueado doído

Fica ainda mais dolorido,

E o espírito pede passagem,

Para outra viagem,

No calor do meu amor.

 

O frio me consome,

Solitário de mim,

Em meus diários,

De segredos sagrados,

Como relicários.

 

Minha alma banha em lágrimas,

Nessa garoa fria e calma;

E só o amor me guia,

Nessa acelerada via,

Errante, pensante, delirante,

Nesse frio que me consome.

 

QUEM É ESSE ENCANTADO?

Quem é esse encantado,

De alma menino,

Que tanto nos fascina,

Como mito divino,

Que encurta caminhos,

De origem asiática ou latina,

Que escreveu em sua lápide:

Por aqui passei, sempre amei,

E tudo deixei.

 

Quem é esse encantado,

Sem mitra e estola,

Que da vida fez escola?

 

É índio guerreiro?

General das guerras vencedor?

Escravo liberto do seu senhor?

Sábio viajante do tempo?

Ou espírito amante cantante?

 

Quem decifra seu encanto,

De encantado profundo,

Religioso e profano,

Que sabe rir e sofrer,

Sem ser pecador e santo,

Que só o canto da viola,

Desencanta seu mundo?

 

Quem é esse encantado,

De tanto mistério na terra,

Que sabe subir e descer a serra,

E conhece os enigmas do ar e do mar?

 

Quem é esse encantado,

Que tanto encanta o humano,

Pescador de poesia,

Resistente como planta

Do nosso sertão nordestino,

Que rege seu próprio destino,

E vive da sua filosofia?

 

ESCRAVIZADOS

De Danilo Jamal, em POFESTO – Ação Direta, Editora EDU O.

Pela frente ou por trás,

Nenhum deles sabe o que faz.

Nos tiram o direito,

Alegando que é em nome da paz.

Nos jogam em qualquer lugar

Feito animais,

Mancham nossa história

E esquecem nossos ancestrais.

Nos colocam em vitrines,

Para ver quem paga mais.

São essas as grandes

Injustiças sociais.

QUEM É ESSE ENCANTADO?

De autoria de Jeremias Macário

Quem é esse encantado,

De alma menino,

Que tanto nos fascina,

Como mito divino,

Que encurta caminhos,

Filho da América Latina,

Que escreveu em sua lápide:

Por aqui passei, sempre amei,

E tudo deixei.

 

Quem é esse encantado,

Sem mitra e estola,

Que fez da vida sua escola?

É o índio guerreiro?

General das guerras vencedor?

Escravo liberto do seu senhor?

Sábio viajante do tempo?

Ou espírito amante cantante?

 

Tentei decifrar seu encanto,

De encantado profundo,

Religioso e profano,

Que sabe rir e sofrer,

Sem ser pecador e santo,

Que só o canto da viola,

Desencanta seu mundo.

 

Quem é esse encantado,

De tanto mistério na terra,

Que aprendeu subir e descer a serra,

Conhece os enigmas do ar e do mar?

 

Quem é esse encantado,

Que tanto encanta o humano,

Pescador de poesia,

Resistente como planta

Do nosso sertão nordestino,

Que rege seu próprio destino,

E vive da sua filosofia?

 

 

CONTRASTE

Autor Erathósthenes Menezes, do livro “O Poeta do Mulungu”

Obra resgatada pelo professor Durval Menezes

Aqui, a dor a lancinar, fremente,

Um triste peito, aflito, suspirando,

Além um outro a delirar, contente,

Tendo de amores a alma transbordando.

 

Aqui, um Creso a rir, indiferente,

Tendo um sabor de glórias, ouro e mando,

Além, um outro, da ventura ausente,

Roto, na rua, triste, mendigando.

 

Num lar, festas, um mundo de esperança,

Já noutro lar a brusca morte lança,

O dardo agudo, cheio de terror.

 

É passageira, pois, e indefinida,

Esta balbúrdia que se chama vida

Em que se enlaçam a alegria e a dor.

Conquista, 22 de agosto de 1981

MUSA PRIMEIRA

Imagine,

Fim do dia,

O que fizemos?

A noite chega matreira,

Dizem ser uma criança,

Ou às vezes traiçoeira,

Das andanças lembrança.

 

Toda vida,

Tem entrada e saideira,

Viagem do tempo,

Do abrir cancela e porteira,

Na pisada do sentimento,

Subo serra,

Desço ladeira,

Gira a terra,

Igualdade é uma mentira,

Rico fica com a paisagem,

Pobre com a tira,

Mas cada um já teve,

Sua musa primeira.

 

Musa primeira,

Fonte inspiradora,

Deusa do ar e do amor,

Da arte redentora,

Bálsamo da dor,

Musa primeira.

 

TUDO ISSO VAI SE ACABAR

Versos inéditos de autoria de Jeremias Macário

Que me perdoem os otimistas,

Assassinaram minha esperança;

O sangue corre nas pistas;

A roubalheira só avança;

A situação pode ainda piorar,

Mas tudo isso vai se acabar.

 

Pelo celular recebo vídeos,

O ser mau caráter virou moda,

Nesse Brasil dos genocídios;

Corrupção tornou-se mão na roda,

Para nosso sonho esmagar,

Mas tudo isso vai se acabar.

 

Oh, Senhor Deus do poeta!

Com seus versos em oração,

Na linha reta como uma seta,

No lamento contra a escravidão,

Una forças aos dos orixás:

A Oxum, Iansã e a Iemanjá,

Omolu, Xangó, nagô-iorubá,

Para que no tempo um dia,

Nessa longa penosa via,

Tudo isso vá se acabar.

BA-HIA

Versos de autoria do jornalista Jeremias Macário

Ba-hia, rainha do mar,

Baia de Todos os Santos,

Do índio tupinambá,

Das mitologias dos orixás,

Aprendi a fazer essa prosa,

No Seminário de Amargosa,

Ba-hia escrita com “H”.

 

Ba-hia dos cancioneiros,

Abençoada pela natureza,

Gil, Caetano, Novos Baianos,

Raul “Maluco Beleza”,

Do Rio e São Paulo, pioneiros,

Do Águia de Haia para o mundo,

Ba-hia encanto do canto profundo.

 

Ba-hia de São Salvador,

Mistérios e dos Terreiros,

Com seu manto de igrejas,

Senhor do Bonfim ou Oxalá,

Nos guie e nos protejas,

Raízes jejes, nagôs e iorubá.

 

Ba-hia do sertanejo catingueiro,

Resistente menino de pés no chão,

Filho do cacto e do mandacaru,

Nordestino, estrangeiro no sul.

 

Ba-hia de se perder de vista,

Nas histórias de Jorge Amado,

Dos coronéis de Itabuna e Ilhéus,

Tem cacau, café e o sol de Jequié,

Memórias de Vitória da Conquista,

Anísio Teixeira de Caetité,

Filmes de faroeste agreste,

Glauber, Elomar menestrel,

Repentistas versando nas feiras,

E grãos do oeste Barreiras.

 

Ba-hia do gado de Itapetinga e Caatiba,

Tem a Chapada Diamantina;

Foi lá que namorei uma menina,

No Piemonte de Piritiba,

Com ela fui me banhar,

Nas águas do São Francisco,

Virei pescador ribeiro,

Nas fartas frutas de Juazeiro.





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