:: ‘Na Rota da Poesia’
CATINGUEIRO NORDESTINO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Elevo minha alma ao universo,
Como milagre da existência,
E ao vento a zunir eu peço,
Bater forte com cadência,
Abrir suas valas nesse chão,
Jogar as sementes da reprodução.
Nasci catingueiro nordestino,
Quixabeira, angico e aroeira,
Sou americano do Sul Latino.
Catingueiro nordestino,
Feito mandacaru da sequidão,
Que o tempo adubou meu destino,
Criado no laço do patrão.
Na estrada da vida,
Levei muitas topadas;
Fui amado e odiado,
Até animal da montanha,
Da terra jorrei sangue,
Pecador e teia de aranha.
Nas lembranças de menino,
No pedregulho do orgulho,
Morrerei catingueiro nordestino.
“SOLUÇAR CATINGUEIRO”
De Carlos Alberto Lisboa Maia, extraído do seu livro “Estalos Poéticos”, editora Nzamba, que será lançado no próximo dia 14, às 19 horas, no foyer do Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima, durante abertura da FliConquista (Feira Literária de Vitória da Conquista, terra natal do poeta que, por conta própria, Depois de cursar Administração na Uesb por alguns anos, se enveredou nos estudos de história, sociologia, filosofia, política, economia e literatura.
Maia é um ativista político que participou do processo de criação do PT e da Central Única dos Trabalhadores. Mudou-se para São Paulo em 1985 e retornou a Conquista em 1990. Hoje é membro da Academia Conquistense de Letras, da Casa da Cultura e de outros movimentos, além de coordenar o Cepec (Centro de Estudos e Pesquisa Edmilson Carvalho).
“SOLUÇAR CATINGUEIRO”
As flores se enlutecem nos campos
Mas nos coqueiros do meu alpendre
Ainda estabelecem brotos
Quando se levam águas e terras adubadas.
É preciso entender as securas sertanejas
Nos ambientes climáticos
E nos descuidos de mérito
Com que o atiçar do fogo devasta flora e fauna.
Só no atolar das tempestades
É possível colher frutos das floradas nordestinas
Enquanto a natureza boceja pingos d´água
Nos verdejantes de mato branco.
Ah, Meu pé de aroeira
Deposite um cipó caboclo
Na beleza do teu SER
Para o estalar nos “ombros de quem mandou dar”.
Ao encantamento precioso
Dos rompantes da goela seca
Onde no galopar de cascos de gado miúdo
Peleja-se contra a miséria e a fome.
No elevar de consciências embrutecidas
É necessário galgar graus dormentes
Para um ancorar seguro
Da empatia contagiante de uma sociabilidade humana.
PARTIDOS
De autoria de Júlio Lucas, do seu novo livro “NOVAMENTE POESIA”
Uma partida parte nossa silhueta
Um fluído pálido escorre do nosso vazio
E banha a estrada que nos separa
Que não se para
Não se volta
Volto meus olhos
Para dentro da minha sólida
E estática solidão onde te tenho
E te mantenho
Onde a língua das horas
Não mais te saboreará
Na mão enrugada
Dos amanheceres
Nas mesmas mãos do adeus
Observo sua fotografia
Que não pode…
Que não vai amarelar…
MÃE-DA-LUA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Depois das incelências,
Dos contritos benditos,
No ofício dos defuntos:
“Oh, Mãe Amorosa!
Do filho morto,
Da vida saudosa,
Ao Senhor que está na cruz”!
Que a todos nos conduz,
O corpo desceu pela rede,
Na tosca rasa cova,
De quatro velas em cada canto,
E da carne seca,
A terra dura prova.
Quando o dia gerou luz,
No alto da caatinga,
Ergueu-se uma cruz,
Nela enlaçou uma tarja,
De um luto oculto,
E a Mãe-da-Lua,
No cruzeiro pousou,
No manto da noite de breu,
Com seu canto suplicante
Que todo sertão gemeu.
Aquela apavorante melancolia,
Uivante plangente
Da nativa canora Mãe-da-Lua
Durou até o clarear do dia:
Era a morte com seu frio beijo,
Zombando do sofrer sertanejo.
NAS CILADAS DA LUA CHEIA
Letra de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, gravada pelo músico e compositor Papalo Monteiro. O poema é adaptado aos tempos atuais e é uma crítica política.
Os lobos ficam moucos na lua cheia,
Do Planalto prateado do céu tropical,
Onde os bandos fazem sua farta ceia,
Vinda do arado suado braço serviçal.
As hienas viram renas na lua cheia,
Para a engorda gulosa do grande dia,
Enchendo seus trenós em cada aldeia,
Para mais quatro anos de mordomia.
Os ratos armam ciladas na lua cheia;
Os malignos vendem gato por lebre;
A mente pobre segue o canto da sereia,
E quem sempre paga o pato é a plebe.
Depois desta festa da lua cheia,
A chama da fé começa a minguar;
Até o fio da esperança vai-se embora;
Chora o velho, a senhora e a criança,
Na falta da justiça, do remédio e do pão,
E do direito do viver e sonhar,
De nunca mais ser boiada de patrão.
No aboio, ou no rasgo da guitarra:
“Vamo s´imbora”, gente forte e valente;
Não mais na espera do Deus dará!
Vamos acabar de vez com essa farra
Dessa corja bicharada do nosso lar,
Sem mais raposas uivando em nosso luar.
OS DOZES MESES
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Janeiro matreiro chegou,
Com uma ressaca de lascar,
Nem reguei minha flor,
Só contas a pagar:
Logo vem aí o IPTU,
Material escolar e o IPVA.
Lá vem fevereiro,
No arrastão do carnaval,
O mês mais curto ligeiro,
No calendário do varal,
Místico, profano-religioso,
E o tempo segue tinhoso.
Março é como começo de ano,
Dos estudantes às aulas,
Muita gente dando o cano,
No desarrumar das malas,
Só faturas e boletos vencendo,
E cobranças na porta chegando.
Geralmente abril abre comportas,
Para penitência e a paixão,
As nuvens parecem tristes e mortas,
No agreste só se ver sequidão,
O índio espanta as tragédias,
E os números superam as médias.
Maio surge com sorriso de amor,
Celebra-se o Dia das Mães,
Umas felizes, outras com sua dor,
Sente-se o som dos forrozões,
Anunciando o nosso festão,
E o comércio fatura seu milhão.
Junho é dos santos juninos,
Santo Antônio, Pedro e João,
Salve, salve os nordestinos!
Que têm o Rei do Baião,
É o mês das crendices e da fé,
Das quadrilhas e do arrasta-pé.
Julho é o mês do imperador,
De Júlio César, o romano,
Da Gália, o grande conquistador,
Com a força de um espartano,
No meio do frio invernoso
Na divisa do caminho espinhoso.
Chamam de agosto, o agourento,
Da sexta-feira treze, o terror,
Sempre grande acontecimento,
Mês do rei Augustus, o vencedor,
Getúlio nele se suicidou
E Jânio do Governo renunciou.
Setembro é bagaceira e lamento
Da primavera que pouco flora
Por causa do desmatamento,
Com tanto fogo e a natura chora,
Comemora-se a independência,
Que ainda não saiu da indigência.
Outubro é dedicado às crianças,
Também da Senhora Aparecida,
Romeiros cheios de fé e esperanças,
Crenças que refletem nossa vida,
De virtudes, vitórias e lasqueiras,
Uns subindo, outros descendo ladeiras.
Vem finados em novembro,
Ainda tinha o dois de todos os santos,
Dos meus pais sempre lembro,
Os anúncios entram com seus encantos,
Que comovem incautos passageiros,
Neste trem de estrangeiros.
Dezembro é o Natal sem Fome,
Mais o fim de uma estrada de andança,
A felicidade entra e depois some,
O rico no banquete enchendo a pança,
Boas festas, luzes e foguetórios,
E poucos com Cristo em seus oratórios.
Assim caminha o nosso povo,
Todo mês com suas cores,
Achando que tudo é novo,
Na mistura de alegrias e dores,
Embarca na mesma estação,
E repete na viola a velha canção.
ERRANTE…TOCA PRA MIM…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Queria ser
Um errante mochileiro,
Solitário furando fronteiras,
Girar o mundo inteiro,
Guerrear contra o capital,
Disseminar a paz e o amor,
E combater a injustiça social.
Aqui fiquei em meu terreiro,
No riscado do meu facão,
Nesta aldeia de meeiro,
Assistindo passar a procissão.
Para curar esta minha dor,
A agonia da minha alma,
Toca pra mim
Uma canção sideral,
Que me faça estrela
A navegar
Neste infinito universal.
Toca, toca pra mim
Uma música celestial,
Para que leve seu som
Até meu suspiro final.
Serei um viajante errante,
Quem sabe no outro além;
Encontrarei a minha flor,
Para me responder quem sou.
Toca, toca pra mim,
Aquele canto divino,
Na guitarra, gaita ou violino.
TULIPAS EM SILÊNCIO
Autora: Crisleidy Lauton David
Tulipas em silêncio
No correr dos
Pensamentos.
Eu queria terminar,
Mas as cores foram
Ficando
E me ensinaram a respirar:
Rosa claro, azul sereno,
Amarelo ao entardecer,
Cada pincelada leve,
Fez meu coração
Desacelerar.
Tulipas em silêncio
Florescendo devagar,
Nem tudo precisa ser
Perfeito,
Para bonito se tornar.
O tempo passa sem pressa
Sobre a tela e sobre mim,
E o que parecia ansiedade
Virou calma no jardim.
Tulipas em silêncio,
Sob a luz do amanhecer,
Enquanto misturo as tintas,
Aprendo também a me
Refazer.
SONS DA CAATINGA
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O vento aqui bate,
E o tempo parece parar,
Como sumiço de poeira no ar,
Rodopiando meu sertão;
Bem longe o cachorro late,
Atrás da caça do caçador,
Na lamentosa cantiga,
Como aboio do vaqueiro peão,
Tocando os sons da caatinga,
Desta nordestina nação.
Sons da caatinga,
Sem igual no mundo,
Com seu mistério profundo.
Tem o som da cascavel,
Da folha seca caindo no chão,
Da rezadeira com seu véu,
Do messiânico pregando a fé,
O ritmo do xaxado e do baião,
O reisado e o forró arrasta-pé.
Tem o berro do boi no bagaço,
O chiado do carcará-gavião,
O estalo das alpercatas no cangaço,
A bala zunindo do cangaceiro,
O calango fugindo da seca,
E a poesia do cancioneiro.
Tem o rastejar da lagartixa,
Na rede, o ronco da preguiça,
O balanço do umbuzeiro,
O cantar do Assum-Preto,
O agouro rasgado da cauã,
Na chuva, o floral aguaceiro,
A cigarra no verão da quixabeira,
O colibri beijando a aroeira,
A tosse da fome tísica,
Do facão saindo faísca,
São sons da caatinga,
Com sua magia e mandinga.
POEMA DE AMOR
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, da sua obra de textos poéticos “Na Espera da Graça”
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor,
Mas minha veia é nordestina,
De sangue catingueiro da sina,
Que tenta aliviar os fios da dor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor;
Eu já te amo do jeito que sou:
Seco como pedregulho sertanejo;
Te vejo em meu interior,
Com o coração que ainda tem flor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor;
Eu sigo como viajante,
Errante nas asas do Condor;
Não sou do tipo romântico;
Sou mais fechado lacônico,
Mas ainda fonte de calor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor;
Perdão, não sei fazer poema de amor;
Só sei falar dessa injustiça social;
De tanta gente viver desigual,
Na cidade e no sertão sem cor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor;
Peço que não me leve a mal;
Sou assim meio bruto e rude,
Talvez um sujeito anormal,
Nascido em outra estrela sideral,
Que se alimenta do seu vigor.










