:: ‘Na Rota da Poesia’
TEM DIA…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sempre tem um dia diferente
Mesmo na alma da gente.
Cada dia
Tem o seu pôr-do-sol,
Seu alvorecer,
São vários num só,
Tudo muda,
Tudo se transforma,
Assim é o nosso ser.
Tem o dia da alegria,
Do banzo triste,
Dizendo que você não existe,
Que faz brotar a poesia.
Tem o dia da caça,
Outro do caçador,
Até do escravo
Que se torna senhor.
Tem o dia que se quer esquecer,
Aquele que gruda na memória,
Como fotos antigas de família,
Coisas que marcam nossa história.
Tem o dia…
Do humano e desumano,
O sagrado e o profano.
AQUELE SEU OLHAR
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Eu aqui triste, tão só,
E num repente,
Seu olhar
Beijou meu rosto,
Queimado pelo sol,
Senti seu gosto
Ardente do sertão,
Depois sumiu,
Sem me dar adeus,
Fazendo palpitar
Meu clandestino coração.
Aquele seu olhar
Perfumou minha alma,
Com seu encanto da paixão,
Deixou ela mais calma,
Como feitiço de verão.
No açoite do tempo,
Envergado pelo vento,
Nos embates da ditadura
Contra o regime opressor,
Com a mesma ternura,
Encontrei aquele olhar
Verde como a cor do mar,
Que curou a minha dor.
Na tortura, ela se foi.
Virou estrela de luar,
Mas, seu olhar
Em mim ficou
Como eterno amor.
Aquele seu olhar,
Morena linda e serena,
Foi como um beija-flor
Em chuva de gravatá,
Com suas asas pousou
E livre ao céu voou.
VOA MENTE!
De Jeremias Macário, jornalista e escritor, do livro do autor “NA ESPERA DA GRAÇA”
Quero ser livre como Condor;
Não seja dor e ódio, seja amor;
Seja semente com sua mente.
Voa, voa mente inteligente!
Voa como no rasgo do falcão,
Cortando a linha do horizonte,
Entre o céu azul daquele monte.
Voa mente dessa sofrida gente;
Do nascente ao vermelho poente;
Clareia toda nossa imaginação!
Voa minha mente peregrina!
No meu intrincado pensamento;
Nas asas do gavião e do carcará,
Desta terra guerreira nordestina,
Onde lá vou plantando vento,
Para soprar velas desse tempo,
De volta às raízes do meu luar.
Voa, voa mente em seus fragmentos!
Faz que medite como aquele monge;
Leva pra bem longe meus tormentos,
Pro Olimpo da antiga sábia Grécia,
Onde possa desvendar controvérsia.
Me tira desse caminho curvo e escuro;
Ilumina meu presente para o futuro.
A BENÇÃO, MEU “VELHO CHICO”
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
A benção, meu “Velho Chico”!
Criatura das águas milenares,
Barrentas e canoras,
Das lavadeiras senhoras,
Da Canastra nascente,
Que deu vida e abrigo
À fauna e à flora,
A toda essa gente,
Da aurora ao poente.
Teu nome mesmo é Opará,
Grande fluente rio-mar,
Dos xokós, tuxás-hariris,
Deus salve teus ancestrais,
Tapuias e tupis-guaranis,
Guerreiros valentes e animais,
Desses vários brasis.
A benção, meu “Velho Chico”!
De alma bondosa e pura,
Que sempre destes fartura,
Ao pobre e ao rico.
Oh, senhor, majestoso do Nordeste!
Que atravessas todo este agreste,
Espalhando o fruto e a flor,
Do teu ventre o peixe a borbotar,
Perdoai todo o mal e dor,
Que te fez por dentro sangrar.
Em tuas margens,
Pelo fuzil e pelo punhal,
Foi derramado o sangue nordestino,
Entre o sertão e o litoral.
Oh, meu “Velho Chico”!
Nestes séculos de atraso,
Das secas e do cangaço,
Fostes nosso eterno pai
Das lendas e histórias,
Imortais mitos e memórias.
DINHEIRO E PODER
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Diabólicos e divinos:
O dinheiro e o poder
Traçam nossos destinos,
Flechas a nos sangrar,
No viver e matar.
Do escambo das mercadorias,
Do gado, semente e sal,
A troca negociável é farta,
Na Lídia da Turquia,
Do ouro e da prata,
Nasce o vil metal,
Lembro do meu velho corcel,
E a China inventou o papel.
O dinheiro e o poder,
Tudo é desigual,
O capital enforca o ser,
No contrato social.
O dinheiro compra até amor,
Ilude a tal felicidade,
O diabo entra como tentador,
O poder com sua maldade.
Oh, senhor deus dinheiro!
Que não chega aos miseráveis,
No poder quem manda é Zeus,
No sistema dos descartáveis.
PEITO SECO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O leite sumiu,
O peito está seco,
Como o leito do rio,
No colo, a criança chora,
Nem a canção de ninar,
E o dedo na boca consola.
A mãe entra em desespero,
O pai em disparada,
Pela estrada corre,
Grita por amparo,
Mas o rebento morre.
O peito fica seco,
No sertão profundo,
Dos senhores da terra,
Onde a miséria explode,
Como na África da guerra,
Do sanguinário tirano
Que se diz enviado de Deus,
Impiedoso e desumano.
O peito está seco,
Na porta bate a morte,
E da fome foge o forte.
O peito está seco,
Como árido nordestino,
Não há tempo pra chorar,
O rato rói o intestino,
Lentamente até matar.
PASSARINHO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando ainda menino,
Campestre nordestino feliz,
Queria ser um passarinho,
Voar livre por aí
Entre o colorido das araras,
Construir meu ninho,
Nas densas matas raras;
Bailar nas ondas do ar,
E cantar como o sabiá.
Depois de pássaro passarinho,
Um cawboy do faroeste,
Mais rápido gatilho do Oeste.
Hoje, no tic-tac do tempo,
Que não sou mais passarinho,
Lembranças de jovem farrista,
Vou no gemido do vento,
Nos sonhos de um idealista.
De alma dura e rústica,
Como o árido do sertão,
Levando reboadas da vida,
Não sou romântico na canção;
Tenho meu jeito de chorar,
Nas artérias do meu coração,
Em meu recanto sozinho,
Vejo só injustiças de matar,
Não mais como passarinho.
O MAR E EU
Poema da poetisa Ana da Silva, extraído da Coletânea “Entre Palavras e Marés: Vozes Femininas”, da qual participa nossa poetisa Regina Chaves, membra do nosso “Sarau A Estrada”.
Eu amo o mar, não sei se o mar me ama.
Como vou saber?
Eu… Enigmática assim como o mar.
As ondas vêm, vão e se quebram,
Mas o mar não se abala.
Nem eu me abalo com as ondas
Que vêm me abraçar,
Eu as devolvo pro mar.
Ah… O mar…Imensuravelmente airoso.
Eu… Insignificante, pretencioso
Trazendo o mar na imensidão
Para dentro do coração.
ALMA RÚSTICA E ÁRIDA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
No arrasto da vida,
No brado da revolta,
Do sistema, sem saída,
A besta fera adormecida
Desperta do isolado abismo
Pra no altar sacrificar
O maldito coronelismo,
E as injustiças deste lugar.
Magistrados venais,
Uma polícia de sicários,
Leis dos canibais,
Nesta terra de originários,
Nascem brutos sanguinários.
Neste agreste do Nordeste,
De alma rústica e árida,
A honra se lava com sangue,
No fuzil do cangaceiro,
Onde a palavra é válida
Neste solo catingueiro.
Alma rústica e árida,
Feita de bala e cascalho,
De misticismo religioso,
Gente é gado de chocalho,
Do cruel todo poderoso.
Na voz do cordelista,
Com suas cordas de andança,
Conta a história, o artista:
O ódio vira vingança,
Toda crença se une,
No cadáver que sangra,
Enquanto o fugitivo assassino,
Estiver livre e impune,
E não findar seu destino.
ESSA TECNOLOGIA…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tô engastorado,
Arretado no diabo,
Com essa tal de tecnologia,
O gênio inventa aqui,
Muda acolá,
Pra ganhar fama e dinheiro,
Pra burro usar.
Nossa humanidade,
Está cada vez mais decadente,
Menos inteligente,
O QI só faz baixar,
E agora criaram a IA.
Com essa tecnologia,
Poucos sabem texto decifrar,
Quanto mais fazer redação,
Até a poesia perdeu sua magia,
E tome enrolação.
É tanta burrice,
Com essa tecnologia,
Que com seu mal da gota,
Ninguém quer mais ler,
Escrevem e falam “ôta”,
Cantor é rebolado e coreografia,
Redes sociais, muita idiotice,
E o povo mistura,
Ciência com crendice.
Essa tecnologia,
Nos roubou a inspiração,
Até de escrever,
No papel e caneta na mão,
Não tem mais início, meio e fim,
É apernas fazer três pedidos,
Que logo aparece o Aladim.
Com essa tecnologia,
O pobre fica com um “cadim”,
Acabou o prazer,
De pintar um jardim,
Porque ela faz tudo pra você.
Essa tecnologia,
Pariu influenciadores,
De malandros artistas,
Com milhões de seguidores,
Falsários golpistas.
Com essa tecnologia,
A gente não passa de saguim,
E não venham com seu mi, mi, mi,
Com seu feixe de capim.










