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:: ‘Na Rota da Poesia’

PELO FUNDO DA AGULHA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quando se está triste e destruído,

Com o amor desiludido,

No fundo do poço,

Numa tempestade desértica,

Nos sentindo como um caroço,

A gente lambe as feridas,

Sacode a grossa poeira,

E passa pelo fundo da agulha,

Como a linha da costureira.

 

Com as vistas turvas,

Pela idade do tempo,

Nas perigosas curvas,

Pelo fundo da agulha,

Na luz do candeeiro,

Atravessa o guerreiro.

 

É fácil o camelo,

Com todo seu desmantelo,

Passar pelo fundo da agulha,

Na muralha da fortaleza,

Para encarar a nobreza,

Difícil é o rico avarento,

Se salvar do seu tormento,

E Cristo tinha razão,

O fundo da agulha

É o seu apertado portão.

CORPO FECHADO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Meu fuzil faísca,

Como relâmpago

Em noite de luar,

Nos engaços do açoite,  

Não fiz pacto com o demo,

Na encruzilhada da meia-noite,

Nem com o boi preto marruá,

Carrego em meu emborná,

Meu “Lunário Perpétuo”,

Minhas missangas e rezas,

E meu amuleto patuá.

Meu corpo é fechado

Pela “Pedra Cristalina”,

Pelo “Salvador do Mundo”,

No olhar da doce menina,

Pela força prodigiosa,

Das “Virgens das Virgens”,

Mãe sublime amorosa.

Como bandoleiro dos sertões,

Respeito minhas crendices,

Nas coisas das minhas raízes;

Ouço o estalar do graveto,

O piar das perdizes,

E o pulsar dos corações,

Nas “Treze Palavras Ditas e Retornadas”,

Nas preciosas pedras das lavras,

Do Nosso Senhor Jesus Cristo,

Nos combates e persigas,

Assim nem sou visto;

Pelas forças inimigas,

Rezo a Santa Catarina,

Para Heli, Heli!

Que proteja minha sina.

A prece de Deus Padre,

Leio na manhã de sexta-feira,

No clarear de uma vela,

Ao lado da minha cartucheira,

Se molhar meu papel,

Será minha sentinela.

Não me picam os cascavéis,

Espremo doze limões,

Numa gema de ovo;

Não me separo de meus anéis;

Não posso esperar a hora,

Tomo tudo de uma vez,

Antes do deus sol,

Botar a cabeça de fora;

Não monto em cavalo russo;

Não tolero pilhérias,

Antes de ficar confuso,

A bebida é para doenças venéreas.

Para não perder a tezão,

Farinha na água do sereno,

Mata qualquer veneno.

Para mula e sezão (paludismo),

Cavo um buraco no chão,

Fecho com areia ou barro,

Em cima um feixe de lenha,

E digo a minha senha:

“Sezão ti interro aqui,

Ti afasto de mim,

Tu só torna vortá,

Se di novo eu aqui vim”.

Para catarro, água dormida,

De casca de angico,

Dor de barriga, alixi paregóro,

No chá de Pai Pêdo – cidreira,

O cabra fica bom de carreira.

Tripa furada de bala,

Fedeu a cocô, fedeu a cimitêro,

Vai direto para a vala.

Lesões pulmonares,

Com falta de ares,

Nada de rede,

Só esteira de chão duro;

Não pode cantar e falar,

Pra tudo ficar bem seguro.  

Para ter corpo fechado,

Não quebre o resguardo,

Não pise em rastro de corno,

E é por isso, seu doutor,

Sem o nosso Redentor,

Tem moléstia de supetão,

Espalhada nesse mundão.

Se está doente,

Livre-se de carne fresca,

De mulher descascando mandioca,

Se afaste da alcoviteira,

Da proxeneta alcagueta,

E longe da fofoqueira.   

Para ter corpo fechado,

Neste mundo moderno,

Não existe reza e remédio,

Esconjure o bandido tarado,

Que rouba o nosso trocado.

Livrai-nos desses demônios satanais,

Cangacistas e corruptos salafrários,

Jagunços, capangas e sicários,

Cães loucos dos verões e invernos,

Vão todos queimar suas almas,

Nas labaredas dos quintos dos infernos.   

   

CUCAS MALUCAS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Solto minha fumaça,

Com essência de aço,

Na espera da graça,

Para ver o sol rajar

Do nascente ao poente,

E vou livre a navegar,

Pelas ondas do mar.

Cucas poluídas

De ideias malucas,

Das malignas redes sociais,

Tecidas de teias,

Por aranhas venenosas,

Que cortam veias,

Manipulam canais,

Como inimigas viscerais.

Cucas malucas,

Que infestam nossas cucas

Até a nuca,

Cheias de lixos,

De ideologias medievais,

Que delas brotam bichos,

Para consumir nossos ideais.

Cuca é templo racional,

É da terra, sagrado sal,

Não é propriedade

Desses cabras idiotas,

Que atacam a liberdade,

Como falsos patriotas.

Nossa cuca não é latrina,

Nem pinico de doutrina,

Para intruso influenciador,

Nela mijar e fazer cocô.

 

FACES OCULTAS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Faces ocultas,

Gentis e brutas,

Como o árido das caatingas,

Poéticas de floridas cantigas.

 

Cada um em sua labuta

Tem sua face oculta,

Seu ponto fraco e forte,

Uma banda escura,

A outra de ternura.

 

Como na lua,

Você tem a invisível,

Onde mora o segredo,

Como letra ilegível,

Guarda seu enredo

Nos desafios do medo.

 

Faces ocultas

De noites mal dormidas,

Que nem o senhor tempo

Cura suas feridas,

Gemidas de lamento,

No zunir cortante do vento.

 

Face oculta,

Faces ocultas,

Umas da violência,

Outras dos fanatismos,

Raízes da doutrina da crença,

Cheias de ideologias de ismos,

Que só a canção da viola,

Me conforta e consola,

Me leva ao divã do amor,

E alivia minha dor.

VIAJANTE SOLITÁRIO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Certa vez,

Alguém me disse

Que sou viajante solitário:

Respondi abrindo meu relicário.

 

Cada um tem sua história,

Guardada em sua memória,

De derrotas, angústias e vitórias.

 

Nesse universo controverso,

Vou rabiscando meu verso,

Com tanta gente,

Arrastando sua dor,

Nas correntes do amor.

 

No silêncio do meu interior,

Sou caçada e caçador,

Sigo minha viagem,

Entre o medo e a coragem.

 

O senhor tempo

Quebra nossos ossos por dentro,

E se vai perdendo o movimento,

No arrojo do vento.

 

Ainda conservo

Minha mochila surrada,

Das caminhadas viscerais,

Algumas peças enferrujadas,

Lembranças das jornadas,

De desafios nos vendavais.

 

 

 

TIRANA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quem é essa tirana,

Que tanto nos engana,

Reina entre os deuses,

Toda eterna soberana?

 

A gente sabe que ela existe,

Dona do seu próprio tempo,

Sopra, geme como o vento;

Evitamos dela lembrar;

Nasce no elo da vida,

Cheia de encantos para amar,

E vem a danada tirana,

Como cruel espartana,

Com sua espada nos levar.

 

Oh tirana, tirana, tirana!

Quantos disfarces tu terás?

Às vezes és tão repentina,

Noutras nos fazes sofrer devagar;

Tens o poder de nos consolar,

Até acalmas nossas almas,

Quando vês o ente querido penar,

Mas nosso coração acelera,

Na dor doída de rasgar,

Quando fechas tua esfera.

 

Oh tirana, tirana, tirana!

Tu és fogo, terra, água e ar,

Catingueira e mateira,

Flecha que nos faz sangrar;

Teu nome é tirana,

Fera sorrateira da savana.

MAIS E MENOS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Poucos com mais,

E muitos com menos:

É a desigualdade social,

No país do carnaval,

Onde a justiça

É para quem tem mais,

Prende e solta

Os bandidos magistrais.

 

Quem tem mais, quer mais,

Rouba e esfola os menos,

Que trabalha para bancar o mais,

E ainda vota nesses canibais.

 

O massacre é secular,

Os letrados com suas teorias,

Que só ficam no blábláblá,

Com seus discursos inviáveis,

E os menos nas orgias viscerais,

Os mais comendo pastel,

Esperando o reino do céu.

 

Os menos oprimem os mais.

Vamos fazer a nossa revolução,

Nesse Brasil da contramão?

 

 

BEZERROS – HOJE E SEMPRE

Do livro “Retalhos Nordestinos” – poesia popular –  do poeta José Fábio da Silva Albuquerque

Vou falar de um belo lugar

Com sua história ancestral

Lugar que possui muita luz

E povo que não tem igual

Em tudo é bem aclamado

Bezerros por nome chamado

Cidade sem par, magistral!

 

Sua história é bela e rica

E ao tempo dezoito remonta

Há três versões que são ditas

Por todo sujeito que conta

Embora a de uma promessa

Com facilidade e depressa

As outras duas desponta.

 

Com ela se conta uma história

De uma criança perdida

Que após lacrimosas rezas

Foi encontrado com vida

E como agradecimento

Uma capela é erguida.

 

O certo é que essa cidade

Desde a sua fundação

É respeitada por todos

Que habitam sua região

Seu dia é o dezoito de Maio

Pois nele imponente igual raio

Se deu a emancipação.

 

Bezerros é terra sagrada

Para todos nela nascidos

Pois nem o mundo inteirinho

Destrói os laços cingidos

Que de modos invulgares

Penso que os outros lugares

Estão todos nela contidos.

 

 

COMO SE HOJE FOSSE ONTEM…

Do livro “Canibal de Mim Mesmo – autofagia que o tempo não devora, do autor Rubens Mascarenhas

Como se hoje fosse ontem

E nada tivesse existido…

Como se ontem fosse hoje

E ontem nada tivesse sido.

 

Mas nada como amanhã

Para poder-nos dizer:

Assim ontem passou por mim

E hoje passa por você.

 

Qual fome horrenda, atroz,

Nesta hora triste e feroz

Me devora e eu a você.

Ah, melhor seria ter morrido

Pois melhor mesmo é morrer

Que nada ter compreendido.

O CANGACEIRO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Meu punhal é a lei,

O bacamarte, a autoridade

No fuzil sou o rei,

Minha caatinga, a liberdade.

 

Vivo em louca correria,

Nas alpercatas, sou ligeiro,

Com minha companheira Maria,

Deste agreste sou cangaceiro.

 

No corpo fechado, as crendices,

Sigo sinais e as superstições,

Mato minha sede nas raízes,

Como guerreiro destes sertões.

 

Fui cruel e sanguinário,

Combati volantes valentes,

Versos do poeta imaginário,

Fruto social destas gentes.

 

No peito levo a cartucheira,

Chapéu símbolo de Salomão,

Na macambira e na quixabeira,

Sou Silvino e Lampião.





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