março 2026
D S T Q Q S S
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  

:: ‘Na Rota da Poesia’

MAIS E MENOS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Poucos com mais,

E muitos com menos:

É a desigualdade social,

No país do carnaval,

Onde a justiça

É para quem tem mais,

Prende e solta

Os bandidos magistrais.

 

Quem tem mais, quer mais,

Rouba e esfola os menos,

Que trabalha para bancar o mais,

E ainda vota nesses canibais.

 

O massacre é secular,

Os letrados com suas teorias,

Que só ficam no blábláblá,

Com seus discursos inviáveis,

E os menos nas orgias viscerais,

Os mais comendo pastel,

Esperando o reino do céu.

 

Os menos oprimem os mais.

Vamos fazer a nossa revolução,

Nesse Brasil da contramão?

 

 

BEZERROS – HOJE E SEMPRE

Do livro “Retalhos Nordestinos” – poesia popular –  do poeta José Fábio da Silva Albuquerque

Vou falar de um belo lugar

Com sua história ancestral

Lugar que possui muita luz

E povo que não tem igual

Em tudo é bem aclamado

Bezerros por nome chamado

Cidade sem par, magistral!

 

Sua história é bela e rica

E ao tempo dezoito remonta

Há três versões que são ditas

Por todo sujeito que conta

Embora a de uma promessa

Com facilidade e depressa

As outras duas desponta.

 

Com ela se conta uma história

De uma criança perdida

Que após lacrimosas rezas

Foi encontrado com vida

E como agradecimento

Uma capela é erguida.

 

O certo é que essa cidade

Desde a sua fundação

É respeitada por todos

Que habitam sua região

Seu dia é o dezoito de Maio

Pois nele imponente igual raio

Se deu a emancipação.

 

Bezerros é terra sagrada

Para todos nela nascidos

Pois nem o mundo inteirinho

Destrói os laços cingidos

Que de modos invulgares

Penso que os outros lugares

Estão todos nela contidos.

 

 

COMO SE HOJE FOSSE ONTEM…

Do livro “Canibal de Mim Mesmo – autofagia que o tempo não devora, do autor Rubens Mascarenhas

Como se hoje fosse ontem

E nada tivesse existido…

Como se ontem fosse hoje

E ontem nada tivesse sido.

 

Mas nada como amanhã

Para poder-nos dizer:

Assim ontem passou por mim

E hoje passa por você.

 

Qual fome horrenda, atroz,

Nesta hora triste e feroz

Me devora e eu a você.

Ah, melhor seria ter morrido

Pois melhor mesmo é morrer

Que nada ter compreendido.

O CANGACEIRO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Meu punhal é a lei,

O bacamarte, a autoridade

No fuzil sou o rei,

Minha caatinga, a liberdade.

 

Vivo em louca correria,

Nas alpercatas, sou ligeiro,

Com minha companheira Maria,

Deste agreste sou cangaceiro.

 

No corpo fechado, as crendices,

Sigo sinais e as superstições,

Mato minha sede nas raízes,

Como guerreiro destes sertões.

 

Fui cruel e sanguinário,

Combati volantes valentes,

Versos do poeta imaginário,

Fruto social destas gentes.

 

No peito levo a cartucheira,

Chapéu símbolo de Salomão,

Na macambira e na quixabeira,

Sou Silvino e Lampião.

O PORQUÊ

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por que

Tem o cancioneiro

Que encanta o mundo

O escritor pensador,

Que nos leva ao profundo,

Outros que nada são,

Muitos vivendo em mansões,

A maioria em casebres,

Amargando suas aflições?

 

Todo esse mistério,

O poeta passa para a filosofia,

Que devolve para a teologia,

Questão de religião e fé,

Acredite quem quiser,

Porque só Oxalá sabe explicar.

 

Êta moço, que lasqueira!

Tem muita coisa pra se entender,

A vida é uma bagaceira,

Quem ama não é amado,

Um é rico e o outro é lascado,

Se existe o Deus Senhor,

Qual Supremo lhe criou?

 

NEM TUDO ESTÁ PERDIDO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Oh Senhor, Criador Supremo!

Sua criatura só destrói,

O planeta vive no extremo,

O sistema só nos corrói,

Mas nem tudo está perdido!

Ainda tem muita gente,

Que faz aquela diferença:

Lança na terra a sua semente

Do amor, da paz e da crença.

 

Nem tudo está perdido!

O bem ainda bate na porta,

Para abraçar o desvalido;

Tem aquele que importa,

Com a injustiça social,

Que é amigo certo leal.

 

Nem tudo está perdido!

Tem filhos que amam os pais,

Mãos que afagam o esquecido,

Não desejam o mal, jamais!

São como a excelência

Nessa humanidade em decadência.

 

Tem a alma companheira,

Que na tristeza nos aquece,

Tem a canção sonora da viola,

Que do peito arranca a banzeira,

Como chuva que renasce a flora.

DESILUSÃO

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Vagueia no recôndito

Da minha alma

Uma desilusão sofrida,

Sem mais aquele sopro,

Do viver encanto

Do vento fresco humano,

Que fazia o nosso canto

Contra o fútil profano.

 

A gente carregava o manto,

Da cultura e do saber,

Era lindo de se ver:

As ideias em confronto.

 

Os sonhos como vultos,

Somem entre os incultos,

Que mataram o conhecer,

E não mais se acredita

No clarear do alvorecer.

 

A massa insossa alienada,

Passa em louca disparada,

Consome porcarias no lixo,

Nas entranhas do consumismo,

E fica toda fedorenta empolada,

Pelo percevejo do capitalismo.

 

Minha alma está seca cinzenta,

Nesta cacimba, sedenta,

Como um estorricado chão,

Que definha na desilusão.

 

A juventude do não pensar,

Sem mais atitude e metas,

Guiada por falsos profetas,

Caminha nesse escuro,

Em meio ao besteirol,

E meu único alento,

É apreciar um pôr-do-sol.

PRINCESAS FERROVIÁRIAS

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Ah, estações ferroviárias!

Princesas centenárias,

Trilhos do “Trem das Sete”,

“O último do sertão”,

Tempo de esperança e fé,

Nas serras de Wilson Aragão,

No canto do “Capim Guiné”.

 

Tuas lindas fotografias

Me enchem de fantasias,

De moleque piritibano,

Saindo do chão da praça,

Correndo de calça curta,

Para esperar a Maria Fumaça.

 

Formosas princesas,

De arcadas inglesas,

Minha saudade ainda voa,

Nos códigos do telégrafo,

E na paisagem da janela,

Eu livre viajo numa boa.

 

Em meu apaixonado olhar,

Princesas do Além-Mar,

De belas construções,

Embarcaram passageiros,

Inspirando lindas canções.

 

Princesas sertanejas,

De encantadoras fachadas,

Ainda vivas na memória,

Da nossa gente viajante,

Do passado de muita história.

 

Princesas ferroviárias

De esculturas elegantes,

Te amo entre as amantes,

Poéticas e relicárias.

NO TEMPO DAS QUESTÕES

Do grande Ariano Suassuna, retratando como era e se vivia no antigo sertão, terra isolada e sem lei.

Aqui reinava um Rei quando eu menino:

Vestia ouro e castanho no Gibão.

Pedra-da-sorte sobre o meu Destino

Pulsava junto ao meu seu coração.

 

Para mim, seu cantar era divino

Quando, ao som da viola e do baião

Cantava, com voz rouca, o Destino.

O riso, o sangue e as mortes do Sertão.

Também, coisas das antigas do fundo do baú, uma modinha do século XIX, cantada por João Flor em suas andanças na caatinga durante seus combates contra os cangaceiros. Era assim:

“Há quatro anos passados

Eu era alegre e feliz

Hoje me vejo sofrendo

Foi minha sorte quem quis.

 

Antes eu nunca te visse

Porque não te tinha amizade

Hoje me vejo sofrendo

No rigor desta saudade.

 

Antes eu nunca te visse

Porque não te tinha amor

Hoje me vejo sofrendo

No rigor da cruel dor

 

Quem por si se despreza

Merece ser castigado

Não me queixo da sorte

Vivo de ti separado”.

 

Também gostava de cantar:

 

“Morena, minha morena

Quem te ensinou a nadar?

Foi o tombo do navio

Foi o balanço do mar”

Vale lembrar que “Muié Rendeira” era de um cangaceiro por apelido “Cacheado”.

Extraído do livro “O Canto do Acauã”, de Marilourdes Ferraz

 

CANÇÃO DO SABER

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Esta canção que laço,

Tem raízes fincadas na terra;

É do menino de pés descalço,

Nascente de água cristalina,

Que desce daquela serra,

Como uma graça divina.

 

Quando se está triste,

A alma cálida padece,

Parece que nada existe;

Dá vontade de chorar:

Oh, Senhor, meu pai Oxalá!

 

O vento zune lá fora,

Como canção de ninar,

Nem sei mais fazer a hora,

Desse doer se acabar,

Mas, como disse Vandré,

“É só saber querer,

Para poder chegar”.

 

Esta é a canção do saber,

A canção do sofrer, do amar,

De quem lutou e foi calado,

Pelo facínora do ditador,

Quando sua viola solou,

Que gente unida é pra ganhar.

 

Esta é a canção do saber,

Saber viver e saber morrer.





WebtivaHOSTING // webtiva.com . Webdesign da Bahia