:: ‘Na Rota da Poesia’
MAIS E MENOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Poucos com mais,
E muitos com menos:
É a desigualdade social,
No país do carnaval,
Onde a justiça
É para quem tem mais,
Prende e solta
Os bandidos magistrais.
Quem tem mais, quer mais,
Rouba e esfola os menos,
Que trabalha para bancar o mais,
E ainda vota nesses canibais.
O massacre é secular,
Os letrados com suas teorias,
Que só ficam no blábláblá,
Com seus discursos inviáveis,
E os menos nas orgias viscerais,
Os mais comendo pastel,
Esperando o reino do céu.
Os menos oprimem os mais.
Vamos fazer a nossa revolução,
Nesse Brasil da contramão?
BEZERROS – HOJE E SEMPRE
Do livro “Retalhos Nordestinos” – poesia popular – do poeta José Fábio da Silva Albuquerque
Vou falar de um belo lugar
Com sua história ancestral
Lugar que possui muita luz
E povo que não tem igual
Em tudo é bem aclamado
Bezerros por nome chamado
Cidade sem par, magistral!
Sua história é bela e rica
E ao tempo dezoito remonta
Há três versões que são ditas
Por todo sujeito que conta
Embora a de uma promessa
Com facilidade e depressa
As outras duas desponta.
Com ela se conta uma história
De uma criança perdida
Que após lacrimosas rezas
Foi encontrado com vida
E como agradecimento
Uma capela é erguida.
O certo é que essa cidade
Desde a sua fundação
É respeitada por todos
Que habitam sua região
Seu dia é o dezoito de Maio
Pois nele imponente igual raio
Se deu a emancipação.
Bezerros é terra sagrada
Para todos nela nascidos
Pois nem o mundo inteirinho
Destrói os laços cingidos
Que de modos invulgares
Penso que os outros lugares
Estão todos nela contidos.
COMO SE HOJE FOSSE ONTEM…
Do livro “Canibal de Mim Mesmo – autofagia que o tempo não devora, do autor Rubens Mascarenhas
Como se hoje fosse ontem
E nada tivesse existido…
Como se ontem fosse hoje
E ontem nada tivesse sido.
Mas nada como amanhã
Para poder-nos dizer:
Assim ontem passou por mim
E hoje passa por você.
Qual fome horrenda, atroz,
Nesta hora triste e feroz
Me devora e eu a você.
Ah, melhor seria ter morrido
Pois melhor mesmo é morrer
Que nada ter compreendido.
O CANGACEIRO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Meu punhal é a lei,
O bacamarte, a autoridade
No fuzil sou o rei,
Minha caatinga, a liberdade.
Vivo em louca correria,
Nas alpercatas, sou ligeiro,
Com minha companheira Maria,
Deste agreste sou cangaceiro.
No corpo fechado, as crendices,
Sigo sinais e as superstições,
Mato minha sede nas raízes,
Como guerreiro destes sertões.
Fui cruel e sanguinário,
Combati volantes valentes,
Versos do poeta imaginário,
Fruto social destas gentes.
No peito levo a cartucheira,
Chapéu símbolo de Salomão,
Na macambira e na quixabeira,
Sou Silvino e Lampião.
O PORQUÊ
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Por que
Tem o cancioneiro
Que encanta o mundo
O escritor pensador,
Que nos leva ao profundo,
Outros que nada são,
Muitos vivendo em mansões,
A maioria em casebres,
Amargando suas aflições?
Todo esse mistério,
O poeta passa para a filosofia,
Que devolve para a teologia,
Questão de religião e fé,
Acredite quem quiser,
Porque só Oxalá sabe explicar.
Êta moço, que lasqueira!
Tem muita coisa pra se entender,
A vida é uma bagaceira,
Quem ama não é amado,
Um é rico e o outro é lascado,
Se existe o Deus Senhor,
Qual Supremo lhe criou?
NEM TUDO ESTÁ PERDIDO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Oh Senhor, Criador Supremo!
Sua criatura só destrói,
O planeta vive no extremo,
O sistema só nos corrói,
Mas nem tudo está perdido!
Ainda tem muita gente,
Que faz aquela diferença:
Lança na terra a sua semente
Do amor, da paz e da crença.
Nem tudo está perdido!
O bem ainda bate na porta,
Para abraçar o desvalido;
Tem aquele que importa,
Com a injustiça social,
Que é amigo certo leal.
Nem tudo está perdido!
Tem filhos que amam os pais,
Mãos que afagam o esquecido,
Não desejam o mal, jamais!
São como a excelência
Nessa humanidade em decadência.
Tem a alma companheira,
Que na tristeza nos aquece,
Tem a canção sonora da viola,
Que do peito arranca a banzeira,
Como chuva que renasce a flora.
DESILUSÃO
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Vagueia no recôndito
Da minha alma
Uma desilusão sofrida,
Sem mais aquele sopro,
Do viver encanto
Do vento fresco humano,
Que fazia o nosso canto
Contra o fútil profano.
A gente carregava o manto,
Da cultura e do saber,
Era lindo de se ver:
As ideias em confronto.
Os sonhos como vultos,
Somem entre os incultos,
Que mataram o conhecer,
E não mais se acredita
No clarear do alvorecer.
A massa insossa alienada,
Passa em louca disparada,
Consome porcarias no lixo,
Nas entranhas do consumismo,
E fica toda fedorenta empolada,
Pelo percevejo do capitalismo.
Minha alma está seca cinzenta,
Nesta cacimba, sedenta,
Como um estorricado chão,
Que definha na desilusão.
A juventude do não pensar,
Sem mais atitude e metas,
Guiada por falsos profetas,
Caminha nesse escuro,
Em meio ao besteirol,
E meu único alento,
É apreciar um pôr-do-sol.
PRINCESAS FERROVIÁRIAS
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Ah, estações ferroviárias!
Princesas centenárias,
Trilhos do “Trem das Sete”,
“O último do sertão”,
Tempo de esperança e fé,
Nas serras de Wilson Aragão,
No canto do “Capim Guiné”.
Tuas lindas fotografias
Me enchem de fantasias,
De moleque piritibano,
Saindo do chão da praça,
Correndo de calça curta,
Para esperar a Maria Fumaça.
Formosas princesas,
De arcadas inglesas,
Minha saudade ainda voa,
Nos códigos do telégrafo,
E na paisagem da janela,
Eu livre viajo numa boa.
Em meu apaixonado olhar,
Princesas do Além-Mar,
De belas construções,
Embarcaram passageiros,
Inspirando lindas canções.
Princesas sertanejas,
De encantadoras fachadas,
Ainda vivas na memória,
Da nossa gente viajante,
Do passado de muita história.
Princesas ferroviárias
De esculturas elegantes,
Te amo entre as amantes,
Poéticas e relicárias.
NO TEMPO DAS QUESTÕES
Do grande Ariano Suassuna, retratando como era e se vivia no antigo sertão, terra isolada e sem lei.
Aqui reinava um Rei quando eu menino:
Vestia ouro e castanho no Gibão.
Pedra-da-sorte sobre o meu Destino
Pulsava junto ao meu seu coração.
Para mim, seu cantar era divino
Quando, ao som da viola e do baião
Cantava, com voz rouca, o Destino.
O riso, o sangue e as mortes do Sertão.
Também, coisas das antigas do fundo do baú, uma modinha do século XIX, cantada por João Flor em suas andanças na caatinga durante seus combates contra os cangaceiros. Era assim:
“Há quatro anos passados
Eu era alegre e feliz
Hoje me vejo sofrendo
Foi minha sorte quem quis.
Antes eu nunca te visse
Porque não te tinha amizade
Hoje me vejo sofrendo
No rigor desta saudade.
Antes eu nunca te visse
Porque não te tinha amor
Hoje me vejo sofrendo
No rigor da cruel dor
Quem por si se despreza
Merece ser castigado
Não me queixo da sorte
Vivo de ti separado”.
Também gostava de cantar:
“Morena, minha morena
Quem te ensinou a nadar?
Foi o tombo do navio
Foi o balanço do mar”
Vale lembrar que “Muié Rendeira” era de um cangaceiro por apelido “Cacheado”.
Extraído do livro “O Canto do Acauã”, de Marilourdes Ferraz
CANÇÃO DO SABER
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Esta canção que laço,
Tem raízes fincadas na terra;
É do menino de pés descalço,
Nascente de água cristalina,
Que desce daquela serra,
Como uma graça divina.
Quando se está triste,
A alma cálida padece,
Parece que nada existe;
Dá vontade de chorar:
Oh, Senhor, meu pai Oxalá!
O vento zune lá fora,
Como canção de ninar,
Nem sei mais fazer a hora,
Desse doer se acabar,
Mas, como disse Vandré,
“É só saber querer,
Para poder chegar”.
Esta é a canção do saber,
A canção do sofrer, do amar,
De quem lutou e foi calado,
Pelo facínora do ditador,
Quando sua viola solou,
Que gente unida é pra ganhar.
Esta é a canção do saber,
Saber viver e saber morrer.










