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:: ‘Na Rota da Poesia’

ALMA RÚSTICA E ÁRIDA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

No arrasto da vida,

No brado da revolta,

Do sistema, sem saída,

A besta fera adormecida

Desperta do isolado abismo

Pra no altar sacrificar

O maldito coronelismo,

E as injustiças deste lugar.

 

Magistrados venais,

Uma polícia de sicários,

Leis dos canibais,

Nesta terra de originários,

Nascem brutos sanguinários.

 

Neste agreste do Nordeste,

De alma rústica e árida,

A honra se lava com sangue,

No fuzil do cangaceiro,

Onde a palavra é válida

Neste solo catingueiro.

 

Alma rústica e árida,

Feita de bala e cascalho,

De misticismo religioso,

Gente é gado de chocalho,

Do cruel todo poderoso.

 

Na voz do cordelista,

Com suas cordas de andança,

Conta a história, o artista:

O ódio vira vingança,

Toda crença se une,

No cadáver que sangra,

Enquanto o fugitivo assassino,

Estiver livre e impune,

E não findar seu destino.

ESSA TECNOLOGIA…

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Tô engastorado,

Arretado no diabo,

Com essa tal de tecnologia,

O gênio inventa aqui,

Muda acolá,

Pra ganhar fama e dinheiro,

Pra burro usar.

 

Nossa humanidade,

Está cada vez mais decadente,

Menos inteligente,

O QI só faz baixar,

E agora criaram a IA.

 

Com essa tecnologia,

Poucos sabem texto decifrar,

Quanto mais fazer redação,

Até a poesia perdeu sua magia,

E tome enrolação.

 

É tanta burrice,

Com essa tecnologia,

Que com seu mal da gota,

Ninguém quer mais ler,

Escrevem e falam “ôta”,

Cantor é rebolado e coreografia,

Redes sociais, muita idiotice,

E o povo mistura,

Ciência com crendice.

 

Essa tecnologia,

Nos roubou a inspiração,

Até de escrever,

No papel e caneta na mão,

Não tem mais início, meio e fim,

É apernas fazer três pedidos,

Que logo aparece o Aladim.

 

Com essa tecnologia,

O pobre fica com um “cadim”,

Acabou o prazer,

De pintar um jardim,

Porque ela faz tudo pra você.

 

Essa tecnologia,

Pariu influenciadores,

De malandros artistas,

Com milhões de seguidores,

Falsários golpistas.

 

Com essa tecnologia,

A gente não passa de saguim,

E não venham com seu mi, mi, mi,

Com seu feixe de capim.

 

 

CASA DE FARINHA E PARAFUSO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário (Uma homenagem ao meu pai)

Instrução ele não tinha,

Tinhoso, sim senhor!

Sozinho aprendeu a ler,

Assinar o nome também,

Lavrador e carpinteiro,

Trabalhador como ninguém;

Fazia telhado e curral,

Em fazenda de doutor;

Se metia a marceneiro;

Espantava qualquer dor,

Na busca do seu viver,

E até casa de farinha

O homem aprendeu a fazer.

 

Ainda menino criança,

Lembro bem daquele tempo,

Ele dizia, meu cumpade!

Nossa vida é uma pajelança:

Existe o certo e o confuso,

É como casa de farinha,

Onde o mais difícil aviamento,

É construir o tal do parafuso.

 

Com meu facão,

Espingarda e machado,

Carne seca e rapadura,

Agua e um punhado de farinha,

Reza e escapulário de lado,

Embrenho numa mata;

Peço licença ao curupira,

Para encontrar uma baraúna,

Bem roliça, forte e rosa;

Tem que ser formosa;

Não posso ser profuso,

Para no formão, talhar o parafuso.

 

Às vezes passo uma semana,

Para encontrar a madeira certa,

Como lagoa doce em savana;

A árvore precisa ser reta,

Para encaixar bem na rosca da peça;

No meio, faço um furo;

Sebo não se dispensa,

Com precisão não erro,

Para acochar a prensa,

Que pode ser de pau ferro.

 

Numa casa de farinha,

A de todas artesanal,

Antes de aparecer o motor,

Pode ser um simples galpão,

Com uma roda feita de cedro,

Alavancas puxadas em parceria,

No compasso da cantoria;

Um reio ligado ao ralador;

Que os índios chamam de caititu,

Com serras afiadas traiçoeiras,

Que podem tragar a mão,

Das mulheres raladeiras.

 

Para ficar a favor da corrente,

O forno de barro, à lenha,

Com duas ou três bocas,

Deve ficar em direção ao poente;

A pedra para torar a farinha,

Dão nome de atafona ou mó;

Falam também que é “sabão”;

Sei fazer tudo da cabeça,

Quem fizer melhor apareça;

No mais, cochos e peneiras,

Para classificar a farinha:

Grossa ou fina, com tapioca,

A ser testada nas feiras,

Mas tudo depende da mandioca.

 

Tudo começava na segunda,

E terminava na sexta-feira,

Desde o clarear do dia,

Com o arranque e as raspadeiras:

O melhor mesmo era ao entardecer,

Na chamada boca da noite,

Quando terminavam as trabalheiras:

Farinha quente, ensacada pra vender.

 

Nas visões da minha memória:

Era hora do prosear,

Tudo na camaradagem;

Contar causos e história,

Conversa fora jogar,

Cachaça e café quente no bule,

Pra comer beijus e biscoitos de tapioca,

Até inspirava um repente de modinha;

Não podia faltar uma fofoca,

Na tradicional casa de farinha.

 

 

 

NA ESTRADA DO SARAU

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Essa Estrada é você,

Aprender e doar,

Nosso Sarau é só saber,

Para poder chegar.

 

O grupo “Vinho Vinil,

A Estrada, pavimentou,

E desse cantil,

O Sarau se saciou.

 

Avante, avante, oh Sarau!

Estradeiros da cultura!

Com sua mensagem universal,

Como água da nascente,

Caudaloso rio corrente.

 

Vamos todos pra frente,

Que na Estrada vem gente!

Vamos com nossa cantoria,

Na canção da viola,

Na pegada da poesia,

Fazendo a nossa história!

 

Nessa Estrada do Sarau,

Nosso tema na abertura,

Nas asas do conhecer,

Somos embates e ternura,

Coisas mais lindas de ser ver.

 

São mais de quinze estações,

Passageiros do mesmo trem,

Cada um com sua bagagem,

Colaborando com o que tem,

Juntos unidos nessa viagem.

 

Avante, avante, oh Sarau,

Com sua arte no embornal!

DÓI, DÓI MUITO!

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

A seca se acoita na caatinga,

Como onça famélica faminta,

O graveto ao sol se estala,

Só o mandacaru, verde vinga,

A bala faísca no cangaço,

O choro entalado se cala,

E o sertão sangra em pedaço.

 

Dói, dói muito!

Tardar o socorro do além,

Ver o sertanejo encurralado,

Nesta terra de ninguém,

Entre a seca e o fuzil,

Vivendo nesse barril.

 

De um lado, o chefe político,

Do outro, o coronel fazendeiro,

A volante rouba e tortura,

Aperta o cerco, o cangaceiro,

O jeito é ser soldado, ou coiteiro.

 

Dói, dói muito!

O lamento do pobre penitente,

O cabrito berrar no agreste,

No Nordeste dessa gente.

PELO FUNDO DA AGULHA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quando se está triste e destruído,

Com o amor desiludido,

No fundo do poço,

Numa tempestade desértica,

Nos sentindo como um caroço,

A gente lambe as feridas,

Sacode a grossa poeira,

E passa pelo fundo da agulha,

Como a linha da costureira.

 

Com as vistas turvas,

Pela idade do tempo,

Nas perigosas curvas,

Pelo fundo da agulha,

Na luz do candeeiro,

Atravessa o guerreiro.

 

É fácil o camelo,

Com todo seu desmantelo,

Passar pelo fundo da agulha,

Na muralha da fortaleza,

Para encarar a nobreza,

Difícil é o rico avarento,

Se salvar do seu tormento,

E Cristo tinha razão,

O fundo da agulha

É o seu apertado portão.

CORPO FECHADO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Meu fuzil faísca,

Como relâmpago

Em noite de luar,

Nos engaços do açoite,  

Não fiz pacto com o demo,

Na encruzilhada da meia-noite,

Nem com o boi preto marruá,

Carrego em meu emborná,

Meu “Lunário Perpétuo”,

Minhas missangas e rezas,

E meu amuleto patuá.

Meu corpo é fechado

Pela “Pedra Cristalina”,

Pelo “Salvador do Mundo”,

No olhar da doce menina,

Pela força prodigiosa,

Das “Virgens das Virgens”,

Mãe sublime amorosa.

Como bandoleiro dos sertões,

Respeito minhas crendices,

Nas coisas das minhas raízes;

Ouço o estalar do graveto,

O piar das perdizes,

E o pulsar dos corações,

Nas “Treze Palavras Ditas e Retornadas”,

Nas preciosas pedras das lavras,

Do Nosso Senhor Jesus Cristo,

Nos combates e persigas,

Assim nem sou visto;

Pelas forças inimigas,

Rezo a Santa Catarina,

Para Heli, Heli!

Que proteja minha sina.

A prece de Deus Padre,

Leio na manhã de sexta-feira,

No clarear de uma vela,

Ao lado da minha cartucheira,

Se molhar meu papel,

Será minha sentinela.

Não me picam os cascavéis,

Espremo doze limões,

Numa gema de ovo;

Não me separo de meus anéis;

Não posso esperar a hora,

Tomo tudo de uma vez,

Antes do deus sol,

Botar a cabeça de fora;

Não monto em cavalo russo;

Não tolero pilhérias,

Antes de ficar confuso,

A bebida é para doenças venéreas.

Para não perder a tezão,

Farinha na água do sereno,

Mata qualquer veneno.

Para mula e sezão (paludismo),

Cavo um buraco no chão,

Fecho com areia ou barro,

Em cima um feixe de lenha,

E digo a minha senha:

“Sezão ti interro aqui,

Ti afasto de mim,

Tu só torna vortá,

Se di novo eu aqui vim”.

Para catarro, água dormida,

De casca de angico,

Dor de barriga, alixi paregóro,

No chá de Pai Pêdo – cidreira,

O cabra fica bom de carreira.

Tripa furada de bala,

Fedeu a cocô, fedeu a cimitêro,

Vai direto para a vala.

Lesões pulmonares,

Com falta de ares,

Nada de rede,

Só esteira de chão duro;

Não pode cantar e falar,

Pra tudo ficar bem seguro.  

Para ter corpo fechado,

Não quebre o resguardo,

Não pise em rastro de corno,

E é por isso, seu doutor,

Sem o nosso Redentor,

Tem moléstia de supetão,

Espalhada nesse mundão.

Se está doente,

Livre-se de carne fresca,

De mulher descascando mandioca,

Se afaste da alcoviteira,

Da proxeneta alcagueta,

E longe da fofoqueira.   

Para ter corpo fechado,

Neste mundo moderno,

Não existe reza e remédio,

Esconjure o bandido tarado,

Que rouba o nosso trocado.

Livrai-nos desses demônios satanais,

Cangacistas e corruptos salafrários,

Jagunços, capangas e sicários,

Cães loucos dos verões e invernos,

Vão todos queimar suas almas,

Nas labaredas dos quintos dos infernos.   

   

CUCAS MALUCAS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Solto minha fumaça,

Com essência de aço,

Na espera da graça,

Para ver o sol rajar

Do nascente ao poente,

E vou livre a navegar,

Pelas ondas do mar.

Cucas poluídas

De ideias malucas,

Das malignas redes sociais,

Tecidas de teias,

Por aranhas venenosas,

Que cortam veias,

Manipulam canais,

Como inimigas viscerais.

Cucas malucas,

Que infestam nossas cucas

Até a nuca,

Cheias de lixos,

De ideologias medievais,

Que delas brotam bichos,

Para consumir nossos ideais.

Cuca é templo racional,

É da terra, sagrado sal,

Não é propriedade

Desses cabras idiotas,

Que atacam a liberdade,

Como falsos patriotas.

Nossa cuca não é latrina,

Nem pinico de doutrina,

Para intruso influenciador,

Nela mijar e fazer cocô.

 

FACES OCULTAS

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Faces ocultas,

Gentis e brutas,

Como o árido das caatingas,

Poéticas de floridas cantigas.

 

Cada um em sua labuta

Tem sua face oculta,

Seu ponto fraco e forte,

Uma banda escura,

A outra de ternura.

 

Como na lua,

Você tem a invisível,

Onde mora o segredo,

Como letra ilegível,

Guarda seu enredo

Nos desafios do medo.

 

Faces ocultas

De noites mal dormidas,

Que nem o senhor tempo

Cura suas feridas,

Gemidas de lamento,

No zunir cortante do vento.

 

Face oculta,

Faces ocultas,

Umas da violência,

Outras dos fanatismos,

Raízes da doutrina da crença,

Cheias de ideologias de ismos,

Que só a canção da viola,

Me conforta e consola,

Me leva ao divã do amor,

E alivia minha dor.

VIAJANTE SOLITÁRIO

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Certa vez,

Alguém me disse

Que sou viajante solitário:

Respondi abrindo meu relicário.

 

Cada um tem sua história,

Guardada em sua memória,

De derrotas, angústias e vitórias.

 

Nesse universo controverso,

Vou rabiscando meu verso,

Com tanta gente,

Arrastando sua dor,

Nas correntes do amor.

 

No silêncio do meu interior,

Sou caçada e caçador,

Sigo minha viagem,

Entre o medo e a coragem.

 

O senhor tempo

Quebra nossos ossos por dentro,

E se vai perdendo o movimento,

No arrojo do vento.

 

Ainda conservo

Minha mochila surrada,

Das caminhadas viscerais,

Algumas peças enferrujadas,

Lembranças das jornadas,

De desafios nos vendavais.

 

 

 





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