:: ‘Na Rota da Poesia’
ERRANTE…TOCA PRA MIM…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Queria ser
Um errante mochileiro,
Solitário furando fronteiras,
Girar o mundo inteiro,
Guerrear contra o capital,
Disseminar a paz e o amor,
E combater a injustiça social.
Aqui fiquei em meu terreiro,
No riscado do meu facão,
Nesta aldeia de meeiro,
Assistindo passar a procissão.
Para curar esta minha dor,
A agonia da minha alma,
Toca pra mim
Uma canção sideral,
Que me faça estrela
A navegar
Neste infinito universal.
Toca, toca pra mim
Uma música celestial,
Para que leve seu som
Até meu suspiro final.
Serei um viajante errante,
Quem sabe no outro além;
Encontrarei a minha flor,
Para me responder quem sou.
Toca, toca pra mim,
Aquele canto divino,
Na guitarra, gaita ou violino.
TULIPAS EM SILÊNCIO
Autora: Crisleidy Lauton David
Tulipas em silêncio
No correr dos
Pensamentos.
Eu queria terminar,
Mas as cores foram
Ficando
E me ensinaram a respirar:
Rosa claro, azul sereno,
Amarelo ao entardecer,
Cada pincelada leve,
Fez meu coração
Desacelerar.
Tulipas em silêncio
Florescendo devagar,
Nem tudo precisa ser
Perfeito,
Para bonito se tornar.
O tempo passa sem pressa
Sobre a tela e sobre mim,
E o que parecia ansiedade
Virou calma no jardim.
Tulipas em silêncio,
Sob a luz do amanhecer,
Enquanto misturo as tintas,
Aprendo também a me
Refazer.
SONS DA CAATINGA
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O vento aqui bate,
E o tempo parece parar,
Como sumiço de poeira no ar,
Rodopiando meu sertão;
Bem longe o cachorro late,
Atrás da caça do caçador,
Na lamentosa cantiga,
Como aboio do vaqueiro peão,
Tocando os sons da caatinga,
Desta nordestina nação.
Sons da caatinga,
Sem igual no mundo,
Com seu mistério profundo.
Tem o som da cascavel,
Da folha seca caindo no chão,
Da rezadeira com seu véu,
Do messiânico pregando a fé,
O ritmo do xaxado e do baião,
O reisado e o forró arrasta-pé.
Tem o berro do boi no bagaço,
O chiado do carcará-gavião,
O estalo das alpercatas no cangaço,
A bala zunindo do cangaceiro,
O calango fugindo da seca,
E a poesia do cancioneiro.
Tem o rastejar da lagartixa,
Na rede, o ronco da preguiça,
O balanço do umbuzeiro,
O cantar do Assum-Preto,
O agouro rasgado da cauã,
Na chuva, o floral aguaceiro,
A cigarra no verão da quixabeira,
O colibri beijando a aroeira,
A tosse da fome tísica,
Do facão saindo faísca,
São sons da caatinga,
Com sua magia e mandinga.
POEMA DE AMOR
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, da sua obra de textos poéticos “Na Espera da Graça”
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor,
Mas minha veia é nordestina,
De sangue catingueiro da sina,
Que tenta aliviar os fios da dor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor;
Eu já te amo do jeito que sou:
Seco como pedregulho sertanejo;
Te vejo em meu interior,
Com o coração que ainda tem flor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor;
Eu sigo como viajante,
Errante nas asas do Condor;
Não sou do tipo romântico;
Sou mais fechado lacônico,
Mas ainda fonte de calor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor;
Perdão, não sei fazer poema de amor;
Só sei falar dessa injustiça social;
De tanta gente viver desigual,
Na cidade e no sertão sem cor.
Você sempre me pede,
Para fazer um poema de amor;
Peço que não me leve a mal;
Sou assim meio bruto e rude,
Talvez um sujeito anormal,
Nascido em outra estrela sideral,
Que se alimenta do seu vigor.
DOIS SERTÕES
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Um é o do litoral,
Mata firme, terra fértil,
Vento além-mar colonial,
Com cheiro do melaço da cana,
Misturado ao suor da escravidão,
Saído do ventre da mãe africana
Pra viver na senzala-porão.
São dois sertões,
Do soldado ou coiteiro,
Das mais divinas canções,
Do encantado canto violeiro,
O outro foi latifúndio profundo,
Caatinga espinhenta de aço,
Sem igual no mundo,
Carcaças das secas e do cangaço,
Do ciclo pastoril do couro,
Vaqueiro filho do deus sol,
Onde o coronel juntou tesouro,
Do nordestino se fez cavaco,
Por séculos isolado,
Sertão chamado de arcaico.
Este era nosso Nordeste,
Do açúcar do engenho,
Chefes políticos mandatários,
Do sangue vertido do lenho
Volantes-cangaceiros sanguinários,
Do branco-negro, mestiços,
Índios, caboclos e mulatos,
Com suas crendices e feitiços,
Messiânico, demônio-religioso
Com suas rezas de corpo fechado,
Chão de talento precioso.
Do Araripe, Lourenço,
Severino Pau de Colher,
De Canudos Conselheiro,
Povo que nunca perdeu a fé.
A INSPIRAÇÃO
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tem momentos
Que você fica sem norte,
Para o riscado do escrever;
Não adianta garimpar o corte,
Dele não sai a pedra brilhante,
Pois o tempo lhe mastiga,
Como animal ruminante.
As ideias voam na poeira
Da catinga seca do sertão:
É a danada matreira,
Senhora dona inspiração.
Quando foge a inspiração,
Sua alma tormenta padece,
Porque as palavras se vão.
Essa tal da inspiração,
É como o inferno e o céu,
Na briga entre Deus e o Cão,
Rasga-se tanto papel,
Que ao poeta, ou escritor,
Seja lá quem for,
Só lhe resta a solidão.
Dizem que a inspiração,
É coisa de entidade,
De outra encarnação,
Que cada artista,
Tem seu ancestral;
Faz pacto com o diabo;
Tem que passar fome e miséria;
Viver como eterno sofredor,
Para ser um grande criador.
A inspiração,
É como adubo em chão bruto,
Que faz da planta brotar o fruto.
TEM DIA…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sempre tem um dia diferente
Mesmo na alma da gente.
Cada dia
Tem o seu pôr-do-sol,
Seu alvorecer,
São vários num só,
Tudo muda,
Tudo se transforma,
Assim é o nosso ser.
Tem o dia da alegria,
Do banzo triste,
Dizendo que você não existe,
Que faz brotar a poesia.
Tem o dia da caça,
Outro do caçador,
Até do escravo
Que se torna senhor.
Tem o dia que se quer esquecer,
Aquele que gruda na memória,
Como fotos antigas de família,
Coisas que marcam nossa história.
Tem o dia…
Do humano e desumano,
O sagrado e o profano.
AQUELE SEU OLHAR
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Eu aqui triste, tão só,
E num repente,
Seu olhar
Beijou meu rosto,
Queimado pelo sol,
Senti seu gosto
Ardente do sertão,
Depois sumiu,
Sem me dar adeus,
Fazendo palpitar
Meu clandestino coração.
Aquele seu olhar
Perfumou minha alma,
Com seu encanto da paixão,
Deixou ela mais calma,
Como feitiço de verão.
No açoite do tempo,
Envergado pelo vento,
Nos embates da ditadura
Contra o regime opressor,
Com a mesma ternura,
Encontrei aquele olhar
Verde como a cor do mar,
Que curou a minha dor.
Na tortura, ela se foi.
Virou estrela de luar,
Mas, seu olhar
Em mim ficou
Como eterno amor.
Aquele seu olhar,
Morena linda e serena,
Foi como um beija-flor
Em chuva de gravatá,
Com suas asas pousou
E livre ao céu voou.
VOA MENTE!
De Jeremias Macário, jornalista e escritor, do livro do autor “NA ESPERA DA GRAÇA”
Quero ser livre como Condor;
Não seja dor e ódio, seja amor;
Seja semente com sua mente.
Voa, voa mente inteligente!
Voa como no rasgo do falcão,
Cortando a linha do horizonte,
Entre o céu azul daquele monte.
Voa mente dessa sofrida gente;
Do nascente ao vermelho poente;
Clareia toda nossa imaginação!
Voa minha mente peregrina!
No meu intrincado pensamento;
Nas asas do gavião e do carcará,
Desta terra guerreira nordestina,
Onde lá vou plantando vento,
Para soprar velas desse tempo,
De volta às raízes do meu luar.
Voa, voa mente em seus fragmentos!
Faz que medite como aquele monge;
Leva pra bem longe meus tormentos,
Pro Olimpo da antiga sábia Grécia,
Onde possa desvendar controvérsia.
Me tira desse caminho curvo e escuro;
Ilumina meu presente para o futuro.
A BENÇÃO, MEU “VELHO CHICO”
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
A benção, meu “Velho Chico”!
Criatura das águas milenares,
Barrentas e canoras,
Das lavadeiras senhoras,
Da Canastra nascente,
Que deu vida e abrigo
À fauna e à flora,
A toda essa gente,
Da aurora ao poente.
Teu nome mesmo é Opará,
Grande fluente rio-mar,
Dos xokós, tuxás-hariris,
Deus salve teus ancestrais,
Tapuias e tupis-guaranis,
Guerreiros valentes e animais,
Desses vários brasis.
A benção, meu “Velho Chico”!
De alma bondosa e pura,
Que sempre destes fartura,
Ao pobre e ao rico.
Oh, senhor, majestoso do Nordeste!
Que atravessas todo este agreste,
Espalhando o fruto e a flor,
Do teu ventre o peixe a borbotar,
Perdoai todo o mal e dor,
Que te fez por dentro sangrar.
Em tuas margens,
Pelo fuzil e pelo punhal,
Foi derramado o sangue nordestino,
Entre o sertão e o litoral.
Oh, meu “Velho Chico”!
Nestes séculos de atraso,
Das secas e do cangaço,
Fostes nosso eterno pai
Das lendas e histórias,
Imortais mitos e memórias.










