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:: ‘Na Rota da Poesia’

UMA CONQUISTA CASSADA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Naquela manhã seis de maio,

Escorre da serra a neblina,

O sereno fino cai nas avenidas,

E cada um segue sua rotina,

Numa agenda cheia de lidas.

 

Ninguém imaginava,

Um cerco de fuzil,

Para calar nossa liberdade,

Na cidade do frio.

 

Com cem armas nas mãos,

Duzentas botinas assassinas,

Na caça de subversivos,

Que a tropa tirana de opressivos,

Chama todos de comunistas,

Nomes que estão em suas listas.

 

Assim aprenderam a lição,

Marchando sem razão,

Nos quarteis e nas prisões,

Para cassar uma Conquista,

Do prefeito Pedral,

Que venceu uma eleição,

Numa legal Constituição.

 

Uma Conquista Cassada,

Naquele dia fatal,

De uma gente encurralada,

Como se fosse feroz animal,

Por uma maldita ditadura,

Que matou nosso irmão,

Com choque elétrico,

Pau-de-arara, ferro e tortura,

E proibiu nossa livre canção.

VOCÊ

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Você fez morada em mim,

Faixos de luz e energia,

Seu olhar foi assim,

Despertar de alegria,

Força inexplicável,

Contato sobrenatural,

Lua cheia iluminável,

Pratear platônico,

No meu terreiro de amor,

Onde seco brotou a flor.

 

Segredos nossos eternos:

Sou seu silêncio,

Dos seus enredos.

 

Você é minha alma,

Nos verões e nos invernos,

Derramando canções,

Que me acalenta e me acalma,

Como o florido dos sertões.

 

Você é como jasmim,

Perfumosa,

Eu vou a ti,

Como no canto do Bem-Te-Vi,

Que me encanta como santa.

A VIDA É COMO É

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Aleluia! Aleluia! Aleluia!

Nasci,

Sem pedir para vir,

Mas estou aqui

A respirar

Esse ar poluído,

Imundo,

Que construíram pra mim.

 

É a vida como é,

Ou “como ela é”,

De hipocrisias e sodomias,

Bela como aquarela,

Finita e infinita,

De dores e amores.

 

A vida é como é:

Pode estar,

No jogo do babalaô,

No oráculo do Ifá,

Na pregação do pastor,

Na Bíblia e no Alcorão,

Nas cenas de horror,

Culturas ou religiões,

Sentimentos ou razões,

No espírito ancestral,

Conflito existencial.

 

A vida é como é:

De acertos e desacertos,

De raivas,

Palavras amáveis,

Como viagem de trem,

De estação em estação,

Onde uns sobem,

Outros descem,

E ninguém é ninguém,

Com tantas gentes,

Diferentes,

Malditos e divinos,

Bom, mau ou feio,

Como criança no recreio,

Que nem sabe de onde veio.

 

A vida é como é:

Travessia

Do esfumaçado rio,

Onde o barqueiro,

Cobra uma moeda,

Para ser seu guia.

 

A vida é como é:

Alma da floresta,

Filho da montanha,

Perda e ganha,

Agonia e festa,

Templo do senhor,

Vingador,

Ilusão é fé.

NO BANCO DA PRAÇA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Ninguém sabe

Qual sua graça

Do moço descalço,

De jeito candango,

Com barriga de rango,

No concreto de aço,

Que arriou e dormiu,

No banco da praça.

 

Seu nome pode ser fome,

Esguio e longo,

Drogado ou embriagado,

Faroeste Django

Do nosso Nordeste.

 

No banco da praça,

Tem o casal de namorados,

Com beijos de juras de amor,

Como num buquê de flor;

Tem o velho ancião,

Com seu tempo calendário,

Corroendo seu salário,

O desempregado,

José, Maria e João,

Que bateu de porta em porta,

Cortou avenida e praça,

E só recebeu não;

Tem o morador de rua,

A verdade nua e crua,

O bandido mafioso,

O ocioso,

E o sujeito espião.

 

No banco da praça,

Tem cronista e poeta,

Matutando enredos,

Desvendando segredos,

O intelectual,

Lendo um livro ou jornal,

O negro, branco e o pardo,

Cada um com seu fardo;

Tem o vazio,

Na madrugada de frio,

A tristeza e a alegria,

A poesia,

O fantasma que passa,

O vírus e a traça,

No banco da praça.

CAMINHANDO SÓ…

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Oh,Oh! Assim eu vou só…

Com os olhos cheios d´água,

Pela estrada da vida,

Fugindo da cidade tóxica,

Na loucura de uma saída,

Tocando em minha flauta,

Uma canção de amor e dor,

Como no espaço, astronauta,

Ou o Pequeno Príncipe e sua flor,

Caminhando só, eu vou, eu vou.

 

Eu vou só…

Caminhando por aí,

Com saudades da minha amada,

Sem o prazer de sorrir,

Seguindo meu destino,

Cósmico divino,

Entre carros apressados

A cruzar por mim,

Nessa correria sem fim.

 

Caminhando só, eu vou…

Com minha mochila,

Por entre povoado e vila,

Cheia do passado e presente,

No tempo escuro

Dessa nossa gente,

Ainda à procura de um futuro,

E eu vou caminhando só

Pelo fluxo da noite e do sol.

 

VI O AGUACEIRO BATER

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Como num beijo elétrico,

As nuvens pesadas escuras,

Riscam raios na serra,

Lembro da minha querida terra,

E o trovão celebra as aberturas,

Das chuvas de verão,

Das danças indígenas tupãs,

Chamando seus ancestrais xamãs.

 

Naquela tarde calorosa,

Vi o aguaceiro bater,

Na roça do meu gravatá,

O verde todo florescer,

Ao lado de você,

Toda linda charmosa,

E a nambu alegre cantar,

Na campina a perdiz e a juriti,

Vi o sonho clarear.

 

Vi o aguaceiro bater,

O facão brandir no terreiro,

No Nordeste faroeste inteiro,

Senti o cheiro do solo encharcar,

O mandacaru florar,

O mato viçoso exuberante,

O sertanejo forte gigante,

Na escola a criança,

Renascer a fé e a esperança.

 

Vi o aguaceiro bater,

Dentro de mim,

Com alma de poesia,

Minha deusa guia,

Do não e do sim,

Depois da seca danada,

Vi o lavrador com sua enxada,

O chão molhado cavar,

Para a semente semear.

 

Vi a lavoura nascer,

No milagre da natureza,

Espantar toda tristeza,

No aguaceiro a bater.

 

ALEGRA-TE COMIGO!

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Alegra-te comigo:

Familiar ou amigo

Na vida e na morte,

Na perda e na sorte.

 

Alegra-te comigo,

Abra tua porta,

E deixa eu injetar,

O meu sangue

Entre tua aorta.

 

Alegra-te comigo,

Não importa a cor,

Gênero ou dor,

Que te atormenta,

Sem essa de inimigo,

Dessa ideologia nojenta.

 

Alegra-te comigo,

Ajuda-me a enxergar o amor,

Sentir o sentido do existir;

Admirar a beleza da flor;

Navegar em teu mar,

Juntar as mãos,

Caminhar, sonhar,

Como peregrinos irmãos.

O BRUXO DA BOLA

Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário

Os deuses do Olimpo

Te deram o divino dom,

De ser o bruxo da bola,

Com ela fazer malabares,

Como violonista do som,

E tu preferiste:

Festa e luxo,

Boates, cabarés e bares.

 

Passastes

Como cometa no fluxo,

Esse bruxo da bola,

Na enrola de muito Mané,

Com sua mágica,

Grudava a redonda em seu pé.

 

Fostes o espetáculo do mundo:

Por duas vezes o melhor,

No drible um cartola,

Maior que Garrinha na ré,

Maradona, Messi e Pelé.

 

Caneta pra lá,

Banho de lua,

Pedala pra cá,

Deixastes

O adversário no chão,

Comendo grama,

Achando ser pão,

E a bola cola,

No bruxo da bola.

 

A torcida contra

Levanta e canta,

Para aplaudir,

Gritar e curtir,

O bruxo da bola.

 

No campo ele sorrir,

Faz outra marola,

O bruxo da bola.

Lá vai o bruxo da bola,

Com ela presa na sola,

E o estádio inteiro,

Encanta com o efeito,

Que no canto enganou,

Desolou na rede o goleiro,

E goza o bruxo da bola.

 

 

 

 

BRANCA ESCRAVIDÃO

De autoria do jornalista e escritos Jeremias Macário

Guerreiam dois reinos impérios:

Muçulmano e cristão

(Habsburgos e otomanos),

Fincados em seus mistérios,

Da represália religiosa odiosa,

Criaram a Branca Escravidão.

 

Brigam corsários, paxás e reis,

Turcos, mouros, maometanos e sultão

Contra Espanha, França, Portugal e Itália,

Desde a época das Cruzadas,

Por um reino no céu,

Até a Costa da Berbéria,

(Túnis, Trípoli e Argel)

Da humana matéria,

Branca Escravidão.

 

Essa Branca Escravidão,

Tem uma abominável história,

De rasa memória,

De padres, ricos e nobres,

Pescadores, camponeses pobres,

Por mar, terra e vilas litoral,

Pela força capturados,

Como prisioneiros acorrentados,

Nos cativeiros dos banhos públicos,

Como nos campos de concentração,

Vendidos no mercado Badistão.

 

Com a perda de seus provedores,

Apartados da sua pátria,

Mulheres viúvas em prantos,

Famílias choravam suas dores,

Idosos e crianças pelos cantos,

Comiam sobras do lixo,

Sem dinheiro para remição,

Dos escravos da Branca Escravidão.

 

Expostos a chuvas e sol nas galés,

Varadas, espancamentos e torturas,

Testavam suas crenças e fés,

E o renegado surrava seu irmão.

Trinitários e mercedários

Deles faziam suborno e promoção,

Para resgatar seus servos

Dos sofrimentos e agruras,

Da negra Branca Escravidão.

 

ÊTA VIDA!

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Êta vida!

Renhida de tanta lida:

Do nascer e crescer,

Do envelhecer e partir,

Do amar e odiar,

Do chorar e sorrir,

Do descansar e lutar,

Onde um vai, outro fica,

E o pobre a trabalhar,

Pro patrão se enricar.

 

Êta vida!

Vou a vagar por ai,

Como nobre ou faquir,

Com direito ao existir.

 

O tempo gira, gira,

O vento corta lento,

Às vezes veloz e algoz,

Arrastando tudo pela frente,

E essa gente diferente,

Nesse trem passageiro,

Na correria do dinheiro.

 

Êta vida!

Muitos dizem que ela é sabida,

Pela mulher foi parida.

Bodoque de atiradeira,

De descida e ladeira.

 

Êta vida!

De Natal e Réveillon,

Canção, amor e som,

Que atravessa o ano,

Com meta de plano,

Branco, dourado, verde/azul:

Superstição para cada um,

E eu não entendo mais nada,

Faço apenas meu zum,

Nesse mundaréu de povo,

Pra começar tudo de novo.





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