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Quem é este “Coronavid”? . Por Jeremias Macário

“ANDANÇAS” TAMBÉM É MÚSICA

Não são só causos, contos e histórias, numa mistura de ficção com realidade, o novo livro “Andanças”, do jornalista e escritor Jeremias Macário, também tem poemas, muitos dos quais começam a ser musicados por artistas locais e de outras paragens do Brasil, como de Fortaleza, no Ceará.

Do título “Na Espera da Graça”, que fala do homem nordestino que sempre vive a esperar por tempos melhores, o cantor, músico e compositor Walter Lajes extraiu de sua viola uma bela canção, numa parceria que fez com o autor, com apresentação em vários festivais.

O músico e compositor Papalo Monteiro se interessou por “Nas Ciladas da Lua Cheia”, uma letra forte que descreve os políticos na figura de bichos que, de quatro em quatro anos, aproveitam as eleições com promessas vãs para se elegerem.

Tem “O Balanço do Mar”, um xote que lembra passagens de nossas vidas, e “Lágrimas de Mariana”, um belo poema triste sobre a tragédia do rompimento da barragem da Samarco, lá em Mariana (MG), musicados e cantados pelo amigo parceiro Dorinho Chaves.

Lá de Fortaleza, Ceará, os companheiros Edilson Barros e Heriberto Silva realizaram uma parceria musical aproveitando a letra “A DOR DA FINITUDE”, que versa sobre um tema que pouca gente gosta de abordar, que é a morte, e filosofa que tudo passa, tudo muda e tudo se transforma. Outros poemas estão sendo trabalhados para entrarem no rol das letras musicadas, inclusive do novo livro “ANDANÇAS”.

Essa é uma parceria com o amigo poeta e músico, baiano de Alagoinhas, Antônio Dean, que há muitos anos reside em Campina Grande da Paraíba com sua família, fazendo sucessos e cantando com sua profunda voz, a cultura nordestina para todo o Brasil.

Conheça o Espaço Cultural “A Estrada”

Com 3.483 itens entre livros (1.099), vinis nacionais e internacionais (481), CDs (284), filmes em DVDs (209), peças artesanais (188) e 106 quadros fotográficos, dentre outros objetos, o “Espaço Cultural a Estrada” que está inserido no blog do mesmo nome tem história e um longo caminho que praticamente começou na década de 1970 quando iniciava minha carreira jornalística como repórter em Salvador.

espaco cultural a estrada (5)

Nos últimos anos o Espaço Cultural vem reunindo amigos artistas e outras personalidades do universo cultural de Vitória da Conquista em encontros colaborativos de saraus de cantorias, recitais poéticos e debates em diversas áreas do conhecimento. Nasceu eclético por iniciativa de um pequeno grupo que resolveu homenagear o vinil e saborear o vinho. Assim pintou o primeiro encontro do “Vinho Vinil” com o cantor e compositor Mano di Sousa, os fotógrafos José Carlos D`Almeida e José Silva entre outros convidados.

CLIQUE AQUI para saber mais sobre o espaço cultural de Jeremias Macário.

CANTO NOTURNO, A CANÇÃO PARA DANÇAR E A CANÇÃO DO SEPULCRO

Com tons poéticos e filosóficos, Nietzsche, em “Assim Falava Zaratustra,” diz que é insondável o que os olhos não podem penetrar e nele me afogo. A sabedoria e a vida se parecem. Têm seu anzol de ouro.

Na noite, falam mais alto todas as fontes que jorram, e minha alma também jorra. Todas as canções dos amantes despertam na noite. Minha alma é uma canção de um homem que ama. Em mim há uma coisa insaciável que é o desejo de amar e fala a linguagem do amor. Sou noite e, se não fosse, minha solidão seria estar rodeado de luz.

O filósofo compara as estrelas cintilantes como vagalumes celestiais e expressa que ficaria cheio de ventura em receber vossa luz, mas vivo em minha própria, absorvendo as chamas que de mim brotam.

Para ele, a mão que nunca se cansa de dar tem uma sorte maldita. Ó eclipse do meu sol! Ó desejo de desejar! Ó fome devoradora na saciedade. Em sua visão, há um abismo entre dar e receber. Aquele que sempre dar corre o risco de perder o pudor. Aquele que reparte sem cessar acaba por calejar as mãos e o coração.

“Meus olhos já não se arrasam de lágrimas ao ver a vergonha dos que imploram. Minha mão endureceu demais para experimentar o tremor das mãos cheias”. Mais adiante, fala que muitos sóis gravitam no espaço vazio. Sua luz diz a tudo o que é obscuro.

Como tempestade, voam os sóis por suas órbitas. É a maneira deles de viajar. Só as criaturas noturnas tiram vosso calor do luminoso. Tudo é gelo em torno de mim e minha mão se queima ao tocar o gelo. Se é noite, por que hei de ser luz, ter sede do noturno e solidão. É noite e falam todas as fontes que jorram. Minha alma é também uma fonte borbulhante. Despertam todas as canções dos que amam. Minha alma também é uma canção que ama.

Em canção para dançar, Nietzsche afirma ser advogado de Deus perante o diabo que é o espírito do peso. No vale, quando as donzelas veem Zaratustra, elas param, mas ele manda prosseguir. Diz ser selva e noite de árvores sombrias, mas quem não se amedrontar, encontrará sob meus ciprestes coroas de rosas.

“Saberá também encontrar o pequenino Deus preferido das donzelas dançarinas. Está junto da fonte, tranquilo, de olhos fechados. Ele pede que as dançarinas não se zanguem com sua presença, se contra o pequeno Deus ando tanto irritado. Ele pode gritar e chorar.

Da sabedoria, sempre estamos sedentos dela e não nos saciamos. Olhamos através de seu véu, sempre versátil e obstinada. Pode ser má e falsa e me afoga no insondável. Ela diz: Tu queres, tu desejas, tu amas! E só por isso elogias a vida.

De acordo com sua filosofia, ninguém pode responder pior do que quando diz a verdade à sua sabedoria. “Eu nada amo mais profundamente do que a vida”…

Por que? Para que? Onde? Como? Não é uma loucura viver ainda. É a noite que assim me interroga. Perdoai-me a tristeza.

Na canção do sepulcro, ele fala de uma ilha taciturna onde lá estão os sepulcros da sua juventude. Vos todos, olhares de amor, momentos divinos! Como vos desvanecestes depressa! Penso hoje em vós como em meus mortos.

Dos mortos prediletos, afirma chegar a si um suave perfume que alivia seu coração e faz correr as lágrimas. Esse perfume comove o coração do navegante solitário.

Nietzsche fala dos fugitivos que morreram para ele. Sou ainda o herdeiro e a herança de vosso amor onde florescem as virtudes silvestres de todas as cores. Não fugistes de mim e nem eu de vós. Não somos culpados reciprocamente de nossa infidelidade.

Eu te amaldiçoou, oh morte soberana que abreviastes minha eternidade, como se interrompe um som na fria noite. “Matastes as visões e os prodígios mais caros da minha juventude. Tirastes de mim meus companheiros de jogo, os espíritos bem-aventurados. Em memória deles, deposito esta coroa e esta maldição.

“Para mim todos os seres devem ser divinos. Me assombrastes com imundos fantasmas. Na sabedoria da minha juventude, todos os dias devem ser sagrados para mim. Assim me falava outrora a sabedoria de minha juventude. Afasta de mim tua sombra fantasmagórica”.

“Outrora eu suspirava por bons presságios e então lançastes em meu caminho uma monstruosa coruja. Como cego percorri caminhos felizes e neles lançastes vossas imundices. Envenenastes meu melhor mel e o zelo de minhas melhores abelhas”.

Zaratustra reclama que a morte entoou para seus companheiros uma surda e lúgubre melodia. Cantor assassino, instrumento da maldade, tu, que eras o mais inocente. Eu estava pronto para a mais bela dança e tu com teus sons mataste meu embalo. No final da sua conversa, ele diz que onde há sepulturas há ressurreições.

 

CARYBÉ, O ESCULTOR DOS ORIXÁS (2)

(Chico Ribeiro Neto)

Posto hoje a segunda parte da minha entrevista com Carybé, publicada na revista “Manchete” em 26/07/75.

Carybé faz uma afirmação de fé: “A força da Bahia dá mais verdade à civilização”.

Vamos ao texto:

“Carybé nasceu na cidade argentina de Lanus, de pai italiano e de mãe gaúcha de Santa Maria da Boca do Monte. Os pais tinham se casado em Missões, na Argentina, mas logo depois do casamento foram se instalar em Mato Grosso onde nasceu o filho mais velho, Arnaldo. Depois se transferiram para o Paraguai, onde nasceram mais duas irmãs. Na cidade de Pousadas, nas Missões, veio ao mundo o quarto filho, que também virou pintor.

Andarilho, o velho decidiu voltar para a Itália, onde Carybé viveu os primeiros oito anos de sua existência. Até hoje costuma relembrar que sua primeira língua foi o italiano. Depois da Primeira Grande Guerra, a família voltou para o Brasil estabelecendo-se no Rio de Janeiro, na zona da rua Pedro Américo.

Em 1929, os rapazes da família ganharam uma empreitada para a decoração do Carnaval dos três grandes hotéis da época: Copacabana Glória e o Palácio.

“Ganhamos uma verdadeira fortuna: 19 contos de réis. Aí, o velho inventou de viajar de novo e voltamos à Argentina, onde fiquei mandando crônicas e desenhos para os jornais.”

 

Carybé trabalhou em jornal durante 22 anos. Mas seu irmão curtia cerâmica e os dois começaram a fabricar louças e azulejos. Carybé entrou de forneiro depois ajudou a pintar as peças.

Em Buenos Aires, quando a barra começou a pesar, empregou-se numa fábrica de caixotes, de onde saiu com as mãos totalmente arrebentadas.

Sobre a história de seu nome, há várias versões. Como sempre, a verdadeira é a mais banal. Os dois irmãos artistas, Roberto e Hector Bernabo, eram bastante procurados. Mas sempre dava confusão quando alguém chamava um Bernabo. Hector tinha sido escoteiro quando criança, e entrou na Patrulha dos Peixes, onde ficara sendo um Carybé. Havia gostado do apelido por achá-lo sonoro e um belo dia, depois de grande, para acabar com a confusão entre os Bernabo, resolveu chamar-se apenas de Carybé. Pegou.

 

Artista inato, procurou uma vez frequentar um curso de pintura, em escola noturna que tinha professor, modelo e tudo.

“Mas achei chato, e em vez de ficar diante dos modelos posando achei melhor sair para a rua, e observar. Várias vezes fui convidado a ensinar em escolas de Belas-Artes. Numa, aceitei. Iria ensinar o quê? Nunca aprendi. Não sei fazer um quadro de uma vez. Começo apago tudo, deixo ele de castigo uns 15 dias contra a parede. Depois pego de novo, vejo o que está ruim e vou continuando. Mas acho que a escola vale, pelo menos para quem tem recursos porque fornece a ajuda de pessoas mais experientes, de eventuais orientadores.”

(Continua na próxima semana).

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

FLORES DO MEU QUINTAL

Um quintal sem flores é como uma alma sem cores. Nos momentos de mais introspecção ou quando se sente por dentro um vazio, elas lhe transportam para um outro lado do além, até mesmo para longe do conhecer e do saber que, na maioria das vezes, trazem sofrimento e dor. Elas podem não lhe dar uma resposta para seus enigmas e mistérios existenciais da vida, mas penetram em seu espírito e o faz aquietar-se, como se fossem calmantes naturais que fazem parar o tempo do passado, do presente e do futuro. Nas flores do meu quintal ainda tenho a me visitar o beija-flor e outros pássaros que cantam, encantam e espantam meus males. Elas são como almas vivas no meu caminho solitário do desconhecido. Dizem que também sou criador porque fui gerado da terra e a ela retornarei. Flores do meu quintal que não se cansam de sorrir para mim na alegria e na solidão do meu ser. São sábias as flores do meu quintal, como se fossem canções em noites de sarau. São poesias que não fazem distinção de crenças e fés. São curas para nossas doenças e dançam suavemente ao sabor do vento, tanto faz ser do norte ou do sul, do leste ou oeste. Elas são como rainhas e vinhas do nosso sertão Nordeste, tão agreste que abriga a flor do mandacaru.

 

 

 

 

 

 

 

 

ESCOLHO O TEU CHEIRO

Do livro “Suspiros Poéticos” – a beleza da lira cor – da poetisa Regina Chaves dos Santos, lançado na Bienal do Livro de Salvador, e participante do nosso “Sarau A Estrada”. Regina ofertou sua obra ao nosso “Espaço Cultural A Estrada” que agradece dele fazer parte como um dos mais raros perfumes da terra.

Regina Chaves

Uma noite para uma vida inteira…

E eu te prometo amor, amar-te – eternamente!

Sentindo que este amor que nos chegou ontem, embriaga faceira o meu coração, m- tomando conta de todo o meu ser!

Mergulho na imensidão desse querer, totalmente diferente e, – completamente apaixonado!

Simples assim,

– Dos mais raros perfumes escolho o teu cheiro

O teu cheiro de flo-da-pele provocando em mim, arrepios, – na magia do teu sorriso!

Eu te prometo amor, amar-te desde ontem – a vida inteira!

Sabes por que?

– Porque dos mais preciosos perfumes, eu escolho, o teu cheiro!!!

 

EDUCAÇÃO PRECÁRIA, MAIS ATRASO E VIOLÊNCIA NUM PAÍS TÃO RICO E POBRE

Uma mistura indigesta neste Brasil tão rico, tão pobre e desigual. Se os governantes, desde passados remotos, tivessem atentado para a priorização da educação das nossas crianças e jovens, não teríamos tanto atraso e tanta violência, que só no trânsito e em homicídios, mata mais de 150 mil por ano, uma guerra que supera todas as outras no planeta atual.

Enquanto esse Congresso Nacional conservador discute questões do PL do Estupro, privatização das praias, flexibilização das leis ambientais, mais agrotóxicos no campo, armas nas mãos da população, proibição da deleção premiada de presos, normas eleitorais para os políticos se perpetuarem no poder e outros absurdos, lá fora existe uma guerra civil de brasileiros matando brasileiros.

Sobre o meu comentário “Quem alimenta a violência”?, o professor Durval Menezes, em áudio no Grupo do Museu de Kard, acrescentou considerações importantes quanto a fome em nosso país, o terceiro maior produtor de alimentos do mundo com a maior área agricultável e que desperdiça 70% dos produtos. A fome também é uma grande violência contra a dignidade primária do ser humano.

Sobre a violência no trânsito e os homicídios, como bem falou o professor, morre menos gente nos conflitos entre Israel/Palestina (30 a 40 mil), Rússia e Ucrânia do que no Brasil, levando em conta somente essas duas áreas citadas (trânsito e homicídios). Temos ainda a violência de gêneros contra mulheres, homossexuais, LGBTs e estupros.

Não dá para conceber que 30 ou 40 milhões passam fome e metade da população de mais de 200 milhões de habitantes vive em favelas, barracos e periferias sem saneamento básico. Volto a indagar: Que Brasil é esse, tão rico e tão desigual? É uma questão histórica de séculos.

Essa situação vem desde os tempos coloniais, passando pelo império e a república que se tornou coisa deles da oligarquia capitalista selvagem e não nossa. O Brasil atravessou levantes, rebeliões, conjurações, ditaduras e redemocratizações, com ciclos de altos e baixos no crescimento econômico acumulativo sempre nas mãos de poucos. Esse quadro da desigualdade do sobe e desce continua profundo e vergonhoso perante o mundo.

O professor falou também da violência no trânsito e o alto número de homicídios, incluindo aí a guerra entre traficantes, milicianos e a polícia. De acordo com pesquisa do Atlas da Violência, não é concebível que a Bahia seja o estado com maior violência, destacando pela ordem cinco cidades do interior, como Santo Antônio de Jesus, Jequié, Simões Filho, Camaçari, Simões Filho e Juazeiro. Salvador está na nova posição e Feira de Santana é a décima mais violenta do país.

Neste cenário devastador da violência estão envolvidos políticos bandidos e corruptos como chefes de organizações criminosas que comandam o tráfico, o aliciamento, o suborno e as matanças daqueles que atravessam seus caminhos e fazem parte do poder através de eleições viciadas onde o eleitor ignorante e pobre de espirito é apenas um instrumento de suas manobras e manipulações.

Na educação somos uma vergonha nos índices de aproveitamento mundial, como agora ficou atestado no aspecto da criatividade dos jovens estudantes. Somos ainda um gigante adormecido pela própria natureza. Costa Rica, Colômbia, Chile, Uruguai e a própria Argentina, nossos hermanos, com todas suas crises, nos supera na educação e na cultura.

Dentre mais de 60 países, estamos entre o 44º em criatividade, e pior ainda em matemática. Singapura, Coréia do Sul e Canadá tiveram as melhores pontuações e se desenvolveram através da educação, mas aos políticos e governantes retrógrados e egoístas do Brasil, o que interessa é ter o povo aos seus pés, votando em todas eleições por favor e dinheiro.

Estamos agora nas festas juninas gordas das eleições onde os prefeitos e o poder público em geral soltam milhões de reais superfaturados para bandas e cantores de ritmos alienantes e assassinos das nossas tradições, trocando o Gonzagão pelo Safadão.

No entanto, para enganar os bestas e idiotas, passam o ano alegando não ter recursos suficientes para melhorar a educação, a nossa cultura e a saúde. Como explicar esse paradoxo? São os próprios poderosos que mais alimentam a violência.

 

QUEM ALIMENTOU A VIOLÊNCIA?

POR QUE ELA? POR QUE ELE? POR QUE MEU FILHO OU MINHA FILHA? NINGUÉM ESTÁ MAIS LIVRE DA VIOLÊNCIA.

O título é uma pergunta que carece de muita reflexão sociológica e filosófica. Outra indagação seria: A violência se alimenta do Estado ou é o Estado que se alimenta da violência? Para a primeira, diria que foi a sociedade que ao longo dos últimos anos alimentou a violência quando ela sempre foi indiferente à pobreza e aos problemas sociais de desigualdades.

Quando a violência começou a crescer no Brasil, ela passou a se alimentar do Estado que, no lugar de ocupar seu espaço de direito, deixou que os bandidos fizessem o seu papel, tomou as favelas e se aproveitou do povo carente de tudo, tornando-o prisioneiro dos traficantes e milicianos. Ela entrou para explorar e dar a “proteção” que o Estado não fez.

Do outro lado, o Estado também se alimenta dessa violência quando gera mais violência com tanques, soldados despreparados e armas pesadas, como se fosse a solução. Temos uma corporação militar arcaica que precisa ser repensada, reformada ou até mesmo extinta para criação de outra com outra linha filosófica.

Essa polícia militar que temos, que mata mais pobres e negros, e que está a serviço dos patrões do Estado, não passa de bucha de canhões ou pau mandado de uma política que há séculos não tem dado certo. Tem um ditado popular que diz que errar é humano, mas continuar no erro é uma burrice.

O pior de tudo é não admitir isso como fazem os donos do Estado que preferem continuar investindo pesado em armamentos, contratação de mais e mais policiais, grupamentos de violência e construção de penitenciárias do que cuidar melhor das nossa crianças e jovens, com educação e amparo social.

Temos ainda uma sociedade conservadora às mudanças, como a descriminalização das drogas, e indiferente à miséria que só sabe dizer que bandido bom é bandido morto. Ela acha que apenas dando uma cesta básica ou uma esmola na esquina da rua, no semáforo, está fazendo sua parte. O resto que se dane. É uma sociedade egocêntrica.

Essa sociedade de mentalidade burguesa de maior poder aquisitivo e rica achou e ainda acha que resolveria seus problemas se trancando em apartamentos luxuosos cheios de grades, porteiros eletrônicos e equipamentos tecnológicos sofisticados de última geração.

Como a violência no país só fez aumentar, e a tendência é piorar, invadindo os asfaltos pobres e ricos das médias e grandes cidades, agora o indivíduo chora quando alguém da sua família é atingida com golpes fatais, como estão vendo recentemente no Rio de Janeiro e em Salvador.

Por que ela, cara? Com suas lágrimas nos olhos, foi a pergunta feita pelo marido da mulher que foi morta na troca de tiros entre a polícia e os traficantes, O problema é que você nunca parou para pensar que um ente querido poderia também ser a vítima dessa violência que a própria sociedade vem alimentando há anos.

Poderia ter acontecido com outra pessoa qualquer, no caso os mais pobres que mais sofrem com a violência, e aí você permaneceria indiferente, como sempre foi, porque não foi consigo. Ela estava na hora e no lugar errado, como também aconteceu com um senhor trabalhador idoso que se encontrava dentro de um ônibus.

Nesse momento trágico, a dor não tem distinção de classe, mas sem essa de indagar do porquê com ela, se com essa violência, do tipo guerra civil em que vivemos, ninguém pode abrir a boca e dizer que é inatingível. Nos falta a consciência de que foi essa nossa sociedade que criou o monstro que agora está devorando o próprio criador. É o filme de ficção se transformando em realidade, onde o criador é engolido pela criatura.

SARAU DEBATEU ÁRABES E JUDEUS NA PENÍNSULA IBÉRICA SÉCULO VIII AO XV

A ESCRAVIDÃO BRANCA OU CRISTÃ PELOS MUÇULMANOS TAMBÉM FOI UM TEMA EM DISCUSSÃO.

Mais uma vez, o Sarau A Estrada, que já recebeu o Troféu Glauber Rocha de Cultura e está completando 14 anos de existência, deu uma demonstração de força cultural e de resistência com a participação de intelectuais, professores, artistas, jovens estudantes e outras pessoas interessadas na troca do conhecimento e do saber.

Foi uma noite encantada na expressão das pessoas (mais de 30) que vieram ao nosso encontro no último sábado (dia 15/06/24), no Espaço Cultural A Estrada, quando foi discutido o tema “Árabes e Judeus na Península Ibérica no Século VIII ao Século XV e ainda sobre a “Escravidão Branca ou Cristã” que ocorreu no século XVI ao final do século XVIII na região da Berbéria (Tripoli, Tunísia e Argel”.

Árabes, Judeus e Escravidão Branca

Os trabalhos foram abertos pelo professor Itamar Aguiar que falou da importância do tema e das influências árabe e judaica que chegaram até o nosso país com a conquista de Portugal. Tratou da questão dos judeus trazidos por Portugal que chegando aqui eram obrigados a se tornarem cristãos, principalmente na época da inquisição.

Fernando fez uma profunda pesquisa dividida em diversos períodos, como o romano, visigótico, os judeus em Al-Andaluz, os judeus nos reinos cristãos, os árabes na Espanha, relação com os reinos cristãos, a economia e a cultura, o legado linguístico e toponímia – nomes de lugares.

“Para o que aqui nos interessa usaremos o fio do começo com algumas considerações dos passos da conquista romana que sustentaram a questão dos judeus em séculos antes de Cristo e adentraremos aos séc. V e VII d.C com os visigodos e a escravidão dos judeus, chegando ao sec.  XV com a expulsão dos judeus não convertidos, em decreto assinado pelos reis Católicos, surgindo assim o grande movimento migratório de judeus, o dos sefarditas judeus provenientes de Sefarad, Espanha” – afirmou o palestrante em sua exposição.

Logo depois ele fez uma descrição sobre os árabes na Península Ibérica, destacando que a dominação islâmica não teve a mesma duração, nem as mesmas repercussões, em todas as zonas peninsulares entre Portugal e Espanha.

“Durante 781 anos, a Espanha medieval foi governada, total ou parcialmente por muçulmanos que presidiram uma extraordinária experiência cultural. A chave para entender o Al-Ándalus está em sua estrutura social não ortodoxa e em sua localização política entre dois mundos: oriental e ocidental”.

O jornalista e escritor Jeremias Macário falou sobre a Escravidão Branca que ocorreu na região da Berbéria (Tripoli, Tunísia e Argel), no período do século XVI ao final do século XVIII. Seu trabalho foi baseado no livro “Escravos Cristão, Senhores Muçulmanos”, do autor Robert. C, Davis, historiador e professor da Ohio State University, Phd em história do Mediterrâneo e da Itália.

Assinalou que essa escravidão foi um tipo de revanchismo dos muçulmanos às Cruzadas entre os séculos XI e XII. Eram corsários e piratas que aprisionavam os brancos ou cristãos em navios e nas regiões litorâneas da França, Portugal, Espanha e, principalmente, na Itália e depois pediam resgates ou levavam esses escravos para os banhos públicos (locais de prisões) que depois eram submetidos a trabalhos forçados.

O assunto é inesgotável, mas os nossos palestrantes Fernando Michelena, o professor Itamar Aguiar e o jornalista e escritor Jeremias Macário conseguiram fazer uma síntese histórica sobre o assunto, tão importante que deixaram legados e muitas de suas influências culturais para o nosso povo brasileiro desde a colonização portuguesa. Logo depois, os debates foram calorosos e valorosos, como do português Luis Altério, da historiadora Lídia, do professor Rubens Mascarenhas e tantos outros.

Cantorias, causos e poesias

Como sempre, após as palestras, o espaço foi aberto a declamações de poemas autorais, cantorias de viola por conta do nosso amigo Vanberto que nos abrilhantou com seu show, contos de causos, estórias populares e troca de ideias que vararam a madrugada. Num clima de interação cordial e fraternal entre amigos e amigas, tudo isso foi acompanhado de bebidas e comidas (cerveja, licor, vinho e uma cachacinha), com destaque para a saborosa dobradinha feita pela nossa anfitriã Vandilza Gonçalves, muito elogiada pela sua dedicação e gentileza.

Numa decoração totalmente junina, lembrando nossas tradições nordestinas, também de autoria de Vandilza, foi mais um sarau que marcou os corações dos participantes interessados por manter a nossa cultura e a nossa memória vivas. Tudo isso ficou registrado nos depoimentos das pessoas que fizeram parte do evento.

“Esses encontros lindos nos é de uma profundeza sem tamanho. O aconchego em que somos recebidos e acolhidos, então… Essa delicadeza e a voz que nos é permitida emanar e escutar (bater papo) atravessam o pensamento nos emergindo em um caldo de diferentes culturas. A cada encontro há uma energia boa. Assim também aos queridos amigos estradeiros que não puderam ir, fizeram muita falta. Contudo, todos foram lembrados nos nomes colocados nas bandeirinhas”- conforme impressão da nossa poetisa Maria Regina.

O nosso frequentador Dal Farias disse que a intervenção de Fernando, Itamar e Jeremias foi de uma contribuição primordial para nosso entendimento e compreensão do tema abordado, trazendo para todos a questão que foi a epopeia árabe para conquistar o ocidente, principalmente a península ibérica. Gostei das intervenções de Rubens e Luis Altério. Foi uma compilação dos meus estudos do velho mundo.

De acordo ainda com Dal, o que mais me encanta no sarau é o desprendimento. É surpreendente quando encontramos, não somente os intelectuais, mas também a fartura, a forma chique, mesmo que rústica, do bom receber e do compartilhamento. Vamos valorizar o Sarau Cultural A Estrada porque somos gratos por este espaço.

Cleu Flor também fez seus agradecimentos e apreciações, bem como Luis Altério, Itamar Aguiar, o nosso fotógrafo José Silva e seu filho Denis, o contador de causos Jhesus, Armando e sua esposa Rose, Humberto e Rose, Liu Telles, quando afirmou termos voltado ao tempo em que as pessoas batiam papo uns com os outros. Todos (mais de 30 presentes) expressaram seu grau de contentamento por mais uma noite cultural.

Segundo o palestrante Fernando, o querer unir a todos os que como eu, agradecemos por ter desfrutado de uma noite deliciosa onde respiramos cultura, tolerância, alegria e camaradagem. Obrigado a todos pela agradável companhia e pelo acolhimento dos anfitriões.

“DA LIVRE MORTE”

No capítulo “Da Livre Morte” do livro “Assim Falava Zaratustra”, Nietzsche diz que “muitos morrem tarde demais e alguns cedo demais. Ainda nos soa estranho esse preceito: “Morrer a Tempo”.

Quem nunca viveu a tempo, como há de morrer a tempo? “Morre sua morte, aquele que cumpre seu destino, vitorioso, rodeado daqueles que esperam e prometem”. Ele fala dos homens que ainda não aprenderam como celebrar as mais belas festas. É enigmático.

De acordo com Zaratustra, “combatente e vitorioso odeiam igualmente vossa morte cheia de caretas, que vai se arrastando como uma ladra e, contudo, chega como soberana”.

Ainda sobre a morte, Nietzsche destaca que “em alguns envelhece primeiramente o coração, em outros o espírito. E alguns são grisalhos desde sua juventude, mas quem tardiamente se torna jovem por mais tempo permanece jovem”.

Prossegue em sua pregação, dizendo que “muitos falham em sua vida. Um verme venenoso lhes devora o coração. Que tratem ao menos de ter melhor êxito em sua morte”.

Ao fazer uma comparação com maçãs azedas e outros frutos, diz que existem aqueles que ficam e permanecem por excessivo tempo dependurados em seus ramos. “Que venham uma tempestade que faça cair da árvore todos esses poderes e bichados”!

“Na verdade, cedo demais morreu aquele hebreu a quem veneram os pregadores da morte lenta e para muitos foi fatalidade ter ele morrido cedo demais”.

“Ele só conhecia ainda lágrimas e melancolia dos hebreus, juntamente com o ódio dos homens de bem e dos justos, esse hebreu Jesus; por isso o acometeu o desejo da morte”.

“Por que não ficou no deserto, longe dos homens de bem e dos justos? Talvez tivesse aprendido a viver e a amar a terra e, mais ainda, a rir! Acreditai em mim, meus irmãos! Morreu cedo demais! Ele mesmo se retrataria de sua doutrina se tivesse vivido até minha idade! Era bastante nobre para se retratar” – assim falou Zaratustra aos seus discípulos.

“Mas não estava ainda maduro. O amor do jovem é imaturo e imaturo também seu ódio do homem e da terra. A alma e as asas do espírito lhes são ainda atadas e pesadas”.

“Assim, eu mesmo quero morrer, a fim de que, meus amigos, por amor de mim, ameis com mais amor a terra. E a terra quero voltar a ser, a fim de encontrar repouso naquela que me gerou”.

 

CARYBÉ, O ESCULTOR DOS ORIXÁS(I)

(Chico Ribeiro Neto)

Esse foi o título da minha matéria sobre Carybé, publicada na revista “Manchete” número 1.214, em 26/07/1975. A foto é do saudoso Lázaro Torres.

Como a entrevista é um pouco longa, publico hoje a primeira parte da conversa com esse artista, que disse: “Quem está certo é o vira-lata”. Carybé morreu em outubro de 1997.

Segue a primeira parte da matéria:

“A talha monumental em que Carybé deu corpo e alma aos santos do Candomblé provoca, logo à primeira vista, dois fortíssimos impactos que a gente nunca mais esquece. O primeiro, de ordem propriamente artística, deixa o espectador em delírio. Há tanta força naquelas formas, tanta vida naquela madeira, e é tamanha a angústia do artista para iluminar mais ainda os orixás que até os buracos furados na tábua parecem transportar para a composição pedaços do firmamento. O outro impacto é da ordem do labor.

A massa de trabalho bruto que tem aquela talha é qualquer coisa de alucinante. Contam as testemunhas oculares que Carybé, com as mãos totalmente rachadas e os dedos em sangue, vivia com montes de panos amarrados nos braços para poder segurar o cinzel e aguentar a dor, até “esquentar”.

Estes dois aspectos definem a estrutura fundamental da personalidade de Carybé: um artista extraordinário, dotado de uma força de inspiração propriamente genial, e um trabalhador braçal absolutamente invulgar, um cavalo, um monstro. Sobre essas duas vigas-mestras de seu caráter correm então uma porção de traços diferente, contraditórios, tortuosos, difíceis, que fazem desse argentino-baiano um idólatra da liberdade e ao mesmo tempo um intransigente defensor da disciplina, uma alma de boêmio inveterado e um profissional rigoroso que não admite o amador nem mesmo no ramo da boemia. Esse novelo de virtudes e pecados incomuns confere a Carybé um poder de sedução praticamente irresistível.

Uma das conclusões filosóficas a que ele chegou sobre a vida, aos 64 anos de idade, resume sua visão de mundo:

“Quem está certo é o vira-lata. Dorme meia hora, acorda, dá um bordejo pelos restos de feira, dorme de novo, cansa de dormir, se espreguiça, boceja, e sai por aí catando vida no rumo de seu faro. Este negócio de dormir oito horas seguidas está errado. Porque o sujeito tem de ficar sempre de cabeça acesa”.

Carybé chega a essa conclusão refletindo sobre os tempos duros que atravessou antes de conhecer a estabilidade. Trabalhava no jornal “Pregón”, de Buenos Aires. Um ordenado fabuloso, máquinas novinhas, edifício próprio, enfim um jornal tão maravilhoso que tinha de ir à falência. E foi, Corria o ano de 1938 e o jornalista argentino mudou-se para São Salvador da Bahia, cidade pela qual vivia apaixonado. Mas a Bahia, contrariamente à lenda, não dá camisa assim tão facilmente. Sem dinheiro, Carybé foi morar debaixo do Trapiche Adelaide, na praia da Preguiça, partilhando a existência clássica dos que têm por cama uma folha de jornal.

“Foi um tempo maravilhoso, uma época de liberdade fantástica. Sem compromissos, dormia quando me dava sono, andava por aí, ia à Cidade Alta, e estava permanentemente de cuca acesa e limpa. Uma verdadeira vida de cachorro vira-lata”.

Mas nesses bordejos acabou conhecendo Mestre Bimba, criador da capoeira regional, homem respeitado por todas de cais de porto. Mestre Bimba arrumou para o argentino um lugar de foguista num daqueles “Ita” da canção e Carybé veio de porão para o Rio de Janeiro, onde tinha conhecidos com quem podia arranjar alguma grana para desarnar. Arrumou emprego na “Folha Carioca”, depois foi para a “Tribuna da Imprensa” do tempo do Lacerda, e depois para o “Mundo Ilustrado”.

 

Pela altura de 1950 já se tinha tornado íntimo amigo de Rubem Braga, que o apresentou ao Anísio Teixeira, que falou dele para o governador da Bahia, Otávio Mangabeira. O argentino foi contratado imediatamente pelo governo baiano e ficou trabalhando para o Estado, fazendo painéis para as escolas. Data também dessa época o álbum “Sete Portas da Bahia”, com mais de 300 desenhos. Carybé se estabelecia enfim, definitivamente, no reinado de seus sonhos, nessas terras da Bahia onde sempre desejara viver e morrer. Mas, até chegar lá conheceu muitas terras e longes mares. (Continua no próximo domingo)

(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)

 

 

 

CACHORRO TAMBÉM VAI À SESSÃO

Bem mais comportado do que os humanos barulhentos e mal-educados que ficam tagarelando alto uns com os outros, um cachorro apareceu na sessão especial “Matrizes do Forró”, realizada na última sexta-feira da semana passada pela Câmara de Vereadores (promoção da parlamentar Lúcia Rocha). Pouca gente viu, mas ele chegou sorrateiramente, passou pela plenária e visitou a Mesa Diretora e os vereadores. Assuntou as discussões; fez suas considerações como se não tivesse gostado do que ouviu; e deitou debaixo de uma das cadeiras reservadas à imprensa que não frequenta mais aquele recinto porque cola tudo do boletim virtual. Ficou lá quieto sem perturbar e parlamentar, mas, com certeza, deve ter ficado envergonhado de ver a plenária quase vazia numa sessão tão importante que debatia a história do nosso forró nordestino e sua descaracterização nos tempos atuais. Seu silêncio foi de protesto contra os ritmos de músicas sertanejas, arrochas, de carnavais e lambadas que passaram a dominar as nossas festas juninas. Foi ele quem saiu dizendo que trocaram o Gozagão pelo Safadão em nosso forró. Trocaram a sanfona, o zabumba e o triângulo pelos gritos das guitarras e dos rebolados nos palcos.





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