Após o massacre de Angico (Sergipe), em 28 de julho de 1938, as onze cabeças decapitadas dos cangaceiros, inclusive de Lampião e Maria Bonita, foram levadas para serem expostas em Piranhas (Alagoas), do outro lado do Rio São Francisco, onde o povo se reuniu em festividades.
De lá, sob o comando do tenente João Bezerra, as volantes conduziram as cabeças de caminhão em latas de querosene até Santana de Ipanema (Alagoas) onde ficava o quartel das tropas chefiadas por José Lucena. A exposição macabra com discursos e comemorações teve a receptividade de quase toda população sertaneja. No entanto, muito consideraram a exposição aberrante e fora de propósito.
Quando chegaram a Maceió (Alagoas), as cabeças já estavam deformadas, mas cerca de 10 mil pessoas se aglomeraram na praça principal para ver a cabeça do “rei do cangaço”, com longas entrevistas a jornalistas de várias partes do Brasil.
O interventor do estado na época, Osman Loureiro, num discurso inflamado, glorificou as forças policiais que abateram Lampião e propôs um prêmio de cinquenta contos de reis para o contingente que fez parte do combate.
Somente depois destas exposições, a cabeça de Lampião, principalmente, foi levada para o Instituto Médico Legal de Maceió para estudos frenológicos e antropométricos. Coube ao médico legista Lages Filho, de tendência lambrosiana, proceder as análises.
Pelas teorias do italiano Cesare Lombroso, o crime era resultado de predisposições e de fatores individuais, ou seja, a pessoa já nascia com características próprias a ser delinquente, levando em consideração a questão racial.
De acordo com a autora de “Lampião, Senhor do Sertão”, Élise Grunspan-Jasmin, as concepções de Lombroso tiveram influência no Brasil, tendo como expoente Nina Rodrigues, só que outros estudiosos discordaram de suas teorias. Para os seguidores de Lombroso, a degenerescência, causa principal do desvio e da criminalidade, devia-se, antes de mais nada, à mestiçagem.
No relatório, Lages Filho descreveu a aparência externa da cabeça, a cor da pele de Lampião, amarelo-escura, o aspecto “selvagem” do rosto e a qualidade dos cabelos e da barba. Segundo ele, Lampião tinha características do caboclo sertanejo, mas era um dolicocéfalo, isto é, de origem africana, e não um braquicéfalo pertencente ao seu grupo étnico do sertão.
Estudiosos, como Arthur Ramos, contestaram a origem africana de Lampião, descrevendo como um mulato, pele moreno-clara, nariz pouco achatado e os lábios grossos. Mesmo assim, foi ambíguo.
“Ainda que para os criminologistas contemporâneos de Lampião, o cangaço tivesse causas estruturais, sociais, culturais, geográficas e econômicas inegáveis, os médicos-legistas e os professores de antropologia criminal buscaram desligar-se de um sistema de classificação lombrosiana e também racial”.
Visto como mestiço-negro, Lampião foi arrancado do seu meio de origem e da sua cultura, excluído da comunidade sertaneja, enquanto se afirmava que a história daquele bandido alto revelava a história daquela região.
De Maceió, as cabeças de Lampião e Maria Bonita foram parar no Instituto Médico Legal Nina Rodrigues, em Salvador, localizado na Faculdade de Medicina da Bahia e depois expostas no Museu Antropológico da Bahia, do qual Estácio de Lima, discípulo de Nina Rodrigues, era diretor.
Estácio também estudou a cabeça de Lampião e não detectou traços lombrosianos, mas características típicas sertanejas. O criminalista não encontrou anomalias em sua análise antropométrica, explicando ter sido o bandido um produto do meio e com inteligência acima da média.