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:: 11/ago/2026 . 23:14

“MUDOU DA ÁGUA PARA O VINHO”

  Entre tantos outros, é mais uma expressão que me deixa intrigado, e esta em voga de que fulano “mudou da água para o vinho”, que vez ou outra ouvimos por aí, tem mais de dois mil anos e deixa várias interpretações, inclusive ambíguas e ambivalentes.

   Gosto muito dos ditados populares dos tempos dos nossos avós ou ancestrais mais antigos. A maioria é verdadeira e sábia e outros nem tanto, como este que já citei aqui em meus comentários, de que “a voz do povo é a voz de Deus”.

Este eu considero um absurdo, se bem que muitos falam sem ao menos pensar e refletir. É uma condenação ao Supremo pelos malfeitos da humanidade. O povo vota errado nos candidatos corruptos, falsários e embusteiros, e Deus leva a culpa pela merda.

   Mas, voltemos à questão do “você mudou da água para o vinho”. Segundo pesquisas e explicações dos entendidos no assunto, o ditado surgiu desde a época de Cristo nas Bodas de Canaã, quando faltou vinho na festa e Ele transformou a água na bebida. Esta passagem está no Evangelho de São João.

  Até aí tudo bem. No entanto, fico a me perguntar se não deveria ser o contrário da pessoa ou a coisa mudar do vinho para a água, tendo em vista que o líquido precioso do qual não há vida sem ele, é mais importante que o vinho.

   Mudar pode ser para melhor ou pior, mas, se for seguir o sentido lógico da água, de maior importância, a mudança não foi boa. Tem gente que quando se casa com uma determinada mulher ciumenta e mandona, o cara se afasta dos amigos, fica caseiro e até antipático. Pode-se também ocorrer o contrário no aspecto do gênero.

Quando acontece isso, costuma-se dizer que o companheiro, ou a companheira, mudou da água para o vinho. Ás vezes, o indivíduo é torto, farrista, não confiável e enrolado e fica sério de uma hora para outra ao se juntar a uma companhia de forte personalidade.

  Nesse caso específico, ele mudou da água para o vinho, ou do vinho para a água? Não que a bebida dos deuses seja ruim (um bom papo, com uma boa música, num ambiente agradável), cai bem um vinho, mas a outra tem mais valor para a vida. Sem vinho se vive, enquanto que sem água, não.

  Acho até que ficou confusa minha interpretação na maneira de diferenciar uma coisa da outra, entretanto, quando alguém pronuncia esse ditado milenar, deixa no ar o duplo sentido entre o bem e o mal, o bom e o mau.

  Talvez esteja procurando cabelo em ovo, ou numa careca totalmente lisa. Deixando este termo mudar da água para o vinho de lado, aprecio os provérbios, melhor ainda os orientais, como o chinês “Enquanto se briga por um quarto de porco, perde-se um rebanho de carneiro”.

  Também sou fã dos pensamentos dos grandes autores e filósofos como este de Umberto Eco, muito atual nos tempos de hoje quando disse que “justificar tragédias como “vontade divina” tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas”.

  Para quem é amante da poesia, Manoel de Barros escreveu que “quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas, é de poesia que estão falando”. Carlos Drummond de Andrade nos deixou essa pérola de que “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede”.

QUANDO FOGE A INSPIRAÇÃO…

 – É, meu parceiro, nessa você estava inspirado! É muito comum se ouvir isso de outra pessoa, seja artista da música, compositor, escritor, ou não, sobre um texto iluminado, um poema bem feito e uma letra onde as palavras são tocantes e traduzem muito bem o tema proposto pelo autor.

  Para o artista em geral, quando se está sem inspiração, a alma padece, dando lugar ao tormento e ao conflito. A lógica e a sequência da narração, da dissertação, do artigo, do comentário, da crônica, da poesia ou outro gênero qualquer, escasseiam.

   Hoje mesmo escolhi tratar deste assunto tão complicado porque a senhora inspiração me abandonou pelas veredas tortuosas. Me sinto perdido numa caatinga espinhenta. Resolvi cutucá-la de vara curta, como se fosse um animal feroz, no caso específico, a onça no ditado popular. Não deveria tirar o sarro da cara dela!

  – Tem dias e meses que não consigo escrever nada, nem fazer uma simples poesia. Deixa baixar a inspiração que faço a melodia da sua letra. Uma hora dessa ela vem. Quem já não escutou essas expressões de um músico, compositor ou poeta?

  Tem dia, horas ou momentos em que a inspiração brota e borbulha como uma nascente de água cristalina que forma um rio caudaloso a correr até o mar. Em outras ocasiões é só sequidão, e não adianta tentar ou forçar a mente porque as ideias não fluem. Elas se perdem na poeira do deserto. Tudo fica embaralhado quando foge a inspiração.

  Quando a danada não está ao seu lado, até o formão, a faca ou o instrumento do artesão escultor não dão o corte certo na peça. O pintor não acerta bem no brilho das tintas e o pincel não desliza suave na tela. O escritor perde o fio da meada; o enredo sai pior que o soneto; e o personagem termina ficando perdido no meio do caminho.

  No entanto, quando se está com inspiração, dizem que alguma entidade ancestral do além baixou ou encarnou no autor da obra. Outros chegam a falar que o artista tem que ouvir Deus e o diabo para não perder a inspiração, a deusa do Olimpo. Só podia ser feminina. Quando ela não bate em sua porta, nem tente apelar para a musa amante.

   Existe aquela história popular de que os velhos bluseiros para solar com perfeição a viola ou a guitarra tinham que fazer um pacto com o diabo na encruzilhada de uma meia noite escura. O imaginário se tornava real e verdadeiro quando o cara confirmava o acordo com o bicho satanás.

   No campo da ciência, a explicação recai no cansaço psicológico, numa fase difícil em que a pessoa está vivendo, algum problema familiar ou até financeiro. São poucos os jogadores de futebol ou outro esporte que atuam bem em todas as partidas.

    Isso ocorre em outras áreas também, como no jornalismo. Para os fumantes, quando uma matéria emperrava no papel (hoje é na tela do computador), a saída era acender um cigarro para relaxar o cérebro e fazer fluir as ideias. Ouvia muito isso na redação e até parecia funcionar. Chegava a pitar quase uma carteira naquele fumacê intoxicante.

   Dizem que a maconha, ou outra droga, faz abrir novos horizontes. Tem quem afirme que o vinho é uma bebida inspiradora, que aproxima até o amor. Se é tudo psicológico, ou não, é outra questão, ponto de vista de cada um.

  Melhor mesmo é parar com esse papo por aqui porque a tal da inspiração não gostou nada de eu inventar de escrever sobre ela. Como resposta à minha ousadia, ela fugiu para bem longe, sem me dar adeus, e nem me disse quando retorna para meu aconchego. Acho que foi um duelo ao pôr-do-sol, como no velho faroeste, onde ela foi mais rápida no gatilho.





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