Entre tantos outros, é mais uma expressão que me deixa intrigado, e esta em voga de que fulano “mudou da água para o vinho”, que vez ou outra ouvimos por aí, tem mais de dois mil anos e deixa várias interpretações, inclusive ambíguas e ambivalentes.
Gosto muito dos ditados populares dos tempos dos nossos avós ou ancestrais mais antigos. A maioria é verdadeira e sábia e outros nem tanto, como este que já citei aqui em meus comentários, de que “a voz do povo é a voz de Deus”.
Este eu considero um absurdo, se bem que muitos falam sem ao menos pensar e refletir. É uma condenação ao Supremo pelos malfeitos da humanidade. O povo vota errado nos candidatos corruptos, falsários e embusteiros, e Deus leva a culpa pela merda.
Mas, voltemos à questão do “você mudou da água para o vinho”. Segundo pesquisas e explicações dos entendidos no assunto, o ditado surgiu desde a época de Cristo nas Bodas de Canaã, quando faltou vinho na festa e Ele transformou a água na bebida. Esta passagem está no Evangelho de São João.
Até aí tudo bem. No entanto, fico a me perguntar se não deveria ser o contrário da pessoa ou a coisa mudar do vinho para a água, tendo em vista que o líquido precioso do qual não há vida sem ele, é mais importante que o vinho.
Mudar pode ser para melhor ou pior, mas, se for seguir o sentido lógico da água, de maior importância, a mudança não foi boa. Tem gente que quando se casa com uma determinada mulher ciumenta e mandona, o cara se afasta dos amigos, fica caseiro e até antipático. Pode-se também ocorrer o contrário no aspecto do gênero.
Quando acontece isso, costuma-se dizer que o companheiro, ou a companheira, mudou da água para o vinho. Ás vezes, o indivíduo é torto, farrista, não confiável e enrolado e fica sério de uma hora para outra ao se juntar a uma companhia de forte personalidade.
Nesse caso específico, ele mudou da água para o vinho, ou do vinho para a água? Não que a bebida dos deuses seja ruim (um bom papo, com uma boa música, num ambiente agradável), cai bem um vinho, mas a outra tem mais valor para a vida. Sem vinho se vive, enquanto que sem água, não.
Acho até que ficou confusa minha interpretação na maneira de diferenciar uma coisa da outra, entretanto, quando alguém pronuncia esse ditado milenar, deixa no ar o duplo sentido entre o bem e o mal, o bom e o mau.
Talvez esteja procurando cabelo em ovo, ou numa careca totalmente lisa. Deixando este termo mudar da água para o vinho de lado, aprecio os provérbios, melhor ainda os orientais, como o chinês “Enquanto se briga por um quarto de porco, perde-se um rebanho de carneiro”.
Também sou fã dos pensamentos dos grandes autores e filósofos como este de Umberto Eco, muito atual nos tempos de hoje quando disse que “justificar tragédias como “vontade divina” tira da gente a responsabilidade por nossas escolhas”.
Para quem é amante da poesia, Manoel de Barros escreveu que “quando as aves falam com as pedras e as rãs com as águas, é de poesia que estão falando”. Carlos Drummond de Andrade nos deixou essa pérola de que “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça, a quase totalidade, não sente esta sede”.