– É, meu parceiro, nessa você estava inspirado! É muito comum se ouvir isso de outra pessoa, seja artista da música, compositor, escritor, ou não, sobre um texto iluminado, um poema bem feito e uma letra onde as palavras são tocantes e traduzem muito bem o tema proposto pelo autor.
Para o artista em geral, quando se está sem inspiração, a alma padece, dando lugar ao tormento e ao conflito. A lógica e a sequência da narração, da dissertação, do artigo, do comentário, da crônica, da poesia ou outro gênero qualquer, escasseiam.
Hoje mesmo escolhi tratar deste assunto tão complicado porque a senhora inspiração me abandonou pelas veredas tortuosas. Me sinto perdido numa caatinga espinhenta. Resolvi cutucá-la de vara curta, como se fosse um animal feroz, no caso específico, a onça no ditado popular. Não deveria tirar o sarro da cara dela!
– Tem dias e meses que não consigo escrever nada, nem fazer uma simples poesia. Deixa baixar a inspiração que faço a melodia da sua letra. Uma hora dessa ela vem. Quem já não escutou essas expressões de um músico, compositor ou poeta?
Tem dia, horas ou momentos em que a inspiração brota e borbulha como uma nascente de água cristalina que forma um rio caudaloso a correr até o mar. Em outras ocasiões é só sequidão, e não adianta tentar ou forçar a mente porque as ideias não fluem. Elas se perdem na poeira do deserto. Tudo fica embaralhado quando foge a inspiração.
Quando a danada não está ao seu lado, até o formão, a faca ou o instrumento do artesão escultor não dão o corte certo na peça. O pintor não acerta bem no brilho das tintas e o pincel não desliza suave na tela. O escritor perde o fio da meada; o enredo sai pior que o soneto; e o personagem termina ficando perdido no meio do caminho.
No entanto, quando se está com inspiração, dizem que alguma entidade ancestral do além baixou ou encarnou no autor da obra. Outros chegam a falar que o artista tem que ouvir Deus e o diabo para não perder a inspiração, a deusa do Olimpo. Só podia ser feminina. Quando ela não bate em sua porta, nem tente apelar para a musa amante.
Existe aquela história popular de que os velhos bluseiros para solar com perfeição a viola ou a guitarra tinham que fazer um pacto com o diabo na encruzilhada de uma meia noite escura. O imaginário se tornava real e verdadeiro quando o cara confirmava o acordo com o bicho satanás.
No campo da ciência, a explicação recai no cansaço psicológico, numa fase difícil em que a pessoa está vivendo, algum problema familiar ou até financeiro. São poucos os jogadores de futebol ou outro esporte que atuam bem em todas as partidas.
Isso ocorre em outras áreas também, como no jornalismo. Para os fumantes, quando uma matéria emperrava no papel (hoje é na tela do computador), a saída era acender um cigarro para relaxar o cérebro e fazer fluir as ideias. Ouvia muito isso na redação e até parecia funcionar. Chegava a pitar quase uma carteira naquele fumacê intoxicante.
Dizem que a maconha, ou outra droga, faz abrir novos horizontes. Tem quem afirme que o vinho é uma bebida inspiradora, que aproxima até o amor. Se é tudo psicológico, ou não, é outra questão, ponto de vista de cada um.
Melhor mesmo é parar com esse papo por aqui porque a tal da inspiração não gostou nada de eu inventar de escrever sobre ela. Como resposta à minha ousadia, ela fugiu para bem longe, sem me dar adeus, e nem me disse quando retorna para meu aconchego. Acho que foi um duelo ao pôr-do-sol, como no velho faroeste, onde ela foi mais rápida no gatilho.