:: 6/ago/2026 . 23:41
ISSO É COISA DE VELHO
- (Chico Ribeiro Neto)Velho aprende a perdoar.
Esconde feridas
E descobre armadilhas.Aprende a falar manso
Sabe o valor do descanso
E a vida é um remanso.Velho aprende o detalhe:
A mosca no pão
A formiga no arroz
E o que vem depois.Velho sabe em silêncio
Murmura poesia.
Pra que tanta agonia?
O velho não olha, espia.(O escritor Albert Camus disse que “o pior de ser velho é não ser ouvido”).
Velho é chato
Com pequenas coisas que somem:
O parafuso do sofá
O botão do liquidificador
A tesourinha e o coador.
Sumiu um pé de meia:
Velho não xinga, aperreia.Não mexa no guarda-roupa do velho. Tá desarrumado, mas ele sabe onde está cada peça.
Quando viaja, o velho reclama
Sente saudade da sua cama.
Velho dorme depois do Jornal Nacional.Velho é o mundo. Eu tô aqui é passando tempo.
Velho é ranzinza.
Às vezes, terno.
Velho devia ser eterno.
O ARQUIVO PÚBLICO E SUAS MUDANÇAS
Alguém aí sabe onde funciona o Arquivo Público de Vitória da Conquista, que guarda milhões de documentos históricos do município? Acho que poucos conseguem responder a esta pergunta. Desde quando foi criado, em 1978, ele já passou por seis locais diferentes, como Museu Padre Palmeira, Rua Coronel Gugé, Góes Calmon, Avenida Bartolomeu de Gusmão, Rua do Triunfo e agora no final da Avenida Juracy Magalhães. Fiz muita coleta de dados para meu livro “Uma Conquista Cassada”, quando se localizava na Rua do Triunfo, num prédio inapropriado por ser insalubre e úmido. Um Arquivo Público é como se fosse uma alma viva da história de um município e não pode ficar de lá para cá mudando de lugar em lugar sob risco de perda de documentos, sem contar os estragos nas mudanças de ambiente. Tenho um acervo cultural com mais de sete mil itens e sei muito bem o quanto são prejudiciais as mudanças, principalmente com relação a livros, pastas, jornais e documentos preciosos em papel. Ele hoje está num galpão fechado, com pouca luminosidade, sem levar em consideração o problema de acesso para muitas pessoas por ser distante do centro da cidade e de bairros mais periféricos. Não que seja um local escondido, como a Biblioteca Municipal, no Conquistinha, este equipamento também tem que ter um local definitivo que não esteja mais sujeito a mudanças. Com o advento da internet, poucas pessoas procuram um arquivo público para realizar alguma pesquisa, principalmente em se tratando de jovens estudantes que desconhecem a importância e o valor histórico de uma unidade dessa natureza. Por falar em tecnologia, a Prefeitura Municipal já poderia ter apresentado um projeto de digitalização do seu arquivo, uma demanda de muitos conquistenses com os quais já conversei sobre o assunto. Nota-se pelas imagens das nossas lentes que não existe uma placa de identificação, mas o diretor Jailson Ribeiro garantiu que em breve será colocada. Apesar de tudo, os funcionários são bem prestativos e lhe atende muito bem.
TEM DIA…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sempre tem um dia diferente
Mesmo na alma da gente.
Cada dia
Tem o seu pôr-do-sol,
Seu alvorecer,
São vários num só,
Tudo muda,
Tudo se transforma,
Assim é o nosso ser.
Tem o dia da alegria,
Do banzo triste,
Dizendo que você não existe,
Que faz brotar a poesia.
Tem o dia da caça,
Outro do caçador,
Até do escravo
Que se torna senhor.
Tem o dia que se quer esquecer,
Aquele que gruda na memória,
Como fotos antigas de família,
Coisas que marcam nossa história.
Tem o dia…
Do humano e desumano,
O sagrado e o profano.
A FRAUDE DAS ELEIÇÕES NÃO ESTÁ NAS URNAS E SIM NOS CANDIDATOS
Nos últimos anos a oposição e alguns contestadores de plantão têm apontado que as urnas eletrônicas brasileiras são passíveis de fraudes. No entanto, entendo que a fraude está nos próprios candidatos, muitos dos quais falsários, investigados por corrupção, embusteiros e não pagadores de promessas que enganam os incautos eleitores.
A fraude está mais no próprio sistema eleitoral que por natureza favorece os mais fortes e astutos que usam as brechas para se eleger. A fraude está no conjunto das fake news, nos políticos mentirosos, nos engomadinhos engravatados maquiados de defensores do povo e agora nas montagens da IA – Inteligência Artificial.
A urna eletrônica no Brasil foi criada há 30 anos, automatizada por uma empresa brasileira, a Omnitech Serviços em Tecnologia e Marketing, introduzida nas eleições municipais de 1996. O primeiro presidente eleito eletronicamente foi Fernando Henrique Cardoso.
As gerações de meia idade lembram muito bem daquelas urnas analógicas ou de papel onde os votos eram introduzidos numa caixa de madeira e até de papelão frágil. Meu primeiro voto, se não me engano, foi em 1966 durante o início do regime militar, no município de Amargosa, quando fui escolhido para ser mesário na brenha de um povoado.
Após encerrada a votação (as eleições eram municipais e para deputados), os mesários retornaram à noite no breu de uma estrada de chão, acompanhados de um ou dois soldados, com um medo danado de sofrer um assalto de algum candidato insatisfeito interessado em reverter os resultados do pleito.
Bem antes disso, na Velha República, as fraudes eleitorais eram generalizadas pelos “coronéis” do sertão, fazendeiros poderosos e pelos chefes políticos valentões que não hesitavam em matar seus adversários para se manter no poder. Muitos votos eram anulados, urnas extraviadas e até queimadas.
Uma eleição ganha num município valia uma patente de “coronel”, que poderia deixar de ser se perdesse. O voto de cabresto (ainda existe até hoje num esquema mais sofisticado) era disputado na base da bala, da tocaia para eliminar o chamado “inimigo”.
O “coronel”, ou candidato, sabia o voto de cada agregado seu que trabalhava para ele. Cada urna era marcada e se sabia quem votou contra ou a favor. O “traidor” era surrado e até pagava com a pena de morte.
Com o passar do tempo, ainda em plena ditadura militar, o esquema modernizou-se um pouco, mas os métodos eram parecidos. Permanecia o medo de se votar contra o prometido e ser descoberto pelo candidato, os cabos eleitorais e os coordenadores da campanha.
Confesso que votava naquele que meu pai indicasse, com receio de que ele viesse a saber depois que votei em outro que não era seu coligado. Esse medo no subconsciente sempre perseguiu o eleitor até hoje como resquício da votação no papel.
As urnas antigas nos deixaram aquele saudosismo do eleitor revoltado contra o sistema e o regime de opressão, que escrevia nas cédulas sua opção por algum personagem folclórico da cidade, no jumento do seu Zé da Carroça ou expressava sua rebeldia com “abaixo a ditadura”, dentre outros recados ousados aos políticos.
Hoje não dá mais para se fazer isso com a urna eletrônica que o Tribunal Superior Eleitoral garante que é segura, mas a fraude está mesmo na maioria dos candidatos eleitos que usam o dinheiro e se aproveitam da concorrência desleal que o sistema oferece para quem tem mais recursos e a máquina do poder na mão.
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