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:: 27/ago/2026 . 23:17

DIPLOMA DE POETA! COMO CONSIGO?

   Nos últimos anos só tenho pensado e desejado em me internar num sítio, seja em qualquer lugar, numa mata ou agreste da caatinga nordestina e viver numa loca como mocó, sem ouvir baboseiras e ter que aturar desatinos dessa humanidade desumanizada e decadente.

  Sabe daquela expressão “quero que o mundo pegue fogo”, que se completa com a frase “para eu acender meu cigarro”, ou “sentar em cima das cinzas para comer marshmallow”?

Infelizmente, estou chegando a esta fase da indiferença em relação aos problemas alheios ou a esta situação de caos em que está metida esta fútil sociedade de merda. “Estou de saco cheio” diante de tantas futilidades e barbaridades que mais parecem “fake news”, ou piadas de mau-humor.

Nem sei mais em que acredito, se no certo ou no errado, no legal ou no ilegal, no normal ou no anormal, no moral ou imoral, muito menos nesses candidatos genéricos francos atiradores de pombos ou pardais.

   Como se não bastassem os cientistas desocupados que ficam inventando coisas sem lá essas utilidades práticas, fiquei sabendo e não acreditei que os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Flávio Dino querem criar jurisprudência de forma a exigir diploma de poeta para quem faz poesia. Queria saber como obter.

  O Moraes está preocupado com quem posta um soneto nas redes sociais, vindo a ser, segundo ele, um perigo para a mofada Academia Brasileira de Letras.

Neste caso, os pernas de paus do futebol brasileiro também constituem perigo para os raros craques, que nem existem mais. E o diploma para craque? Qualquer bosta hoje se diz jornalista porque foi o próprio STF que lá atrás baniu o diploma para exercer a profissão.

  Não entendi nada, ou sou burro mesmo quanto ao argumento deles de que “a gente quer é a criação de um ambiente poético mais seguro, com regras de conduta, de forma que uma pessoa possa ser criminalmente responsabilizada se rimar “tempão com coração”.

  Com todo respeito, será que esses ministros não fumaram um baseado ou deram uma cheirada num pó batizado e ficaram lelés da cuca? Onde fica o livre pensar de cada um fazer sua rima que quiser?

O poeta é livre para mudar até as regras do português para transmitir sua mensagem; dar asas à sua arte para que ela voe; tirar leite de pedra; e tornar visível o invisível aos olhos dos mortais. Ora, existe poeta, e o poeta, e isto não é diploma que vai definir a categoria, mas sim quem ler e ouve para criticar e julgar a obra.

  Vamos deixar de blábláblá com esse papo furado, senhores ministros, quando temos tantos problemas graves nesse Brasilzão para se resolver e vocês ficam aí tergiversando no mundo da lua. Deixem os poetas poetarem e os prosadores prosearem!

 Vamos criar também diploma para cordelista, repentista, trovador e humorista, na base de quem receber mais aplausos e tiver mais visualizações ou seguidores. No caso de humorista, por exemplo, se numa plateia ninguém rir da sua piada, está desclassificado e não receberá diploma. Nos tempos atuais, somente poucos serão agraciados.

  Palhaçada! Quero mesmo é voltar para o mato, que seja num local bem ermo e inóspito, de difícil acesso, tipo daqueles de Lampião e seu bando, como Raso da Catarina e Serra Vermelha onde volantes tremem de medo em colocar suas tropas para atacar o inimigo.

  Gosto mesmo é da minha simples cabana rústica e natural para ouvir o som da caatinga, a vaca mugir, o cavalo relinchar, o cachorro latir, o galo cantar na madrugada, a onça rugir, a coruja piar e o bicho sorrateiro balançar a folhagem no matagal à procura de víveres para sobreviver.

  Me encanta ver o pássaro voar em liberdade; o vento zunir nas serras e montanhas; cavalgar no campo e sentir o ar bater no rosto; prosear com o matuto e contar uns causos ancestrais; apreciar o luar pratear o terreiro e a campina; e sentir o orvalho da relva molhar meus pés nas veredas das manhãs serenas.

AS CASAS SOMOS NÓS

  • (Chico Ribeiro Neto)

    Gosto de casas antigas. Me comove ver a demolição de uma velha casa já com a imensa foto da torre que vai abrigar e espremer centenas de pessoas.

    Gosto daquelas casas no interior com dois assentos de cimento de cada lado da entrada, junto à parede, uma criança sentada em cada um.

    Gosto da casa 25 da Rua 2 de Julho, em Ipiaú (BA), onde vovô Chico sentava de noite na porta, fechava os olhos e dizia que ia tomar uma sopa em Paris e voltava logo.

    As casas somos nós.

    Gosto do quintal da casa 25, onde fazíamos o nosso mundo e onde a gente achava que cavando um buraco grandão ia chegar no Japão.

    Passava um tempão admirando a trilha das formigas e cavava o chão para ver o eterno movimento das minhocas.

    Gosto do fogão de lenha, onde Tia Nina torrava caroços de abóbora na chapa, bom pra matar lombriga.

    Hoje, o quilo do caroço de abóbora torrado chega a 90 reais ou mais em lojas de produtos naturais.

    A sala de visita da casa 25, sempre trancada e com um pano cobrindo as cadeiras. Só descobre quando chega visita.

    Lembro das manchas nas paredes dos quartos, onde a gente via animais pré-históricos.

    O grande corredor, ao longo dos três quartos, onde nós quatro (eu, Cleomar, Zé Carlos e Luiz) jogávamos bola. Um cabide na parede para pendurar chapéu, capa e guarda-chuva.

    As duas grandes janelas azuis. Foi de uma delas que Cleonice (mamãe) viu Waldemar (papai) pela primeira vez, passeando de cavalo num sábado à tarde, depois de vender na feira de Ipiaú os tomates produzidos pela família em Amargosa.

    A notícia ecoou logo de manhã cedo: tem um jacaré no quintal da casa de doutor Salvador da Matta, perto da casa 25. O fundo da casa dele também dava para o rio e o portão ficava a mais de um palmo do chão. O jacaré entrou por ali e foi dormir.

    Uma vez, na década de 1950, um senhor de Ipiaú, homem da roça, veio a Salvador pela primeira vez. Na volta, perguntaram a ele o que achou da capital. E ele, que nunca tinha visto um edifício, respondeu:

    “Achei uma cidade bonita e grande. O mar é aquela coisa linda. Mas o que me chamou mais atenção foi que tem umas casas muito altas, uma em cima da outra, com um bocado de janela, e só tem uma porta praquele povo todo passar. Tanta janela e uma porta só!”.

 

MONTANHA DE SUCATA

 Essa não é uma montanha da natureza onde você olha no horizonte e ver a beleza do pôr-do-sol se despedir do dia para dar lugar à noite. Trata-se de uma montanha de sucata cheia de fuligens poluidoras do meio ambiente, bem próxima ao muro da minha residência, no loteamento Sobradinho, que por pouco não invade meu quintal e de outros vizinhos. As nossas lentes flagraram esse horror que incomoda centenas de pessoas, inclusive de quem mora nas adjacências.  Comentei esta situação calamitosa muitas vezes aqui sobre a “Sucata Esperança” que está mais para matança lenta de seres hu8manos. Conversei com moradores que me relataram que essa empresa quando aqui se instalou já existiam habitações no local. Como ela não chegou primeiro, a Prefeitura Municipal não deveria ter concedido um alvará para seu funcionamento, sabendo que a unidade de sucateamento seria um atentado à saúde público, como está ocorrendo. O que os moradores pedem é tão somente uma providência do poder público para que ela seja relocalizada para outra área desabitada.  O problema é grave e merece a devida atenção. Além das fuligens, dos barulhos diários das máquinas, essa sucata se tornou uma fonte de insetos, ratos, mosquitos da dengue, escorpiões e outros bichos peçonhentos venenosos que adentram às casas e podem matar gente.

POEMA DE AMOR

De autoria do jornalista e escritor Jeremias  Macário, da sua obra de textos poéticos “Na Espera da Graça”

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor,

Mas minha veia é nordestina,

De sangue catingueiro da sina,

Que tenta aliviar os fios da dor.

 

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor;

Eu já te amo do jeito que sou:

Seco como pedregulho sertanejo;

Te vejo em meu interior,

Com o coração que ainda tem flor.

 

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor;

Eu sigo como viajante,

Errante nas asas do Condor;

Não sou do tipo romântico;

Sou mais fechado lacônico,

Mas ainda fonte de calor.

 

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor;

Perdão, não sei fazer poema de amor;

Só sei falar dessa injustiça social;

De tanta gente viver desigual,

Na cidade e no sertão sem cor.

 

Você sempre me pede,

Para fazer um poema de amor;

Peço que não me leve a mal;

Sou assim meio bruto e rude,

Talvez um sujeito anormal,

Nascido em outra estrela sideral,

Que se alimenta do seu vigor.

 

 





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