• (Chico Ribeiro Neto)

    Gosto de casas antigas. Me comove ver a demolição de uma velha casa já com a imensa foto da torre que vai abrigar e espremer centenas de pessoas.

    Gosto daquelas casas no interior com dois assentos de cimento de cada lado da entrada, junto à parede, uma criança sentada em cada um.

    Gosto da casa 25 da Rua 2 de Julho, em Ipiaú (BA), onde vovô Chico sentava de noite na porta, fechava os olhos e dizia que ia tomar uma sopa em Paris e voltava logo.

    As casas somos nós.

    Gosto do quintal da casa 25, onde fazíamos o nosso mundo e onde a gente achava que cavando um buraco grandão ia chegar no Japão.

    Passava um tempão admirando a trilha das formigas e cavava o chão para ver o eterno movimento das minhocas.

    Gosto do fogão de lenha, onde Tia Nina torrava caroços de abóbora na chapa, bom pra matar lombriga.

    Hoje, o quilo do caroço de abóbora torrado chega a 90 reais ou mais em lojas de produtos naturais.

    A sala de visita da casa 25, sempre trancada e com um pano cobrindo as cadeiras. Só descobre quando chega visita.

    Lembro das manchas nas paredes dos quartos, onde a gente via animais pré-históricos.

    O grande corredor, ao longo dos três quartos, onde nós quatro (eu, Cleomar, Zé Carlos e Luiz) jogávamos bola. Um cabide na parede para pendurar chapéu, capa e guarda-chuva.

    As duas grandes janelas azuis. Foi de uma delas que Cleonice (mamãe) viu Waldemar (papai) pela primeira vez, passeando de cavalo num sábado à tarde, depois de vender na feira de Ipiaú os tomates produzidos pela família em Amargosa.

    A notícia ecoou logo de manhã cedo: tem um jacaré no quintal da casa de doutor Salvador da Matta, perto da casa 25. O fundo da casa dele também dava para o rio e o portão ficava a mais de um palmo do chão. O jacaré entrou por ali e foi dormir.

    Uma vez, na década de 1950, um senhor de Ipiaú, homem da roça, veio a Salvador pela primeira vez. Na volta, perguntaram a ele o que achou da capital. E ele, que nunca tinha visto um edifício, respondeu:

    “Achei uma cidade bonita e grande. O mar é aquela coisa linda. Mas o que me chamou mais atenção foi que tem umas casas muito altas, uma em cima da outra, com um bocado de janela, e só tem uma porta praquele povo todo passar. Tanta janela e uma porta só!”.