Tivemos um tempo em que o artista músico-compositor, o teatrólogo, o roteirista de cinema, o escritor, o poeta, o cronista e as artes plásticas em geral se preocupavam mais com o político-social, com manifestações de protestos, mostrando a realidade do povo brasileiro de forma direta, realista, nua e crua.

Mesmo com a democratização do pós-ditadura, raramente vemos letras e textos de protestos, a não ser expressões de ódio e intolerância numa polarização canina entre a direita e a esquerda, cujos discursos não conscientizam o povo, hoje inculto, analfabeto, do tipo inocente úteis facilmente manipulado.

Quando não existe autocrítica, a divisão é certa e a separação é doída, inclusive entre familiares. Vivemos numa sociedade individualista, egoísta onde cada um só pensa em seus interesses particulares, a começar por aqueles que estão no topo da pirâmide.

Na verdade, não é propriamente a este ponto que eu quero chegar e atingir. As letras poéticas e os textos atuais, por exemplo, só apresentam o lado romântico da vida, as coisas boas e positivas, de que a vida é bela, um amor angelical e esquece do outro lado negativo, coisas ruins que acontecem a todos nós, como se elas não existissem.

A impressão que tenho é que a grande maioria procura, especialmente compositores e letristas, escrever aquilo que agrada o público, numa espécie de produto mercadológico comercial para ganhar dinheiro.

“Agora só faço arte com mensagens positivas e otimistas” – disse para mim um amigo, como se não existisse o outro lado do sofrimento e do aperreio da vida que lhe deixa para baixo, muitas vezes em depressão acachapante. Não é fugindo que se escapa do problema.

Entendo que a arte em geral deve também ter o seu lado de contrariar, de fazer o contraponto, de revolta e protestos contra as mazelas, mesmo se tratando dos sentimentos humanos de perdas e da transição de dores e alegrias entre a vida e a morte, este percurso passageiro, esta estrada pedregulhosa cheia de curvas e encruzilhadas.

A vida nunca foi “um mar de rosas”, mesmo porque debaixo delas estão os espinhos que nos arranham. Prefiro ser mais realista (às vezes até pessimista em certos temas), cruel, instigador, polêmico, contestador; falar do político-social; ser duro, objetivo, direto e seco no estilo Graciliano Ramos, que ser lírico e romântico sonhador.

Não consigo, por exemplo, fazer um poema de amor, daqueles melosos, apaixonantes e sentimentalistas repletos de floreios com finais felizes e eternos. Sou mais o lado bruto que desagrada muita gente, se bem que os brutos também amam do seu jeito, torto ou não.

Quando estou escrevendo qualquer gênero, seja um artigo, comentário, crônica ou um verso qualquer, imagino fazendo um pacto com deus e o diabo. Afasta-te de mim, oh satanás! Mesmo assim, ele deixa o seu rastro de cão em meus rabiscos!

Este último costuma buzinar e azucrinar em meu ouvido para não deixar o outro lado considerado ruim. Afinal de contas, o ser humano é profano e religioso. Tem também o seu lado santo, demoníaco e bárbaro.

Como jornalista, quando estava na ativa, ele estava sempre me atanazando ao meu lado para que na matéria tomasse partido nos fatos, mostrasse minha ideologia e terminasse sendo parcial. Talvez por isso não exista imparcialidade total. Esses bichos chifrudos adoram frequentar as redações e perseguem os artistas, sobretudo nos momentos de inspiração.

Aprecio os autores sofridos, do humano rastejante como barata, do lado perverso e cruel, do insignificante inseto, como Dostoievski, Kafka e tantos outros que estampam esse lado demoníaco.

Não me agrada esse final feliz das novelas onde os vilões e bandidos se tornam mocinhos, com casamentos, bênçãos e crianças nascendo como se fossem dádivas para viver nessa humanidade decadente, tão estúpida medieval, violenta e autodestrutiva.