Numa noite de muitas cantorias, sob a direção do compositor e músico Paulinho Monteiro, declamação de poemas, contação de causos e outras apresentações, tivemos mais uma edição do Sarau A Estrada, na noite do último sábado (dia 22/07/2026), realizado no Espaço Cultural do mesmo nome.

  Além dos informes gerais, sugestões de pautas, avaliação do “Sarau na Rua”, no dia 24 de julho, na Praça Nove de Novembro, o evento discutiu a questão do Cangaço na Bahia, tendo como expoente o bando de Lampião.

  A conversa informal, no estilo bate-papo, teve como expositor o jornalista e escritor Jeremias Macário que fez uma viagem no tempo durante os mais de 50 anos de cangaço no Nordeste, entre o final do século XIX até 1940.

  O isolamento da região durante muitos séculos pelos governantes, as secas inclementes, o poderio dos coronéis e dos grandes fazendeiros, o domínio dos chefes políticos e as injustiças sociais, principalmente, foram fatores essenciais para a criação da violência no sertão e o consequente surgimento do banditismo e do cangaço, um dos flagelos nordestinos.

  Em agosto de 1928, acossado pelas tropas pernambucanas que fechou o cerco contra os bandidos e depois da derrota de Lampião, em Mossoró (Rio Grande do Norte, Lampião resolveu atravessar o Rio São Francisco e se internar na Bahia através do município de Santo Antônio de Glória (região de Paulo Afonso).

   Como praticamente as volantes não agiam na Bahia contra o banditismo no interior, Lampião encontrou no estado um pouso de tranquilidade e, como estava enfraquecido, aproveitou o tempo para se fortalecer, acoitado na fazendo dos coronéis Petronilio Reis (Santo Antônio de Glória) e João Sá, em Jeremoabo.

   Por uns seis meses ou mais, Lampião se juntou a Corisco, Labareda, Zé Bahiano, Volta Seca e outros cabras para conhecer o terreno e como agir, enquanto fazia suas festas nas cidades, como Pombal (Bahia) e Capela (Sergipe), muito bem recebido por prefeitos e autoridades.

   Quando o coronel Petronilio denunciou na imprensa e ao governo sua presença na Bahia, escondido em suas propriedades, Lampião ficou irado e invadiu fazendeiros das redondezas, matando animais e praticando atrocidades contra os sertanejos. Petronilio caiu em desgraça.

    Em meados de 1929, sua maior crueldade na Bahia foi contra a cidade de Queimadas onde fuzilou e sangrou de forma brutal e sem motivos aparentes, sete soldados; amedrontou os moradores que entraram em pânico; e à noite deu uma festa de gala no clube social.

  A partir daí seu bando não parou de invadir vilarejos, povoados e cidades, usando da força bruta para matar e estuprar mulheres, inclusive jovens de menor, como ocorreu em Mirandela, Abóbora onde realizou o “baile dos nus”, Itiúba, próximo a Senhor do Bonfim e região. Como Jaguarari. Além da Bahia, ele transitou por cidades de Sergipe e Alagoas.

    Seu maior esconderijo era o Raso da Catarina, uma zona inóspita onde soldados temiam e não estavam preparados para entrar e perseguir os bandidos. Somente uma tropa de Liberato de Carvalho (Bahia) e Manuel Neto (Pernambuco) conseguiu atacar o bando, mas fracassou.

   As Revoluções de 1930, a Constitucionalista de 32 e a Intentona Comunista de 35 lhe deram mais sossego, pois Getúlio Vargas estava mais preocupado em censurar a imprensa, dissolver o Congresso, assembleias estaduais, perseguir os comunistas e nomear interventores, do que acabar com o cangaço.

   Como as forças baianas não eram suficientes para dar cabo aos cangaceiros, o governo, na pessoa de Juracy Magalhães e, através do plano maluco do capitão João Miguel, resolveu desarmar os sertanejos e ainda retirar os camponeses de suas terras e escorraçá-los para as cidades.

  Mais de dez mil pessoas sofreram esse tipo obrigatório de êxodo rural e tiveram fim triste nas pontas das ruas, sem nenhuma assistência social e monetária. Sem muita opção de sobrevivência, o nordestino só tinha duas opções, ser coiteiro de Lampião ou soldado, sem contar que ainda era duramente castigado pelas secas.

  Nessa temporada, Lampião subdividiu seu grupo em vários, para driblar a ação das tropas, e ficou na Bahia por cerca de quatro anos, partindo depois para Pernambuco e Paraíba.

  Sempre retornava ao nosso estado, com suas investidas cruéis em Sergipe e Alagoas, sendo abatido na gruta de Angico (Sergipe), em julho de 1938 pela força do tenente João Bezerra.

   Quis o destino que as cabeças decapitadas de Lampião e Maria Bonita fossem parar no Instituto Nina Rodrigues, na Faculdade de Medicina da Bahia, para estudos frenológicos e antropométricos do antropologista e criminalista Estácio de Lima. Por coincidência, essas cabeças que somente foram enterradas em 1969, eram vigiadas por ex-cangaceiros presos e depois libertados.

  O tema foi bastante dissecado e debatido, seguido também das cantorias com Alex Baducha, Dorinho Chaves e Manno di Souza, sem falar das participações de poetas e poetisas, bem como das   homenagens de parabéns aos aniversariantes do mês Vandilza Gonçalves, Odete e Manno.

 Tudo planejado pela Comissão Organizadora, foi mais uma noite cultural memorável entre artistas, intelectuais, professores e pessoas interessadas pela arte, não faltando as comidas, petiscos e bebidas colaborativas.

   Além dos saraus no Espaço Cultural A Estrada até o final do ano (outubro e dezembro), os organizadores estão programando uma atividade do sarau na rua e aguardando a solicitação de um Tribuna Livre na Câmara Municipal de Vereadores. O pedido foi protocolado e dirigido ao presidente da Casa, Ivan Cordeiro, para seu devido deferimento.