Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Um é o do litoral,

Mata firme, terra fértil,

Vento além-mar colonial,

Com cheiro do melaço da cana,

Misturado ao suor da escravidão,

Saído do ventre da mãe africana

Pra viver na senzala-porão.

 

São dois sertões,

Do soldado ou coiteiro,

Das mais divinas canções,

Do encantado canto violeiro,

 

O outro foi latifúndio profundo,

Caatinga espinhenta de aço,

Sem igual no mundo,

Carcaças das secas e do cangaço,

Do ciclo pastoril do couro,

Vaqueiro filho do deus sol,

Onde o coronel juntou tesouro,

Do nordestino se fez cavaco,

Por séculos isolado,

Sertão chamado de arcaico.

 

Este era nosso Nordeste,

Do açúcar do engenho,

Chefes políticos mandatários,

Do sangue vertido do lenho

Volantes-cangaceiros sanguinários,

Do branco-negro, mestiços,

Índios, caboclos e mulatos,

Com suas crendices e feitiços,

Messiânico, demônio-religioso

Com suas rezas de corpo fechado,

Chão de talento precioso.

 

Do Araripe, Lourenço,

Severino Pau de Colher,

De Canudos Conselheiro,

Povo que nunca perdeu a fé.