Numa conversa informal com o jornalista Fábio Sena, membro do Núcleo de Preservação do Patrimônio Artístico e Cultural de Vitória da Conquista e mentor do parecer técnico que fundamentou o projeto de tombamento do Cristo da Serra do Periperi, dizia para ele, ao pé do monumento, que não bastava apenas tombar, mas cuidar e preservar.
Ele concordou e ainda adiantou que nesta semana estaria elaborando um requerimento ao poder executivo no sentido de proceder uma vistoria sobre o atual estado de conservação do Cristo de Mário Cravo que, em ato solene com autoridades e diversos representantes da sociedade, foi tombado ontem (dia 17/08/2026) pela prefeita Ana Sheila Lemos, justamente no “Dia Nacional do Patrimônio”.
Fábio Sena declarou que a solenidade ganha um significado ainda mais profundo em sua trajetória, pois o monumento é também objeto central da sua pesquisa no Doutorado em Linguística /Análise do Discurso pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb.
Sua proposta é analisar o Cristo como um acontecimento discursivo, “pois a obra rompe radicalmente com a tradição da iconografia sacra clássica, habitual a um Cristo angelical e sereno, ao impor a crueza do expressionismo em uma figura macérrima de traços sertanejos e feições de dor”.
Quanto ao problema da preservação do Cristo, lembro que entre os anos 2021e 2023, houve denúncias, inclusive da própria família do escultor Mário Cravo (presente na solenidade de tombamento), de que o Cristo da Serra, tombada em 1996, estava sofrendo corrosões internas e carecia de um trabalho artístico de restauração.
Na época, a prefeita negou as denúncias e garantiu que uma vistoria feita por especialistas não detectou avarias na estrutura interna do monumento. O ato de tombamento do Cristo, símbolo religioso de fé e pertencimento dos conquistenses, é muito importante, mas pode perder essa importância se não houver uma contínua preservação.
A cerimônia selou o Tombamento do Monumento ao Cristo Crucificado como Patrimônio Histórico, Artístico, Cultural e Paisagístico de Vitória da Conquista, só que o local onde Ele está instalado não é visitado como deveria, principalmente por falta de segurança. Como em anos passados, muita gente ainda evita subir ao Cristo em determinados dias da semana, com receio de assaltos.
Outro aspecto é a falta de urbanização em torno do monumento, de forma que ofereça estrutura de o visitante permanecer naquele local por mais tempo. Não basta apenas o mirante que foi implantado, quando os boxes ali existentes continuam fechados.
Muitos candidatos a prefeito e outros políticos já aventaram a possiblidade de criar um projeto, em parceria com o setor privado, de infraestrutura com a construção de lanchonetes e restaurante para atender os visitantes, inclusive a instalação de um teleférico ligando o Cristo ao centro da cidade.
Planejado pelo ex-prefeito e engenheiro José Pedral no início dos anos 60, o monumento, de 33 metros de altura, foi erguido em 9 de novembro de 1980 no governo de Raul Ferraz. É o maior Cristo crucificado da América Latina.
O Cristo Sertanejo está localizado numa posição estratégica da Serra do Periperi e pode ser visto de diferentes pontos de Conquista e também por quem chega à cidade pela BR-116. A escultura se consolidou como um dos principais símbolos de identidade conquistense e de relação do município com o sertão.