Sempre tenho dito e repito que o Nordeste precisa ser mais estudado e lido, principalmente pelos nordestinos. Na história do Brasil, não existiu povo que mais sofreu e foi mais relegado ao isolamento e à própria sorte, desde os tempos coloniais.
Muitos autores escritores, estudiosos do assunto, economistas renomados e acadêmicos em geral se aprofundaram nesta questão. A literatura é vasta e nela está contida cenas de horrores, massacres, barbaridades, matanças indiscriminadas, injustiças sociais, sem contar as secas e o cangaço que deixaram um rastro de destruição.
A seca de 1877/79 foi a mais cruel e exterminou milhares de nordestinos, que maltrapilhos, quase nus, tombaram nas estradas e morreram de fome e sede. Outras vieram, como a de 1932, que também deixou um rastro de destruição, ao lado do banditismo do cangaço que não dava trégua aos sertanejos.
Em seu livro “Maria Bonita-sexo, violência e mulheres no cangaço”, a autora Adriana Negreiros mostra esta face cadavérica da seca que até os cangaceiros precisavam lidar com este fenômeno, embora contassem com a conjuntura política a seu favor.
As mulheres (estupros), os idosos e as crianças foram os que mais sofreram com as violências das secas e do cangaço. Sobre a de 32, Adriana cita que os bois estavam morrendo tão esquálidos que os urubus só se serviam de seus intestinos.
Nas estações ferroviárias, retirantes saqueavam trens que transportavam fardos de charques, na tentativa desesperada de conseguir algum alimento. Tropas tinham que intervir, cometendo todo tipo de espancamentos e torturas.
“Pelas estradas, famílias que abandonavam suas pequenas propriedades de solo rachado, largavam corpos de parentes próximos, sucumbidos à fome e à sede durante as travessias. Pequenas cidades eram tomadas pelos sertanejos com crianças de pernas tão finas e barrigas tão inchadas que mal conseguiam caminhar”.
Os bandoleiros passavam dias sem beber água. Lampião, apesar da sua resistência física fora do comum, por vezes se deitava no Raso da Catarina, clamando aos céus por uma gota d´água. Quando existia alguma fonte disponível, ela estava contaminada por besouros, larvas de insetos e fezes de cabras.
Na Bahia, a seca de 32 se tornou ainda mais mortífera por causa de um plano mirabolante e maluco de combate ao bando de Lampião, criado pelo capitão João Miguel. Sua ideia desastrada foi a de evacuar a caatinga, visando afastar cangaceiros de seus coitos.
O interventor Juracy Magalhães, nomeado por Getúlio Vargas, decidiu aderir à iniciativa do militar. O resultado foi que as cidades baianas, além der castigadas pela seca, passaram a receber levas e mais levas de sertanejos famintos.
Contam que cerca de 12 mil sertanejos da zona rural foram obrigados a deixar suas casas e a viver como mendigos nas pontas das ruas, formando batalhões de famintos. Centenas começaram a morar debaixo de árvores e nos adros das igrejas, vivendo de pequenas esmolas.
Os cangaceiros foram os que menos sentiram o rigor da seca. Eles resolveram passar boas temporadas em Sergipe onde desfrutavam de uma grande rede de coiteiros que incluía duas grandes famílias ricas, os Brito e os Carvalho.
Enquanto sertanejos morriam de fome, mulheres eram violentadas e crianças vendidas como mercadorias, os bandos de Lampião recebiam boa comidas, inclusive queijo do reino e bebidas importadas.
Eles não paravam de cometer suas atrocidades, principalmente contra aqueles que os denunciavam à polícia, como ocorreu em Uauá e Jeremoabo, onde o senhor Manuel Salinas e seus três filhos foram barbaramente mortos. Salinas teve o sacrifício maior. Lampião cortou suas orelhas e furou seus olhos; arrancou seus testículos; e extirpou seus lábios. Não contente, ordenou aos seus cabras que quebrassem sua dentadura a coronhadas.
O velho foi colocado no lombo de um cavalo e levado até uma propriedade vizinha onde morava Ulisses, seu filho mais velho, executado com dois tiros diante da esposa e das crianças.
Conforme se espalhou pelo sertão, além de morto a golpes de punhal, o cangaceiro Quixabeira teria aberto o peito de Salinas, arrancado seu coração e arremessado o órgão no meio do mato.
Existem relatos de sertanejos enterrados vivos e criancinhas lançadas ao fogo para punir pais delatores. As volantes também deixavam suas manchas de sangue e brutalidades por onde passavam. O sertanejo ficava entre a cruz e a espada.