:: ‘Na Rota da Poesia’
REVOLTO INFINITO SERENO
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA
Um ser cativo tão pequeno,
A mirar o infinito revolto sereno,
De quentes correntes e ventos:
É o mar dos descobrimentos,
Mitológico labirinto,
Esse revolto infinito sereno.
Rios correm invisíveis ativos,
Nesse infinito sacrário;
Nos sentidos anti e horário,
Para outra banda continental,
De jangada, caravela e nau:
Navegaram polinésios nativos,
Bartolomeu, Vasco, Colombo e Cabral.
Nesse revolto infinito sereno,
Do Cabo fervente diabo Bojador,
Da Boa Esperança até a Índia:
Mar mistério, negreiro cemitério,
Infinito sereno de prazer e dor.
Revolto infinito sereno,
Do Pau Brasil que já sumiu;
Rota dos escravos Benin-Ajudá,
Me cure, Senhor, dessa saudade veneno!
Da minha aldeia do lado de lá!
SENHORA PARTEIRA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, poema extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA
Pelas mãos com cheiro de chão,
Da dona senhora, nossa parteira!
Naquele rancho no pé da serra;
No aboio lamentoso do sertão;
Do ventre nasci de mãe roceira,
De um pai a lavrar a árida terra;
Filho dessa entranha nordestina;
Destino certo para a morte,
Que tem a vida, e sempre vem.
Minha mãe, Sinhá parteira!
Senhora mãe, nossa santeira!
Que já pegou mais de mil,
Sem usura desse metal vil.
Vixe mãe santa, Nossa Senhora!
Geme a mulher na cama de dor:
Vai homem chamar dona parteira,
Pra meu filho não morrer de sete dias,
Nem da fome que leva Zés e Marias.
Vai homem, buscar nossa parteira!
Que já viu cabra crescer trabalhador;
Artista repentista que tocou em feira;
Moço que estudou e virou doutor!
Salve nossa parteira desse solo cio!
Senhora das trilhas, rezadeira ligeira;
De dia nas poeiras, e na noite fagueira;
Boa de prosa, que ora rir, ora chora;
Chega na hora certa da mulher parir:
Abençoa a luz de um ser existir;
Reza aquela reza penosa,
Da Rosa na rasa cova que partiu.
LEMBRANÇAS DA “MARIA”
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, do seu livro ANDANÇAS
Foi-se o tempo de menino,
Espiando o telegrafista,
Com batidas de artista,
Ordenar tocar o sino,
Como se fosse um hino,
Pra lembrar aos viajantes,
Que em poucos instantes,
Vai ter máquina na pista,
De nome “Maria Fumaça”,
Chamando muita gente,
Vinda até da praça.
Lá vem o trem a se arrastar
Das terras diamantinas,
Como cobra a deslizar,
Por entre serras e colinas.
Lá vem a “Maria” roncando,
Com suas patas de ferro,
Soltando seu berro,
Transportando usinas de sonhos,
Com sua força potente,
Distribuindo os ganhos.
Chamam também de “Trem Groteiro”,
Cortando as esquinas do sertão,
Em seu traço rotineiro,
Como se fosse om tropeiro,
Com sua fumaça na estação.
Lá vem a “Maria” das matinas,
De janelas sem cortinas,
Com seu balanço manso,
Apitando pra avisar,
Que logo vai parar
No povoado de Paiaiá.
Lá vem “Maria” penitente,
Puxando sua corrente,
Como rezadeira;
Leva bruacas, mercadorias,
Para vender na feira.
Lá vem o trem lembrança
Dos dias que era criança,
Matando minha saudade,
De no embalo pongar,
E mais adiante pular,
Vendo minha “Maria” sumir
Na curva de Piraí.
Em sua última viagem,
“Maria” partiu para o além;
Levou minha bagagem,
O amor do meu bem,
Deixando aquela fumaça,
Que ainda me enlaça.
Lembrança da Piritiba,
Do sábado do feirante,
Da poesia cortante
Do poeta Aragão,
Que misturava pavio,
Mandioca com feijão,
Xingava de delinquente
O governo indecente,
Que deixou esse vazio,
Em nossa mente.
CARA DE IDIOTA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
O país exporta
Grãos do agronegócio,
A fome bate na porta,
E eu nem sou sócio.
A violência risca
O sangue na pista,
E me chamam de comunista.
O patrão explora,
O trabalhador implora,
A viola nos consola,
A bandeira é verde-amarela,
E todo mundo passa o tempo
Grudado na tela
Das redes sociais,
Enquanto os ricos
Aumentam seus capitais,
E eu aqui com cara de idiota,
Dando uma de patriota.
Uns numa mansão de jardim,
Outros comendo capim.
Nos semáforos
Os espaços são de aços
De pedintes famintos,
Nas favelas voam balas,
Nos labirintos.
O pobre em seu canto
Ora para seu santo protetor,
E no posto de saúde
Falta o safado doutor;
Na escola jogam pedra
No idealista professor.
A gente é manada do senhor,
E a igualdade tão sonhada,
A elite nos roubou.
O nordestino padece
Na igreja com sua prece,
E eu aqui com cara de idiota
Dando uma de patriota.
NÃO SABE DE NADA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Você pensa que sabe de tudo,
Mas não sabe é de nada,
Com sua filosofia,
Nem conhece sua Sofia.
Nesse universo sem fim,
É como grão de areia,
Que aceita o sim,
Encantado pela sereia.
Jura amor verdadeiro,
Joga a primeira pedra,
Como se não tivesse pecado,
Nunca revela seu segredo,
E vive preso ao medo.
Como simples passageiro,
Numa estrada de tanta poeira,
É um fantasma cavaleiro,
Que nem entende de gente,
Complexa e diferente.
Acha ser um intelectual,
Que divide a vida,
Entre o bem e o mal,
E nem sabe
Preservar seu quintal.
ELA NUNCA TE ESQUECE
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Quando você nasce,
Ela se torna tua companheira,
Você pode até esquecer dela,
Mas ela nunca te esquece,
É tirana traiçoeira,
Te pega até no parto,
Ou num fulminante infarto.
Ao levantar, não esquece,
Faz tua prece,
Chama pelo teu guia,
No alvorecer da manhã,
Mantenha tua mente sã,
Antes de seguir tua via,
Não procure desvendar
O sentido da vida,
Porque ela é um mistério,
Como tumba de cemitério,
Uns com curta caminhada,
Outros com longa jornada.
Quando ela bater em tua porta,
Abra só a fresta da janela,
E convença ela,
Que pela frente,
Ainda existe mais cancela.
Lembra que ela nunca te esquece.
É dona do tempo e do vento,
Conhece teu pensamento,
É como senhora agreste,
Com seus nervos de aço,
Sempre com a mesma veste,
Impiedosa, como o carrasco.
A TARDE FRIA
Poema de Fernanda Quadros, extraído do livro “Vozes que Ecoam na Joia do Sertão Baiano”, coletânea organizada pelas poetisas Chirles Oliveira e Ybeane Moreira.
Tardes arrastadas de ausência
Horas que teimam em não passar
Apertando a saudade
No peito frio.
Respiro
Olho a janela
O movimento do tempo.
Correndo a desbotar as cores
A espera da noite
Escura,
Trazendo você.
CICATRIZES!
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Cada um tem suas cicatrizes,
Com o tempo que passa
Sorrateiro e matreiro,
Deixando suas marcas,
Umas estreitas e outras largas,
Até de passados ancestrais,
Visíveis de riscos faciais,
Por dentro espirituais,
Assim carregamos
Todos nossos sinais,
Feias e belas,
Vermelhas e amarelas.
Cicatrizes!
São como raízes
Germinadas da terra,
Que em vida crescem,
Com vários sabores:
Dão espinhos e flores
E mesmo depois da morte
As ruins apodrecem
E as boas permanecem.
Cicatrizes!
São como nossas varizes,
Muitas do corpo se tiram,
Mas, as da alma ficam;
Têm as guardadas do amor,
Aquelas adormecidas da dor:
Sombras dos medos,
E as dos eternos segredos.
Cicatrizes!
São como digitais,
Onde não existem iguais.
SARAU ENCANTADO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Vou cortando estrada,
Nesse Sarau Encantado,
Pelo vento do saber,
Onde nasceu o Vinho Vinil
Nesta terra do frio.
Nesse Sarau Encantado,
De Vitória da Conquista,
Tem noites etílicas de debate,
Onde só se respira arte,
Causos e histórias,
Violeiros e cantorias,
E declamação de poesias.
São quinze anos de estrada,
Nesse Sarau Encantado,
De conquistas e vitórias,
Na troca de conhecimento,
Que até se esquece o tempo,
Quando se vara a madrugada,
De estradeiros na mesma toada.
Aqui vai minha louvação,
Para essa longa jornada,
Canto, canto minha canção,
Na paz, amor e harmonia
Na labuta pela cultura,
E pela nossa democracia.
Em nosso Sarau encantado,
Vou seguindo minha estrada,
De mãos e braços dados,
Com meus versos improvisados.
UM PÔR DO SOL DE FEVEREIRO DA TERRA FRIA
Autoria de Fernanda Quadros
Poema extraído da coletânea “Vozes que Ecoam na Joia do Sertão Baiano” – editora Versejar, organizada pelas poetisas Chirles Oliveira e Ybeane Moreira.
As tardes da terra fria
Se vão vestidas
De vermelho quente.
As noites chegam no quadrado
Redonda e branda
Pintam tudo de laranja cinza.
A escuridão derramada,
Afaga a saudade
Na imensidão estrelada.
Lá, a Terra Quente,
Distante
Aqui, a Terra Fria,
Desconcertante.










