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:: ‘Na Rota da Poesia’

DO ALGODÃO E DA CANA

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA

Na mistura da pluma do algodão,

Com o melaço engenho da cana,

Nasceram o blues e o samba,

E os dois acorrentados vieram,

No aço do negreiro navio porão,

Arrancados da mãe nação africana.

 

Das lavouras do algodão veio o blues,

No lamento Mississipi e do Alabama;

O samba jorrou do bagaço da cana,

Ao som dos tambores do terreiro baiano,

Com a dança dos bantos aos seus santos,

No pilão do café com cuscuz nigeriano.

 

Das marcas dos chicotes lacerantes,

Do branco ianque norte-americano,

Do suor escorreu a saudade do Congo,

Onde o filho em seu peito amamentou,

Cresceu livre igual a ave e o calango,

Em sua tribo com sua gente de cantantes.

 

No castigo do tronco gemido de dor,

E no estupro das escravas africanas,

Chorando em seu leito o sujo sêmen,

Do escravista senhor que na noite vem,

Germinaram o blues, o samba e o sonho,

De uma igualdade que ainda não chegou.

 

No pisado do blues, e no passo do samba,

Ainda estão abertas feridas das chibatas,

Cicatrizes do eito do algodão e da cana,

Dos negros fugidos, caçados nas matas,

Para escapar dos horrores da escravidão,

Que manchou de sangue nosso chão.

 

 

 

 

PERDIDO NA NOITE

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Fiquei numa noite solitário,

Depois que todos se foram;

Me senti um ser perdido,

De gosto amargo ardido,

Sem querer ver o dia clarear,

Só vontade de chorar.

 

Nem mais sabia quem sou;

Adormeci naquela mesa de bar,

E o garçom depois me acordou,

Com a conta para pagar.

 

Sai tropeçando por aí,

Em minha frente só o mar;

Meus pensamentos,

O vento levou pelo ar,

Foi então que vi

Aquela morena a me acenar.

Nem achei que fosse para mim

Naquela angústia sem fim.

 

Um carro veloz, como algoz,

Como um perdido na noite,

Me pegou na contramão,

E me levaram para o hospital,

Sem mais mente e coração.

 

Entrei em coma por dez anos,

Intubado cheio de canos,

E quando acordei

Sem início, fim e meio,

No Brasil estava tudo igual,

A corrupção era geral.

 

Não senti mais bater o amor;

Havia passado toda dor,

Andei a vagar, perdido na noite,

De dia, o sol batia nas vitrines,

Preferia viver nas esquinas, sem cor

Do que lembrar,

Daquela noite de terror.

 

 

REVOLTO INFINITO SERENO

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA

Um ser cativo tão pequeno,

A mirar o infinito revolto sereno,

De quentes correntes e ventos:

É o mar dos descobrimentos,

Mitológico labirinto,

Esse revolto infinito sereno.

 

Rios correm invisíveis ativos,

Nesse infinito sacrário;

Nos sentidos anti e horário,

Para outra banda continental,

De jangada, caravela e nau:

Navegaram polinésios nativos,

Bartolomeu, Vasco, Colombo e Cabral.

 

Nesse revolto infinito sereno,

Do Cabo fervente diabo Bojador,

Da Boa Esperança até a Índia:

Mar mistério, negreiro cemitério,

Infinito sereno de prazer e dor.

 

Revolto infinito sereno,

Do Pau Brasil que já sumiu;

Rota dos escravos Benin-Ajudá,

Me cure, Senhor, dessa saudade veneno!

Da minha aldeia do lado de lá!

SENHORA PARTEIRA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, poema extraído do seu livro NA ESPERA DA GRAÇA

Pelas mãos com cheiro de chão,

Da dona senhora, nossa parteira!

Naquele rancho no pé da serra;

No aboio lamentoso do sertão;

Do ventre nasci de mãe roceira,

De um pai a lavrar a árida terra;

Filho dessa entranha nordestina;

Destino certo para a morte,

Que tem a vida, e sempre vem.

 

Minha mãe, Sinhá parteira!

Senhora mãe, nossa santeira!

Que já pegou mais de mil,

Sem usura desse metal vil.

 

Vixe mãe santa, Nossa Senhora!

Geme a mulher na cama de dor:

Vai homem chamar dona parteira,

Pra meu filho não morrer de sete dias,

Nem da fome que leva Zés e Marias.

 

Vai homem, buscar nossa parteira!

Que já viu cabra crescer trabalhador;

Artista repentista que tocou em feira;

Moço que estudou e virou doutor!

 

Salve nossa parteira desse solo cio!

Senhora das trilhas, rezadeira ligeira;

De dia nas poeiras, e na noite fagueira;

Boa de prosa, que ora rir, ora chora;

Chega na hora certa da mulher parir:

Abençoa a luz de um ser existir;

Reza aquela reza penosa,

Da Rosa na rasa cova que partiu.

 

 

 

LEMBRANÇAS DA “MARIA”

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, do seu livro ANDANÇAS

Foi-se o tempo de menino,

Espiando o telegrafista,

Com batidas de artista,

Ordenar tocar o sino,

Como se fosse um hino,

Pra lembrar aos viajantes,

Que em poucos instantes,

Vai ter máquina na pista,

De nome “Maria Fumaça”,

Chamando muita gente,

Vinda até da praça.

 

Lá vem o trem a se arrastar

Das terras diamantinas,

Como cobra a deslizar,

Por entre serras e colinas.

 

Lá vem a “Maria” roncando,

Com suas patas de ferro,

Soltando seu berro,

Transportando usinas de sonhos,

Com sua força potente,

Distribuindo os ganhos.

 

Chamam também de “Trem Groteiro”,

Cortando as esquinas do sertão,

Em seu traço rotineiro,

Como se fosse om tropeiro,

Com sua fumaça na estação.

 

Lá vem a “Maria” das matinas,

De janelas sem cortinas,

Com seu balanço manso,

Apitando pra avisar,

Que logo vai parar

No povoado de Paiaiá.

 

Lá vem “Maria” penitente,

Puxando sua corrente,

Como rezadeira;

Leva bruacas, mercadorias,

Para vender na feira.

 

Lá vem o trem lembrança

Dos dias que era criança,

Matando minha saudade,

De no embalo pongar,

E mais adiante pular,

Vendo minha “Maria” sumir

Na curva de Piraí.

 

Em sua última viagem,

“Maria” partiu para o além;

Levou minha bagagem,

O amor do meu bem,

Deixando aquela fumaça,

Que ainda me enlaça.

 

Lembrança da Piritiba,

Do sábado do feirante,

Da poesia cortante

Do poeta Aragão,

Que misturava pavio,

Mandioca com feijão,

Xingava de delinquente

O governo indecente,

Que deixou esse vazio,

Em nossa mente.

CARA DE IDIOTA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

O país exporta

Grãos do agronegócio,

A fome bate na porta,

E eu nem sou sócio.

 

A violência risca

O sangue na pista,

E me chamam de comunista.

 

O patrão explora,

O trabalhador implora,

A viola nos consola,

A bandeira é verde-amarela,

E todo mundo passa o tempo

Grudado na tela

Das redes sociais,

Enquanto os ricos

Aumentam seus capitais,

E eu aqui com cara de idiota,

Dando uma de patriota.

 

Uns numa mansão de jardim,

Outros comendo capim.

 

Nos semáforos

Os espaços são de aços

De pedintes famintos,

Nas favelas voam balas,

Nos labirintos.

 

O pobre em seu canto

Ora para seu santo protetor,

E no posto de saúde

Falta o safado doutor;

Na escola jogam pedra

No idealista professor.

 

A gente é manada do senhor,

E a igualdade tão sonhada,

A elite nos roubou.

 

O nordestino padece

Na igreja com sua prece,

E eu aqui com cara de idiota

Dando uma de patriota.

 

 

NÃO SABE DE NADA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Você pensa que sabe de tudo,

Mas não sabe é de nada,

Com sua filosofia,

Nem conhece sua Sofia.

 

Nesse universo sem fim,

É como grão de areia,

Que aceita o sim,

Encantado pela sereia.

 

Jura amor verdadeiro,

Joga a primeira pedra,

Como se não tivesse pecado,

Nunca revela seu segredo,

E vive preso ao medo.

 

Como simples passageiro,

Numa estrada de tanta poeira,

É um fantasma cavaleiro,

Que nem entende de gente,

Complexa e diferente.

 

Acha ser um intelectual,

Que divide a vida,

Entre o bem e o mal,

E nem sabe

Preservar seu quintal.

ELA NUNCA TE ESQUECE

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Quando você nasce,

Ela se torna tua companheira,

Você pode até esquecer dela,

Mas ela nunca te esquece,

É tirana traiçoeira,

Te pega até no parto,

Ou num fulminante infarto.

 

Ao levantar, não esquece,

Faz tua prece,

Chama pelo teu guia,

No alvorecer da manhã,

Mantenha tua mente sã,

Antes de seguir tua via,

Não procure desvendar

O sentido da vida,

Porque ela é um mistério,

Como tumba de cemitério,

Uns com curta caminhada,

Outros com longa jornada.

 

Quando ela bater em tua porta,

Abra só a fresta da janela,

E convença ela,

Que pela frente,

Ainda existe mais cancela.

 

Lembra que ela nunca te esquece.

É dona do tempo e do vento,

Conhece teu pensamento,

É como senhora agreste,

Com seus nervos de aço,

Sempre com a mesma veste,

Impiedosa, como o carrasco.

A TARDE FRIA

Poema de Fernanda Quadros, extraído do livro “Vozes que Ecoam na Joia do Sertão Baiano”, coletânea organizada pelas poetisas Chirles Oliveira e Ybeane Moreira.

Tardes arrastadas de ausência

Horas que teimam em não passar

Apertando a saudade

No peito frio.

 

Respiro

Olho a janela

O movimento do tempo.

 

Correndo a desbotar as cores

A espera da noite

Escura,

Trazendo você.

 

CICATRIZES!

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Cada um tem suas cicatrizes,

Com o tempo que passa

Sorrateiro e matreiro,

Deixando suas marcas,

Umas estreitas e outras largas,

Até de passados ancestrais,

Visíveis de riscos faciais,

Por dentro espirituais,

Assim carregamos

Todos nossos sinais,

Feias e belas,

Vermelhas e amarelas.

 

Cicatrizes!

São como raízes

Germinadas da terra,

Que em vida crescem,

Com vários sabores:

Dão espinhos e flores

E mesmo depois da morte

As ruins apodrecem

E as boas permanecem.

 

Cicatrizes!

São como nossas varizes,

Muitas do corpo se tiram,

Mas, as da alma ficam;

Têm as guardadas do amor,

Aquelas adormecidas da dor:

Sombras dos medos,

E as dos eternos segredos.

 

Cicatrizes!

São como digitais,

Onde não existem iguais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 





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