:: ‘Na Rota da Poesia’
APOLOGIA AO SONETO
De autoria do poeta José Walter Pires, extraído do seu livro CREPUSCULARES
Apologia ao poeta Medeiros Braga
Como é belo, poeta, o seu soneto,
Transfigurado numa apologia,
Pois envolto na afável poesia
Fará jus às hosanas no coreto.
Quem sabe sinfonia em branco em preto
Nas notas recheadas de harmonia
Da batuta de plena maestria,
Como busco glosar neste dueto.
Desde Petrarca, o pai da criação
Transcende com a sua plenitude,
Trazendo na estrutura perfeição.
Por certo, resistiu, heroicamente,
Aos riscos enfrentados de amiúde,
Reinando virtuoso, plenamente.
MEU BEM-TE-VI AMIGO
Do poeta e cordelista José Walter Pires, do seu livro “Crepusculares” – Sonetos
Sinto que, aos poucos, flui uma amizade
Com o meu bem-te-vi, que, confiante,
Desce de uma mangueira, e, saltitante,
Pousa no meu quintal com liberdade.
Esvoaça com sua agilidade,
De um lado ao outro, olhando o circunstante,
No seu trilar festivo e cativante,
Sem demonstrar qualquer temeridade.
Que volte sempre e pouse sem receio,
Pois não irei fazer-lhe nenhum mal
Com essa relação que tanto anseio.
Assim, nessa constância, robustece,
O apego que, de forma natural,
Nasce desse avoar que me embevece.
TUAS PALAVRAS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Na poesia das tuas palavras,
O garimpeiro bamburra,
Atrás do ouro nas lavras,
Ainda leva surra,
Dos coronéis e do nobre,
E o pobre atrevido
Vive sem sentido.
Os sábios se eternizam,
Na esteira da sabedoria,
E tuas poéticas palavras
Viram escrita-partitura,
Canção e cantoria,
Que nunca morrem,
Nem no tronco da tortura.
Tuas palavras
São fluxo e refluxo,
Sons divinais;
Não têm travas;
Brotam dos deuses astrais.
Tuas palavras
São como vinhedos,
De finos vinhos,
Que embriagam a alma,
Alinhavadas como ninhos
Dos passarinhos,
Ventos do ar a respirar,
Cachoeiras e ondas do mar,
Que batem nos rochedos,
Moldam as pedras,
Em polidas estalactites,
Amansam as feras,
E duram séculos de eras.
NA UTI DA VIDA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
De cócoras,
Nas indígenas ocas,
Ou pelas mãos da parteira,
Numa cama de hospital,
Seja igual ou desigual,
Sua mãe berra,
Para abrir a porteira,
Se agarra nas raízes
Da sua mãe terra.
Você nasce e cresce,
Civilizado ou nativo,
Da barriga que lhe abriga,
Água e ar,
De nove meses,
Na UTI da vida,
Do Tratamento Intensivo,
E cada um sabe de si,
Vivendo sua UTI.
Na labuta da sobrevivência,
Na fé e na ciência,
Ora seu coração acelera,
Jorra sangue e se acalma,
Às vezes vira fera,
Na quimera da alma,
Transborda amor e dor,
Fel e mel,
Inferno e céu,
Na UTI da vida,
Do sentido do existir,
Mar revolto e calmaria,
Seja João, José ou Maria,
Nos arreios das andanças,
No veneno do cascavel,
No corcel da esperança,
Nas labaredas de fogo,
Como sensato e louco,
E tudo é assim:
Vim, vi e venci,
Na UTI da vida:
Porta de entrada e partida.
O NORDESTE E O SUL
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Duas regiões distintas,
Com seus riscados culturais,
Uma roga pela chuva,
A outra que venha sol,
Oh, quanta tormenta e ternura!
Choro e lamúria!
Nos traçados, temporais!
Dizei-me, oh Senhor Deus!
Sobre esta pintura,
Donde vem tanta fúria?
No Nordeste queima o paiol,
O dilúvio bate no Sul,
E o poeta carrasquento,
No lamento do gaúcho,
Fica solitário e nu.
A seca racha o solo,
Mata a plantação e o rebanho,
Empurra o pau-de-arara para o Sul,
A mãe consola a criança no colo,
E o retirante segue escravo do ganho.
Leva anos e mais anos,
O nordestino ancestral,
Hoje é moço-menino,
E agora vê a enchente do Sul,
Tempestade, lama e vendaval,
Os rios do Pampa viram mar,
Matando nossos hermanos de lá.
Dizei-me, Senhor Deus!
Do Olimpo, o Zeus!
Para aonde vai essa caravana?
Contra nossa natureza,
Castigada pela mente insana,
Oh quanta loucura e avareza!
Tragédia, morte e terror!
Do Norte ao Sul,
Oxalá, meu pai xangô!
Não sei o que será dessa terra,
De tanta riqueza e pobreza,
Não faço parte dessa guerra,
Desse capital predador,
Que só criou sofrimento e dor,
Como o capeta belzebu,
Rachando o Nordeste e o Sul.
EU SEI…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Eu sei…
Que não adianta
Procurar um sentido
Para a vida,
Se somos apenas aprendizes,
Grãos de areia,
Presos na teia,
Desse universo infinito,
Onde devemos cuidar
Bem das nossas raízes,
Para enfrentar tanta lida,
Nesse embate controverso;
Ser silêncio na hora certa,
Com a mente alerta.
Eu sei…
Que o tempo não espera;
Estamos em outra era
Da deusa tecnologia,
Que supera a filosofia,
O conhecer e o saber.
Eu sei que o mundo mudou:
Uns dizem para melhor,
Outros para pior,
Dominado pela alienação,
Na pista da contramão.
Eu sei…
Que o amor não é o mesmo,
Que não conta só sonhar,
Tem que realizar,
Nessa terra desembestada,
De ódio e guerra infestada,
Onde cada um tem sua vez,
Nessa loucura da insensatez.
MOMENTOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Às vezes, tem momentos,
Que fico no meu eu solitário,
No voo do triste pensar,
Como canário preso numa gaiola,
Rochedo nesse escuro mar,
Como canção sem viola.
São momentos
de mistura,
Entre banzo e feliz,
Passageiro de fim de estrada,
Nessa cilada,
Do tudo que já fiz,
De bom e ruim,
Na vida que é assim:
Da lei feita pros fortes,
Para os fracos, garrotes,
Com início, meio e fim.
Às vezes, tem momentos,
Do refletir,
Dos amigos que se foram,
E eu ainda aqui,
Em meu espaço,
Sem régua e compasso,
Nesse labirinto de canais.
Onde essa selvagem caravana,
Não me empolga mais.
Tem momentos,
Que nem quero mais ficar,
Para respirar,
Esse poluído ar.
Momentos são momentos,
Que não ligo mais pro tempo,
Nem a força do vento;
Sou amor e dor,
Nessa sociedade falsidade,
Que ainda discute
Os tons da cor.
RASGA A PEÇA DESTA CENA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
No arrasto desta nação,
Vou cantando minha canção,
Pra esquecer o opressor,
De ter visto tanta gente,
Na bigorna militar,
Carrasco da nossa mente,
Sem o direito de sonhar.
Calam a voz do poeta,
Sou flores para lhe dar,
Sem tempo para esperar,
Este pais não se conserta,
Minha flecha para no ar.
Rasga a peça desta cena,
Não existem festa e amor,
Existem choro e dor.
Rasga a peça desta cena,
De tantos sem lição a vagar,
O passado nos interessa,
Pra ninguém mais penar.
Ainda resiste a patrulha,
De uma longa ditadura,
Nosso povo é bala na agulha,
Nas prisões a torturar.
Risco meu facão no terreiro,
Sai faísca para todo lado,
Sou de oxum guerreiro,
Minha espada é liberdade,
Pelos campos e cidades,
Vamos juntos lutar.
Rasga a peça desta cena,
Manchada de sangue e terror,
Nunca mais este cenário,
Se repita este calvário,
Curai nossas feridas, oh Senhor,
E puna o torturador.
MESTRES DA FLORESTA
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Em nossa escolástica,
Lá no Gabão,
No ventre da mãe África,
Moram os espíritos ancestrais,
Dos curandeiros pigmeus,
Mestres da floresta,
Alma da flora e dos animais.
Eles são os mestres,
Dentro deles está a floresta,
Princípio da energia e magia,
Primitiva, alta e densa,
Com seus mitos e crença,
De diferentes sons e tons,
Sombras do dia,
Da noite, o breu,
Luz para o pigmeu.
Eles são os mestres,
Pigmeus da floresta,
Pais da raiz iboga,
No ritual da iniciação,
Da lenda odzaboga,
Na onírica viagem
Da filosófica alucinação.
Eles são os mestres,
Pigmeus da floresta,
Dos tambores musicais,
Artistas da pintura e da escultura,
Reis dos magos alados,
Das tribos fangs desprezados.
Eles são os mestres,
Pigmeus da floresta,
O pequeno povo coragem,
Que seus mortos, não enterra,
Para não poluir a terra,
Do banto fez a passagem,
Na fonte da cura espiritual,
Que arranca todo mal.
UMA CONQUISTA CASSADA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Naquela manhã seis de maio,
Escorre da serra a neblina,
O sereno fino cai nas avenidas,
E cada um segue sua rotina,
Numa agenda cheia de lidas.
Ninguém imaginava,
Um cerco de fuzil,
Para calar nossa liberdade,
Na cidade do frio.
Com cem armas nas mãos,
Duzentas botinas assassinas,
Na caça de subversivos,
Que a tropa tirana de opressivos,
Chama todos de comunistas,
Nomes que estão em suas listas.
Assim aprenderam a lição,
Marchando sem razão,
Nos quarteis e nas prisões,
Para cassar uma Conquista,
Do prefeito Pedral,
Que venceu uma eleição,
Numa legal Constituição.
Uma Conquista Cassada,
Naquele dia fatal,
De uma gente encurralada,
Como se fosse feroz animal,
Por uma maldita ditadura,
Que matou nosso irmão,
Com choque elétrico,
Pau-de-arara, ferro e tortura,
E proibiu nossa livre canção.










