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:: ‘Na Rota da Poesia’

NA DOR DA SOLIDÃO

Autoria de Jeremias Macário

Arranco na primeira;

Jogo na segunda;

Entro na terceira;

Acelero o pé

Entre a quarta e a quinta,

Na dor da solidão,

Borrado de tinta.

 

O ponteiro marca agora

Cento e cinquenta por hora,

Ouço uma balada canção,

Que me leva ao passado,

De parar o tempo,

Na dor da solidão.

 

Abro as janelas;

Desligo o ar,

Para sentir o vento assobiar,

E reduzo nas curvas,

Sem pisar no freio,

Para não capotar.

 

Avanço nas retas,

Dos cento e setenta,

Na linha do horizonte,

Que nunca some,

E desligo o presente

Que a mente consome.

 

Nada de avivar o futuro,

Trava de escuro muro,

Como aquelas nuvens

Da tempestade que vem,

Com chuva varrendo o além.

 

Volto à marcha lenta,

E no peito me atormenta,

Essa dor da solidão,

Da saudade do amor

Que um dia me deixou,

 

Falo só com o universo

No meu íntimo do verso,

Da vida finita,

De massa bruta,

De confusão e luta.

 

Ninguém me escuta,

Nem a dita filosofia,

Que não me cura

Dessa dor tão dura:

Coisa do sentimento,

Que não se fecha,

Nem com cimento.

 

É uma dor varada,

De lança sangrada,

Como fio da espada,

Essa dor da solidão,

Que não tem oração.

 

LUA ADVERSA

Cecília Meireles

Tenho fases, como a lua,

Fases de andar escondida,

Fases de vir para a rua…

Perdição da minha vida!

Perdição da vida minha!

Tenho fases de ser tua,

Tenho outras de ser sozinha

 

Fases que vão e vêm,

No secreto calendário

Que um astrólogo arbitrário

Inventou para meu uso

 

E roda a melancolia,

Seu interminável fuso!

Não me encontro com

Ninguém

(tenho fases como a lua…)

No dia de alguém ser meu

Não é dia de eu ser sua…

E, quando chega esse dia,

O outro desapareceu…

PORTA FECHADA

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Como aranha a tecer sua teia,

Uma porta fechada,

É outra que se abre.

Assim é a vida, camarada,

Como onda levada,

Que espuma na areia.

 

Às vezes, bate em sua memória:

Sonhos do passado,

De caça e de caçado,

De porta fechada,

E de outra que lhe serviu,

Para conduzir sua história,

No calor ou no frio.

 

Não lamente e chore,

Se teve uma porta fechada.

O vento que assovia lá fora,

Traz depois a calmaria,

E sua porta se abre,

Para uma outra Maria.

 

A vida corta como sabre,

De uma porta fechada,

E de outra que se abre.

Se o futebol lhe deixou,

Médico, filósofo, cronista,

De poeta, professor ou artista,

O destino lhe reservou.

 

Não se apoquente, seu moço!

Você veio do ventre da terra:

É foice, facão e machado,

Montanha e serra,

Arrasto do arado,

Paz, amor e alvoroço.

DOMADOR DE BURRO

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Êta Nordeste bom de se ver!

De escritor, artista, senhora e senhor,

Rezadeira, penitente e você,

Vendedor de quebra-queixo,

Amolador e tocador de realejo,

Nessa terra de tanto casmurro:

Tem até o domador de burro,

Não mais na tora da espora,

Mas com nova terapia, sem pia.

 

O domador de hoje rodeia,

Sem na mão a taca e a peia,

Conversa com o burro,

Faz ele sentir seu cheiro;

Coloca seu chapéu por inteiro,

Num ritual de interação,

Segue o passo a passo do manual,

Até ele lhe chamar de doutor.

 

É tanto jeito e mania,

Que o burro dá sua montaria,

Confia que em seu lombo suba,

Sem coice, pulo e derruba,

Mais manso que essa gente bruta,

Fanática e inconsequente,

Que não tem domador nenhum,

Para o desumano anormal comum.

.

 

 

ESSA GENTE!

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Essa gente berra,

Se desespera,

Se angustia,

Um numa boa,

Outra se ferra,

Não dá mais liga,

Na roda do vai e fica.

 

Essa gente não cordial,

Quer mais folia;

Procura abrigo,

Na rede social,

Do falso amigo,

E a tragédia,

triste comédia,

Do desabrigo.

 

Tem gente que luta,

Outro se emberna,

Em sua caverna,

Na multidão que passa,

Apressada, cortando

A avenida e a praça,

E pouco se escuta,

O gemido da fome e do frio;

Prefere cair atrás do trio,

De um povo no cio.

 

Essa gente sofre,

Do Nordeste ao Norte,

Na busca da sorte.

Um nasce e outro morre,

Mas quem importa,

Se só se pensa

Em arrombar outra porta!

 

Essa gente se revolta,

Uns pro mal,

Outros pelo bem,

No vai e vem,

Do circo e da festa,

Que pouco interessa.

 

Essa gente,

Que quer ser gente,

É dominada pelo agente,

Que impede,

De ser gente,

De livre mente,

De todo dia,

Na tristeza e na alegria.

 

Essa gente aflita,

Que nem mais grita,

Maldita e bendita,

Na luz e na escuridão,

Vivendo na escravidão.

ESPELHO

Afonso Manta, da Antologia Poética organizada pelo poeta e companheiro jornalista Ruy Espinheira Filho.

De cada vez que me contemplo, mudo

Face ao espelho que reflete a imagem

De um homem já cansado da viagem,

Sinto uma atroz desilusão de tudo.

 

Sinto que estou mais triste a cada dia,

Mais doente, mais trágico e infeliz:

Exausto desta longa romaria

Que, pela vida, em desespero fiz.

 

Sinto que sou a sombra do passado.

Sinto que sou o espectro de mim mesmo.

E que rolei como um navio a esmo

Tangido pelo mar encapelado.

02/05/1979

MAIS DO QUE SOFRI NA VIDA…

(AFONSO MANTA)

Afonso Manta, nasceu em Salvador, em 23 de agosto de 1939. Passou a infância em Iguaí e a adolescência em Poções, voltando a Salvador para fazer o curso clássico no Colégio Central. Trabalhou em jornais, nos telégrafos no Rio de Janeiro e veio a falecer em Poções, em 3 de dezembro de 2003. Um grande poeta dos poetas baianos e brasileiros.

Mais do que sofri na vida

É simplesmente impossível.

Mas não quero uma medalha

Sobre o meu peito invencível.

 

Mais do quer andei pelo mundo.

Sem sair do meu lugar,

Nenhum homem do planeta

Pode com os seus pés andar.

 

Mais do que lutei e luto

Nas horas de cada dia,

Num combate desarmado,

Não sabe a filosofia.

 

Mais do que sonhei e sonho,

Em sonhos de olhos abertos,

Não sonham nem as palmeiras

Das areias dos desertos…

CADA DIA

De autoria do jornalista Jeremias Macário

O celular nosso de cada dia,

Santificado seja a internet,

Que nesse reino nos conecte;

Dai-nos hoje, oh Senhor!

Os sinais das redes sociais;

Perdoai nossas ofensas;

Livrai-nos das falsas crenças,

Dos ônibus da lotação,

Desse cartão consumidor,

Das dívidas de cada dia.

 

Cada dia é novo existir,

De um colorido pôr-do-sol,

Um outro de porvir;

Não nos deixai-nos só,

Nesse tempo de cada dia.

 

Cada dia acordo com você,

Minha razão de ser;

Sem seu amor,

Não sei mais como viver.

 

Tem a estradeira poeira,

Para enfrentar o desafio;

Tem dia sem saída,

Outro da vida sorrir,

Um de nascer, outro de partir,

 

Como diz o cancioneiro,

Cada dia vai ter que sofrer,

Vai ter que vencer,

Varrer o seu terreiro.

 

Deus e o diabo na terra,

Como canta o Moreira,

Uns subindo a serra,

Outros descendo ladeira,

No tempero de cada dia,

Nos feitiços da Bahia.

NÃO REZES POR MIM

Nova criação poética de autoria do jornalista Jeremias Macário

Quando a doença

Atacar meu corpo,

Não mais da cura a crença,

Em estado terminal,

A sofrer em casa,

Ou na tortura de um hospital,

Não rezes por mim,

Não intercedas pra eu ficar;

Ores para eu ir,

Deixas minha alma viajar,

E não rezes por mim.

 

Se tens compaixão,

Se sentes minha dor finita,

Se entendes a finitude,

Se acreditas,

Que tem a hora de partir,

De ir embora,

Não rezes por mim,

Rezes sim,

Para eu ir,

E não chores por mim.

 

Alegras teu espírito,

Olhas o azul infinito,

Tudo tem o seu fim,

Pagues ao barqueiro,

Para levar à outra margem,

Mais um velho estradeiro,

Passageiro de uma viagem.

Não rezes para ficar,

Rezes para eu ir,

Para outro qualquer lugar.

VIOLEIRO VIAJANTE

De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Pelo meu canto de tocador,

Um dia meu pai,

Me chamou de vagabundo.

Botei minha viola na sacola,

Gastando sola, girando mundo,

Com meu pranto profundo.

 

Do Oiapoque ao Chuí,

Chorei nas motosserras Amazonas;

Naveguei pelos rios das chalanas,

Entre fumaças do Pantanal,

Onde o homem destila seu mal,

Contra a fauna e a flora,

Manda embora o tuiuiú e a sucuri.

 

Como violeiro viajante,

Fiz um tour,

Pela cultura gaúcha do Sul;

Bebi das maiores fontes,

Nas terras do meu Nordeste,

Dos cancioneiros cabras da peste.

 

Como violeiro viajante,

Cortei pontes, estradas e montes,

Pelos canais dos festivais,

Desses rincões nacionais,

Espalhei minhas mensagens,

Nessas longas viagens.

 

 

 

 





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