:: ‘Na Rota da Poesia’
COISA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
“Uma coisa é uma coisa,
Outra coisa é outra coisa”.
Tudo que se faz,
É inspirado numa coisa,
Como esta coisa.
Coisa pode ser
Masculino ou feminino,
Substantivo, adjetivo e advérbio,
Até verbo.
Tem o coisa ruim,
Que é o capeta belzebu;
Tem a coisa boa,
Que pode ser tanta coisa.
Vou lhe contar uma coisa,
Que você não pode revelar,
Então não me conte sua coisa.
Cante aí nessa viola,
Uma canção MPB, samba ou forró,
E não me deixe aqui,
Com essa coisa só.
Rapaz, me deu aqui
Uma coisa na espinhela,
Não seria na costela?
Estou com uma virose,
Pode ser qualquer coisa.
Tenho uma coisa por ela,
Que não sei explicar essa coisa.
Não me venha com essa coisa,
Que já estou cheio de tanta coisa,
E não vou mais falar dessa coisa,
Porque você está sendo chato
Com tanta coisa.
Mostre sua coisa,
Que eu mostro minha coisa.
Me dê sua coisa,
Pra eu dar uma tragada,
Quero ficar doidão com essa coisa.
Sua coisa é de primeira
Não é da misturada.
Vá pra lá com sua coisa,
Que fico com minha coisa,
E quem quiser,
Que acrescente outra coisa.
POR QUE SERÁ?
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Por que será?
Que a mais gloriosa criação,
Após bilhões de anos,
Galgou a inteligência,
Para se curvar
À arte da corrupção,
E colocou no pódio
O ódio e a intolerância?
Será o instinto primitivo,
O real motivo?
Por que será?
Que a terra está pegando fogo,
Com ameaça existencial;
O mal virando o jogo,
Nessa era da ebulição global,
Onde o luto ganha da luta?
O progresso abiu as portas do inferno,
E eu aqui a queimar neurônios,
Entre o calor de 50 graus,
E o verão do inverno.
Por que será?
Que você se contorne
Entre o medo e a ansiedade
Do louco competir,
Atrás de uma felicidade passageira,
Que se acaba na saideira,
Do exótico vulgar consumir?
Por que será?
Uns ricos e outros pobres,
Escravos e nobres,
Tantas doenças,
De uns que se agarram nas crenças,
Outros no teorema,
Se Cristo se sacrificou,
Para derrubar o sistema?
ASSIM NÃO DÁ…
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Assim não dá,
Ficar calado como gado:
Ver tanta barbaridade,
Nessa nossa humanidade,
De gente perversa criminosa,
Que gananciosa nos rouba,
E depois diz ser inocente,
Que nada sabe e nada viu,
Nega muda, surda e cega
A verdade nua e crua.
Assim não dá,
Para não se manifestar,
Contra esse nosso país,
Sem cultura, caráter e raiz.
Assim não dá:
Vivo com meus medos,
Fantasmas e segredos,
Do meu soneto,
Sair pior que o enredo.
Assim não dá,
Ver o humano desumano,
Entupir de lixo o mar,
Com suas mentes artificiais,
Como se fossem canibais.
Assim não dá,
Para ver o amor minguar,
América e a África
Passar tanta fome,
Enquanto o luxo só consome.
Assim não dá,
Imperar o individual,
Com o ódio subindo ao pódio,
Nos dividindo em fatias,
Como crias,
Dessas loucas correrias.
JOGO TUDO NA GAMELA
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Minhas contas de luz e água,
Faturas dos cartões de crédito:
Tudo é só débito,
Toda vez como freguês.
O selvagem capital,
Me trata como faquir,
Que toma banho na gamela,
Ainda me cobra,
Conta paga,
Para ir na camela conferir,
E fico a olhar tudo que quitei,
Todo sangue que já dei.
Logo vai chegando,
O outro mês:
Nem sei mais o que gastei:
Jogo tudo na gamela,
Depois nos arquivos,
Como mortos inativos.
Jogo tudo na gamela,
No banho que lá tomei,
Quando criança esperança,
No campo ou na favela,
E quando morro,
Nessa vida de aventura,
Num caixão apertado sem largura,
Só tenho direito a uma vela.
Jogo tudo na gamela,
Essa remela,
Do trabalhador,
Tratado como escravo insano,
Como nos tempos,
Do tráfico africano.
O SILÊNCIO E OS RUÍDOS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Na magia do meu campo,
Na alquimia da natureza,
Das águas correntes a roncar,
Entre pedras e cachoeiras,
Em meu sertão profundo,
Escuto o canto dos pássaros,
Sem os ruídos dos corações,
Invejosos dos bárbaros,
Das traiçoeiras competições.
Sou o silêncio sem os ruídos,
O mergulhar em meu eu interior,
O zunido da abelha na flor,
Para nela polinizar,
Sem os ruídos dos instintos,
Egoístas da sedução,
Labirintos da exposição,
De si mesmo para divagar,
Nos toques do celular.
O silêncio vale ouro.
Digo ser reflexão,
Da alma o tesouro,
Absinto da razão.
Fortaleça seu silêncio,
Para dar voz ao silêncio,
Contra os ruídos capitais,
Das injustiças sociais,
E não ao silêncio sepulcral,
Que causa tanto mal.
NO GOLFO DO BENIM
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Brigam nações estrangeiras!
Ingleses, espanhóis e franceses,
Holandeses e portugueses,
Até capitães baianos brasileiros,
De canhões, bacamartes e estopim,
Em navios e canhoneiras,
Pelo tráfico negreiros,
No Golfo do Benim.
Brigam reis do Oyó e Daomé,
Com seus deuses orixás de fé,
Contra os reinos de Ardra,
Badagre, Porto Novo e Onim,
Em pântanos, savanas e mares;
Destroem aldeias e lares,
Para as vendas insanas,
De carnes negreiras humanas,
Nesse oceano de sangue,
Por cativos prisioneiros,
No Golfo do Benin.
Brigam navegantes traficantes,
Pelo domínio de Uidá,
Para escravos comercializar,
Por tabacos, ouro e aguardentes,
Moedas zimbo e cauri,
Até degolam cabeças,
Nessas feitorias fortalezas,
Horrores que nunca vi;
Matam gentes nas prisões,
Para lotar fedorentos porões,
De africanos, príncipes,
Rainhas de cetim,
Jejes, tapas e haussás,
Minas, nagôs-iorubás,
Filhos do Golfo do Benin.
NÃO MISTURE NOSSO FORRÓ
Autoria do jornalista Jeremias Macário
Não misture
Nosso forró, não,
Nem profane
Nossas festas juninas,
Com suas músicas assassinas.
Nosso forró,
Nasceu do fifó,
Na poeira do arrasta-pé,
Ao som do triângulo,
Da zabumba e da sanfona,
No melaço da cana,
Com cultura, tradição e fé.
Nosso forró é nordestino
Dos santos Antônio, João e Pedro
Brinca idoso, jovem e menino.
Seu prefeito predador safadão,
Não misture nosso forró, não
Com sua propina de mocotó.
Não misture nosso forró, não
De penetras estrangeiros,
Com chapéu de couro,
Indumentária de cangaceiros,
Que roubam nosso ouro,
E nem sabem lá cantar,
Xote, xaxado e baião.
Salvem Jachson do Pandeiro,
Marinês, Sivuca e Gonzagão,
Sem essa plástica indecência,
De misturar sertanejo e pagodão,
Axé, arrocha e sofrência.
Não misture nosso forró, não,
Pra nóis dançar é forrozeiro,
Na letra agreste do Nordeste,
Com licor, quentão e mungunzá,
Como nos tempos do candeeiro.
MIL DESCULPAS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Desculpa, desculpa, desculpa,
Peço mil desculpas,
Nem todas são sinceras,
Meras palavras de boca oca,
Por vezes tão maquinal;
Desculpas pelo meu verso,
Se atravessou o seu,
Entre a linha do bem e do mal.
Desculpa, desculpa, desculpa,
Por não ter lhe telefonado,
Não retornado seu recado,
É que ando muito ocupado;
Desculpa ter acabado nosso amor,
Pela mensagem do celular,
Sem sentir de perto seu olhar,
Sua expressão de raiva e dor.
Desculpa, desculpa, desculpa,
Por ter matado o tempo,
Negado sua existência;
Seguir contrário ao vento;
Confundir anormal com normal,
Religião, fé e ciência,
Ser repetitivo superficial,
Como um agressivo ativo,
Com desculpas de passivo.
DO PARAÍSO AO FIM
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Da explosão, o Supremo fez o paraíso,
O irracional ateou fogo;
O profeta alertou sobre o final juízo;
Ganância e arrogo;
Foguetes rasgam os céus desse espaço,
Do universo sideral;
O homem estúpido dele fez lixo e bagaço,
Selvageria do vil capital;
As florestas em labaredas ardem chamas,
Fumaças, cinzas, poluição;
Enchentes arrastam casas, morros e lamas,
Ciclones, ventos e furacão;
Lero-leros de reduzir gazes na atmosfera;
O incentivo é consumir;
Natureza não perdoa, nem o tempo espera,
Sem essa de choro e mimimi;
Não mais reversão do aquecimento global;
Primeiro vão os pobres,
Na tragédia do derretimento do gelo glacial,
E chega a vez dos nobres;
Aumentam os níveis dos rios e dos mares;
Somem ilhas e cidades;
A enxada tini no agreste salgado dos secos ares,
Prenuncio do fim das eras idades.
CARRUAGEM DOS 60
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Lá vai atravessando a ponte,
Pelos confins do horizonte,
A carruagem dos sessenta,
Chamada de renascença,
Resistente como aço,
Na defesa da sua crença,
Que nos deu régua e compasso.
Carruagem dos sessenta,
De geração de geniais,
Nascida nos quarenta e cinquenta,
Nunca mais virão iguais.
Carruagem dos sessenta,
Das eternas canções,
Composições milenares,
De poemas revolucionários,
Ideias que ultrapassaram mares,
Nos combates libertários,
Com suas visões existenciais,
Surrealismos subversivos,
Das desigualdades sociais,
Contra os regimes opressivos.
Lá vai a carruagem dos sessenta,
Muitos apeando na estrada,
Outros no oitenta e noventa,
Nos ensinando o portal de entrada.










