O GALO CANTOU ERRADO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Pelas brenhas do meu serão,
Ouvi causos e histórias,
Saídas de nossas memórias,
De um maturo lavrador,
Sem relógio e rádio,
Para seguir o divino horário,
Como no tempo templário.
Quase nada tinha,
Só suas cargas de farinha,
Para vender na feira da cidade,
No sábado de madrugada.
Acordou depressa atordoado,
No primeiro estalo,
Do canto do galo,
Que cantou errado.
Gritou bravo,
Para o mirrado menino,
Coisa de nordestino,
Pra pegar os jumentos no pasto,
E tocar a tropa na estrada,
Para pagar seu gasto.
Disse a mulher:
Homem doido agoniado,
Só pode estar endiabrado,
Esse galo cantou errado.
Lá na frente, nem pé de gente,
Nem piava a cotovia,
Onde o vizinho concorrente,
Ainda calmo dormia,
E foi aí que ele desconfiou,
Que o galo cantou errado.
No caminho só esbravejava,
Passamos pelas ruas,
Em meio à escuridão,
E nada do dia clarear.
No chão arriamos os sacos,
Os couros pra dormir,
E o feirante não parava,
De cafangar
Que ia jogar o galo na panela,
Todo picado na gamela,
Porque o danado cantou errado.
O galo sabendo do acontecido,
Para não ser degolado,
Se enfiou no mato como rato,
Porque cantou errado.
Tudo é pura verdade,
Como prosa da antiguidade,
Não tem nada de engraçado:
O galo cantou errado.











