:: 14/set/2023 . 22:56
A SERRA E O CRISTO
De braços abertos para a cidade como que abençoando a todos os 370 mil habitantes, sem nenhuma distinção, no emaranhado de fios e torres de televisão e operadoras nessa selva de pedras, lá está o Cristo de Mário Cravo, ou o Cristo da Serra do Periperi, desde os anos 80 do século passado. Não fosse o descuido dos nossos governantes durante esses mais de 40 anos, bem que poderia ser hoje o ponto mais frequentado pelos nossos moradores e visitantes de fora, mas, infelizmente, ainda existe aquele estigma de que o local é perigoso e não se deve ir lá em determinadas horas. Outra recomendação é que sua visita seja em grupos de pessoas. O único período em que o monumento recebe mais gente é durante a Semana Santa, especialmente na Sexta-Feira da Paixão. As promessas de urbanização e segurança para o acesso são longas e se arrastam por muito tempo. Uma pena para um local que já é visto, cá debaixo, como o cartão postal da cidade, só que não é de fato. Como jornalista-repórter, quando aqui cheguei em 1991, lembro que já fiz diversas matérias denunciando seu abandono e “brigando” para que ele fosse totalmente revitalizado, como o Cristo Redentor da Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro. O sentimento que tenho, todas as vezes que o visito, é que esse Cristo da Serra do Periperi foi relegado à solidão pelos próprios conquistenses que deveriam cuidar melhor dele. Para seu embelezamento, já houve até proposta de projeto de se construir um teleférico de ligação entre o Cristo ao centro da cidade, mas tudo não passou de meras intenções. Na verdade, não passamos de uns ingratos.
O GALO CANTOU ERRADO
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Pelas brenhas do meu serão,
Ouvi causos e histórias,
Saídas de nossas memórias,
De um maturo lavrador,
Sem relógio e rádio,
Para seguir o divino horário,
Como no tempo templário.
Quase nada tinha,
Só suas cargas de farinha,
Para vender na feira da cidade,
No sábado de madrugada.
Acordou depressa atordoado,
No primeiro estalo,
Do canto do galo,
Que cantou errado.
Gritou bravo,
Para o mirrado menino,
Coisa de nordestino,
Pra pegar os jumentos no pasto,
E tocar a tropa na estrada,
Para pagar seu gasto.
Disse a mulher:
Homem doido agoniado,
Só pode estar endiabrado,
Esse galo cantou errado.
Lá na frente, nem pé de gente,
Nem piava a cotovia,
Onde o vizinho concorrente,
Ainda calmo dormia,
E foi aí que ele desconfiou,
Que o galo cantou errado.
No caminho só esbravejava,
Passamos pelas ruas,
Em meio à escuridão,
E nada do dia clarear.
No chão arriamos os sacos,
Os couros pra dormir,
E o feirante não parava,
De cafangar
Que ia jogar o galo na panela,
Todo picado na gamela,
Porque o danado cantou errado.
O galo sabendo do acontecido,
Para não ser degolado,
Se enfiou no mato como rato,
Porque cantou errado.
Tudo é pura verdade,
Como prosa da antiguidade,
Não tem nada de engraçado:
O galo cantou errado.
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