:: ago/2023
I FÓRUM DO AUDIOVISUAL DOS INTERIORES DA BAHIA EM VITÓRIA DA CONQUISTA
Com uma vasta programação, inclusive com uma carta dirigida à Secretaria de Cultura, Turismo, Esportes e Lazer-Sectel, solicitando o uso de recursos da Lei Paulo Gustavo para reforma e reabertura do Cine Madrigal – lembrando que o equipamento está sob a gestão da Secretaria de Educação – será realizado até hoje (1/9) o I Fórum Audiovisual dos Interiores da Bahia, em Vitória da Conquista, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.
O evento teve início no dia 30 de agosto e, no primeiro dia na parte da manhã, os visitantes fizeram um tour pela cidade quando conheceram a Casa Glauber Rocha e o antigo Cine Madrigal, na rua Ernesto Dantas. Na parte da tarde os trabalhos foram abertos pela Fundação Cultural do Estado da Bahia.
A primeira mesa discutiu Representações Audiovisuais na Bahia – Articulações e Associativismo. Outros temas debatidos foram Circuitos, Espaços e Eventos de Difusão Independente, Cinema no Interior-Economia e Territorialização das Políticas Públicas do Audiovisual.
No segundo dia (31/08) aconteceram várias discussões em torno dos assuntos, tais como Formação e Inovação-Diálogo entre Escolas de Cinema do Interior da Bahia, Preservação e Memória do Audiovisual Baiano, Coletivos e Movimentos Culturais dos Territórios Baianos de Identidade e Modelos Produtivos –Projetos de Pólos e Empresas Públicas de Cinema na Bahia.
Os artistas vão encaminhar um documento das diversas entidades do interior para a Agência Nacional do Cinema, bem como elaborar, no final dos trabalhos, uma carta do I Fórum dos Interiores da Bahia. O evento teve a realização da Associação do Audiovisual do Sudoeste Baiano- SASB e apoio institucional do Governo do Estado da Bahia, Prefeitura de Vitória da Conquista, Fundação Cultural, Proex- Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários e do Centro de Cultura.
A EVOLUÇÃO DA TECNOLOGIA
Quando só se fala agora em inteligência artificial (o homem está cada vez mais se desumanizando, ultrapassando a linha do perigo), a evolução tecnológica é perceptível em todos setores da vida e atinge mais ainda as artes, como a fotografia, o cinema, o audiovisual, as artes plásticas e outras diversas linguagens do nosso cotidiano. No Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima quase ninguém mais observa e reflete sobre aqueles projetores antigos pesados responsáveis por transmitirem as imagens cinematografadas pelos cineastas. Sem os velhos projetores, não tinha como passar os filmes para os telespectadores. Hoje são pequenos projetores menores, bem mais evoluídos e sensíveis encarregados de jogarem as imagens nas telas. Não existem mais aqueles grandes rolos de filmes. A evolução tecnológica está em tudo, mas as velhas profissões ainda resistem ao tempo, como do sapateiro, do alfaiate, do ferreiro, do amolador de facas, do relojoeiro, dentre outras. Na literatura, o livro de papel nunca vai se acabar, mesmo com a invenção da internet que criou o e-book.
NÃO FALE DEMAIS
Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Fale menos, escute mais.
Diz quem fala demais,
Dá bom dia a jegue,
Nada contra o animal,
Só não fale demais,
Meu amigo,
Pode ser um perigo.
Fortaleça suas teorias;
Escolha bem suas vias,
E pratique mais o exemplo,
Do seu templo;
Cuidado com as feras,
Com essas falsas galeras,
Que na frente é uma coisa,
Outra é por detrás,
Pra derrubar os dizeres
Do seu cartaz.
Fale menos, escute mais.
Sua vida é uma viagem;
Não apresse demais o passo;
Tenha nervos de aço,
Que seu caminho,
É uma aprendizagem.
Gente vem,
Gente sai.
Tem aquele que trai.
Não fale tudo que pensar,
Pense antes de falar,
E não fale demais
RISCO DE PERDER UM SITE CULTURAL?
Quando digo que nossa cultura anda cambaleando ou trôpega das pernas, dizem que sou exagerado e alarmista. Confesso que fiquei chocado com uma mensagem encaminhada e postada pelo nosso companheiro de colegiado Armênio Santos em nosso grupo do Conselho Municipal de Cultura de Vitória da Conquista.
Na verdade, a mensagem é como um apelo de socorro e diz, “caros amigos, estamos sob risco de perder um importante site de consulta cultural absolutamente grátis, por pura falta de uso”. De primeira, até imaginei que se tratava de mais uma fake news, mas não é nada disso. É mais uma prova cabal do efeito pernicioso das redes sociais de fofocas que destilam ódio e intolerância.
Prosseguindo, a mensagem pede que, se acharem interessante, reencaminhem o material a quantos puderem, por favor. “A população (que população?) precisa saber da existência de tão importante instrumento de promoção de cultura.
Uma bela biblioteca digital, desenvolvida em software livre, está prestes a ser desativada por falta de acessos. Imaginem, um lugar onde podemos, gratuitamente, ver as grandes pinturas de Leonardo Da Vinci; escutar músicas em MP3 de alta qualidade; ler poesia de Fernando Pessoa; obras de Machado de Assis ou a Divina Comédia; ter acesso às melhores histórias infantis e vídeos da TV Escola”.
Esse lugar, meus amigos e camaradas, existe! Trata-se do Ministério da Educação que disponibiliza tudo isso, bastando acessar o site www. dominiopublico. gov.br Só de literatura portuguesa são 732 obras. O alerta é de que estamos em vias de perder tudo isso, pois vão desativar ou deletar o projeto por desuso, já que o número de usuários é muito pequeno.
“Vamos tentar reverter essa situação, divulgando e incentivando amigos, parentes e conhecidos a utilizarem essa fantástica ferramenta de disseminação da nossa cultura e do gosto pela leitura”. É meu amigo, Armênio, sem querer ser espírito de porco e negativista, está difícil reverter essa situação, tão triste e melancólica.
A começar pelos nossos jovens da atualidade, poucos hoje têm interesse pela cultura e, o nosso ensino, que há anos vem se arrastando como deficitário, tem grande culpa nisso. Quando leio esse tipo de coisa vem à minha cabeça os anos 60 e 70 que, mesmo em plena ditadura, a leitura e a pesquisa (não existia internet) eram práticas corriqueiras na vida. Cada um tinha seu escritor ou autor predileto.
A nossa humanidade está em decadência e as pessoas acham que o saber e o conhecimento não têm mais valor. O que conta é só fazer um curso técnico de especialização para ganhar dinheiro no mercado. É essa a nua e crua realidade. Temos hoje um povo sem história e memória, principalmente no Brasil, que copia e imita tudo aquilo que vem do mundo ocidental capitalista.
ESCRITORES SE REÚNEM PARA DISCUTIR CONSELHO E ASSOCIAÇÃO
A nossa cultura brasileira tem uma longa história de altas e baixas, de grandes criações reveladoras de nomes e de escassas produções de relevância. Desde a República, no início do século XX até a década de 20 (Semana de Arte Moderna), foi a época pródiga e de ouro nas artes de um modo geral.
Depois veio a ditadura de Vargas e se proibiu pensar porque era perigoso para o poder vigente. Dos anos 50 até os 60 experimentamos uma etapa de efervescência das linguagens artísticas e logo depois outro regime ditatorial de obscurantismo, trevas e censuras. Tudo era subversivo e comunismo, mas, mesmo assim, tivemos a ousadia de criar e enfrentar os generais, com centenas de prisões, torturas, mortes e desaparecidos.
Veio a redemocratização a partir dos anos 90 e, de lá para cá, por incrível que pareça, a nossa cultura foi se definhando em termos de conteúdo e piorou no último governo do capitão-presidente que cortou até o Ministério da Cultura da lista. A evolução tecnológica da internet e a invenção das redes sociais no celular também influenciaram negativamente. Agora estamos vendo uma luz no final do túnel.
Todo esse bolodoro e “nariz de cera” é somente para dizer que a arte literária também está inserida nesse contexto e Vitória da Conquista não fica de fora desses percalços e ascensões. Quanto a nossa aldeia, no quesito da literatura, como há anos, estou vendo um grupo de escritores juntando forças para se organizar, mostrar seus trabalhos e obras e sair desse individualismo, uma característica local que o nosso poeta Paulo Henrique chama sempre a atenção.
Por ideia do nosso escritor e professor Nélio, que está lá fisicamente no interior de São Paulo (São Carlos), mas espiritualmente aqui conosco, formamos um grupo no ZAP onde trocamos ideias e apresentamos nossas produções. Criou-se o Foro Literário Sertão da Ressaca e já realizamos duas reuniões virtuais nas quais debatemos diversos assuntos, como a de segunda-feira (dia 28/08) onde se discutiu um nome para ocupar uma cadeira no próximo Conselho Municipal de Cultura e a possível formação de uma Associação de Escritores Conquistenses-AECO (sigla sugestão).
Também foi sugerido a montagem de um mosaico com as pessoas para ser divulgado no Foro Literário e já foi publicado com o título: “Quem são e o que querem as escritoras e escritores conquistenses”? Falamos ainda de um nome para o grupo recém constituído que identifique com nossa terra. Está em andamento a publicação de uma coletânea de escritores locais.
Estou vendo tudo isso como muito positivo e renovador de esperanças para a nossa literatura depois de 32 anos morando em Conquista como jornalista e escritor. Temos muitos talentos adormecidos por falta de oportunidades que precisam ser revelados e apoiados.
Não adianta ficar aqui só pensando na ação do poder público porque este tem destina poucas reservas no orçamento para a nossa cultura, sem falar na área privada que mais visa o lucro. Infelizmente, não temos mais mecenas como antigamente. Precisamos, sim, mostrar a nossa cara e dizer que existimos e olhem para nós.
Creio que mais gente (seja bem-vindo professor Dirley Bonfim) deve se juntar a nós nessa luta para fortalecer a cultura de Conquista e, especialmente, a cena literária, uma das linguagens mais esquecidas (a chamada prima pobre) nos últimos tempos, embora esteja sendo encorajada a partir das feiras literárias nos municípios.
Habemos um coletivo que está se movimentando e quer ter voz e deixar seu legado para a sociedade como personagem viva da nossa cultura, uma das linguagens mais importante para as outras. As ideias estão brotando e, na reunião de ontem, decidimos por apresentar um nome para o Conselho de Cultura e já marcamos uma outra reunião presencial para o próximo dia 10 de setembro, véspera da Conferência Municipal de Cultura entre os dias 11 e 12, no Centro de Cultura Camilo de Jesus Lima.
Quanto a Associação está sendo maturada aos poucos, apesar de alguns pontos de divergência se ela deve ou não existir, mas considero fundamental para unir mais o grupo e servir de elo de ajuda na produção, divulgação e distribuição das obras. Diz o ditado popular que uma andorinha só não faz verão. A proposta está levantada para um consenso ou não da fundação da entidade.
No encontro de ontem foram cerca de três horas de discussões (acho cansativo e demorado), mas foram produtivas e cada um externou sua opinião democraticamente. Nela estiveram presentes Nélio Silva, Afonso Silvestre, Juliana Brito, Leon Lacerda, Chirlis Oliveira, Fernanda Silva de Moraes, Luís Altério, Lídia Cunha, Paulo Henrique Medrado e Jeremias Macário.
Outros estão chegando para se juntar à nossa turma de “rebeldes” que têm a ousadia de colocar a cara a tapa para serem lidos e escutados. Vitória da Conquista tem um celeiro valioso deles que precisam ser conhecidos. Não vamos ficar somente no Conselho e na Associação. Temos outras proposições para revolucionar as artes e logo vão ser anunciadas.
FOLCLORE BRASILEIRO DOMINOU AS DISCUSSÕES DO SARAU A ESTRADA
Como em todos os outros, o nosso Sarau a Estrada, que está completando treze anos de atividades, teve a honra de receber gente nova que conheceu nosso Espaço Cultural, na rua G, 296, Bairro Jardim Guanabara ou Filipinas como alguns denominam. Dessa vez foram escritores conquistenses que deram suas contribuições com suas histórias de vida e declamações de poemas.
Dentro do nosso formato estabelecemos um tema para os debates como abertura dos trabalhos. Desta vez, o “Folclore Brasileiro” dominou as discussões do evento, realizado na noite do último sábado (dia 26/08). Na ocasião, os componentes do Sarau comemoraram o aniversário de Vandilza Silva Gonçalves, a anfitriã da casa com direito a bolo, salgadinhos e refrigerantes.
Pelo seu tempo de existência e história, foi proposto a realização de um documentário sobre o Sarau a Estrada, aceita por todos devido a sua importância ao longo desses anos em Vitória da Conquista. O documentário será uma peça de registro da história do Sarau, com depoimentos de seus participantes e fundadores.
O professor Itamar Aguiar foi o palestrante do assunto quando fez uma explanação geral sobre o folclore brasileiro, suas origens, história, sua importância cultural e seus encantamentos, com citações dos escritores Câmara Cascudo e Afrânio Peixoto, principalmente.
Os personagens com suas respectivas representações estão no imaginário de cada povo e fazem parte dos nossos sentimentos e até do nosso sentido existencial como nação. Na verdade, como assinalou o professor, o folclore surgiu da inteligência popular e se disseminou no intelecto das pessoas.
Ao final da palestra houve várias pontuações, como a observação de que muita coisa folclórica foi incorporada à história da independência da Bahia no Brasil e que é preciso separar o que foi real do que foi criado como ficção pela oralidade popular. Muitos pontos e passagens, inclusive, são hoje questionados por historiadores.
Outro ponto discutido foi a influência de outras culturas estrangeiras no nosso imaginário nacional, como a cultuação e celebração dos super-heróis norte-americanos, como o super-homem, mulher aranha, homem aranha, batman, dentre outros, que são substituídos nas escolas e festas pelos nossos personagens brasileiros. Essa é uma grande falha do nosso ensino que termina refletindo em nossos jovens que hoje estão bem mais voltados para os avanços tecnológicos da internet e das redes sociais.
Logo após os debates houve rodas de causos, declamação de poemas e cantorias de Manu Di Souza, nosso amigo Baducha, Marta Moreno, Dorinho Chaves e outros artistas músicos que nos brindaram com várias canções autorais e da MPB. Rolou também o bate papo informal sobre diversos assuntos acompanhados do vinho, de umas geladas e tira-gostos, que ninguém é de ferro.
Estiveram ainda presentes Juliana Brito e seu esposo Josué B. Santana (nossos visitantes pela primeira vez), escritora Chirlis Santos, do escritor Leon Lacerda, Aragão, Edna Brito e sua filha Geovana, Cleide e sua filha Maria Luiza, Regina Chaves, Aurélio, Karine Almeida, Consa, Francisco, do escritor e poeta Luís Altério com sua esposa professora Lídia, do influenciador Igor, José Carlos D´Almeida, além dos anfitriões Jeremias Macário e Vandilza Gonçalves que a todos receberam com toda dedicação de boas-vindas.
Só podemos dizer que foi mais uma noite cultural memorável onde houve a troca de ideias, saber e conhecimento onde cada um ensina alguma coisa e também sai aprendendo. Nem é preciso citar, como sempre ocorre, que o evento varou a madrugada e serviu para fortalecer mais ainda nosso grupo e nossos laços de amizade.
A DIVINA COMÉDIA-INFERNO
DANTE ALIGHIERI – Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro
Em trinta e quatro cantos, com estrofes de três versos, o poeta florentino Dante, aos 35 anos, em 1300, ano no qual o papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro jubileu, fica perdido numa selva escura (vícios humanos) durante toda noite. Ao amanhecer começa a subir por uma colina, quando lhe atravessam uma pantera, um leão e uma loba que o fazem retroceder. Então, aparece a imagem de Virgílio (sua musa Beatriz) que oferece tirá-lo de lá e conduzi-lo até o inferno e o purgatório. Depois Beatriz, que simboliza a teologia, lhe leva até o paraíso.
O poeta Virgílio é o símbolo da razão humano e Dante, em cada canto da sua caminhada, fala das mazelas humanas, de São Paulo, da nobre Dama que é Maria, mães de Jesus, de santa Luzia, símbolo da graça iluminante, de Raquel, filha de Lobão e mulher do patriarca Jacó, dos pecados dos nobres e filósofos e de todos aqueles que não foram fiéis a Deus e nem rebeldes. Na porta do inferno encontra terríveis palavras.
Seguindo o caminho, como narra o tradutor da obra, “chegam ao Aqueronte, onde está o barqueiro infernal, Caronte que passa as almas dos danados à outra margem, para o suplício. Treme a terra, lampeja uma luz, e Dante cai sem sentidos”.
No terceiro canto ele diz: Deste mísero modo, tornou, chora/ Quem viveu sem jamais ter merecido/ Nem louvor, nem censura infamadora. Em outro verso “Não lhes é dado nunca esperar morte;/ É tão vil seu viver nessa desgraça,/Que invejam de outros toda e qualquer sorte”.
“De anjos (aqueles que não tomaram posição na luta entre os fiéis e os rebeldes a Deus) mesquinhos coro é-lhes unido, /Que rebeldes a Deus não se mostraram, /Nem, por si sós havendo sido, com rimas entre o primeiro e o terceiro verso. Alma inocente aqui jamais transita,/E, se Caronte contra ti assanha,/ Patente a causa está, que tanto o irrita”. Dante em seu poema épico teológico descreve vários círculos do inferno e chega a entrar no Limbo onde estão aqueles que não foram batizados. Ele fala dos sábios da antiguidade que, embora não cristãos, viveram virtuosamente.
No segundo círculo Dante cita Minos (rei de Creta e juiz do inferno na mitologia pagã), que julga as almas e designa-lhes a pena. Nesse círculo estão os luxuriosos. No terceiro os gulosos e sobre eles caem chuvas de granizo, água e neve e são dilacerados pelas unhas e dentes de Cérbero (um monstro meio cão e meio dragão, com três cabeças). No quarto, estão os pródigos e avarentos e assim o poeta vai narrando todas as camadas do inferno, daí o termo de cenas dantescas em referência a Dante.
A INVASÃO DA SERRA
Por muitos anos, principalmente a partir das décadas de 60 e 70, com a abertura da BR-116 (Rio-Bahia) e a implantação do polo cafeeiro, a Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, foi sendo invadida por moradores de várias partes da região e do estado na busca de trabalho e melhorias de vida. Foi quando aconteceu o maior êxodo rural. Sem qualificação profissional e, consequentemente, de baixo nível de poder aquisitivo, essas pessoas pobres foram invadindo a serra, da encosta até o seu topo, provocando um grande impacto ao meio ambiente. Sem ocupação fora das colheitas do café e na falta de políticas públicas sociais, a maioria foi utilizada pelo setor imobiliário para explorar materiais da serra, como pedras, areias e cascalhos. Esse ciclo de exploração e degradação da serra somente foi estancado em meados dos anos 90 para início dos anos 2000 quando um decreto municipal tombou a Serra do Periperi. Acontece que o estrago já está feito e vários locais se tornaram irrecuperáveis, sem falar que a extensa área perdeu vários olhos d´água e minações que sustentavam a natureza. Por causa da depredação do homem (o maior culpado foi o poder público), quando chove forte, as ruas e avenidas de Conquista recebem uma grande quantidade de detritos que entopem bueiros e alagam o centro da cidade acarretando incalculáveis prejuízos e até acidentes graves.
NO BICO DO PAPAGAIO
Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
No Bico do Papagaio,
Onde bate a chuva,
O trovão e o raio,
A luta faz sua hora,
E o tempo lento chora,
Ai, ai, ai, ai, ai
Da selva brota a guerrilha,
Lá na região do Araguaia,
Goiás, Maranhão e Pará,
Cada guerreiro em sua trilha,
Da terra, companheiro,
Com sua mente libertária,
Contra a ditadura assassina,
De botas tiranas brutais,
Em plena América Latina,
Dominada pelos generais.
Os sessenta e nove idealistas,
Marcharam com seus bornais,
Na crença de uma vitória:
Mudar a nossa história,
Como nas cartas aos familiares:
Saudades, amores e dores,
Dos mortos desaparecidos,
Que ficaram sem seus rituais.
Eram mais de dez mil,
Helicóptero, metralhadora e fuzil,
Cabeças foram decepadas,
Corpos esquartejados,
Jogados no mar e nos rios,
Insepultos sem lutos,
Para apagar nossa memória,
Meu querido, minha querida!
Do pó continua aberta
Nossa sofrida ferida,
No Bico do Papagaio.
O PASSADO NÃO PASSA
Hoje acordei triste e calado, como na canção do nosso grande poeta baiano Raul Seixas. “Por que sou tão calado”? Talvez tenha sido um sonho de pesadelo ou a velhice que impiedosa bate em nossa porta para anunciar que está chegando ao fim da jornada.
Pode ser poético ou filosófico pensar nisso. Os sentimentos afloram e é difícil se livrar deles. Fazem parte da vida e da morte. Tem as criaturas caladas e aquelas que procuram disfarçar e afugentar seus fantasmas com sorrisos em seus rostos. Cada um tem suas razões de ser e não adianta julgar e tentar compreender os motivos.
O texto começa com uma cara de morbidez, tipo trapo farrapo, mas não levo jeito para esconder a fluidez do sentido. O velho Cícero, com toda sua sabedoria popular e acadêmica, quando quer sepultar todo seu passado, filosofa que o passado é passado que não deve ser remexido do seu lugar, mas ele também tem consciência de que o passado nunca passa.
Não se pode livrar dessa amarra e até diria que o passado é onde o tempo para, para contrariar Cazuza quando canta que o tempo não para. Você já parrou para matutar sobre isso? As coisas que você já fez, o que deixou de não realizar por covardia ou falta de coragem para enfrentar os desafios, o grande amor da sua mocidade que perdeu, os erros que cometeu e que não mais os repetiria e o cavalo que passou selado e você não aproveitou, tudo está lá em seu baú empoeirado.
Por mais que se esforce, você nunca vai enterrar o passado. Ele, em certos momentos, vem à tona. Eu me lembro de muitas coisas desde criança, boas e ruins, que marcaram minha vida. Meu pai que me deu uma surra! Não dá para passar uma borracha e simplesmente dizer acabou, mesmo com anos e anos de análise psiquiátrica. Não acredito em divã. Dá para “superar” uns e outros não.
O passado não passa, meu velho amigo Cícero. Na vida, a gente magoa muitas pessoas e também é magoado. São perdões que não foram perdoados. Dizem que o que aqui se faz, aqui se paga. Esses barris que se afundaram na areia movediça da vida, eles emergem e voltam a boiar na superfície, quando menos se espera.
Tem dia bom e dia de cão onde quase nada dá certo. O espírito nem sempre está preparado, sintonizado e afiado ao ponto de acertar em todos os alvos. Somos imperfeitos. Existem as fases e as crises existenciais, de sentido e não sentido da vida. Não precisa ser cristão ou não, ateu ou acreditar em Deus. Tudo vai ficando no passado que nunca deixa de passar.
Um filósofo pensador, de muitos anos de lutas e embates, de teorias e práticas, uma vez me disse que só existem o passado e o futuro, e que o presente não passa de uma mera ilusão. Você nunca toma banho duas vezes no mesmo rio corrente. Tudo que aqui escrevi já se tornou passado. Quando você finaliza um texto, um poema, uma música ou um livro, imediatamente tornam-se passados.
Os segundos, os minutos, as horas, o dia, o mês e o ano giram na roda do tempo e viram passado, quando você acha que ainda está no presente. O sol nasce e vai construindo o seu passado. Ele passa a bola para a noite fazer a virada do amanhã. O ontem já é um fantasma do passado que vai sempre nos atormentar ou nos encher de felicidade.

























