:: 23/ago/2023 . 22:31
O PASSADO NÃO PASSA
Hoje acordei triste e calado, como na canção do nosso grande poeta baiano Raul Seixas. “Por que sou tão calado”? Talvez tenha sido um sonho de pesadelo ou a velhice que impiedosa bate em nossa porta para anunciar que está chegando ao fim da jornada.
Pode ser poético ou filosófico pensar nisso. Os sentimentos afloram e é difícil se livrar deles. Fazem parte da vida e da morte. Tem as criaturas caladas e aquelas que procuram disfarçar e afugentar seus fantasmas com sorrisos em seus rostos. Cada um tem suas razões de ser e não adianta julgar e tentar compreender os motivos.
O texto começa com uma cara de morbidez, tipo trapo farrapo, mas não levo jeito para esconder a fluidez do sentido. O velho Cícero, com toda sua sabedoria popular e acadêmica, quando quer sepultar todo seu passado, filosofa que o passado é passado que não deve ser remexido do seu lugar, mas ele também tem consciência de que o passado nunca passa.
Não se pode livrar dessa amarra e até diria que o passado é onde o tempo para, para contrariar Cazuza quando canta que o tempo não para. Você já parrou para matutar sobre isso? As coisas que você já fez, o que deixou de não realizar por covardia ou falta de coragem para enfrentar os desafios, o grande amor da sua mocidade que perdeu, os erros que cometeu e que não mais os repetiria e o cavalo que passou selado e você não aproveitou, tudo está lá em seu baú empoeirado.
Por mais que se esforce, você nunca vai enterrar o passado. Ele, em certos momentos, vem à tona. Eu me lembro de muitas coisas desde criança, boas e ruins, que marcaram minha vida. Meu pai que me deu uma surra! Não dá para passar uma borracha e simplesmente dizer acabou, mesmo com anos e anos de análise psiquiátrica. Não acredito em divã. Dá para “superar” uns e outros não.
O passado não passa, meu velho amigo Cícero. Na vida, a gente magoa muitas pessoas e também é magoado. São perdões que não foram perdoados. Dizem que o que aqui se faz, aqui se paga. Esses barris que se afundaram na areia movediça da vida, eles emergem e voltam a boiar na superfície, quando menos se espera.
Tem dia bom e dia de cão onde quase nada dá certo. O espírito nem sempre está preparado, sintonizado e afiado ao ponto de acertar em todos os alvos. Somos imperfeitos. Existem as fases e as crises existenciais, de sentido e não sentido da vida. Não precisa ser cristão ou não, ateu ou acreditar em Deus. Tudo vai ficando no passado que nunca deixa de passar.
Um filósofo pensador, de muitos anos de lutas e embates, de teorias e práticas, uma vez me disse que só existem o passado e o futuro, e que o presente não passa de uma mera ilusão. Você nunca toma banho duas vezes no mesmo rio corrente. Tudo que aqui escrevi já se tornou passado. Quando você finaliza um texto, um poema, uma música ou um livro, imediatamente tornam-se passados.
Os segundos, os minutos, as horas, o dia, o mês e o ano giram na roda do tempo e viram passado, quando você acha que ainda está no presente. O sol nasce e vai construindo o seu passado. Ele passa a bola para a noite fazer a virada do amanhã. O ontem já é um fantasma do passado que vai sempre nos atormentar ou nos encher de felicidade.
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