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:: 3/ago/2023 . 22:50

CULTURA PRECISA DE ESPAÇO

Carlos González – jornalista

Quatro das mais importantes atividades na vida de uma comunidade com quase 400 mil habitantes não podem ser atribuídas a um único órgão público, porque todas elas vão funcionar precariamente, principalmente quando há falta de interesse do gestor municipal. Isso é o que vem acontecendo há muitos anos em Vitória da Conquista com a cultura, o lazer, o turismo e o esporte. A Cultura não pode dividir seu espaço.

Consta na página que a Prefeitura mantém na internet que “a Sectel tem por finalidade desempenhar as funções do Município em relação à cultura, ao esporte, ao lazer e ao turismo, sendo responsável por planejar, coordenar, controlar e executar programas relevantes a essas áreas”.

Vamos analisar cada elemento desse “quarteto”. Como a nossa finalidade é mostrar o estado de abandono da cultura conquistense, faremos um breve comentário sobre o entretenimento, o turismo e o esporte, mesmo porque o titular da Sectel, o cantor, compositor e violeiro Eugênio Avelino, conhecido nacionalmente como Xangai, dedicou sua vida a escrever e musicar suas composições de raízes sertanejas.

Na estrutura administrativa da Sectel constam coordenadorias e gerências encarregadas de fomentar o turismo e de promover o esporte e o lazer, mas no dia a dia a população observa que nada é realizado por esses órgãos.

O turismo em Vitória da Conquista é uma falácia. O quê a cidade tem para mostrar ao visitante? O projeto de urbanizar a Serra do Piripiri e o entorno do Monumento ao Cristo Crucificado anda de forma lento. O lazer dos finais de semana do conquistense se limita aos barzinhos e ao passeio nos shoppings.

A prática do esporte se resume às “peladas” de futebol e futsal nos campos da periferia, e nos três meses de atividade do time profissional, ocupando divisão inferior do futebol baiano, impedindo o torcedor local de assistir jogos de clubes de expressão no cenário nacional.

Acessando a página oficial da Prefeitura, o leitor toma conhecimento de que, entre os eventos do calendário anual promovidos pela Sectel, constam uma mostra de cinema e o Festival Suíça Baiana. A administração municipal precisa explicar quando e onde serão realizados esses dois encontros culturais.

A 7ª Arte – não nos referimos aos filmes de aventuras de monstros e super-heróis exibidos nos Multiplexes – entrou num processo de involução desde que o poder público permitiu o fechamento da Casa de Glauber Rocha e o Cine Madrigal.

Esse mesmo processo de abandono se aplica ao Teatro Carlos Jheovah e a outros equipamentos que abrigam as diferentes expressões artísticas, como o Conservatório de Música, a Biblioteca José Sá Nunes, o Centro de Artes e Esportes Unificados José Murilo, que funcionam precariamente e precisam de reformas e mais atrativos e divulgação.

A Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Lazer e Esporte (Sectel) vem recebendo o apoio altruístico de um grupo de pessoas com décadas de dedicação à arte. Eleito para um mandato de dois anos, o Conselho Municipal de Cultura, chefiado pelo jornalista e escritor Jeremias Macário, vem fazendo um relevante trabalho voluntário.

Os membros do Conselho constataram desde os primeiros dias de atividade que suas proposições esbarravam num vírus que contamina todo o serviço público no país. A burocracia, aliada ao desprezo pela finalidade de sua função, onde o poder executivo empurra as pautas elaboradas pelos conselheiros para debaixo do tapete ou para o fundo das gavetas alegando falta de recursos, como se a cultura fosse coisa secundária.

Reza o manual da Secretaria de Cultura que cabe ao município apoiar manifestações culturais independentes. Nos últimos dez anos um grupo de amigos e admiradores das artes vem preenchendo o desapreço do poder público pela cultura em Conquista. Refiro-me ao Espaço Cultural “A Estrada”, localizado no bairro Guanabara, ao lado de dezenas de espécies vegetais.

De dois em dois meses, sempre num sábado, o Espaço reúne novos amigos, artistas e pessoas do universo cultural conquistense, para ouvir cantorias, poesias, e participar de debates sobre os mais variados assuntos, priorizando as coisas da região, no caso, a música, a literatura, o folclore e as histórias.

Sem nunca ter recebido ajuda oficial, nem mesmo uma menção de aplauso do Legislativo Conquistense, o Espaço “A Estrada” edita um blog com o mesmo nome e coloca à disposição dos interessados um acervo de mais de cinco mil itens, entre livros, vinis, revistas, CDs e DVDs, peças artesanais e quadros fotográficos. Essa valiosa coleção tem como curador vitalício o combatente Jeremias Macário, sertanejo de Piritiba, com 32 anos residindo em Conquista, onde exerceu a chefia da Sucursal do jornal “A Tarde”.

Graças a uma iniciativa do Governo do Estado, através da Secretaria de Justiça e Direitos Humanos, em parceria com o Instituto de Desenvolvimento Social pela Música, 2.324 crianças, adolescentes e jovens integram os 13 núcleos do programa Neojiba, “para que possam desenvolver competências e aptidões múltiplas e assumir diferentes papéis em resposta aos desafios de nosso tempo”. Criado em 2016, o núcleo de Vitória da Conquista tem levado às plateias lotadas o pouco que resta da cultura do Sudoeste baiano.

Festivais literários

Os escritores e interessados em obras literárias – Conquista tem três livrarias e umas quatro ou cinco bancas de jornais e revistas – estão constantemente a perguntar: “Por que a Prefeitura não promove anualmente um festival literário?”. Cidades baianas com menor potencial econômico e cultural têm contado com apoio dos gestores municipais. As feiras, algumas delas com perfil internacional, atraem personalidades literárias e “devoradores” de livros de todo o país, aquecendo a economia da região e dinamizando o turismo, com a oferta de restaurantes e hotéis.

Segundo a Fundação Pedro Calmon, 30 eventos desse tipo foram realizados no ano passado no interior e um em Cajazeiras, periferia de Salvador. “As festas literárias estão chegando para fortalecer o pensamento cultural de cada localidade”, comemora o cordelista  Maviavel Melo, curador da Fliu, em Uauá.

Um aviso aos escritores conquistenses, que “comem” a poeira das estradas como mascates para vender sua produção literária: a cidade de Mucugê, na Chapada Diamantina, promove a 6ª edição da Fligê entre os dias 16 e 20 deste mês.

 

 

 

O JARDIM JAPONÊS

Ainda no Jardim Botânico, o portal da paz de espírito que separa a selva de pedras e a violência da Cidade Maravilhosa do Rio de Janeiro, conforme nos mostra a foto que brotou das minhas lentes. No final do passeio, tragado pela natureza, me deparei com o Jardim Japonês e duas crianças que pegavam a água com as mãos para encher as copas de uma planta, tendo ao lado uma verdadeira tenda daquele país de cultura oriental lá nos confins da Ásia. A cena dos meninos me fez lembrar a fábula do beija-flor que pegava água do mar com o bico para apagar um incêndio.  Um animal ficou espantado com aquela atitude e disse que o pássaro jamais iria apagar o fogo com aquelas gotículas de água, se nem os bombeiros dariam conta do tamanho das labaredas que avançavam. Simplesmente o beija-flor respondeu que estava fazendo a sua parte. Bem, a moral da história todos sabem e pode ser aplicada em qualquer circunstância da vida, como na paz, na solidariedade para com o outro, no espírito da coletividade deixando de ser individualista e tantas outras formas de ajuda. Se cada um fizer a sua parte no bem, o planeta será outro bem melhor do que este em que vivemos, cheio de mentiras, calúnias, atrocidades, ódio, intolerância e egoísmo.

POR QUE SERÁ?

Autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Por que será?

Que a mais gloriosa criação,

Após bilhões de anos,

Galgou a inteligência,

Para se curvar

À arte da corrupção,

E colocou no pódio

O ódio e a intolerância?

 

Será o instinto primitivo,

O real motivo?

 

Por que será?

Que a terra está pegando fogo,

Com ameaça existencial;

O mal virando o jogo,

Nessa era da ebulição global,

Onde o luto ganha da luta?

 

O progresso abiu as portas do inferno,

E eu aqui a queimar neurônios,

Entre o calor de 50 graus,

E o verão do inverno.

 

Por que será?

Que você se contorne

Entre o medo e a ansiedade

Do louco competir,

Atrás de uma felicidade passageira,

Que se acaba na saideira,

Do exótico vulgar consumir?

 

Por que será?

Uns ricos e outros pobres,

Escravos e nobres,

Tantas doenças,

De uns que se agarram nas crenças,

Outros no teorema,

Se Cristo se sacrificou,

Para derrubar o sistema?

 





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