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:: 19/ago/2023 . 0:31

FORMIGA RESISTE EM PERDER AS ASAS

Carlos González – jornalista

Ninguém com bom senso, mesmo aqueles que se mostram ausentes do universo esportivo, vai desconhecer o papel da alagoana Marta no aperfeiçoamento e promoção do futebol feminino neste planeta, traduzido no justo reconhecimento da FIFA, homenageando-a com o título de “Melhor do Mundo” em seis edições do ambicionado prêmio. Mas, aproveitando este raro momento em que a imprensa abre espaço para o Campeonato Mundial que está sendo disputado na Austrália e Nova Zelândia, peço os aplausos das arquibancadas para uma outra mulher nordestina, a baiana Formiga.

Nascida Miraíldes Maciel Mota, em 3 de março de 1978, Formiga chegou a conclusão, aos 12 anos,  que a bola lhe dava mais prazer do que brincar com as bonecas. Três anos depois deixou Salvador e os estudos para vestir a camisa do São Paulo, seu clube de coração. Iniciava no Tricolor paulista uma longa carreira no futebol, que só terminou no ano passado, com 44 anos, atuando no mesmo time onde começou.

Entre essas duas passagens pelo São Paulo, Formiga jogou por 19 clubes, no Brasil, Suécia e Estados Unidos, onde não ganhou tanta projeção. A camisa que caiu bem em seu corpo franzino foi a amarelinha da Seleção Brasileira, que  vestiu 151 vezes, um recorde que era do lateral direito Cafu. Entre 1995 e 2020, a baiana colecionou outros recordes: sete participações em Mundiais e sete em Jogos Olímpicos, além de Pan-Americanos e Sul-Americanos.

O futebol não deu a Formiga a tão desejada independência financeira, talvez pelo fato de não ter permanecido por mais tempo no exterior ou de nunca ter sido relacionada para receber o Prêmio FIFA, ao contrário de Marta que soube aproveitar os períodos passados na Suécia e Estados Unidos. A craque adquiriu há dois meses uma mansão em Orlando (Flórida, EUA) por R$ 8,5 mi, onde vai morar com Carrie Lawrence, sua namorada e companheira no time do Orlando Pride.

Nas conversas sobre futebol, Formiga revela que sua equipe inesquecível foi a Seleção que venceu o Pan de 2007 no Rio de Janeiro, derrotando na final as favoritas norte-americanas, campeãs mundiais, diante de um público de 70 mil pessoas. Ao seu lado estavam as companheiras Marta e Cristiana.

“A partir daquele jogo com o Maracanã lotado o Brasil passou a enxergar o futebol feminino. Vencemos os seis jogos sem tomar um gol e marcamos 33, sendo 5 contra as americanas. Naquele mesmo ano fomos vice-campeãs mundiais, atrás da Alemanha.- recorda Formiga, que se orgulha de ter formado o trio que revolucionou o futebol feminino no país, ao lado de Marta e Cristiana.

Imortalizada no Museu do Futebol, ocupando junto com Marta a Sala Anjos Barrocos, onde só havia jogadores homens, e homenageada pelo cartunista Maurício de Sousa como personagem da Turma da Mônica, Formiga sonhava com uma convocação para a Copa do Mundo da Oceania, para ter uma despedida meritória, como a que foi proporcionada a Marta. Seu objetivo é permanecer no futebol como técnica ou gestora. No momento, a ex-jogadora está comentando o Mundial para o Grupo Globo.

Não vai haver mais Marta, Formiga e Cristiane. Este trio se dedicou cem por cento, deu sangue, deu alma, deu coração, e formou uma base para as meninas que estão chegando hoje – ressaltou Formiga, aproveitando para mandar um recado às suas sucessoras na equipe nacional, que estavam se preparando na Austrália para a estreia na Copa: “O futebol está passando por um processo onde não há mais uma grande distância entre os países”.

Eliminação precoce

Depois de exatos 30 dias de adaptação na Austrália, a Seleção Brasileira foi uma das primeiras “surpresas” do Mundial, ao cair na fase de grupos diante da modesta Jamaica, cujas jogadoras tiveram que fazer uma “vaquinha” para pagar as despesas de viagem. Outras equipes favoritas à conquista do título também ficaram pelo caminho, inclusive as quatro campeãs do mundo: Estados Unidos (quatro vezes), Alemanha (duas), Japão e Noruega (uma vez cada).

“O choro de hoje pode se transformar num sorriso daqui a um ano nas Olimpíadas de Paris”. Palavras de consolo da experiente Marta, que esteve em campo durante quase toda a partida contra a Jamaica, empenhando-se pela vitória que alimentaria o sonho da conquista de um troféu que vai continuar faltando em sua carreira.

Ao contrário dos mundiais anteriores que passaram despercebidos da maioria dos brasileiros, a nona edição do torneio foi muito badalada pela imprensa, especialmente pela Rede Globo, que tirou o torcedor da cama mais cedo para assistir aos jogos, transferindo para o povão, carente de prazeres, uma dose exagerada de otimismo.

Nos bairros pobres, ruas foram ornamentadas de bandeirola; moradores se cotizaram para que fosse servido um reforçado café da manhã; a batucada acordou aqueles que insistiam em ficar na cama; folgas no trabalho e ponto facultativo nas repartições públicas e estudantes fora das escolas. Não importava se as partidas iniciavam às 4 horas da madrugada ou às 7 da manhã .Esse excesso de confiança atravessou mares e montanhas e chegou à longínqua Oceania, mexendo com o psique das nossas meninas, que sentiram nos ombros o peso da carga de responsabilidade. A Pátria voltou a calçar chuteiras, diria, se fosse vivo, o jornalista e dramaturgo Nelson Rodrigues, autor da célebre frase: “O futebol é o ópio do povo”.

Como sempre ocorre após as derrotas “inesperadas” da Seleção foi aberta a caça ao culpado ou culpados. As “armas” foram inicialmente apontadas para a técnica, a sueca Pia Sundhage, que viajou o mais rápido possível para o seu país, acompanhada das três assistentes, de onde mandou um bilhete para Ednaldo Rodrigues, presidente da CBF, pedindo para continuar à frente da Seleção feminina até os Jogos Olímpicos do próximo ano.

UOutro alvo das críticas de parte da imprensa esportiva do Rio e São Paulo, preconceituosa com relação ao nordestino, foi o Ednaldo Rodrigues. Eleito em março de 2022 para a presidência da CBF, o Nadinho dos babas de Vitória da Conquista, não “caiu nas graças” dos que viviam bajulando os ex-dirigentes, julgados e condenados por atos ilícitos. O conquistense, que chegou ao cargo de maior projeção no futebol brasileiro, foi desaprovado ´pela demora em escolher o substituto de Tite no comando do time masculino. Certas matérias dos jornais revelam nas entrelinhas o rótulo de “pé frio” dado a Ednaldo Rodrigues, ressaltando que sob sua gestão seleções nacionais perderam os Mundiais do Qatar, da Austrália-Nova Zelândia e o Sub-20 na Argentina.

A CBF ainda não tomou uma decisão sobre o futebol feminino. Após a eliminação do Mundial, Ednaldo prometeu maiores investimentos. Por sugestão da ministra dos Esportes, Vera Moser, o Brasil é candidato a promover a próxima Copa do Mundo, em 2027.  A FIFA escolherá o local ainda este ano.

 

 

“A MORTE DE IVAN ILITCH”

Ele viveu falando e dialogando com a vida e a morte. O que é o certo? O que é o incorreto? A luta entre o passado pela ascensão e o dinheiro, o presente e o futuro. Ele achava ser um ente especial que não deveria ser atingido pela morte.

“A Morte de Ivan Ilitch”, de Liev Tolstói, é um conto que mistura existencialismo com espiritualismo e prende o leitor num só fôlego. “E a morte? Onde ela está”? Como narrador, o autor diz que ele estava procurando no seu antigo e habitual medo da morte e não o encontrava. Onde está? Que morte? Não havia medo algum, porque não havia a morte. Em vez da morte, havia luz.

O autor da obra é narrador e, seu personagem, fala em primeira e terceira pessoa quando se refere a ele mesmo em pensamentos sobre o que fez da sua vida e o interroga que poderia ter sido diferente, poderia ter sido melhor. Suas reflexões são um mergulho dentro de si mesmo, com pontos existencialistas.

O personagem, Ivan Ilitch Golovin, é um funcionário público russo, juiz de instrução, bem-sucedido. Casa-se com uma mulher exigente e por isso se dedica ao trabalho até ser um magistrado respeitado. Esse trabalho torna-se um refúgio para evitar a família.

Um dia ele adoece e começa a sentir fortes dores nos rins. Os médicos não conseguem diagnosticar seu problema. O ferimento agrava-se e Ivan passa a sofrer e a penar ao ponto de não ter mais domínio sobre si. A partir daí ele passa a questionar a vida e a morte, mas deseja morrer para se livrar das dores.

Ivan começa um longo processo em busca do sentido da vida e percebe que teve poucos momentos de significado. Eu acho uma hipocrisia fingir que o sofrimento me impede de fazer coisas práticas – confessa para um amigo.

Em certo momento da sua vida de enfermo, ele acha que, por ser um grande funcionário de uma boa posição, não deveria ser morto. Sente que é invejado. No conto, o autor trava um embate filosófico onde o personagem diz não conseguir entender que estava morrendo.

Ivan estudou a lógica do filósofo alemão Kiesewetter onde afirma que “Caio é uma pessoa, as pessoas são mortais, portanto, Caio é mortal”. Para o personagem estava correto em relação ao Caio (um Zè Ninguém comparado ao nosso), mas não em relação a ele. Caio era uma pessoa geral, e isso era perfeitamente justo; mas ele não era o Caio e nem uma pessoa geral. Ele sempre fora muito especial em relação a todas as outras criaturas.

No conto, Tolstói escancara a sociedade de mentiras, das pessoas que procuram viver de aparência imitando os mais ricos, como fazia o seu personagem. Em sua doença, ele gostaria de receber carinhos, de ser paparicado e que tivessem pena dele. O que ele via nos rostos da mulher, dos filhos e amigos era só mentiras.

No final da sua morte, o autor narra que todos os três dias, durante os quais, para ele, não havia tempo, ele rolava dentro daquele saco preto, para dentro do qual uma força superior e invisível o empurrara. Ele lutava como luta um condenado à morte nas mãos do carrasco, sabendo que não pode se salvar; e a cada minuto ele sentia que, apesar de todos os esforços da luta, estava cada vez mais próximo daquilo que o aterrorizava.

Desde o início da doença, conforme narra o escritor, sua vida dividira-se em dois estados de espírito opostos, que substituíam um ao outro: Um era o desespero e a expectativa de uma morte obscura e horrível; o outro era a esperança e o interesse em monitorar as atividades de seu corpo.

Tolstói nasceu em 1828, em Yasnaya Polyana, na Rússia, no tempo do czar, na propriedade rural de seus pais. Ingressou na Universidade de Kazan para estudar línguas orientais, mas abandonou o curso para ir a Moscou e depois para Petesburgo. Em 1851 alistou-se no exército, servindo no Cáucaso onde começou sua carreira de escritor. No auge do sucesso passa a ter sucessivas crises existenciais. Fugiu de casa aos 82 anos para se retirar em um mosteiro, mas faleceu a caminho vítima de pneumonia, na estação ferroviária de Astápovo, em 1910, quando já estava a caminho as revoluções socialistas de Lenin, Trotsky e Stalin.





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