:: 8/set/2023 . 22:35
NO PARAÍSO DAS TRAMBICAGENS E TRAPAÇAS
Existem os paraísos fiscais, os paraísos das belezas naturais e os dos céus prometidos pela Bíblia aos que fazem o bem, pelo Alcorão e até pelos islâmicos fanáticos para quem matar o ”inimigo infiel” recebe a glória dos reinos. Aqui perto de nós, na fronteira (não difere muito do nosso) existe o paraíso dos contrabandos, do narcotráfico e dos produtos falsificados, no caso o Paraguai.
Em nosso Brasil varonil, terra de Santa Cruz e do Pau Brasil, desde que aqui aportou a esquadra de degredados corruptos de Cabral, prospera e floresce o paraíso das trambicagens e das trapaças. Caminha não citou em sua carta ao El Rei D. Manuel, mas foram as culturas que mais se adaptaram ao fértil solo, com invejáveis produtividades, graças ao benemérito da impunidade.
São 523 anos de trambicagens e trapaças de todas espécies inimagináveis praticadas por astutos e espertos que deixam embasbacadas a nossa vã filosofia de procurar entender o que ocorre na cabeça desses seres humanos que entregam suas almas ao diabo da ganância, ou com ele fazem um pacto, como se não existisse o infalível ciclo da vida e da morte.
Umas das características do trapaceiro golpista é o cinismo, a frieza para o mal e ausência total de sentimentos para com o outro, que sempre enxerga sua vítima simplesmente como uma presa a ser abocanhada. É o maior predador que não mata apenas para saciar sua fome. Por natureza, é um masoquista com má formação congênita.
A consequência de tudo isso é que atualmente ninguém confia mais em ninguém e nos tornamos desumanizados. Sempre existiram golpes de trapaceiros, mas, ao passar do tempo, a ordem é crescente. Temos desde o velho conto do vigário, o bilhete falsificado, a venda de produtos falsificados como autênticos aos mais sofisticados com ajuda da internet através das redes sociais, inclusive de dentro das penitenciárias.
Interessante nisso tudo é que os “empresários” trapaceiros não são considerados bandidos. Coisas da nossa sociedade hipócrita. Vejam o caso recente da “123 Milhas”. Com a ganância de ganhar mais dinheiro, eles enganaram os clientes com passagens aéreas promocionais além da conta, como a famosa pirâmide. Não honraram os compromissos, e os compradores ficaram a ver navios.
A empresa pede falência na Justiça, como de praxe, e um dos sócios, com a maior cara de pau, ler um discurso pronto diante de uma comissão do Congresso Nacional dando sua fajuta justificativa e pede desculpas. Depois se abraçam com tapinhas nas costas e saem com seus motoristas em carros importados. E a grande maioria dos nossos políticos? Também fazem parte desse paraíso dos batedores de carteiras.
Ninguém é punido exemplarmente. Gostaria de saber se esses caras ficaram pobres. Que nada, compraram bens em nomes de laranjas e vivem em suas mansões luxuosas, viajando em outros paraísos financeiros, tomando seus uísques e curtindo com a cara dos outros. Os diretores das Lojas Americanas fizeram praticamente o mesmo. Deram um rombo nas contas da empresa.
Os banqueiros também estão dentro desse rol de fechamento das instituições bancárias. Os clientes perdem poupança, investimentos e depósitos. O pior é que no sistema financeiro o Governo do Estado ainda entra com o dinheiro do contribuinte para socorrer os estabelecimentos. É o mesmo que premiar os corruptos. Ninguém vai para a cadeia e quando chega lá, demora pouco tempo.
Nesse paraíso das trambicagens devemos ter mais de 100 milhões de safados (estou sendo generoso) dos 200 milhões de habitantes. Poucos são sérios, tendo em vista que uma grande parcela é culpada porque quando ver facilidades cai dentro visando tirar vantagem e termina se lascando, inclusive nos golpes mais comuns.
A Divina Comédia, de Dante Alighieri, quando ele visita os pecadores no inferno com Virgílio cai muito bem no caso brasileiro. Lá estão eles com os demônios, cada um em sua camada ou círculo de penas, os trambiqueiros, os trapaceiros, os astutos, os avarentos, usurários, golpistas, os fraudadores e os violentos contra o meio ambiente no fundo dos abismos sendo açoitados.
Veja no que diz o autor em um de seus cantos: “Da antiga ponte divisamos triste,/ Longa fileira: Contra nós andava./ Cruel açoite em flagelar persiste”. Noutra estrofe, Dante descreve: “Estão lá no fundo nus os pecadores:/Do meio contra nós muitos caminham, / Outros conosco, em passos já maiores”.
A DIVINA COMÉDIA-INFERNO
DANTE ALIGHIERI – Tradução de José Pedro Xavier Pinheiro
No XIX Canto, em sua visita ao inferno com Virgílio, o florentino Dante descreve que no terceiro compartimento, aonde os poetas chegam, são punidos os simoníacos (mercadores das coisas sagradas). “Estão eles, de cabeça para dentro, metidos em furos feitos no fundo e nas encostas do compartimento”.
Em sua descrição, o autor de A Divina Comédia assinala que “as plantas dos pés, que estão fora dos buracos, são queimadas por chamas. Ele quer saber quem era um danado que mais do que outros agitava os pés. É o Papa Nicolau III da Casa Orsini, o qual diz que estava à espera de ser rendido por outros papas simoníacos”.
O poeta descarrega toda sua verve contra a avareza e os escândalos dos papas romanos. Na primeira estrofe do Canto XIX, Dante começa dizendo: “Ó Simão Mago (queria comprar a virtude de chamar o Espírito Santo), ó míseros sequazes/Por quem de Deus os dons só prometidos/A virtude, em rapina contumazes”.
Nesse Canto, o autor fala da subversão dos papas por ouro e prata pelos quais são prostituídos. “Saber supremo! Que inefável arte/Mostras no céu, na terra e infernal mundo!/Oh! Teu poder quão justo se reparte!”
Em outro Canto da sua obra, na XVIII, Dante faz uma visita aos punidos pelo pecado da bajulação para se dar bem na vida, passando por cima dos outros, sem nenhum escrúpulo. Sua visão daquela sociedade do século XIII (Dante nasceu em Florença no ano de 1265) ainda está atual para o mundo de hoje.
Nos governos, especialmente no Brasil, os bajuladores, indicados pelos políticos, o chamado QI (não conta aqui a meritocracia) se vendem e são passíveis de corrupção e subornos e fazem o que seus chefes mandam, cometendo desatinos e malfeitos.
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