:: 21/set/2023 . 23:49
POR QUE SUIÇA BAIANA?
Carlos González – jornalista
As frases ditas há mais de meio século pelo polêmico jornalista Nelson Rodrigues continuam atuais, assim como sua obra literária, suas peças teatrais, seus princípios conservadores e seu amor pelo futebol. Uma de suas mais conhecidas teorias, a que deu o nome de Complexo de Vira-Lata”, coloca em discussão a baixa autoestima do brasileiro, pródigo em acatar o que vem de fora.
Se vivo estivesse, o escritor pernambucano, autor de “À Sombra das Chuteiras Imortais”, bradaria com veemência, com voz rouca e o cigarro no canto da boca, contra a ausência de orgulho do conquistense, inclusive da mídia local, ao se referir a sua terra como a “Suíça Baiana”.
Segundo os defensores do termo inadequado há uma semelhança entre as condições climáticas de Vitória da Conquista e da Suíça. O que não é verdade. Celebrado como modelo de desenvolvimento econômico e social, a Suíça registra entre dezembro e fevereiro temperaturas abaixo de zero. Aqui, os termômetros raramente chegam aos 10 graus.
De acordo com os meteorologistas, Piatã e Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, registram as mais baixas temperaturas na Bahia, seguidos de Vitória da Conquista. O inverno este ano não foi tão severo com a população conquistense, vítima do aquecimento global, como bilhões de pessoas neste planeta.
Como todos podem observar, o comércio varejista de artigos de vestuário deixou de vender como em anos anteriores e vai ter que esperar 2024 para repassar ao consumidor o que está estocado. No recente Festival de Inverno, as jovens usavam vestidos de alça, porque os termômetros, mesmo nas madrugadas, insistiam em marcar temperaturas amenas.
O autor dessa discordante comparação preferiu ficar no anonimato, ao contrário do romancista francês Albert Camus, que em 1949 deu ao Recife a alcunha de Veneza brasileira, fascinado com a topografia da cidade, cortada por pontes sobre os rios Capibaribe e Beberibe. Na verdade, o recifense nunca se revelou envaidecido pelo qualificativo dado por um europeu.
Arraial de Conquista foi o nome que o sertanista português deu em 1783 à região que se tornaria uma espécie de capital do Sudoeste baiano e do Norte mineiro. Em julho de 1891, a antiga vila foi elevada à categoria de cidade, batizada de Conquista, recebendo em dezembro de 1943 o prenome de Vitória porque já havia em Minas Gerais um município com o mesmo nome.
Com uma área de 3.254.186 km² e uma população de 387.524 habitantes (Censo de 2022), Vitória da Conquista exibe indicadores econômicos e sociais que a colocam no top 10 entre os municípios nordestinos, excetuando as capitais. No entanto, está longe de rivalizar com cidades do mesmo porte situadas no Sul e Sudeste, em parte por culpa dos seus gestores e legisladores, que substituem o trabalho pela politicagem.
No passado, Conquista foi rotulada como a “Capital do Café”. As lavouras da rubiácea ocupavam grandes áreas do Planalto Conquistense. Essa honraria foi “roubada” pelos nossos vizinhos da pequena, mas empreendedora Barra do Choça, que vem exportando para o exterior um café de ótima qualidade.
Do café ao biscoito. Por iniciativa do vereador Edvaldo Ferreira Jr. (MDB), Conquista poderá receber o título de “Capital Estadual do Biscoito”. O projeto de lei foi encaminhado ao deputado Tiago Correa (PSDB) para ser votado pela Assembleia Legislativa do Estado.
Autor de dois projetos qualificados como controversos (moção de aplausos para o empresário bolsonarista Luciano Hank (o homem do terno verde) e construção de um cemitério para cães de estimação), o vereador emedebista justifica sua proposta: “A fabricação do biscoito avoador coloca a cidade na rota do empreendedorismo e do turismo na Bahia e faz parte de uma enorme cadeia produtiva que gera emprego e renda para Conquista”. Edvaldo Jr. também idealiza criar a “Semana do Biscoito”.
Lembro que, em setembro do ano passado, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema Neto, sancionou a Lei 23.946, criando a “Capital Estadual do Café com Biscoito” e a “Capital Estadual do Biscoito Artesanal”, credenciais dadas, respectivamente, às cidades de São Tiago e Japomar.
Retomando a nossa conversa sobre Nelson Rodrigues, recordo sua paixão pela Seleção Brasileira e pelo Fluminense (“Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar”). Na sede do clube, em Laranjeiras, no Rio, foi colocado um busto em homenagem ao criador do Sobrenatural do Almeida, uma espécie de anjo de guarda do Tricolor.
A Seleção Brasileira de 1958 foi a razão que levou Nélson Rodrigues a escrever a crônica “Complexo de Vira-Lata”, publicada na semana que antecedeu a estreia da equipe comandada pelo técnico Vicente Feola na Copa do Mundo da Suécia, onde ganhou sua primeira “Jules Rimet”.
Diante das frustrações causadas pelos times de 1950 (derrota para o Uruguai na partida final) e de 1954 (goleado pela Hungria nas quartas de final), o de 1958 levou na bagagem para a Suécia o descrédito do torcedor brasileiro. Um dos poucos otimistas, Nelson Rodrigues escreveu: “Perdemos em 1950 de maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: Obdulio Varela (“capitão” da equipe uruguaia) nos tratou a pontapés, como se vira-lata fôssemos”. A maldita expressão atravessou décadas e tem sido até hoje tema de estudos e debates nos círculos literários e sociais.
Peço licença aos meus colegas de imprensa que evitem se referir a Vitória da Conquista como a “Suíça Baiana”. Vamos lembrar do pequeno (área de 41.285 km²) país do centro da Europa como um exemplo de democracia, de economia estável, de excelente qualidade de vida, e um dos principais destinos turísticos do mundo.
NAS PORTAS DO INFERNO
O Secretário Geral da ONU (Organização das Nações Unidas), em seu pronunciamento, foi incisivo em suas palavras (realista) quando declarou que a humanidade abriu as portas do inferno. Ele estava se referindo ao aquecimento global advindo dos estragos contra o meio ambiente, seguidos das catástrofes e tragédias no planeta, e não estava exagerando. Concordo de que já estamos nas portas do inferno, e mais ainda, de que não existe mais retorno porque a ordem é cada vez mais consumir. O capital não para com os desmatamentos para expansão do agronegócio (plantar grãos e pastagens para bois) e, cada vez mais, joga CO2 e metano no ar. Os rios estão poluídos de substâncias tóxicas, e o que é reciclado e recuperado com plantios de árvores significam o mínimo em relação à destruição da terra. Milhões de toneladas de lixo são jogados todos os dias nos mares e no planeta a fora. A nossa terra treme e geme em todas as partes, até aqui no sudeste, as tempestades são avassaladoras, o calor ultrapassa os 40 graus, o deserto vira lama na África e já temos ciclones até no Brasil, coisa imaginária em tempos passados. Aqui mesmo em nossa casa, digo nossa região de Vitória da Conquista, nossos campos de florestas foram desmatados para se plantar café, eucalipto e criar gado. Fiquei a observar isso mais de perto nesta semana quando fui visitar uma fazenda entre Conquista e Barra do Choça. Por essas e outros é que sempre digo que a conta, entre o que é depredado e recuperado, nunca bate e não existe mais retorno para reduzir as temperaturas a níveis toleráveis.
A CONTA NUNCA BATE
Autoria do escritor e jornalista Jeremias Macário
Nesse ciclo de tanto estrago,
Entre consumo e o reciclável
Da economia sustentável,
A conta nunca bate,
Tomo mais um trago,
Que se reparte,
Na resistência da arte.
O capital só quer consumo,
Indica quem leva o fumo.
A chapa só esquenta,
Nas estações de forno,
Onde não existe retorno.
Nos raros telefones de amor,
Oh, meu Senhor!
Nesse vosso paraíso,
Do apocalipse final juízo,
Assola a solidão,
Na loucura da contramão,
Desse metal vil,
Dos ciclones até no Brasil.
A conta nunca bate,
E ninguém ouve o vate.
Treme e geme a terra,
Na guerra, frio e calor,
Da flora, lágrimas de fogo,
Larvas espirram dos vulcões,
Do caos devastador:
Brasas, fumaças e chamas,
Tempestades engolem multidões,
Nos desertos de lamas.
Do leste ao oeste,
Do norte ao sul,
Lá vem Deus deslizando
Entre raios e trovões,
Como profetizou
Nosso maluco Raul.
Conferências climáticas,
Para reduzir o metano,
O C O Dois,
Nas propostas temáticas,
E tudo fica para depois.
Meu peito sangra de dor,
Nas asas do beija-flor!
Tentando salvar a floresta
Que o homem incendiou.
Só que nesse embate,
Todos só querem festa,
E a conta nunca bate.
TÁ PEGANDO FOGO!
(Chico Ribeiro Neto)
Estava começando a dormir, umas 22 horas, e despertei com os gritos dos vizinhos: “Tá pegando fogo!”: “É incêndio!”; “Não usem o elevador!”. Assustado, corri pra janela para ver onde era o fogo. Será que dá pra pular pela janela sem quebrar nada? Aos 75 anos, tá difícil.
Havia muita fumaça, mas vi que o fogo era no prédio vizinho. E foi um corre-corre danado. O zelador disse depois: “Nunca vi tanto velho descendo correndo pela escada”. Num instante se formou uma multidão de curiosos e vizinhos. O grande Millôr Fernandes escreveu: “Os homens não são bons, são curiosos”.
O melhor são as versões. Cada um conta uma história:
– Eu soube que queimou o apartamento todo.
– Mentira, só queimou a sala e a cozinha. O banheiro chamuscou um pouquinho e nos quartos não teve nada.
– Eu soube que foi uma vela acesa.
– Já eu ouvi dizer que foi curto-circuito.
– Soube que foi a mulher que deixou o ferro ligado.
– Ela deixou foi a boca do fogão aberta. Quando o marido acendeu a luz, o pau quebrou.
– O marido dela deixou o celular carregando e foi pra rua.
– E o cachorro? Eles não tinham um cachorro?
– O cachorro morreu queimado.
– Mentira, o cachorro escapou, não teve nada.
– O cachorro fugiu quando o fogo começou e não voltou até agora.
– Eu soube que o cachorro só queimou o rabo.
– E tinha cachorro no apartamento?
E os bombeiros?
– Meu filho, quando os bombeiros chegaram, o incêndio já tinha acabado.
– Mentira, os bombeiros chegaram a tempo e jogaram foi muita água.
– Interessante, eu nem vi os bombeiros.
– Você não ouviu a sirene, não, homem?
Uma vizinha falava pra outra: “Minha filha, outro dia eu vi na Internet que a gente precisa ter em casa a Pasta do Incêndio. Você junta tudo de documento importante – escritura do apartamento, identidade, título, cartões do banco e de crédito, passaporte – e coloca tudo numa pasta. Na hora do incêndio é só pegar ela e sair correndo”.
Outro dia assaltaram uma farmácia na Pituba. Veja os comentários:
– Foram cinco assaltantes. Quatro entraram e um ficou do lado de fora dando cobertura se chegasse a Polícia.
– Não, senhor, eram seis, pois ainda tinha o que ficou no carro esperando.
– Eu tava lá dentro na hora pegando meu remédio de pressão. Só vi três: dois entraram e um ficou montando guarda lá fora.
– E teve assalto? Eu moro aqui do lado da farmácia e não vi nada.
(Veja crônicas anteriores em leiamaisba.com.br)
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