POR QUE SUIÇA BAIANA?
Carlos González – jornalista
As frases ditas há mais de meio século pelo polêmico jornalista Nelson Rodrigues continuam atuais, assim como sua obra literária, suas peças teatrais, seus princípios conservadores e seu amor pelo futebol. Uma de suas mais conhecidas teorias, a que deu o nome de Complexo de Vira-Lata”, coloca em discussão a baixa autoestima do brasileiro, pródigo em acatar o que vem de fora.
Se vivo estivesse, o escritor pernambucano, autor de “À Sombra das Chuteiras Imortais”, bradaria com veemência, com voz rouca e o cigarro no canto da boca, contra a ausência de orgulho do conquistense, inclusive da mídia local, ao se referir a sua terra como a “Suíça Baiana”.
Segundo os defensores do termo inadequado há uma semelhança entre as condições climáticas de Vitória da Conquista e da Suíça. O que não é verdade. Celebrado como modelo de desenvolvimento econômico e social, a Suíça registra entre dezembro e fevereiro temperaturas abaixo de zero. Aqui, os termômetros raramente chegam aos 10 graus.
De acordo com os meteorologistas, Piatã e Morro do Chapéu, na Chapada Diamantina, registram as mais baixas temperaturas na Bahia, seguidos de Vitória da Conquista. O inverno este ano não foi tão severo com a população conquistense, vítima do aquecimento global, como bilhões de pessoas neste planeta.
Como todos podem observar, o comércio varejista de artigos de vestuário deixou de vender como em anos anteriores e vai ter que esperar 2024 para repassar ao consumidor o que está estocado. No recente Festival de Inverno, as jovens usavam vestidos de alça, porque os termômetros, mesmo nas madrugadas, insistiam em marcar temperaturas amenas.
O autor dessa discordante comparação preferiu ficar no anonimato, ao contrário do romancista francês Albert Camus, que em 1949 deu ao Recife a alcunha de Veneza brasileira, fascinado com a topografia da cidade, cortada por pontes sobre os rios Capibaribe e Beberibe. Na verdade, o recifense nunca se revelou envaidecido pelo qualificativo dado por um europeu.
Arraial de Conquista foi o nome que o sertanista português deu em 1783 à região que se tornaria uma espécie de capital do Sudoeste baiano e do Norte mineiro. Em julho de 1891, a antiga vila foi elevada à categoria de cidade, batizada de Conquista, recebendo em dezembro de 1943 o prenome de Vitória porque já havia em Minas Gerais um município com o mesmo nome.
Com uma área de 3.254.186 km² e uma população de 387.524 habitantes (Censo de 2022), Vitória da Conquista exibe indicadores econômicos e sociais que a colocam no top 10 entre os municípios nordestinos, excetuando as capitais. No entanto, está longe de rivalizar com cidades do mesmo porte situadas no Sul e Sudeste, em parte por culpa dos seus gestores e legisladores, que substituem o trabalho pela politicagem.
No passado, Conquista foi rotulada como a “Capital do Café”. As lavouras da rubiácea ocupavam grandes áreas do Planalto Conquistense. Essa honraria foi “roubada” pelos nossos vizinhos da pequena, mas empreendedora Barra do Choça, que vem exportando para o exterior um café de ótima qualidade.
Do café ao biscoito. Por iniciativa do vereador Edvaldo Ferreira Jr. (MDB), Conquista poderá receber o título de “Capital Estadual do Biscoito”. O projeto de lei foi encaminhado ao deputado Tiago Correa (PSDB) para ser votado pela Assembleia Legislativa do Estado.
Autor de dois projetos qualificados como controversos (moção de aplausos para o empresário bolsonarista Luciano Hank (o homem do terno verde) e construção de um cemitério para cães de estimação), o vereador emedebista justifica sua proposta: “A fabricação do biscoito avoador coloca a cidade na rota do empreendedorismo e do turismo na Bahia e faz parte de uma enorme cadeia produtiva que gera emprego e renda para Conquista”. Edvaldo Jr. também idealiza criar a “Semana do Biscoito”.
Lembro que, em setembro do ano passado, o governador de Minas Gerais, Romeu Zema Neto, sancionou a Lei 23.946, criando a “Capital Estadual do Café com Biscoito” e a “Capital Estadual do Biscoito Artesanal”, credenciais dadas, respectivamente, às cidades de São Tiago e Japomar.
Retomando a nossa conversa sobre Nelson Rodrigues, recordo sua paixão pela Seleção Brasileira e pelo Fluminense (“Se o Fluminense jogasse no céu, eu morreria para vê-lo jogar”). Na sede do clube, em Laranjeiras, no Rio, foi colocado um busto em homenagem ao criador do Sobrenatural do Almeida, uma espécie de anjo de guarda do Tricolor.
A Seleção Brasileira de 1958 foi a razão que levou Nélson Rodrigues a escrever a crônica “Complexo de Vira-Lata”, publicada na semana que antecedeu a estreia da equipe comandada pelo técnico Vicente Feola na Copa do Mundo da Suécia, onde ganhou sua primeira “Jules Rimet”.
Diante das frustrações causadas pelos times de 1950 (derrota para o Uruguai na partida final) e de 1954 (goleado pela Hungria nas quartas de final), o de 1958 levou na bagagem para a Suécia o descrédito do torcedor brasileiro. Um dos poucos otimistas, Nelson Rodrigues escreveu: “Perdemos em 1950 de maneira mais abjeta. Por um motivo muito simples: Obdulio Varela (“capitão” da equipe uruguaia) nos tratou a pontapés, como se vira-lata fôssemos”. A maldita expressão atravessou décadas e tem sido até hoje tema de estudos e debates nos círculos literários e sociais.
Peço licença aos meus colegas de imprensa que evitem se referir a Vitória da Conquista como a “Suíça Baiana”. Vamos lembrar do pequeno (área de 41.285 km²) país do centro da Europa como um exemplo de democracia, de economia estável, de excelente qualidade de vida, e um dos principais destinos turísticos do mundo.











