:: ‘Na Rota da Poesia’
NUNCA DIGA QUE É NADA
Mais uma recente da lavra do jornalista e escritor Jeremias Macário
Se duvido do sentido do ser,
Pior é viver sem você.
Minha alma chora,
Quando meu mal lhe devora.
Perdão lhe peço, meu amor,
Se minha flecha lhe sangrou.
A vida é cheia de cilada,
Mas nunca diga que é nada,
Pelo espelho do outro,
Por achar ser sensacional.
Mire em sua virtude especial,
De transmitir felicidade,
Para os seus da comunidade.
Todos com suas frustrações.
Não condene seu destino,
Nem entre em desatino,
Por causa das decepções.
Nunca diga que é nada,
Porque uns vivem no luxo,
E você arrasta sua enxada.
Olhe para dentro de si,
Do seu nobre sentimental,
Que já fez tanto bem social,
Com seu olhar de amar,
Coisa que nunca vi igual.
De espírito criativo,
De energia visceral,
Sem você não mais vivo,
Minha maior amada:
Me julgue como quiser,
Mas nunca diga que é nada.
Ainda estou em pé,
Na minha nesga fé,
De peregrino errante,
Com meu pecado repugnante,
E nem me pergunte,
Que nem tenho o saber,
De a mim mesmo responder.
Você tem luz que me ilumina,
Ouro reluzente dessa mina;
Esbanja seu sorriso alegre:
Sei disso e não negue,
E ainda diz que não é nada,
Em sua árdua jornada?
Nunca diga que é nada,
Porque o nada não existe,
Nesse universo sideral.
Sua própria existência,
De pensar é o sinal,
Pra não dizer ser nada.
ALMA SECA
Um dos trechos do Livro II da obra “Airyl”, de Luis Altério, pseudônimo de Luis Filipe da Silva, Edições Uesb – prêmio professora Zélia Saldanha – Poesia:
Nada amarga mais que doce utilidade do carme.
Avanço a pleitear contenção…
Os glúteos amam o assento áspero,
Trespassa de feixes luzentes a laje fria,
Derrete o vínculo dial na escrivaninha e
Tomando desses elos a liberdade
Espargindo cada uma das partes do todo.
Todo o desaire mofo com pompa
(sacudido no estendal farpado)
Ostenta lapela de trato fino.
< fino quilate na arruinada peneira.
A picareta mole contentado,
Preconiza bebedeiras e mulheres
Nas ruas de luxilo,
Grão diamantífero em punhado escanifrado,
Sua dama de regresso à cubata
Equilibrava pequena cápsula
(dez kwanzas de óleo alimentar),
Os filhos debaixo da frondosa mangueira
Sortidos nas mínguas da terra batida
(que pela arraiada requestaram no capim ratos
Colhidos pelos seus engenhosos ardis) e juntos
Pingo dilatado e à vez de iguaria grossa e indelicada
Cevam sopa de rato e funge de mandioca.
A picareta mole ruma ao dundo
Deixando as margens do rio migigi,
Dançando na lâmina vil do mercado negro>
Agora desfeita a quimera,
No cárcere sonha com o cascalho
Coado com a arruinada peneira
Luis Altério nasceu na França e foi para Portugal com a família quando tinha seis anos. Hoje reside em Vitória da Conquista.
PÁSSARO SOLITÁRIO
Mais uma da lavra do jornalista e escritor Jeremias Macário
Voa pássaro solitário!
Com sua magia existencial,
Nas asas do seu ideário,
No ventre do vento açoite,
Nas correntes do dia e da noite,
Entre divisas do bem e do mal.
Voa pássaro solitário!
Corta as águas desses mares,
Como navegador planetário,
Bailando nesse céu dos ares!
Voa pássaro!
Testemunha dos navios negreiros,
Dos gemidos da escravidão,
Que aqui criaram terreiros,
Nos atabaques fizeram religião.
Voa pássaro solitário!
No rasante da liberdade,
Nessa terra tão desigual,
Da mediocridade virtual.
Voa pássaro solitário!
Acalenta minha alma,
Que vem do além-mar,
Do índio, banto-jêje,
Do nagô-iorubá.
Voa pássaro solitário!
Nessa seca do sertão;
Recarregue minhas forças,
E me devolva inspiração.
Voa pássaro solitário!
Conte para mim,
O segredo dessa vida,
Se nela existe sentido,
Entre chegada e saída.
Voa pássaro!
Ensina a esse rebanho,
Seguir crente em frente,
Na alegria ou na agonia,
Espinhos nas flores amores,
A nunca perder seu sonho.
EU VI TUDO
Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Parodiando o cancioneiro Raul,
Te conheci há cinco mil anos,
Do leste oeste, norte a sul,
Trago comigo o sangue cigano,
Alma negra, mestiça- iberiana,
E vivi no mundo dos insanos.
Não mais me importo,
Com a inveja de fulano;
Vivi até no faroeste americano,
Vi Cristo nascer em Belém,
Na palestina de Jerusalém.
Vi tudo nesse mundo imundo;
Aníbal estraçalhar os romanos;
Spartacus com cem mil escravos,
Derrubar gauleses, celtas e eslavos.
Vi Portugal criar a escravidão,
Lá em Gana na Costa da Mina;
A triste sina da chibata africana;
O terror dos senhores da cana,
Dos cafezais e da mineração.
Vi a Igreja conivente trair sua fé;
Hitler e Stalin matar milhões;
Fidel e Cheguevara tomar Cuba;
Toda essa loucura capitalista,
Estuprar o ideal socialista.
Vi o muro de Berlim cair;
A terra girar em torno de mim;
Roma ser incendiada por Nero,
E em seu violino cantar bolero.
Vi a Revolução Francesa
Cortar cabeças de reis e rainhas,
E me embriaguei nas vinhas.
Quando perdi o existir da certeza.
De carro de boi ao lombo de burro,
Fui até sacristão e seminarista;
Só não aprendi ser pilantra vigarista;
Lutei em guerras contra a ditadura;
Sofri prisão, cusparada e tortura;
Sol quadrado sem lua enluarada.
Tive amores de prazeres esquecidos,
Sem meus sonhos ficarem perdidos:
De voltar pro meu sertão relicário,
Para contemplar as raízes do chão;
Ouvir o som da alma violeira,
Ao lado da morena cabocla faceira,
No meu eu pensador solitário.
Na vida fui até conselheiro;
Aluguel matador pistoleiro;
Boiada, vaqueiro e boiadeiro;
Invisível dessa raça desprezível.
POEMA NO GOGÓ
Autoria do jornalista Jeremias Macário, em homenagem a todos poetas natos, principalmente os repentistas e trovadores que já nascem com o poema no gogó
Como doce água do poço,
Tem cabra, seu moço,
Que tem o poema no gogó,
Derruba qualquer doutor;
Sabe como dar um nó;
Vira o verso pelo avesso,
Sobre vida, amor e dor,
E nem na morte se torna pó.
Tem cabra
Que tem o poema no gogó;
Seu verbo é raio de sol,
Nessa terra árida batida,
Nunca escola frequentou,
Ainda sola uma caipira viola,
Fazendo rima e poesia,
Na entrada e na saída,
Seja política ou Sofia,
Venha do jeito que vier,
Todo tema ele vence,
Como Patativa do Assaré,
Na secura de Triste Partida,
Ou no Luar do Catulo Cearense.
Tem cabra
Que tem o poema no gogó,
Vem de lá do seu altar,
Das brenhas do cafundó,
Com seu surrado emborná,
Cheio de sentimento profundo;
Fala do nosso mundo;
Expulsa o diabo imundo;
Conta causos dessa gente,
No cordel, no coco e repente,
Como um ser onipotente.
NÃO QUERO…
Autor: Jeremias Macário
Não quero vagar sem sentido,
Nem ver um amor se separar,
Nem perder de vista,
O horizonte azul do mar,
Nem fazer calar,
A voz do ativista,
Com sua ideologia,
Religião ou filosofia,
Cristã, judia ou mulçumana,
Tanto que seja humana.
Queria fazer o tempo parar,
Para nos livrar desse conflito,
Entre início e finitude,
De vida e morte,
Morte e vida,
Sem porta de saída.
Não quero mais ver refugiados,
De tantas etnias escorraçadas,
A chorar nas fronteiras farpadas,
Tratadas como chacais,
Numa marcha de desiguais.
Queria ver a arte do sorrir,
Ter o livro como lição,
Sem armas na mão,
Nem o açoite da chibata,
Que a alma mata.
Não quero ver,
Tanto indiferença e agonia,
Trilhar nessa distopia,
De caminhos de espinhos.
Nessa existência de aprendiz,
Tem o alegre e o infeliz,
Onde uns realizam seus planos,
Outros ficam nos desenganos.
PARABÓLICA ESTRELADA
De Jeremias Macário, uma homenagem ao aniversário de Vitória da Conquista
O bandeirante impiedoso e destemido:
Os bravos índios da sua terra expulsou,
Com artimanha venenosa numa bebida, ´
O conquistador com sua ira banqueteou,
E de crueldade ainda para Deus rezou.
A vitória, dizem foi de Nossa Senhora,
Mãe se tornou da Conquista das Flores;
Abençoou e a ornamentou de estrelas,
Onde havia sofridas lágrimas de dores,
E nos deixou uma Parabólica Estrelada.
O homem dos anéis que só a ele adora,
Matou a Serra e aterrou o Poço Escuro;
Acabou com as minações e seus painéis;
Não pensou nos filhos e netos do futuro;
E a mãe do alto acolhe o filho que chora.
Parábolica Estrelada deve ser só de glória,
Da Conquista como pediu Nossa Senhora;
Se todos os fiéis estendessem o seu manto,
Para a todos proteger do mal aqui e agora,
E preservar tudo que marcou nossa história.
No inverno implacável, rói o osso o frio,
E se embriaga de vinho o menestrel Elomar;
Na boêmia cantoria aparece o Glauber,
Com as mágicas cenas do sertão e do mar,
Entre poções de poesia de um caudaloso rio.
BR Avenida parte ao meio o leste e o oeste,
Do potente mercado dos eletros ao fino café,
Misturado ao aroma poético de Jesus Camilo,
Com todas as religiões que professam sua fé,
E na elegante mulher com seu estilo se veste.
Daqui se ouve o som de todo universo,
Captado pela parabólica toda estrelada,
De energia que irradia por qualquer lado;
No beijo abençoado da noite enluarada,
Que inspira nos brutos o romântico verso.
Terra das Boiadas, da “Viola Quebrada”
Deus e o Diabo e o Cristo do seu Cravo,
Do matuto sertanejo que faz sua morada;
Planalto mestiço do melado do escravo,
Dos tropeiros da Ressaca da toada dobrada.
Conquista das intrigas e lutas dos coronéis,
De seus casarões e sobrados de finos lençóis,
Nasceu do gado e do comércio se desenvolveu,
Pede perdão pelo extermínio dos Mangoiós,
E ora para nos livrar de todas tragédias cruéis!
MENTE E CORAÇÃO
De autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tem dia errante,
Que teu coração está enguiado,
Triste lascivo,
E você pergunta o motivo,
Nem ele te responde,
Onde fica a ponte.
Você continua aperreado,
Doído no peito aperto,
Numa tirana agonia;
Na alma aquele nó,
Só vontade de estar só.
Dizem ser depressão,
Em outros tempos era fossa,
Coisa da nossa mente,
Ora alegre e melancólica,
Que está em toda gente,
De vida mortal,
Angústia existencial.
O silêncio lhe devora;
Seu olhar chora,
O tempo lento demora,
Sem sorriso lá fora,
Nem o afago lhe consola,
Nessa nevasca que lasca,
Como navalha ventania,
Na espera do outro dia,
Que seja de novo astral,
Nesse universo sideral.
O coração nos prega essa peça,
Ou é essa mente travessa,
Que às vezes entram na contramão.
SE VOCÊ…
Autoria de Jeremias Macário
Se você não tem o paraíso,
Ao menos tenha juízo,
Melhor sair do inferno,
Do que ser escravo eterno.
Se você virou fera,
Nessa era capitalista,
Melhor se livrar dessa lista.
Se você não tem o mel,
Melhor o cheiro da abelha,
Que viver na ilusão do céu.
Melhor morrer com bravura,
Que divagar nessa loucura,
Com o berro preso de ferro.
Se você não é salafrário,
Melhor ser um digno operário,
Na marcha lutar e protestar.
Se você não é filósofo pensador,
Melhor regar sua flor.
Se você não é amado,
Melhor amar a si mesmo,
Sem ser manada e gado.
Se você é discriminado,
Nunca negue seus conceitos,
Defenda seus direitos.
A palavra de Deus,
É você quem faz, meu rapaz.
Melhor não ser religioso,
Que ser fanático criminoso;
Nunca aceite lavagem cerebral,
Siga sua mente livre racional.
O DIA DO POETA
Confesso que iria passar batido sobre o Dia do Poeta, 20 de outubro. Também todo dia é dia de alguma coisa e, nessa correria da vida, cheia de problemas, pouco paramos para refletir e pensar. No entanto, à tarde recebi uma ilustração em meu ZAP onde destacava 20 de outubro, Dia do Poeta, com os dizeres “obrigado a você poeta, que nos empresta teus sentimentos em forma de versos, despertando assim, em cada um de nós o que sequer imaginávamos ser capazes de sentir.
Se não me engano, tive um professor que nos ensinava que o poeta é aquele que vê o que os outros não enxergam, como se somente o poeta possui raios laser nos olhos para detectar o invisível e desvendar certos mistérios desse universo.
Ouvia também de que somente o poeta sabe descrever sobre a flor. Até me arriscaria falar que é o ser humano que consegue tirar leite de pedra. Não fosse o ar, não fosse a terra, não fosse o fogo, não fosse a água e o mar, o sol e o anoitecer, o tempo, a chuva, o vento e a tempestade que já são poesia, como o poeta sobreviveria?
Em homenagem ao Dia do Poeta veio-me logo à cabeça postar uns versos meus em meu blog opinativo e crítico, mas o consciente, ou o subconsciente, mandou que escrevesse algo sobre esse ser diferente e indiferente que já foi tão admirado, que já fez revoluções e até guerreou contra tiranos e tiranetes.
Pode-se dizer que o poeta encanta e é o encantado da poesia que já nasce com o corpo fechado contra balas e flechadas. É o único que bate na porta da morte na boca da noite para uma boa prosa até o dia amanhecer e se tornam até amigos.
Poderia citar aqui um monte de nomes, mas cada um tem o seu apreciador, seu predileto ou prediletos. A todos faço vênias e presto minhas singelas homenagens. Ele é cantador, é cancioneiro e trovador. Falam até que esse mundo, incluindo o Brasil, deveria ser governado por um poeta. Será que daria certo? Pelos menos, suas leis e decretos seriam feitos em versos rimados extraídos da matéria espírito.










