:: ‘Na Rota da Poesia’
MAR PORTUGUÊS
Fernando Pessoa
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzamos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosse nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
DE VEZ PRIMEIRA
Mário Quintana
Da vez primeira em que me assassinaram
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha…
Depois, de cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha…
E hoje, dos meus cadáveres, eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada…
Arde um toco de vela, amarelada…
Como o único bem que me ficou!
Vinde, corvos, chacais, ladrões da estrada!
Ah! Desta mão, avaramente adunca,
Ninguém há de arrancar-me a luz sagrada!
Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz, trêmula e triste como um ai,
A luz do morto não se apaga nunca!
Este poema está no livro Mário Quintana “Prosa e Verso”. São textos variados
DOR E MEDO
Poeminha inédito de autora do jornalista e escritor Jeremias Macário
No fio da navalha
Inquietações, niilismo
Ansiedade
Dor e medo, infelicidade
Amor e segredo
Campo de batalha.
O homem não é este homem
Vencerá o medo para ser o novo?
Será um outro Deus sem dor?
Sem raça e cor?
Misticismos, fantasias
Islamismo, judaico-cristã
Paz, ira e conflito
Mitologias, esperança vã
Volta do passado harmonia
Morrer sem sofrer
Sedução do existir infinito
Culpa dos deuses do fazer
Ilusão do paraíso jardim
Início, meio e fim.
Dos romanos flavianos, esplendor
Dinastia dos severos
Odisseia de Homero
Mar de medo, penar e dor.
Medo do obscuro que veio
Tudo vai ruir, dor e medo
Espera pela memória do cheio.
INFINITO REVOLTO SERENO
Um ser cativo tão pequeno,
A mirar o infinito revolto sereno,
De fortes correntes e ventos,
É o mar dos descobrimentos,
Esse revolto sereno.
Rios correm invisíveis ativos,
Nesse infinito sacrário,
Nos sentidos anti e horário,
Para outra banda continental,
De jangada, caravela e nau,
Navegaram polinésios nativos,
Bartolomeu, Vasco, Colombo e Cabral.
Nesse infinito revolto sereno,
Do cabo fervente diabo Bojador,
Do Boa Esperança até a Índia,
Mar mistério negreiro cemitério,
Infinito sereno de prazer e dor.
Infinito revolto sereno,
Do Pau Brasil que já sumiu,
Rota dos escravos Benim Ajudá,
Me cure dessa saudade veneno,
Do amor que ficou do lado de lá.
SEM RETORNO
Poeminha mais recente de autoria de Jeremias Macário (rascunho)
Você não mais pensa no fim,
No ser vivo existir,
Sem mais retorno,
Sua batata queima no forno.
Esse caminho não tem retorno,
O amor perdeu sua cor,
Para onde você for,
Sua cabeça está no torno.
Dos penhascos caem as rochas,
Derretem gelos dos icebergs,
O nível do mar afoga focas,
E os homens abrigam nos albergues.
Rugem fuzis e metralhadoras,
Ogivas cortam espaço,
Motosserras, pastos e lavouras,
E da terra arranca o aço.
Os animais passam vírus,
Visões em confusões,
E nos campos de secos varais,
Não nascem mais lírios.
Você está sem retorno,
Na idade do fóssil carvão,
Do inverno que virou verão,
Sem primavera de flores,
Num inferno de dores,
Sem seu outono morno.
SONHO DE PESADELO
Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Um dia eu sonhei,
Que era menino da roça,
A cantarolar com os pássaros,
Sofrer, Assanhaço e o Bem-te-Vi,
E um dia meu pai me deu uma coça,
Porque não rezei antes de dormir.
Ai sonhei que o menino sonhou,
Em fugir para a grande cidade,
Cedo com a sua mochila,
Atravessou aquele monte,
Com os passos de um gigante,
Pra ser um sujeito da civilidade,
E um dia ser um senhor doutor.
Ai meu sonho virou pesadelo,
Num labirinto sem novelo,
Minotauro matava Tseu,
Ninguém de mim se comoveu,
Virei freguês da conta do mês,
Escravo vendedor de um burguês.
No morro traficante da favela,
Fiz serviço até de sentinela,
Vi passarinho voar sem asa,
Bota e fuzil arrombar casa,
Fumaça tóxica girando no ar,
A dor da fome no asfalto,
E o sangue a riscar no assalto.
Ai sonhei outra vez,
Não mais era um pesadelo,
Sonhei até o fio do cabelo,
Que era um lavrador,
Tinha um sítio no Caldeirão,
Dois filhos e um grande amor,
Tomando cafés no bule,
Quente torrado do pilão,
Nas conversas entre compadres,
Noite a dentro até a madrugada,
Tinha meu cuscuz, feijão e salada,
De manhã os pés nos orvalhos,
Animais balançando chocalhos,
Sem aqueles prédios de grades,
Sonhei que era bem mais feliz,
Um homem mais educado,
Com a natura ao meu lado,
Amando e sendo bem amado,
Na vida que sempre quis,
Traçando meu próprio enredo,
Sem mais ter pesadelo,
Nem bala pelas esquinas do medo.
LA VIE EST AUSSI
Poeminha do jornalista e escrito Jeremias Macário
La vie est aussi,
Comme toujours, c´est fini.
O venal é um avestruz avarento,
Como se não existisse finitude,
Quer mudar a direção do vento,
E imola os ideais da juventude.
La vie est aussi,
Comme toujours, c´est fini.
Tem o passageiro farsante peru,
Almofadinha na linha do metrô,
Que imagina ser do capital guru
E não passa do sistema um gigolô.
La vie est toujours aussi,
Feita de sonho e de amor,
Às vezes nascida da violência,
Nas favelas dos morros da milícia,
Ou no fuzil rasante da polícia,
Que rouba da criança a inocência,
Suga o seu sangue até o fim,
E vota no patrão, sim senhor.
La vie est toujours aussi,
Vinda do campo ou da cidade,
Com seu tempo limite de idade,
Uns sofrendo na danada seca,
Outros no torpeço da travessia,
A vida é assim na máquina moída,
Do império ao marechal Fonseca,
Nessa república nua sem saída.
CONSCIÊNCIA DE PAPEL
Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Tudo é poético e surreal,
Como na neve voa o corcel,
Só nos sobra o deus real,
Nessa consciência de papel.
Consciência só uma, a humana,
Não tem cor, mas sente dor;
Pode estar na jura da aliança,
Na inocência do sorriso da criança,
No bailado doce da bela Serena,
Ou nos predadores da savana.
Tudo é poético e surreal,
Como na neve voa o corcel,
Só nos sobra o deus real,
Dessa consciência de papel.
Pode estar no açoite da chibata,
Do ancestral a se arrastar pelo tempo,
No vento venal do poder imperial,
Ou na assinatura da assassina ata.
Tudo é poético e surreal,
Como na neve voa o corcel,
Só nos sobra o deus real,
Nessa consciência de papel.
VIELAS NOTURNAS
Poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
Pelas esquinas e avenidas curvas,
Raios de luzes deslizam no asfalto,
Cada alma busca suas curas,
E o sangue humano risca no assalto,
Saído das veias das vielas noturnas.
Nesse existir só valem as fortunas,
Na mente aquela senhora calma serena,
Que via o invisível atrás da sua lente,
E a câmara da antena meus passos vigia,
Rogo ao tempo que não nasce o dia,
Para vagar eterno nessas vielas noturnas.
A noite invade a madrugada,
No lixo eu colho uma salada,
Os prédios são caixões de urnas,
Na solitária dor das vielas noturnas.
PASSADO QUE ARDE
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Sou seu animal ancestral,
Que rosna em seu presente,
Com mente canibal.
Do Brasil Raízes, encarnado,
Da chibata que sangra a carne,
Sou passado que ainda arde.
O vento segue a corrente do tempo,
Como as injustiças no lamento,
De uma gente que sempre mente.
Sou fardo que nasceu do parto,
Vida que sempre sonhou,
Num país que esqueceu o amor.
As ondas se batem no mar,
E se acabam no mesmo lugar,
Como a morte que lhe rouba o ar.
Sou pôr-do-sol dessa tarde,
Do amanhã o alvorecer,
De um passado que ainda arde.










