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:: ‘Na Rota da Poesia’

CONSCIÊNCIA DE PAPEL

Versos de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Tudo é poético e surreal,

Como na neve voa o corcel,

Só nos sobra o deus real,

Nessa consciência de papel.

 

Consciência só uma, a humana,

Não tem cor, mas sente dor;

Pode estar na jura da aliança,

Na inocência do sorriso da criança,

No bailado doce da bela Serena,

Ou nos predadores da savana.

 

Tudo é poético e surreal,

Como na neve voa o corcel,

Só nos sobra o deus real,

Dessa consciência de papel.

 

Pode estar no açoite da chibata,

Do ancestral a se arrastar pelo tempo,

No vento venal do poder imperial,

Ou na assinatura da assassina ata.

 

Tudo é poético e surreal,

Como na neve voa o corcel,

Só nos sobra o deus real,

Nessa consciência de papel.

VIELAS NOTURNAS

Poeminha inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário

Pelas esquinas e avenidas curvas,

Raios de luzes deslizam no asfalto,

Cada alma busca suas curas,

E o sangue humano risca no assalto,

Saído das veias das vielas noturnas.

 

Nesse existir só valem as fortunas,

Na mente aquela senhora calma serena,

Que via o invisível atrás da sua lente,

E a câmara da antena meus passos vigia,

Rogo ao tempo que não nasce o dia,

Para vagar eterno nessas vielas noturnas.

 

A noite invade a madrugada,

No lixo eu colho uma salada,

Os prédios são caixões de urnas,

Na solitária dor das vielas noturnas.

PASSADO QUE ARDE

Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário

Sou seu animal ancestral,

Que rosna em seu presente,

Com mente canibal.

 

Do Brasil Raízes, encarnado,

Da chibata que sangra a carne,

Sou passado que ainda arde.

 

O vento segue a corrente do tempo,

Como as injustiças no lamento,

De uma gente que sempre mente.

 

Sou fardo que nasceu do parto,

Vida que sempre sonhou,

Num país que esqueceu o amor.

 

As ondas se batem no mar,

E se acabam no mesmo lugar,

Como a morte que lhe rouba o ar.

 

Sou pôr-do-sol dessa tarde,

Do amanhã o alvorecer,

De um passado que ainda arde.

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (Final)

Por essas plagas baianas fui estradeiro-poeira entre os municípios,

Nasci em Mairi e sou filho da querida Piritiba do meu amigo Aragão;

Fui pra Amargosa ser padre e por muitos anos orei como seminarista;

Terminei jornalista onde revisei em Salvador e cobri sobre economia;

Passei para outra via fria da Conquista que me deu o título de cidadão,

Onde abri fronteiras e quebrei viola com o poeta Camilo de Jesus Lima,

Com Laudionor Brasil, duelei em saraus e nas manchetes dos jornais.

 

Quando menino perambulei nas matas virgens da Serra do Periperi;

Vi Imborés e mangoiós nos arredores fugindo do homem branco,

Que depredou toda terra da Serra, que dela só restou a Mata Escura,

E o Cristo de braços abertos roga aos seus por mais amor e ternura.

 

Quem sou eu?

Sou um velho secular,

Que viu tudo se passar,

Viajante desse agreste nordestino

Nas picadas das trilhas fiz destino,

Com os sábios do Maranhão a Bahia,

Nordeste rica de cultura e de etnia,

Onde fiz história e abri caminho pro Norte,

No Sul construí o capital de gente forte.

 

Quem sou eu? Não importa!

Sou de terra firme e bom de corte;

Gosto de uma prosa de repente trote,

Com intelectuais e cabra da peste,

Nessa paisagem de tanto contraste,

Desse meu amado sertão Nordeste,

Onde catei todos engaços e bagaços

Pelas estradas poeirentas que vaguei,

E conversei com matutos e com rei.

 

 

 

 

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (VII)

Na terra de Gregório, boca do inferno, nos embriagamos de vinho,

E com ele divulgar poemas de protesto pelas vias do Pelourinho,

Em oratório de igrejas, e até em quartos de “loucos” em sanatório;

Do erótico, colamos cartazes em bregas e em porta de cemitério;

Rodamos toda velha Bahia e tomamos mais uma na Praça da Sé,

Onde rola mistura de todas as religiões que vão nas pegadas da fé,

Como no canto profundo de Caetano, Capinam, Gil e de Tom Zé,

Que deram voz e força a todo o nosso povo massacrado do Brasil.

 

Em Salvaboa no trapiche da Gamboa, com a cara da mãe Lisboa,

Fui “Ouro de Tolo” como um besta do interior com o profeta Raul,

Do Seixas de “Sociedade Alternativa”, que me passou suas deixas,

Pra ser um cara libertário e não entrar em conversa mole de otário,

Como ser moleque de Jorge Amado e entrar em “Capitães da Areia”,

Em Dona Flor fui um dos maridos e Tenda dos Milagres um teste;

Rabisquei linhas de Seara Vermelha, Gabriela e Tieta do Agreste;

Me ensinou criar personagens e como sempre faço, dei forte abraço,

No Amado, Mário Cravo, Glauber cinema-poema e artes plásticas,

Deus e o Diabo que transaram na Terra com o Dragão da Maldade.

 

Ah! Não podia deixar de ir até Ipiaú conhecer a reforma agrária,

Implantada pelo humilde escritor comunitário social Euclides Neto,

Com quem bati um papo reto e com ele e outros arrastei A Enxada,

De um retado nas palavras de Prefeito, a Revolução e os Jumentos;

Corri sertão virado para ver Osório Alves em Santa Maria da Vitória,

A quem dei o meu pitaco lendário na história de Porto Calendário,

E em Bahiano Tietê e na Maria Fecha a Porta Prau Boi não te Pegar;

Passei na Lapa, fiz rezadeira e proseei em Caetité com Anísio Teixeira.

 

Na capital com morenas Além do Carmo curti em noites fantásticas,

Depois pedi a benção a mãe Menininha da Federação, lá do Cantoá,

Que em seu terreiro me deu reza e patuás para dançar com os orixás,

E ainda brindei um trago do raro cordel com Cuíca de Santo Amaro.

 

Bahia caraíba-tupinambá de João Ubaldo em “Viva o Povo Brasileiro”;

Com ele comi lagarto, bebi água da bica e uma cachaça em Itaparica,

E fui à grande freira com Milton Santos, o mestre da geografia social,

Que me indicou visitar o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira,

Baiano profundo e conhecedor da Formação do Império Americano,

De Marti a Fidel e de A Casa da Torre de Garcia, indicado ao Nobel,

E de sua biblioteca sai zonzo de tanto conhecimento e pinga com mel.

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (VI)

Pelo sertão rachado me embreei em direção a Palmeira dos Índios,

Perto de Quebrângulo onde nasceu um menino calado um Aladim,

Até avistar a escultura do mestre das palavras, “sejam bem-vindos”;

Bateu emoção entrevistar o prefeito-escritor Graciliano Ramos,

De “São Bernardo”, preso em “Cárceres” e viu as “Vidas Secas”,

Onde deixou dar uns pitacos no seu personagem andante Fabiano,

E no enredo coloquei seu encontro com um bando de cigano;

Ainda me convidou para em sua ceia comer cuscuz com aipim;

Mostrar o mapa da sequidão da peste bem ao lado da sua Baleia;

Contar suas histórias nordestinas de gente esquelética crucificada,

Tangida como boiada pela estrada pau-de-arara na rota escravista.

 

Do comunista ateu, bom e justo que dessa gente se compadeceu,

Detido por Getúlio porque tentou socializar nas escolas o ensino;

Anotei tudo como jornalista em meus anais na terra dos marechais;

Dei um nó na alparcata e toquei para a capital Maceió da Pajuçara,

Onde visitei o velho Teodoro da Fonseca, da República dantesca,

E mostrou sua espada que proclamou a coisa pública ser privada.

 

De Alagoas, fui de barco e Jeep pra abraçar meu Sergipe,

E ver a foz do irmão São Francisco reduzido a um cisco,

Engolido pelo voraz mar, empurrando sal que só faz secar;

Visitei ribeirinhos desolados com seus feixes de redes vazias,

Porque os peixes sumiram do rio nessa vastidão de areias,

E pelo agreste triste viajei pelas veias do litoral até Aracaju,

Pra conversar com o intelectual escritor Tobias Barreto,

Com Calazans Neto comi caranguejos na praia de Atalaia,

Onde tomei mais umas pingas com uma moqueca de arraia,

Para pegar estrada até a histórica cidade de São Cristóvão,

Que foi pedida para entrar de vez na minha querida Bahia,

E beber no cantil de Castro Alves, o maior poeta do Brasil,

Condoreiro das espumas que escreveu o “Navio Negreiros”;

Curti com ele a boemia, com mulheres do mal do século;

Aprendi ser romântico realista falando de deuses e escravos,

E vi Castro declamar pra tribos ao lado de reis e guerreiros.

 

Nos engaços bagaços galhos de aço entrei na mística Salvador,

A África brasileira que deu bravos heróis para libertar o Brasil

Do jugo português que dessas plagas toda riqueza nos roubou.

Com Ruy Barbosa, o Águia de Haia das palavras, o maior doutor,

Estive e me disse que de ver o homem prevaricar, viria o tempo,

Com seu vento da desonestidade zunindo virar uma brisa normal;

Do mal ser um bem num país sem decência, vergonhoso e imoral.

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (V)

Versos em formato de cordel de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário sobre a cultura nordestina e seus personagens escritores, cordelistas, trovadores e gente importante que fizeram história em nossa nação.

Pra variar fui às feiras duelar com trovadores-repentistas,

Que vinham de longe e não ia ficar como besta de fora;

Tentei embolar no varejo e pedi pra não me fazer de bosta:

Não ser humilhado por esses medievais voadores artistas;

Decidi arrastar a minha poeirenta sandália e ir embora,

Quando me deram aquelas respostas virando suas costas,

E temi enfrentar aquela batalha de improvisos nortistas;

Sai de soslaio pra trocar um lero-lero com Celso Furtado,

Um dos maiores pensadores desse nosso Estado Brasileiro,

Que planejou golpear a ignorância com seu plano futuro;

Transformar essa nação num país progressista além do muro,

E não numa gerigonça, espeto de pau e casa de embusteiro.

 

Ainda tinha muito o que fazer naquela Paraíba mulher-macho,

Acender meu facho na voz de Zé Ramalho e do Geraldo Vandré,

E a eles pedi licença para pisar terra guerreira dos menestréis;

Viajar no dorso dos alados e no galope ligeiro de “Disparada”,

Sem ser boiada ferrada como me ensinou o Celso Furtado;

Ir com fé, sem jamais me curvar e manter alerta minha espada,

Pra escutar atento o Leandro Gomes de Barros, lá de Pombal,

A cadenciar o maior cordel de todo nosso Nordeste afamado,

Cabra de versos apurados, imbatível como estrela universal,

De fartas rimas, métricas e estrofes de encher todo um jornal,

Da história de Getúlio a João Pessoa, em Recife assassinado,

E assim fui a Tambaú mirar mar pôr-do-sol do “Tone” saxofone.

 

Não podia deixar de trocar dedo de prosa com o senhor armorial,

Matuto simples de jeito pausado-cadenciado de Ariano Suassuna,

E roguei para me botar dentro do seu eterno “Auto da Compadecida”,

Só pra sacanear com a malandragem picaresca desse pícaro “Chicó”,

E quando ele falou não sei, só sei que foi assim, por trás meti o fifó;

Seu moço, o moleque pulou e correu gritando ter visto alma penada,

Numa cena pitoresca, foi parar na jagunçada do coronel “Ferroada”.

 

Era mês de fogueiras e em Campina Grande das festas juninas,

Caí na dança forrozeira com as coroas fogosas e belas meninas,

Até me empanturrar e embriagar nos arrastos poetas repentistas,

Populares repórteres e feitores de letras de raízes dos cordelistas,

De soladas violas e quadrilhas marcando encontros de amores,

E encantado fiquei com a Paraíba de tanta gente cheia de cores,

Que me injetou energia pra aprender a lição e fazer a canção,

Nessas carrocerias de andanças estradeiras, de barcos e canoas,

Entre coqueirais, dividindo varais até entrar na vizinha Alagoas.

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (IV)

Continuação do poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário no formato de cordel que fala da cultura nordestina e   seus personagens escritores. É uma viagem do Maranhão até a Bahia num trânsito com hábitos, costumes e quem fez história nessa nossa nação da qual orgulho de pertencer.

Casquei pra Exú pra ver o monumento-rei Gonzaga;

Apertei as precatas para conhecer a feira de Caruaru,

Com a fome do saber popular, sem perder a ternura,

De um estado que parecia ter visitado quando menino,

Numa vaga do destino da reencarnação Pernambuco,

Dos holandeses-judeus que implantaram uma cultura,

E deixaram seus vestígios de uma comunidade futura.

 

Com meu trabuco fui logo ver o Manuel Bandeira,

Para beber na fonte original das sagradas escrituras,

Mas estava arrumando as malas para Passárgada,

No desejo de ser livre e ter a mulher que sempre quis;

Viver numa rede como rei com astutas prostitutas,

Longe desse chão de intrigas e disputas pra ser feliz,

E logo me convidou a embarcar em suas aventuras,

Quando de pronto avisei que não ia viajar nessa saga;

Que seu voo à Pérsia de Ciro seria nas asas da utopia,

E com afeto sai para ver o João Cabral de Melo Neto,

Para me juntar a ele na triste labuta de “Vida Severina”,

Do homem que só tem direito a sete palmos de altura,

Esse herói anônimo valente resistente a esta secura,

Dessa sina que nunca finda nessa paisagem nordestina.

 

Enfiei as mágicas palavras em meu alforje surrado,

E fui vagar pela Veneza-Recife até o monte Olinda,

Com a cena do gado berrando na seca cacimba catinga,

E pra esquecer passei nos botecos e enchi a cara de pinga;

Sonhei que estava na Grécia com os deuses do Olimpo,

E acordei entre os negros descritos por Gilberto Freyre,

Com quem visitei “Casa Grande e Senzala” dos bantos Níger,

Dormi em “Sobrados e Mocambos” de Angola e da Guiné,

Onde também o doutor deitou, como me disse e provou,

Mas vinha a cena do Bandeira em orgia como um rei.

 

Tomei tino e fui direto pra terra de “Menino de Engenho”,

Do tempo dos coronéis estuprando negras de taca e reio,

No mourão escravo, ou no lamento África dos canaviais,

Onde fui moleque com José Lins do Rego paraibano creio,

E com ele me lambuzei na safadeza erótica dos bacanais,

Sem receio de fazer estripulias de verso menino travesso,

Com aquela gente que lembra o filme “Vinhas da Ira”,

Expulsa do seu torrão e varrida como um lixo caipira.

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (III)

Continuação do nosso poema-teatro, de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário, que fala da cultura nordestina, destacando seus principais personagens, como escritores, poetas, trovadores, historiadores, cordelistas e repentistas.

Em todo lugar ia fazendo mais uma descoberta nordestina,

Agora na companhia de uma cabrocha hipada lá de Cabrobó,

Assim com ela passei pela famosa cidade de sal do Mossoró,

Onde Lampião recuou sua tropa e mandou baixar a carabina;

Quebrou outra caatinga carcará pra fugir da Volante assassina.

 

Comendo cascalho atravessei todo o Rio Grande do Norte,

No encalço atrevido para entrevistar o cangaceiro Lampião,

No bagaço cinzento, com papel e a arma da caneta na mão,

Mas o cabra farejador sentiu meu cheiro e logo me tocaiou,

Quando descampei numa ribanceira e avistei uma pedreira,

Do lajedo como dum nada o punhal em meu bucho encostou.,

E logo gritou: macaco! Vou arrancar suas tripas pros urubus;

Foi quando as pernas tremeram no susto do voar dos nambus.

 

Espera ai, capitão! Não cometa esse desatino, só quero lhe ver;

Sou afilhado do Padim Cícero do Juazeiro, jornalista e escritor,

Vim aqui para narrar sua epopeia nessa terra de cactos e umbus;

Fotografar vosmicê e sua companheira de toda lida Maria Bonita,

E assim domei a fera que já sangrou coronéis, soldados e doutor.

 

Na volta corrida pela trilha me deparei com o temido Corisco,

Com um parabelo de papo amarelo mirou bem na minha testa,

E disse seu tira da peste! Ajoelha e reza pro assado da festa;

Falei Corisco, não me entrego não, sou compadre de Lampião,

Mostrei seu “biête” que me dava passagem por toda essa região,

E ai baixou sua arma, e com coragem cortei a árida paisagem,

Numa carreira fui parar em Natal, do Forte dos Reis Magos,

Fazer chamegos e vadiagem, e das potiguaras receber afagos.

 

Mergulhei no litoral de dunas e me banhei no mar de lagos;

Ariei o espírito para encarar o folclorista Câmara Cascudo,

Que relutou em não aceitar em sua casa um estranho difuso,

Mas intruso insisti que só queria conhecer seu vasto estudo,

E ele aturou paciente, e culto resolveu baixar seu escudo,

Para mostrar seus escritos sobre os ritos da cultura Brasil,

De cabo a rabo dessa terra de tanta expressão de faces mil,

Dos costumes nordestinos de várias personagens divinos;

Tudo estava em seus rascunhos feitos no ritmo do vinil,

Dos deuses gregos narrando suas viagens de eternos hinos,

E naquele encanto, como um menino, pedi sua benção,

Para louvar minha jornada com o calor da sua benta mão.

 

ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (II)

Continuação dos nossos versos sobre personagens nordestinos num formato de peça teatral e estilo cordelista. Autoria de Jeremias Macário

De lá parti para a primeira nação de silvestres Piauí,

E no calor de Teresina, um rolé pelo Mercado Popular,

E na Capivara decifrar as rochas rupestres inscrições,

Dos povos que deixaram em seus traçados as lições,

Delas fui parlar com o estudioso sábio Assis Brasil,

Poeta e escritor de mão cheia do “Gavião Vaqueiro”,

Que me jurou ter saído das curvas do “Delta do Parnaíba”,

Sua terra que lhe escrevinhou “A Aventura no Mar”,

E ainda narrou como se deu a saga do “Cavalo Cobridor”;

Citou Graciliano, seu Rosa, Clarice Lispector, sim senhor!

 

Cruzei travessias de cruzes e fui lá pro meu Ceará,

Torrão Tapuia da tribo “Guarani” de José de Alencar,

Que me mostrou seu tinteiro e a sua pena de pincel,

Que de “Iracema “ fizeram a índia dos lábios de mel,

E depois segui a rota do “Falcão” pela noite Fortaleza;

Me amarrei de primeira com uma cubana havanesa,

E de ressaca da farra fui pra praça da Catedral da Sé,

De onde parti para ouvir o canto de Patativa do Assaré,

Que fez rasgar a sanfona 12 baixos de Luiz Gonzaga,

No som profundo cordelista da sua “Triste Partida”,

Como na voz da cotovia, se perde de vista na correria

O nordestino magro faminto que foi levantar a paulista.

 

Nas asas da Patativa de lá voei alto ao som de Ravel,

Pelas corredeiras e cachoeiras vi paisagens de rapel;

Renovei minha alma aflita pra riscar versos sertanejos,

Com Humberto Teixeira lá na cidade velha de Iguatu,

E saber como ele parceirou e criou o “Rei do Forró”,

Que se eternizou no mundo no voo da “Assa Branca”,

Puxando baião e xaxado teclado no dó, ré, mi, fá, lá sol,

Nas feiras caipiras, onde conquistou gregos e troianos,

Estrangeiros viajantes do túnel e até nômades ciganos.

 

Pelas pegadas do santo guerreiro de nome “Conselheiro”,

Ouvi sua pregação espiritual de criar sua comunidade,

De almas seguidoras sagradas nas profundezas da Bahia,

Onde profetizou em Sobradinho que o sertão ia virar mar,

E armou sua comuna aldeia Canudos onde fincou sua cruz,

Que o exército tirano do Brasil massacrou mais de 100 mil,

Num banho de sangue de cabeças cortadas e nas balas de fuzil,

Mas o monte de fiéis até o último homem com bravura resistiu,

A mais uma barbárie da história contraditória que nos traduz.

 





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