ENTRE ENGAÇOS E BAGAÇOS (IV)
Continuação do poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário no formato de cordel que fala da cultura nordestina e seus personagens escritores. É uma viagem do Maranhão até a Bahia num trânsito com hábitos, costumes e quem fez história nessa nossa nação da qual orgulho de pertencer.
Casquei pra Exú pra ver o monumento-rei Gonzaga;
Apertei as precatas para conhecer a feira de Caruaru,
Com a fome do saber popular, sem perder a ternura,
De um estado que parecia ter visitado quando menino,
Numa vaga do destino da reencarnação Pernambuco,
Dos holandeses-judeus que implantaram uma cultura,
E deixaram seus vestígios de uma comunidade futura.
Com meu trabuco fui logo ver o Manuel Bandeira,
Para beber na fonte original das sagradas escrituras,
Mas estava arrumando as malas para Passárgada,
No desejo de ser livre e ter a mulher que sempre quis;
Viver numa rede como rei com astutas prostitutas,
Longe desse chão de intrigas e disputas pra ser feliz,
E logo me convidou a embarcar em suas aventuras,
Quando de pronto avisei que não ia viajar nessa saga;
Que seu voo à Pérsia de Ciro seria nas asas da utopia,
E com afeto sai para ver o João Cabral de Melo Neto,
Para me juntar a ele na triste labuta de “Vida Severina”,
Do homem que só tem direito a sete palmos de altura,
Esse herói anônimo valente resistente a esta secura,
Dessa sina que nunca finda nessa paisagem nordestina.
Enfiei as mágicas palavras em meu alforje surrado,
E fui vagar pela Veneza-Recife até o monte Olinda,
Com a cena do gado berrando na seca cacimba catinga,
E pra esquecer passei nos botecos e enchi a cara de pinga;
Sonhei que estava na Grécia com os deuses do Olimpo,
E acordei entre os negros descritos por Gilberto Freyre,
Com quem visitei “Casa Grande e Senzala” dos bantos Níger,
Dormi em “Sobrados e Mocambos” de Angola e da Guiné,
Onde também o doutor deitou, como me disse e provou,
Mas vinha a cena do Bandeira em orgia como um rei.
Tomei tino e fui direto pra terra de “Menino de Engenho”,
Do tempo dos coronéis estuprando negras de taca e reio,
No mourão escravo, ou no lamento África dos canaviais,
Onde fui moleque com José Lins do Rego paraibano creio,
E com ele me lambuzei na safadeza erótica dos bacanais,
Sem receio de fazer estripulias de verso menino travesso,
Com aquela gente que lembra o filme “Vinhas da Ira”,
Expulsa do seu torrão e varrida como um lixo caipira.











