:: ‘Na Rota da Poesia’
A IDEIA É ESSA
Poema inédito do jornalista e escritor Jeremias Macário
A ideia é essa, meu amigo,
Seja como vaga-lume na escuridão,
Se não tem certeza da sua opção,
Se vai dar certo ou errado,
Se arrisque fundo no desafio,
Mesmo que seja na luz do pavio.
A ideia é essa, meu amigo,
Para desvendar o seu segredo,
Nunca tenha medo do castigo,
Seja qual for o final do enredo,
Ouça a mensagem da canção,
Que vai guiar sua difícil decisão.
A ideia é essa, meu amigo,
Nunca deixe de regar a sua flor,
Seja na alegria ou na triste dor,
Sempre encare seu presente,
Curta os momentos da vida;
Construa bem seu futuro abrigo,
Com sua mente mirando o mar.
Ao lado do seu grande amor.
SE O TEMPO PUDESSE VOLTAR
Poema mais recente do jornalista e escritor Jeremias Macário
Ah, se o tempo pudesse voltar,
E mudasse o rumo do vento,
Escolhesse outro conquistador,
Com uma história de Brasil vencedor.
Ah, se o tempo pudesse voltar,
Para proibir toda escravidão,
Levar água e comida ao nordestino,
E a todos dar um bom destino,
Ah, se o tempo pudesse voltar,
Para garrotear uma ditadura militar,
Onde nosso povo fosse livre e feliz.
Ah, se o tempo pudesse voltar,
E impedisse a derrubada das florestas,
Para termos o puro ar para respirar.
Ah, se pudesse voltar ao tempo,
Para recuperar o tempo perdido,
E melhor entender o caminho da vida.
Ah, se pudesse voltar ao tempo,
Não magoaria o sentir de tanta gente,
E regaria sempre a minha semente.
Ah, se pudesse voltar ao tempo,
Não jogaria lixo na pista e no mar,
E aproveitaria mais o tempo para amar.
Ah, se pudesse voltar ao tempo,
Repetiria as boas ações que fiz.
E cortaria todos os males pela raiz.
Ah, se pudesse voltar ao tempo,
Mas o tempo não pode voltar,
“E agora José? E agora José”?
O jeito é ter coragem e fé,
Remover a pedra do caminho,
Porque você ainda tem tempo,
Pra seus sonhos reconquistar.
NA LINHA DE FRENTE
Poema recente do jornalista e escritor Jeremias Macário em homenagem aos profissionais da saúde
Pelas trilhas do curso do tempo,
Como velho curandeiro da mente,
Uma carroça circula lentamente,
No parafuso do trânsito confuso,
Entre o piscar das luzes das sirenes,
Dos socorristas aflitos das pistas,
Com vidas ofegantes não perenes,
Que carecem de sangue na corrente,
Dos salva-vidas da linha de frente.
A pandemia acelera a correria,
De macas nas disputas por vagas,
De cilindros divididos de oxigênio,
Em um SUS sem ar onde falta lugar,
E até no particular plano do convênio,
Vale a escolha do menos fraco doente,
Nas divisórias mascaradas dos hospitais,
Onde pacientes choram nos fios dos sinais,
Das mensagens virtuais da linha de frente.
Entra o intubado e sai o caixão,
Na dor infinita pela perda da vida,
Como num cenário de filme de ficção,
Na milenar guerra entre ciência e fé,
Tem o Buda, o Cristo e o Maomé,
Também o cego negacionista ignorante,
E os profissionais da linha de frente,
Para dar a ingrata última informação.
Quem é essa mortal fera Covid,
Que com tanta intriga nos divide,
Arrasa o pulmão dessa nossa gente,
E também sufoca toda linha de frente?
PODEM ME CRITICAR
Um dos poemas inéditos do jornalista e escritor Jeremias Macário
Podem me criticar!
Podem me criticar!
Faça sua arte de lá,
Que eu faço a minha de cá,
Cada um com seu estilo,
Ameno, radical ou sarcástico,
Tanto que traça sua parte,
Nessa sociedade de plástico.
Podem me criticar!
Do meu jeito de ver o mar,
De olhar a linha do horizonte,
Sem essa do errado e do certo,
Cada um construindo sua ponte,
Na solidão desse árido deserto,
Com sua forma de pensar.
Podem me criticar!
Sem o seu ódio intolerante,
Que defendo a sua canção,
Não importa o ritmo e a melodia,
Respeite minha pena rasgante,
Cada obra tem seu toque de poesia,
De amor, da cidade ou do sertão.
Podem me criticar!
Sigo a minha estradeira guerreira,
Você segue a sua de lá,
E cada um em seu lugar.
O EMBATE DA CIÊNCIA COM A FÉ
Poema mais recente do jornalista e escritor Jeremias Macário
Uma injeta a cura da doença,
Como o gênio das vacinas o Pasteur,
E a outra se apega em sua crença.
Brigam a ciência e a fé,
Roubaram a Arca da Aliança os filisteus,
E em seus corpos nasceram tumores,
Como castigo disseram de Deus.
Brigam a ciência e a fé,
Galileu foi pela Igreja emparedado,
E Jordano Bruno na Inquisição queimado.
Brigam a ciência e a fé,
Na China nasceu a tecnologia,
A Índia floresceu na religião,
E cada uma expandiu sua magia.
Brigam a ciência e a fé,
Nas espadas dos brutos medievais,
Até hoje se matam cristão, judeu e Maomé.
Brigam a ciência e a fé,
Na nau capitania do linho e da lã,
Na rota da seda dos remos das galeras,
Entre pulgas da Peste Negra de todas eras.
Brigam a ciência e a fé,
No mortal flagelo da procissão da bactéria,
E ao redor das catedrais penava a miséria.
Brigam a ciência e a fé,
Os médicos com suas tochas a cauterizar,
Os ricos à Igreja seus bens a doar,
E o clero a tombar na Santa Sé.
Brigam a ciência e a fé
Nas cruzadas de uma Guerra Santa,
Para sangrar mouros em seu altar.
Brigam a ciência e a fé,
Entre os milagres do mar que se abriu,
De coisa que procura explicar a outra,
Como aquele câncer que sumiu.
Brigam a ciência e a fé,
Osvaldo Cruz venceu rebelião,
Com a vacina e a seringa na mão.
Brigam a ciência e a fé,
Para derrubar a gripe espanhola,
Depois tudo virou samba canção,
No pandeiro e na batida da viola.
Brigam a ciência e a fé,
Dos negacionistas terraplanistas,
Que deixam a Covid nos matar.
Brigam a ciência e a fé,
Como Lampião e os coronéis,
Na ponta do punhal e do parabelo,
E ninguém quer entregar seus anéis.
SANGUE PROIBIDO
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Morena serena,
de corpo inteiro,
de olhos verdes,
cores do coqueiro.
Palmas balançam,
entre a faca afiada,
no fio do corte,
da carne cortada,
com sangue espirrado,
na mão ensanguentada.
Toque terno interno,
no vermelho a escorrer,
entre o proibido sentir,
no desejo quente,
do beijo ardente,
tocando até o ventre.
Ternura carente,
de uma tarde fria;
desperta o membro,
e o prazer irradia,
por fora e por dentro,
no corpo latente rente.
O orgasmo aflora,
entre pernas sedentas;
o sangue bombeia,
na medida da hora,
correndo pela veia,
acordando os sentidos,
dos líquidos proibidos.
Do fruto dos seios,
escorre a deliciosa ceia,
e fecunda o sêmen,
entre os galanteios,
tecendo sua fina teia.
Nascido da carne,
do extrato libido,
de um pecaminoso
sangue proibido,
Intravenoso.
SERTÃONESTE
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
“Que sol quente que tristeza,
Que foi feito da beleza,
Tão bonita de se olhar…”
Como lamenta o nosso Vandré,
Que tanto falou de esperança e fé,
Da “gente desse lugar”.
Até a corda está cara,
Couro cru não tem mais,
Então vai mesmo é de pano,
O corpo véio que virou vara,
Nesse Nordeste bíblico desumano.
SertãoNeste, carrasco de aço,
Riscado seco chão do agreste,
Do repente da letra no compasso,
Que das cinzas como a Fenix,
Valente ergueu o Sul e o Sudeste.
SertãoNeste do bravo Corisco,
Que não se entrega não,
Nessa terra da vela na mão,
Toda traçada de espinho,
Que da chuva brota o verde,
Da serra desce o São Francisco,
Pra fazer o milagre do vinho.
E matar a fome do ribeirinho.
SEU VIGÁRIO
Poema atualizado de autoria do jornalista Jeremias Macário
Seu vigário, a sua benção,
Vim aqui me confessar,
Contra o Senhor Deus blasfemei,
Pensei muitas vezes em me matar,
Nesse solo do meu sertão,
Só tenho levado pancada e reio,
Confesso, seu vigário,
Que nem Nele mais creio.
Seu vigário, sou da terra lavrador,
A minha mulher perdi no parto,
Nem o menino mirrado vingou,
Sempre roguei pela chuva da vez,
Carreguei cruz e pedra em procissão,
Com toda fé, como ensina a religião,
E nesse ano, seu vigário,
Perdi até minha última rez,
Toda noite choro em meu quarto,
Nunca a ninguém desejei mal,
Dessa vida miserável, estou farto,
Seu doutor me prometeu água,
E só me mandou castigo e sal.
Seu vigário, no confessionário,
Ouviu todo seu triste lamento,
Viu em sua velhice seu tempo,
Lá fora só batia o seco vento,
E disse, filho você não pecou,
Quem pecou foi o nosso patrão,
Que nos faz de pano de chão,
E da sua velha surrada batina,
De tanta sabedoria latina,
Com senso dela tirou o lenço,
Suas lágrimas caindo enxugou,
Abençoou o penado nordestino,
Aquele homem sofrido franzino.
AJUDE, TÔ COM FOME
Esse poema mais recente de autoria do jornalista Jeremias Macário foi inspirado num cartaz de uma pessoa numa das sinaleiras de Vitória da Conquista, pedindo ajude para se alimentar. É a fome que fala mais alto.
“AJUDE, TÔ COM FOME”
Pelas avenidas coloridas da noite,
Nas sinaleiras vermelhas do açoite,
Entre os selvagens beijos dos amantes,
Na viola companheira dos viajantes,
Vejo bares, festas e restaurantes,
Mesas cheias de comidas e bebidas,
Comemorando a vida de idas e saídas;
Lá fora ao vento vagam retirantes,
Perdidos sem rumo, sem nome,
E toda essa gente que mal come,
Sem lição a rogar com cartaz na mão:
“AJUDE, TÔ COM FOME”.
“AJUDE, TÔ COM FOME”
“Uma esmola envergonha o cidadão”,
Como dizia o cancioneiro rei do baião,
Pra ela não existe tempo de espera.
No estômago faz abrir uma cratera.
“AJUDE, TÔ COM FOME”
“AJUDE, TÔ COM FOME”
O governo não nos deu educação,
O capital nos excluiu do mercado;
Vivemos o agora do bota fora,
Como manadas no estouro do gado,
Como os milhões de desempregados,
Somos filhos de uma sociedade,
Que criou a fome e a violência,
Num país que roubou a cidadania,
Como se leva a poeira a ventania,
E há dias que o nosso irmão não come:
“AJUDE, Tô COM FOME”
SEU VIGÁRIO!
Poema inédito de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Seu vigário, a sua benção,
Vim aqui me confessar,
Contra o Senhor Deus blasfemei,
Pensei muitas vezes em me matar,
Nesse solo do meu sertão,
Só tenho levado pancada e reio,
Confesso, seu vigário,
Que nem Nele mais creio.
Seu vigário, sou da terra lavrador,
A minha mulher perdi no parto,
Nem o menino mirrado vingou,
Sempre roguei pela chuva da vez,
Carreguei cruz e pedra em procissão,
Com toda fé, como ensina a religião,
E nesse ano, seu vigário,
Perdi tudo e a minha última rez,
Toda noite choro em meu quarto,
Nunca a ninguém desejei mal,
Dessa vida miserável, estou farto,
Seu doutor me prometeu água,
E só me mandou mais castigo e sal.
Seu vigário, no confessionário,
Ouviu todo seu triste lamento,
Viu em sua velhice o seu tempo,
Lá fora só batia o seco vento,
E disse, filho você não pecou,
Quem pecou foi o vosso patrão,
Que nos rouba e nos engana,
Como lobo e a hiena da savana,
De todos nós fez pano de chão,
E da sua velha surrada batina,
De tanta teologia e língua latina,
Da filosofia extraiu todo senso,
Dela tirou o amarrotado lenço,
E suas lágrimas caindo enxugou,
Abençoou o penado nordestino,
Aquele homem sofrido e franzino.










