:: ‘Na Rota da Poesia’
INQUIETUDE (2003-2020)
Este poema do jornalista Jeremias Macário começou em 2003 e terminou em 2020,
e teve uma história de um rascunho resgatado agora por acaso
Existe dentro de mim uma inquietude,
Uma ansiedade do existir,
Procura do ser e do ter,
Dúvidas eternas do sentido;
Medo do que estar por vir,
De uma alma empedernida,
Que quer voar…
Navegar pelo infinito,
Sufoco no grito,
Vivo em caminhos de labirinto,
Ser – ter e o querer
Despedaçado nos pergaminhos.
Cá estou ouvinte de dois mil e vinte,
E ainda me intriga esse mistério
Do existir, mas sem medo do espinho,
Vou na quietude dessa inquietude,
Roendo a corda da filosofia,
Mais perto dessa finitude,
Peregrina viagem de um alienista,
Com um pouco mais de sabedoria,
No duelo desafio do não e do sim,
Desse angustiado humano desumano,
Ampulheta da vida consumista,
Que leva o planeta ao seu fim.
BRASIL SACO DE PANCADA
Poema inédito do jornalista Jeremias Macário
Dos colonizadores, veio toda escória,
Num povo que perdeu sua memória,
Na pastagem se fez gado em manada,
E o Brasil virou saco de pancada.
Nas índias esporraram suas doenças,
Jesuítas impuseram as suas crenças,
Como legado deixaram a corrupção,
E o Brasil virou saco de pancada.
Enforcaram os inconfidentes mineiros,
O rei criou conselheiros hereditários,
Nos engenhos uma África escravizada,
E o Brasil virou saco de pancada.
Do império, uma República de bananas,
Dos senhores donos dos cafezais sacanas,
Tramaram as ditaduras na noite calada,
E o Brasil virou saco de pancada.
Nas rebeldias trucidaram os trabalhadores,
Montaram várias castas de ladrões traidores,
E os pobres continuaram puxando enxada,
E o Brasil virou um saco de pancada.
A esquerda concluiu com a direita safada,
Depois de toda tempestade veio a psicopatia,
De seguidores da morte em fanática histeria,
E o Brasil virou saco de pancada.
O capital criou o barraco, a arma e a fome,
Se ficar ou se sair da vigarice o bicho come,
E a grande mídia burguesa lança sua granada,
E o Brasil aqui e lá fora só leva pancada.
O MOCHILEIRO
Mais um poema inédito do escritor Jeremias Macário sobre a vida do mochileiro andante
Não sou parafuso de furadeiras,
Prisioneiro das farpadas porteiras,
Porque nasci mochileiro estradeiro.
Mago Aladim, andarilho do agreste,
Onde não sobrevive cabra cafajeste.
Não é senhor do tempo mochileiro,
É senhor da sua caixa de pandora,
Onde leva sua hora, o aqui e o agora,
Sandália nos pés, asfalto e poeira,
Vento na mente e o abraço fraterno,
De um eterno menino livre sonhador,
De um sonho sem cerca e fronteira,
Sem essa de país, tribo ou divisão,
Leva o hino cancioneiro da passagem,
Tece sua teia, oh amigo companheiro!
Nessa sua veia libertária de coragem.
Pela estrada, muita gente diferente,
Fotografias de faces injustiçadas,
Alegre caravana de colorida cigana,
Indígenas das américas colonizadas,
Por Colombo e os seus sanguinários,
Do velho mundo de primatas piratas,
Finas vitrines nas avenidas grãfinas,
Dias calorentos e etílicas noites frias,
Com suas revolucionárias filosofias,
Canibais da milenar cultura africana,
Traficantes de escravos e de diamantes.
O mochileiro avança e vai em frente,
Nesse monte de tanto ingrediente;
Como filho do mar de ondas na areia;
Não respira o ar da angústia solitária,
Nem é o filho dessa arenga sectária,
Mas um bravo andante, fogo amante,
Além dessa dialética da coisa material,
É gira mundo desse meteorito universal,
Caroneiro persona da bolé e da lona,
Filho do poente vermelho horizonte,
Granito precioso da aurora nascente.
QUEM É ESTE CORONAVID?
Poema inédito de autoria do jornalista Jeremias Macário
e pode ser ouvido também no vídeo do blog.
Sabe quem é este tal de Coronavid,
Que de dezenove passou pra vinte?
Sei lá, só sei que veio do lado de lá,
Lá da China coroa de olho apertado,
E o coroa foi do mundo o mais falado,
Na previsão vista por Nostras Dames,
Na profecia de Raul que fez a terra parar,
Como bandido a vagar solitário pelo ar,
Roendo a vida e todo esse capital do mal.
“Vai canoeiro, vai canoeirar” pelo mar,
Viva a beleza das cores do meu sertão,
Que sempre tem aquela sábia lição,
Levanta e sacode a poeira estradeira,
Não convide o Coronavid para entrar,
Dê mel, água sabão e o álcool gel,
E sem medo e pânico, ele vai recuar,
Como o satanás corre longe da cruz,
E o vampiro foge no clarear da luz.
Quem é este invisível de cenas apocalípticas?
De seres mascarados, de olhares baixos distantes,
De passos lentos como uns teleguiados robôs,
Nas avenidas e nas catacumbas dos metrõs,
Que bagunçou e revolucionou todas as críticas,
De falastrões, apresentadores e governantes,
E ainda criou separação, isolamento e terror,
Foi tudo isso que o animal humano inventou.
Quem é este tal Coronavid que mata a vida?
Só sei que nem os super-heróis americanos,
Com seus poderes lança-fogos, não derrubou,
Só o cangaceiro Lampião, cabra nordestino,
Com seu punhal afiado o seu bucho perfurou,
E mandou seu destino, intestino pro inferno,
Lá pra China onde o facínora saiu da esquina,
Do frio inverno amargou sua perversa sina.
Lembre-se da canção do José. E agora José?
Ficar em casa com fome, nos come os falastrões,
No bate-boca dessa corja de tantas demagogias,
Dessa suja casta de nobreza e tantas mordomias,
Que sempre deram as costas para nossa pobreza,
Com suas toscas ideias fascistas e baratas filosofias,
E também de esquerdistas de pegajosas frias jias,
Com seus discursos que vivem a nos garrotear,
“E agora José, você José, que zomba dos outros”,
Com a chave na mão, até quando vão nos ferrar?
REPÚBLICA CABANA BANANA
Poema inédito de autoria do jornalista Jeremias Macário
Na minha isolada cabana banana,
Tem a serra, o frio e o calor tropical;
Tem alguma lavoura que ainda restou,
Na lagoa barrenta até uns pés de cana,
Não mais os conflitos cangaços da guerra;
Tem a mulher pegando água na cacimba;
Tem os galhos secos engaços da catinga;
O orvalho poético da manhã como cantiga;
Tem violeiro cantando a canção de amor.
Na minha lesa República cabana banana,
Tem minhas lágrimas de ver tanta pobreza,
De ver se espalhar pelo Brasil tanta riqueza,
Nas mãos de um latifúndio cruel capitalista,
De coronéis do poder que fazem do povo,
Um poço social desigual desumano vazio,
Onde o desempregado não passa de vadio,
Alienista político em pleno primeiro de abril,
Numa pátria amada cristã fundamentalista.
Na minha cabana choupana consumista,
Recebo da República uma magra banana,
Esperando meu amor que nunca chegou,
Como gladiador sem ver o tempo passar,
Assuntando o vento assoviar pra lá e pra cá,
Nas saudades de estradeiro amante do mar,
Que me ensinou ser um romântico beija-flor,
Mesmo neste Coliseu de passado de breu,
Onde o pobre e o negro tentam curar a dor.
Na minha República cabana banana,
Tem a lança da poesia na minha capanga;
Tem o lamento do sertão e a fera da savana;
Como um fantasma do mundo vai meu grito
Entre o nascer, o poente e a fonte do saber.
NINGUÉM QUER SABER DA LIÇÃO
Nova versão do poema, de autoria do jornalista Jeremias Macário, que fala do aquecimento global e a consequente destruição do nosso planeta
O inverno frio virou verão;
Foi-se outono e a primavera,
E o Beato do sertão virou mar,
Na profecia do mar em sertão,
Da terra mina lunar de cratera,
Pela alma vil humana profana
Do templo da nossa casa divina,
E ninguém quer saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
Nessas viagens messiânicas,
Da troca tirana do ser pelo ter,
No insano guloso do consumo,
Da produção por mais insumo,
Vem a tormenta ranger de dentes,
E não vingam mais as sementes,
Nesse solo de placas tectônicas,
E ninguém quer saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
No calor do aquecimento global,
Depois das falsas mesas do clima,
O capital aumenta suas chaminés,
E vem o escuro tufão gira mundo;
Larvas vulcânicas viram monturo;
Mares lixeiras tóxicas e atômicas;
Derrubam florestas, nasce a fome;
Some a natura no óleo do convés,
E ninguém que saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
Nascentes morrem nas cabeceiras;
Derretem dos polares as geleiras;
Desaparecem o urso e o salmão;
Das águas monstros de tsunamis;
Rios cimentados estouram canais,
E a selva de pedra derrete em caos,
Na fornalha de mais de 70 graus:
Tudo está escrito nos antigos anais,
E ninguém que saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
SERRA DO PERIPERI
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário onde retrata a depredação praticada pelos homens contra a Serra do Periperi, em Vitória da Conquista, a qual já foi uma floresta, quando, em torno dela, habitavam os índios nativos. Um louvor ao Cristo, às nações índias e às suas belezas naturais muito tempo antes da exploração predatória.
Deus salve os Mongoiós,
filhos das flechas Camacans,
guerreiros da nação Pataxós,
irmãos dos ferozes Imborés,
com seus disfarces em caracóis,
que levantam no cedo das manhãs,
para ouvir o conselho dos pajés!
El Rei mandou soldados bravos,
Guimarães e o capitão Gonçalves,
que na busca do ouro das matas,
fizeram dos índios seus escravos,
num massacre chamado Batalha,
onde correu sangue nas cascatas,
deixando a tribo toda humilhada.
Rasgaram trilhas os bandeirantes,
no pulo da onça braba Jaguatirica,
entre o Pau d’arco e a Sucupira,
onde fecunda uma Serra rica,
de fauna e flora que inspira,
a descrição do Príncipe ao sentir,
verdejante floresta do Periperi,
com tantos salves aos habitantes!
Desse vasto manto bento protetor,
de cores do Cardeal e de Bem-te-vi,
espiando a abelha fazer sua festa,
entre Angicos e o vôo do Jabuti,
só ficou o Poço Escuro como flor,
de bromélia e outra que ainda resta,
e um olho d´água que virou fiapo,
numa Serra toda rasgada em trapo.
O branco com seu pó envenenou,
os irmãos da lua, da terra e do sol;
secou o coração do nativo de dor,
na Pedra do Conselho dos Senhores,
onde cantava o Sabiá e o Rouxinol,
desde Jibóia ao Arraial da Conquista,
cidade que foi chamada das flores,
e inspiração para o Cristo do artista.
Máquinas lambem todo o chão;
cortam a Serra norte-sul do sertão,
e todas as raças brancas crioulas,
se esparramam como folhas,
no explorado chão de miséria,
que se vale de cascalhos e areias,
extraindo da flora toda a matéria,
até as últimas raízes de suas veias.
Brotam torres com suas propostas,
entre a fumaça de fazer asfalto;
e nos zincos das suas encostas,
o pobre do lixo cata comida e aço,
num pôr-do-sol ainda rajado,
no Cristo de Cravo crucificado,
perdoando os homens de cobalto,
que tiraram da Serra seu espinhaço.
O filho da Serra lá nas alturas,
esculpiu solitário suas esculturas;
foi o poeta do metal e da imagem;
sonhou e morreu sem homenagem,
dos mortais idólatras dos materiais,
que só pensam nos prazeres carnais,
ainda fazendo ao Periperi todo mal,
mesmo com o tal Parque Municipal.
NINGUÉM QUER SABER DA LIÇÃO
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Estamos embarcando,
Rumo à última estação,
Numa viagem sem volta,
Na troca do ser pelo ter,
No insano guloso consumo,
No viço do cio pelo insumo,
E ninguém quer saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
Vai o sol e vem o escuro;
O vento tufão gira mundo;
As florestas viram monturo;
Os mares lixeiras atômicas;
Megalônicas cidades da fome,
Das covas zumbi e o lobisomem,
E ninguém que saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
Nascentes morrem nas cabeceiras;
Derretem dos polares as geleiras;
Desaparecem o urso e o salmão;
Das águas os monstros tsunamis;
Rios cimentados estouram canais,
E a selva de pedra vira um caos,
No calor de mais de 60 graus,
E ninguém que saber da lição,
Prefere ter mais armas na mão.
Tem gente que não acredita,
Nos sinais do aquecimento global;
E cada um aumenta as chaminés;
Mentem nas mesas do clima,
Com mais gases e torpedos no ar;
Adoram seus deuses como Ramsés,
Que não passam de estátuas do mal,
E ninguém quer aprender a lição
Prefere ter mais armas na mão.
NOS BARES DA VIDA
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
A inspiração aflora e o casal do lado só namora
O papo rola com a turma do jogar conversa fora
Uns caras da saideira falam de política e fofocas
O poeta rabisca no guardanapo seu fiapo da letra
Canta uma canção de amor a viola cigana menina
Moucos das redes sociais navegam em suas locas
Num bar de Minas bateu asas o Clube da Esquina.
Nos bares da vida sempre tem freguês
Uns vão comemorar feliz suas glórias
Outros vão até lá suas mágoas consolar
Se está numa boa se diverte nas histórias
Se bate a crise toma pra esquecer a danada
Escutar o cancioneiro falar da mulher amada
Mesmo sabendo que a conta chega todo mês
Nos bares da vida discutem escritores e cordelistas
Olhares indiscretos trocam bilhetes com o garçom
Em Munique sentou num bar o corvo cruel da morte
O comuna Marx brigou com o anarquista Proudhon
Nas tabernas, bárbaros juraram derrubar os romanos
Num bar de Gori, Stalin tirano tramou a queda do czar
Hemingway tomava a santa cana na Bodeguita cubana.
Saiu o manifesto Bola-Bola Cinema Novo no Alcazar
No Vermelhinho cruzaram militantes contra a ditadura
O surrealismo francês ternura nasceu no Cyrano de Paris
Artistas baianos curtiram noites no Anjo Azul e Tabaris
Nas etílicas tintas das matérias escolheram seus pincéis
Naquele bar atiraram pistoleiros e jagunços dos coronéis
Nos bares da vida, sempre existiu aquele histórico bar.
TRISTE SAGA DO JUMENTO
Poema e foto de autoria de Jeremias Macário
Vou louvar a triste saga do jumento.
Conta o Sagrado Novo Testamento:
Um burrico fez sua longa jornada
Pelo Oriente deserto de guerra e dor,
Para salvar o divino menino Salvador.
Jumento, asno ou jegue deram seu nome;
Fez travessia nas caravelas portuguesas,
Os descendentes dessa raça resistentes,
Como camelos mercadores dos beduínos;
Trilhou estradas dos imperadores latinos;
Veio aqui construir do Brasil as riquezas,
Até virar símbolo dos agrestes nordestinos.
Muitos séculos tropeando ao sol do labor;
Na carga feirando mantimentos do senhor;
Enfrentou secas salinas de léguas andanças;
Esperou voltar os retirantes das esperanças;
Nas cangalhas transportou até as mudanças;
E o tempo passou e veio o cavalo de fogo,
Para selar a sua triste sina num abatedor.
Maltratado sofreu sede e fome num curral,
Pela ganância do capital dessa gente brutal,
O homem indecente da sua pele fez escalpo
Do inocente jumento que tanto trabalhou,
Para brindar os chineses com o tal de Eijao;
Da carne fazer temperos com água e sal
Comida exótica do nosso jegue tropical.
Oh quanta tristeza neste sertão de poeira!
Não vejo jegue descendo e subindo ladeira!
Até a cultura popular está indo embora,
Neste agora deste Nordeste cabra da peste!











