:: ‘Na Rota da Poesia’
UNS SE VÃO E OUTROS FICAM
De Jeremias Macário, em homenagem ao meu compadre e amigo-irmão “Luizão”
Olá, meu amigo-irmão!
Pra você que se foi,
Partiu sem me avisar,
Assim é a nossa vida:
Uns chorando nascem,
Outros no silêncio se vão,
E muitos por aqui ficam,
Para seguir o ciclo da lida,
Desse misterioso círculo,
Que nunca vai se fechar.
Todos, compadre-irmão!
Temos que aprender a lição
Das horas certas e incertas,
Com a sua conta a pagar
Todos os meses e dias,
Preenchendo essas guias,
Enfadonhas e burocráticas,
Que só as linhas do amor,
Nos consolam dessa dor.
Os que amaram o viver,
A quem a todos cativou,
Aprendeu fazer sua conta,
Sem nunca ligar para o ter,
Como em sua via fez você,
Do jeito que nos ensinou,
A não se desviar do traço,
E quando por acaso lá se for,
Manter o mesmo afago,
Do abraço do dia que chegou.
Assim é o ciclo da vida,
Meu compadre, amigo-irmão:
Uns nascem e outros se vão,
E toda gente que aqui ficou,
Continua a fazer sua conta,
Como diz a canção do poeta,
Para o dia que vai chegar,
De um círculo, meu amigo,
Que nunca vai se fechar.
O DEUS REI GALOPADOR
Poema inédito de autoria do jornalista Jeremias Macário
Galopeia, galopeia,
O cavalo deus rei galopador,
No sereno orvalho do prado,
Na poeira do cascalho da areia.
Desceu do Olimpo o cavalo,
Para nas bigas ser gladiador,
Poderoso como o Prometeu,
Veloz na arena como vencedor,
Rei deus da ventania a cavalgar,
Lenda guia na viagem milenar,
Esperado como deus inca-asteca,
Da América ao Novo Mundo veio.
Do cavalo o homem sugou sua força,
Pra cortar serras e matas da mãe terra,
Nas andanças invadir e colonizar,
Oprimir pela arma e matar na guerra,
Com aço espalhar germes e doenças,
E ainda impor suas fanáticas crenças,
Como nas Cruzadas das matanças.
Templários cavaleiros dos mistérios.
Cavalo-vaqueiro nos rastros da res,
Nos agrestes dos engaços do Nordeste,
Das Volantes no cerco à Coluna Prestes,
De valentes tenentes rumo ao Pantanal,
E sem ele não teria Caubói faroeste,
Nem o som da divina canção do genial,
Assovio italiano de Ênio Marricone,
Nas filmagens áridas de Sérgio Leone.
Campolina, manga-larga machador,
O puro sangue mustang e o árabe,
Pelo deserto beduíno o alado voou,
Na África teve que arrastar escravos,
No oeste dos bravos puxou diligências,
Com Pizarro executou o rei Ataualpa,
E Cortez prendeu o asteca Montezuma,
Tudo pelo ouro pra suas excelências.
No frio russo como máquinas biônicas,
Guerreou nas batalhas napoleônicas;
Júlio César no rio ergueu sua espada,
Lançou a sorte e foi rei dos romanos,
E o sanguinário Átila usou seus cascos,
Pra queimar toda grama por onde passou,
E os mangoiós adoravam como deus animal,
O feroz que lutou até a I Guerra mundial.
O GALO PROFESSOU
Poema mais recente de autoria do jornalista Jeremias Macário
Seu canto é também canção de amor,
De cisco riscado no chão reprodutor.
O galo professou e me ensinou
A ser semente levada pelo vento,
Louvar a vida, desencantar a morte,
E sempre ter a mente firme e forte.
Sem o relógio para o tempo anotar,
O sono leve vigia no silêncio da noite,
O sinal do galo no açoite da madruga,
Que está na hora da tropa se levantar.
O galo galante no terreiro é bem visto;
Foi testemunho da antiga divina profecia;
Cantou três vezes após Pedro negar Cristo,
Ao dizer que o seu mestre não o conhecia.
O galo professou pegar no pasto os jumentos,
No orvalho do sertão pra na feira mascatear
Os mantimentos lavrados na enxada do torrão,
E na baixada deu pressa antes do dia clarear.
O galo professou na curva ainda meio turva.
Que a aurora com seu esplendor logo ia raiar;
Professou que com o trabalho a dor se cura,
E o vade nos guiou até à cidade a carga arriar.
MEU PRIMEIRO PROFESSOR
Poema mais recente de autoria do jornalista Jeremias Macário em homenagem ao jumento
Meu primeiro professor foi um jumento,
Que me ensinou ser um cara prudente,
Carregar carga pesada pro nosso sustento,
Entre as veredas desse meu sertão valente.
Meu primeiro professor foi um jumento,
Este inocente que está sendo morto-extinto,
Com louvor serviu Maria, José e o Menino,
Sem lamento para a terra faraó do Egito.
Meu primeiro professor foi um jumento,
Símbolo do nosso Nordeste repentista,
Que ajudou transportar água e alimento,
E ainda foi inspiração para poeta artista.
Meu primeiro professor foi um jumento,
Que me deu força de vontade e persistência,
Com sua cangalha matou a fome dessa gente,
De existência secular desde os reis do Oriente.
Salve! Salve! Nosso irmão jumento!
Vamos impedir que o criminoso avarento,
Leve nosso jegue pro curral da matança,
Como condenado que só nos deu bonança.
DE LIVRO NA MÃO
Poema (atualizado) de autoria do jornalista Jeremias Macário
O Brasil vai ter armas nucleares,
Cortar nossa magra educação;
A cultura definhar como cambito;
Todo povo viver em corrida manada;
O meio ambiente sumir pelos ares,
No buraco negro fundo do infinito;
A Amazônia, uma fazenda de boiada;
Os índios morrendo de calamidade;
E todos de armas em punho sem lição.
De livro e com a escrita na mão,
Me livro das armas e dessa cilada,
Do soldado a torturar e a matar
Negros e pobres nos tiros favelada.
Não vou ser mais lenha na fornalha,
Nem ser boi ferrado, caça de caçada,
Inocente útil de cabeça fútil dominada,
Nem cangalha dessa tropa de canalha.
Vou de livro na mão e sair da contramão;
Ser poeta pra falar de razão, amor e dor;
Voar alto e livre nas asas do Condor,
Pra condenar quem nega a ditadura,
Planta veneno e esconjura nossa Sofia,
Mente que não existiu porões da tortura
E ainda tenta roubar o livro da nossa mão,
Pra nos fazer de massa guia de manobra,
Pau mandado e reio cru pra toda obra.
UMA NAÇÃO EM CORRERIAS
Este poema de autoria do jornalista Jeremias Macário é inédito e saiu agora do forno. Fala de um povo que foi e ainda é muito discriminado pelos olhos preconceituosos.
Fotos divulgação
Um dia, uma bela “buena dicha”,
Cigana do Rio Campo de Santana,
Leu as raias da minha mão,
Falou do meu passado e futuro,
E de uma nação em correrias,
De um povo livre Calon e dos Rom,
Origens de várias partes do mundo,
Visto como trapaceiro e vagabundo.
Reza a lenda que um grupo do Egito,
Não acolheu o Infante em sua tenda,
Quando fugia com sua Família no deserto,
E aí caiu maldição de vagar como nômade,
Viver sua gente em disparadas correrias,
Forasteira peregrina a pagar a sua sina,
Mas tudo foi engano cigano feito mito.
Da Grécia Antiga e dos confins da Ásia,
Na Romênia, a nação Rom foi escrava,
Falseou de imigrantes alemães e italianos,
E da Península Ibérica veio o Calon Kalé,
No galé do navio degredado por Portugal,
Para o Rio como bandidos imundos vadios,
Nos mares negreiros do Brasil Colonial.
Para sobreviver, negociou com escravos,
Arreios de prata, cavalos e bestas animais,
Cigano Calon do cobre, zinco e do latão,
Caldeireiro engenho da mata canaviais;
Do Nordeste, de Minas a Bahia nos jornais,
Noticiado como sujo, embusteiro sem etnia,
Pela polícia dessa sádica elite sociedade,
Como desordeiro, preguiçoso e ladrão.
Das correrias dos sangrentos tiroteios,
As posturas municipais de torturas,
Acusam ciganos de zíngaros imorais,
A “buena” de bruxa astuta prostituta,
Uma nação com suas marcas culturais,
Sem direito à cidadania do ir e do vir.
De tez morena, olhar mágico lógico,
Com seu tempo sem relógio dividido,
Não linear, de labirinto reprimido,
Curtindo na rede, a deusa do ócio,
Como um transgressor das normas,
Herege banido dessa moral religiosa,
Vai a cigana Andaluz a bailar formosa,
Nas batidas sonoras das castanholas,
A sonhar com seu reino mitológico.
Essa é a história de uma nação em correrias,
De cidade em cidade, província em província,
Artista amante da dança nas noites de boemias
Que com seu jogral encantou toda Corte Real.
LEMBRANÇAS DO TREM
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Foi-se o tempo de menino,
Espiando o telegrafista,
Com batidas de artista,
Mandar tocar o sino,
Como se fosse um hino,
Pra lembrar aos viajantes,
Que em poucos instantes,
Vai ter máquina na pista.
Lá vem o trem a se arrastar,
Nas serras diamantinas,
Como cobra a deslizar,
Por entre as colinas.
Lá vem o trem roncando,
Com suas patas de ferro,
Levando usinas de sonhos,
Nas cabeças dessa gente,
Soltando o seu berro,
E avançando imponente.
Lá vem o trem groteiro,
Pelas esquinas do sertão,
No seu traço rotineiro,
Picado lento e ligeiro,
Parando nas estações,
Como fazia o tropeiro.
Lá vem o trem das matinas,
De janelas sem cortinas,
No seu balanço manso,
Apitando pra avisar,
Que logo vai parar,
Na Estação de Paiaiá.
Lá vem o trem penitente,
Puxando a sua corrente,
Nos trilhos do dormente,
Como um rezador,
Que vai curando a dor
Da alma do doente.
Lá vem o trem lembrança,
Dos dias que era criança,
Matando minha saudade,
De no embalo pongar,
E mais adiante se soltar,
Pra na linha caminhar,
Vendo o meu trem sumir
No horizonte de lá,
E noutra cidade chegar.
Em sua última viagem,
O trem partiu para o além,
E levou a minha bagagem,
Ficando só na mente,
A marca daquela fumaça,
Na minha cinzenta vidraça.
Lembrança da valente,
Piritiba de toda gente;
Do sábado de feirante;
Do poema cortante;
Do poeta Aragão,
Que mistura pavio,
Mandioca com feijão,
E ainda nos dá razão,
Pra xingar de delinquente,
O governo indecente,
Que deixou esse vazio,
Do nascente ao poente.
FRONTEIRAS DAS BARBÁRIES
De Jeremias Macário, em homenagem a Camilo de Jesus Lima.
Deixa essa gente avançar a fronteira, gente!
Deixa essa gente ir em frente com sua dor!
Abra os espaços de aços e baixe as armas!
Idosos, crianças e a gente de toda idade;
São filhos dos bombardeios do horror;
Gente do mar revolto e da terra quente,
Faminta de olhos tristes e mãos desarmadas,
Pés que se arrastam em busca da liberdade.
Olha aquela gente, moço, que mira o poente!
Sente como vem em direção da nossa gente?
Como o povo do deserto fugindo do Faraó;
Uns com seus filhos e outros andando só,
Cortando mares, montes, cercas e serras;
Passos apressados para fugir da barbárie,
Do ódio étnico-religioso de “santas guerras”.
Abra a fronteira pra essa gente atravessar!
Gente que vem da espada dos templários!
Como sangria do terror nazista maoísta,
Do poder radical do deus fundamentalista,
Que não porta lenços revolucionários;
Só mochilas com as saudades do seu lar.
O mundo vai ser todo murado e cercado!
Como fazendas fortalezas latifundiárias,
E quem não tiver terra, gente, vai ser boiada;
Viver como escravo e comer a ração dada,
Como palestino perseguido na Faixa de Gaza;
Latino clandestino entre o México e a estrada;
Haitiano na Amazônia pra vagar numa Plaza,
E todo refugiado como párias nas ferroviárias.
As lágrimas se misturam às poeiras,
No rosto daquele solitário menino,
Saído dos escombros das antigas ruínas,
Da linha de fogo das mortais fronteiras,
Do chão lendário e mítico do beduíno,
Onde um dia gerou o filho real ungido,
Para pregar convivência sem conflito,
E poder desbravar seu sonho sem finito.
Das profecias dos tempos os sinais:
A marcha de horrores estarrece o mundo,
Vinda das montanhas áridas em chamas;
Cruza além-mar das profundas sepulturas,
Para cobrar dívida do passado de usuras,
Dos exploradores dos miseráveis salários,
Em nome de seus bárbaros cruéis ideários,
De expandir seus territórios imperiais.
Deixem que os vivos das longas andanças,
Vindos dos porões dos barcos sufocantes,
Deste dantesco inferno dos mil demônios,
Derrubem essas amaldiçoadas fronteiras;
Sigam em direção de seus novos horizontes,
Para acalentar o choro e curar as feridas,
Nascidas do ventre de suas pátrias partidas!
Lá vem gente avexada pra fazer a travessia!
Não para guerrear por domínio de etnia,
Nem para detonar as igrejas e as mesquitas;
Lá vem gente que só pede por passagem!
Numa homérica viagem sem eiras nem beiras,
Como ventania que não teme o sol e o frio;
Sem tanques, sem bombas, símbolos ou fuzil;
Gente que só quer atravessar as fronteiras!
Gente que só quer passar por essas gentes,
Das cercas farpadas e de armas nas mãos.
Quem é essa gente vinda da África e da Ásia?
Navega perdida pelo Mediterrâneo e o Egeu,
Nos mares revoltos do Olimpo de Prometeu,
Para ingressar na Grécia dos sábios filósofos,
Na Itália dos césares romanos conquistadores,
Que sai da Síria, Líbia, Sudão e da Turquia,
Em longa jornada até a Croácia e a Hungria,
Que se amontoa nas estações chiques de trem;
Pendura e se espreme nos macios vagões,
Como se fosse para campos de concentrações!
Gente que morre em frigoríficos de caminhões,
Para a Inglaterra, França, Áustria e Alemanha,
Países que dessa pobre gente se envergonha.
Que civilização é esta tão fútil primitiva,
Que solta foguetes acima espaços lunares;
Investe bilhões com bombas nucleares,
Como sempre fez o letal ianque do norte,
Que exterminou toda sua gente índia nativa,
E agora cala e deixa essa gente à própria sorte?
Que civilização é esta tão hipócrita cristã,
Que aponta o outro lado como o eixo do mal;
Trata os mulçumanos como se fossem animais,
Atirando dos muros sanduiches e gazes letais?
É uma civilização individualista e ainda pagã.
Não é esta uma civilização com a mente sã;
Nem é a minha, nem dos que rogam por paz,
Mas a deles que vendem uma história irreal,
E invade nações só para aumentar o cabedal.
Que civilização é esta da criança morta a boiar,
Nas ondas da praia vindas do outro lado de lá,
De um mar de tormentas de lágrimas a derramar,
Em plena era tecnológica assassina irracional,
Que não aprendeu com o fim do império romano,
Com o tempo da opressão do reino Otomano,
Com a brutal Cruzada das iras religiosas,
Com as câmaras de gás de seres em fornalhas,
Com as inquisições das fogueiras criminosas,
Com os czares e tiranos bestas feras canalhas?
Que civilização é esta amedrontada e dividida;
Desumana que caminha para a destruição fatal,
Que fez um pacto com o diabo pelo vil metal,
Que criou os filosofismos e outros tantos ismos,
Numa história banhada de sangue e barbarismos?
Como já disse uma vez o grande poeta da terra:
“Me solta gente que eu quero atravessar a fronteira”.
AQUELA MULHER!
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Quem é aquela mulher?
Tão linda e bela,
Com jeito de pantera,
Que me olhou,
Como se fosse pai dela?
Olhei simplesmente,
Como uma mulher,
Não com olhar paternal,
Mas como formosa carnal,
Pra fazer amor com ela.
Quem é aquela mulher,
Que me disse sincera,
Que eu era o pai dela?
Quem é aquela mulher,
Que apareceu na festa,
Me espiou pela fresta,
Da luz pela janela,
E na saída me beijou,
Como se fosse pai dela?
Mas não foi assim,
Que abracei ela.
Quem é aquela mulher,
Que nem procurei saber,
Sobre o nome dela?
Sumiu e foi embora,
Imaginando,
Que sou o pai dela.
Quem é aquela mulher,
Que não me deu
A sua delicada costela,
E deixou sua doce imagem,
Pintada em minha tela,
Tão bonita e tão bela?
Podia ser uma fera,
Ou ter sido uma quimera.
VIAJANTE
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Vou tocando meu caminhão,
Cortando o asfalto desse chão,
Seguindo sem mais ninguém,
Vou levando a minha carga,
Para outro lugar do além.
Essa estrada maluca,
Queima a nossa cuca,
E vou assim nas retas,
Sumindo nas curvas,
Ouvindo as ondas longas,
E deixando vaga as curtas.
Vou por aí tocando,
Minhas duras lutas,
Nas frenéticas disputas,
Namorando prostitutas,
Conhecendo cidades,
Valentes e covardes.
Meu abrigo é a boléia,
Meu canto é da solidão,
Onde guardo a amada,
Levando minha carga,
De química e de feijão.
Pra bem longe vou rodando,
Sem saber quem eu sou,
E assim dirijo meu destino,
Rezando pro meu divino,
Com meu jeito de latino,
Sem rimar amor e dor.













