:: ‘Na Rota da Poesia’
SAMOS O QUE SAMOS
Poema inédito e mais novo de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário
Somos volúpias carnais infernais,
Ternos, tiranos irracionais radicais,
Hienas caçadoras carniceiras,
Águias de garras traiçoeiras,
Gaviões famintos nos galinheiros,
Gafanhotos destruindo plantações,
Mandacarus sobreviventes do sertão
Fogo e fumaça em erupção.
Somos água seca da cacimba,
O cangaço retorcido de aço,
O silêncio que vem lá de cima
Do universo sideral dos céus,
Gentes inocentes incoerentes,
Com a mente que sempre mente
Sentados nos bancos dos réus.
Somos feiticeiros de religiões,
Arrastando legiões carneiras;
Somos todos paus de atiradeiras,
Fingindo ser o que não somos
Nesta vereda de tantos ramos,
Em noites embriagadas de vinhos,
Tentado arrancar nossos espinhos.
Somos aves, passarinhos gigantes,
O céu e o inferno de Dantes,
O vento forte que vem do norte,
Madeira de ferro pra toda obra,
Que vive correndo atrás da hora,
Ora rir feliz e ora triste chora,
Sofrendo com o aqui e o agora.
GENTE QUE É GENTE
Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário
Por esse lenho da Vera Cruz
Desceram os espíritos da nau
Atrás do venal cobiçado metal
Com doenças do corpo e da alma
Inocular o vírus predador do mal
Na gente virgem mata selvagem.
Armada de doutrina sagrada
Comeu nativo na cruz e na tara
Cuspiu gente que ainda faz gente
Do açoite do cipó, do reio e da vara
Do ouro, do mel da cana e da boiada.
Neste visceral árido caminho
Vaga a ampulheta da morte
De uma gente andante solitária
Que se humilha pra ser gente
E não é vista pela sua gente
Indiferente e inconsequente.
Depois de um sono de engano
Raios de luz batem na janela
Crianças choram de fome
E a paisagem do mar da favela
Na curva da esquina some.
Nas bocas fumacentas do crack
Nos escombros e nas ruínas
Trapos, farrapos amontoados
Mães, meninos e meninas
Das guerras tiranas assassinas
De uma gente que não vê sua gente.
Gente de fé e luta cangaceira
Da seca cinzenta e inclemente
De rostos marcados nas feiras
Carrega seu bocapio de poeiras
Cheio de esperança de ser gente.
Vejo os mortos vivos
Perambulando nesta estrada
Do pergaminho curto da vida
Como códigos de um ninho
Misterioso de uma gente crente
Que nem sabe se é mesmo gente.
A alma da terra dessa gente
Que não tem na capanga a moeda
Para dar ao barqueiro Caronte
Vaga pelas margens do rio
No viaduto e debaixo da ponte.
Atrás daquele monte de pedras
Pode existir uma doce fonte
Uma flor rara e solitária
Outro horizonte perdido
Outra gente que ama gente
E ensina como mudar a mente.
Gente que é gente do ter e do ser
Gente braçal e de todos os rincões
Gente do pensar mágico simpático
Das fábricas, campos construções
É preciso fazer a hora acontecer.
ENTRE UM E O OUTRO
Poema do jornalista Jeremias Macário
Brigam a ciência e o mistério,
pela verdade do peregrino,
mas poucos levam a sério.
Misturam religião e profano,
nas festas de todo o ano.
Uns vão e outros ficam,
na curva escura da vida.
Uns preferem a linha reta;
outros duvidam da seta.
A saudade aperta,
quando termina a festa,
e o encontro se desfaz,
no ar como o gás.
Entre a água e o fogo,
fico com o fogo.
Entre a terra e o ar,
fico com o ar para respirar.
Entre a pauta e o roteiro,
temo ficar com os dois,
e ser escolhido pra depois.
Entre a morte e a vida,
não tem mais saída.
Entre a treva e a luz,
fico com a que me conduz.
Entre a música e a literatura,
só se tiver conteúdo e cultura.
Entre o deletar e a tortura,
me leve para a sepultura.
Entre o amor e a dor,
nos dois eu sou.
Entre a capela e a catedral,
sou a mais simples pra rezar,
e chegar do outro lado de lá.
Entre o amigo só das festas,
fico com o das horas incertas.
Entre Raul, Chico e Gil,
melhor se for de vinil.
Entre Milton e Vandré,
fico também com Tom Zé.
Entre a religião e a filosofia,
prefiro a popular sabedoria.
Entre esse espaço de aço
e a sociedade alternativa,
fico com a criatura primitiva.
Entre a chuva e a maré,
prefiro ir seguindo a pé.
0 SISTEMA TECNOTÓXICO
Poema do jornalista Jeremias Macário
Neste mundo de tanta tecnologia
A sabedoria caiu no coito da orgia;
O homem ficou ainda mais idiota,
Que nem sabe mais abrir sua porta,
E como tropa segue cego sem rota.
Ainda jovem plantei árvore, livro e fiz filho,
E dai Raul, continuo um cara insatisfeito,
Um andarilho sem sentido e sem conceito,
Nesse sistema que nos empurra pro poço;
Sou como um cão faminto roendo um osso.
A máquina roubou o seu lugar;
Planta na terra mais agrotóxico;
Colhe veneno alimento de matar;
Tudo fresco e vistoso por fora,
Que se come até a casca na hora.
O homem corre dia e noite, noite e dia;
Respira no ar as partículas de dióxido,
E lá vai o elemento andante tecnotóxico
No sistema tóxico de tanto pó e negócio,
Que suga sua alma e cada gota de energia.
Sou um invento contente tecnotóxico;
O sistema que manda fazer isso e aquilo;
Beber ácido e comer a comida a quilo;
Ser um ativo neste mundo competitivo;
Fumar tóxico e engolir fumaça de monóxido.
Sou do sistema um átomo e fio de conectar;
Sempre carrego na cabeça a senha do celular;
Excremento que por ai vagueia sem um tema,
Pronto pra aprender o teorema do esquema,
E repetir na entrevista tudo que me perguntar.
Não tenho nome, sou número tecnotóxico,
Moço engravatado e um liso comportado,
Se quiser um emprego de gari ou deputado,
Sigo a linha padrão de um bom capitalista
E nada de artista, ativista ou comunista.
Minha artéria venenosa de competição
No sistema bruto sem caráter e sem lição,
Nem vejo miséria nesse mundo tecnológico;
Como na fila o hamburguer cheio de tóxico,
E nem quero saber dessa coisa de ser lógico.
NÃO QUERO MAIS ESTA LIÇÃO
Poema de autoria de Jeremias Macário
Meu poema não fala de libido e amor,
Lembra de um gado em disparada,
Como no verso galopeiro de Vandré;
Ele é mais de dor ferida que de flor;
É cálice amargo, vida de caça fuzilada,
Como na angústia do Drumond de José.
Não quero esta assassina lição,
De esquecer a milenar sabedoria;
Não quero soldado para abater,
Fazendeiro com guia pra matar,
Brasileiro comer pedra pra viver,
No país de um futuro sem razão.
Quando a mente vira aço se cala,
E o artista se quebra em pedaços;
Não protesta contra esta estupidez,
Em nossos peitos o cara mira a bala;
Voltam-se aos tempos dos cangaços;
E o povo freguês nunca tem sua vez.
A mídia quer mesmo é bajulação,
Como o profeta Raul Seixas anuncia;
Fazer sua média atrás do capital vil,
E os canalhas encurtam nossa educação;
Querem um povo de cangalhas e servil;
Negam a ditadura e cospem democracia.
Como no rasgo da viola do vate,
Não quero aprender esta lição
Dos inimigos da nossa cultura;
Sou menino e visto o rosa;
Sou a menina desse céu azul;
Quero o saber da Sociologia,
De toda parte, do norte ao sul,
O livre pensar da nossa filosofia,
E gritar bem alto a minha prosa;
Marchar firme contra esta loucura
Da apologia a essa arte do descarte.
FREGUÊS DE TODO MÊS
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Para poucos o colosso, para muitos o osso;
O cristianismo pegou dos celtas e romanos
O solstício, e veio o capital inventou Noel
E os profanos de Cristo lotearam todo o céu.
Você corre e corre atrás do metal vil,
E nem dá conta que não passa de freguês;
Se esbalda no bar no final de semana;
Em casa ouve um som do antigo vinil
Que fala de liberdade e se acha bacana,
E a conta chega todo o final do mês.
Olhe meu camarada para seu espelho;
Você corre, corre e todo fim de mês
Entra na maldita lista de besta freguês;
Faz conta, conta e só bate no vermelho
Você corre e voa como cavalo alado;
Discute, briga e solta seu baseado;
Busca como um louco pela verdade,
E pensa no filósofo da antiga idade,
De que a vida lida é um bem incerto,
E que a morte conserta um mal certo.
O brutal sistema sempre nos frita,
Nos faz de brita todo regime maldito,
Seja no verão, primavera ou inverno,
E cada um tem seu deus e seu inferno.
Esmagado como cana que vira bagaço,
Você abre o site burocrata do formulário;
Faz o passo a passo pra abrir os cadeados,
E segue o rigor dos minutos e do horário,
E ele pede sempre mais e mais dados,
E testa seus nervos esticados de aço,
E no final ainda lhe chama de fracasso.
Lembre-se que você tem as fronteiras,
De norte a sul tem arames e muralhas;
Do outro lado vivem os frios canalhas;
E nem adianta pedir para abrir passagem
Nessas tormentas fileiras de vaga viagem.
Olhe meu camarada para seu espelho;
Você corre, corre e todo fim de mês
Entra na maldita lista de besta freguês;
Faz conta, conta e só bate no vermelho.
A DOR DA FINITUDE
Do jornalista e escritor Jeremias Macário
Uns dizem que a morte é matreira;
É o líquido eterno da vida finita;
Outro que é o amargo sem sentido,
E que a vida é sombra passageira,
Que traz na lida a dor da finitude,
Com seu baú de coragem e medo,
Nos laços do intrincado segredo
De duas damas onde uma é chama,
E a outra é carícia, abraço e drama.
A finitude pode até descansar a dor;
O filósofo manda conhecer a ti mesmo,
Outro que tudo na vida se transforma;
O contrário que nada muda em sua forma
E tem aquele grande antigo pensador
Da questão filosofal do ser ou não ser,
Mas para o poeta nada disso lhe consola
Tudo não passa de delírio etílico de festa;
Acha que a gente se conforma com esmola
E que nem tudo que se lê e escreve presta
É que cada um se conforma com sua escola.
Tudo passa, tudo muda e se transforma
Tudo fica no lugar, e mudança é ilusão
Nada começa, nada se acaba, nada torna;
A flecha que voa está parada lá no ar;
É tudo finito, infinito e confusão
Como ondas que se quebram no mar.
DE LIVRO NA MÃO
Poema do jornalista Jeremias Macário
O Brasil vai ter armas nucleares
Vai cortar nossa magra educação
O meio ambiente vai sumir nos ares
No buraco fundo negro do infinito
A caça fuzilada vai ser liberada
A cultura definhar até virar cambito
E cada brasileiro de arma, sem lição.
De livro e com a palavra não mão
Me livro das armas e dessa cilada
De soldado atirar e vigiar o pensar;
Não vou ser mais lenha na fornalha
Nem ser boi ferrado dessa boiada
Inculto inútil de cabeça dominada
Nem cangalha dessa tropa de canalha
De ser gente vaga e viver na contramão;
Quero ser poeta pra falar de amor e dor
E voar alto e livre nas asas do Condor.
O negócio deles é negar a ditadura
Plantar veneno e condenar a Sofia
Fazer esquecer dos porões da tortura
Decorar tabuada, matar a sociologia
Para nos fazer de massa de manobra
Pau mandado e reio cru pra toda obra
Ser cota de inocente útil do louco idiota.
MALUCA LUTA
Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário
Vida de estouro de boiada.
Mundo maluco de cão.
Luta de povo besouro.
Falso ouro enferrujado,
de sonhos cheios de pelos,
que viraram pesadelos.
A luta maluca de bravura,
vira loucura e até tortura.
Concebidos num caso por acaso,
a vida nunca teve sentido.
O vazio das perdas e a depressão,
são dos fortes a salvação.
O alienado não se deprime,
nem tampouco alcança o sublime.
Você não é obrigado a ser feliz,
nem portar cartão de crédito
do giz politicamente correto.
Rasgue sua carta de conduta,
e siga a sua maluca luta.
Engula o seu choro contido,
e devore seu sentido derretido.
Sua cidade é o seu inferno,
e não adianta se esganar,
porque aqui não existe eterno.
A morte é a negação do existir,
e o existir, um sonho passageiro,
porque você não passa de meeiro.
Nascemos todos no prejuízo,
esperando pelo dia do juízo,
com a promessa de ter um paraíso.
Mesmo que sejam os diabos,
os deuses são sempre endeusados
pelos seguidores idiotas dopados.
Você nunca vai vencer essa luta,
esquisita depravada conquista,
porque se agarra uma maluca,
a outra sempre está à vista.
ETERNO AMORES
Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário
Existe aquele amor sempre o eterno,
mesmo quando outro toma seu lugar;
é o amor que vira nódoa na sua alma,
e nem todo o tempo consegue apagar.
Existe o amor de amante arrebatador,
que seduz como a pedra de diamante;
corta e devasta como o cruel lenhador,
até arder de cio na Comédia de Dante.
Existe aquele amor piedoso e o terno,
o do platônico que nunca se esquece,
e o do verão que se aquece no inverno.
Existe o prostituto que não tem pudor,
o que diz que ama e que nunca amou,
e o do condoreiro no vôo do Condor.










