:: ‘Na Rota da Poesia’
A DOR DA FINITUDE
Do jornalista e escritor Jeremias Macário
Uns dizem que a morte é matreira;
É o líquido eterno da vida finita;
Outro que é o amargo sem sentido,
E que a vida é sombra passageira,
Que traz na lida a dor da finitude,
Com seu baú de coragem e medo,
Nos laços do intrincado segredo
De duas damas onde uma é chama,
E a outra é carícia, abraço e drama.
A finitude pode até descansar a dor;
O filósofo manda conhecer a ti mesmo,
Outro que tudo na vida se transforma;
O contrário que nada muda em sua forma
E tem aquele grande antigo pensador
Da questão filosofal do ser ou não ser,
Mas para o poeta nada disso lhe consola
Tudo não passa de delírio etílico de festa;
Acha que a gente se conforma com esmola
E que nem tudo que se lê e escreve presta
É que cada um se conforma com sua escola.
Tudo passa, tudo muda e se transforma
Tudo fica no lugar, e mudança é ilusão
Nada começa, nada se acaba, nada torna;
A flecha que voa está parada lá no ar;
É tudo finito, infinito e confusão
Como ondas que se quebram no mar.
DE LIVRO NA MÃO
Poema do jornalista Jeremias Macário
O Brasil vai ter armas nucleares
Vai cortar nossa magra educação
O meio ambiente vai sumir nos ares
No buraco fundo negro do infinito
A caça fuzilada vai ser liberada
A cultura definhar até virar cambito
E cada brasileiro de arma, sem lição.
De livro e com a palavra não mão
Me livro das armas e dessa cilada
De soldado atirar e vigiar o pensar;
Não vou ser mais lenha na fornalha
Nem ser boi ferrado dessa boiada
Inculto inútil de cabeça dominada
Nem cangalha dessa tropa de canalha
De ser gente vaga e viver na contramão;
Quero ser poeta pra falar de amor e dor
E voar alto e livre nas asas do Condor.
O negócio deles é negar a ditadura
Plantar veneno e condenar a Sofia
Fazer esquecer dos porões da tortura
Decorar tabuada, matar a sociologia
Para nos fazer de massa de manobra
Pau mandado e reio cru pra toda obra
Ser cota de inocente útil do louco idiota.
MALUCA LUTA
Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário
Vida de estouro de boiada.
Mundo maluco de cão.
Luta de povo besouro.
Falso ouro enferrujado,
de sonhos cheios de pelos,
que viraram pesadelos.
A luta maluca de bravura,
vira loucura e até tortura.
Concebidos num caso por acaso,
a vida nunca teve sentido.
O vazio das perdas e a depressão,
são dos fortes a salvação.
O alienado não se deprime,
nem tampouco alcança o sublime.
Você não é obrigado a ser feliz,
nem portar cartão de crédito
do giz politicamente correto.
Rasgue sua carta de conduta,
e siga a sua maluca luta.
Engula o seu choro contido,
e devore seu sentido derretido.
Sua cidade é o seu inferno,
e não adianta se esganar,
porque aqui não existe eterno.
A morte é a negação do existir,
e o existir, um sonho passageiro,
porque você não passa de meeiro.
Nascemos todos no prejuízo,
esperando pelo dia do juízo,
com a promessa de ter um paraíso.
Mesmo que sejam os diabos,
os deuses são sempre endeusados
pelos seguidores idiotas dopados.
Você nunca vai vencer essa luta,
esquisita depravada conquista,
porque se agarra uma maluca,
a outra sempre está à vista.
ETERNO AMORES
Poema do jornalista e escritor Jeremias Macário
Existe aquele amor sempre o eterno,
mesmo quando outro toma seu lugar;
é o amor que vira nódoa na sua alma,
e nem todo o tempo consegue apagar.
Existe o amor de amante arrebatador,
que seduz como a pedra de diamante;
corta e devasta como o cruel lenhador,
até arder de cio na Comédia de Dante.
Existe aquele amor piedoso e o terno,
o do platônico que nunca se esquece,
e o do verão que se aquece no inverno.
Existe o prostituto que não tem pudor,
o que diz que ama e que nunca amou,
e o do condoreiro no vôo do Condor.
DOR DA SAUDADE
Esta dor que a ti dilacera,
é uma dor que rasga e corta;
vem na forma de quimera;
entra como uma desvalida,
sem ao menos bater na porta.
A depressão corre pela veia;
a hora para e turva o ser;
o passado vem e não passa;
o futuro curto não clareia,
e o presente só faz sofrer.
É uma dor que amolece,
e não tem cura de doutor;
nem o tempo desaparece,
com este nó da saudade,
quando se pensa no amor.
É uma dor doída varada,
que te impede de comer;
suga a alma desamparada;
deixa a boca seca e amarga;
e só faz lembrar de você.
Parece não ter mais fim,
esta tal tirana da saudade,
que não escolhe a idade;
entope qualquer coronária,
e se espalha como cupim.
É uma vilã, esta ordinária,
de véu e traje existencialista,
que consome toda nossa diária;
rouba sorrateira a nossa alma;
e ainda diz que é uma altruísta.
EXISTE E NÃO EXISTE
EXISTE E NÃO EXISTE
Ainda existe
processo sem prisão,
a tortura sem história,
corrupção com vitória,
o crime que compensa,
a manipulação da imprensa,
o sonho feito de cristais,
como promessas sagradas
dos amantes e dos casais.
Ainda existe
a vergonha da esmola,
a escola sem lição,
país sem educação,
criança sem livro,
rei fajuto de camisola,
a justiça da pistola,
o cruel capital,
o empreiteiro pardal,
o ladrão de gravata
o coronel da chibata,
o amolador de navalha,
o ferreiro do fole
e o político canalha.
Não existe
relógio sem hora,
piora sem melhora,
cordel sem rima,
cantador sem viola,
presente sem passado,
chato que não amola,
sandália sem poeira,
cavalo sem crina,
cidade sem feira
país sem hino,
nem vida sem sina,
romaria sem peregrino,
e criatura sem destino.
POEIRA
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
POEIRA
Andei por aí,
comendo poeira
por todo lugar,
no sol da zonzeira,
de a pele rachar.
Andei por aí,
longe das catedrais,
nas capelas de cruzes,
marcadas por sinais,
sem o foco das luzes.
A pé, ou de carro,
a poeira a subir,
nas casas de barro,
na estrada da vida,
não tem mais Juriti.
Menino descalço,
andando por aí,
com a barriga vazia,
parecendo o Zumbi,
na poeira do dia.
Caminhei por ai,
nas minhas andanças,
vendo a fome,
severa o seu nome,
de tristes lembranças.
A poeira nas curvas,
nas rodas veloz a girar;
tapa tudo ao redor;
vira nuvens no ar,
e em nós fica só o pó.
Perambulei por aí,
comendo o sal,
misturado à poeira,
do bem e do mal,
das viagens daqui.
SUA IMAGEM
Poema de autoria do jornalista Jeremias Macário
Fui fluir a saudade no vento
(do campo).
Nas flores perfumadas do sertão
(em cores),
vi sua imagem toda colorida
(do verde verão).
Fui buscar o sentido da vida
(nos espinhos).
Os pássaros em festa voaram
(de seus ninhos),
e lá na barragem estava sentada
(na mesa de sempre).
Mirei a paisagem para encontrar
(a paz).
Meu pensamento voou até as nuvens
(de cera),
e sua imagem esculpida na pedra
(faceira).
As árvores viçosas brotaram
(da seca).
Quero consumir todo o seu amor
(por inteira).
Não consigo descolar sua imagem
(dessa minha viagem).
CÍRCULOS CINZENTOS
Poema de autoria do jornalista e escritor Jeremias Macário que fala do suicídio de Getúlio Vargas, dos abutres pelo poder e dos golpistas que sempre aproveitaram dos momentos mais difíceis do país.
Corvos agouram os céus do palacete;
um tiro vara o peito do destino fatal,
vergando o corpo no cobiçado Catete,
naquele agonizante agosto nacional.
Um abutre vigiava o seu aposento,
voando em círculos no céu cinzento,
mas um estrelado conteve o tropel,
para não quebrar o verso do cordel.
Nasceu no planalto um traçado raro,
das mãos de um jovem visionário,
que sonhou com o grande pássaro,
e morreu depois como um solitário
Povo galopado no galope da vassoura,
de um lunático que se armou de tesoura;
tomou um uísque e fi-lo só porque quis,
que de lá saiu da ressaca rumo a Paris.
O gaúcho lá dos pampas tomou um susto;
o chimarrão espatifou-se nas terras de Mao;
os quartéis se armaram para o quebra-pau,
cada caudilho queria arrematar o seu busto.
Depois de muita peleja pela Legalidade,
Brizola pontuou bem sua viola em Cadeia;
os sargentos armados cercaram toda cidade,
e o homem entrou pelo sul com praça cheia.
Concordou parlamentar com os generais,
e ficar uns tempos até poder presidenciar,
mas a panela começa ferver lá nos Gerais,
e Lacerda lacera e rouba o gordo Adhemar.
As idéias cruzam os sessenta vermelhos;
as esquerdas se apressam para revolucionar;
Grupo dos Onze rende mais que coelhos;
todos pedem reformas ao senhor Goulart
Estouram as marchas sociais e marxistas;
foi o mesmo que bulir na casa de vespeiros;
uns excomungando os velhos comunistas,
e outros pontuando nos levantes marinheiros.
Ventos e raios partem das altas montanhas,
derramando ódios até a Central do Brasil,
e no Automóvel Clube assanha as aranhas;
da serra desce Vaca Fardada de vazio fuzil.
Um Castelo de peças começa a ser montado,
na ponta de uma mortífera estrela de espada,
com Atos até de um desatino cruel malvado,
de um Costa morto de isquemia emparedado.
Nos porões trevas de sussurros agonizantes;
açoite de choques ditando o proibido pensar;
elétricas cadeiras onde padecem os amantes;
guerreiros perdidos da selva de algum lugar.
No inferno dos dragões treme a carne e arde;
algozes fazem dos corpos montes de trapos;
perde-se o domínio do existir para o covarde,
e o torturador desseca o espírito aos sopapos.
Nos estádios vibra o vilão com cara de ferro;
celebrações de vitórias do mundo campeão;
gemidos nos cárceres abafados pelo o berro,
e o fogo da bala abate mais uma organização
BERRO DE FERRO
Poema do jornalista Jeremias Macário
Meu grito explode e berra
como as bombas na guerra;
queima como brasa de ferro
nas fornalhas dos algozes,
que calam as nossas vozes.
Treme no úmido porão,
a carne do meu doído berro,
que tine na lâmina do ferro,
perfurando a minha mente,
nas mãos de um delinquente.
Meu gemido sussurra no berro
nos telefones de pau-de-arara;
choques e cusparadas na cara;
no ânus enfiam uma vassoura,
e pela garganta uma tesoura.
São os passageiros da agonia
por quem minha alma berra,
que ousaram sonhar um dia
com uma socialista-ideologia,
na terra dividida em igual fatia.
Minha alma vaga dilacera
no nevoeiro do mar negreiro,
nas entranhas da selva fera,
que testemunhou o horror
da besta de dente carniceiro.
Meu berro das torturas letais,
da suástica sádica seca a saliva,
na sede suada dos golpes fatais,
que no sabre sequestra até criança
e ainda manda ter fé e esperança.
Tem o berro ferido e calado,
que marca gente como boiada,
e ainda nos contam uma piada,
com enredo de dor existencial,
onde a vítima se torna animal.
Na base aliada do troca-troca,
cada rato cuida bem da sua loca,
fazendo da desgraça um negócio
e deixando o resto como esmola,
do tamanho de um pedaço de sola.
Sou aquele cabrito que berra,
da América do Sul até a África,
desde toda a matança trágica,
da peste do vírus que virou aço,
até os foguetes voando ao espaço.
Não quero ser mera quimera,
que só berra sem ser uma fera;
quero ser como ferro da terra,
que sai bruto e se torna metal,
para fazer sua história imortal.










