Quando ainda era menino e morava com meus pais na roça, falava e escrevia “errado” como os matutos sertanejos. Quando fui para a escola na cidade, todos colegas arreliavam de mim. Era motivo de piadas e bullying. Demorei muito para aprender o “certo”.
Foi no sertão profundo, fora da zona da mata e do litoral dos engenhos, que os primeiros colonizadores portugueses, a partir dos séculos XVI, XVII e XVIII, principalmente com as sesmarias, levaram a linguagem escrita e falada para os rincões do Nordeste.
Quem abre essa questão é o historiador especialista em cangaço, formado na visão da escola gilbertiana, Frederico Pernambucano de Melo, em sua obra “Guerreiros do Sol”, ao citar outros autores, como Luis Aguiar da Costa Pinto, Câmara Cascudo, Euclides da Cunha, dentre outros.
“No prefácio à segunda edição”, Gilberto de Melo Kujawski, destaca a fala de Pernambucano quando assinala que o nordestino não fala o português errado (como parece ao homem da cidade) e sim, o mais puro vernáculo do século XVI, contemporâneo de Gil Vicente e Camões.
“O sertanejo nascia, crescia e vivia limitado pelo mais severo isolamento, organizando o poder por sua conta e risco, longe dos centros oficiais de administração, polícia e justiça”.
No primeiro capítulo sobre o ciclo do gado, ou do couro, Frederico descreve a postura arcaica, religiosa medieval, messiânica, familiar, o conservadorismo político arraigado, bem como o seu precioso classicismo vocabular, confundido por estudiosos apressados com o que seria o falar errado.
Na verdade, conforme reforça o escritor, se está diante do “português do século XVI”, do falar clássico de Camões e Gil Vicente, segundo demonstraram as pesquisas de Mário Marroquim e Virgílio de Lemos.
Câmara Cascudo chega a usar o termo “vocabulário teimoso”, para acrescentar que o sertanejo assim condicionado manteve o idioma velho, rijo e sonoro dos antigos colonizadores. Cascudo conta uma história que se passou com ele nos anos 30, e que nem por ter sabor de piada o privou de passar vergonha.
“Há meses uma velha negra, ralhando com o neto glutão, informou-me que ele, começando a comer, não tinha PARANÇA. Confessou que ficou por muito tempo rindo da idosa. No entanto, ao voltar a Natal e, após ter consultado o seu velho dicionário de Morais, concluiu encabulado: Quem estava digno de risada era eu. PARANÇA é o ato de parar.
Em “Notas de Referências”, Frederico Pernambucano de Melo volta a citar Câmara Cascudo de que o sertanejo não fala errado. Fala diferente de nós apenas. Sua prosódia, construção gramatical e vocabulário não são atuais nem faltos de lógica.
Em sua visão, a rodovia, há poucos anos, conseguiu prender o sertanejo em massa ao litoral e sua linguagem está se modificando ao contato do nosso palavrear brasileiros diverso. Mesmo assim, ainda existem, vocábulos clássicos.
“O que nos faz sorrir é a nossa ignorância dos escritores portugueses de outrora. Em Luis Gomes perguntei ao prefeito Antônio Gonçalves se morava na vila, no que respondeu “tenho casa aqui, mas sempre ASSISTO na fazenda”.
O poeta de “Marília de Dirceu”, Tomás Antônio Gonzaga (1744-1807), um dos chefes da Inconfidência Mineira, assim enumerava suas posses românticas: “Tenho próprio casal e nele ASSISTO”.
Camões não usava ESTOU (penso), VENTURA (sorte), HOME (no sentido pronominal indefinido), CALIDADE, DESAGARDECIDO (desagradecido), ERARO (claro), DIXE (disse), ALEVANTAR (levantar), ARRECEIO, PRÓPIO (próprio), TREIÇÃO (traição).
Quando um sertanejo diz FILOSOMIA, em vez de fisionomia, nós achamos uma graça. Luis de Camões, o hiperplásico das nossas antologias escolares dá um exemplo: Que era DALTA geração/ Logo na FILOSOMIA…
Sá de Miranda escrevia ALUMEIA, TROMENTO, DEMUDADO, HOME: “De tal sono as deixam cheias/ Que não pode HOME erguer”. O sertanejo emprega ENTONCES, ASSOSSEGOU, EMPACHO (embaraço), DESPOIS, INTÉ (até), ANRIQUE por Henrique. Assim assinava o cardeal Rei Dom ANRIQUE. Não convém rotular de português-errado o linguajar do nosso sertanejo.
Interessante que BABULAGEM em nosso Nordeste corresponde ao nosso fake news inglesado, ou o que é notícia falsa, mentirosa.