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:: 23/set/2026 . 23:02

CÂMARA CRIA A LEI DOS FIOS

   A sessão de ontem (quarta-feira, dia 23/09) da Câmara Municipal de Vitória da Conquista foi repleta de atividades, como a entrada em vigor da Lei dos Fios que prevê multa de 30 mil reais para empresas que não renovarem cabos sem uso.

  Nas ruas da cidade é fácil observar, em pontos diferentes, postes que concentram uma grande quantidade de fios e cabos. Na maioria dos casos, são estruturas antigas e fiações que dificultam a identificação das empresas responsáveis.

  Foi sancionada pelo poder executivo a lei que regulamenta a instalação e a manutenção da infraestrutura de cabos suspensos em Conquista. A legislação foi resultado do projeto-de-lei número 64/2026, de autoria do vereador Ivan Cordeiro.

 A nova lei, que somente funcionará se houver fiscalização rígida por parte da Prefeitura Municipal e corre o risco de não ser cumprida como tantas outras, estabelece obrigações para concessionárias e empresas responsáveis por serviços de energia elétrica, telefonia, televisão a cabo, internet e outras atividades que utilizam a infraestrutura aérea.

  Também nesta quarta-feira foi realizada uma audiência pública sobre “Conquista Resiliente: Soluções Baseadas na Natureza e Adaptação Climática. A iniciativa partiu da vereadora Gabriela Garrido e propõe ampliar o debate sobre políticas públicas capazes de preparar o município para o impacto das mudanças climáticas, com foco em soluções baseadas, prevenção de riscos e participação social.

   Como em todas as partes do planeta e do Brasil em geral, Conquista já registra os efeitos do aquecimento global e começa a se preocupar em implantar políticas específicas de adaptação. Em março deste ano, o município chegou a decretar situação de emergência após período de 18 dias consecutivo de fortes chuvas que acumularam cerca de 286 milímetros.

   A sessão ordinária foi ainda marcada pela posse do vereador Alisson da Educação (Alisson Roberto Sales Sá), do partido União Brasil, e por uma série de debates sobre educação, saúde, infraestrutura, mobilidade urbana, abastecimento de água e demanda das comunidades rurais.

  Alisson assumiu a cadeira que estava ocupada por Diogo Azevedo e a Câmara o empossou após receber a comunicação oficial do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia sobre a decisão que manteve a perda do seu mandato.

   Na noite da última terça-feira (dia 22/09), a Câmara de Vereadores celebrou o Dia Municipal do Contador, instituído pela Lei Municipal número 2148/2017, de autoria do ex-vereador Valdemir Dias e comemorado nacionalmente em 22 de setembro.

  A data fez referência à criação do primeiro curso superior de Ciências Contábeis do Brasil, na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro.

NA LINGUAGEM DE GIL VICENTE E CAMÕES

  Quando ainda era menino e morava com meus pais na roça, falava e escrevia “errado” como os matutos sertanejos. Quando fui para a escola na cidade, todos colegas arreliavam de mim. Era motivo de piadas e bullying. Demorei muito para aprender o “certo”.

   Foi no sertão profundo, fora da zona da mata e do litoral dos engenhos, que os primeiros colonizadores portugueses, a partir dos séculos XVI, XVII e XVIII, principalmente com as sesmarias, levaram a linguagem escrita e falada para os rincões do Nordeste.

  Quem abre essa questão é o historiador especialista em cangaço, formado na visão da escola gilbertiana, Frederico Pernambucano de Melo, em sua obra “Guerreiros do Sol”, ao citar outros autores, como Luis Aguiar da Costa Pinto, Câmara Cascudo, Euclides da Cunha, dentre outros.

  “No prefácio à segunda edição”, Gilberto de Melo Kujawski, destaca a fala de Pernambucano quando assinala que o nordestino não fala o português errado (como parece ao homem da cidade) e sim, o mais puro vernáculo do século XVI, contemporâneo de Gil Vicente e Camões.

  “O sertanejo nascia, crescia e vivia limitado pelo mais severo isolamento, organizando o poder por sua conta e risco, longe dos centros oficiais de administração, polícia e justiça”.

  No primeiro capítulo sobre o ciclo do gado, ou do couro, Frederico descreve a postura arcaica, religiosa medieval, messiânica, familiar, o conservadorismo político arraigado, bem como o seu precioso classicismo vocabular, confundido por estudiosos apressados com o que seria o falar errado.

  Na verdade, conforme reforça o escritor, se está diante do “português do século XVI”, do falar clássico de Camões e Gil Vicente, segundo demonstraram as pesquisas de Mário Marroquim e Virgílio de Lemos.

  Câmara Cascudo chega a usar o termo “vocabulário teimoso”, para acrescentar que o sertanejo assim condicionado manteve o idioma velho, rijo e sonoro dos antigos colonizadores. Cascudo conta uma história que se passou com ele nos anos 30, e que nem por ter sabor de piada o privou de passar vergonha.

  “Há meses uma velha negra, ralhando com o neto glutão, informou-me que ele, começando a comer, não tinha PARANÇA. Confessou que ficou por muito tempo rindo da idosa. No entanto, ao voltar a Natal e, após ter consultado o seu velho dicionário de Morais, concluiu encabulado: Quem estava digno de risada era eu. PARANÇA é o ato de parar.

  Em “Notas de Referências”, Frederico Pernambucano de Melo volta a citar Câmara Cascudo de que o sertanejo não fala errado. Fala diferente de nós apenas. Sua prosódia, construção gramatical e vocabulário não são atuais nem faltos de lógica.

  Em sua visão, a rodovia, há poucos anos, conseguiu prender o sertanejo em massa ao litoral e sua linguagem está se modificando ao contato do nosso palavrear brasileiros diverso. Mesmo assim, ainda existem, vocábulos clássicos.

  “O que nos faz sorrir é a nossa ignorância dos escritores portugueses de outrora. Em Luis Gomes perguntei ao prefeito Antônio Gonçalves se morava na vila, no que respondeu “tenho casa aqui, mas sempre ASSISTO na fazenda”.

   O poeta de “Marília de Dirceu”, Tomás Antônio Gonzaga (1744-1807), um dos chefes da Inconfidência Mineira, assim enumerava suas posses românticas: “Tenho próprio casal e nele ASSISTO”.

  Camões não usava ESTOU (penso), VENTURA (sorte), HOME (no sentido pronominal indefinido), CALIDADE, DESAGARDECIDO (desagradecido), ERARO (claro), DIXE (disse), ALEVANTAR (levantar), ARRECEIO, PRÓPIO (próprio), TREIÇÃO (traição).

  Quando um sertanejo diz FILOSOMIA, em vez de fisionomia, nós achamos uma graça. Luis de Camões, o hiperplásico das nossas antologias escolares dá um exemplo: Que era DALTA geração/ Logo na FILOSOMIA…

 Sá de Miranda escrevia ALUMEIA, TROMENTO, DEMUDADO, HOME: “De tal sono as deixam cheias/ Que não pode HOME erguer”. O sertanejo emprega ENTONCES, ASSOSSEGOU, EMPACHO (embaraço), DESPOIS, INTÉ (até), ANRIQUE por Henrique. Assim assinava o cardeal Rei Dom ANRIQUE. Não convém rotular de português-errado o linguajar do nosso sertanejo.

   Interessante que BABULAGEM em nosso Nordeste corresponde ao nosso fake news inglesado, ou o que é notícia falsa, mentirosa.





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