Trabalhar para viver, ou viver para o trabalho? Nos tempos atuais ainda tem muita gente que só vive para o trabalho, com a ganancia de só juntar grana e, normalmente, essas pessoas são por demais sovinas ao ponto de fazer caso de um tostão, ou centavo.
A sovinice deveria ser mais um pecado capital que são sete, consolidados por teólogos da Igreja Católica como Evágrio Pôntico, o papa Gregório I e São Tomás de Aquino, mas é irmã da avareza, o apego exagerado ao dinheiro e aos bens materiais.
O sovino é soberbo, tem inveja dos outros, conserva a ira, mas não vive na luxúria; não é guloso e nem preguiçoso. Na maioria das vezes nem se alimenta direito para não ter que gastar e nada de luxo e viagens. Trabalha como condenado, anda maltrapilho, sujo e até passa fome. Evita tomar banho todo dia.
– Um pedacinho de carne para você e outro para mim, um tiquinho de feijão e uns caroços de arroz divididos – assim era Belizário para com a mulher, um cara que conheci lá no sertão, que tinha a fama de mão de vaca, um sovino de primeira, que só vivia para trabalhar como escravo; botar dinheiro de papel no colchão e cabaças de moedas na cumeeira da casa.
Todo dia ele olhava o varal da carne e reduzia o tamanho entre ele e a esposa, com pena de acabar. Toda vizinhança conhecia Belizário quando ele retornava da feira resmungando ter gastado muito com comida.
Se não vendesse, Belizário deixava o mamão ou outras frutas apodrecerem, mas não se atrevesse pedir que ele não dava a ninguém. Tinha uma chácara na fazendo e passava fogo de espingarda quem entrasse nela.
. Foi o cara mais sovina que já conheci na vida. Para guardar mais dinheiro, só tinha uma calça, uma camisa e uma cueca samba canção. Quando estavam muito desgastadas e fedendo, mandava a mulher lavar e ficava nu trancado no quarto esperando secar no sol.
O cara fazia a família comer numa cuia de cabaça e com as mãos para não comprar pratos e talheres. Nem copo tinha em sua casa e negava até dar água para alguém que passasse em sua porta. O bicho era miserável demais!
Além da sovinice, Belizário era severo com os três filhos homens que comiam o pão que o diabo amassou e trabalhavam sem nada ter. Um dia os meninos armaram um esquema e caíram no mundo levando o dinheiro dele. Ficou enlouquecido e botou a mulher para fora de casa.
Começou a juntar tudo de novo, mesmo vivendo sozinho como um cão molambento. Até ficou rico, mas nunca fez uma viagem e só frequentava a cidade em dia de feira para vender suas mercadorias. Andava num jumento para não ter que comprar um burro ou um cavalo.
Um dia ele se atracou com um cara que o jurou de morte por causa do troco de um tostão. Era tão ranzinza que ninguém queria mais saber dele, nem tampouco puxar conversa. Ficou tão isolado e rejeitado no lugarejo que resolveu vender tudo e sumir para outras bandas.
Belizário mão de vaca, ou sovino, como era conhecido nas redondezas, antes de ir embora e partir para longe, chegou a simular um assalto e até se feriu, espalhando a notícia de que roubaram todo seu dinheiro, talvez prevendo que alguém da família, por direito, fosse aparecer para pegar alguma coisa dele.
Nunca soube que fim levou Belizário e onde morreu. Dia desse estava conversando com minha irmã e demos boas gargalhadas dos seus atos de sovinices. Sua casquinhagem era fora de série. Era como se fosse um vivo-morto.
Mesmo nos dias atuais, ainda existem muitos Belizários por aí nesses grotões do Brasil. Quando conversava com minha irmã sobre esse caso, ela apontou para um Belizário de bermuda e chinelo, arrastando umas bugigangas num carrinho de mão.