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:: 2/nov/2026 . 23:22

LEMBRANÇAS E SAUDADES NO DIA COMEMORATIVO AOS FINADOS

   Por mais que saibamos que a vida é acompanhada da morte, desde quando nascemos, embora não gostemos de comentar sobre a dita cuja, sempre sentimos lembranças e saudades dos entes queridos que partiram.

  O Dia de Finados (02 de novembro) é de visitação dos cemitérios, de reflexão, depositar flores nos túmulos, rezas e preces seguindo nossas tradições culturais. Em outras partes do mundo, como no México, são de festejos, comemoração entre os que ficaram e homenagens de alegria aos que se foram.

  Assim é a vida e a morte, ambas femininas com suas delicadezas peculiares, cheias de amor e dor, duas peças da existência do ser mais misterioso e questionado pelos filósofos, antropólogos, religiosos, sociólogos e até pelos cientistas de plantão.

  Uns dizem que a vida é um milagre do Criador e a morte apenas uma passagem para outra dimensão, inclusive de reencarnação no conceito do espiritismo. As crenças e crendices são diversificadas em cada região. Existe até o ritual de depositar uma moeda na roupa do defunto para ele pagar ao barqueiro pela travessia na outra margem do rio.

  Etnias africanas nos ensinam que quando ela (a morte) chega, os espíritos dos ancestrais vão viver nas florestas e estão sempre por perto das suas tribos para desatar os nós dos seus descendentes. Tudo é fé como na canção do músico e compositor baiano Gilberto Gil que diz “Andar com fé eu vou que a fé não costuma falhar”…

  Outros levantam a interrogação de que a vida não tem sentido aqui na terra, se lá na frente nos espera a morte na figura de uma caveira com sua foice. Acho que o sentido e o valor da vida como passageira estão naquilo que se constrói de bem para que o outro construa por conta própria o seu sentido de viver.

  Quando se fala em morte, existia aquela cultura de se imprimir uma mensagem na lápide do falecido, a pedido dele em vida. Muitos ainda perguntam o que você colocaria em sua lápide? Eu diria para escrever a simples frase de que foi bom enquanto durou porque só o tempo é eterno.

  Como é de hábito em todos os anos, que não sei explicar, nesta tarde fui cumprir o meu rito de visitar os mortos; olhar as pessoas colocando flores nas sepulturas; vê-las acendendo velas; orando com contrição; e muitas almas derramando suas lágrimas.

  Estive lá no Cemitério Campo da Paz, da Prefeitura Municipal, observando o movimento e fiquei matutando que mesmo depois de mortos continuamos a ser vítimas das desigualdades sociais tão profundas neste país. Tudo é mais simples e pobre, inclusive aquelas covas abertas na espera daqueles que vão logo tombar.

Vi pessoas meio que perdidas procurando o número, quadra ou outra indicação onde estava a sepultura do seu amigo, amiga ou parente porque a administração não dispunha de informação precisa do local.

  Como todos anos costumo visitar um cemitério, venho notando a queda pela procura de flores, menos floristas nos portões, e a redução no movimento de visitantes, o que significa que até este hábito cultural vem sendo desprezado com o progresso e a tecnologia. São novos tempos, mas nem sei se de decadência ou evolução.

   Do alto apreciei a pirâmide do Museu de Kard e logo me veio à mente as pirâmides e os túmulos egípcios dos faraós que eram mumificados e enterrados com toda pompa de reis, levando consigo seus tesouros e pertences preciosos. Acreditavam na vida eterna quando passassem para o outro lado.

  Do lado de cá material, lembrei do poema “Morte e Vida Severina”, do grande poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto que fala do retirante que foge da seca em busca de uma vida melhor em Recife, mas na capital se depara também com a miséria. Como última recompensa, depois de tanto sofrer, é sepultado numa cova rasa.

   Diante de tanta pobreza, milhares de nordestinos, no passado recente, só tinham uma rede para enterrar seus corpos. Cangaceiros e soldados das volantes quando em combate ficaram estirados aos chão estorricado da caatinga agreste expostos aos urubus, animais selvagens e aves de rapina.

  Os cemitérios particulares são melhores tratados, os visitantes são mais chiques e chegam em seus carrões, sem falar nos túmulos com suas carneiras de arte, com anjos e esculturas de granitos e mármores de qualidade. Os parentes e amigos dos falecidos são recepcionados com certas regalias. Nem depois de mortos somos iguais.





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