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:: 2/set/2026 . 22:17

O CANGAÇO, A AÇÃO DA POLÍCIA E OS CRIMES ORGANIZADOS NO BRASIL

  O modus operandi é praticamente o mesmo. Até parece que os comandos dos crimes organizados, as milícias e os narcotraficantes dos centros urbanos do Brasil de hoje aprenderam na mesma cartilha do cangaço nordestino de há cem anos, profissionalizado por Lampião.

  Dentro desse contexto, a polícia dos tempos atuais (não atingindo todos) não difere muito das tropas que combatiam o cangaço em termos de brutalidades, matanças e violências. Os sertanejos tinham mais medo daqueles soldados do que dos cangaceiros.

  O conceito hoje do cidadão brasileiro entre bandido e polícia, mudou pouca coisa. Os pobres, os negros e excluídos em geral continuam sendo massacrados em seus direitos, e a Justiça normalmente está do lado do rico e do poderoso. Essas categorias desassistidas ficam entre a cruz e a espada.

   As origens dessa violência e barbárie também se repetem. Nos séculos passados, até meados dos anos 1900, o território do Nordeste viveu completamente isolado do Estado, sob o comando dos coronéis, dos grandes proprietários de terras, dos chefes políticos corruptos. Reinavam as injustiças sociais.

  Nos últimos cem anos ou mais, os morros foram sendo invadidos pela pobreza miserável, inclusive de retirantes nordestinos, sem nenhum amparo e presença do Estado. O cangaço nordestino se tornou num cangaço urbano. Os bandoleiros cangaceiros de ontem são os bandidos criminosos de hoje que deixam a população entre a cruz e a espada, como vivia o sofrido nordestino.

   Os personagens só trocaram de pastos; os governantes por anos cruzaram os braços; o banditismo mudou de lugar; parte da polícia faz papel de coiteiros; políticos se envolvem com as máfias; a injustiça social pouco mudou; os lampiões comandam os crimes organizados; o cidadão é obrigado a pagar suas taxas de proteção; delator é morto barbaramente; e os subgrupos seguem as ordens dos chefões.

   O nordestino daqueles tempos, por mais de 50 anos, sofria muito mais nas mãos dos bandoleiros e policiais do que atualmente nas favelas. Viviam acossados por todos os lados e ainda tinham que enfrentar as secas inclementes que mataram milhares de pessoas de fome e doenças.

As mulheres eram as mais violentadas, discriminadas, presas pelo pai carrasco, estupradas ainda meninas de onze e doze anos e centenas obrigadas a seguir o cangaço. Estudar as questões políticas e sociais do Nordeste é se aprofundar no martírio daquelas mulheres, muitas ferradas com ferro em brasa, arrastadas pelos cabelos caatinga a dentro e mortas a pauladas, pior que animais selvagens.

    Nos anos 30, Lampião dividiu seu bando em subgrupos (Corisco, Virginio, Zé Baiano, Labareda, Zé Sereno e cada um dominava uma região, como acontece hoje nas grandes cidades. As arrecadações das extorsões contra os sertanejos, os saques, os sequestros, os pedágios de proteção eram divididos, sendo que a maior parte ficava com Lampião. Os métodos urbanos pouco diferenciavam dos de hoje.

Tudo era bem administrado e organizado. Para os denunciantes e delatores, a morte era certa e bárbara. Cabeças eram decapitadas e degoladas. Os comandos de hoje também têm seus códigos e “éticas de conduta”. Aqueles que cometem desatinos ou delatam, são queimados em pneus, esquartejados e até enterrados vivos.

 Coincidência, ou não, no meado dos anos 30 para e final da década, Lampião e seus bandos se tornaram personagens internacionais, inclusive cobiçados pelo comunismo da União Soviética para fazerem parte da Intentona Comunista de 1935, chefiada por Carlos Prestes.

   Eram até vistos como guerrilheiros revolucionários do povo camponês. Na era Vargas, considerados como “extremistas” e terroristas, como Trump classificou os comandos brasileiros. O cangaço passou a ser uma questão de ameaça à soberania nacional.

   As empresas alemãs Bayer e Zeiss (Alba Filme-Fortaleza) financiaram as filmagens de um documentário sobre suas ações criminosas, feitas pelo sírio-libanês Benjamin Abrahão (1936). Contava até com a simpatia dos nazistas de Adolf Hitler. O Governo Getúlio Vargas estava mais preocupado em combater os comunistas do que as atrocidades dos cangaceiros.

  Quanto ao fornecimento de armas e munições para os cangaceiros, a prática era quase semelhante. Além dos coronéis, fazendeiros, políticos e comerciantes que eram protegidos, o próprio exército e oficiais da polícia abasteciam Lampião com modernos equipamentos de última geração.

   Para disfarçar, os armamentos, muitos contrabandeados, eram transportados em cargas de farinha e outras mercadorias que iam para as feiras. Até meados dos anos 30, os cangaceiros tinham armas sofisticadas fabricadas na Alemanha, na Bélgica e Estados Unidos, enquanto as volantes, chamadas de “macacos” usavam velhos trabucos do início do século XX.

  Com sua estratégia militar, sua inteligência, astúcia, esperteza e como bom político nos relacionamentos com autoridades municipais e estatais, exemplo do compadrio com o governador de Sergipe, Eronides de Carvalho, eleito em 1935, Lampião seria hoje o chefe mais famoso de qualquer cartel ou organização criminosa. Naquela época, ele já era reconhecido internacionalmente como tal, como o bandoleiro mais famoso da América Latina.

 





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