Existem coisas na vida em que a gente já fala e faz sem sentir. Os atos caseiros são bons exemplos, como acender uma luz no quintal em pleno dia. Na linguagem, existem os chamados bordões que se tornaram comuns e se repetem automaticamente.
– “E com muita alegria” que abro esta solenidade de inauguração. “É como muita alegria” que assumo a presidência dessa instituição. “É com muita alegria que entrego esta obra, e por aí vai com esse rosário de alegria, muitas expressas de maneira demagógica, principalmente entre políticos.
“Pego nesta pena para lhe dar notícias”… Antigamente iniciava-se uma carta, que não existe mais, dessa maneira. Os causos e as estórias sempre começavam com “era uma vez”…
“Feliz Natal e Boas Festas” são os bordões mais ouvidos em final de ano. Durante o ano, quando encontramos alguém, dizemos logo “e aí, beleza, tudo bem? Para concorda com o outro vem sempre aquele “pois é. Para afastar algo ruim, “Deus que o livre, ou credo”.
Numa situação chata, difícil de mudar, vem logo o “faz parte”. Para perguntar sobre algo, usamos o “cadê”? Algumas frases saíram da televisão e do rádio, como “não é assim uma Brastempo”. Tem também aquela do “jeitinho brasileiro”.
Difícil não encontrar alguém que não tenha um alcaguete na fala e até em seus discursos. Conheço muitos que volta e meia não largam o “tá”, o “né”, “pode ser”, “sabe como é”, e nem percebem. Os “amigos” ficam com receio de corrigir.
Acho engraçado e até possessivo essa frase de “meu povo” “minha gente” que saem muito da boca dos líderes e dos políticos, principalmente, como se fossem donos daquelas vidas. Muitos são oportunistas e aproveitadores de ocasiões.
Por falar nisso, a época que se ouve mais bordões demagógicos e falsos é no período das eleições que acontecem de dois em dois anos. A propaganda eleitoral tem de montão, de “bater de pau”, para se escolher entre os mais mentirosos, como as promessas impossíveis de serem cumpridas. A palavra povo é a mais citada e abusada indevidamente.
“Vamos fazer justiça, doa em quem doer”, “ninguém está acima da lei”, “todos são iguais perante a lei”. “tudo será investigado” e o “momento carece serenidade”. São respostas que mais se escuta de “autoridades” quando subordinados ou até poderosos cometem malfeitos, atos de violência, crimes e corrupções.
Depois de certo tempo, quando baixa a poeira, tudo é esquecido e os processos são arquivados ou como se fala no popular engavetados para o bem geral de todos. Dizem que “ o brasileiro não tem memória”. Este é outro bordão. Não tem é “vergonha na cara”
Tive uma professora de música que tinha o hábito de sempre usar o termo “que maravilha”, isto quando se tratava de coisa boa. Certo dia faltou um colega e ela indagou o motivo da ausência. Um aluno lá no fundo da sala respondeu que ele teria ido ao enterro do pai. Imediatamente, sem pensar, ela tascou um “que maravilha”! Uns ficaram pasmos e outros caíram na gargalhada.
Tem gente que é metódica e quer que tudo esteja em seu devido lugar. Quando alguém toca em alguma coisa, a pessoa percebe que alguém esteve ali e deu uma mexida, mesmo que a diferença seja mínima possível.
Não sou psicólogo, mas creio que esta coisa de repetição, seja através de palavras ou gestos, entranha no subconsciente e uma luz fica sempre piscando, quase impossível de se apagar da memória. Tem uns que não conseguem falar gesticulando exageradamente com as mãos, ao ponto de dar uma gastura em quem está ouvindo.