:: 5/set/2026 . 0:54
UM NORDESTE SANGRENTO E ARCAICO
Quanto mais me aprofundo nas questões do Nordeste, principalmente entre os séculos XVII até meados do XX, fico mais chocado com as barbaridades praticadas contra os sertanejos, uma brutalidade originária desde os tempos coloniais, fruto do completo abandono da região agreste catingueira.
Sob o domínio das sesmarias, do latifúndio dos poderosos, dos coronéis, dos chefes políticos, do cangaço a partir do final do século XIX, das tropas policiais, das brigas entre famílias e da ausência de uma justiça social, além das grandes secas, tivemos o massacre de milhares de índios e pobres num Nordeste sangrento onde tudo era resolvido no punhal e na bala.
Foram mais de 300 anos de isolamento e de crueldades, tempo mais que suficiente para que a alma do nordestino se tornasse bruta, de crosta dura, empedernida e seca como bem descreve o escritor Graciliano Ramos em seus romances. Com seus textos diretos e objetivos, sem rodeios, o alagoano penetrou no profundo psicológico-social desse povo sofrido.
Nessa história toda, incluindo os retirantes que foram ser escravos de patrões em terras diferentes do Sul, as mulheres, principalmente as meninas, a partir de 11 e 12 anos, foram as maiores vítimas das barbáries dos soldados e dos bandoleiros cangaceiros.
Muitas foram obrigadas desde cedo a entrarem no cangaço, estupradas, mortas a pauladas e de parto, a tiros e, mesmo grávidas, eram arrastadas pelos cabelos dentro das caatingas espinhentas. Dadá, mulher de Corisco, Lídia de Zé Baiano, Sila (11 anos) de Zé Sereno, Neném de Luis Pedro, Inacinha de Gato, Durvinha de Virginio, Rosinha, entre tantas outras, viveram tragédias brutais.
Sobre essas mulheres submissas que eram surradas pelos pais e depois violentadas pelos cangaceiros, a escritora Adriana Negreiros, em sua obra “Maria Bonita- sexo, violência e mulheres no cangaço” faz relatos chocantes de crimes hediondos e bárbaros.
“Uma história macabra correria o sertão após a morte da mulher de Luis Pedro, a Neném. Vendo-se sozinhos com Neném morta, os soldados teriam se revezado na profanação do seu corpo. Depois de saciados, com galhofas, libertariam o cadáver para o deleite de seus cachorros no cio”.
Essas práticas ocorriam de ambos os lados, tanto por parte dos cangaceiros como das volantes, conhecidas como “macacos”. Cabeças eram cortadas ou degoladas quando nordestinos eram tombados em combates. Os fatos se tornaram comuns passando a ser, ao longo dos anos, uma cultura do Nordeste.
Mulheres, inclusive idosas, eram selvagemente estupradas mesmo depois de mortas. Corpos eram esquartejados por vingança. Lampião dizia que matar era uma arte e tinha que proceder com toda violência para ser respeitado pelo povo.
UM PROGRAMA ENGRAÇADO E CHATO
De dois em dois anos as redes de televisão e rádio do Brasil são obrigadas a exibir por mais de um mês um programa engraçado e chato de se ver. Este, todo mundo está careca de saber qual é. A grande maioria assisti e até vibra com seus atores e atrizes preferidos.
– Oh, como um programa humorístico pode ser engraçado e, ao mesmo tempo, chato?
– Pois é, meu amigo, este é inédito! Engraçado porque é carregado de mentiras, promessas impossíveis de serem realizadas; não existe um projeto delineado e planejado no papel; não tem roteiro escrito; “quem tem boca diz o que quer”; e é feito na base do improviso, o que serve para testar a “capacidade” cognitiva do artista.
É chato porque é sempre repetido e praticamente se ouve as mesmas coisas dos programas anteriores. A outra parte chata é que irrita o ouvinte ou telespectador quando entra o bate-boca onde os atores tentam ganhar na base do grito. Todos querem falar ao mesmo tempo.
Dizem por aí que tem regras, normas e leis estabelecidas por uma Mesa Julgadora, mas é apenas um faz de conta. Vez ou outra corta-se alguém que solta um palavrão ou comete algo indecente, isto para dar uma desacelerada na turma.
Quando o cara é repreendido, paga uma multinha; recorre e até alega que está sendo utilizado bode expiatório, mas o programa prossegue. Coisa é no final quando os participantes botam para quebrar!
É muita gente engraçada que sai dos quatros cantos do Brasil porque os prêmios são valiosos e o artista vencedor não necessita trabalhar muito, sem contar os privilégios e as mordomias, como de só atuar três ou no máximo quatro dias da semana.
A corrida é acirrada e o candidato ao teste se “vira nos trinta”, cada um com seu potencial artístico e criatividade. Uns contam piadas, causos do passado, anedotas e estórias da carochinha. Outros fazem malabarismos, caretas e expressões esquisitas.
O comum é que todos comem qualquer coisa que se oferecer, até alimento estragado, insetos, carne de animais exóticos e entram em qualquer lugar, seja cavernoso ou não. Essa é a parte mais engraçada do programa.
Ah, ia me esquecendo de dizer que tem o dia da votação para ver quem serão os aprovados no teste! Existe uma urna e cada um, entre os milhões de brasileiros, vota naquele que o votante achou mais “capacitado” durante a empreitada do engraçado chato.
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