Quanto mais me aprofundo nas questões do Nordeste, principalmente entre os séculos XVII até meados do XX, fico mais chocado com as barbaridades praticadas contra os sertanejos, uma brutalidade originária desde os tempos coloniais, fruto do completo abandono da região agreste catingueira.
Sob o domínio das sesmarias, do latifúndio dos poderosos, dos coronéis, dos chefes políticos, do cangaço a partir do final do século XIX, das tropas policiais, das brigas entre famílias e da ausência de uma justiça social, além das grandes secas, tivemos o massacre de milhares de índios e pobres num Nordeste sangrento onde tudo era resolvido no punhal e na bala.
Foram mais de 300 anos de isolamento e de crueldades, tempo mais que suficiente para que a alma do nordestino se tornasse bruta, de crosta dura, empedernida e seca como bem descreve o escritor Graciliano Ramos em seus romances. Com seus textos diretos e objetivos, sem rodeios, o alagoano penetrou no profundo psicológico-social desse povo sofrido.
Nessa história toda, incluindo os retirantes que foram ser escravos de patrões em terras diferentes do Sul, as mulheres, principalmente as meninas, a partir de 11 e 12 anos, foram as maiores vítimas das barbáries dos soldados e dos bandoleiros cangaceiros.
Muitas foram obrigadas desde cedo a entrarem no cangaço, estupradas, mortas a pauladas e de parto, a tiros e, mesmo grávidas, eram arrastadas pelos cabelos dentro das caatingas espinhentas. Dadá, mulher de Corisco, Lídia de Zé Baiano, Sila (11 anos) de Zé Sereno, Neném de Luis Pedro, Inacinha de Gato, Durvinha de Virginio, Rosinha, entre tantas outras, viveram tragédias brutais.
Sobre essas mulheres submissas que eram surradas pelos pais e depois violentadas pelos cangaceiros, a escritora Adriana Negreiros, em sua obra “Maria Bonita- sexo, violência e mulheres no cangaço” faz relatos chocantes de crimes hediondos e bárbaros.
“Uma história macabra correria o sertão após a morte da mulher de Luis Pedro, a Neném. Vendo-se sozinhos com Neném morta, os soldados teriam se revezado na profanação do seu corpo. Depois de saciados, com galhofas, libertariam o cadáver para o deleite de seus cachorros no cio”.
Essas práticas ocorriam de ambos os lados, tanto por parte dos cangaceiros como das volantes, conhecidas como “macacos”. Cabeças eram cortadas ou degoladas quando nordestinos eram tombados em combates. Os fatos se tornaram comuns passando a ser, ao longo dos anos, uma cultura do Nordeste.
Mulheres, inclusive idosas, eram selvagemente estupradas mesmo depois de mortas. Corpos eram esquartejados por vingança. Lampião dizia que matar era uma arte e tinha que proceder com toda violência para ser respeitado pelo povo.