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:: 11/set/2026 . 22:35

OS CANGACEIROS NA VISÃO DA ESQUERDA

  A miséria e as injustiças sociais no Nordeste, a vingança entre famílias, o poder dos latifundiários, o domínio dos chefes políticos e as secas foram os principais fatores que deram origem à violência e ao cangaço. Afinal, o homem é produto do meio.

O cangaço não tinha ideologia política definida de tendência esquerdista comunista. Seus membros eram desprovidos dessa noção revolucionária. Os bandos, especialmente os chefiados por Lampião, eram exímios guerrilheiros das caatingas, mas não revolucionários, com propósito de derrubar o poder constituído.

   Antônio Silvino, o “Rifle de Ouro” (1875-1944) foi um bandoleiro sanguinário que entrou no cangaço movido pela morte do pai e as brigas entre proprietários de terras; Jesuíno Brilhante (1844-1879), o primeiro cangaceiro, tido como “romântico” (Robin Hood do Sertão), roubava dos coronéis para ajudar os famintos da seca; Sinhô Pereira (1896-1979), de família rica e nobre,  ingressou por vingança na briga entre os Pereira e Carvalho; e Lampião (1898-1938) foi instigado a entrar no cangaço pela perseguição do fazendeiro José Saturnino à sua família.

  Nenhum, aparentemente, possuía motivos ideológicos políticos no sentido de lutar para derrubar os poderosos e protestar contra a opressão imposta aos sertanejos, abandonados pela ausência dos governantes, embora suas ações revelassem formas de revolta e rebeldia contra estes senhores. Deles o banditismo tirou proveito para si, cada um usando suas razões individuais para fazer fortunas.

  No entanto, a esquerda daquela época, tendo como expoente Luis Carlos Prestes, e ainda muitos nos tempos atuais, via e vê o bando de Lampião como guerrilheiros revolucionários enfrentando o Governo em defesa dos sofridos camponeses.

Talvez por desconhecimento ou estratégia para reforçar suas tropas, os revolucionários tentaram incorporar os cangaceiros às suas forças. Um grupo isolado chegou a formar um bando, mas fracassou. Dentro do contexto do Nordeste daquela época, messiânico e religioso, era difícil introduzir uma doutrina revolucionária socialista.  Padre Cícero, o senhor do sertão, era inimigo número um de Prestes que poderia ter sucesso se os cangaceiros o seguissem.

  Em 1926, durante sua passagem pelo Nordeste, a Coluna Prestes “paquerou” o “rei do cangaço” várias vezes com seus bilhetes para que ele se engajasse às suas causas, considerando que Lampião também era um guerrilheiro revolucionário e podia derrubar o poder.

Até pelo seu baixo nível de instrução, o bandoleiro não tinha ideia dessa essência ideológica política de Carlos Prestes. Ele foi sendo empurrado pela violência nordestina. Tornou-se cangaceiro cruel não para tirar a pobreza da miséria em que vivia. Não tinha ideais socialistas e usou toda sua força para extorquir políticos e grandes proprietários, inclusive do comércio.

Antônio Silvino, por exemplo, foi o único cangaceiro a atacar os senhores de engenho do litoral nordestino. Todos eles fizeram suas fortunas que depois caíram nas mãos dos soldados e oficiais corruptos. Repartiam migalhas com os pobres para obter deles a admiração como heróis.

Lampião e seu bando, influenciados pelo deputado Floro Bartolomeu e o Padre Cícero, o “Padim Ciço” , inimigos ferrenhos dos comunistas, entraram nos “Batalhões Patrióticos” para combater a Coluna, em troca do título fajuto de “capitão” e dos armamentos.

  Quando a Coluna Prestes se debandou para a Bolívia e Prestes fugiu para Moscou, na Rússia, ele passou a ideia aos bolchevistas de que Lampião e seus cangaceiros poderiam ajudar a fazer a revolução no Brasil pela força que exerciam na região e esta ideia perdurou até a Intentona Comunista de 1935.

  As cabeças decapitadas de Lampião, Maria Bonita e muitos de seus cabras, mortos no combate de Angico, em 1938, ficaram por um tempo em Maceió e depois foram transferidas para o Instituto Nina Rodrigues, em Salvador.

  Em 1959, conforme assinala a jornalista e escritora Adriana Negreiros em sua obra “Maria Bonita”, os jornais dos Diários Associados promoveram uma campanha pelo sepultamento das cabeças, somente ocorrido em 1969.

  Essa campanha contou com figuras ilustres da esquerda, a exemplo do deputado estadual Francisco Julião, de Pernambuco, líder das Ligas Camponesas, movimento em prol da reforma agrária que nunca aconteceu no Brasil.

 Chocado com o que vira em Salvador, em sua visita ao Museu Antropológico Estácio Lima, o deputado Julião defendeu o enterro das cabeças, sobretudo pelo respeito que lhe inspirava a figura histórica de Lampião, para ele, o primeiro homem do Nordeste, oprimido pela injustiça dos poderosos a batalhar contra o latifúndio e a arbitrariedade. Em sua opinião, o cangaceiro chefe foi símbolo de resistência política.

  Interessante que o grande historiador inglês (nasceu em Alexandria, no Egito e viveu na Áustria e Alemanha) Eric Hobsbawm (1917-2012), marxista convicto, em seus escritos, fazia esta mesma leitura em relação a Lampião e outros bandoleiros famosos que agiram em outros países. Hobsbawm os incluía na lista de revolucionários que se levantaram e protestaram contra as injustiças do sistema capitalista.

O BOI QUE PAROU UMA AVENIDA

(Chico Ribeiro Neto)
Um boi na pista causou um engarrafamento de três horas na Avenida 23 de Maio (região central de São Paulo) até ser laçado por um sargento do Corpo de Bombeiros.
O curioso é que, mesmo depois de amarrado, o boi continuou provocando lentidão no trânsito, porque os motoristas passavam devagar para ver o animal capturado.
Uma veterinária foi entrevistada pela Folha de S. Paulo e explicou que “ainda é uma incógnita o trajeto que o boi fez para chegar à avenida”. Engraçado foi o mapinha feito pela Editoria de Arte do jornal, mostrando “as áreas afetadas pelo boi”, citando as vias que tiveram tráfego lento.
O boi mexeu com o centro de São Paulo e chamou a atenção de todo mundo. Muitos, ao verem o engarrafamento que durou das 7 às 10 da manhã, se perguntaram o que era: greve de ônibus? Passeata dos bancários? Algum novo jacaré que veio andando lá do Tietê?
A pergunta da veterinária me deixa matutando sobre de onde teria vindo aquele boi. Será que era o “boi voador” da música de Chico Buarque? “Manda prender esse boi/seja esse boi o que for”.
Os animais surpreendem com suas aparições inesperadas. O gato que desce do muro num salto, os cachorros que resolvem “cruzar” na frente do convento, a galinha que entra pela janela da casa, o passarinho que faz cocô na sua cabeça, o boi que aparece no meio da avenida e o chipanzé que fugiu do caminhão de um circo e pulou de uma vez no capô de um carro.
Estas aparições tiram a gente do sério, é a natureza interferindo na fria rotina dos homens, a nos sacudir para o inesperado da vida.
“Uma flor nasceu na rua”, diz Drummond em seu belíssimo poema lembrando como passa “o rio de aço do tráfego”.
De vez em quando, surge uma novidade,  um animal ou uma flor, para bagunçar o coreto, engarrafar uma avenida e arrancar olhares estupefatos.
Naquele dia, centenas de paulistas chegaram ao trabalho com uma novidade pra contar. Se demora um pouco mais, o boi ganharia nome, camisa do Corinthians e poderia até ser perseguido violentamente por quem nunca mais viu um quilo de carne. Toureiro era o que não faltava para essa “farra do boi”.
O boi que apareceu na Avenida 23 de Maio, na semana passada, tinha uns quatro anos, pesava cerca de 200 quilos e,  segundo a veterinária, estava “passando bem”. Certamente um pouco estressado de ver tanto carro e pouco mato.
O animal foi recolhido ao Centro de Zoonoses da prefeitura. O dono do boi tinha cinco dias para se apresentar e retirá-lo. Caso não aparecesse, o boi seria leiloado. A avenida que foi pasto por três horas retornou à sua vidinha de trânsito.
(Crônica publicada no jornal A Tarde em 2/10/1991).

A UNIVERSIDADE É NOSSA

  Não sei se é coisa só da minha cabeça, uma opinião isolada, mas entendo que a Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia-Uesb, criada por decreto em 1980, a partir do curso de Formação de Professores, precisa interagir mais com a sociedade conquistense. A vejo como um corpo acadêmico fechado de pensadores que discutem teorias e teses entre si. Lembro que quando aqui cheguei, em 1991, ir à Uesb era como fazer uma pequena viagem dentro de uma capoeira de chão batido. Tudo isso deixou de existir com a expansão da Avenida Olívia Flores e a instalação de instituições e empresas, conectando a Uesb à cidade em termos físicos. No entanto, a distância do conhecimento e do saber não me parece ter mudado. Sei que a Universidade realiza muitos projetos de extensão e outras atividades no campo econômico, cultural, social e político, mas existe uma sensação de que a comunidade não entra como participe e pouco usufrui de seus programas. Em seu Colegiado ou Conselho não poderia caber representações da sociedade? Como a Universidade é nossa, porque é paga pelo contribuinte, os membros dessa sociedade não deveriam também ter o direito em algumas decisões internas, como na votação da reitoria? Em Vitória da Conquista, infelizmente, só existem dois museus, o Regional, na Praça Tancredo Neves, e o Padre Palmeiras, na Praça Sá Nunes, administrados pela Uesb e poucos eventos são realizados naquelas unidades. Sinto que existem poucos projetos de desenvolvimento do município capitaneados pela instituição de ensino. Isto é falha do poder público, uma questão política que deixa de realizar convênios? É a sociedade que tem que buscar a Uesb, ir até ela, ou vice-versa? São questionamentos que precisam ser esclarecidos, mas Conquista poderia ser mais beneficiada pela Uesb no sentido de melhorias da sua infraestrutura, principalmente com projetos direcionados aos bairros mais carentes das periferias.  A impressão é que a Uesb não faz parte da cidade. É um debate que precisa ser provocado. Sabemos que dentro da Uesb existem correntes políticas que talvez impeçam um melhor relacionamento com a sociedade.





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