:: 18/set/2026 . 11:18
A OUTRA FACE DE LAMPIÃO
“LAMPIÃO, SEU TEMPO E SEU REINADO”
– Cheguei com fome, nudez e dinheiro
Foi assim que Lampião disse ao pisar em terras baianas por volta de agosto/setembro de 1928 ao atravessar o São Francisco, o “Velho Chico”, vindo corrido de Pernambuco pela persiga das tropas e depois de uma derrota em Mossoró, em 1927.
Era um novo mundo para ele e entrou por aquelas bandas de Santo Antônio de Glória. Como descreve o escritor Frederico Bezerra Maciel, em sua obra “Lampião, Seu Tempo e Seu Reinado”, o “rei do cangaço” tratou logo de enterrar seu tesouro em saco de couro na Serra do Tonã.
Depois seguiu até a fazenda Aroeira, em Jeremoabo, do velho amigo coronel Saturnino Nilo onde se refez e recebeu alguns cabras, dentre eles o Moreno. O fazendeiro tinha salvo conduta para tanger suas boiadas até Rio Branco, hoje Arcoverde, em Pernambuco.
Nilo recomendou que ele procurasse o coronel João Sá, de Jeremoabo, o coronel João Maria de Carvalho, de Serra Preta e o poderoso Petronildo Alcântara Reis, dono de 33 fazendas, que residia em Glória.
Com aparência de que pretendia se regenerar e deixar o cangaço, como ocorreu em 1926, em Juazeiro do Norte, no encontro com seu Padim Ciço, Lampião procurou o vigário Emílio Moura Ferreira.
Em seguida foi apresentado ao coronel Petronildo, o Petro, com quem conversou longamente, falou da sua vida e até fecharam negócios em sociedade. Passou uma ruma de dinheiro e lá na frente o coronel lhe deu o bote.
Lampião ficou satisfeito e até matutou em ser um fazendeiro negociante. O coronel lhe ofereceu a fazenda Três Barras, perto de Patamuté, em Curaçá, para pouso onde ficou por cerca de quatro meses numa vida boa de rei.
Com suas habilidades de convencimento, conquistou quase todos habitantes das caatingas, como fazendeiros, vaqueiros e lavradores. Com fala mansa, bondade política e sagaz, colocou em prática sua estratégia de guerra de guerrilha.
Nesse período, Lampião passou a ser chamado de “O Homem”, por praticar caridade para os desafortunados, resolver litígios de terras, conflitos pessoais, problemas de saúde, partos, mordidas de cobras, aplicando seus conhecimentos de medicina rústica à base de raízes.
Como bom vaqueiro que tinha sido em sua juventude, era sempre procurado para curar bicheiras, mal triste e até extrair bezerro entalado. De tão conselheiro, o padre chegou a dizer que era melhor que muitos missionários. Resolvia todos problemas das redondezas fazendo até o papel de juiz.
Pelas suas ações e impondo moralidade às famílias, prendendo ladrões de bode, agindo com repressões aos trajes femininos, pagando fiados nos botecos e armazéns e solucionando casos de desonra com casamentos, Lampião passou a ser visto como um messiânico do tipo Antônio Conselheiro.
Seu cabra Zé Sereno contou que um rapaz se queixou a Lampião que o dono da fazenda não queria pagar os homens do eito. Ele foi até lá, reuniu os trabalhadores e obrigou o fazendeiro a quitar as dívidas, recomendando que ninguém fosse mandado embora.
Com o tempo, tornou-se religioso fervoroso. Todas as noites, antes das festanças que ele mesmo promovia, com danças, xaxados, baiões, valsas, quadrilhas e polcas, realizava rezas e novenas. Não perdia sentinelas de defunto. Mandava todo mundo confiar em Deus.
Todos passaram a dizer que “O Homem” era justiceiro e o canonizaram como um santo. O santo Lampião era “O Homem” devoto e querido dos sertanejos da região. Não era mais visto como aquele sanguinário.
Enquanto isso, com sua eficiência e perfeita organização, Lampião montou sua rede de coiteiros. Ele sabia que essa situação não ia resistir por muito tempo, pois logo soube que seus inimigos estavam em seu encalço.
Não tardou, a força de Manuel Neto, o nazareno de Pernambuco, conhecido como “Cachorro Azedo”, entrou na Bahia cometendo desatinos. Matou um homem só porque deu água a Lampião. Ao saber do que vinha acontecendo, tratou de se preparar para o pior.
Como estava acabando seu sossego, Lampião montou sua tropa, recrutando cabras fora da lei. A fazenda Três Barras passou a ser local de treinamento, o seu quartel-general. Chegou a reunir cem homens, inclusive Corisco e os irmãos Engracia.
Os fazendeiros começaram a desconfiar das suas atitudes, mas participavam das suas festanças e até davam dinheiro. A gota d´água para Lampião se desembestar pelo sertão baiano e cair no cangaço foi a traição do coronel Petro que tentou lhe envenenar e ficar com parte da sua sociedade.
O coronel instruiu uma viúva de suas fazendas a envenenar Lampião, só que como sempre desconfiado, descobriu a trama quando meteu sua colher de prata na comida. Tocou fogo na casa e jogou a mulher dentro. Soube que tudo foi a mando do coronel.
A partir dali, depois da fuga do coronel para Pernambuco, Lampião destruiu a maioria de suas fazendas, mantando todos animais e incendiando casas, currais e outros equipamentos. Deixou o coronel na desgraça.
Lampião voltou ainda mais cruel, derrotou as forças de Manuel Neto e caiu na caatinga baiana percorrendo todas regiões do sisal, de Senhor do Bonfim, Juazeiro, Curaçá, Campo Formoso e boa parte da Chapada Diamantina, como Morro do Chapéu, Lençóis, Andaraí, Mucugê, Piatã e outros municípios. Horácio de Matos, em Lençóis, e Douca Medrado, em Mucugê, eram seus amigos. Saqueou povoados, fazendas e cidades, matando quem atravessasse em sua frente.
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